Notas do Autor

Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor desse texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas à JK Rowling.


Capítulo 7


Severus.

A aula começou, e eu olhei para encontrar seu assento vazio. Eu podia ouvir os restantes dos alunos cochichando entre si que tinham apagado com êxito o seu nome do quadro. Mas seria preciso mais do que uma aula perdida para inviabilizar o status de Hermione. Ou eu estava apenas sendo bom porque eu mesmo que tinha fodido tudo? Eu não estava realmente certo agora.

A imagem que eu tinha criado em minha mente de Hermione Granger tinha quebrado diante dos meus olhos pela revelação dela. Bastava pensar nela que eu me sentia mal. Será que ela se sentia culpada o tempo todo?

"— Então, quando eu lancei o feitiço nos meus pais, a magia reconheceu o meu ressentimento secreto por ter nascido filha de trouxas."

A voz dela soou em minha mente novamente e novamente, era como um filme de terror que não saía da minha cabeça, não importava o quanto eu usasse meu poder de Oclumência para sufocar a lembrança.

A classe zumbia sem que nada de significativo acontecesse. Normalmente eu estaria pressionando-os mais duramente, tentando obter reações deles. No entanto, hoje, eu me senti como se eu fosse o único fora do meu jogo. Eles não poderiam saber, para eles, eu estava sendo pior do que nunca, mas eu sabia que não era por causa de nada do que tinham feito. Eu estava irritado comigo mesmo.

Sinceramente, eu não tinha ideia do que eu consegui fazer para dispensar a classe mais cedo, mas não permaneci mais tempo do que eu precisava.


— Tenha uma boa noite, Sr. Snape. — Betty me disse quando saí do escritório.

— Obrigado, vejo você amanhã.

Enfiando as mãos no bolso, eu saí do Saint Mungus e caminhei pelas ruas frias do centro de Londres para acalmar meus pensamentos. Não sei por quanto tempo vaguei, até que achei que era o suficiente e aparatei no meu jardim. Andei até os degraus da entrada, quando parei de repente. Lá estava ela, sentada no terceiro degrau, esperando por mim.

— Oi. — Hermione se levantou. — Eu sei que é tarde, mas eu posso entrar?

Sem saber o que dizer ou como reagir, e aterrorizado de que eu pudesse, mais uma vez, estragar tudo, eu confirmei com a cabeça e abri a porta para nós dois. Uma vez lá dentro, ela não se moveu da porta.

— Eu só queria dizer que sinto muito. — Disse ela, esfregando as mãos. Essa reação demonstrava o quanto ela estava nervosa. — Foi completamente errado da minha parte explodir com você daquele jeito, para não mencionar inadequado. Afinal, não tinha como você saber o porquê do Obliviate ser o meu pior feitiço. E, como todos os seus outros alunos, eu realmente concordei em deixar você falar sobre mim na sala de aula, então minha experiência pessoal não devia...

— Pare. — Eu disse, sem conseguir aguentar vê-la pedindo desculpas para mim. Eu segurei seu rosto e senti prazer no fato de que ela ainda se inclinou para o toque. — Sinto muito, eu deveria tê-la avisado.

— Como você poderia? Por que você deveria? Você fez o que tinha que ser feito...

— Eu fiz o que eu queria fazer, sem me importar como isso teria ferido ou afetado você. Eu não tenho que trazer traumas pessoais dos meus alunos à tona. Eu só fiz isso por causa de como você reagiu à simples menção dos seus pais. Aberforth já tinha me alertado sobre você lamentar algo que causou a eles e quando você me contou do seu pior feitiço, fui inteligente o suficiente para ligar os fatos. Eu fiz isso porque eu queria saber mais sobre você, e assim eu forcei uma situação desnecessária. — Disse rapidamente, antes que ela pudesse me interromper.

— Você é um idiota.

— Eu sei.

— Você não precisava me pressionar, se tivesse paciência em esperar e me perguntasse gentilmente, eu teria contado.

— Não tenho tanta certeza.

— Por favor, não olhe para mim como se eu estivesse quebrada. — Ela sussurrou, não encontrando o meu olhar.

Levantando o queixo dela, eu a obriguei a olhar para mim.

— Eu não estou.

— Você está pensando isso.

— Eu definitivamente não estou. — Disse suavemente, quando eu corri meu polegar sobre o lábio inferior dela.

Ela estava tão perto.

— Eu tenho que ir.

Nenhum de nós se moveu.

Se ela me beijasse agora, ela se tornaria uma aluna que conscientemente seduziu seu professor, e se eu a beijasse me tornaria um professor que caçava suas alunas. De qualquer maneira, nós dois estávamos ferrados. Me inclinando, eu fechei a distância entre nós. Nesse momento, tudo o que tinha sido suprimido no último mês voltou correndo para mim. Atirando minha varinha para o lado eu a segurei, e suas pernas serpentearam imediatamente em torno de mim. Ela moldou ao meu corpo e suas mãos agarraram o meu cabelo, enquanto nossas línguas se colidiam.

Eu não tinha ideia de como conseguimos ir até o quarto. Quando chegamos à cama, ela se afastou apenas tempo suficiente para eu tirar o suéter dela e jogá-lo para o canto. Ela varreu meu casaco dos meus ombros e arrancou minha túnica com um movimento fluido.

Eu beijei o estômago dela, enquanto tirava seu jeans. Ansiosamente arrastei meus beijos para baixo, parando apenas tempo suficiente para puxar a calcinha dela e suas costas arquearam, enquanto eu esfregava meus dedos contra ela. Minha língua seguiu o mesmo caminho e eu a lambi, lentamente.

— Pare... de brincar comigo. — Ela protestou, enquanto balançava contra a minha língua e dedos.

Ela estava certa. Eu não queria brincar, eu só queria tê-la. Ela se esfregou contra mim e eu não pude deixar de sorrir.

— Ansiosa? — Perguntei, levantando um pouco a cabeça.

