*********************** Cap 20 Que beijinho doce ***********************
Templo de Baco, 06:35am
A casa ainda dormia quando nos primeiros raiares da aurora Saga chegou ali, envergado feito um galho, com mais curativos e ataduras do que esperanças de um dia conseguir o perdão de Geisty e dos irmãos de armas, e com a boca ainda inchada pelos dentes reimplantados. A consulta com o cirurgião-buco-maxilo lhe tinha dado a solução para os dentes arrancados, mas seria preciso esperar os ferimentos cicatrizarem e o inchaço diminuir para voltar a falar com alguma normalidade.
Sem forças ainda para subir até o Templo do Patriarca, ou mesmo até Gêmeos, pois que os fortes analgésicos que tomara no hospital lhe amenizavam as dores, mas nada podiam fazer a respeito do corpo muito ferido e debilitado, ele resolveu passar a amanhã no escritório que ocupava no Templo das Bacantes. Lá havia um grande divã, pelo menos era o que se lembrava, e ficaria por lá mesmo até sentir-se melhor para subir o monte zodiacal. No entanto, quando entrou na sala novamente a terrível realidade saltou por cima dele feito fera selvagem, lhe dando um bote.
Tudo estava diferente. O divã ainda estava lá; não perto da janela como costumava deixar, porque assim conseguia ver o lado de fora, o jardim com o chafariz, além de sentir o sol pela manhã enquanto tomava seu café preto forte e sem açúcar e lia as notícias no jornal, mas no meio da sala, perto de uma grande poltrona de madeira escura estilo vitoriana e de um abajur burlesco de rendas. À frente também reconheceu sua mesa, uma escrivaninha de tampa de vidro fume, mas as cadeiras, todas de madeira e estofado de veludo ao estilo da poltrona, as cortinas pesadas e escuras, o carpete vermelho, os quadros com silhuetas de mulheres nuas nas paredes e o enorme espelho ao fundo com moldura rebuscada de metal parecendo ouro, nada daquilo lhe era familiar. Havia também no ar um cheiro novo, estranho; uma mistura alcoólica de whisky com algum perfume pavoroso, aldeídico e pesado, que parecia abafar tudo em sua volta.
Apesar do incômodo que tudo ali lhe causou, sua necessidade de descanso era maior. Ele temia chegar à exaustão e então ouvir novamente o som do mar, sentir o toque gélido da água em seus pés e o cheiro forte da maresia impregnando suas narinas e entorpecendo-lhe os sentidos; por isso ficou ali mesmo.
Mas o descanso que Saga tanto almejava não veio, pois que o torpor em sua mente, a culpa, o medo e o desespero lhe castigavam bem mais do que os danos no corpo.
As palavras duras de Mu iam e vinham feito ondas do mar em seus pensamentos agitados e incontroláveis; junto delas também vinham os olhares de todos, que o condenavam. Tanta hostilidade...
No entanto, ele sabia que merecia cada palavra de ódio e cada olhar hostil, e que por isso ia suportar a tudo sem se acovardar, consciente de seus erros terríveis e disposto a tudo para repara-los.
Mas para um deles não havia reparação.
Depois de um tempo em que ficou ali, perambulando feito uma assombração decadente naquela sala de atmosfera carregada, revirando arquivos, remexendo em pastas à procura sabe-se lá do quê, talvez de algo que lhe resgatasse sua verdadeira identidade, foi um álbum de fotografias, encontrado no fundo de uma gaveta, que o fez desabar. Apenas algumas folheadas nas páginas e seu corpo de repente ganhou toneladas a mais de peso. Ele então se arrastou até o divã, levando o álbum consigo, mas sentou-se no chão, de frente para a porta.
Ali Saga ficou por um longo momento; o olhar estático do único olho aberto fixo em uma fotografia no álbum e o pensamento a vagar nos corredores escuros do passado, quando subitamente ele ouviu toques na porta que reproduziam um excêntrico pan pararan pan pan pan.
