Ilha Moonscar, 24 de setembro de 1999.
Espavorido, virei-me e assisti a máscara de humano dar lugar à realidade feral de um desgraçado ganancioso e covarde. Nas últimas semanas, havia acumulado tanto ódio por sua mera expectativa que não parei de atirar enquanto dava-se a transformação, como havia feito com o porco dele, porém, neste os tiros funcionaram, enquanto no dono eram inúteis, mas não me senti mal por aquilo, pois descarregar a raiva ajudava a deixar minha cabeça fria novamente.
A importância das importâncias, meus amigos, detiveram meu braço, ignorantes ao que realmente me motivava a atirar, e gritaram:
— Não servirá! Vamos, Fred!
Estavam certos. Precisávamos pôr espaço entre nós e a criatura enquanto ainda tínhamos algum tempo, nem que fossem apenas milésimos de segundos.
Eu teria adotado a última posição na maratona para guardar a todos, mas era o único a lembrar de cor das posições das armadilhas no caminho em meio àquela obscuridade, então entreguei outra arma carregada para Daphne e fui na frente. A vantagem de correr na frente, além da já citada, era a impossibilidade de verem que eu estava chorando, embora talvez pudessem ouvir, já que eu não conseguia conter soluços. Não chorava daquele jeito desde, aos sete anos, pensar que meu pai morreria após um acidente e contemplar, junto de seu corpo enfraquecido na cama do hospital, a possibilidade de, do dia para a noite, tornar-me o líder de uma família e de uma casa, amparando minha mãe, trabalhando para nos sustentar e administrando nossos bens. Eu não estivera preparado e ainda não estava, pois reduzira o tempo que tínhamos com impulsividade.
Meu objetivo nunca pareceu mais confuso. Havíamos planejado estudar nosso inimigo brevemente e, então, reter a ele ou a eles até a hora certa para o sacrifício expirar. Espertamente, eles se esconderam na casa até ser tarde demais para fugirmos em meio ao cativeiro que eles nos impusessem; sádicos, não queriam nos deixar um minuto sequer de esperança entre cordas e voodoo, como na última vez, ou porque não conheciam as técnicas nem tinham a esperteza ou porque desejavam que morrêssemos imediatamente depois de nos caçarem, sem chance de nos despedirmos um do outro. Se eu não estivesse atormentado de negatividade, reconheceria que aquilo também nos favorecia. Certos da vitória, os inimigos reduziram também o tempo deles. Faltava apenas uma hora para o prazo do Equinócio. Quanto menos restasse de imortalidade garantida aos monstros, melhores nossas chances.
Contornar a primeira armadilha em minha frente lembrou-me de minha ideia de mais cedo, agora a única alternativa, pois, sem tempo para armar as nossas, teríamos de aproveitar as deles. Sabia que seria difícil, pois eles as conheciam melhor que nós tanto em posição quanto em natureza, e ainda havia armadilhas que pudessem ter passado à minha inspeção, mas estava determinado a exaurir minhas forças esforçando-me por aqueles que amava.
Ao contrário de cansar-me com minha desesperada correria, sentia um fortalecimento geral conforme deixava meus sentimentos de carinho, nostalgia e fidelidade me dominarem. Talvez a pressão de nutri-los com aqueles que dependiam de mim tão próximos matasse outrem de infarto do coração, mas o meu estava acelerado demais para parar; meu sangue jamais fluíra tão velozmente do que quando listei todos os porquês relacionados à minha missão.
Precisava tirar todo mundo inocente dali, sendo o melhor marido do mundo para Daphne, assistindo a formatura e a ascensão acadêmica imparável de Velma, entretendo Salsicha e Scooby nas lanchonetes do país durante os fins de semana, restaurando a felicidade na infância de Hugo e libertando justamente Fitzgerald. Acima de tudo, precisava tirar algo positivo daquela maldição de missão e acabar para sempre com a predação a humanos por criaturas-gato.
Se correr já causaria dor a qualquer um eventualmente, a mim, que ainda me recuperava de um ferimento no peito, era uma tortura. Cordas da mais áspera fibra envolviam meu torso e esmagavam-no sem dó. Saber de algo nem sempre equivalia a entender e aceitar, pois eu sabia que sofreria em escala bem maior se Snakebite me pegasse, contudo, não podia me impedir de querer parar um pouco, acima de tudo.