— Você não está? Ou tem alguém com você?

Agarrando-lhe o pulso, eu a prendi debaixo de mim.

— Nem sequer brinque com isso.

— Por que não...?

Eu a beijei, silenciando-a antes que ela dissesse qualquer outra coisa louca. Ela gemeu na minha boca, assim que eu entrei nela. Mas por mais que a urgência em nos reconciliarmos tivesse nos feito atracarmos-nos como loucos. Eu não consegui ter autocontrole suficiente para apenas transar com ela. Eu queria fazer amor. Eu tinha perdido isso. Então, eu suavizei nosso beijo e a mantive o tempo inteiro debaixo de mim, protegendo-a com meu corpo enquanto me movia lenta e apaixonadamente, era o que qualquer um de nós queria e precisava.

— Severus…

Eu sempre amei, como ela chamava meu nome quando chegava ao clímax. E vendo a expressão em seu rosto, eu não consegui me conter também, grunhi e atingi meu próprio ápice. Exausto, caí em seu peito, e ela me abraçou. Eu fiquei tanto tempo quanto eu poderia, saboreando o momento e a sensação dela, enquanto ouvia seu coração lentamente voltar ao normal.

Este momento foi igual o último dia de nossa semana juntos, só que agora, nós dois estávamos cientes de que sentíamos algo um pelo outro. Algo muito maior do que apenas a luxúria do nosso primeiro encontro. Naquela semana não tínhamos ideia se nos veríamos outra vez, muito menos que nossas vidas se cruzariam de novo. Éramos praticamente um mistério um para o outro, mas agora, nos conhecíamos melhor. Ou pelo menos, eu deveria tê-la conhecido melhor, mas eu fui um bastardo e não me importei o suficiente.

Quando ela tentou se levantar, eu rolei, tentando dar o espaço que ela precisava. Mas olhar para ela buscando suas roupas com o olhar, era demais.

— Não vá. Passe a noite.

— Eu não posso, Severus.

— Por quê?

Ela se virou e olhou para mim.

— Você sabe por quê.

— Eu sei, mas fique de qualquer maneira.

— Severus, por favor, não torne isso mais difícil para mim...

— Para você? Isso não é difícil apenas para...

Ela se virou, movendo-se para cima de mim e me beijou rapidamente.

— Eu já disse a você a maior parte da minha história, eu só vou terminar com isso agora para que você possa entender.

Tudo o que eu pude fazer foi assentir.

— Meus pais estão em Sidney. Eu os mandei para lá antes da guerra, alterei a memória deles para se convencerem de que eram Wendell e Mônica Wilkins. Eu queria apenas dificultar para Voldemort, ele podia os encontrar e os interrogar sobre mim e os garotos, afinal, eu contava aos dois muita coisa sobre eles.

— Houve uma missão para procurar sua família. Bellatrix era a cabeça.

— Ela faria o mesmo que fez com o casal Longbottom, não faria? — Ela disse com os olhos beirando lágrimas.

— Faria. — Confirmei. — Você fez bem em bani-los.

Notei que ela engoliu em seco antes de continuar.

— Quando sobrevivi à busca pelas Horcruxes e a batalha final, procurei por eles e tentei desfazer o feitiço. O irônico disso tudo é que na época em que o lancei, eu até me orgulhei em ter conseguido um encanto suficientemente forte para que eles vivessem seguros e felizes como Wendell e Mônica Wilkins, mesmo se eu não sobrevivesse. Eles não sabem que tem uma filha.

— As medidas que você tomou para proteger a sua família, expressam o quanto eles significam para você. — Eu falei suavemente. — Eu posso estragar tudo com o que vou dizer agora, mas não enxergo o seu feitiço de memória como um fracasso.

— Para mim é. Eu quero estar na vida deles, Severus. Quero ter meus pais de novo. Eu amava a minha família.

— Você se afastaria deles de qualquer forma, Hermione. São de mundos completamente diferentes. Todos os nascidos trouxas acabam iniciando a família deles somente a partir da descoberta da magia. Gringotes faz um cofre da família Granger a partir de você, seus pais não existem em nosso mundo.

— Não precisa ser assim, Severus.

— Mas é! — Eu respirei fundo, estava cansado demais para iniciar uma discussão com Hermione sobre leis mágicas. — Não carregue um fardo que não precisa carregar, por favor. Use sua inteligência.

Ela me olhou e eu vi tristeza refletida em seus olhos.

— Estou usando minha inteligência, Severus. Você acabou de dizer que o mundo mágico não se importa. Então, eu sou tudo o que meus pais tem, e eu tenho que ser a melhor Curandeira que eu puder, para que eu possa voltar até a Austrália e tirá-los do mundo imaginário onde eu os coloquei, antes que seja tarde demais para mim. Eu não terei coragem de destruir a família imaginária deles, se meu irmão ou irmã estiver grande o bastante para perceber que sua família é uma farsa. Preciso me especializar e ser a melhor Curandeira e desfazedora de feitiços de memórias que eu puder. Então agora você pode entender por que eu não posso ficar aqui com você? Eu preciso de você para me ensinar, e você não pode fazer isso se você estiver transando comigo.

Ela saiu de cima de mim e reuniu o resto das suas roupas, enquanto eu me sentava e tentava colocar meu cérebro para funcionar.

— Hermione.

Ela não olhou de volta, em vez disso ela foi se vestindo.

— Hermione.

Agarrando minha túnica, eu a segui pelas escadas.

— Desculpe-me, eu perdi sua aula hoje professor Snape, isso não vai acontecer de novo. — Ela disse por cima do ombro enquanto tentava abrir a porta.

Eu a fechei com um floreio de mão e um feitiço não-verbal.

— Você tem um hábito horrível de fugir de mim.

— Chama-se autopreservação.

— Eu chamo de besteira. Olhe para mim.

— Não.

— Hermione, olhe para mim!