Somente uma pessoa lhe batia dessa maneira à porta.
Isso quando batia.
— Afrodite? — disse Saga com a voz fraca e falha quando surpreso levantou a cabeça.
E lá estava Peixes, de pé entre o batente e a porta escancarada.
Ambos se olharam parecendo surpresos.
Afrodite sentiu o coração apertar ao vê-lo tão machucado, mas enfim era ele! Era Saga! Os cabelos azuis como as águas do Egeu. O olhar terno e acolhedor, embora visivelmente angustiado, mas finalmente lúcido, pacífico, como há tempos não via.
Saga sentiu uma ansiedade translouca lhe apertar o peito e dar um nó em sua garganta. Seria hostilizado novamente? E agora por aquele a quem sempre considerou seu melhor amigo?
De trás de uma das colunas forradas por papel de parede vermelho aveludado que ficava em frente ao escritório, um outro cavaleiro observava atento o desenrolar daquele encontro, até que uma súbita suposição de seu desfecho, para si tão certa e óbvia quanto o céu é azul, lhe fez brotar uma ideia na cabeça.
Conhecia tão bem o coração mole de Afrodite quanto conhecia o duro e implacável coração de Camus, e apostaria nisso para começar a fazer com que a sorte voltasse a caminhar ao seu lado.
Assim, ele deixou o local às pressas, apostando na sorte e na pontualidade inexorável do francês, já que vinha vigiando há alguns bons anos seus hábitos ali no Santuário.
Arena de treinamento, 07:00am
Muito mais sério, calado e circunspecto que de costume, Camus de Aquário, vestido em seu uniforme de treinamento, braços cruzados e um olhar tão frio que era capaz de botar medo até no diabo no inferno, supervisionava o aquecimento de Hyoga.
Distante alguns metros o garotinho russo alternava corridas com flexões e abdominais, e seu desempenho era vigilantemente analisado pelo mestre, que nem percebendo a aproximação de outro cavaleiro que chegou ali para treinar tirou os olhos dele.
Camus queria manter sua cabeça focada no treinamento de Hyoga para bloquear a irritação do desentendimento na madrugada passada com Afrodite.
— Bonjour! — disse uma voz sorridente e animada.
— Bonjour, Misty. — Camus respondeu sem desviar os olhos do filho ao longe — Desceu mais cedo hoje.
Parado ao lado dele, Lagarto apoiou as mãos na cintura e deu um suspiro longo enquanto também observada Hyoga se exercitando.
— Ah, pois é. Com o barraco de ontem perdi uma boa noite de sono, então melhor compensar esse estresse injetando endorfina no corpo. Minha beleza agradece! — disse com aparente e inquestionável tranquilidade.
Camus enfim olhou para ele, sério.
— Então você já sabe da novidade — disse.
Misty balançou a cabeça eloquente.
— Sim. Shina me disse quando veio me avisar de que talvez passaria o dia no hospital com a Geisty — fez uma pausa curta, agora também olhando para o aquariano — Mas bem antes de falar com ela eu já tinha sentido a mudança no Cosmo dele.
— Hum.
Camus voltou a olhar atentamente para Hyoga, sem se deixar perturbar por aquele assunto, mas era visível seu incômodo, e era essa justamente a abertura que Lagarto esperava para lançar seu veneno disfarçado num elegante frasco de boa-fé.
Se suas suposições estivesse certas, e conhecendo a ambos tão bem como conhecia, Afrodite e Camus não partilhavam da mesma opinião quanto ao retorno de Saga, especialmente porque quando estava possuído por seu lado maligno, Gêmeos obrigou Aquário a matar Escorpião, e era de conhecimento geral que Camus executara essa ordem com extremo rancor porque dela dependia sua própria vida, e aquela era uma excelente oportunidade de jogar um contra o outro.
Se a sorte estivesse mesmo ao seu lado, como achava que finalmente estaria, Aquário morderia a isca.
