Definitivamente, eu não pertenço a esse tipo de ambiente.
Eu sempre soube que não fui feito para multidões, mas viver isso na pele me parece ainda mais sufocante do que eu poderia imaginar.
A reunião íntima, como disseram Saga e Kanon é muito mais parecida com uma grande festa, isso sim.
Ao menos, para mim.
Muita gente. Gente que não conheço, nunca vi e nem sei se tenho vontade de rever. Não troquei muitas palavras com ninguém, e nem foi porque eu não quis. Simplesmente, não deu tempo. A cada instante, eu era requisitado por uma pessoa diferente.
Afrodite tinha razão. A série estava fazendo sucesso. Eu não a estava acompanhando, não assistia aos capítulos quando iam ao ar e nem queria saber como as redes sociais estavam falando de nós.
Fiz questão de me manter afastado. Nos meus poucos momentos livres, quando eu não estava dormindo de tão esgotado que tenho me sentido nesses últimos tempos, eu fiquei escrevendo. Fazia tempo que não escrevia minhas músicas. Eu me senti bem em retomar um hábito que sempre me foi caro e, agora, mais que nunca, se faz também necessário.
É minha forma de extravasar, colocar para fora o que estou sentido.
Hyoga tem razão; nas minhas músicas eu revelo muito do que realmente sou.
Minha vida virou de ponta-cabeça, então há momentos em que não sei se ainda me reconheço, se sei quem sou.
Ao menos, quando escrevo, sinto que ainda estou em contato comigo mesmo.
- Ikki! Ikki! Não está me ouvindo?
- Desculpe-me. Falou alguma coisa? – pergunto, voltando a mim. No meio de tantas pessoas, tenho essa tendência de voltar para dentro de mim mesmo.
- Venha comigo! Você precisa ser apresentado a mais uma pessoa. – Kanon fala, animado. Eu queria ir embora. Os gêmeos disseram que Pandora queria falar comigo, mas até agora nem sinal dela.
- Kanon, estou ficando cansado. Ainda preciso ficar muito...?
- Ikki, ânimo! Saga estava sondando o ambiente, conversando com algumas pessoas... Acredito que Pandora chamou você aqui hoje porque tem grandes planos...
Nem consegui sorrir diante disso. Ultimamente me sinto cansado de todos esses grandes planos. Cansado de não ter controle sobre minha vida. Eu sabia que seria assim, mas... não sei... achei que eu fosse aguentar; agora tenho minhas dúvidas.
Só consigo pensar no quanto eu queria estar com Hyoga agora.
Apesar de toda essa loucura, quando estou com ele, consigo me sentir mais em contato comigo mesmo.
- Aqui, Ikki. – Saga se aproximou com um homem ruivo a seu lado – Esse aqui é Mime Benetnasch. Já deve ter ouvido falar dele.
Arregalei um pouco os olhos. De fato, já tinha ouvido sim. Um dos maiores produtores musicais do momento.
- Ele trabalha com a Pandora. Juntos, esses dois formam um time praticamente imbatível. – Kanon sorria largamente.
- E adivinha o que eles querem...? – Saga perguntou, com olhar sugestivo.
- Exatamente isso, senhor Ikki. – olho para o lado e vejo Pandora surgindo diante de mim – Queremos trabalhar com você.
- Que eu saiba... já estou trabalhando para você. – respondo, um pouco incerto do que tudo aquilo significa.
- Não, senhor Ikki. Não, não. – riu Pandora – Não estou falando da série. Quero dizer, é claro que a série faz parte do pacote, mas você sabe que sou dona de uma grande e imponente produtora musical. Estou ampliando meus negócios, mas não vou abandonar meu carro-chefe, que é produzir música. Boa música.
- Eu ouvi suas músicas. São realmente boas. – disse Mime, olhando fixamente para mim.
- E queremos oferecer a você um contrato. Queremos que faça parte do selo da nossa gravadora. – falou Pandora, com um sorriso altivo.
- Eu... não sei. Isso prejudicaria a série? – questiono, olhando para os gêmeos.
- Na verdade, alavancaria a série. – responde Saga.
- Estamos indo muito bem. Mas não queremos contar apenas com a sorte. Se existe a possibilidade de crescermos ainda mais, por que não? – anima-se Kanon.
- E você disse que precisava do dinheiro, Ikki. Não é mesmo? Prosseguiu Saga – Compreende que, se essa carreira musical deslanchar, você conseguirá ganhar uma quantia muito maior? Com o auxílio de Pandora e Mime, é praticamente certo que você se torne uma grande estrela.
