PONTO DE VISTA: IKKI

— Muito bem. Estou esperando. – Milo começou a falar, com uma voz séria e demandante.

— Esperando o quê? – respondi cínico e com o rosto altivo. Eu não iria ficar ali ouvindo o que quer que aquele roteirista quisesse me dizer de cabeça abaixada.

— Não se faça de desentendido, Ikky. O que diabos você pensa que está fazendo com o Hyoga?

— E isso é da sua conta?

— Se quer mesmo saber, é sim. É da minha conta. Camus e eu compartilhamos não apenas uma vida juntos, mas também a criação desse garoto.

— Hyoga já é bem grandinho para cuidar de si mesmo.

— Pode até ser. Mas tanto Camus quanto eu vamos sempre enxergar nele o garoto sensível que pode se machucar muito...

— Olha, sinceramente... Se vocês dois gostam de bancar os pais superprotetores, eu não tenho nada a ver com isso. Estou me relacionando com o Hyoga, e não com vocês... – eu ia me retirar dali, por entender que essa conversa não iriar dar em lugar algum, quando Milo me segurou pelo ombro e me empurrou de volta contra a parede – Ei! Qual é o seu problema?

— O meu problema é você, cara. O que você pensa que está fazendo? Quem você pensa que é para se envolver com o Hyoga assim?...

— Cara, eu já disse que isso não te diz respeito...

— ... Você e seus irmãos são problema! É isso que eu posso dizer! Desde o começo, Camus e eu não fomos muito com a cara de vocês... Desde o início, sabíamos que vocês iam trazer problemas para nós, mas pensávamos que nos dariam problemas apenas na série! Achei que essa mania ridícula e infantil de vocês não gravarem juntos era problema mais que suficiente, mas como Kanon e Saga exigiram vocês três... Estávamos até dispostos a suportá-los para que a série funcionasse! Agora, ter um de vocês envolvido na nossa vida pessoal? Isso de forma alguma! Eu não quero um "tipo" como você frequentando a nossa casa!

— Ei, calma lá! Em primeiro lugar, quem disse que eu quero frequentar a sua casa? E, em segundo lugar... O que você quer dizer com "um tipo como eu"?

— Um tipo como você... um tipo como seus irmãos... Vocês funcionam para a série. São tipos problemáticos, o que é bom para o desenvolvimento da trama, que exige personagens assim... Errantes, errados em muitas decisões que tomam... orgulhosos, teimosos, individualistas, exageradamente reservados, com uma grande dificuldade em permitir que outras pessoas realmente se aproximem de vocês...

Enquanto Milo ia falando, engoli em seco. Ele estava realmente certo em muito do que disse ali.

— Então, Ikky... Eu não acho que você seja bom para Hyoga. Eu definitivamente não acho que você possa fazer bem a ele.

Nesse momento, não respondi nada. Permaneci em silêncio e Milo, percebendo que eu não revidava mais, abrandou um pouco o tom de voz e prosseguiu:

— Olha... Sinceramente, eu compreendo que existem diversos tipos de pessoas. Eu sou roteirista, estou acostumado a lidar com gente... Escrevo sobre gente, gosto de conhecer gente. E, de verdade, eu até posso entender que você e seus irmãos tenham lá os seus problemas, que façam vocês serem do jeito que são... Quero dizer, nada me faz engolir essa história de vocês não aceitarem gravar juntos, porque isso para mim já é ataque de estrelismo, mas... – Milo falava rápido; parou um pouco para respirar e continuou – O que eu quero dizer, Ikky... Você pode ser do jeito que é com muitas outras pessoas e tudo bem... Mas... É sério... Com o Hyoga não. – nessa última frase, Milo falava já de forma mais suave. Quase como uma súplica...

— Por que... – senti minha garganta seca – Por que você tem tanta certeza de que eu não faria bem a ele?

— Porque, como eu disse, eu conheço gente. E conheço caras como você. Mas, principalmente, eu conheço o Hyoga. Não quero ter de entrar em detalhes aqui, não acho que Hyoga fosse gostar de ter sua privacidade invadida assim... Só acredita no que estou te dizendo agora, Ikky. O Hyoga... ele pode parecer muito mais forte, frio, indiferente a muita coisa... mas a verdade é que ele tem um coração muito sensível. Camus sempre o protegeu porque conhece o sobrinho que tem. Não sei se sabe, mas Hyoga perdeu a mãe quando era muito novo. Isso trouxe consequências. Não foi fácil passar por tudo o que ele passou. Sim, Hyoga sobreviveu e aparentemente sem grandes sequelas. Isso não quer dizer que ele possa passar por grandes rupturas, rompimentos traumáticos ou situações assim numa boa.

— Quem disse que eu pretendo romper com ele...?

— Ikky, por favor. Seja sincero comigo e, principalmente, com você mesmo. Qual a chance de você estabilizar? Criar raízes? Você se vê em uma relação firme, constituindo família, arranjando um bom emprego para viver e se consolidar, criar responsabilidades, pensar sempre em outras pessoas além de você...? Eu não vejo você fazendo nada disso, me desculpe. Você e seu irmão gêmeo me parecem dois espíritos livres, que não se apegam a lugar algum. Nesse caso, eu acho que o seu irmão Rikki talvez conseguisse ser desse jeito, um pouco mais estável... Não sei... Mas você... Não, Ikky. – Milo finalizou categórico – Você só vai machucar o Hyoga. Eu tenho certeza disso. E eu conheço esse garoto. Uma ferida emocional que você normalmente causa em outras pessoas será muito mais devastadora no Hyoga. – Milo percebeu minha expressão de surpresa – Pode acreditar. Eu o conheço bem e sei como ele pode ficar se sofrer uma decepção amorosa com um cara como você. Apesar de tudo o que ele já sofreu nessa vida, Hyoga conseguiu manter um coração puro e até um pouco ingênuo em relação a sentimentos. Você quer ser o responsável por destruir isso nele?

As palavras de Milo me deixaram abalado. Era óbvio que eu não queria machucar Hyoga! Jamais faria qualquer coisa que pudesse feri-lo!

Bom, ao menos... não intencionalmente.

Mas Milo conseguiu me deixar preocupado. Talvez eu acabasse machucando Hyoga sem querer, simplesmente por ser... como eu sou.

— Estamos entendidos? Você vai se afastar dele? – Milo interrompeu meus pensamentos.

— Sim. – respondi com a voz embargada. Minha cabeça rodava...

