Ilha Moonscar, 25 de setembro de 1999.
Enquanto meus olhos lacrimosos de felicidade estavam na sombra do feixe de luar, há muito longe do ponto central adequado no relógio rochoso, Daphne exclamou, ainda atenta à estátua:
— Bendito seja Deus! Está vivo?!
Velma levou a mão à própria garganta e ergueu o queixo como se precisasse se impedir de vomitar, respondendo em tom sufocado:
— Talvez estivesse.
— O que diabos usaram para construir aquilo?!
Balancei a cabeça várias e várias vezes, falando:
— Deixa isso para lá. Não estão mais aqui para responder e pagar.
Daphne enfim baixou a arma e assentiu, murmurando:
— Também prefiro não saber. O que sei agora já é demais.
Por fim, nós nos voltamos na direção daqueles que haviam nos levado até ali em primeiro lugar. Velma sinalizou para Daphne guardar a alma e correu para aqueles pobres-diabos, tirando calmamente um canivete da bolsa e cortando as cordas prendendo-os, depois livrando-os das mordaças.
Hugo não disse nada, mas a cor já parecia voltar ao seu rosto. Fitzgerald também ficou calado por um tempo, o que acabou ao começar a passar os olhos pela câmara e deparar-se comigo, ao que respirou fundo e sorriu.
— Então conseguiram, no final das contas? Parabéns! Em meu orgulho, receei que sem mim seria mais difícil.
Daphne, já de arma guardada, aproximou-se de Fitzgerald e ajoelhou-se:
— O que houve exatamente, senhor?
Fitzgerald a olhou um tanto desconfortável, certamente lembrando do susto que levara pelos tiros, daí atentou de soslaio a Hugo, ergueu-se com dificuldade e afastou-se, com Daphne seguindo-o. No caminho, Fitzgerald tropeçou de fraqueza. Precisei apoiá-lo em mim e alimentá-lo com uns suprimentos. Enquanto isso, Velma tirava barras de cereais e água para Hugo, certificando-se de que ele não nos seguisse.
A uma distância segura, e alimentado e saciado, Fitzgerald disse:
— Um velho maluco me tirou de minha casa. Sabe-se Deus como me subjugou e bateu na minha cabeça. Deve ter me trazido para cá. Eu estive preso aqui desde então e o via quando ele vinha me trazer refeições – ele olhava para Daphne – A senhora deve ser da polícia. Prenderam-no?
Daphne hesitou somente por um instante antes de recompor-se:
— Não, e não sou da polícia. Sou uma voluntária ajudando o guarda Rogers. Não vimos ninguém enquanto vínhamos para cá, mas sabíamos que podia ser perigoso, então viemos armados. Desculpe se me excedi.
Pelo visto, ela aprendera a lição dela duramente demais para se submeter ao ridículo mais uma vez quando tinha a chance de evitá-lo.
Fitzgerald franziu o cenho, lembrando do breve diálogo que tínhamos trocado, talvez.
— Mas tiveram alguma pista para vir até aqui. Do contrário, o que tanto sabem?
— Temos mais lembranças ruins e suposições que qualquer outra coisa – Daphne apontou para a estátua – O que aquilo indicaria além de um culto satânico bizarro? Foi por pouco, senhor. Foi por muito pouco.
— Tem razão. O que quer dizer, porém, quando cita lembranças ruins?
— Não tentarei lhe esconder que sou parte de um grupo de pessoas que passaram pela mesma experiência que o senhor e Hugo, embora de uma forma mais sutil. Nossos algozes também escaparam quando oferecemos resistência, e por isso nos tiveram como loucos.
Um brilho de reconhecimento passou por Fitzgerald conforme ele examinava todos nós, contudo, a suspeita não foi embora.
— Sim, acho que lembro. Estou realmente grato, e não quero soar chato, entretanto, é certo dizer que estamos seguros? Se não viram ninguém, não sabem se alguém ainda pode estar escondido por aqui.
— É verdade, e tem outro detalhe preocupante: apesar de não termos visto ninguém, a ilha estava repleta de armadilhas. Meu noivo está lá em cima com o pé muito machucado.
— O mínimo que posso fazer é usar de meus conhecimentos de primeiros-socorros. Leve-me até ele.
Daphne o faria com muito gosto, antes, porém, encarnou Fred e ditou-me uma série de ordens:
— Reviste a casa toda e certifique-se de que ninguém está aqui.
— Eu? Sozinho?
Fitzgerald, sem familiaridade comigo, olhou-me confuso e disse:
— Você é um guarda-florestal.
Daphne explicou:
— Peça para Velma levar Hugo lá para cima e, depois, vá com ela e com Scooby.
Assim foi. Fred, Daphne, Hugo e Fitzgerald ficaram perto da porta da mansão, enquanto eu, Velma e Scooby percorríamos o térreo e, depois, cada um dos quartos acima.
Em um dos corredores, Velma disse:
— Parem de tremer. Não há perigo. Não veem que Daphne ordenou essa busca só pelo bem das aparências?
Pensei um pouco e encostei-me em uma parede, estupefato:
— Ah! Já passou do prazo faz tempo! Têm de ter virado pó.
Velma riu:
— Você estava olhando para o relógio lunar e só se deu conta disso agora?
— É, mas... Espere, manter as aparências por quê?
— Você aguenta outra rodada de escárnio midiático e local? Antes nunca sermos reconhecidos.
— Temos outras testemunhas.
