Deitado em minha cama, sinto que não consigo descansar nem um pouco.

Permaneço acordado, sentindo-me mais desperto do que nunca.

Os olhos fixos no teto do quarto e nem sei quanto tempo já se passou desde que cheguei à minha casa.

Saga me perguntou se eu iria descer do carro para falar com Hyoga.

Era o que eu mais queria.

Eu sentia que tinha de vê-lo, falar com ele...

Mas, ao mesmo tempo, eu não podia.

Nunca me senti tão preso quanto naquele momento. E odiei a sensação.

Por um instante, estive prestes a abrir a porta, sair do carro e ir até Hyoga. Eu queria simplesmente falar com ele. Dizer qualquer coisa...

Porém, a razão veio a mim e me fez perceber que seria ridículo aparecer ali sem saber o que dizer. O que eu faria? Hyoga abriria a porta, me veria ali e eu ficaria como um idiota sem saber o que dizer?

Seria ridículo.

Por isso, eu disse aos gêmeos que me trouxessem de volta ao estúdio. Disse que tinha desistido de falar com Hyoga.

Percebi, obviamente, um certo alívio da parte deles, embora eles tenham sido discretos.

Cheguei ao estúdio, que estava bastante vazio e silencioso. Vim direto para minha casa; tomei uma ducha rápida e me deitei na cama.

Não consegui dormir.

Resolvo me levantar e ver que horas são.

Assim que me sento sobre a cama, olho pela janela do quarto e vejo que, pela coloração do céu, daqui a pouco deve amanhecer.

Não dormi nada a noite inteira.

Sinto a cabeça rodar, nenhum pensamento parece ficar, tudo parece tão confuso...

Ou melhor, há uma ideia que fica pairando sobre minha cabeça, o tempo todo. É uma ideia que vai, volta, some por alguns segundo e logo regressa com força...

Continuo pensando em ir falar com Hyoga. Vê-lo.

A ideia de simplesmente estar com ele não me abandona.

E quando a razão tenta se fazer presente, questionando-me o que vou dizer se eu for até lá... Continuo sem respostas.

- Droga. Droga!

Levanto-me da cama de vez.

Vou até o banheiro, jogo uma água fria no rosto.

Encaro meu reflexo no vidro do espelho.

- Droga!

Vou até o meu closet.

Olho para as roupas ali. Estilo Ikki. Estilo Ikky. Estilo... Rikki.

Sem pensar direito, começo a retirar dos cabides algumas peças de roupas do Rikki.

Sem pensar no que estou fazendo, começo a vesti-las.

Ainda sem fazer questão de organizar meus pensamentos, dirijo-me para o grande espelho do ambiente e começo a pentear os meus cabelos ao modo de Rikki.

Visto o par de óculos que ele sempre usa.

Sem me preocupar em entender o que faço, simplesmente desço as escadas e, com uma certeza que não compreendo, caminho para fora da minha casa.

Minha mente está nublada, não consigo pensar com clareza. Mas meus pés caminham com segurança para o seu destino.

É muito cedo. Não há ninguém nas ruas. O céu está em um tom de azul escuro.

Vou caminhando e passo por uma cafeteria.

A preferida dele.

Estava abrindo. Entro de imediato.

Só dois funcionários lá dentro. Ambos me reconhecem. São simpáticos, tentam puxar algum assunto, mas acabam percebendo que não estou querendo conversar e respeitam meu espaço. Foram tão gentis que até sorrio como agradecimento antes de sair com os dois copos grandes de café.

Meus pés continuam seguindo seu caminho, tão seguros e certos de seu destino.

Eles param apenas quando chegam diante do prédio.

Toco o interfone. Apenas uma vez.

Não foi preciso mais que isso.

- Alô? – sua voz não parece de quem acaba de acordar. Parece cansado, mas não sonolento.

- Hyoga...?

Não preciso dizer mais nada. Imediatamente a porta principal do prédio se abre para que eu possa entrar.

Tenho pressa. Entro no prédio, atravesso rápido o hall de entrada. Subo as escadas sem hesitar um passo sequer.

Chego ao andar, viro um corredor...

