Capítulo Vinte e Três
A Disastrous Date
(Um Encontro Desastroso)
— Está sozinho hoje? — perguntou Padfoot, afastando-se da parede do Cabeça de Javali.
— Hermione e Ron estão fazendo as compras de natal — falou Harry, tirando o cachecol ao seguir Padfoot para dentro do bar.
Era muito mais silencioso do que o Três Vassouras e não tão animado. Um grupo de alunos do sétimo ano estava amontoado em uma mesa do canto, mas, além deles, Harry era o único aluno de Hogwarts presente. Mas o bar estava cheio; Harry animou-se ao ver uma banshee antes de perceber que não era Kiera, viu quatro duendes perto da janela e um grupo de bruxas e bruxos inclinados sobre um pergaminho que se apagou no momento que viram Padfoot.
Padfoot escolheu uma mesa no canto mais afastado e eles se sentaram.
— Mas vai se encontrar com eles depois, certo? — perguntou Padfoot. — Você não... Certamente não quer ficar aqui comigo o dia todo.
— Erm, é, não, eu... eu tenho planos. — Harry pigarreou e olhou mais um pouco para o bar, ciente de que Padfoot o olhava com as sobrancelhas erguidas. — Quê? — murmurou.
— Me diz você — retorquiu Padfoot. Harry ainda não tinha lhe contado sobre Cho. Ele mesmo não tivera certeza até uns dias atrás (ela tinha dito sim!), mas só não tivera um bom jeito de mencionar o assunto.
— Só um almoço — falou, tentando ser casual. — Em alguma casa de chá...
— Madame Puddifoot? — perguntou Padfoot, sagaz.
— Er, sim — respondeu Harry, arriscando-se a olhar para seu padrinho. Padfoot tinha um sorriso largo. Harry nunca ouvira falar do lugar até Cho ter mencionado, e nenhum de seus amigos conhecia. Não sabia o que pensar do fato de que Padfoot conhecia. — Como você...?
— Assumo que não foi você que escolheu o lugar — falou ele.
— Não — falou. — Eu tinha sugerido o Três Vassouras, mas ela... Uh, quero dizer... — Fechou a boca, mas era tarde demais; o sorriso de Padfoot estava ainda mais largo.
— Qual é o nome dela?
Harry suspirou, desistindo.
— Cho.
— Então, a Cho escolheu a Puddifoot? — Harry assentiu, sem gostar do brilho nos olhos de Padfoot. — Bem, estou certo de que será uma... — Ele pigarreou, provavelmente engolindo uma risada. — Experiência e tanto.
— Cala a boca — murmurou Harry e, felizmente, Padfoot teve pena dele e mudou de assunto.
— Então, Ron e Hermione estão fazendo as compras de natal... E o Draco?
— Ele preferiu a biblioteca — falou. — E falando nisso, eu falei que te perguntaria...
— Me perguntaria o quê? — Padfoot parecia intrigado e um pouco preocupado.
— Sabe as dores de cabeça que ele tem tido? — perguntou, abaixando a voz. Padfoot assentiu lentamente. — Bem, ele teve mais uma, bem ruim, na aula de Poções dessa semana, só que dessa vez foi diferente. Ele disse que acha que o senhor Malfoy está em sua cabeça de algum jeito, então estamos tentando descobrir como.
— Em sua cabeça? Tipo possessão? — O tom de Padfoot era duro.
— Não, Draco acha que não. É só às vezes, ele sempre lembra e não ouve vozes quando acontece nem nada assim...
Padfoot ficou em silêncio por um tempo.
— A única coisa que consigo pensar que pode colocar alguém dentro da cabeça de outra pessoa é Legilimência — falou Padfoot lentamente. — Mas você tem que estar perto e normalmente também precisa olhar nos olhos, então a não ser que Lucius Malfoy esteja assistindo às aulas de Poções... — Parecia que algo ocorrera a Padfoot, mas ele não falou nada.
— Legilimência. — A palavra era vagamente conhecida. — Leitura da mente — falou. — Certo? — Mas onde tinha a ouvido antes?
— Mmm. — Padfoot franzia o cenho, e Harry quase conseguia ouvi-lo pensar, mas não sabia sobre o quê.
— Quê?
— Eu... não tenho certeza — falou Padfoot.