— Também tínhamos Beau, o que não adiantou, além do mais, Fitzgerald e Hugo não viram nada sobrenatural.
— Hugo já te contou?
— Ele disse que viu um gatinho no bosque e o seguiu para pegá-lo, depois, adormeceu e acordou em um quarto, onde foi alimentado com frutinhas por um urso educado.
— Isso não parece natural. É óbvio que ele viu Snakebite ou Ariel nas formas de criaturas.
Não sei se foi algo que eu disse ou outra coisa na situação que drenou a cor no rosto de Velma, porém, com a calma que ela falava, nem parecia afetada:
— Mas ele está bem, pois não sabe disso, e assim continuará até... Até os pais decidirem levarem-no a algum psicólogo babaca que tentará extrair a verdade em meio a uma profunda ilusão contra traumas. Mesmo então, será melhor deixar que o convençam de que ele foi sequestrado por um homem comum, maldoso como qualquer mundano nas ruas deste país inteiro. É mais fácil superar um trauma do que um trauma combinado a ostracismo.
— Então o que diremos aos pais dele?
— O mesmo que Daphne começou a dizer para Fitzgerald, caso contrário, corremos o risco não apenas de sermos escarnecidos de novo, mas também de sermos tratados como suspeitos de um crime.
— Quê?!
— Pense bem: um bando composto de um só dos homens responsáveis pela busca e com um resto de voluntários é que acha os desaparecidos. Ninguém sabe com que pista eles descobriram o local do cativeiro e não há indícios dos sequestradores originais. Para piorar, o grupo excessivamente sortudo tem um histórico de loucura e desconfiança que virá à tona ao mesmo tempo em que nos exaltarem como heróis.
— Mas Fitzgerald viu Snakebite, e cedo ou tarde saberá que Ariel era um impostor.
— Sim, mas viu a forma suspeita como ele nos olhava. Um culto raramente envolve só duas pessoas, Salsicha. Pouco descarta a participação de cúmplices, até porque outra interpretação que podem dar ao depoimento de Hugo é uma fantasia, e quem usaria fantasia além daqueles que temem reconhecimento?
Scooby opinou:
— Hugo sabe da verdade. Não era fantasia nenhuma.
Velma encostou-se na parede junto de mim e não olhou para ninguém.
— É, mas eu já não disse que é melhor que ele ache que não sabe?
Falei:
— Eu sinto até inveja daquela inocência que pode mascarar os fatos.
Velma fechou os olhos:
— Eu também, e me preocupo com o isolamento que ele pode vir a sofrer se chegar em uma idade em que insista na história dele, sem nenhum crédulo, só zombadores.
— Ora, não se deprima! Fred e Daphne com certeza terão filhos. Hugo poderá recorrer a eles caso se sinta sozinho.
— Eles não morarão em Nova Orleans, Salsicha, e nem o farão, nunca.
— Eles podem fazer visitas. Será uma maravilha se as crianças não brincarem em parques, especialmente aqueles que têm pântanos. Nós também viremos.
— Ah, sim. Será uma maravilha receber na casa deles a mulher que quis deixar o filho deles morrer por puro egoísmo.
— Eu não vi nenhum egoísmo de sua parte nessas últimas vinte e quatro horas... só, talvez, quando não quis morrer sozinha para os crocodilos e me fez ficar ao seu lado junto de Scooby.
— Aquilo foi baixo! – Scooby exclamou.
Velma corou.
— Vocês não entendem! Como já haviam estupidamente me seguido, não tive escolha além de deixá-los quietos. Crocodilos caçam por movimentos. Se nos espalhássemos antes da hora H, eles poderiam se espalhar também e não escaparíamos.
Eu a provoquei:
— Conta outra! Como a mim, nada te apavora mais que morrer sozinha.
Ela não riu. Parecia distante e reflexiva, e eu já não sabia porquê.
— Alegria, mulher! A família de Hugo ficará grata e a maldição está acabada!
Meus dizeres só pareceram piorá-la. De branca, ela foi para verde, mas pensou que eu não perceberia; pensou que forçar uma risada e sair de perto de mim rápido demais seriam técnicas eficazes para enganar um burro como eu.
— Infelizmente, tem mais um sacrifício que temos de fazer para salvar nossas peles: achar o barco de Snakebite. Não podemos dizer a Fitzgerald que nosso barco desapareceu sem despertarmos suspeitas de que estávamos aqui o tempo inteiro.
Eu era tão fundamentalmente contra sair naquela noite, naquela ilha perigosa e ainda mortal pelos aspectos naturais que perduravam a despeito dos sobrenaturais, que racionei melhor que Velma em nome de minha vida:
— É aí que você se engana! Podemos interpretar como Daphne, não podemos? Ora, não precisamos falar que soltaram nosso barco. Agimos como se ainda achássemos que ele está naquele ancoradouro e ficamos na segurança desta mansão até de manhã, então, vamos até lá, fingimos choque e revelamos um roubo a Fitzgerald, que poderá achar que o sequestrador dele fugiu enquanto estávamos com ele, reforçando nossa inocência. Genial, hein, hein?
— Não, Salsicha, porque, quando acharmos o barco de Snakebite, Fitzgerald saberá que mentimos, a não ser que soltemos o barco de Snakebite e esperemos feito náufragos por socorro depois. Você prefere aturar só uma madrugada nesta ilha ou várias?
Baixando a cabeça, baguncei meus cabelos mais que o normal conforme suspirava:
— Ô diabo!