E ele está já do lado de fora do apartamento, com os braços cruzados sobre o peito, esperando por mim.

- Rikki. – ele abre um sorriso. E eu simplesmente retribuo com um sorriso, talvez ainda maior.

- Oi. – olho para ele, que veste um abrigo branco com detalhes azuis – Eu acordei você?

- Não. – ele responde, com um tom sereno – Não consegui dormir esta noite.

- Preocupado com o Shun?

- Também. – os olhos azuis me encaram com profundidade. Parecem querer me penetrar, me desvendar assim...

- Eu... trouxe café. – falo, enquanto apresento os copos para ele. O olhar do loiro me deixou desconcertado.

- Ah. O meu preferido. – ele sorri, pegando o copo que lhe ofereço.

- Sim. Da sua cafeteria preferida.

Hyoga ri de leve.

- Eu me lembro que você quase derramou seu café em mim, quando nos cruzamos lá. Você se lembra?

- Lembro. Você entrou correndo lá. Uma péssima ideia, considerando que você estava entrando em um ambiente onde se vende bebida quente.

- É... – Hyoga riu, divertido com a recordação – Eu sei que deveria ter sido mais cuidadoso, mas estava preocupado com minha entrevista com o Shaka...

- E nem adiantou correr daquele jeito, porque acabou perdendo a entrevista do mesmo jeito.

- É, mas tudo bem, porque seu irmão conseguiu me arranjar outra entrevista com ele depois...

E foi assim que, só de mencionar Ikky na conversa, o clima, que estava fluindo com leveza, pesou.

Hyoga ficou olhado para o copo, que segurava entre os dedos.

E eu... olhando para a janela do corredor, falei sem pensar:

- Quer dar uma volta?

Hyoga levantou os olhos para mim, com alguma curiosidade. E, com um sorriso, demonstrou aceitar meu convite.

Saímos e as ruas continuavam desertas. Um ou outro passante pelas calçadas, mas muito eventualmente. O céu tinha uma coloração cada vez mais clara.

Em breve o sol iria nascer em toda a sua magnitude.

Não dissemos para onde íamos.

Mas ambos simplesmente caminhávamos para o mesmo lugar.

A praia.

Não falamos nada durante o curto percurso. Seguimos sentindo a brisa fria da manhã contra o nosso rosto, enquanto caminhávamos tranquilamente.

Era estranho... a simples presença dele me trazia uma sensação de paz...

Chegamos à praia, mas continuamos caminhando, em silêncio.

Um ao lado do outro, bebendo pequenos goles de café.

Não sei por quanto tempo caminhamos assim.

Eu continuava não sendo capaz de prender um único pensamento em minha mente.

Mesmo assim, do mesmo modo que ocorreu com meus pés...

Minha boca, sem que eu a pudesse controlar, como se estivesse muito segura do que pretendia fazer, começou a falar:

- Hyoga. Eu não costumo fazer promessas...

O loiro parou de andar assim que ouviu minha voz. Nossos olhares se encontraram e eu engoli em seco.

Minha mente estava confusa, mas não era ela quem guiava minhas palavras nesse momento.

Eu estava deixando meu coração falar:

- Na verdade, eu não costumo fazer muitas coisas que... comecei a querer fazer depois que conheci você.

Os olhos claros de Hyoga traziam uma certa interrogação.

- Eu fiz uma promessa a você antes de ir com os gêmeos para aquela festa.

- Sim.

- Eu não costumo fazer promessas porque... Bem, eu levo minha palavra muito a sério para empenhá-la assim, a qualquer momento. Isso quer dizer que, se eu prometo, eu cumpro.

Hyoga não disse nada. Apenas me fitava intensamente.

- Eu prometi a você que conversaríamos sobre o que eu queria te dizer... quando estávamos no carro.

- Certo.

- E eu vou cumprir essa promessa. Custe o que custar. Mas...

- Mas...?

- Mas... – suspiro pesadamente – Eu não vou poder cumpri-la toda... agora.

- Ah. – Hyoga sorriu tristemente.

- Hyoga, eu juro que vou cumprir essa promessa. Eu não estou falando por falar! Mas eu realmente não tenho como fazer isso agora. Há coisas que eu simplesmente não posso te dizer neste momento...!

