Ilha Moonscar, 24 de setembro de 1999.

Irritava-me que o improviso urgente me obrigasse a simplesmente aproximar-me do lugar onde quase encontrei meu fim. Não senti mal-estar enquanto adentrava a Ilha Moonscar porque, por mais deprimente que esta fosse, não simbolizava tão bem minha tolice e meu fracasso quanto aquela mansão execrável além das árvores e dos arbustos nos quais nos refugiávamos.

Contemplando a mansão, eu tremi brevemente ao atestar a limpidez das janelas, a ausência de teias de aranha nos ângulos, a alvura imaculada das paredes, das colunas, das escadas e, por fim, o esmero com que até mesmo o jardim estava tratado. A caixa de areia parecia ainda mais nova do que no ano passado. Se isso não nos consolava pela certeza de que estivera habitada por boa parte daquele ínterim, ao menos confirmava que estávamos no lugar certo para nossa força-tarefa.

Em algum lugar atrás daquelas janelas, ou quem sabe perambulando por aí à nossa procura, estaria um demônio de írises amarelas, atento ao relógio normal e ao lunar, ponderando se alimentaria a si próprio e ao deus doentio com apenas dois inocentes ou com outros cinco por uma machadada do destino.

Conforme manhã e tarde iam embora, eu observei:

— Não parece exatamente lotada.

Fred fez uma careta cheia de cinismo para me responder:

— Esta mansão é grande o bastante para acomodar qualquer aglomeração sem torná-la óbvia.

— Pode ser, mas acho que aquelas criaturas do parque seriam bem menos sutis. Há crianças entre eles. Silêncio era a última coisa com que se preocupavam.

— Vocês saberão em breve.

Os últimos meses definitivamente haviam servido para provar o quanto eu era ignorante quanto à pessoa de Fred Jones, mas, olhando para a face mortificada de Daphne ante aquele tom sinistro, talvez até a noiva dele fosse um pouco leiga na matéria. E o pior de tudo era que a bizarrice na voz de Fred tinha um quê de ansiedade extasiada. Lembrando da notoriedade de meu amigo por alguns planos absurdos, afirmei:

— Há algo que você está nos escondendo. De novo.

O brilho no olhar dele era tamanho que eu contemplava minha própria imagem ali.

— Todos nós tínhamos de nos esconder por inteiro aqui, mas você não cala essa curiosidade.

— Estou sussurrando. Não pode nos excluir da totalidade de suas intenções ou dará a entender algo que nos deixará nervosos demais para sermos úteis. Quer dar cabo de sua existência, Messias?

— Tenho reputação de imbecil?

Falávamos baixo, porém, a resposta em uníssono de quatro vozes ameaçou gravemente nossa discrição:

— Às vezes sim.

Indignado, Fred trancou-se ainda mais e bufou.

— Então certifique-se de publicar esta noite e o comecinho da próxima em um bom livro. A Daphne pode te ajudar. Eu poderia facilmente ler o que ela escreve sem fazer mais nada por uma semana inteira.

Dizendo aquilo, baixou-se ao mesmo tempo em que erguia o rosto de Daphne para beijá-la. Em respeito à plateia, ele procedeu quase como se fosse um irmão dela, mas a consideração não tocou a própria Daphne, que tentou afastá-lo notavelmente agoniada, na certa sentindo uma expectativa com que não queria corroborar. Olhando-os meio a contragosto, dei-me conta de repente da juventude deles e quis vomitar pelo desperdício ao qual se submeteriam dados os ricos que estávamos prestes a correr.

Ao separar-se dela, Fred olhou direto para mim e ordenou:

— Atenção total. Agora será a hora em que verá praticamente tudo o que precisamos saber. Preparem-se para se esconderem.

Enfim, ele afastou-se agachado e, só muito depois das moitas, endireitou-se, correndo na mesma direção de onde havíamos vindo. Trinta minutos depois, soava um tiro ao longe. A audição mais apurada de Scooby confessou-nos que, junto do barulho, houve também os sons de algum mecanismo em ação.

Daphne levantava-se, pronta para exclamar:

— Que...