— Certo — respondeu, incerto. — Enfim, seja Legilimência ou outra coisa, Draco quer que pare, então eu falei pra ele procurar sobre Oclumência... — Harry sabia que o próprio Padfoot tinha usado Oclumência contra a Poção dos Dementadores e que Quirrell a usara para que ninguém desconfiasse de nada enquanto ele se passava por Morton, então supôs ser um bom começo. — Mas não conseguimos encontrar nada na biblioteca sobre essas coisas da mente. Eu não sei se simplesmente não tem ou se pegaram tudo emprestado, mas nem a Hermione consegue encontrar algo, então...
— Estranho. — Padfoot ainda franzia o cenho e parecia distraído.
— É — falou Harry. — Mas achei que talvez nós tivéssemos algum livro em casa? De quando você fez... — Harry usou a mão para indicar a cabeça, e Padfoot assentiu. — É óbvio que Draco não pode usar a biblioteca da Mansão, ou o senhor Malfoy vai saber...
— É, isso seria... Certo, eu dou uma olhada. — Padfoot apertou a ponte do nariz e ergueu a cabeça. A princípio, Harry achou que um urso tinha entrado no bar; apesar de não ser alta, a pessoa na entrada usava um casaco de pele grosso, um chapéu de pele e tinha um cachecol laranja enrolado na parte de baixo do rosto.
A pessoa viu Padfoot e acenou, aproximando-se. Padfoot balançou a cabeça e acenou de volta.
— Quem...?
— Mundungus Fletcher — falou Padfoot, antes de continuar mais alto quando a figura se juntou a eles. — O que você está vestindo?
— Pele de Nunda. — O homem apalpou o casaco, a voz abafada pelo cachecol. — Bonito, né?
— Como consegue pagar por pele de Nunda? — perguntou Padfoot, erguendo as sobrancelhas. — Você saiu faz uma semana, e pelo que eu ouvi, você não estava tão bem assim quando foi pego.
— Investimentos — falou Mundungus, balançando as sobrancelhas. — Eles renderam enquanto estava preso. — Harry olhou para Padfoot, incerto.
— Desculpe — falou Padfoot. — Dung, esse é meu afilhado, Harry. Harry, esse é o Dung. Ele acabou de sair de Azkaban.
— Pelo que você foi preso? — perguntou Harry sem pensar. — Digo... desculpe, isso... Eu não...
— Ele é um assassino — contou Padfoot, alegre. — Não é, Dung?
— Assassino? — repetiu ele. — Espera aí, eu sei que tenho meus problemas com os Aurores, mas...
— Dung é tão assassino quanto eu...
— Sabia que gostava de você, Sirius — falou Mundungus.
— Mas ele gosta de dizer que é quando lhe é conveniente — terminou Padfoot.
— Ah! — Mundungus bateu na testa. — Está falando do Greyback. Fui eu. Sério, eu invadi Azkaban, fui até a cela...
— Então é ou não um assassino? — perguntou Padfoot.
— Er... não. Não considero assassinato se foi um monstro...
— Então agora os lobisomens são monstros, é? — perguntou Padfoot. — É por isso que nunca gostou muito do Remus?
— Não foi o que eu quis dizer! E eu gosto dele, ele que nunca gostou de mim. — Mundungus olhou para Harry. — Sempre muito correto aquele Lupin. Um pouco conservador demais pra mim. — Harry apenas o olhou até que Mundungus pigarreasse. Padfoot parecia severo e, de algum modo, também divertido. — E o que é isso, um interrogatório? Acha que é um Auror? — Harry olhou para Padfoot.
— Não, não vim te interrogar sobre isso — respondeu Padfoot, os lábios se torcendo. — Eu tenho algo com que você pode me ajudar se ainda tiver seus antigos contatos...
— Não posso ajudar. Eu virei a página — falou Mundungus. Padfoot ergueu uma sobrancelha.
— Virou a página? Pele de Nunda é proibida...
Houve um baque e um grito antes de cerveja amanteigada cobrir os três. Harry piscou, Padfoot — que parecia ter recebido a maior parte — cuspiu e Mundungus se ergueu num pulo, gritando.
— Meu casaco! Sabe quanto ele custa?
O transgressor era um elfo doméstico minúsculo — menor até que Monstro e Dobby —, que usava uma fronha com estampas floridas e babados. Ela correu até Padfoot e começou a limpar suas vestes, ainda segurando a bandeja de bebidas com a outra mão.