Ela ainda não se mexeu. Que teimosia do inferno!

— Apenas me escute, e então eu vou deixar você sair.

— Certo.

Ela se virou e eu a beijei. Ela me beijou de volta por uma fração de segundo antes de me afastar.

— Isso é o que eu deveria ouvir?

— Eu entendo que isso é complicado, confuso e fodido. Mas também sei que você sente alguma coisa por mim, e eu fui estúpido o bastante para me deixar sentir algo por você. O fato é que eu não vou viver outros vinte anos de negação. Como também não quero que você o faça. Eu sei como é se sentir assim.

— Sério? Então me diga professor, como eu me sinto? — Ela retrucou, cruzando os braços.

— Confusa. Frustrada. Feliz. Chateada e excitada, tudo ao mesmo tempo.

— Isso poderia ser qualquer pessoa...

— Eu não terminei. — Rosnei para ela. — Você sente tudo isso, mas acima de tudo, você se sente como se não houvesse mais ninguém no planeta que fará você se sentir tão viva como quando você está comigo. Você sabe.

— Essa é uma afirmação absurdamente convencida.

— Eu sou uma pessoa consciente e responsável do meu efeito sobre os outros. E acredito que podemos fazer isso funcionar, juntos. O que me diz?

Ela suspirou

— Talvez seja bom para você, Severus, mas não é para mim. Qualquer coisa que você me dê em sala de aula, vai parecer que realmente não fiz por merecer. Qualquer coisa que você tirar, eu vou sentir como se fosse por despeito. Não importa o quê, eu ainda vou me sentir assim se fizermos isso.

— Então não vamos rotular isso. Vamos só...

— Vamos continuar só transando? — Ela terminou.

Eu segurei minha raiva.

— Odeio quando você fala assim! Você não ouviu nada do que eu disse?

— Mas não é isso o que está sugerindo? Você acabou de dizer que é isso o que você quer! — Ela retrucou.

— Não. Não é verdade. Eu quero ir a encontros com você, quero que nós possamos nos conhecer melhor para evitar o tipo de drama que enfrentamos naquela sala de aula ontem.

Ela ainda não cedeu.

— Se alguém descobrisse, eu estaria arruinada. Você é Severus Snape, você ficaria bem. Homens sempre ficam bem nessas histórias, podem fazer o que quiser, mas no final de tudo, ninguém irá duvidar de você. Eu, por outro lado, cometo esse erro e acabou. Ninguém vai se importar que lutei naquela maldita guerra, nem que tenho uma Ordem de Merlin merecida, nem que eu sou a bruxa mais inteligente da minha geração. Alguns idiotas vão vir e reivindicar que eu sou apenas uma aluna que dormiu com o professor para obter vantagens. E eu trabalhei muito duro para voltar atrás agora!

— Então ninguém vai descobrir, e mesmo se alguém nos visse, eu passei anos sendo uma droga de um espião e posso mentir através dos meus dentes. Quanto aos seus pais, eu tenho acesso aos melhores feiticeiros, você não imagina o poder que possuem. E nós precisamos trazer os melhores livros de feitiços e maldições para que possamos usar na pesquisa em busca de reverter o feitiço de memória sem danos colaterais, quem você acha que tem acesso a uma biblioteca boa o bastante?

Ela baixou a cabeça, permitindo que o cabelo caísse para frente, mascarando seu rosto.

— Deixe-me pensar sobre isso. — Ela pediu e mesmo com o rosto escondido, pude ver que lágrimas escorreram de sua bochecha.

Não havia mais nada que eu pudesse dizer ou fazer. Eu tinha lhe dado uma opção e era hora de deixá-la decidir. Minha garota queria fazer minha vida mais difícil possível. Recuando, eu lhe permiti espaço suficiente para abrir a porta e senti o bolo amargo em minha garganta, quando eu a vi sair.


Hermione.

Eu não sabia o que estava correndo mais rápido; minha mente ou meu coração. Ele era o homem que falava mais suavemente que eu já conheci. Não considere sua oferta, eu disse a mim quando entrei em minha casa. Você só disse que pensaria para sair da lá.

— Que diabos!?

Eu gritei, quando vi Luna, sentada no sofá soltando fumaça colorida pelos ouvidos, enquanto Rolf, sem camisa, estava ocupado beijando o pescoço dela. Eles pularam rapidamente quando entrei.

— Saia! — Eu gritei para ele, e ele agarrou sua camisa e levantou em um pulo do sofá.

— Luna... — Disse ele, virando-se para ela.

— Agora! — Eu gritei, antes que ele pudesse falar outra palavra.

— Realmente, Hermione? Você não está sendo um pouco hipócrita? — Ela olhou para mim, e acenou para o namorado ir lá para fora.

Minha mão se contraiu.

— Primeiro de tudo, eu nunca trouxe um homem em casa enquanto você estava vivendo comigo. Em segundo lugar, eu e você concordamos sobre isso e lembro que conversamos muitas vezes. Você mesma concluiu que não dá pra ficar a vontade em uma casa com um estranho zanzando por dentro dela. E eu sei que Rolf não é um estranho, mas estou tentando manter a ordem aqui.

Sentando no sofá, eu novamente lutei contra a vontade de literalmente dar um tapa nela.

— E que porcaria é essa saindo no seu ouvido? — Perguntei, quando eu peguei da sua mão o que parecia ser um cigarro multicolorido.

— É como se não fosse uma droga. — Ela argumentou.

— Tenho certeza que se eu chamasse um policial trouxa e perguntasse se ele poderia verificar isso para mim, ele discordaria. Não é como se você não fosse tão alienada antes, mas por que você anda fazendo coisas tão estúpidas agora? — Eu disse a ela cruelmente.

Sua boca caiu aberta.

— Hermione! — Ela esganiçou, indignada.