— Pois é, o Mu fez um estrago e tanto nele... — disse Misty enquanto tranquilamente prendia os cabelos num coque no alto da cabeça — Sabe que cheguei até a sentir um pouquinho de pena quando o vi? Ah! Esse meu coração mole... Ainda vai ser a minha ruína!
Camus respirou fundo, entediado e irritado com a conversa.
— Acho que se o Afrodite não estivesse lá com ele, provavelmente eu é quem seria trouxa o suficiente para estar.
— O Afrodite? — Camus sacudiu a cabeça como se um enxame de abelhas fizesse uma revoada em torno de seus ouvidos, depois olhou fixo para Misty — Disse que Afrodite está lá com ele? Lá aonde?
A presa mordeu a isca!
— Ora, lá no bordel.
Misty deu de ombros. Queria rir, muito e alto, mas conteve o ímpeto.
— Non... — Camus novamente sacudiu a cabeça em negativa — Afrodite está no hospital. Ele foi ver a amazona. Nem vi quando ele saiu, mas ele disse que iria para lá.
Misty fingiu surpresa abrindo a boca e apoiando o indicador da mão direita na bochecha.
— Jura? — franziu as sobrancelhas finas dissimulando confusão — Ora, talvez ele tenha mudado de ideia, né?
— Non. Ele definitivamente non mudaria de ideia. Non sem me avisar antes.
— Bom, mas talvez ele tenha deixado para ir ao hospital mais tarde, porque achou mais importante ir dar apoio ao Saga, já que pelo o que me parece, todo mundo está meio que cagando para a volta dele. E não tiro a razão de ninguém, viu!
Camus novamente chacoalhou a cabeça em negação.
— Non, Afrodite non faria isso. O pulha do Saga ferrou com a vida de todo mundo, inclusive a dele, da amiga dele e a minha! Por que merde ele iria atrás do cretino para dar algum apoio?
— Bom, era de se esperar uma atitude dessa do Afrodite, né? Ele tem um coração tão mole e uma memória tão curta que não me admira ele ter perdoado o Saga tão depressa. Capaz de agora mesmo estarem os dois, lá, no escritório do Gêmeos, chorando de alegria um no colo do outro. Aqueles dois sempre se gostaram, sempre foram muito ligados, como dizem, unha e carne. Veja você! — deu uma risada alta e eloquente, fingindo descontração — A vida não seria mais simples se todos fossemos como aquela bicha? Ai, para que ficar guardando mágoa, né? Rancor? Bobagem! Nisso eu tenho que admitir que aquele viado é melhor que nós.
Camus estremeceu involuntariamente enquanto lutava para sufocar uma raiva que subitamente dominou seus sentidos fazendo os pelos do corpo se eriçarem, o peito comprimir e o estômago revirar.
Afrodite teria mentido? Teria dito que iria ver Geisty no hospital apenas para despista-lo para ficar livre para ir atrás de Saga? Depois de tudo que aconteceu?
Esperto e malicioso como era, Misty logo percebeu a perturbação do aquariano, e como o conhecia bem sabia que ele não daria o braço a torcer na sua frente, por isso tratou logo de sanar também mais aquele detalhe, afinal tinha pressa.
— Querido, se importa que eu me aqueça com Hyoga? Há dias não consigo descer tão cedo para a Arena, e quando chego aqui já pego vocês no final do treinamento — disse cercado de gentilezas e cuidados — Queria aproveitar que os peguei no comecinho hoje para colocar o papo em dia com meu amiguinho russo — deu uma risadinha — São tão poucas as oportunidades que tenho de estar com ele, já que a louca do Afrodite vive impondo barreiras entre nós.
Sobressaltado, Camus respondeu apenas com um aceno afirmativo, enquanto andava de um lado para outro feito uma fera numa jaula.
Misty sorriu para Aquário e tratou logo de sair dali, juntando-se a Hyoga nos exercícios, que o recepcionou com sorrisos gentis e muito animação.