- Isso sem falar de toda a projeção que você alcançará. Os contatos que poderá conseguir... – finalizou Kanon.
Fiquei um pouco pensativo. De fato, isso poderia me projetar... eu poderia ter mais facilidade de entrar em contato com grupos ativistas que pudessem me ajudar a criar um projeto de proteção ambiental ao lugar onde fica minha vila... Aliás, se eu conseguir juntar uma boa grana, não precisarei de um patrocinador para esse projeto se concretizar. Eu mesmo poderia ser esse patrocinador.
- Parece... uma boa ideia. – respondo, por fim.
- Maravilha! – exclama Pandora – Temos muito a discutir! A série já mostrou um pouco do seu talento, mas queremos focar mais nisso. Vamos manter a aura de mistério em torno da sua pessoa, porque isso chama público. E faremos algumas apresentações suas que mostrarão um outro lado seu, que não aparece tanto diante das câmeras! Ah, estou animada!
- Poderíamos começar com uma apresentação em horário nobre. Ao vivo. Logo após a exibição de um episódio da série. – sugeriu Mime.
- É uma ótima ideia! Com público! Queremos que comecem a ver que o Ikki que estamos querendo lançar musicalmente não é um personagem da TV; ele é real e as pessoas precisam sentir isso. – Pandora atestou.
A essa altura, eu já não acompanhava direito o que diziam. Estava ponderando internamente se conseguiria encaixar mais um personagem na minha vida. Porque, apesar do que diziam, esse Ikki que eles queriam lançar no cenário musical não seria eu, de fato. Claramente, era novamente mais um personagem que criavam para eu incorporar.
- ... Ikki? Está nos ouvindo? – Saga parece perceber meu devaneio.
- Na verdade... não. – falo sincero, e solto um profundo suspiro – Saga, eu... sinceramente... Não sei se vou dar conta. Eu... quero fazer o que me pedem, porque reconheço que tenho muito a ganhar com isso, mas... Não sei se vou conseguir.
- Qual o problema? – Mime indaga, confuso.
- Não é nada, não se preocupem. – Kanon respondeu – Ikki, podemos dar um jeito de resolver isso. Quando voltarmos ao estúdio, vamos sentar para encontrar um jeito para isso não pesar tanto...
- Não. Há algo mais aqui. – Pandora interrompeu Kanon – Sou muito perceptiva. Não cheguei aonde estou à toa. Há algum problema que não me parece ser mera logística aqui. E eu gosto de estar plenamente ciente de tudo o que diz respeito aos meus negócios. Então, se é para embarcar nesse projeto, quero estar completamente a par de tudo.
Saga e Kanon se entreolharam. Como se pudessem se entender com um simples olhar, os dois acenaram positivamente para Pandora:
- A senhorita tem razão. Há algo que... seria importante você tomar conhecimento antes de qualquer decisão. Mas... não podemos conversar a respeito aqui. Precisamos de alguma privacidade... – diz Saga.
Pandora olha para Mime, que assente com um movimento de cabeça.
- Vamos para o meu escritório. Mime vem junto. Se eu tenho de ficar a par do que vão me dizer, ele também precisa.
Ela não espera por uma resposta. Começa a caminhar e Mime a segue de perto. Saga e Kanon fazem um movimento com os olhos, indicando que é para eu ir também.
Fiquei um tanto surpreso. Eles contariam a verdade...?
- Muito bem. Aqui temos toda a privacidade que poderiam desejar. – Pandora fala, após se sentar em sua cadeira, detrás de uma grande mesa no seu escritório. Mime permanece em pé, próximo a ela, olhando pela grande janela para a noite clara que faz lá fora.
Eu me sentia cansado. Sentei-me em um uma poltrona que estava ali, enquanto Saga e Kanon, em pé diante da grande mesa de mogno, pareciam escolher as melhores palavras para começar o que tinham a dizer:
- Senhorita Pandora... Ikki disse que talvez tenha dificuldades de dar conta de tudo o que essa proposta exija dele porque... não vai ser fácil conciliar as gravações da série com essa nova carreira musical. – Saga começou, falando pausadamente, como se medisse cada palavra dita.
- Não entendo. O ritmo de gravações dele não deve ser assim tão cansativo. – Mime é quem replica – Não são três irmãos? Eles não ficam se alternando nas gravações? Até porque um nunca aceita gravar quando o outro está no set... Ou seja, imagino que Ikki tenha um bom intervalo para cuidar de outros assuntos quando não está gravando sua parte. É pedir muito que ele se dedique a sua música nesses momentos ociosos?