Sem parar de me mover para norte, olhei para trás e vi a criatura nos alcançando enquanto ria, tão psicopata que sequer mostrava fúria por eu ter matado seu bicho de estimação. Associar nossa situação com elos emocionais me fez pensar na estupidez que era continuarmos juntos. Superar a criatura por números não passava de fantasia se nem armas a detinham, exceto se adicionássemos a inteligência conjunta à equação, algo impossível na presente conjuntura. Snakebite continuava sozinho em nossa pista, então poderíamos dificultar a perseguição separando-nos.
Voltando a concentrar-me na travessia, gritei a plenos pulmões:
— Não me sigam mais!
Redobrei minha velocidade e mudei de direção, saindo de uma trilha relativamente conhecida e entrando na floresta. Meu movimento súbito deve ter atordoado a criatura como previ, ou ela simplesmente achava-me muito estúpido, pois, depois de alguns minutos, presenteei-me com a necessária pausa e esperei, agachado atrás de algumas árvores, para conferir se me perseguiam. Notei passos e me arrepiei todo antes de atentar à leveza deles, inviável para Snakebite, mesmo em forma humana. Nem por isso liguei a lanterna. Apesar da escuridão, os olhos de Velma estavam tão esbugalhados que não duvidaria de ela ter usurpado o dom das corujas.
Sussurrei quando ela quase me ultrapassou, confusa:
— Ei, aqui!
Velma pulou de susto, depois baixou os olhos e suspirou ao ver-me, caindo ao meu lado.
— Você teve uma boa ideia. Agora que nos dispersamos, ele terá de perder tempo escolhendo quem perseguir ou buscando reforços na casa.
— Nenhuma opção me parece boa. Onde está a Daphne?
— Ela não deve ter conseguido nos acompanhar. Deve estar com Salsicha e Scooby.
Canibais pareciam estar assando um turista imbecil em minha testa de tanto que ela ardia.
— Aqueles dois são muito rápidos e não esperam por ninguém.
— Não os subestime agora.
— É impossível não o fazer. Nossas motivações são muito diferentes. Nós queremos matar as criaturas. Eles só querem voltar para casa.
— Você quer matar coisas, ninguém mais. Pense positivo: com a vontade dos meninos de voltarem para casa, vão acabar podendo andar sobre a água com Daphne sobre os ombros deles.
— Eu duvido!
— De todo modo, qual seu plano agora?
— O mesmo de antes, mas agora teremos de caçar a criatura-gato primeiro.
— Na primeira vez também era assim, e não tivemos muito êxito.
— Alguma ideia melhor?
— Não. Eu mal lembro meu nome – ela apertou meu ombro saudável sem traços de delicadeza – Só peço para que não banque o Rambo de novo e me deixe sozinha enquanto corre para São Francisco bem em 1906!
Após eu concordar, nós dois nos levantamos e prosseguimos, sempre à sombra das árvores.
Usávamos das noções de Velma sobre a geografia da ilha para contornar pontos de crocodilos ou areia movediça; o cúmplice imundo de Snakebite, porém, enfim surgiu sob o luar, no meio da trilha. Quanto mais ele se mostrava, mais eu e Velma nos encolhíamos à sombra de um denso tronco, rezando pela primeira vez em nossas vidas. Ariel mostrara tanta invulnerabilidade quanto seu amiguinho e eu tinha a impressão de que seria uma fera ainda mais sádica ao se transformar.
O filho da mãe decidiu montar guarda no nosso caminho, obrigando-nos a silenciosamente alterar nossa rota.
Afastando-nos de Ariel, evitamos os conhecidos locais perigosos em favor do desconhecido; melhor a dúvida que a certeza da morte iminente.
Pensei em Daphne, Salsicha e Scooby, já me repudiando por tê-los abandonado e difamado. Eles não tinham como saber que escolhêramos seguir com o plano; podiam retornar para a casa ou seguirem cegamente trilhas até se jogarem entre mandíbulas de feras de todas as espécies. Ou podiam cair nos braços de Ariel.
Eu mataria por uma certeza, fosse qual fosse. Uso nenhum da personalidade ou da alma poderia me responder qual seria nossa situação amanhã de manhã, embora eu apostasse na catástrofe calamitosa, aniquilante e ociosa, pois primeiro seríamos devorados, então despidos de nossa essência e, enfim, privados até do famigerado descanso eterno, forçados, em vez disso, a vagar para lá e para cá até um novo idiota tomar uma atitude contra as criaturas. Faria bem começar a me perguntar se os zumbis raciocinavam, de outro modo, precisaria questionar qual força os movia como fantoches em um automatismo altruísta. Eu nunca mais queria descobrir a existência de algo muito acima de minha ordinária vidinha. Minha curiosidade morrera junto da inocência.