Entre uma flexão e outra, no meio dos abdominais e agachamentos, Lagarto dava uma discreta olhada para Camus ao longe, com o cuidado de não deixa-lo perceber que estava ansioso.
Até que em uma dessas vezes não o viu mais ali.
Templo de Baco, 07: 35am
Sentados no chão forrado pelo carpete vermelho, lado a lado, ombro encostado com ombro, e com as costas apoiadas no comprido divã de couro preto, Saga e Afrodite olhavam calados para a fotografia que o geminiano tinha nas mãos, a qual ele havia retirado da proteção de plástico do álbum.
Foi com surpresa que Saga viu que o Outro não havia se desfeito de alguns dos álbuns de fotografias que guardava ali, nas últimas gavetas de sua escrivaninha. Diferente da maioria dos itens que foram substituídos naquela sala, os álbuns estavam intactos, o que o fez pensar que talvez seu lado maligno, por mais que lhe fosse difícil crer, cultivasse o desejo de ser amado e respeitado como ele era pelos irmãos de armas e talvez até por Geisty. Quem sabe o desejo mais íntimo Dele fosse também tomar tudo o que lhe pertencia, sua vida, seus amigos, seu amor...
Sentiu um calafrio lhe percorrer a coluna ao pensar nisso e ao mesmo tempo julgou ser a pessoa mais ingênua do mundo.
Suspirou exausto.
— Por todos os deuses... como pude permitir que isso acontecesse? — murmurou com a voz embargada. A fotografia bem segura em seus dedos tremia junto da mão enfaixada. Uma lágrima desceu por seu rosto sofrido e do queixo gotejou sobre a imagem sorridente de Milo de Escorpião na foto — Por que Camus não me matou quando lhe dei essa ordem?
Olhando também para a foto de Milo, tirada em uma das festas de aniversário de Aldebaran, que sempre foram grandes acontecimentos e por isso tinham muitos registros, Afrodite engoliu em seco.
A resposta era bem simples. Camus não matou Gêmeos porque afinal de contas Milo era um traidor, e sua traição não havia atingido apenas a amazona de Serpente e o bordel, mas principalmente ele mesmo, Afrodite, que ficou entre a vida e a morte, o que minara todas as forças do aquariano o incapacitando de enfrentar Gêmeos. Além de que, Camus só foi capaz de matar Milo porque jogou com a culpa que este sentia. Mas isso Peixes não podia dizer, ou teria que revelar a Saga seu relacionamento com Aquário.
— Eu acho que o cafuçu sardento não teve muita escolha. O Coiso... você, enfim, foi claro... Ou ele matava o Milo, ou pagaria pela traição dele com a própria vida. Ele era o braço direito do vodu do Dimitri... A lealdade dele também estava em cheque. — Afrodite disse limpando as lágrimas que também lhe desciam pelo rosto bonito — Você conhece o Aquário... Se fosse em outros tempos talvez ele não se importasse em morrer, mas ele apareceu aqui com um filho, né? A segurança do menino estava ameaçada.
Ao fim de um momento breve, Peixes sentiu ele encolher os ombros e retrair-se feito um bicho assustado, então tomou-lhe a mão trêmula nas suas e entrelaçou seus dedos nos dele.
— Ai, por Dadá, Saga, não fique assim — disse quase num sussurro — Você não teve culpa.
— Como não tive culpa? — olhou para ele com os olhos ensopados e a fisionomia em aparente agonia — Fui eu quem matou o Milo, Afrodite... e fui eu quem matou todas aquelas crianças enterradas no cemitério atrás da Arena e também as cujos corpos foram devolvidos às famílias... Fui eu... quando me deixei dominar por Ele.
Uma crise repentina de tosse e falta de ar fez o cavaleiro curvar-se e apoiar a mão que segurava a foto contra o peito dolorido devido à algumas costelas trincadas.
Afrodite prontamente o amparou soltando sua mão e lhe passando o braço por detrás das costas, o segurando firme para evitar que se chacoalhasse tanto.