—-

PONTO DE VISTA: HYOGA

Afrodite já estava terminando de me dar os últimos retoques e eu olhava insistentemente para a saída do estúdio, esperando ver Ikky entrando por ali. Ele e Milo estavam conversando já há um tempo considerável e eu me sentia cada vez mais nervoso imaginando o que poderiam estar conversando.

Finalmente vejo Milo aparecer. Ele nem se preocupa em vir falar comigo, porque sabe que vou dizer a ele que não gostei nem um pouco do modo como ele se intrometeu ali. Até pensei em ir atrás dele para dizer isso mesmo, mas vi Ikky entrando um pouco depois.

— O que é isso? – Afrodite grita de repente – Ele ainda não foi chamar o irmão para vir gravar? Isso vai atrasar o meu trabalho! – indignou-se o figurinista.

— Pode deixar que vou lá falar com ele para apressá-lo! – saio de perto de Afrodite sem esperar que ele concorde com minha proposta.

Caminho a passos largos até onde está Ikky, que parou um pouco depois de adentrar o estúdio, com um olhar perdido no nada.

— Oi. – falo com um sorriso nervoso – Tudo bem? – falo baixo, tentando não chamar atenção dos outros para nós.

Ikky olha para mim com uma expressão estranha. E não me responde nada em retorno.

— Olha, eu sei que Milo pode ser muito impertinente quando quer... E você não precisa dar ouvidos a ele; Milo às vezes leva muito em consideração o que meu tio fala... – disparo a falar, como se quisesse me justificar antecipadamente pelo que Milo tinha falado – Enfim, basicamente ignore qualquer coisa que ele tenha dito... Está bem? – pergunto, sem conseguir esconder a ansiedade que eu sentia.

Ikky continua me encarando como se tentasse enxergar algo em mim... Algo que ele não estivesse conseguindo ver, mas com a persistência de que há alguma coisa ali.

— Eu preciso ir. – ele disse por fim e fez menção de que iria embora assim, sem falar mais nada.

— Como assim? – pergunto com alguma indignação.

— Eu preciso ir. Tenho que avisar meu irmão que é hora dele de gravar. – Ikky fala com uma voz tão estranha, tão fria...

— E não vai me falar nada? Vai me deixar aqui igual a um idiota, sem saber o que vocês conversaram lá fora? – acabei me zangando.

— Se quiser saber o que conversamos, você pode perguntar diretamente a Milo.

— Eu quero saber de você, Ikky! Por favor, você não pode ter levado tão a sério o que quer que ele tenha dito! Milo é tão superprotetor quanto meu tio! Eles são exagerados e falam muita coisa sem saber! Eu...

— Você nega que eles te conheçam bem?

— ... o quê...?

— Eles te conhecem bem ou não, Hyoga?

— Eles... - eu gaguejo um pouco - ... Eles... ora, sim, eles me conhecem razoavelmente bem. Mas não quer dizer que me conheçam por inteiro! Eles não sabem tudo de mim!

— Mas, definitivamente, eles te conhecem melhor do que eu.

Nesse momento, as palavras ficaram travadas na minha boca. Eu não soube o que responder.

— Enfim... – Ikky suspirou e olhou na direção da casa em que vive com os irmãos, ali no estúdio – É melhor nos afastarmos, Hyoga. Vai ser melhor para nós dois.

— É mesmo? – eu falo, amargo – E quem acha isso? O Milo?

— Eu acho isso. – ouvir essas palavras foi como receber um duro golpe no estômago – E preciso ir agora. Está na hora de o meu irmão vir gravar.

Eu não disse mais nada. Permaneci onde estava, completamente estático, enquanto Ikky ia se afastando devagar.

—-

PONTO DE VISTA: IKKI

Por sorte, sempre que tenho de me caracterizar como Ikki é mais fácil, porque basta me vestir como normalmente já faço. E, nesse momento, eu não estava com cabeça para pensar demais nas minhas roupas.

Primeiro, foram Saga e Kanon que me alertaram para minha relação com Hyoga... Agora, era Milo e, naturalmente, Camus quem não enxergavam uma aproximação nossa como boa coisa...

Talvez, eles tenham razão. Isso não tem como dar certo.

Será ruim para a série, será ruim para Hyoga...

Milo tem razão. O que tenho para oferecer a Hyoga? No momento, não posso nem mesmo oferecer a verdade a meu respeito.

Prometi a Saga e Kanon que iria me afastar do loiro. Não consegui. Agora são esses roteiristas que me exigem isso.

Estou colocando minha participação nessa série em risco.

E eu não posso fazer isso. Preciso do dinheiro para continuar ajudando minha vila.

Eu não consigo nem cumprir direito com minhas obrigações, não consigo manter o foco e as prioridades... Como posso garantir que não vou machucar Hyoga?

Eu não quero feri-lo de forma alguma. Mas, sei lá... Eu nunca me preocupei em me controlar, em me manter na linha. Não fui feito para viver dentro dos padrões...

Aguentei por muito tempo viver mais ou menos dentro do esperado enquanto estive em minha vila, mas somente porque sempre tive certeza de que um dia iria embora dali para finalmente ser eu mesmo.

Entretanto, agora... será que eu poderia viver completamente dentro dos padrões para ficar com Hyoga? Será que eu poderia ser esse tipo de cara, o cara ideal para ele?

Eu não sei se conseguiria, porque acho que não seria eu mesmo... E eu não conseguiria viver dentro de um personagem para sempre... Conseguiria?

Estou muito confuso. E, de tudo isso, só me parece haver uma solução. Realmente preciso me afastar de Hyoga. Não posso mais me envolver com ele. Os produtores da série disseram isso, os roteiristas também... pela minha vila, é o que preciso fazer... pelo próprio Hyoga, é o melhor a ser feito...

— Então, chega. É isso. Não vou ficar mais complicando as coisas. É isso, Ikki. Trate de esquecer esse loiro. Ignore-o; não é como você nunca tivesse feito isso antes. – falo para mim mesmo, em voz alta, para ver essas palavras surtem mais efeito.

Deixo finalmente minha casa. Afrodite vem correndo em minha direção. Aioros e Aioria ao longe gritam algumas palavras para os diversos funcionários ali presentes, mas nada disso me chama a atenção de fato.

Merda.

Mesmo quando eu não quero, mesmo de forma inconsciente, meus olhos ficam buscando por Hyoga.