- E antes de sair com Saga e Kanon você podia? – Hyoga fala, com algum ceticismo.

- Podia. Eu sei que parece um absurdo, mas... É. Sim. Antes, eu podia.

- Então... aconteceu algo nessa festa da Pandora?

- Aconteceu. – não me importo de dizer isso. Não estou revelando o segredo ao contar essa parte.

- E... o que houve?

- Essa é a parte que não posso contar.

- E essa parte está relacionada com o que você queria me falar quando estávamos no carro?

- Sim.

Hyoga me olha, parecendo um pouco confuso. E então ele recomeça a andar pela praia.

Coloco-me a seu lado, caminhando junto a ele.

- Não consigo entender o que pode ter acontecido em um espaço de tempo tão curto, que faça um assunto se tornar subitamente proibido.

- Não foi subitamente... Já era algo que... eu não deveria lhe contar. Só que agora, se tornou expressamente proibido.

- Isso não faz o menor sentido, Rikki. – Hyoga riu, mas com um semblante entristecido.

Que sensação horrível! Ver como ele estava por conta de uma situação criada por mim me fazia sentir um aperto no peito terrível!

Eu nunca me preocupei muito com as outras pessoas. Claro, sempre soube respeitar os outros, agir de acordo com o que se espera de quem vive em sociedade... Mas sempre tive meu espaço, minha solidão, e achava que isso me bastava.

Nunca me preocupei em prestar muita atenção nos sentimentos dos outros. Nunca parei para prestar muita atenção nos outros. Sempre achei que isso, de alguma forma, poderia me prender... E desde que deixei minha vila, eu busquei a liberdade. Queria ser livre.

Reconheço que, por esse motivo, cheguei a tomar atitudes egoístas... não por mal, mas simplesmente pelo costume de pensar apenas em mim.

O que estou fazendo pela minha vila é algo quase inédito. Antes, eu só havia me preocupado com meus pais, além de mim. Decidir participar dessa série, apenas para salvar o lugar onde vivi boa parte da minha vida... Do qual eu quis fugir, assim que pude... Isso foi estranho. Mas fez todo o sentido agir assim. Apesar de tudo, eu não poderia fazer nada diferente disso.

Simplesmente, agi com o coração.

E agora... algo semelhante acontecia.

Eu não quis me envolver com Hyoga. Não foi planejado. Decididamente, não foi planejado! Dentro de todos os planos que eu fiz, para tentar ajudar minha vila, me envolver com um colega de cena só poderia ser uma péssima ideia! Ainda mais envolvendo um segredo que eu não deveria revelar a ninguém.

Kanon tinha razão quando disse que, ao me conhecerem, não sentiram necessidade de fazer um contrato no qual eu me comprometesse em ficar quieto. Eu era assim naquela época. Uma pessoa que não tinha qualquer intenção de se envolver com ninguém. Para quem eu poderia revelar esse segredo? Para ninguém. Afinal, eu não teria proximidade com ninguém para isso.

Mas o Hyoga... até agora, não sei exatamente como... mas ele fez tudo isso mudar.

Foi tão natural, tão sutil... Eu nem percebi... começou talvez com uma leve atração... mas... isso foi crescendo... cada vez mais rápido, e sem que eu compreendesse que isso estava acontecendo comigo...

Sem perceber que... estava mudando algo em mim.

- Hyoga...

Ele olha para mim, enquanto tenta prender a franja loira que a brisa da manhã insiste em jogar contra seus olhos claros.

- Eu cometi um erro. Eu deveria ter te falado antes, quando eu podia... Mas antes... eu não sabia que devia. Eu ainda não tinha percebido... Não tinha entendido o que estava acontecendo...

Ele me olha sem parecer entender o que digo. Também pudera! Tantas frases que parecem não ter conexão alguma entre si...!

- Mas agora... agora que finalmente consegui entender o que se passa comigo... Agora que eu enfim entendi o que é isso que eu estou sentindo... Agora que eu compreendi que eu devia falar com você, eu... Eu não posso. E não é mais por eu ter dúvidas, se deveria te contar ou não. Agora eu tenho certeza de que deveria te falar, entende? Mas... a situação mudou e ter essa atitude afetaria muita gente que não tem nada a ver com isso.