— Você é só mais uma vítima dele, Saga. Como todos nós — disse Peixes com pesar — Olhe para você... está todo cagado. E não falo do coió que o Mu te deu não, gata.
Puxando o ar profundamente, mas ainda tossindo, Saga olhou para Afrodite de soslaio. Sentia de fato o corpo diferente. Não apenas pelos ferimentos da briga com Áries, mas porque realmente estava mudado. Mal pôde se reconhecer diante do espelho; estava mais robusto e musculoso, mas duvidava ser por meio de uma rotina saudável regrada à alimentação e exercícios. Por vezes tremia e tinha rompantes de suor e taquicardia. Havia ainda uma necessidade inquieta de algo que ele não sabia exatamente o que era, mas que tinha certeza de ser urgente. Picos de enjoo e dores excruciantes no abdome lhe indicavam que precisava de algum fármaco, analgésicos, ou pior, álcool. Ele não era ingênuo, sabia que provavelmente o Outro fazia uso de alguma droga, ou várias, e que também abusava do álcool, mas se queria combate-lo, e se quisesse derrota-lo, teria que começar resistindo a tudo aquilo que deixava Ele forte. Teria que fazer tudo diferente dessa vez.
— Não posso deixar isso se repetir, Afrodite. Por Atena, não posso! — disse Saga num fio de voz — Meu relacionamento com Milo nunca foi dos melhores, mas... Eu o conhecia desde a infância. Eu o criei, o treinei, exatamente como fiz com você... Foi aos meus cuidados que Shion o deixou. Ele era minha responsabilidade... Milo fazia muita merda, mas não consigo acreditar que ele tenha nos traído de fato. Não ele! Especialmente porque... — não conseguiu concluir.
— Especialmente porque uma traição desse tipo envolvia diretamente a Mosca. — Afrodite sim concluiu.
Saga olhou curioso para ele.
— Mosca? Que mosca? — perguntou.
— Ora a Mosca, a sua senhora, a Geisty. Todas as três — disse Peixes — Sabia que agora a gente é BFF?
— É o quê?
— BFF, tipo, melhores amigos de infância — Afrodite riu — Compartilhamos tudo, de calcinhas às perucas da Tina Turner e Dana Summers. Da Cher não, porque a da Cher cabe só na minha cabeça.
Saga franziu a testa pensativo.
— Por que caralho você chama minha esposa de mosca, Afrodite?
— Ora, porque ela é uma. Uma varejeira zumbidora de franja ainda por cima, que fica rondando e pondo ovos na minha vida — suspirou ajeitando os cílios com a pontinha do dedo mindinho — Mas, eu penso como você. Se na época eu não estivesse morrendo naquele hospital depois de ter tomado o baygon batizado com aço lemuriano do cafuçu malassombrado do Alê, que Hades o tenha num poço bem fundo de sangue fervente, eu teria ido atrás dele na mesma hora que o magia negra do Dimitri escreveu o nome dele naquele chão. Então eu iria olhar dentro daquela cabeça grande, oca e oxigenada dele e iria ver que ele nunca nos traiu, nunca traiu a Mosca. Eu sempre desconfiei que nessa mala Odara tem meia*.
Saga piscou o olho bom esforçando-se para entender o que ele queria dizer.
— Eu... não entendi — murmurou rendendo-se.
— Tô dizendo que tem rolo aí, Saga, que essa história está bem mal contada. O problema é que o Mu confirmou que a informação do suíno do Dimitri era verdadeira — suspirou — Milo podia ter muitos defeitos, mas nenhum deles incluía covardia contra uma mulher que estava na cara de todo mundo que era especial para ele. Pois o ocó até brigou com você para proteger a Mosca! E ainda tinha os bebês... Não, isso não é a cara dele mesmo!
Saga pigarreou sem graça, mas não podia desmenti-lo.