— Winky sente muito, senhores, tanto, tanto...!
— Está tudo bem — falou Padfoot, tentando se afastar dela. — Nada que um feitiço rápido não resolva...
— ... arruinado! — urrava Mundungus, segurando as pontas de seu casaco.
— Desculpe, senhor, desculpe... — Ela estava quase em cima de Padfoot, segurando o pano que conjurara, usando-o para secar seu rosto e ombros.
— Ai, não puxa... — Padfoot a pegou e a colocou longe dele, onde ela começou a chorar ruidosamente. Padfoot esfregou a cabeça com uma careta e sacou a varinha. Em um momento, ele estava seco, assim como Harry e (Harry assumiu) Mundungus, apesar de ele continuar urrando. — Olha, está tudo bem — falou Padfoot. — Olha, eu estou seco, não há por que se preocupar...
— Winky s-sente tanto, senhor...
— Em nome de Merlin, o que está acontecendo aqui? — O garçom se aproximou para ver o que era todo o barulho e parecia particularmente mal-humorado. Ele parou quando notou Mundungus. — Você? Achei ter te banido...
— Não, não — falou Mundungus, abaixando o chapéu e virando a cabeça para o outro lado. O elfo tinha sumido, mas Harry achou ser melhor assim; ela estivera chateada o bastante sem os gritos. — Definitivamente não fui eu, desculpe, acho que está procurando outra pessoa, mas não sou eu...
— Ah, pelo... — Padfoot deu um passo para frente, parou e se virou para Harry. — Não fique aqui para isso, garoto, eu te vejo depois. — Harry hesitou, mas Padfoot parecia cansado o bastante sem precisar se precisar se preocupar com ele, então foi em direção à porta quando Padfoot foi na direção dos dois com o Auxiliar erguido.
O lado de fora estava quieto; tinha começado a nevar, então Harry achou que as pessoas estavam se protegendo nas lojas e bares. Ainda faltava uma hora até ter que se encontrar com Cho na Madame Puddifoot, então fuçou em algumas lojas antes de se sentar no banco em frente a Zonkos e estudar o mapa por um tempo.
Mas o nome de Wormtail não estava em nenhuma parte da escola, então Harry desistiu e foi para a Madame Puddifoot dez minutos mais cedo para esperar por Cho.
Não era um prédio grande, apesar de Harry não conseguir ver o lado de dentro; as janelas estavam embaçadas. Havia um enfeite de natal na porta, cujos vãos deixavam sair o som das conversas.
Cho chegou alguns minutos depois de Harry e sorriu, corando, ao vê-lo.
— 'Dia — falou ela. — Está adiantado.
— Er, é, eu estava com Padfoot e um cara chamado Mundungus e aí esse elfo doméstico... — O sorriso de Cho congelou e ela não parecia saber se ele estava brincando ou não. — Deixa pra lá. Então, er, a Madame Puddifoot fica aqui?
— É o que parece — respondeu Cho com uma risada. — Eu nunca vim, mas Marietta vem sempre com Riley e ela gosta bastante. — Cho sorriu e colocou o cabelo atrás da orelha. — Vamos entrar?
— Claro — respondeu. Cho esperou por um momento, antes de balançar a cabeça levemente, abrir a porta e entrar. Harry a seguiu.
O lugar tinha um cheiro bom — como café e açúcar —, mas a boa impressão que Harry tinha do lugar acabava aí. Ele soube instantaneamente por que Padfoot tinha rido quando mencionara o lugar.
Era muito... brilhante. Enfeites escandalosos, prata e rosa, estavam pendurados no teto, e as mesas eram cobertas por toalhas cheias de babados e brilhos que quase lembravam flocos de neve, e confetes no mesmo estilo flutuavam pelo ar, jogados por pequenas criaturas douradas, parecidas com fadas.
— Oh! — falou Cho. Harry a olhou com uma careta, mas apressou-se a sorrir quando viu o sorriso largo no rosto dela. — Não é maravilhoso?
— É algo a mais — concordou, desenrolando o cachecol. Ia matar Padfoot por deixá-lo entrar naquele lugar sem um aviso.
A lojinha estava cheia. Todos que estavam ali — exceto por uma mulher em vestes prateadas — usavam o uniforme de Hogwarts. Harry reconheceu algumas pessoas, mas não sabia seus nomes, exceto por Percy Weasley. Ele era o único garoto que não olhava para a decoração com um sorriso forçado e, em vez disso, gesticulava animadamente ao contar uma coisa ou outra a sua namorada.