E não consigo evitar uma certa frustração por não vê-lo ali.

— Vamos! Vai andando e eu vou retocando o que for preciso! – Afrodite fala e já vai mexendo aqui e ali em mim enquanto andamos.

Eu normalmente ficaria bem incomodado com isso. Entretanto, o que me incomodava mais era não ver Hyoga.

Tão incoerente... Eu sou tão incoerente... Não acabei de tomar uma decisão? Até mesmo para Hyoga eu disse que me afastaria...

E, ainda assim, não consigo deixar de buscá-lo com meus olhos.

Droga, Ikki. Seja um pouco mais firme. Seja mais forte.

Fico repetindo essas palavras, como um mantra.

Quem sabe assim, elas não me entram na cabeça pra valer?

Finalmente, sou colocado no cenário onde gravaria minha próxima cena.

Será uma cena um tanto... tensa para mim.

É a primeira vez que precisarei... fingir que estou transando com alguém.

Como Saga e Kanon já me disseram, não há nada explícito... o ato sexual não será real... Porém, como já vi na antiga série deles... Por mais que não seja real, tem de ser... convincente.

E eu não sei se vou conseguir isso.

A garota com quem vou contracenar chega.

Ela é bastante profissional. Me cumprimenta com tranquilidade, ao que respondo com todo o respeito.

Estou bem nervoso. Não tenho ideia de como vou fazer isso.

Há poucas pessoas no set de filmagem, bem diferente do usual.

Fizeram isso para que eu não me sentisse tão desconfortável.

Deixaram ali apenas quem era imprescindível para a gravação da cena.

Aioria e Aioros estão a meu lado, me dando todo tipo de instrução.

Perto das câmeras, vejo Camus e Milo.

Isso me traz uma inibição ainda maior. Mas não tem como eles saírem. São cruciais para o bom andamento da cena; é o que dizem os diretores.

E nem sinal de Hyoga.

— Resumindo, Ikki... – Aioros repete pela milésima vez – Sabemos que é sua primeira vez em uma cena assim. Não será uma cena longa. Só precisamos de um bom take e fechamos, ok? Mas vamos repetir até acertar. Tem de ser um bom take. Convincente. Entendeu?

— Entendi. – respondo, sem querer me prolongar mais naquilo. Se tinha de ser feito, que fosse logo.

Todos se posicionaram. A moça vem até mim, com um olhar bastante sugestivo. Eu não preciso demonstrar o mesmo interesse e desejo nela, até porque o meu personagem, assim como eu, está pensando em Hyoga.

Porém, nesta cena, meu personagem acabará sendo envolvido de fato por ela.

Para conseguir as informações sobre o bando de Maverick, eu preciso me envolver o suficiente com ela. Começamos com um beijo, que não é muito bem sucedido, porque meu personagem também não consegue tirar Hyoga da cabeça.

Até aqui, tudo bem.

O problema é que, a partir daí, a garota parece entender que não estou tão envolvido como deveria. Ela então se deita na cama e faz um gesto para acompanhá-la ali. Eu hesito, conforme o roteiro, e a moça diz:

— Eu sei que você quer voltar para o bando, Ikki. Já saquei que é isso o que você quer. E tudo bem, eu posso te ajudar. Mas nada vem de graça, certo? É só você me dar o que eu quero, que eu te ajudo a conseguir o que você quer. Uma troca justa, não acha? – ela diz, em tom de voz provocante.

Engulo em seco e começo a me aproximar da cama onde ela está. Demonstro todo o meu nervosismo e, até agora, isso se encaixa com a cena.

— Ei, não precisa ficar assim. Relaxa, cara... É só você fazer o que já fizemos tantas vezes... Não se lembra? Você bem que gostava...

Ela então começa a me despir. Na trama, eu fico inteiramente despido com ela, mas felizmente não preciso gravar nu. A câmera vai focar em nossos corpos da cintura para cima; talvez em algum momento mostre nossas pernas, mas apenas isso.

O problema mesmo é se eu vou conseguir fazer movimentos que consigam convencer quem estiver assistindo...

No início, pelo próprio roteiro, tenho que parecer desconfortável. Mas, naturalmente envolvido pelo corpo da garota, a libido deveria se apossar de mim e meu lado mais animal deveria tomar conta do meu corpo, que passaria a agir por conta própria.

Era justamente aí que eu tinha problemas.

Não estava conseguindo ser convincente.

Era para ser apenas um take, não deveria demorar tanto...

Mas, take após take, Aioros cortava a cena e pedia para recomeçarmos.

Devo reconhecer que a garota era muito paciente.

Todavia, a situação estava ficando quase insustentável.

Foram muitos takes, tivemos de parar por diversas vezes para que os diretores tentassem mudar ângulos, vendo se algum deles me ajudava...

E nada.

Eu já estava achando aquilo tudo humilhante demais. Estava querendo desistir, dizer que isso não ia dar certo, ou algo do tipo...

Quando...

Hyoga entrou nesse set de filmagem.

Havia tão pouca gente ali que qualquer pessoa que entrasse seria notada.

E Hyoga não era qualquer pessoa.

Naquele momento, quando Aioria gritou "ação", eu vi Hyoga olhando para mim...

Fechei os olhos...

Não sei como é possível algo assim, mas...

A simples presença dele ali...

Saber que ele estava ali, relativamente próximo de mim...

Eu era quase capaz de sentir o perfume dele...

Isso obviamente devia estar apenas na imaginação. Não tinha como eu sentir o perfume dele, considerando que não estávamos tão perto assim...

Mas... não sei explicar... a presença desse homem... o que eu estava sentindo... eram tantos sentimentos contraditórios...

O único fato é que só de saber que ele estava lá foi suficiente para atiçar em mim o desejo que, até aquele take, parecia nulo em mim.

Fechei os olhos, concentrando minha mente naquele loiro. Saber que ele estava ali, me vendo seminu... Como se estivesse transando... Esse simples pensamento me deixou completamente arrepiado.

A mão da garota tocou de leve o meu corpo e isso terminou de coloca fogo em mim. Finalmente consegui entregar uma cena convincente. Beijei, envolvi o corpo da garota com desejo e sofreguidão, conforme se pedia no roteiro. Ela soube interpretar bem, gemeu, movimentou-se também e, subitamente...

Tínhamos uma cena.

— Corta! – Aioros grita, parecendo satisfeito – Finalmente! Acho que conseguimos!