— Nem se atreva a ficar indignada comigo! Primeiro aquele troço no nariz. Depois notas baixas em mazioologia e agora drogas? Quem é você? Porque a minha amiga Luna Lovegood, é muito mais esperta do que isso.

— Alguns de nós quer se permitir viver um pouco depois de eventos pessoais sombrios. — Ela assobiou para mim. — Diversão? Você já ouviu falar disso?

— Isso não são maneiras certa de se divertir!

— Talvez não para você. Eu nem sei se você tem algum osso de divertimento em seu corpo, você sempre só estudou e se preocupou com todo mundo e nunca se diverte. Bem, você está apenas vivendo não é?

— O que há de errado com você? — Eu perguntei a ela.

— Nada está errado!

— Mentira. — Eu estava me esforçando para manter a calma. — Você não soa como a Luna, nem fala como ela.

— Sou apenas uma pessoa diferente agora.

Ela caminhou em direção à porta, mas eu pisei na frente dela bloqueando seu caminho.

— Luna, eu vou estouporar você antes de deixá-la sair por aquela porta e fazer qualquer coisa estúpida.

— Seja como for, Rolf provavelmente vai dizer a todos que você é uma pessoa estranha. Eu costumava gostar de pessoas estranhas, mas você deixou de ser uma estranha legal e eu não gosto de você assim. — Respondeu ela, caminhando para o quarto. — Vou buscar os pelúcios e vou falar com ele.

— Se você trouxer ele de volta, eu te digo que eu vou te envergonhar mais ainda. — Eu avisei e ela bateu a porta.

Suspirando, eu caí no sofá, antes de me lembrar o que eu mesma tinha acabado de fazer, com um grunhido de desgosto, fui para o banheiro tomar uma ducha fria e me acalmar. Só depois do meu próprio humor se estabilizar, eu percebi que podia ter cedido, afinal, Luna também passou por muita coisa internamente.


Severus.

— Corra Severus, o mais rápido que puder. — Disse Astoria para mim, quando ela saiu da mansão Malfoy em seu vestido verde oliva. Sua barriga se projetando como uma bola debaixo de um cobertor. Draco surgiu ao lado dela e a ajudou a descer as escadas. Ele estava vestido com suas melhores vestes bruxas, que eu vagamente lembrei de tê-lo visto usar somente uma vez antes.

— A festa não está apenas começando? — Perguntei, achando graça enquanto eles tentavam uma fuga.

Ela balançou a cabeça para mim, balançando seus cachos escuros.

— Eu simplesmente não conseguia lidar mais com isso. Narcisa trouxe uma banda, eu tive que sair de lá.

Eu balancei a cabeça, estes eventos exigiam muito de Astoria. Ela — bem, nós — ambos nos sentíamos como se estivéssemos expostos para todos os membros da elite Bruxa. No entanto, por causa de percalços da minha profissão, precisava socializar com meus contatos frequentes e ficar em alta com alguns dos meios de comunicação e público. Então, eu era melhor em fingir interesse no evento.

— Você usou a sua gravidez, não foi?

Ela sorriu, mas se inclinou rapidamente quando outro casal foi orientado para entrar na casa.

— Esta barriga serve para muito mais coisas do que só esconder os meus pés. — Ela piscou, agarrando a mão de Draco. Como ele conseguiu sair com ela, eu nunca saberia, Narcisa adorava exibir seu filho.

— Desculpe deixá-lo sozinho com eles. — Disse Draco, embora eu não tivesse certeza de que ele estivesse tão pesaroso como ele dizia estar.

— Tudo bem, eu sei onde eles escondem as coisas boas.

— Eu sinto falta de beber. — Astoria suspirou.

— Ok, hora de ir para casa. — Disse Draco, ajudando-a descer as escadas.

Por um breve momento, eu desejei que Hermione estivesse comigo, mas eu empurrei esse pensamento da minha mente assim que imaginei o quanto seria estrondosamente perturbador para ela, vir até a mansão onde tinha sido torturada quando era adolescente. Com um muxoxo, eu me dirigi para dentro.

Com certeza, era tão ruim quanto Astoria tinha feito parecer. As festas dos Malfoys me faziam sentir como se eu tivesse pulado de volta para uma década distante. Os pisos de mármore branco, o grande candelabro e as taças de cristal. Tudo e todos aqui eram alguém no mundo bruxo, e se vestiam para provar isso, túnicas e vestidos de mil galeões, suportes de varinha de ouro para cada homem e diamantes e pérolas adornando o pescoço, orelhas, pulsos e mãos de cada mulher presente, era uma festa típica de bruxos puro sangue.

— Obrigado. — Eu disse diretamente para um elfo doméstico, quando ele me entregou um copo.

Ele balançou a cabeça, um pouco atordoado, acontecia o tempo todo, eles geralmente passavam a noite inteira trabalhando e sendo ignorados por todos os convidados presentes. Sempre que alguém realmente dizia algo a eles, eles ficavam bem surpresos, como se eu tivesse apenas roubado o seu manto invisível.

— Severus! — Narcisa me chamou.

Ela estava vestida com um longo vestido vermelho, e tinha o mesmo ar altivo em seus olhos azuis, o cabelo loiro agora chegava a altura de seus ombros. Ela beijou meu rosto e sorriu.

— Estou tão feliz por você estar aqui. Será que você viu Draco? Ele acabou de sair.

— Sim. — Respondi. — Eu o encontrei saindo. Você está linda.

— Muito obrigada, querido.

Ela acenou a varinha e limpou o batom da minha bochecha.

— Eu vejo que ela marcou você também. — Disse Lucius, quando veio por trás dela. — Que bom que você pôde vir, Severus.

— Eu tinha uma opção? — Respondi, ganhando um olhar ofendido de Narcisa.