Harry e Cho se acomodaram numa mesa no fundo, Cho ainda olhando ao redor, maravilhada.
Harry pediu chá e Cho, café; a Madame Puddifoot os deixou com o cardápio enquanto ia atender outra mesa.
O querubim passou pela orelha de Harry, assustando-o e fazendo Cho rir. Ela tirou as luvas e jogou o cabelo por cima do ombro, sorrindo para ele.
— Então... — falou ela. — Você obviamente gosta de Quadribol, mas... o que mais? Qual é sua matéria favorita?
— Defesa — respondeu Harry, dando de ombros. — Ou talvez Transfiguração. E a sua?
— Eu gosto muito de Aritmancia no momento — falou ela, pensativa. — Você cursa?
— Sim — respondeu. — Mas não me dou muito bem.
— Se precisar... Eu não me importaria de te ajudar se...
— Ah — falou, seu coração se apertando um pouco; agora ela provavelmente achava que ele era burro. — Sim, isso seria... obrigado.
Eles ficaram em silêncio, Cho escondida atrás de sua xícara de café. Harry sentiu-se um acompanhante particularmente inadequado; os outros casais murmuravam entre si sobre a mesa — alguns falavam coisas particulares que Harry não queria ouvir, mas ouvia mesmo assim por causa de sua audição aguçada —, outros sem conversar, mas em um silêncio confortável. Alguns estavam de mãos dadas ou pressionavam as pernas sob a mesa, e Harry perguntou-se se Cho esperava que ele fizesse isso; ela também os observava.
Agora bastante ansioso, Harry olhou ao redor, procurando por algo sobre o que falar que não tivesse nada a ver com os outros casais ou com a casa de chá abafada, e ganhou um punhado de confete e glitter no rosto.
Cho levou a mão à boca, mas uma risadinha escapou. Harry sentiu seu rosto esquentar e tentava decidir se devia rir com ela ou amaldiçoar a fada quando Cho voltou a falar.
— Está ansioso pelo natal?
— Mais ou menos — respondeu, dando de ombros. — Vai ser bom ir pra casa e rever o pessoal, mas vou passar um tempo com meus tios e nós... não nos damos bem às vezes. — Harry não queria falar muito mais sobre o assunto, e Cho não parecia saber o que dizer. — Você?
— Vou ficar na escola — contou ela, colocando o cabelo atrás da orelha. — Meu pai viaja bastante, e minha mãe vai com ele nessa viagem, então...
— Ah — falou ele. — Desculpe...
— A Marietta também vai ficar — contou Cho, dando de ombros. — E Riley também, então não vai ser tão ruim...
Harry conseguia sentir o silêncio voltar e perguntou a primeira coisa que lhe ocorreu:
— Quando é seu aniversário? — Cho o olhou, e Harry corou. — Desculpe, foi uma pergunta id...
— Outubro — falou ela.
— Ah. Então você tem...?
— Quinze anos. — Então ela era mais velha que o resto de seu ano, como Hermione.
— Desculpe — repetiu Harry. — Foi uma...
— Foi fofo — falou Cho, sorrindo para ele. Harry desejou escorregar por sua cadeira e ser engolido pelo chão. Uma fada jogou mais confete nele, para piorar ainda mais as coisas. Dessa vez, Cho apenas sorriu, divertida, quando Harry balançou a cabeça para se livrar do excesso. O confete caiu em seu chá, e ele suspirou. — Então, você disse... Quem é aquele Padfoot de quem você falou antes, quando estávamos lá fora?
— Ah, é como eu chamo o Sirius — contou, aliviado por ter algo sobre o que falar. — É por causa do Animago dele... sabe, o cachorro preto enorme.
— Imagino como deve ser — comentou Cho.
— Superestranho, para começo de conversa — falou ironicamente e, aí, apressou-se a acrescentar: — Ou é o que o Padfoot diz. — Cho murmurou sua concordância, mas não falou mais nada, e Harry não conseguiu se forçar a fazer uma pergunta depois da idiotice que tinha sido perguntar seu aniversário.
Cho o salvou mais uma vez ao perguntar:
— Ele é um Auror, né? É o que estava no jornal há uns meses...