Assistentes de cena correm para dentro de cena. Não estávamos nus, mas ninguém gosta de ficar assim tão exposto desnecessariamente. Tínhamos gravado a cena, não precisávamos mais ficar daquele jeito. Trouxeram roupões para nos vestirmos, no que fui muito grato, pois embora estivesse usando minha cueca, eu estava numa situação um pouco constrangedora...

Claro, nada que não fosse esperado. Para que a cena saísse, o esperado é que eu ficasse excitado, verdadeiramente. Seria difícil eu conseguir fingir tanta paixão e desejo em cena sem de fato sentir algo. Se eu fosse um ator bom, experiente e tudo o mais, pode até ser que eu fosse capaz disso, mas definitivamente não era o caso.

Então eu sentia meu baixo ventre latejando, minha cueca apertando, segurando meu sexo inchado, desejoso por alívio...

E vi como Hyoga me olhou de forma tão... estranha. Seria... indiferença? Menosprezo? Raiva contida? Eu não sabia dizer. Sabia apenas que era um olhar que não me agradou nem um pouco.

Eu queria falar com ele, mas então ouvi Aioria dizer para Aioros:

— Shun chegou. Disse que já está pronto para gravar a cena dele.

— Hum... Isso pode ser bom. – Aioros respondeu, enquanto olhava algo em seu tablet – Íamos gravar a cena de Ikki conversando com Hyoga após o ocorrido, mas demoramos demais para conseguir esse take... E, talvez, seja bom darmos um tempinho para Ikki se recompor. Podemos gravar a cena de Rikki e Shun enquanto isso. Fazemos a cena de Ikki com Hyoga depois.

Aioria saiu para dar o recado para Shun. Aioros veio conversar comigo, mas eu já tinha ouvido tudo. Ele reforçou que era para eu tirar esse intervalo, descansar um pouco, para depois voltar e gravar minha cena com Hyoga.

Se eles soubessem que não teria a menor chance de descansar...

Fui me afastando em direção à minha casa, buscando novamente por Hyoga. Consegui vê-lo, muito brevemente, entrando em seu camarim e fechando a porta logo em seguida.

Respirei fundo.

Não estava sendo fácil.

Parecia simplesmente impossível manter o foco na situação em que me encontrava.

Entrei em minha casa e corri para o chuveiro. Tomei uma ducha gelada para ver se me acalmava.

Depois, saí e me vesti mais uma vez como Rikki. Camisa. Blazer. Calça social. Penteado bem feito. Óculos.

Saí aparentemente como uma nova pessoa, mas me sentindo muito perdido por dentro.

Lá fora, havia a movimentação para terminar a montagem de uma cena que também seria difícil.

No entanto, eu procurava não pensar demais nisso.

Não vi sinal de Aioros, Aioria, Camus, Milo, Afrodite...

E nem Hyoga.

Eu simplesmente não consegui evitar.

Eu não podia perder a oportunidade de ir ver o loiro agora.

Não havia ninguém ali que pudesse me impedir.

E eu estava vestido como Rikki. O irmão com quem Hyoga não tinha qualquer envolvimento.

Isso não seria um problema, certo?

Até porque eu só queria... Só queria...

Céus, o que eu queria?

Saber como Hyoga estava? Apenas isso? Seria mesmo isso?

Independente de não saber a resposta, meus pés ganharam vida própria e me levaram até o camarim do loiro.

Minhas mãos também agiam por conta própria e não bateram, simplesmente abriram a porta para que eu entrasse, sem pedir licença.

Hyoga estava sentado sobre um sofá, lendo o que parecia ser um caderno de anotações.

Assim que entrei, fechei a porta. O loiro, que parecia muito compenetrado em sua leitura, só percebeu minha presença nesse momento.

— Rikki? O que está fazendo aqui? – ele perguntou, parecendo muito abalado com a minha presença.

— Eu... queria saber como você estava.

— Ah. Por causa do que aconteceu ontem? – Hyoga então sorriu brevemente. E aquele sorriso iluminou o local – Eu estou bem, obrigado. Desculpe-me por tê-lo preocupado. Você não precisava ter ido até lá em casa, muito menos ter cuidado de mim como fez...

— Não precisa agradecer por isso.

— Preciso sim, principalmente porque você saiu sem que eu pudesse agradecê-lo apropriadamente. – o loiro sorriu um pouco mais, o que me fez começar a esquecer todas as minhas certezas. Mais uma vez.

— Foi um prazer. – é o que consegui responder.

Hyoga pareceu enrubescer de leve com minhas palavras... mas pode ter sido apenas impressão minha. Ele então fechou o caderno que estava sobre seu colo e pareceu ponderar um pouco antes de me perguntar:

— Seu irmão... o Ikky... Ele falou algo com você?

— O Ikky? – senti minha voz tremer de leve – Por quê?

— Ele resolveu me ignorar. Agora são seus dois irmãos que vão me tratar assim, com distanciamento.

— Ah, isso... É, ele me falou a respeito. Ele... disse que conversou com Milo.

— Eu sei. E sei que Milo deve ter falado um monte de bobagem para ele, mas... achei que Ikky fosse mais perseverante. Ou melhor... achei que eu pudesse valer a pena.

— Você vale a pena! – falei antes que pudesse me controlar – É que... Eu te falei, Hyoga... os meus irmãos... eles não estão prontos para um compromisso... é assim que eles lidam com as paixões que surgem em suas vidas...

— Eu sei, Rikki, eu sei. Você me alertou. Estou me sentindo um verdadeiro idiota. – ele riu, mas tristemente – Mas tudo bem. Eu vou sobreviver.

Fiquei verdadeiramente feliz ao ouvir isso. Eu não tinha me envolvido o bastante para fazer uma ferida significativa nele.

— Acho que Ikky me viu apenas como... pegação. É, era só isso. Trocamos uns beijos, nos pegamos algumas vezes... Mas depois de ser encurralado pelo Milo, ele deve ter achado que não valia a pena. Seu irmão Ikky com certeza deve ter facilidade pra pegar quem ele quiser... com um beijo daqueles, não duvido... Por que ele perderia tempo ficando comigo? A dor de cabeça que acompanharia ficar comigo não compensava.

Eu quis dizer que não era nada disso. Mas pensei melhor. Preferi me manter em silêncio.