Lucius ficou cara a cara comigo, os longos cabelos loiros já apresentavam fios grisalhos e olhos cinza demonstravam um genuíno interesse no que acontecia ao redor. Ele costumava odiar festas como estas, até que a guerra acabou. Ele era um ex Comensal da Morte, mas, ao contrário de mim, foi declarado culpado. Escapou de Azkaban apenas por causa de Narcisa. Potter declarou que se não fosse por ela, a guerra teria sido perdida e ela implorou que o perdão fosse estendido para o marido. Sem muita surpresa, a influência do nome e riqueza deles, pesou, e o governo bruxo concordou em conceder uma espécie de condicional para Lucius. Narcisa precisou fazer um voto perpétuo de responsabilidade pelos atos dele. Então agora, Lucius era apenas um homem que bancava e participava de festas, para falar sobre seus dias de glória do passado anterior a era Voldemort. Eu quase me sentia mal por ele às vezes. Quase.

— Venha comigo, eu tenho alguém que eu quero que você conheça. — Narcisa disse quando ela me puxou para a sala de jantar onde o resto de seus convidados estavam.

— Narcisa, calma ou você vai tropeçar em seu vestido.

Por que ela estava com tanta pressa?

Ela me calou com um olhar e me levou até o bar, onde uma morena bonita com olhos verdes brilhantes, vestida de preto, estava.

— Elena, este é o melhor amigo da nossa família, Severus. E esta é Elena Colton. Ela e eu éramos colegas de quarto durante a minha especialização em Beauxbatons. Sua família recentemente se mudou para Londres. — Ela nos apresentou com o mais vasto sorriso estampado em seu rosto. — Ah, eu já volto, Lucius está me chamando. — Disse ela, quando bateu em retirada.

— Bom, sutileza nunca foi o forte dela.

Sussurrei para mim mesmo. Eu deveria saber... Por que eu não ouvi Astoria? Por que eu não fugi quando tive chance? A última vez que Narcisa tinha me apresentado a uma mulher, eu acabei duelando com ela quase até a morte. Qualquer um que soubesse disso, nunca tentaria me apresentar a alguém de novo.

— Ela é realmente muito melhor do que a minha mãe que praticamente me arrastou pelos cabelos para vir hoje. — Elena riu.

Não havia como negar que ela era bonita, alguns podem até dizer que era sexy, mas ela não era o que eu queria.

— Sinto muito sobre isso, eu pensei que tinha deixado claro para ela que eu não estava disponível.

Obviamente que precisávamos ter a conversa "eu não preciso de Narcisa arranjando encontros para mim."

— Ah, você está vendo alguém?

Ela parecia desapontada. Será que ela não afirmou que foi arrastada até aqui quase contra sua vontade?

— Não. — Eu disse, então reconsiderei. — Na verdade sim, estou, mas é muito complicado agora.

— Parece que sim. Ela deve ser uma garota de sorte por estar saindo com o famoso Severus Snape.

— Parece que alguém sabia mais sobre esse encontro do que deixava transparecer.

Ela encolheu os ombros.

— Você não pode culpar uma garota por tentar, certo? Eu vi você no artigo da Preparador de Poções, então quando Narcisa falou sobre esta festa, eu pensei por que não? Então, me diga, o quão complicado é esse seu complicado?

— Eu não tenho certeza, mas vale a pena apostar.

Ela abriu a bolsa e me entregou seu cartão, lia-se Curandeira Elena Colton.

— Se alguma vez você estiver entediado, ou precisando de ajuda médica, me escreva.

Ela saiu sem problemas e pensei que ela era ótima. Se eu a tivesse conhecido há dois meses, essa conversa poderia ter sido muito diferente. Virando para o barman, eu lhe entreguei o cartão dela. Ele levantou uma sobrancelha para mim, mas pegou de qualquer maneira.

— Firewhisky. — Eu disse a ele, e ele encheu um copo.

Dando um gole, fui para o meio da multidão, dolorosamente consciente de que Narcisa muito provavelmente estava em algum lugar procurando por mim. Subindo as escadas, eu fui o antigo quarto de hóspedes que sempre foi reservado para mim. Trancando a porta com um aceno da varinha, peguei um pouco do pó de Flu sobre a lareira e enfiei minha cabeça nas chamas verdes, chamando pela casa de Hermione.

— Você não recebeu a minha coruja? — Ela já atendeu com a pergunta.

— Você me mandou uma coruja? — Eu olhei para minha janela mas não vi sinal de que algum animal estava chegando. — Por que não me mandou uma mensagem por patrono?

— Eu não quero que você tenha a ideia errada, e sou boa com palavras, então escrevi uma mensagem.

— Obrigado? — Eu ri.

— Você deveria esperar o seu correio chegar. — Ela repreendeu.

— Sinto muito.

— Bem, certo, por isso vou apenas desligar…

— O que você está tentando fazer atrás do sofá?

— Nada muito importante.

— Diga-me de qualquer maneira.

— Tentando tirar uma mancha de droga multicolorida.

— Desde quando você usa drogas?

— Não é meu. Luna só…. ela está passando por uma fase.

— Ela está bem?

Ela suspirou.

— Severus, o que você está fazendo?

— Falando com você.

— Você tem uma carreira brilhante, será tão complicado pra gente… e eu tenho certeza que hoje em dia você se envolver com a mulher que quiser.

— Correta, Granger. — Eu disse a ela. — Na verdade, há menos de dez minutos atrás, uma Curandeira estava dando em cima de mim.

— Bem, esse é você sendo um sortudo. — Ela estava irritada, eu podia sentir em sua voz.

— Porém, eu me livrei dela, apenas porque eu quis. Mas não ache que vou passar o semestre, muito menos o ano letivo inteiro me esquivando de outras pessoas, porque você não sabe se pode lidar com nós.

Ela ficou em silêncio.

— Se eu não tivesse voltado a ser seu professor e a tivesse convidado para um encontro, um dia após nossa semana, você teria ido?

— Sim. — Ela sussurrou. — Só que hoje é muito mais complicado do que isso.

— E daí?

Mais silêncio.

— E daí que eu não posso, Severus. Eu apenas não posso lidar com isso agora. Sinto muito.