— Padfoot estava no jornal? — perguntou Harry, confuso. Ele lia o Profeta (embora admitisse não ler do começo ao fim), mas não se lembrava de ter visto algo sobre Padfoot nele; ele estava no caso Wormtail-Crouch há quase um ano e era sempre becos sem saída o tempo todo, em vez de pistas interessantes. Ele tinha resolvido casos menores nesse meio tempo, mas nada que fosse digno de ser noticiado.
— Sim, foi... — O ar gelado acertou a nuca de Harry, que ficou tenso por um momento, temendo que fossem Dementadores. Cho olhava para algo por cima de seu ombro, mas não parecia ter medo.
Mas parado na porta não estava um Dementador, nem mesmo outro casal. Era Padfoot.
Harry ficou nervoso na mesma hora, sem saber se Padfoot estava ali por algo ter acontecido ou por ter decidido envergonhar Harry. Seu segundo sentimento com toda a situação foi de alívio; gostava de Cho — ela era muito bonita e boa no Quadribol —, mas não era bom em conversar com ela. Se Padfoot precisasse conversar com ele ou precisasse de sua ajuda, então Harry sairia da casa de chá e teria tempo para pensar em assusto para conversar com Cho quando voltasse a vê-la.
Os olhos de Padfoot brilharam quando ele encontrou Harry e Cho — os dois apenas o olhavam — e ele caminhou entre as mesas, indo em sua direção.
— Você precisa...? — Cho gesticulou na direção de Padfoot, a testa enrugada. Era claro que ela o reconhecera, fosse por causa do jornal ou por vê-lo pela escola.
— Não sei — murmurou Harry, olhando para Padfoot com confusão. Ele sorriu, mas havia algo estranho. Ele ainda não tinha falado.
Padfoot conjurou uma cadeira enquanto caminhava; ela apareceu entre Harry e Cho. Ela olhou para Harry com incerteza, e Harry retribuiu.
Padfoot se sentou, ainda sorrindo de um jeito estranho, e Harry sentiu seu cheiro; não era o de Padfoot, mas era vagamente conhecido. Da última vez que o sentira, tinha sido em seu dormitório e na mochila de Hermione.
Wormtail.
Ele ficou tenso e fez menção de pegar sua varinha, mas "Padfoot" já estava com a sua sobre a mesa, apontada para Cho, que recuou com os olhos arregalados.
— Não — falou em voz baixa. Harry abaixou a mão. — Se cooperar, ninguém se machuca. — Seu cheiro era honesto, não que Harry confiasse nele. Cho guinchou. Ela parecia prestes a chorar. Harry se lembrou da última vez que tinha ficado cara a cara com esse homem... ainda que seu rosto e o que ele usava agora fossem diferentes.
— Solte a varinha — falou Harry, firme, mas baixo.
Não funcionou. Da última vez que falara com Wormtail, ele estivera em débito consigo e fora forçado a fazer o que Harry quisesse. Mas parecia que débito tinha sido pago, ou vencido. Harry engoliu.
— Onde está o Padfoot? — perguntou. E como Wormtail tinha conseguido a aparência dele? Era uma semelhança muito perfeita para ser um feitiço, e Harry sabia que alguém teria dito algo se Wormtail fosse um Metamorfomago.
— Por aí — respondeu Wormtail. — Varinha, agora, e seu espelho. A sua também — adicionou, olhando para Cho.
— Harry... — falou Cho, pegando sua varinha lentamente. Wormtail a tirou dela. Harry hesitou, perguntando-se se era rápido o bastante para conjurar um feitiço antes de Wormtail. Ele olhou para Harry e curvou os dedos, impaciente.
— Estou impressionado por você ter percebido tão rápido... — Olhou duramente para Harry.
— Eu conheço meu padrinho — respondeu, tenso.
— É o que parece. Mas sabe quem eu sou? — Harry assentiu lentamente, e Wormtail, com o rosto de Padfoot, ergueu uma sobrancelha.
— Um... — Harry olhou ao redor da casa de chá. Algumas pessoas olhavam para eles, a maioria curiosa; Harry duvidava que em algum momento da história da loja uma mesa acomodara mais de duas pessoas. — Rato. — Wormtail cerrou os olhos e esticou a mão que não segurava a varinha para Harry.