— E seu outro irmão, o Ikki... Esse aí... – Hyoga forçou um riso debochado, que me pareceu mais dolorido que qualquer outra coisa – Esse já me esqueceu completamente! Se eu ainda tinha alguma esperança, não mais! Depois da cena que vi ele gravando hoje, não me restou nenhuma dúvida! Talvez, em algum momento, ele tenha sentido algum interesse por mim, mas durou pouco! Não foi nem suficiente para ele me beijar naquela noite que saímos juntos! E hoje... a forma como ele beijou aquela garota... o tesão que dava para ver nos movimentos dele... Aquilo não tinha como se fingir. Aquilo foi real. O Ikki deve estar super a fim daquela garota agora. Não duvido nada que inclusive agora estejam transando. Aquele take pegou fogo. Certamente Ikki precisaria dar continuidade ao que vivem em cena.

— Não, Hyoga... Ele não está com aquela garota agora... – precisei falar. Não poderia deixar ele pensando absurdos demais. Simplesmente não podia.

— Como você pode saber? Você não assistiu àquela cena. Você não viu o modo como ele... transou com a garota...

— Eles não transaram de verdade, Hyoga.

— Transaram sim, Rikki. Por que diz que não? Só porque não houve penetração de fato? Só porque o Ikki não meteu na garota, como claramente ele queria? Porque deu pra ver o quanto ele desejava isso. Ele queria meter nela, com força, com vontade, com gosto!

Engoli em seco, ao ouvir Hyoga falar assim. Minha respiração ficou até mesmo acelerada.

Hyoga havia se exaltado e acabou percebendo isso. Foi até o frigobar e retirou uma garrafa de água dali, que rapidamente abriu para começar a beber.

—-

PONTO DE VISTA: HYOGA

Eu não estava legal. Definitivamente não estava bem. Onde é que eu estava com a cabeça para falar daquele jeito... e na presença do Rikki? Eu tinha perdido completamente a noção de tudo!

Ser rejeitado por Ikki já tinha mexido profundamente comigo... Eu nem tinha conseguido me recuperar disso ainda e aí vem o gêmeo dele, o Ikky, me rejeitar também?

E com o Ikky... Que droga, a gente já tinha se envolvido! Quero dizer... a gente tinha se beijado... se pegado com vontade... Como ele podia se afastar assim, com essa facilidade?

Tudo bem que... a gente nem conversou direito... Na verdade... mal interagimos de fato... tirando os beijos, os toques físicos... Não tínhamos mesmo proximidade...

Mas eu realmente achei que tínhamos nos entendido... De alguma forma... em algum grau...

Que estúpido. Pensei a mesma coisa do Ikki. E, pelo visto, me enganei com os dois. Parece que eles são mais parecidos do que eu imaginava. Esses gêmeos não são apenas iguais fisicamente. São iguais na conduta. Enganam muito bem.

Estava entornando toda a garrafa de água na minha boca, de uma só vez. Senti uma sede absurda só de pensar no Ikki... transando... metendo... do jeito que ele demonstrou que faria em cena...

Eu não conseguia parar de pensar nele assim...

Tentei de todas as formas tirar meus pensamentos dele. Me fechei no meu camarim, peguei meu caderno de anotações, tentei analisar a entrevista que fiz com Shaka... Busquei o que sempre teve meu total foco, que sempre foi minha prioridade: investigar a empresa culpada pela morte da minha mãe. Isso sempre conseguiu me deixar centrado, focado...

Mas não dessa vez.

Eu estava ali, tentando ler as minhas anotações e não conseguia me concentrar em nada que estava escrito ali.

Só conseguia pensar no Ikki... Naqueles beijos quentes que eu vi ele dando naquela mulher... naquele toque vigoroso... nos movimentos sensuais do corpo dele...

Então eu me dei conta de que já tinha bebido todo o conteúdo daquela garrafa. E havia, inclusive, deixado parte desse conteúdo escorrer da minha boca por ter praticamente virado a garrafa de uma vez.

Eu sentia sede, mas acho que o motivo de agir de forma tão impulsiva e sem pensar direito no que fazia era culpa da presença de Rikki. Ele entrou no meu camarim de repente, no momento em que eu me via tão preso a essa angústia, misturada com desejo, raiva, tesão... eu não sabia exatamente o que sentia depois de ver Ikki em cena com aquela mulher, quando Rikki apareceu ali, sem ser convidado...

Tentei parecer bem, mas não consegui fingir por muito tempo. Acabei explodindo da pior maneira possível e não sabia onde enfiar a cara agora.

— Ele não queria fazer nada disso com aquela garota, Hyoga. – Rikki recomeçou a falar, depois de um silêncio constrangedor entre nós.

— Você não tem como saber, Rikki. – falei, enquanto pegava uma toalha para secar meu queixo e pescoço – O fato é que ele preferiu essa garota a mim. Esses são os fatos.

— Ele teria que ser louco para preferir essa garota a você.

Eu estava secando meu pescoço quando ouvi o que Rikki disse. Olhei para ele no mesmo instante e meus olhos conseguiram capturar o olhar dele sobre mim. Era um olhar cheio de... desejo?

Ele demorou alguns segundos para perceber que eu o estava encarando, mas quando notou, virou o rosto para outro lado, visivelmente embaraçado.

- Rikki... Você se sente atraído por mim?...

Nem eu conseguia acreditar que estava sendo tão direto. Mas eu não estava bem, mal conseguia processar meus pensamentos, quanto mais usar as palavras que me escapavam da boca de forma mais apropriada.

Rikki se mostrou muito desconfortável com a minha pergunta. Evitou me olhar nos olhos, enquanto parecia pensar no que me dizer.

Eu não facilitei as coisas para ele. Fiquei parado, em pé, imóvel diante dele quanto esperava por uma resposta.

Rikki provavelmente entendeu que não teria como se esquivar de mim. Respirou fundo antes de dizer:

— Mesmo que estivesse... não importa.

— Por que não? – perguntei de volta, mais rápido do que gostaria.

— Porque não estou interessado em me envolver com alguém que... – Rikki fez uma pausa nesse momento, o que me fez sentir o coração falhar uma batida - ... alguém que já se envolveu com meus irmãos. – ele finalizou, com um suspiro.

— Ah. Claro. – aquilo foi como um balde de água fria. Se bem que era melhor assim. Desse jeito, eu já matava dentro de mim qualquer interesse em Rikki que estava começando a germinar.

Aliás, que estúpido! E eu lá tinha direito de me interessar no Rikki? Shun se interessou por ele primeiro! E eu... eu sou um idiota que nem sabe o que sente por dois irmãos gêmeos também idiotas!