E ele a viu acenar com a varinha e desfazer a ligação. Simplesmente se foi, e com ela, foi embora a minha reserva e paciência.

Se era essa sua resposta, tudo bem.

Levantando, voltei para o salão de festas. Narcisa me chamou no canto do salão, mas em vez disso, acenei a distância, antes de me dirigiu ao terraço.

— Parece que as coisas ficaram muito menos complicadas. — Eu sussurrei no ouvido de Elena, com a minha mão em suas costas.

Ela sorriu, e eu ignorei completamente a pequena voz na minha cabeça. A voz de advertência. A voz da razão.


Hermione.

Parte de mim queria chamá-lo de volta, mas eu simplesmente não podia fazer isso. Eu voltei para Londres e entrei num curso avançado de Curandeiros do outro lado do mundo, com um objetivo em mente, e desde que o reencontrei, me permiti ser distraída e perdi de vista o meu foco. Não importa o quanto eu quisesse, eu não poderia apostar tudo nele. Eu precisava voltar o meu objetivo, precisava parar de sonhar acordada e voltar à minha cruel realidade. Minha família precisava de mim e isso supera tudo, o que também significava que eu precisava lidar com Luna. Como se tivesse esperando por isso, ela abriu a porta e chegou em casa, tropeçando no aparador da entrada, como fazia todas as vezes.

— Você quer um pouco de pomada para isso? — Eu perguntei a ela, enquanto murmurava o lumus e acendia a luz da sala inteira.

— Merlin! — Ela pulou para trás, agarrando o peito.

Ela lembrava vagamente a Luna que conheci em Hogwarts, hoje, Luna estava uma bagunça, a saia estava de trás para frente, a maquiagem derretida e arruinada, e seu cabelo estava lembrava um ninho de passáros.

— Aquelas coisas que você disse não era sério, não é? — Ela perguntou, indo até a cozinha, e pegando uma fruta na bancada.

— Eu consegui uma transferência. — Eu disse a ela.

— Sério? Ótimo! — Ela saltitou sobre o sofá em frente a mim.

Olhei para ela por um momento, então eu respirei fundo antes de eu pegasse o pergaminho deixado sobre a mesa de centro.

— Aonde vamos?

— Nós não vamos a qualquer lugar. Você vai para o programa de internato da Uagadou. — Eu disse a ela. — Já escrevi para o diretor de lá e consegui sua resposta positiva.

— O quê?

— Você não pode ficar aqui...

— Você está me colocando para fora? Você está falando sério agora? Só porque eu saí algumas vezes...

— Eu não estou te colocando para fora, Luna, você pode voltar quando quiser, você simplesmente não pode viver aqui.

Ela me olhou abismada.

— Eu não... eu não entendo? É por causa do seu caso? Porque, quer dizer, eu não me importo se ele aparecer...

— Não há nenhum caso.

— Então por que você está me mandando embora? — Ela exigiu.

— Porque você está se afogando aqui, Luna! — Eu disse suavemente, me levantando. — Foi errado da minha parte pedir que você viesse para cá. Isso foi errado, egoísta e eu sinto muito. Você não pode ficar, porque se você fizer isso, você vai não vai estar focada no que quer fazer e vai se destruir. Esta casa, esta cidade, está escurecendo seu arco-íris, você não ri, você tem pesadelos durante a noite, você não pode ficar aqui, e está tudo bem. Então, você vai pro internato da Uagadou, e vai ser a melhor Mazioologista do programa deles.

Ela olhou para mim em meio às lágrimas, me fazendo lembrar de quando a resgatamos da mansão Malfoy. As duas saímos de lá destruídas, a nossa própria maneira, e foi depois daquele episódio que nossa cumplicidade cresceu.

— Nós não íamos abandonar uma a outra. — Disse ela.

— Eu não vou abandonar você, Luna. Eu vou terminar a especialização e serei a melhor Curandeira que eu puder ser, vou salvar os meus pais, e então, eu vou voltar para casa. Eu prometo que vou trabalhar pra caramba, mas eu só posso fazer isso se eu souber que você está bem, e você só vai ficar bem quando estiver no meio de um montão de bichos estranhos.

Seus lábios tremiam, e ela desabou em meus braços.

— Eu sinto muito. — Ela chorou. — Eu pensei... eu pensei que eu conseguiria fazer isso...

— Você sabe que é a irmã mais linda, engraçada, criativa e inteligente que uma garota poderia ter não sabe? É por isso que escolhi você para ser a minha, e eu sempre vou estar aqui por você, Luna, você não tem que se desculpar por nada. Eu sinto muito por não ter enxergado que precisava ter feito isso antes. — Eu sussurrei para ela.

A partir de amanhã, tudo mudaria. Eu sempre fui a melhor da minha turma, eu sempre trabalhei por tudo que eu quis. E agora, eu trabalharia dez vezes mais. Eu faria o que fosse preciso, porque eu não podia me dar ao luxo de perder. Eu não podia me dar ao luxo de me distrair.

— Você vai fazer algo desagradável, não é? — Ela perguntou, e eu desejei que eu pudesse dizer a ela que não. — Você não é assim, você sabe. Sinto muito pelo que eu disse antes sobre você não saber se divertir.

— Luna, está tudo bem. Basta ir fazer as malas, ok?

Ela assentiu com a cabeça e eu fui para a sala de estudo que tínhamos montado em casa, era um lugar que Luna mal entrava. Era como um santuário meu e ela tinha dito que escritórios a deixavam desconfortável.