— Então sabe como sou bom com feitiços de explosão — falou suavemente. Os olhos de Cho iam de Harry para Wormtail, seu cheiro aterrorizado. — Faça uma cena ou tente me atacar, e eu farei uma demonstração. — Por um momento, Harry perguntou-se se Wormtail tinha lido sua mente, mas aí se deu conta de que ele usava seu cheiro do mesmo jeito que tentava usar o dele. Isso significava que ele teria um aviso no instante em que Harry decidisse atacá-lo...
Harry entregou sua varinha lentamente. Wormtail a guardou em suas vestes e esticou a mão, pedindo o espelho.
— Ele vai te pegar — falou Harry, pegando o espelho. — Sirius Bl... — Wormtail acenou a varinha na direção de Harry subitamente, suspirando, e a voz de Harry deixou de funcionar. Wormtail tirou o espelho de sua mão e o colocou na mesa. — Achei que tentaria algo assim. Finite.
Harry sentiu algo passar por sua garganta e soube que conseguiria falar, mas não tentou.
— O que ele... — Cho engoliu, olhou para Harry e, depois, para Wormtail. — O que você quer?
— Preciso de algo — disse ele simplesmente.
— Não vai conseguir nada até deixar Cho ir — falou Harry. Cho o olhou com um brilho grato nos olhos.
— Para ela ir correndo até os Aurores? — perguntou Wormtail, incrédulo. Ele balançou a cabeça. — Não, ela fica até eu conseguir o que vim buscar. Eu não quero machucá-la, mas é o que vou fazer se for necessário para que você me ajude. — Harry acreditava nele. Cho se afundou em sua cadeira. — Entendeu? — Harry assentiu, tenso. — Bom. Agora, eu preciso da capa.
Harry não ficou surpreso, mas tentou parecer, apesar de não tentar se fazer de desentendido.
— Azar — falou. — É minha — Cho soltou um som que poderia ser um soluço quando Wormtail ergueu um pouco a varinha.
— Bem, Harry?
— Não está comigo — falou.
— Então vai me levar até ela. Nós três vamos dar uma volta e...
— Não está em Hogwarts, também — interrompeu; achava que Wormtail sabia disso, então não havia por que não contar.
— Onde está, então? — O cheiro de Wormtail era impaciente, mas também desesperado.
— Não sei — respondeu honestamente. Quase falou ter dado a Padfoot para que ele a escondesse, mas pensou melhor; isso faria Wormtail perguntar como Harry sabia que ele a queria, e os sonhos de Harry eram úteis demais para simplesmente entregá-los. — Emprestei a alguém...
— Então vai pedir de volta...
— Agora não, não vou — disse honestamente. — Vou deixar onde está.
— Quem está com ela? — insistiu Wormtail.
— Com a última pessoa que te ajudaria com algo — respondeu.
— Sirius? — A voz de Wormtail era quase um gemido.
— Adivinhou bem — falou, arrogante, mas Wormtail não respondeu; por seu cheiro, ele parecia pensar.
Eles não falaram por alguns momentos; Harry alternava entre observar Cho, que não parecia estar se controlando muito bem, e Wormtail, que parecia considerar algo. Harry se remexeu, inquieto, e aí algo pequeno e dourado chamou sua atenção por cima do ombro de Wormtail.
Olhou para a mesa, observando a fada se aproximar dali pelo canto dos olhos. Ela colocou a mão dentro da pequena cesta que carregava, e Harry prendeu a respiração, torcendo...
A fada jogou o confete neles três. Pela primeira vez naquele dia, Harry esperava por isso, mas Wormtail não, assim como Cho.
Ela ofegou, pulando, fazendo várias pessoas os olharem, e Wormtail se contorceu, olhando para a fada em uma confusão aborrecida. Harry viu sua chance e a aproveitou, jogando a mesa para cima de Wormtail. Então, Harry tirou Cho de sua cadeira e a colocou atrás dela — só para o caso de Wormtail escolher um feitiço de explosão.
Não foi o que ele fez.
O que ele fez foi soltar um som furioso ao tirar a mesa de seu colo e, aí, o salão se encheu com uma fumaça pesada e cinzenta. Harry não conseguia ver nada, mas ouviu as cadeiras serem arrastadas quando as pessoas se levantaram, ouviu uma garota gritar, ouviu alguém tentar usar um Finite — que não fez nada — e, por fim, ouviu quatro patinhas arranharem o chão quando Wormtail fugiu.
Continua.