Passei o braço pelos litros de suor em minha testa ao mesmo tempo em que me dava conta da luz mais forte da lua sobre mim. Sem querer, tínhamos voltado para o nosso ponto de desembarque.
Velma questionou-me:
— Acha que ele e Ariel serão obsessivos a ponto de arriscar as certezas com Hugo e Fitzgerald para continuar nos seguindo?
— Eu diria que não.
— A lua está gigante, quase no ponto. Quando começamos a fugir, não faltava tanto tempo e não posso deixar de pensar que... nós tentamos, Fred!
Uma só lágrima caiu do olho dela. O luar fez a gotinha brilhar tanto que mais lembrava uma cachoeira fluindo do rio prestes a transbordar da bacia de suas órbitas.
— Está sugerindo que eu abandone minha noiva?
— Não! Só estou dizendo que aqueles dois podem ser forçados a voltar para a mansão. No horário certo, intruso nenhum os reterá aqui fora.
Eu gostaria de dizer que ela estava errada e que nunca cheguei a cogitar a possibilidade de pegar meus amigos para sair daquele inferno. De fato, havíamos tentado. Teria sido eu tão estúpido a ponto de pensar que mera tentativa obrigava-me ao sucesso? Éramos pessoas de carne e osso lutando contra forças imortais e imateriais.
— O mesmo Salsicha de que eu reclamava acabou acertando.
— No quê?
— Podíamos ter chamado logo as autoridades. Em vez disso, duas pessoas vão morrer em nome da minha arrogância.
— Ele não usou essas palavras. Fizemos o que podíamos. Também não sabíamos se as autoridades viriam conosco.
Novamente, a realidade me mostrou a diferença entre conhecer e aceitar um fato. Com palavras, eu e Velma ainda relutávamos, já nossas pernas apressavam-se na direção do esconderijo de nosso barco. Nossos corpos eram bárbaros indolentes que mereciam justa punição, e esta não demorou nada a vir, pois antes mesmo de puxarmos os arbustos sobre o local de escolha, percebemos que o barco não estava mais lá.
Continuamos a descobrir o espaço vazio apesar dos vislumbres desagradáveis, depois, devemos ter pensado simultaneamente as coisas mais asquerosas, dentre elas a suspeita de que os outros haviam chegado antes de nós e relutado bem menos que nós.
Velma, ainda em negação, agarrou meu rosto e rosnou:
— Foi você?
Eu balancei a cabeça lentamente, mas ela não entendeu, ou não quis ver.
— Você correu para longe de todos naquela hora. Não teve tempo só para fingir acionar uma armadilha. Fez bem mais.
— Por que eu nos mataria assim?
— Então onde está, Fred?!
Pela segunda vez, responderam por nós, de trás de nós:
— Lá para os lados do Dreyfus, a esta altura. Obrigado pelo blefe. Há cinco pontos para se desembarcar nesta ilha e todos eles têm caminhos diferentes convergindo para a mansão, mas só ouvi barulho de uma rota.
Eu interpretei erroneamente as emoções de Snakebite, apenas ousando presumir que não havia ressentimentos entre nós. Que mais explicaria a forma cravada do olhar dele em mim, mesmo antes de eu me virar, além da atenção com que falou-me em seguida?
— Queria me forçar a parar para escolher? Pois bem. Como todo eleitor racional, eu preferi a terceira via.
Não deixou de fitar-me nem ao erguer o dedo indicador e apontá-lo para Velma.
— Vocês são uns estúpidos. Os abortos humanos amam se refugiar em exceções de superação absurda, mas eu os desafiaria a achar só uma pessoa nas ruas que tenha vivido ou presenciado um. Façamos o experimento? Eu empresto meu barco, acompanho os dois e espero que achem até o Equinócio do próximo ano. Que tal?
Velma pôde balbuciar:
— Presumo que nos deixará em liberdade se acharmos.
Bem-humorada, a criatura abriu os braços como se fosse abraçá-la.
— Finalmente fala a mais falante dos últimos dias! Foi maravilhosa a forma como tentou me enganar quanto ao desembarque, mas eu nem saí de casa. Juro que seu orgulho espanta até a mim.
— Acha que me sobra algum?