O cansaço e a tristeza venceram Gêmeos por uns minutos, nos quais ele só abaixou a cabeça e permaneceu calado, pensando em tudo o que já tinha passado e também em tudo que ainda viria. O medo rondava quase que a totalidade de seus pensamentos.
— Milo morto... Camus Vor... Kiki desenganado... Por Atena, tanta coisa... — respirou profundamente, exausto — Geisty... Você esteve com ela? — perguntou, agora passando a ponta do indicador sobre uma foto de Geisty que estava no álbum — Disse que esteve no hospital.
— Sim, estive — disse Peixes em tom baixo — Mas não com ela. Apenas a vi pelo vidro do CTI. Depois que a briga entre você e o Mu acabou, eu subi para casa, me troquei e corri para lá. Ainda fiquei um tempo esperando para ver se ela acordava, mas ela está sedada. O médico disse que talvez ela acorde só de noite ou até mesmo amanhã. Por isso, aproveite você também para descansar. Vocês terão tempo para conversar.
— Isso se ela ainda quiser me ouvir, né — disse Saga com voz embargada — Parece que os únicos aqui que ainda conseguem olhar para mim e me ouvir são você e Aldebaran.
— Eiiii! Não diz isso não. — Afrodite delicadamente segurou no queixo dele e o fez olhar em seu rosto — Eles só precisam de tempo, Saga. Ela também.
— Você não precisou de tempo. O que tem de diferente?
— Ah! Por Dadá, né gata, eu sou trouxa! — brincou ele, mas logo em seguida ficou sério — Eu sempre acreditei que você voltaria, e a Mosca também, mas ela tá magoada. O que ela passou nesses seis anos foi uó. Precisa dar um tempo para ela, e durante esse tempo você precisa se reerguer. Não fique se punindo como se você fosse o único culpado. Há coisas nesse mundo que estão além da nossa compreensão e logo todos vão se lembrar disso. Agora tá todo mundo meio na bad. O que importa é que você voltou. Dadá, como a Mosca desejou isso! Como ela lutou e esperou por esse dia!
— Me envergonho tanto, Afrodite... Eu não lutei, deveria ter lutado, deveria... eu deveria...
— E como você pode afirmar que não lutou, Saga? Se tudo o que se lembra é do corredor do hospital e do médico te dizendo que seus filhos estavam mortos, e que depois tudo mergulhou em trevas e silêncio, como pode dizer que não lutou?
Saga o encarou aflito. Sua respiração ofegante e as lágrimas voltando a deslizar pelo rosto denunciavam a dor de sua alma.
— Já foi, Saga. — Afrodite tocou o rosto dele e lhe enxugou uma lágrima — Você não pode fazer nada para apagar o passado, então pense que deve lutar agora. O que vai enfrentar daqui para a frente eu não sei, mas tenha esperança, e faça por merecer o amor e o perdão dela.
— Se ela me perdoar...
— É, isso não temos como saber, mas a Mosca é uma amapô que não costuma se dar por vencida. Olha... eu tenho roseiras no meu jardim que são tão perigosas, tão letais, que basta uma pessoa aproximar-se delas para que seus espinhos, venenosos ou afiados como lâminas, lhe ceifem a vida. É tão difícil cultiva-las... Eu me machuco todo quando vou cuidar delas, mas quando elas dão flores são as mais lindas rosas que já vi na minha vida. Eu as amo, mas é um amor exigente, um amor tóxico e cortante, mas ainda assim é amor. Não existe apenas um tipo de amor... Eu acho que o amor de vocês pode não ser o ideal, ou o aceitável dentro dos padrões da moralidade ou normalidade, mas é o amor de vocês. Não é um amor de contos de fadas, não é calmo, e também não é leve, mas ainda assim é a porra de um amor. E pelo côncavo perfeito dos olhos de Santa Cher, Saga, mas antes ter um amor assim que não ter nenhum. Alôca!