— Eu... preciso ir. – Rikki falou subitamente – Tenho minha cena pra gravar com o Shun agora.

— Ah. Claro. – eu repeti, como se não soubesse usar outras palavras.

— Não vai ser uma cena fácil. – ele disse, prestes a abrir a porta – Eu nem sei como... encenar o que temos de gravar. – Rikki falou, parecendo um tanto constrangido.

— Que cena é? – perguntei mecanicamente, ainda sem conseguir absorver tudo o que tinha acontecido neste dia.

— É uma cena... meio... quente...

— Com o Shun? – perguntei de supetão.

— É... Ele... vai investir em mim hoje... quero dizer... no meu personagem...

— Ele vai beijar você? – sinto um pequeno aperto no peito.

— Vai. Mas eu vou me afastar. O meu personagem é professor dele, e muito ético. Jamais levaria algo assim adiante. Até porque ele tem uma namorada na série e tudo o mais...

— Ah, é verdade. Seu personagem na série nunca esteve com um homem antes, não é?

— É... – Rikki respondeu, mas de uma forma tão desconfortável que precisei perguntar – Rikki... Você já esteve com um homem antes?

— Eu... – Rikki pareceu ter sido pego de surpresa com a minha pergunta – Bom... da forma como acontece nessa cena... eu não posso dizer que sim...

Rikki foi tão evasivo em sua resposta que sorri. Ele ficava encantador daquele modo, parecendo tão sem-graça com algo.

— A cena envolve mais que um beijo? – volto a indagar.

— Sim. E... esse é o problema. – Rikki começa a falar, em tom de desabafo – De acordo com a trama, Shun não vai aceitar que eu me afaste e vai... ahn... – Rikki estava verdadeiramente encabulado. Não consegui evitar e abri um sorriso ainda maior diante dele – Shun vai encontrar um outro meio de me fazer ceder.

— Um outro meio?

— É, ele... Vai... fazer sexo oral em mim.

— Como é? – arregalei os olhos.

— Não, não em mim! No meu personagem, óbvio. Não é de verdade, claro!

— Claro, claro. Eu sei disso.

Ficamos os dois um pouco constrangidos, até que Rikki voltou a falar:

— Eu não sei como fazer isso. Quero dizer, fingir isso.

— Você nunca... recebeu...?

— Sim, claro que já, mas...

— Mas nunca recebeu de um homem? É esse o problema?

— Não, Hyoga. O problema, na verdade, não é esse especificamente. A questão é que, na cena, Shun vai fazer isso e meu personagem, que começa tentando evitar, acaba cedendo e vai demonstrando gostar... A cena, em si, mostra muito pouco do Shun... e foca muito mais no meu rosto, segundo eu li no roteiro.

— E qual o problema?

— O problema... o problema é que eu nunca... – Rikki tinha dificuldades para dizer o que queria – Olha, Hyoga, eu já estive com mulheres que fizeram sexo oral em mim, está bem? Mas nunca foi algo assim... que demorasse muito... Basicamente porque eu nunca me demorei muito nisso. Quero dizer, não é que eu não conseguisse ou aguentasse. É só que... eu nunca vi necessidade de prolongar por mais tempo que o necessário. Sexo sempre foi para saciar uma necessidade muito física e eu sempre tive isso em mente. Então eu ia, fazia o que precisava e pronto, acabou.

— Do jeito que você fala, parece um ato quase mecânico.

— E era. Nunca estive com a mesma mulher mais de uma vez. E nunca fiquei com uma mulher por uma noite inteira. Nunca dormi ao lado de nenhuma, inclusive. Fazíamos o que tínhamos de fazer, matávamos o desejo e acabou. Eu mesmo não tinha vontade de me demorar. Então, é assim... Eu já vi filmes em que há toda uma série de preliminares, jogos sexuais e sei lá mais o quê. Nunca tive vontade de fazer algo assim. Para quê? Esse é o tipo de coisa que gera intimidade, que pode levar a sexo com algum sentimento mais que não seja o desejo físico puro, carnal.

— Que exagero, Rikki. As pessoas podem fazer isso simplesmente para terem mais prazer. – eu falo, rindo de leve da visão exagerada dele.

— Mais prazer? Eu não acredito muito nisso. É tudo uma questão psicológica. O prazer é um só, é o mesmo, não sei se tem como aumentá-lo... – nesse momento, ele pausa o que diz e parece se questionar internamente acerca do que acabou de dizer – Enfim, eu acho que se trata apenas de um maior envolvimento emocional. E, como eu já te falei uma vez... Esse não é o meu forte.

— Bom... já que você acredita que seja apenas psicológico, use isso a seu favor. Racionalize esse desejo que você acha que deve sentir e finja que está sentindo.

— É o que estou pensando em fazer. Mas não sei se vai ficar bom.

— Os diretores estarão lá para ajudar a te guiar.

— Aioros e Aioria? Até parece. – ele riu incrédulo – Quero dizer... É que Ikki me contou como foi gravar a cena dele. Ele me disse que os diretores mais atrapalhavam do que ajudavam. Então já sei que eles não serão de grande ajuda. Pelo contrário, vão me deixar mais nervosos. Acho que essa cena vai ser um fiasco...

— Bem... – eu cruzo os braços sobre meu peito – Por que não me mostra?

— Mostrar? O quê?

— Como você pretende fazer a cena. Aí eu posso dizer se ficou bom ou não.

— Você quer que eu encene aqui pra você... Agora?

— Só se você quiser. Você disse que os diretores não podem te ajudar. Então talvez eu possa.

Onde é que eu estou com a cabeça? Que raio de proposta é essa que eu estou fazendo a ele?

— Eu... não sei se é uma boa ideia, Hyoga.

— Olha, vamos ser sinceros? Eu acho que você se sente um pouco atraído por mim. Eu vi como me olhou. – o que estava dando em mim? Eu estava enlouquecendo de vez, era isso? – E tudo bem, isso não vai dar em lugar algum, porque você não quer se envolver com alguém que já está bem enrolado com seus irmãos. E você está coberto de razão; para que você iria se meter numa confusão como essa, não é mesmo? E eu te garanto que, da minha parte, por mais que pudesse haver alguma atração, seria apenas porque você tem alguma semelhança com seus irmãos, afinal, vocês são irmãos. Mas eu também não faria qualquer coisa para me aproximar de você, especialmente porque o meu melhor amigo, o Shun, está apaixonado por você.