— Há de sobrar, se continua de pé em vez de nos seus joelhos, uivando de lamentar e humilhar-se. Eu pesquisei sobre você. Tem vida social e se acha inteligente – arqueou o que restava das sobrancelhas e dirigiu-se a mim – Ei, você acha essa menina inteligente?
Velma bradou:
— Qual seu interesse nisso? Não tem porque me distrair com conversinhas banais. Leve-nos logo para a mansão, mas não nos force a te aturar por um minuto extra sequer.
— Pelo seu perfil e comportamento, achei que sacrificá-la não seria boa ideia. Não sei lidar com gente e nem mesmo quero, independentemente da recompensa da imortalidade. Entretanto, quando presenciei a realidade de sua pessoa, decidi enfrentar minhas dificuldades sozinho. Até agora, tem dado certo.
— Nunca teria conseguido nada sem cúmplice, caipira velho.
Snakebite irou-se frente a bravura restante em uma circunstância onde já devia ter se apagado. Ele acalmou-se, porém. Nada tinha a ganhar rendendo-se ao próprio temperamento. Em vez de explodir e vingar-se, preferiu rir de novo, dessa vez debochadamente, enquanto dava as costas para Velma como a um vetusto vendedor de um placebo milagroso.
— E, entretanto, consegui. Meu único cúmplice é o Deus Gato.
Enquanto ele falava, eu me recompus em psicológico e em forças. Aproveitando-me de que não nos olhava, peguei o braço de Velma e comecei a arrastá-la de volta para a floresta. Se Snakebite fora estúpido de preferir se distanciar da mansão para nos seguir, ainda existia chance para todos nós, incluindo Hugo e Fitzgerald, desde que corrêssemos por tempo suficiente para o prazo acabar. Passei a almejar que meus outros amigos encontrassem Ariel para poderem distrai-lo do mesmo modo.
Velma tomou minha dianteira e disparou como eu havia criticado Salsicha e Scooby por fazerem. Gostaria de ter tido o desespero motivador dela, ou quem sabe a vergonha. Em vez de voar, assim que pisaria na orla da floresta, enfiei meu pé em um buraco e, por conseguinte, em uma estaca. Dobrei-o tanto pela dor que devo ter torcido também o tornozelo. Se pudesse pensar, descobriria exatamente porque Snakebite não caíra no meu blefe: o som do meu grito teria superado em muito o de um tiro, mesmo se a armadilha em questão envolvesse muitas balas.
Ilha Moonscar, 24 de setembro de 1999.
Cedíamos ao cansaço depois de minutos correndo sem ver ninguém atrás de nós. Foi uma surpresa achar Daphne atrás de mim e de Scooby, o que muito me alegrou, porque, com ela, faltavam só dois outros ao nosso contingente. Nem eu deixara de contar as horas até o momento do ritual, portanto, sabia do prazo prestes a esgotar. Não acreditava que salvaríamos alguém, mas, pelo menos, navegaríamos de volta ao parque antes de nos transformarmos nós mesmos em zumbis.
Scooby ficou paralisado de repente; um segundo depois, um grito feriu a matéria ao nosso redor, lacerando nossos tímpanos, especialmente os de Daphne, pois vinha de Fred. O reativo grito de susto e pavor dela fez-me pensar que ela se ferira de fato.
Usamos o resto de nossas forças para ir até o local do grito e socorrer Fred. Tive de lembrar a mim mesmo a todo segundo que eu também amava aquele cara, senão jamais ousaria oferecer meu pescoço à forca.
Tentei reduzir a situação mentalmente, imaginando que Fred se metera em alguma briga de bar em que eu interviria e rapidamente solucionaria, não lutando, claro, mas matando os oponentes de rir pela minha compleição de vassoura. Uma pena Snabekite não parecer ter senso de humor.
Já me arrependia de seguir Daphne quando cruzamos com Velma, que dava a volta para ir na mesma direção. Na linha de chegada, estavam Fred e a criatura. O luar iluminava a agonia no rosto de Fred conforme ele erguia o pé empalado de um buraco, quebrando os dentes tamanha a força com que os trincava para não gritar novamente. Sobre ele, Snakebite não continha o riso, e eu entendia o porquê: se nos observara pelos últimos dias e se lembrava de nós do último ano, sabia que nem eu abandonaria um dos meus; todos nós estávamos nos entregando voluntariamente para ele, bem na hora do sacrifício. Hugo e Fitzgerald ficariam para o próximo ano, perfeitos baby-beefs na geladeira de um açougue, e isso estaria bom para Snakebite, pois ele havia garantido o ano seguinte e, neste, ele se alimentaria com cinco em vez de só dois.