Severus tinha dito que eu deveria usar qualquer coisa que eu podia para minha vantagem. Harry era uma vantagem. Eu odiava usá-lo para chegar à frente, isso me faz sentir suja, mas eu era consciente de que sempre acabava influenciando decisões a meu favor, ser a melhor amiga dele. Quando eu fui para a minha entrevista na Castelobruxo, o diretor passou os primeiros cinco minutos falando sobre o quão grande ele era. Harry era o chefe da divisão de aurores, se eu queria descobrir segredos, qualquer segredo, ele era a pessoa que me diria, então, eu ia usar nossa amizade a meu favor. No fundo da minha mente, eu ouvi a minha própria voz, em um tom bem mais sensato do que o meu, me dizendo para não fazer isso. Ir atrás de qualquer segredo que fosse seria como abrir a Caixa de Pandora, mas eu anotei no pergaminho tudo que gostaria de descobrir e fui até o jardim pegar a minha coruja.


Severus.

Eu espantei a luz com um floreio da minha mão, mas não importou as três vezes que fiz isso, não desligava.

— É uma mensagem por Patrono. — Disse alguém.

Olhei através de apenas um dos meus olhos, e vi… Merda, qual era o nome dela?

— E acho que ele quer fazer ligação. — Ela pontuou.

Balançando a cabeça, estendi a mão para o feitiço prateado.

— Snape.

— Ah, olá. Eu sei que isso é estranho, e você pode não lembrar de mim...

— Você tem cinco segundos antes de eu desfazer a ligação.

— Luna Lovegood... amiga de Hermione.

Eu congelei por um momento antes de me sentar. Eu não tinha certeza do que dizer ou pensar, e uma mulher que estava recolhendo suas roupas do chão do meu quarto não ajudava a melhorar a situação.

— Olá?

— Eu estou aqui, como você conseguiu descobrir sobre mim?

— Sei há muito tempo, sempre fui talentosa em feitiços e você esqueceu coisas pessoais aqui em casa… Não foi difícil rastrear quem é o bruxo que ela está vendo.

— Nós não... você realmente não deveria ter enviado essa ligação.

— Podemos nos encontrar por cinco minutos? Por favor? É importante. Eu sei que não temos nenhuma intimidade, e você não tem nenhuma razão para confiar em mim, mas eu só queria falar com você sobre ela. Você é o primeiro que dura tempo o bastante, então eu acho que se importa. Se eu estiver errada...

— Bem. Aonde você quer me encontrar?

Hermione Granger ia ser a minha morte.

— No Centro, você sabe onde é o Mico's Coffee?

— Sim. Eu estarei lá… — Olhei o relógio na mesa de cabeceira. — Em 30 minutos.

— Obrigada. — Disse ela e seu feitiço se desmanchou no ar.

— É sua namorada? — A morena... Elena?... Elena Colton, perguntou.

Lentamente comecei a me lembrar.

— Não.

Respondi quando finalmente saí da cama. Fiquei surpreso ao descobrir que eu ainda estava completamente vestido com minhas roupas da noite anterior.

— Apenas no caso de você ter se esquecido, nós não fizemos nada. — Ela afirmou, colocando seus saltos.

— Não?

Por que eu não me lembrava de nada?

— Você me disse que as coisas eram menos complicadas, então nós rimos, bebemos e você me convidou a vir aqui, onde nós bebemos um pouco mais. Eu praticamente me atirei em você e tudo estava indo muito bem, até que de repente você parou, me empurrou e me rejeitou, logo antes de você apagar. — Disse ela com raiva contida em sua voz. — Da próxima vez que você levar uma mulher para sua casa, faça algo cortês sobre isso, ou então será apenas embaraçoso.

Ela pegou sua bolsa e saiu sem dizer mais nenhuma palavra, me deixando sentado na cama, tonto e confuso. Merlin, eu sou uma bagunça fodida, eu pensei, puxando a minha túnica. Eu precisava ter minha vida de volta ao controle.

Entrando no pequeno café verde e branco, olhei em volta até que a vi, vestida toda de roxo berrante, com um gorro laranja.

— Srta. Lovegood? — Eu acenei minha mão na frente do seu rosto para fazê-la despertar do mundo perdido em que seus olhos desfocados estavam vagando.

— Ah, oi. — Disse ela, piscando os olhos azuis pra mim. — Por favor, professor Snape, sente-se. — Ela apontou para a cadeira em frente a dela. — Desculpe, eu cansei de vigiar a porta como uma garota doente, as pessoas estavam olhando.

— Há quanto tempo você está aqui? — Perguntei me sentando.

— Cerca de uma hora. — Ela encolheu os ombros como se fosse nada. — Eu já estava aqui quando lhe enviei meu Patrono.

— Por que você o enviou?

— Sabe, professor, antes do feitiço de revelação de propriedade ativar, eu lhe chamava de listras azuis e pretas na minha cabeça.

— O quê?

Ela sorriu.

— Uma peça íntima que você deixou lá em casa. — Disse ela, como se fosse óbvio. — Tinham listras azuis e pretas.

— Esta é certamente uma maneira apropriada de iniciar uma conversa, Srta Lovegood. Se usou um feitiço de revelação, suponho que Hermione não tem falado muito sobre mim?

Não que eu me importasse.

— Não. Mas não tome isso como pessoal, é apenas quem ela é. Ela engana as pessoas a pensar que ela está se abrindo sobre si, porque ela é tão inteligente que pode conversar sobre qualquer assunto, mas ela nunca fala realmente sobre si. — Disse ela, tomando um gole de chá.

— Srta. Lovegood, eu estou um pouco confuso sobre o porquê você me chamou.

— Porque eu estou deixando o país. — Ela respondeu, e eu esperei que ela continuasse. — Hermione me mandou para a África, para um excelente programa de estudos de lá, ela está estudando para ser Curandeira porque...

— Por causa dos pais, eu sei.

Os olhos dela se arregalaram de surpresa.

— Sim. Sinto muito por chamá-lo aqui, e eu nem sei se você é realmente tão próximo dela, mas eu só queria pedir para alguém cuidar dela um pouco, e você parece ser a única pessoa que ela se importa em conversar.

— Hermione Granger é uma adulta, Srta. Lovegood, ela não precisa que alguém...