Afrodite riu meio que em desespero, porque era impossível não comparar a situação de Saga e Geisty com a sua com Camus. Seu amor por Aquário era grande e verdadeiro, mas a relação que tinha com ele era completamente fora dos padrões considerados aceitáveis.
— Você sempre foi um bom amigo... — disse Saga a ele com a voz espremida, ensaiando um sorriso, ainda que este viesse em meio ao choro — Fodeu com a porra da minha vida várias vezes e de várias formas, mas ainda assim... o melhor amigo que tive até hoje.
— Bom, em matéria de foder com a vida um do outro, acho que estamos quites. — disse Peixes sorrindo para ele, então lhe passou novamente o braço ao redor dos ombros e o puxou para um meio abraço. Sabia que ele precisava chorar. Era o Grande Mestre, o Cavaleiro de Gêmeos, tinha sempre que se mostrar tão sólido e firme quanto uma montanha, e embora fosse um dos guerreiros mais poderosos daquela geração de cavaleiros ele vivia um dilema de difícil, ou improvável, solução.
— Obrigado por não me repelir e me hostilizar, mesmo eu sendo essa criatura merda que sou — murmurou o geminiano.
— Para isso servem os amigos. Uma vez também me senti uma merda e o Mu me catou do chão... Até cocô tem seu valor, Saga. É adubo para as flores.
Afrodite brincou com ele, finalmente o fazendo dar um riso alto e descontraído, e foi nesse clima de descontração e amizade que ambos se abraçaram forte.
E na euforia de reencontrar o amigo, inevitavelmente pensando que Geisty assim não teria mais que abrir mão do amor, e que ambos, quando as mágoas passassem, poderiam retomar a caminhada juntos, Afrodite, bem a seu modo exagerado e alegre, beijou o rosto de Saga no único lugar que encontrou livre de qualquer escoriação, arranhão, inchaço ou corte; o cantinho esquerdo dos lábios, fora da boca.
Um beijo rápido, despretensioso e livre de qualquer malícia.
Um beijo que não significou nada para ambos além de uma demonstração de afeto e amizade, mas que para outro cavaleiro que os observava atento escondido atrás da coluna encapada em papel de parede de veludo vermelho certamente tinha outro significado.
"Connasse putain de merde! Connard."(Desgraçado filho de uma puta. Cretino.)
O pensamento de Camus ecoou amargo por sua mente enquanto rangendo os dentes ele fechava os punhos e apertava os dedos com cada vez mais força. Entre eles, circundando as falanges, uma película de gelo começou a tomar forma e subir rápido até os punhos cerrados e trêmulos, pois que ele era capaz de controlar cada mínima reação de seu corpo, mas não de seu Cosmo. Este denunciava involuntariamente o frio cortante que lhe atingia a alma.
Bem nessa hora, dentro do escritório Saga e Afrodite sentiram o Cosmo gelado de Aquário, e junto dele um frio intenso invadiu o ambiente fazendo suas peles arrepiar e a respiração condensar-se em contato com o ar.
— Camus está aqui? — Saga perguntou aos sussurros, surpreso — O que ele faz aqui a essa hora? Será que veio me espancar também?
Afrodite não respondeu, porque além de surpreso estava apreensivo. Conhecia bem aquele frio que fazia tremer os ossos, e sabia que ele era um mau sinal.
Quando as mãos de Camus estavam quase inteiramente brancas então veio a dor aguda no peito.
Já tinha sentido uma pontada afiada do lado do coração quando chegou ali escondendo seu Cosmo, viu a porta aberta e os dois cavaleiros sentados no chão, lado a lado, abraçados, íntimos. A dor então ganhou proporções no momento em que presenciou, em completo horror, o beijo.
Simplesmente não podia acreditar que seu amado peixinho, sua bela rosa, seu cúmplice de tantos anos, tinha mentido para si e ido até ali atirar-se nos braços de Saga.
Ainda que estivessem a uma considerável distância, Camus não tinha dúvida. Antes fosse mais um mal entendido, mas não era. Ele viu com seus próprios olhos, agora cerrados de ódio, Afrodite beijar a boca de Saga.