Soltei um riso sarcástico, que não pude conter.
- Qual a graça, senhor Ikki? – Pandora lança um olhar nada amigável para mim.
- Isso tudo. É muito engraçado. – respondo sem fazer questão de me prolongar em uma resposta mais elaborada.
- Posso saber por que acha isso? Caso não tenha percebido, estamos oferecendo a você uma chance de ouro! Sabe quantos artistas hoje gostariam de estar em seu lugar? E, no entanto, você age dessa forma, nos fazendo essa desfeita! Parece até que estamos lhe fazendo um favor. – Pandora diz, com alguma hostilidade.
- Eu sei que não estão me fazendo um favor. Sei que o que estão me oferecendo é uma chance incrível. – falo sério – Não estou querendo fazer desfeita alguma. Só estou cansado de ser julgado assim.
- Assim como? – devolveu Mime.
- Assim. Como se eu fosse um cara idiota que vive tendo ataques de estrelismo.
- Bem, então você vai nos desculpar, senhor Ikki... Mas é o que parece. Está colocando dificuldades para encaixar na sua vida uma incrível carreira musical que estamos oferecendo a você... – continuou Pandora.
- Eu não estou criando dificuldades. Elas existem de fato. – olho para os gêmeos – Olha só, vocês vão falar ou eu falo? – pergunto, já impaciente.
- Tudo bem, Ikki. Pode deixar; eu falo. – Saga toma a frente. Provavelmente, ele percebeu que se eu falasse, seria pior – Senhorita Pandora... Quando meu irmão e eu estávamos à procura do elenco para que a série ganhasse vida... Tivemos bastante dificuldade para encontrar nossos protagonistas.
- Sim. – ela comentou – Fiquei sabendo disso.
- Pois bem... Saga respirou profundamente – Um dia, quis o destino que nosso caminho cruzasse com o de Ikki. E, assim que o vimos, percebemos que ele era perfeito para o papel de um dos protagonistas.
- Não foi fácil convencê-lo a participar da série... – Kanon tomou a palavra – Felizmente, ele acabou por aceitar nossa proposta e, com isso, sentimos que enfim estávamos perto de fechar nosso elenco.
- Faltava apenas resolver o problema de encontrarmos os últimos protagonistas... – disse Saga.
- Foi aí que conheceram os irmãos de Ikki? – pontuou Pandora.
- Então... – Saga começou a falar, buscando as palavras corretas – Senhorita Pandora... O que ocorre é que Ikki... Ele não tem irmãos.
Pandora permaneceu olhando fixamente para Saga, como se esperasse que ele dissesse algo mais, que explicasse melhor essa última informação, que pareceu não fazer o menor sentido.
- Não entendi. – Mime se pronunciou – Como assim, ele não tem irmãos?
Kanon olhou para Saga, que baixou um pouco os olhos, como se ainda investigasse dentro de si a melhor forma de revelar essa parte.
Parece que, finalmente, os gêmeos entendiam que a minha situação não era assim tão fácil de ser revelada.
Resolvi eu mesmo terminar o que eles haviam começado:
- Eu não tenho irmãos. Sou filho único.
Pandora riu, incrédula. Olhou para Mime, que demonstrava um estado de confusão:
- Então quem são aqueles que estão fazendo a série com você? – o ruivo inquiriu.
- Eu mesmo.
- Quer dizer que... – Pandora agora raciocinava rápido – Você interpreta seu irmão gêmeo? É isso?
- Sim. E o Rikki também.
- O Rikki?! – Mime estava estupefato – Eu não acredito! Vocês são muito diferentes! Quero dizer... fisicamente diferentes!
- Que bom que os truques deles deram certo então. – falo apontando com a cabeça para Saga e Kanon – Conseguimos enganar bem.
- Então é por isso que não podem gravar juntos? – Pandora agora se levantava de sua cadeira e vinha em minha direção.
- Claro... Claro... – Mime finalmente começava a juntar os fatos – Não seria possível gravar os três juntos, porque não existem três. Então... era por isso?
- Sim, era por isso. – Saga respondeu – Imagino que esteja se perguntando sobre o porquê de termos agido assim.
- A sugestão de interpretar os outros papéis veio do próprio Ikki. E ele nos mostrou que daria conta. Porém... – Kanon fez uma breve pausa – Vimos que havia uma grande oportunidade aí. Nós sabemos como funciona esse mundo do show business. Polêmicas sempre atraem atenção... e se tornam propaganda gratuita, se soubermos utilizar isso a nosso favor.