- Como assim...?

- Eu não posso cumprir a promessa que te fiz e contar tudo o que eu gostaria porque, se eu agir assim, estarei prejudicando muita gente.

- Rikki... Afinal, o que aconteceu nessa festa?

- Nada de mais. Se eu agir de acordo com o esperado, não terá acontecido nada de mais. Tudo continuará como está.

- E isso é bom?

- Para todo mundo que não tem nada a ver com essa bagunça em que eu me meti... Sim, é bom. Para eles, é o melhor a ser feito.

- E para mim, Rikki? É o melhor a ser feito?

Nesse instante, Hyoga parou e fui obrigado a encará-lo. Ele me olhava com tristeza e eu experimentava sensações que nunca antes havia vivenciado.

- Então... é assim.

- Assim o quê? – Hyoga me perguntou sem me entender.

- É assim que uma pessoa se sente... Quando começa a se importar verdadeiramente com outra.

- Rikki... Como assim...?

- É claro que eu me preocupava com meus pais. – comecei a falar, com o olhar perdido dentro de mim mesmo – Mas é diferente. Talvez por ser filho, eu achasse que essa preocupação fazia parte, era natural. Nunca achei que pudesse realmente me preocupar de verdade com outra pessoa, além de mim. Não era por mal, sabe? Eu só... não sabia ser de outro jeito.

O semblante de Hyoga se tornou mais leve. Os olhos claros dele até brilhavam um pouco agora.

- Eu não sei o que acontece... Talvez essas gravações estejam mexendo demais com a minha cabeça, eu não sei... Só sei que estou diferente... Eu me sinto diferente, Hyoga...

Hyoga percebeu meu estado. Acho até que ele notou que eu tremia um pouco. Ele segurou em minha mão e me puxou para que nos sentássemos na areia, diante do mar.

- Eu devia ter te contado antes. Eu fui egoísta. Você tinha o direito de saber.

Hyoga olhou para o mar, pensativo.

- É tão terrível assim? Isso que você precisa me contar?

- Sim. Eu não tinha percebido antes, porque não tinha parado para pensar em como minhas atitudes poderiam impactar os outros. Não costumo pensar desse jeito. Só que... Você me fez sentir... diferente. E, desde que comecei a me sentir assim, eu passei a entender que estava sendo muito injusto com você. Você tinha o direito de saber. Não é justo você se envolver com uma pessoa que esconde algo assim...

- Rikki. – Hyoga me interrompe de supetão – Você matou alguém?

- O quê?! – respondo, estupefato – Claro que não, Hyoga!

- Me desculpe, mas do jeito que você está falando... – Hyoga riu um pouco.

- Não, não tem nada a ver com isso... – acabo rindo também.

Rimos um pouco, o que ajudou a abrandar a tensão do momento.

Estávamos os dois olhando para o mar, quando vimos que o sol começava a nascer.

- Hyoga, o que eu não posso lhe contar... é algo que diz respeito a mim. É uma grande verdade a meu respeito, que você não conhece. E, por não conhecer, é como se... você não me conhecesse verdadeiramente. Quero dizer, sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas nesse período em que convivemos... Você se mostrou um pouco para mim... e eu me mostrei um pouco para você. O problema é que, por você não saber o que escondo, eu... não sei se podemos considerar o que você sabe a meu respeito como verdadeiro.

- Rikki, você está me deixando muito confuso.

- Eu acho... que você ficará muito chateado quando souber a verdade.

- Por quê?

- Porque você vai achar que tudo o que eu mostrei de mim para você é uma grande mentira.

- E é, Rikki? Tudo o que você está me mostrando... Tudo o que você demonstra ser... É mentira?

- Hyoga... é difícil explicar.

- Não é, não. Ou você está mentindo, ou não está.

- Não é bem mentir, Hyoga... mas, como não posso te revelar a verdade... Você acaba tendo uma visão distorcida de quem eu realmente sou.

- É isso, então? Esse segredo todo gira em torno de quem você realmente é?

- Bem... basicamente... é isso.

- Você gosta de ler, Rikki?

