Os últimos dias têm sido uma loucura.
Se eu achava que não seria possível minha vida mudar ainda mais... Eu estava enganado.
Nas últimas semanas, tanta coisa aconteceu que 24 horas por dia não parecem ser suficientes.
É bem verdade que meus horários de gravação na série foram bem reduzidos... Camus e Milo de fato começaram a levar o roteiro para explorar outros personagens, outras situações...
A trama deixou de ficar tão centralizada nas histórias dos três irmãos e começou a enveredar por outros enredos, que ajudam na evolução da trama central, mas que podem caminhar por conta própria.
Novos personagens foram trazidos, novos desenvolvimentos... Preciso reconhecer; Camus e Milo são bons no que fazem. Afinal, Saga e Kanon pediram que essas mudanças no roteiro ocorressem o mais rápido possível e eles entregaram um serviço de qualidade prontamente.
A série vem demonstrando que tem fôlego para seguir muito bem sem precisar se apoiar apenas na trama central. E isso, para mim, é maravilhoso.
Ao contrário do que muitos realmente pensaram, eu não estou achando ruim todas essas mudanças. Acredito que tenho surpreendido muita gente com a forma como estou tão tranquilo diante dos novos caminhos que a série está seguindo.
Faz sentido a surpresa de todos. Sempre pensaram nesses três irmãos como muito egocêntricos, com seus ataques de estrelismo, como se não quisessem compartilhar uma cena com o irmão apenas por não quererem dividir a atenção que recebem...
Sinto até uma certa diferença de tratamento da parte dos diretores. Aioros está sendo até mesmo mais gentil comigo. E Aioria... bem, Aioria também está me tratando bem, a não ser quando incorporo Rikki, mas aí eu já sei que não tem a ver comigo, e sim com essa paixão platônica que ele sente pelo Shun. Fico observando como ele se comporta perto do garoto e me pergunto quando é que ele pretende se declarar. Afinal, ficar me tratando mal não vai ajudá-lo a conquistar Shun...
De todo modo, não tenho tido tempo para me preocupar demais com o que acontece nos sets de gravação da série. A pedido de Pandora, estou sendo mais direcionado para investir na minha carreira musical.
Foi apresentado, para todo o grupo responsável por fazer a série acontecer, que Ikki teria de se dedicar mais a essa carreira musical, mas que isso seria importante para a série ganhar ainda mais espaço. Não houve problemas nesse sentido, todos aceitaram bem a ideia, compreenderam que esse cenário musical poderia se transformar em um importante braço da série, ajudando a fortalecê-la e consequentemente sendo um bom negócio para todos.
Por isso, faz um bom tempo que não gravo uma cena como Ikki. E, nas poucas cenas que precisei fazer, foi como Rikki e Ikky.
Entretanto, isso não me ajudou tanto a ficar menos esgotado. Pandora e Mime estão cobrando muito de mim, porque desejam alcançar resultados rápidos e concretos.
Assinei um contrato com a gravadora da Pandora no dia seguinte àquela festa, onde já havia dado minha palavra de que não relevaria meu segredo a ninguém. Mesmo assim, foi preciso assinar toda uma papelada que assegurasse que eu não falaria nada a qualquer pessoa, com o risco de cancelamento da série, caso não cumprisse minha palavra.
Contudo, Pandora ao menos honrou sua palavra. Estava também explícito nesses papéis que meu contrato com a gravadora, assim como o contrato de sigilo, tinham um ano de duração. Meu segredo poderia ser revelado ao cabo desse tempo e meu contrato com a gravadora, renovado, se tudo caminhasse de acordo com o esperado.
Assim, tenho estado a maior parte do meu tempo dentro de um estúdio, gravando todas as músicas que já apresentei na série. Em uma semana, graças ao ritmo frenético que me impuseram para gravar todas as canções, Pandora e Mime tem lançado uma música minha por dia para que possa ser baixada e criando no público sempre esse frenesi, essa espera pela próxima música, que será lançada no dia seguinte. Dessa forma, meu nome e o da série estão sempre entre os mais comentados em todas as redes sociais.
É óbvio que eles não planejam continuar nesse ritmo eternamente. Até porque uma hora as músicas que tenho prontas terminarão e eu não sou capaz de escrever novas letras assim, diariamente.