- E então vocês resolveram fabricar uma polêmica para alavancar a série.
- Exato, senhorita Pandora.
- E planejavam manter isso em segredo até quando?
- Até o momento em que sentíssemos que a série estivesse bem firmada.
- Hum. – Pandora estava muito pensativa. Passeava os olhos por todo o amplo escritório, como se buscasse algumas respostas dentro de si mesma.
Por fim, ela voltou a se sentar atrás de sua mesa:
- Não nego que tenha sido uma boa estratégia. De fato, funcionou. Antes mesmo da série estrear, falava-se muito a respeito do relacionamento desses três irmãos. – Pandora recomeçou a falar, muito calmamente – Porém, vocês agiram de forma arriscada. Assim como deu certo, poderia ter dado muito errado.
Os gêmeos não responderam qualquer coisa.
- E estavam arriscando um investimento meu. E, como já disse... não gosto que arrisquem meus negócios sem que eu esteja ciente do que se passa. – o tom de voz dela era agora mais duro.
- Perdoe-nos, senhorita. – Kanon falou – Mas nós tínhamos certeza de que daria certo. Por isso preferimos não revelar nada a ninguém.
- Eu não sou ninguém. E não gosto que tomem decisões por mim. – Pandora foi cortante – Espero que isso fique bem claro a partir de agora.
Kanon se calou. Mime então tomou a palavra:
- Diante desse novo cenário... O que acha, Pandora?
- Eu não gostei de ter sido deixada de fora de questões tão importantes referentes a um investimento meu. Fiquei cientes de que, se fosse qualquer outra situação, vocês dois já não estariam mais trabalhando mais comigo ou com Saori Kido. Entretanto... você tiveram a boa sorte de seus planos terem dado muito certo. A série é um sucesso... a polêmica entre os irmãos apimentou uma série que também tem seus méritos... enfim... foi um tiro certeiro.
Saga e Kanon não conseguiram esconder um sorriso de satisfação.
- Contudo, não se esqueçam de que vocês dois jamais, e eu repito, jamais devem fazer algo esse tipo novamente. Estou sendo clara?
- Cristalina, senhorita.
- Se fizerem algo parecido com isso novamente... independente de o resultado ser positivo ou não... Eu acabo com vocês dois. Reduzo a carreira de vocês a pó. Entenderam bem?
Pandora falou com tanta frieza que até eu fiquei um pouco sem reação. Saga e Kanon nada disseram, apenas concordaram com aquela ameaça em silêncio.
- E agora que estou ciente... Sou quem vai dar as cartas por aqui. Vocês jogaram bem até o momento, mas agora uma pessoa mais experiente deve tomar as rédeas da situação. – ela falou e sorriu para mim – Então... Ikki é seu nome real?
- Sim. – respondi, ainda sentado na poltrona e cruzando meus braços sobre o peito.
- Você é talentoso. Mais do que eu imaginava. Conseguiu criar três irmãos bem distintos um do outro. Sabia que os fãs se dividem em relação a eles?
- Como assim? – eu realmente estava muito por fora disso tudo.
- A polêmica gerou uma base de fãs que brigam muito entre si. Mas isso é positivo. Mantém a série sempre em discussão, em evidência. Os fãs discutem muito pelas redes sociais sobre qual dos três é melhor.
- Eu não sabia disso. – limitei-me a responder.
- A discussão é envolvente... Não nego que eu mesma tinha já minhas preferências... – Pandora sorriu mais enigmática – E acredito que será interessante manter esse segredo por mais algum tempo. Enquanto houver essa briga imaginária, os fãs ficarão mais engajados, defendendo seu irmão preferido, mantendo a série como um dos assuntos mais discutidos, a cada capítulo que vai ao ar. E então... quando for o momento propício... Revelaremos a verdade de forma bombástica. Se bem feita, essa revelação pode trazer ainda mais audiência à série.
- Era o que pensávamos em fazer, senhorita.
- E é o que eu farei. Podem deixar que, se existe algo que eu, Pandora Luna, sei fazer, é criar um grande evento. É o que pretendo fazer, mas quando for o momento ideal. Por enquanto, as coisas devem ficar como estão. Até porque, para que a carreira musical que estamos projetando para você deslanche como queremos, nós precisamos do Ikki que existe na série.
- Como assim? – perguntei, sem entender ao certo o que ela queria dizer.