Sentindo o ar lhe faltar, Camus deu as costas para a porta aberta na mesma hora em que pegou, num movimento automático e ligeiro, um cigarro da cigarreira presa ao elástico da cintura da calça de treinamento, e com a face dura e circunspecta caminhou com torturante lentidão até a saída do salão.
Não ficaria ali nem por mais um segundo. Não era masoquista, tampouco ingênuo. O que viu fora mais do que o suficiente para sanar antigas dúvidas que mantinha escondidas no fundo de seu coração.
No escritório, Gêmeos e Peixes sentiram quando o Cosmo de Aquário deixou o bordel e seguiu para as 12 Casas.
Saga gemeu levantando-se do chão com dificuldade.
Afrodite engoliu em seco, depois foi ajuda-lo a deitar-se no divã.
— Desistiu? Será que ele queria falar comigo? — disse o grego ajeitando-se em duas almofadas.
Peixes fingiu desinteresse dando de ombros e pelejando para não deixar aparente demais seu nervosismo.
— Ah... Seja lá o que for que ele queria, mudou de ideia. Vai ver está com disenteria e precisou voltar para casa — disse Peixes apoiando outra almofada debaixo dos pés dele — Mais tarde ele vem, talvez.
— O Cosmo dele estava tão hostil...
— Senta lá, né Cláudia. E quando é que o Cosmo daquele cano de chuveiro enferrujado não está hostil? Ah, tá boa! — disse com falsa calma.
— Camus está ficando mais no Santuário agora? Ele agora é o chefe daquela merda russa, não? Achei que mal viesse para cá. — Saga perguntou apertando as costelas com a mão. Deu um longo gemido de dor.
Nervoso, Afrodite bateu duas palmas e o encarou sério.
— E desde quando eu sei alguma coisa da vida daquele cafuçu homofóbico, Saga? Eu heim! Está me estranhando, santa?
— Tanta coisa mudou nesses seis anos... mas pelo jeito você e Camus ainda se odeiam. — suspirou cansado.
— Quem me odeia é ele... Eu odeio pêssego — disse, e com um sorriso sem graça estalou os dedos na frente do rosto de Saga e deles um pozinho cor de rosa muito claro saltou em suaves salpicadas — Respire fundo. Isso vai te ajudar a dormir. Você precisa descansar.
— O que é isso? Ei! Eu não quero essas merdas dos seus remédios esdrúxulos, Afrodite... esses... seus... remédios... sempre fodem com o... o caralho... da minha... vida...
Enfim Saga adormeceu.
— Sonhe com a sua amazona, chefinho... que eu agora tenho que ir atrás do meu cavaleiro — suspirou aflito, ainda olhando para Gêmeos dormindo tranquilo — Mais essa agora. Ah! Dadá! Me cubra com seu manto de lantejoulas, amém!
Peixes deixou o Templo de Baco com várias recomendações aos funcionários para que não deixassem ninguém perturbar Saga no escritório. Ainda tinha muitas urgências para aquele dia, visitar Mu era uma delas. Estava aflito para saber como estava o amigo lemuriano depois da briga com Saga, já que ele também saíra muito machucado, mas nenhuma urgência era maior do que ir atrás de Camus.
Afrodite sabia que Camus estava com raiva, que aquele ar gelado fora um recado velado para si, mas imaginava que seria em consequência da conversa na noite passada e da incompatibilidade de opiniões quanto à volta de Saga. Sabia que Camus não perdoaria Gêmeos tão fácil, quiçá se um dia fosse perdoa-lo de fato, e nem podia condená-lo por isso.
Mal sabia Peixes que o motivo da ira de Camus era outro.
Dicionário Afroditesco
Nessa mala tem meia – Quando homens com pacotão chamam a atenção. Você pensa que é dote, mas na verdade todo aquele volumão é meia. Enganação, coisa mal contada, rolo.