— O Shun está apaixonado por mim?

— Por que a surpresa? Vai dizer que não tinha percebido ainda?

— Não, quero dizer... Eu achei que ele estivesse um pouco interessado, mas... apaixonado?

— Shun se apaixona facilmente. Mas não quer dizer que o sentimento não seja intenso. E, nesse caso, posso garantir que é intenso. Ele se encantou por você desde a primeira vez que te viu.

— Eu... Não sei o que dizer. Não posso dizer que eu corresponda aos sentimentos dele.

— Rikki, você mal o conhece. Quem sabe depois da cena de hoje?

— Você me deixou mais nervoso em relação a ela, Hyoga. Isso sim.

— Rikki, o que eu quero dizer é que podemos ser profissionais aqui. Nenhum de nós vai levar qualquer possível atração adiante, porque temos bons motivos para não fazer isso. Então, se quiser a minha ajuda, estou aqui.

Rikki ficou um pouco pensativo. Ele olhava para mim, como se estivesse tentando sondar o que estaria por trás dessa minha oferta de ajuda.

A verdade é que nem eu sabia.

— Está bem. Eu aceito.

Abri um sorriso sem saber ao certo porque essa sensação de contentamento me invadiu ao ouvir essas palavras.

— Preciso de um lugar para me sentar. Na... cena, eu estarei sentado diante da minha mesa e Shun... bem... ele vai me... confrontar... lá...

— Sente-se aqui. – apontei o sofá para ele. Rikki sentou-se, permaneci em pé, como se assim aquele momento não parecesse tão estranho.

Mas isso era impossível.

— Bom... vamos logo. Daqui a pouco vão chamar você. – eu o apresso, porque na verdade sou eu quem sente o coração bater com pressa.

Rikki então fecha os olhos. Parece tentar se concentrar. E então... começa a fazer uns grunhidos, que provavelmente eram tentativas de gemidos.

— Nossa... Rikki, pode parar. Por favor, pode parar. – eu falei, rindo um pouco.

Ele abriu os olhos e, ao ver como eu ria, fechou a cara:

— É, eu sabia que essa era uma péssima ideia. Obrigado; já vou indo. – ele falou, sério e zangado, levantando-se rápido do sofá e indo para a porta.

— Não, Rikki... Espera, volta aqui! – falei, ainda risonho – Foi uma boa ideia, na verdade. Volta aqui, vou te ajudar.

Rikki voltou, meio desconfiado. Sentou-se e olhava para mim, como se tentasse me decifrar.

— Você fez gemidos que pareciam barulhos... mecânicos. Na verdade, estava tudo muito mecânico. Sua expressão estava muito dura.

— Eu fiz do jeito que acho que fica meu rosto quando recebo... – ele resmuga.

— Sério? Você fica assim? – tento segurar meu riso e Rikki, percebendo, parece se zangar – Não, não, espera! Eu disse que vou te ajudar e vou cumprir minha palavra. Ok, vejamos... Você diz que é psicológico, não é? Então vamos envolver sua mente nisso. Imagine... que você está tentando não se envolver com uma pessoa, apesar de sentir certa atração por ela. Afinal, na série, o Rikki sente atração pelo Shun, não é?

— Sim. Mas ele ainda não admitiu isso para si mesmo.

— Pois bem... Então imagine que você está com essa pessoa, ali, entregue, demonstrando abertamente que quer ficar com você. Ela beija você e, por mais que você desejasse retribuir, você não pode. Há uma série de fatores que indicam que você não pode, que você não deve. Racionalmente, você sabe que não deve. Até mesmo consegue se conter, quebrando esse beijo que ele lhe dá.

Percebo que minhas palavras estão mexendo com Rikki. Ele se mexe no sofá, parecendo procurar uma posição mais confortável.

E noto que minhas palavras também estão mexendo comigo. Eu olho para ele e, à medida que vou falando... eu misturo o que sinto com o que falo...

— E aí... Ele volta a tentar se aproximar. – continuo a falar para Rikki, que me encara fixamente. E eu não desvio meu olhar do dele – Ele já parece ter entendido que, se tentar beijar você de novo, será rejeitado mais uma vez. Por isso, ele resolve ser mais convincente, de uma forma que você não tenha escolha, a não ser... ceder. Então... ele se abaixa... e se aproxima devagar de você.

Rikki me olhava com uma intensidade que eu me sentia perdido nos olhos dele, tão luxuriosos por trás daqueles óculos.

— Você... não vai fazer essa parte?

— Como assim?

— Se é para eu encenar direito... preciso da sua ajuda. Faça a parte do Shun.

Senti minha garganta tão seca, que nem parecia que eu havia entornado uma garrafa inteira há poucos minutos na minha boca.

— Como eu disse... ele não faz nada... a não ser se aproximar de mim e ficar onde teoricamente ele deveria ficar para fazer o que a cena diz que ele faz... Mas nada além disso...

— E você... precisa disso? Para tentar encenar aqui?

— Se for para eu tentar fazer direito... Acho que sim.

Os olhos dele transmitiam puro desejo.

E acho que os meus também.

— Tudo bem. Até porque, não vai passar disso mesmo. – eu atesto, tentando demonstrar alguma segurança.

— Não mesmo. Da minha parte, pode ter certeza. – ele diz, mas sinto sua voz tremer levemente.

Então eu me abaixo e engatinho até ele, mantendo nossos olhares conectados intensamente.

— Você precisa dizer para eu parar... Dizer para eu ir embora... – eu falo, sentindo que meu corpo estava mais quente que o habitual.

— Hyoga...

— Hyoga, não. Estamos numa cena, lembra? Estou no papel do Shun.

— Shun... – ele fala, com os olhos parecendo prestes a me devorar – Pare com isso. Vá embora, por favor...

— Isso... Muito bem... esse tom de súplica demonstra o desespero mesclado com desejo que você sente... É isso que essa cena pede...

Eu me aproximo dele e então abro suas pernas, me colocando lentamente entre elas. Percebo que ele pende um pouco a cabeça para trás, enquanto solta um leve gemido:

— Agora sim... isso é um gemido de prazer... Mas você precisa continuar negando... Por mais que demonstre querer, o Rikki tem que negar com palavras... até não poder mais...

— Shun... Eu... não acho que seja uma boa ideia... – a fala dele vem entrecortada, a respiração dele está bem acelerada. Ele volta a olhar para mim, com os olhos nublados de desejo – Não... não siga com isso... Pare agora...