- Precisamos do Ikki que existe na série. O público está familiarizado com ele. O Ikki que tem um irmão gêmeo rebelde, que tem um irmão mais velho e mais centrado... Precisamos disso. Esse contexto já faz parte do imaginário que envolve o Ikki que queremos lançar do mercado. Temos de dar ao público o que o público quer; sem tirar nem pôr. E é isso que o público deseja. O Ikki da série. Com alguns atrativos a mais, mas, ainda assim, o Ikki da série.
Suspiro pesadamente. Como eu imaginava; continuaria sendo um personagem.
- Mas não se preocupe. Agora entendo que seu cansaço não é um ataque de estrelismo. Pelo contrário... Agora imagino como sua rotina deve ser puxada! Você não descansa entre as gravações! Você sempre precisa incorporar um dos irmãos e dar prosseguimento à série.
Sorri de leve. Era bom sentir que finalmente compreendiam minha situação.
- Saga, Kanon... Ikki precisa de tempo para respirar. Para se dedicar à carreira musical dele. Como podemos fazer isso acontecer? – Pandora se dirigiu aos gêmeos em um tom demandante, de quem já espera uma solução rápida e pronta.
- Bem... estivemos pensando nisso. – Saga olhou para mim – Ao contrário do que pensa, Ikki, nós sabemos que você está cansado, que as gravações estão exigindo muito de você. Começamos a conversar com Camus e Milo, pedindo que mudassem um pouco o foco das gravações, para que a história se desenrolasse sem a presença constante dos três irmãos. É um pedido que tem cabimento, porque felizmente o público também tem demonstrado uma ótima recepção com os outros atores. Então os irmãos vão dividir seu protagonismo e a série não precisará ficar tão sobre as suas costas.
- Isso é ótimo! – respondi animado – Camus e Milo não acharam ruim? – imaginei que fossem pensar que eram exigências exageradas de minha parte novamente.
- Não. Pelo contrário, gostaram da ideia. Eles gostaram muito da possibilidade de explorar melhor os outros personagens. Só acharam que os "três irmãos" não fossem gostar muito da ideia. Eles acham que vocês gostam da atenção que recebem e que não vão querer dividir o protagonismo da série.
Eu rio, me divertindo com isso:
- Então vamos surpreendê-los. Eu vou adorar não precisar fazer parte da maioria das gravações.
- Curioso... – Mime diz, subitamente – Você é bem diferente do que eu imaginava. Quero dizer; o fato de você ser na verdade os três irmãos já é muito diferente do que eu esperava, mas... entendi que você é principalmente o Ikki, não é mesmo? Dos três irmãos, é com esse que você mais se assemelha?
- Sim.
- E é um Ikki diferente do que eu imaginava que seria. – Mime finaliza seu pensamento.
- Vamos consolidar tudo isso então. Há pessoas me esperando lá fora e eu precisarei que um advogado me auxilie com algumas questões legais. Mas já posso antecipar que alguns pontos serão cruciais em nosso acordo, senhores. O primeiro e mais importante deles é a respeito do sigilo acerca da não existência dos três irmãos. Isso deve permanecer como um segredo supremo. Ninguém pode saber.
- E ninguém sabe, além de nós, senhorita Pandora.
- Ótimo.
E foi aí que eu soube que precisava falar. Não poderia deixar que meu destino fosse novamente guiado sem que eu tivesse voz ativa:
- Eu quero que uma pessoa saiba.
Pandora, que sorria, fechou a expressão imediatamente e lançou um olhar duro para mim.
- Quem você quer que saiba?
- Eu quero que Hyoga saiba. – respondi sem me deixar afetar pela postura imponente da poderosa produtora.
- Hyoga? – ela franziu o cenho – E por que quer que ele saiba?
- Eu não acho que deva dar tantos detalhes sobre minha vida pessoal. Apenas estou colocando aqui as minhas condições. Até onde entendi, eu sou uma peça fundamental nisso tudo. Tenho o direito de me posicionar também.
Pandora continuou me encarando. Parecia querer ler algo dentro de mim.
Mime então falou:
- Você e Hyoga estão se relacionando? Aquilo que vimos na série é real?
- Mais ou menos. – respondi, sem querer me alongar.
- E com Shun e Shaka? Existe algo também?
- É claro que não! – zanguei-me um pouco – Estão achando que eu sou o quê?
- Calma, cara. – Mime falou, em tom conciliador – Estou apenas tentando me situar. Tudo isso é muito novo para mim ainda.