Só Daphne se ajoelhou ao chegar perto de Fred. Eu e Scooby não sabíamos o que fazer, mas nossos instintos de uma vida inteira definitivamente eram contra deitar aos pés de nosso assassino, então, quando vimos Velma desviando da criatura e correndo para nosso ancoradouro improvisado, nós a seguimos, mesmo sem entendê-la.
Snakebite veio atrás de nós, com certeza ciente de que Daphne não iria a lugar nenhum com Fred preso pela própria dor, e tampouco disposto a se saciar em dois se podia ter cinco por somente alguns metros.
Não havia outro lugar para se fugir além da água. Com meus joelhos cobertos, lembrei do que a turma me contou sobre a suposta morte do povo de Lena e Simone, então freei e agarrei a manga de Velma. Pelo terror no rosto dela, percebi que ela não soubera estar sendo seguida também por mim e Scooby. Ela murmurou apressadamente:
— Saiam daqui!
— Quem dera! O que veio fazer aqui? Os crocodilos chegarão a qualquer momento.
— Precisamente!
Era impossível acreditar que ela queria ver o que havíamos rezado tanto para não vermos mais cedo, e pior ainda perceber que seu desejo seria realizado. Compactos corpos escamosos brilharam conforme saíam das profundezas, talvez atraídos pelo sangue de Fred e com certeza naturalmente ativos na noite, como evidente pelos olhos malévolos brilhando mais que os das criaturas-gato.
Com muita dificuldade, Velma segurou a mim e a Scooby até sermos quase simultaneamente alcançados por Snakebite e pelos crocodilos, daí ela nos empurrou para o lado e corremos para fora d'água. Snakebite, que estivera concentrado apenas em nós três, não vira os crocodilos; os crocodilos, porém, não só viram como estavam dispostos em se contentar com o imenso espécime tão de bom grado entregue às suas mandíbulas.
Amigo ou inimigo de Snakebite, eu não quis assistir monstros devorando outro monstro. Desviei o olhar para Fred, que, por sua vez, consolava-se no espetáculo, igualando-se por um instante às criaturas-gato por rir em meio a uma maldição.
Scooby mordeu ao mesmo tempo a barra das caminhas minha e de Velma, dizendo:
— Ele é imortal! Ainda temos de fugir.
Eu o ouvi muito bem, e dentro de instantes já estávamos ao lado de Fred e Daphne, tentando levantar o primeiro em nossos ombros, entretanto, Velma nos alcançou rapidamente. Ela precisou bater em nossas costas em vez de simplesmente tocar nossos ombros para obrigar-nos a interromper nossos esforços e olhá-la. Diferente de Fred, ela não apenas ria: gargalhava, e repetia feito uma louca:
— Não, não, não, não!
Para cada negação, ela estapeava o relógio de pulso.
Eu não vi porque me alegrar. Ainda faltavam vinte minutos para o prazo quando ela enganou Snakebite, ademais, Scooby estava certo: ele era imortal... o que só tornou pior suportar a dor de ser devorado sem poder morrer nem perder os sentidos.
Nos segundos finais, ele deve ter se sentido tão libertado quanto as almas que quisera voltar a prender naquela ilha, porque crocodilos, diferentemente de armas de fogo, retinham o que machucavam.
Foi o que esperamos, pois, no minuto um, vendo que Snakebite continuava preso entre os crocodilos, receamos ser os próximos e lembramos de Ariel, que ainda podia sacrificar Hugo e Fitzgerald, daí, voltamos a fazer um esforço para erguer Fred, que ficou entre Daphne e eu. Na situação dele, eu não faria outra coisa senão gemer ou gritar, mas ele ainda achava determinação para ditar instruções de modo que não caíssemos em armadilhas, afinal, voltávamos pela mesma rota que tomáramos na ida.
Chegamos à mansão cinco minutos antes de o prazo expirar, sem nos depararmos com Snakebite ou Ariel.
Eu e Scooby, com empolgação infantil, quisemos saber ainda fora da mansão:
— Vencemos?!
Frustrada, Velma forçou-se a responder:
— Ainda não. Não sabemos como parar Ariel, e se Hugo e Fitzgerald estiverem em qualquer lugar além da casa, Snakebite e Ariel podem já ter conseguido sem percebermos.