Estava perfeito. As palavras dele diziam o contrário do que ele demonstrava querer. Era exatamente isso que deveria acontecer em cena:

— Está perfeito, Rikki. – eu digo, com a voz embargada. Eu estava enlouquecendo de desejo ali – Já está pronto para gravar sua cena. – eu falo, com um fiapo de voz.

— Hyoga... por favor... continue...

Rikki fala, de repente... usando meu nome... Ainda estávamos na cena?

— Vai me ajudar... Ainda mais... Se pudermos... ir até o fim...

Engoli em seco. Minha cabeça rodava. Meu corpo queimava.

— Profissionalmente falando... é só para eu poder... saber como fazer a cena... até o fim...

Eu mordo meu lábio inferior, tentando assim conter minha tentação.

— Não haverá envolvimento emocional algum. Eu juro... Por favor... Podemos ir até o fim...?

Ouvir aquele homem praticamente implorar por mim, daquele jeito... Eu já não estava bem, ficava cada vez pior e agora eu me via vivendo aquela situação completamente surreal, em que absurdos faziam total sentido:

— Profissionalmente pode ser uma boa ideia... Sem envolvimento... Até porque nós não podemos nem queremos isso... – eu respondo por fim.

— Sim, nós... não queremos... - ele responde, demonstrando já alguma urgência nas suas palavras...

—-

PONTO DE VISTA: IKKI

Hyoga começou então a desabotoar a minha calça. Eu já não estava mais aguentando. Aquele loiro tinha conseguido me fazer perder completamente a razão. Eu já não sabia de mais nada e nada mais me importava. Eu só sabia de uma coisa agora: eu precisava sentir aquele loiro e tinha de ser naquele momento.

Hyoga foi baixando o zíper devagar, o que me pareceu uma deliciosa tortura. Eu já sentia um certo prazer só de vê-lo fazer isso, antecipando o que estava por vir.

E percebi que ele estava certo. Era possível sentir mais prazer. Eu já havia experimentado isso quando estive no apartamento dele aquele dia e agora sentia novamente, ainda mais intensamente.

Hyoga agora tinha aberto minha calça o suficiente para revelar minha cueca preta, que segurava dolorosamente minha excitação.

Ele levou a mão para uma carícia suave, por cima do tecido da cueca, e isso foi suficiente para que eu soltasse um gemido de prazer mais alto.

Voltei a olhar para ele, que tinha aqueles olhos claros tão sedentos que estremeci por dentro. Hyoga então puxou um pouco a peça íntima que eu vestia, liberando meu sexo intumescido, duro, dolorosamente inchado.

Ele se aproximou devagar e eu praticamente não respirei ao vê-lo se movimentar assim. Quando enfim senti sua língua quente encostando no meu membro, eu me senti derreter, com um prazer lancinante trespassando meu corpo.

Hyoga continuou a lamber, lentamente, prolongando uma sensação de agradável tortura. Eu gemia, mais alto ou mais baixo, dependendo de como ele pressionava a língua contra o meu pênis e eu nunca me senti tão entregue, tão à mercê de outra pessoa como estava ali.

Era insuportável, o prazer era insuportável, eu queria que ele continuasse, ao mesmo tempo que queria mais... Eu não conseguia reagir, a não ser gemendo cada vez mais.

Como se percebesse alguma urgência da minha parte, o loiro parou por um instante de deslizar aquela língua quente sobre meu sexo. Eu, imediatamente, abri os olhos, que estavam fechados até então, para entender o que tinha acontecido. Mas assim que os abri, precisei fechá-los de novo logo em seguida, pois Hyoga abocanhou meu membro de uma vez e pude sentir a boca dele envolvendo todo o meu falo, sentindo aquela boca quente, úmida... deliciosa...

Soltei um gemido mais alto e o loiro começou a fazer movimentos de vaivém. Minhas mãos não sabiam o que fazer direito até agora, mas finalmente ganharam vida e foram até os cabelos dourados daquele jornalista sensual; meus dedos enredaram-se naqueles fios e minhas mãos demonstraram o que eu desejava, de que eu necessitava: movimentos mais frenéticos.

Hyoga, compreendendo esse apelo mudo, fez o que eu pedia e muito, mas muito melhor do que eu podia imaginar. Ele acelerou os movimentos, enquanto sua língua pressionava nos pontos certos e eu já nem sabia mais onde estava, não me preocupava em gemer baixo, eu simplesmente gemia alto, até com algum desespero; desespero por não saber se meu corpo aguentaria essa onda de prazer cada vez maior. Meu quadril já se movia e Hyoga me chupava como se estivesse me devorando, me sugando, me fazendo inteira e completamente dele, pertencendo totalmente a ele.

Senti que o prazer estava prestes a explodir e eu senti que não aguentaria, que seria forte demais, como nunca me acontecera antes:

— Hyoga... – eu falei, em meio a gemidos que já se tornavam palavras desconexas, desesperadas – Hyoga, chega... Não... dá... pra... continuar... – eu falava, tentando abrir os olhos, mas logo o prazer crescia loucamente e eu precisava fechá-los, como se assim eu pudesse conter esse prazer – Ah... Hyoga... para, Hyoga... para... Eu não aguento mais... Tá muito forte... Eu vou gozar... Para, Hyoga...

Mas era como se cada palavra minha apenas atiçasse ainda mais aquele loiro. Ele passou a me chupar com mais vigor e eu já sentia o mundo inteiro rodando:

— Hyoga... para... Desse jeito... Eu... vou... gozar... na tua... boca...

Ele não me escutava.

Ou não queria escutar.

— Se não parar... Ah... droga... Eu vou gozar... Hyoga... Eu... vou...

E não pude mais me conter.

Eu senti aquele orgasmo como nunca antes. Eu senti meu corpo inteiro se desfazer, explodir, derreter. Eu não gemi nem gritei, eu urrei de prazer. Foi intenso, foi uma onda longa de prazer, e não apenas alguns espasmos, como estava acostumado a sentir. Foi forte, forte demais. Quando finalmente a onda passou, senti meu corpo prostrado, fraco, incapaz de qualquer movimento mais vigoroso. Abri devagar meus olhos e vi Hyoga sorrindo para mim.

Eu estava perdido.

Eu estava... irremediavelmente preso àqueles olhos...

E sabia que não poderia mais escapar deles.

Continua...