- Infelizmente... – Pandora chamou a atenção de volta para si – Não poderei permitir que faça isso, Ikki.
Respirei fundo:
- Acontece que é uma condição que não estou colocando para ser discutida. Ou ela é acatada, ou não temos acordo.
- Você não pode abandonar a série. Já assinou um contrato conosco. – Pandora, falou, rispidamente.
- Eu sei. Não vou sair da série. Mas não assino contrato com sua gravadora. E com Saga e Kanon, eu nunca assinei nenhum contato que me proibisse explicitamente de não contar a verdade.
Pandora fulminou os gêmeos com seu olhar:
- Isso é verdade?
- Sim, mas... – Kanon começou a se explicar – Não achamos que seria necessário... Foi um acordo verbal, porque Ikki demonstrou essa personalidade autossuficiente, de não querer se envolver com ninguém... Não parecia provável que ele um dia fosse ter essa urgência de compartilhar um segredo desses com alguém...
- Além disso, não imaginamos que a polêmica dos três irmãos fosse crescer tanto. Imaginamos que, quando a série tivesse início, já fôssemos revelar a verdade... A ideia seria chamar a atenção para atrair o público para a série quando ela estreasse. Depois... tudo seguiria normalmente... Até porque nós sabíamos que seria difícil sustentar essa forma de gravação por muito tempo. Uma hora, os diretores, roteiristas, os outros atores... todos iriam reivindicar que os três irmãos se entendessem e que as gravações acontecessem como deveriam. Enfim... achamos que a situação não duraria tanto... mas ela foi se desenrolando de uma forma que as coisas ganharam proporções que não tínhamos pensado que ocorreria. – disse Saga.
- Exato. Porque vocês não enxergam a longo prazo como eu. – disse Pandora – Eu consigo ver um mar de possibilidades se tudo for feito como se deve. Há um futuro grandioso à sua espera, Ikki. Está disposto a abrir mão de tudo por causa de um colega de cena?
- Ele não é só um colega de cena. E estou disposto sim a continuar apenas atuando na série. – finalmente, me levanto da poltrona – E acho que vou indo agora. Combinei com Hyoga de conversar com ele sobre isso. Ele deve estar me esperando.
- Ikki. Isso com o Hyoga... Está realmente tão sério assim? – Saga me perguntou, mas sem agressividade. Ele parecia mesmo querer entender o que se passava.
- É sim, Saga. E eu já demorei tempo demais para revelar a verdade a ele.
- E você acha que ele vai aceitar bem quando souber que você o esteve enganando todo esse tempo? – Mime perguntou.
- Não sei. Realmente não sei. Mas só vou saber quando falar com ele. É o que pretendo fazer agora.
- Você está apostando muito alto, Ikki. Eu, sinceramente, não acho que ele vá aceitar bem. Veja só; eu nem sou tão próxima de você e ainda estou tendo alguma dificuldade de digerir essa verdade que me foi revelada agora. Só estou aceitando razoavelmente bem porque percebo que posso lucrar com isso. Entretanto... o seu amigo... Eu não sei se ele terá motivos para compreender tudo isso. – Pandora argumentou, caminhando até mim.
- Olha... – eu sorri, um pouco de nervoso com a possibilidade que eles estavam levantando e que eu sabia que era realmente muito possível de acontecer – Se vocês me falassem tudo isso até um tempo atrás... Eu concordaria com tudo... Eu não me deixaria afetar tanto por alguém que eu sequer sei como reagirá diante do que tenho para falar. Eu nunca colocaria tanto do meu futuro nas mãos de outra pessoa, em meio a tantas incertezas. Eu realmente sempre fui muito autossuficiente, Kanon. A vida toda, na verdade. Sempre dependi de mim, apenas de mim, para tomar todas as decisões na minha vida. Nunca me imaginei considerando mais alguém em um momento tão crucial como esse. Mas... – e abro um sorriso maior – Mas... Simplesmente... aconteceu.
- Você está disposto a abrir mão de um futuro incrível, que eu estou oferecendo, com base em um futuro incerto? Baseado numa possibilidade remota com esse rapaz? Baseado na expectativa de uma chance que ele vá lhe dar, depois de você contar que o enganou todo esse tempo? Será que não percebe que é praticamente certo que ele não vá nem olhar na sua cara depois de saber da verdade? E aí será tarde, Ikki. Você já terá deixado escapar essa carreira incrível que estou entregando a você de bandeja! – Pandora falou, finalmente demonstrando-se um pouco exaltada.