Simultaneamente, assombrada pelo conselho final de Fred, vi a porta da mansão abrindo e entendi. Não haveria outra maneira de batermos o covil do inimigo e confirmarmos se este localizava-se de fato ali. Invadir a mansão estava fora de questão pelo desconhecimento das forças nos aguardando. Era mandatório fazê-las sair.

Tapei a boca de Daphne e a pressionei contra o chão, sabendo que não poderíamos desperdiçar aquela oportunidade. Logo em seguida, notei a estupidez de meu gesto e sinalizei para todos me imitarem e subirem nas árvores frondosas e, felizmente, de densas copas, próximas de nós.

Uma criatura saiu apressada da mansão e aproximou-se dos arbustos que há pouco nos abrigavam. Parecia saber exatamente qual direção seguir se quisesse aferir o blefe de que invasores tinham caído em uma das armadilhas, mas, passado o susto inicial, relaxou e não quis, chegando, inclusive, a rir discretamente conforme voltava à forma humana.

O homem que vimos era loiro como aquele que esperávamos, mas qualquer semelhança acaba por aí. Ora eu me concentrava na porta atrás dele ora preocupava-me com o chão pouco abaixo de mim e com as formas cada vez mais crescentes de ser massacrada naquela ilha, pois agora estava sujeita não só às criaturas e aos crocodilos, como também aos porcos selvagens. Tentava consolar-me na aparente solidão de Snakebite e na constância aparente daquele estado no tempo em que o havíamos encontrado, tentava achar que a nudez de suas mãos não seria páreo para cinco pessoas perseverantes, mas ele tinha esperteza e garras superiores, afinal, enganara-nos.

Snakebite voltou para a mansão despreocupadamente. Aquela atitude só podia significar que ele estava seguro da própria posição naquela espécie de fortaleza. Qualquer aliado e recurso que possuísse estava lá dentro, além de Hugo e Fitzgerald. Eu não entendia, entretanto, porque ele se dera ao trabalho de armar tantas armadilhas se não iria checá-las quando fossem ativadas.

Passou-se tanto tempo que a alta noite chegou e Fred retornou. Descemos para reencontrá-lo, com Salsicha murmurando de imediato:

— Eu achava que seria a isca para sempre!

Fred não olhou nem para o sorriso nervoso dele nem para a expressão raivosa de Daphne, concentrando-se direto em mim:

— Ninguém foi naquela direção?

Pude apenas balançar a cabeça, ainda incapaz de verbalizar o que havia visto.

— Quantos saíram?

Respirei fundo.

— Um.

Vislumbrei o branco dos dentes dele conforme ele se entregava à esperança.

— Só Ariel, então?

— Não.

Scooby mesmo explicou:

— É o pescador doido.

Fred arregalou os olhos:

— Snakebite?!

Extravasei uma explicação:

— É. Ele não está armado com algo além da benção do Deus Gato, mas ainda não vi o javali dele, então não me sentiria tão segura.

Ele absorveu a realidade rapidamente e assentiu, continuando:

— E também pode ter certeza de que Ariel está dentro da casa. Deve estar guardando os sacrifícios até a hora correta, mas... – ele franziu as sobrancelhas – Por que Snakebite não veio até mim?

Daphne explodiu, tendo dificuldade para manter a voz baixa:

— Era o que você queria?!

— Claro que não, mas achei que fosse inevitável precisar correr quando forçasse os ratos para fora do bueiro.

Eu estava prestes a revelar como a atitude de Snakebite me inquietava. Provavelmente sugeriria que mudássemos de posição, muito embora fosse tolice, afinal, para onde quer que fôssemos, haveria alguma forma de morrermos. Já não tínhamos a claridade total para nos dar a certeza de que evitaríamos as armadilhas em nosso caminho, estávamos cercados de águas infestadas por crocodilos e, especificamente atrás de nós, um bufar furioso revelou um javali gigante prestes a avançar.

Fred sacou a arma e atirou certeira e repetidamente. Salvou-nos, mas dedurou-nos.

Fora bem mais agradável o som anterior à minha nuca do que aquele surgido em seguida:

— Agora sim. Bem mais perto, coladinho com todos.