Eu queria entender como ela podia fornecer uma resposta daquelas tão rasamente; devia chorar e se debater conforme rangia os dentes e erguia as mãos aos céus por nosso potencial jovem desperdiçado, incluindo o brilhantismo dela, a força de Fred, a doçura de Daphne e sabe-se lá o quê de mim e de Scooby, pois certamente morreríamos se nos deparássemos com Ariel, fortalecido e enfurecido após completar com sucesso o ritual.
A porta da mansão fora deixada escancarada. Eu e Scooby esperamos todos entrarem em nossa frente, até Fred. Deixados sozinhos na soleira da porta, abrimo-nos um ao outro, começando por Scooby:
— Não é mais fácil esperar a hora passar, ficar escondidos até o amanhecer e vigiar por atividade na casa?
Completei:
— Se estiver vazia, investigamos. Se não estiver vazia de criaturas, vazamos daqui.
— Sim!
Velma pôs a cabeça para fora da porta e nos arrastou para dentro.
Lá dentro, Fred sofria no chão, ainda tentando não gritar por nosso bem. Acabada a adrenalina da aparência de vitória e da nova fuga, ele voltava a sentir apenas dor. Não restaram dúvidas de que pereceríamos se justo nosso escudo fora incapacitado.
Meus pais eram mais cultos que eu e me davam uns nomes estranhos em certos dias em que meu humor não era como de costume. Certa vez, atribuíram-me uma tal de "neurastenia", falta de ânimo quase patológica, quando o pai de Scooby morrera; eu podia incorporar o estado de Scooby tanto quanto ele o meu, então jamais estive pior, afinal, agonizar pelos outros sempre doía mais que por mim, pois me esconder ou me empanturrar de porcarias não resolveriam o problema. De novo, eu devo ter parecido contagiado pela neurastenia, porque Velma tentou me dar algum alívio:
— Nossas chances eram efêmeras no parque e aqui estamos. Nossas chances eram efêmeras com Snakebite e aqui estamos. Calma!
— Você tem fé demais para uma cientista.
Daphne tirou munição da mochila de Fred e carregou a arma que antes estivera em poder dele, intervindo:
— Melhor que nos relegarmos à impotência. Precisamos terminar aqui rápido e levar Fred a um hospital.
Velma assentiu:
— Snakebite soltou nosso barco na água, mas mencionou um outro.
Daphne ergueu-se com ânimo determinado e prometeu, tão certa como se houvesse tido uma revelação:
— Nós o acharemos e sairemos daqui com todo mundo – ela virou-se para Scooby e pediu: – Fique com Fred, sim? Se alguém aparecer, lata com todas as suas forças!
Scooby anuiu velozmente, quase em êxtase por ter sido deixado de fora. Senti-me compelido a tentar:
— Eu não posso trocar com ele? Posso latir também.
Velma se pôs a me arrastar de novo e Daphne nem me olhou, ocupada em saltar na cratera onde antes fora a escada, ainda aberta.
Saltamos na passagem secreta e caminhamos breu adentro. As meninas preferiram não ligar lanternas para não alertar Ariel. Apesar de Scooby ser tão medroso quanto eu e jamais ter me protegido de nada além de gordurinhas extras por comer o que me cabia nos pratos, eu me sentia nu sem ele.
Quando chegamos à câmara de sacrifício de Lena e Simone, sentimos não pelas visões obstruídas, mas pela diferença no ar. Não podia acreditar em como não notara o quanto aquele lugar fedia às mesmas carcaças apodrecidas em que eu caíra no parque.
Com o tempo, nossos olhos se acostumaram à escuridão, atenuada pela venerável lua entrando pela claraboia familiar a nós. Abaixo dos feixes de luz, estava outra familiaridade: o relógio. Ao lado, descansava um vulto massivo, de orelhas compridas e olhos brilhantes. Ele parecia aproximar-se, então Daphne fez a única coisa que podíamos para atrasá-lo e distraí-lo enquanto ele ainda tinha limites: atirar. Não fosse a arma tão pequena, eu juraria que ela o havia feito umas oitenta vezes, mas o vulto nem se mexeu.
Escutamos uns gemidos e, convencida de que o fator surpresa estava perdido, Velma tirou uma lanterna da bolsa e acionou-a, iluminando cada extremidade da câmara.
Em um cantinho, amarrados, amordaçados, encolhidos e bem juntos, estavam Hugo e Fitzgerald, pálidos e de olhos esbugalhados, mas ilesos. Onde Daphne atirara estava uma estátua do Deus Gato, sem vida como todo objeto e, entretanto, sangrando copiosamente.