— Ela precisa sim. — Ela me interrompeu e deve ter se sentido mal por isso, porque imediatamente baixou a cabeça, agarrando-se ao seu chá. — Ela é uma daquelas pessoas que vão dar tudo pelas pessoas sem se importar ou perceber o que acontece com ela. Quando ela descobriu que lancei um feitiço de revelação de identidade nas suas peças, ela disse que não havia ninguém importante em sua vida, e que ela só se preocupava se os pais e eu estávamos bem. Ela estava triste, pela primeira vez desde que cheguei aqui, ela estava triste.

Eu não acho que eu deveria ouvir nada disso.

— Talvez porque você está se mudando... — Eu comecei.

— Você realmente não quer aceitar que é você, não é?

— Que sou eu o que, Srta. Lovegood? Ela me rejeitou. — Eu disse, chamando a garçonete. — Ela me rejeitou a menos de vinte e quatro horas atrás. Desculpe-me se eu sou um pouco cético em relação aos sentimentos da Srta. Granger, se é que ela tem algum. — Eu me virei para encontrar o olhar da garçonete que parecia decididamente impressionada. — Café, preto, por favor. — Eu pedi, antes de me voltar para Luna Lovegood novamente.

— Tudo bem, então vou deixar claro. — Ela disse simplesmente. — Ela é um arco íris negro.

— Isso não é claro o suficiente.

— Quando eu estava presa em um calabouço, o Sr. Olivaras me disse que todas as bruxas nascem com todas as cores do arco íris e, dependendo das pessoas ao nosso redor, nossas cores se iluminam ou escurecem. Hermione é um arco íris negro... de vez em quando ela fica mais brilhante, mas sempre acaba se escurecendo novamente. As pessoas não ficam em torno dela por muito tempo, especialmente depois que percebem a vida que ela teve, de guerras e perdas. Então as pessoas lentamente se retiram da vida dela porque se sentem desconfortáveis ou não sabem o que dizer.

— Mais uma vez, Srta. Lovegood, ela me rejeitou.

— É autopreservação, é como ela funciona. Mas quanto mais ela te afasta, significa que ela quer que você a segure mais apertado.

— Isso faria de mim um perseguidor.

Ela balançou a cabeça negando.

— É diferente para ela. O momento em que ela começa a ficar feliz, ela encontra uma dúzia de razões para fugir, quando, na verdade, ela está apenas com medo de uma coisa: que se você realmente conhecê-la, o bom, o ruim e o horrível, você vai fugir. Ela gosta de você, é provavelmente isso que a assusta tanto.

— Como você sabe?

— Porque eu estaria com medo de todas as mesmas coisas, se estivesse no lugar dela.

Eu balancei minha cabeça, quando eu aceitei o café que a garçonete me deu, e respirei fundo.

— Então o que você está dizendo é que eu deveria continuar a perseguindo como um cachorro?

Eu não conseguiria fazer isso, meu orgulho simplesmente não deixaria.

— O que estou dizendo é, que se você não consegue lidar com ela e tudo que vem com ela, nunca mais tente falar com ela novamente. Você só vai machucá-la, e ela vai passar a viver sozinha aqui, vivendo em uma casa que não é sua, porque não pode se dar ao luxo de viver na casa de sua família trouxa, pois mesmo se quisesse, ela é uma desconhecida para eles. Hermione anda por aí como se nada a machucasse, mas ela não é tão forte assim.

— Você disse que ela estava feliz? Como você sabe?

— Ela cantarolou, dançou música dos anos 80 e roubou meu violão... tudo na mesma semana. Ela nunca esteve tão feliz quanto ela esteve na última semana do verão, e ela estava indo bem, até que eu vi seu rosto na noite passada. Eu não podia simplesmente ir embora sem encontrá-lo.

— E agora que você me encontrou...?

— Eu vou guardar os meus julgamentos para um próximo encontro, por isso fique por perto.— Disse ela, sorrindo e eu lembrei que Luna Lovegood não era conhecida na época da escola por ser uma pessoa normal.

— O acha que eu deveria fazer, Srta. Lovegood?

— Dê um tempo e ela vai vir até você. Até então, apenas fique de olho nela, está bem? Eu não poderei estar lá para ela, por isso, se você puder... se você quiser...

Ela deu de ombros e se esforçou para encontrar as palavras certas. Eu confirmei com a cabeça.

— Entendi. Você realmente quer que eu cuide dela.

— Nós duas somos filhas únicas de uma família de filhos únicos. E desde que nos "adotamos" como irmãs, ela é toda a família que me resta... você deveria ver as coisas que ela faz para mim.

Ela se levantou, mexendo em sua bolsa.

— Entendo.

— Obrigada. — Ela sorriu com o ar mais sonhador do que o que estava quando eu cheguei. — Ah, e nós nunca, nunca, nunca tivemos essa conversa. Ela me mataria, nos mataria, se soubesse.

Eu acenei com a cabeça confirmando essa teoria e, com isso, ela saiu. Era óbvio que Luna Lovegood não tinha ideia de que eu voltei a ser professor de Hermione, e eu me perguntei o que ela pensaria se soubesse. Eu não era apenas amante dela, era professor dela também, eu devia ficar longe e não ficar "cuidando" dela, como a Srta Lovegood acabou de me pedir.

Depois de passar uma semana com ela, e vê-la em sala de aula, Hermione era um livro aberto para mim. Ela usava todas as suas emoções em seu rosto, e mesmo quando ela estava tentando não ser tão clara, eu ainda podia ler sua expressão tão claramente quando o dia. O problema era que ela era uma cidade cercada por muros, você pode ver de longe, mas não havia portão na frente e não há maneira de entrar.

Mas sendo sincero comigo mesmo, eu, legitimamente, não conseguiria me afastar dela até que o ano acadêmico terminasse. Eu preciso de algo mais forte do que café.


Notas Finais

Beijão e até o próximo!