- Como é? – pergunto, sem entender aonde ele quer chegar com isso.

- Você gosta de ler? Realmente gosta de todos aqueles livros sobre os quais comentou comigo naquele dia em que esteve no meu apartamento?

- Sim, claro...

- Todo o papo que tivemos... sobre livros, filmes, música... Você foi verdadeiro no que dizia? Na paixão que demonstrou por esses assuntos?

- Fui, Hyoga. Juro que fui.

- Quando conversa comigo... Você é espontâneo...?

- Sou. – respondi, de coração.

O sol nascia e ia trazendo um pouco mais de cor para aquele rosto tão pálido.

- Eu me sinto muito à vontade quando estou na sua companhia, Rikki. Já lhe disse isso.

- Sim. E eu também me sinto assim, Hyoga.

- Isso aqui... aqui, agora... essa conversa... Ela é verdadeira, não é?

- Sim, Hyoga. Estou sendo transparente em relação ao que sinto com você.

- Então, aqui... Neste exato momento... Eu estou com você, de verdade, certo? Não uma "versão distorcida de quem você realmente é".

Olho para o loiro, perplexo com suas palavras. Sim, ele tinha razão... Pelo menos ali, naquele momento, eu estava sendo completamente verdadeiro com ele.

- Sim. Você está certo, Hyoga.

- E esse seu segredo... Por acaso... A proibição vem de Saga e Kanon? Ou de Pandora...?

Em vez de responder, baixo meu rosto. Para Hyoga, isso foi o suficiente como resposta.

- Entendi.

- Hyoga, eu...

- Tudo bem, Rikki. Eu sei como esse mundo do show business funciona. Sei que é um mundo em que coisas sórdidas acontecem... subornos, chantagens... enfim...

- Hyoga, eu juro que estou agindo da forma mais limpa e honesta que me é possível nesse momento. Por favor, não pense que estou jogando baixo, escondendo verdades de você, porque estou querendo tirar proveito de alguma situação...

- Eu não sei bem o que pensar, Rikki. – ele passa a mão pelo rosto, parecendo realmente esgotado.

O sol já havia despontado em todo seu esplendor. Recebíamos seus raios calorosos em cheio em nossa face.

- Hyoga... eu sei que você não tem motivos para confiar em mim, mas... Quero fazer outra promessa para você.

O loiro olha para mim, com uma expressão curiosa.

- Eu prometo que nunca mais deixarei que esse mundo me cegue como já aconteceu. Porque eu estive cego, Hyoga. Cego para tantas coisas... Mas isso não vai mais acontecer. Eu sei agora o que se passa comigo. Sei bem quem eu sou... E o que eu quero.

- E o que você quer, Rikki?...

Olho para o mar, para as ondas que vêm quebrar na praia...

- Uma vez, você me perguntou se eu não queria conhecer o que é o amor, se eu não queria vivenciar isso. E eu disse que não tinha interesse, porque não sabia se valia a pena...

- Eu me lembro disso. Você esteve bem na defensiva, nesse dia.

- Exato. Porque você estava conseguindo me afetar de um modo que eu não conseguia compreender... mas agora eu compreendo. Eu compreendo o que sinto... e o que quero.

Hyoga pareceu entender o que eu disse. Pareceu ficar levemente corado. Ou então, era o sol que trazia esse rubor à sua face.

- Mas não se preocupe. Eu não estou pedindo nada a você. Como eu disse, Hyoga... Não é justo com você e estou finalmente entendendo isso. Não estou em posição de te pedir qualquer coisa... E você também não está em condições de tomar qualquer decisão... Não quando você não dispõe de toda a verdade para poder decidir.

- Olha! Não é o Hyoga?

Repentinamente, sentimos que fomos tragados pelo mundo real. Eu nem tinha reparado como a praia já tinha começado a encher. Algumas pessoas se aproximavam de nós agora.

- Ei! É o Rikki?

Nós nos levantamos e cumprimentamos as pessoas rapidamente. Não queríamos ser desagradáveis, mas também não estávamos interessados em ficar ali conversando com os fãs da série, que começavam a aparecer em mais quantidade.

Fomos andando, a passos rápido, tentando sair dali.