Meu sorriso ficou um pouco triste. Entretanto, eu tinha claro para mim minhas prioridades no momento:
- Como eu já disse... É um risco que estou disposto a correr.
Pandora colocou as mãos na cintura, parecendo incrédula do que ouvia. Balançava a cabeça negativamente, olhando para Mime. Por fim, ela baixou um pouco o rosto, pensativa.
- Está bem. Estou disposta a fazer uma nova oferta.
Não posso negar que me surpreendi. Eu não estava esperando por isso. Não estava blefando.
- Nessa nova oferta eu posso contar a verdade a Hyoga?
- Não.
- Então não me interessa. Obrigado. – e, já sem paciência, encaminhei-me para a grande porta do escritório.
- Senhor Ikki. – Pandora foi firme em suas palavras – Não gosto de ser contrariada. Se sair por essa porta, garanto que vai se arrepender.
O tom de voz dela me fez compreender que era melhor ouvir o que ela tinha a dizer.
- O senhor está jogando fora a oportunidade de uma carreira promissora na música. Muito bem. Diz que não lhe fará falta, porque ainda pode contar com esta série, que vai tão bem no momento, certo?
Engoli em seco. Percebi aonde ela queria chegar.
- Mas o senhor parece se esquecer que essa série depende também muito de mim. Saori Kido conta comigo e está disposta a tomar decisões a partir do que eu lhe disser. Se eu disser que não vejo futuro para essa série, que ela acabará trazendo grandes prejuízos, que o sucesso de agora é momentâneo e que vejo uma tempestade à frente... Enfim... Não é difícil inventar motivos para isso. Um fracasso é muito mais fácil de se fabricar do que um sucesso. Portanto, meu caro... Isso significa que, se eu disser a ela para dar um fim à série, é o que ela fará.
Foi a vez dos gêmeos se manifestarem:
- Senhorita Pandora! Não pode estar falando sério!
- Estou falando muito sério. – ela respondeu, com uma calma desconcertante e voltou seu olhar tranquilo para mim – Senhor Ikki, se sair por essa porta, pode considerar essa série cancelada.
- Senhorita Pandora! – Saga estava fora de seu controle habitual – Por acaso, esquece todo o investimento feito nesta série? Tudo o que já foi gasto para chegarmos onde estamos hoje? Isso sem contar as centenas de empregos que estão ligados a essa série hoje! Não pode tomar uma decisão tão leviana assim, apenas porque Ikki está se indispondo com a senhorita...
- Está me chamando de leviana? – Pandora fuzilou Saga com seus olhos violetas.
- Eu... – Saga ponderou por um segundo. Mas terminou o que queria dizer – Sim. Estou. Isso que está ameaçando fazer é atitude de uma menina mimada, que faz birra para conseguir o que quer.
Kanon arregalou os olhos para o irmão. Saga, entretanto, não parecia se arrepender minimamente do que havia dito.
- Entendo. – Pandora respondeu, ao cabo de alguns segundos – Bom... felizmente, não dependo do que você pensa a meu respeito para fazer o que bem entendo. – e voltou-se novamente para mim – Dependo apenas de saber qual sua decisão diante do que acabei de falar, senhor Ikki. Como vai ser?
O ambiente estava pesado. Saga e Kanon não diziam mais nada; apenas olhavam para mim, abatidos. Mime não parecia surpreso com a atitude de Pandora, mas me observava com alguma ansiedade.
E Pandora... demonstrava-se tranquila.
Com um sorriso cruel estampado na face.
Ela sabia que eu não seria capaz de sacrificar o trabalho de tantas pessoas.
- Você disse que podia me fazer uma nova oferta... – eu falei, sentindo a garganta seca. E com os olhos flamejando de raiva.
- Sim. Estou disposta a um acordo que não seja tão duro para você. Podemos combinar um prazo para você revelar a verdade ao seu amigo. Apenas o tempo necessário para consolidar tudo o que estou ambicionando no momento. Estou com expectativas altas e sei que, jogando com as peças certas, podemos alcançar todas elas.
- Um... prazo? – passo a mão pelo meu rosto, sentindo-me ainda mais esgotado.
- Sim. Preciso fazer alguns cálculos, mas acredito que seja algo em torno de... um ano, mais ou menos.
Um ano. Minha cabeça começou a latejar de dor.
Só conseguia pensar em uma coisa.
Estúpido. Por que demorei tanto a contar para ele...?