- Estamos longe do meu apartamento. Andamos tanto pela praia que nem notei o quanto me distanciei de casa.

- Estamos perto dos estúdios. Olha, ali, naquelas docas. Parece um armazém abandonado.

Seguimos para lá, tentando nos desviar de mais pessoas que começavam a encher a praia, fazendo caminhadas, passeando com cachorros...

Despistamos a atenção de alguns grupos que tentaram nos acompanhar e, discretamente, sumimos da vista deles.

Assim que entramos no que pensávamos ser um armazém abandonado, fomos surpreendidos. Era um pequeno estúdio abandonado.

- Que incrível! – Hyoga olhava ao redor, parecendo maravilhado – É um velho estúdio mesmo. Provavelmente, foi engolido pelos grandes estúdios que chegaram aqui.

- Deixaram muita coisa para trás. – eu falo, enquanto vejo algumas câmeras por ali, bastante ultrapassadas para os dias atuais.

- Parece que viemos parar em um mundo paralelo. Como se tivéssemos aberto as portas do passado!

- Realmente. Esse estúdio deve ter fechado há um bom tempo... – observo a poeira no lugar.

- Rikki! Olha isso!

Aproximo-me de onde Hyoga está e vejo que ele abre uma espécie de armário.

- Olha quantos figurinos eles deixaram para trás! E bem guardados! Estão em boas condições, até...

- Incrível. – eu falo, observando o lugar. Havia um ar de encantamento ali.

Olho melhor para Hyoga, que caminha encantado pelo lugar. Alguns raios de sol passam através dos vidros empoeirados e incidem sobre ele. Nesse momento, o loiro parece um anjo.

Como se percebesse meu olhar sobre ele, Hyoga volta seus olhos celestiais para mim. O encontro desse olhar foi forte para mim e acredito que para ele também. Então, o momento é quebrado com o som do celular de Hyoga tocando:

- Alô? Oi, Shun. Como você está? Ah, eu só saí para fazer uma corrida. Você sabe que às vezes gosto de sair para correr de manhã. Está bem. Estou indo. Tchau.

- Era o Shun? Como ele está? – pergunto, realmente preocupado com o garoto.

- Está bem. Veio para o apartamento para tomar um banho, trocar de roupa. Estranhou quando chegou e não me viu lá. Ele disse que vai voltar para o hospital, mas que gostaria de me ver antes de ir.

- Claro. Ele precisa do seu apoio.

- Sim, ele é meu melhor amigo.

Silêncio. Havia muito a dizer, mas nenhum de nós se aventurou a falar qualquer coisa.

- Eu... vou chamar um táxi. Chego mais rápido assim. – ele me diz, como se precisasse se justificar por algo.

- Vou fazer o mesmo. Também preciso voltar para casa.

Fizemos cada um uso do aplicativo de carona... E, assim que o carro dele chegou, Hyoga abriu a porta... porém, antes de entrar, ele olhou para mim e disse:

- Eu não sei como será quando você finalmente puder me contar toda a verdade, Rikki. Realmente, não posso prometer que conseguirei aceitar bem, até porque não parece ser um segredo qualquer.

Baixei o rosto, triste. Claro que eu não estava esperando nada diferente disso. Ele estava no seu direito e não era bom mesmo que eu ficasse criando grandes esperanças. Mesmo assim... doía ouvi-lo dizer essas palavras.

- Mas...

Quando ouvi esse "mas", levantei o rosto imediatamente. Eu não queria, mas meu coração se segurava às esperanças que não me abandonavam.

- Eu posso prometer que... Eu não vou me esquecer do que aconteceu aqui hoje. Isso tudo foi verdadeiro, não é? Não pretendo me deixar cegar, Rikki. Esse mundo nos coloca em situações que nos confundem, mas há momentos assim que são tão plenos de certezas... – ele sorriu para mim – Não posso dizer que isso aqui será o bastante quando seu segredo vier à tona, mas... Posso prometer que o que vivemos hoje não será esquecido.

Eu sorri de volta e então ele entrou no carro.

Fazia uma belíssima manhã.

O sol brilhava intensamente no céu.

E nos despedimos assim.

Continua...