- Mas, veja só. – Pandora voltou a falar, interrompendo meus pensamentos – Ao contrário do que Saga disse, não sou uma menina mimada que pensa apenas em mim. Se quiser ter algo com esse seu amigo, não vejo problemas. Se quiser se envolver com ele, vá em frente. Contanto que não revele esse segredo, você pode fazer o que quiser, com quem quiser.
Não digo nada. Não me sinto em condições de argumentar.
- E, como eu disse... há uma festa esperando por mim. Podemos fechar esse acordo apropriadamente depois. Por agora, desejo apenas uma resposta sua, senhor Ikki. Mesmo que você não assine um contrato hoje, sei que posso confiar em sua palavra. – ela disse, com algum cinismo.
- Está bem. – foi só o que pude dizer.
Pandora demonstrou-se satisfeita.
- Maravilha! Esta noite vai entrar para a história! Você verá, Ikki! Vamos fazer de você um astro!...
Não respondi. Apenas me dirigi para a porta.
- Ah... Só mais um detalhe. – a produtora disse e eu precisei respirar fundo para não me exaltar – Como a estrela que pretendo criar é o homem com que muitas mulheres sonham, como um objeto inatingível e muito desejado por elas... Preciso que o Ikki seja solteiro, está bem? Um lobo solitário, que não encontrou alguém para caminhar a seu lado. Ou melhor, a única mulher que eventualmente estará a seu lado, serei eu, mas apenas por negócios.
Franzi o cenho, olhando para essa mulher, que me parecia tão ardilosa agora.
- Então, se quiser se envolver com seu amigo, trate de fazê-lo como Rikki... Ou Ikky. O Ikki tem de ficar livre e desimpedido, vivendo apenas para a música que fará comigo.
- Eu faço minha música sozinho, muito obrigado. – eu disse, secamente.
- Você entendeu o que eu quis dizer. Vou cuidar da parte da produção, da divulgação... só isso. Eu sei que artistas precisam ter seu espaço e estou disposta a dar esse espaço para você. Contanto, é claro, que esse espaço não seja ocupado por mais ninguém. Preciso vender sua imagem como a de um homem misterioso, enigmático, que se torne um desafio para qualquer mulher conquistar. Entendido? Pode ser?
Nem sei por que ela ainda me perguntava, se já sabia a resposta que eu daria.
Sadismo, talvez.
- Pode ser. – falei, sem grande convicção.
Pandora não disse mais nada. Estava satisfeita. Lançou um breve olhar para Mime e os dois deixaram o aposento. Quando ficamos apenas eu e os gêmeos, falei:
- Podemos ir embora?
Os dois não disseram nada, apenas saíram e eu os segui. Tínhamos vindo juntos. Saga e Kanon não estavam também mais interessados em ficar naquela festa. Deixamos a mansão de Pandora e, uma vez dentro do carro, Saga dirigiu a uma velocidade razoavelmente alta.
Permanecemos um tempo em silêncio, até que eu disse:
- Vire nessa rua.
- Por quê? – quis saber Kanon.
- Eu quero ver o Hyoga.
- Ikki... – Saga me olhou de relance – Você vai...?
- Eu não vou quebrar o acordo feito, podem ficar tranquilos.
- Então... o que quer fazer?
- Eu não sei ao certo. Mas preciso falar com ele. Preciso contar a ele alguma verdade.
- "Alguma" verdade?
- Sim. Preciso oferecer alguma verdade para ele. É literalmente o mínimo que posso fazer agora.
- Ikki, olha... não quero me intrometer mais, mas... – Saga continuou – Há uma verdade no que Pandora disse. Como acha que ele ficará quando souber de toda a verdade?
- Eu não sei...
- Você acha justo se envolver com ele agora? Talvez, seja melhor esperar passar o tempo desse prazo que Pandora colocou. Talvez assim Hyoga não se sinta tão traído, quando você contar a ele a verdade. Pelo menos, durante esse tempo, se você não se envolver com ele... Não parecerá tanto uma traição quando você puder contar a verdade. – Saga pontuou, com a voz serena.
Kanon olhou para mim, interrogando-me com os olhos.
Saga parou o carro próximo do prédio de Hyoga.
- E então, Ikki? Vai mesmo querer descer para falar com ele?
Olhei pela janela do carro.
Vi que a luz do apartamento dele estava acesa.
Ele ainda estava acordado.
- Ikki? Como vai ser...?
Respirei fundo.
Tinha tomado minha decisão.
Não sabia se era a melhor decisão no momento.
Mas eu não conseguia ver outra saída...
Continua...