A ideia deles é interessante, devo admitir. Eles querem primeiro que meu nome seja reconhecido, que a minha música seja difundida ao máximo, para criar uma fanbase sólida, e só então eu começaria a fazer lançamentos mais esporádicos, de álbuns completos e não mais de singles... Porque aí eu já terei um público cativo e minha carreira estará mais consolidada.
Isso quer dizer muito trabalho pesado logo de cara. Foram horas e horas de gravações seguidas. Mime é bem perfeccionista. A mesma música, o mesmo refrão, eu tive de regravar por incontáveis vezes, até que alcançasse o nível desejado por ele. Apesar de me sentir acabado ao final de toda gravação feita em estúdio, eu preciso reconhecer: o resultado ficou muito bom.
Então, após uma semana de intensos trabalhos, já tínhamos as primeiras músicas para serem lançadas. Pandora fez questão de que a primeira a se lançar fosse "Bed of roses", porque ela dizia ser essa a sua preferida. Realmente, a apresentação que fiz para ela naquele primeiro evento deixou marcas profundas. Passei uma excelente impressão.
Depois, fomos seguindo com as músicas que haviam sido apresentadas na série... "Wanted dead or alive", "Blaze of glory", "Living on a prayer", "You give love a bad name"...
Quanto à série, inicialmente fiz mais cenas como Ikky do que como Rikki. Shun ainda estava cuidando muito de sua mãe e os roteiristas quiseram ajudar, levando a história mais para o lado de outros personagens e, quanto aos três irmãos, o que mais apareceria nesse momento, seria Ikky com Shaka.
Curiosamente, minhas cenas com Shaka estavam sendo feitas com relativa facilidade. Parecia que, com ele, tudo conseguia ser muito profissional. Houve uma ou outra cena mais quente, mas fui percebendo que conseguia me desconectar de mim e entregar um trabalho que representava de fato um personagem, não eu.
Um dia, após nossas gravações terminarem, vi Hyoga passando pelo set. Ele parecia ter ido conversar com Camus, mas notei logo que ele estava interessado em falar novamente com Shaka.
Shaka e eu havíamos terminado nossa cena e, como já era de praxe, o empresário vinha me congratular pela atuação. Tínhamos conseguido estabelecer uma relação bem mais tranquila, com cada um entregando um bom trabalho e Shaka, pelo visto, prezava muito por um trabalho bem feito.
- Boa cena hoje, Ikky. – ele disse, enquanto tomava um gole de sua garrafa de água.
- Você também, Shaka. – retribuí o cumprimento e, com o canto dos olhos, vi Hyoga, à distância, fingindo se entreter com alguma tarefa, enquanto aguardava que Shaka se dirigisse para a saída, onde provavelmente o jornalista preparava-se para interpelar mais uma vez o poderoso e sempre tão ocupado empresário.
Shaka, entretanto, parecia atarefado e apressado como sempre. O mais provável é que ele simplesmente seguisse reto, sem dar muita atenção a Hyoga.
Hyoga e eu estávamos tendo pouquíssimo contato desde aquele dia na praia. O afastamento não foi proposital, mas acabou acontecendo naturalmente. Eu precisei me dedicar à carreira musical que Pandora e Mime estavam me ajudando a trilhar e, nos poucos momentos em que eu tirava uma folga das gravações de músicas, eu precisava gravar algumas cenas. Tinham diminuído meu trabalho na série, mas não inteiramente. Eu ainda tinha de fazer alguma aparição, mesmo que gravando ultimamente apenas como Ikky.
Por isso, Hyoga e eu praticamente não estávamos nos vendo. Eu sentia a falta dele e é engraçado como a ausência me fez perceber mais claramente que meus sentimentos por ele eram ainda mais intensos do que eu imaginava. Normalmente, era só eu deixar de ver uma pessoa por alguns dias para me esquecer dela com alguma facilidade.
Entretanto, eu não me permiti ir atrás dele, embora isso tivesse passado por diversas vezes em minha cabeça. Cheguei a tomar o caminho do apartamento dele em algumas ocasiões, mas sempre acabei dando meia-volta e desistindo dessa ideia.
Então, nesse dia, era a primeira vez que eu via Hyoga depois de tantos dias... Eu senti vontade de ir até ele, mas soube me conter. E, em vez disso, resolvi que seria uma boa ideia tentar fazer algo por ele:
- Shaka, posso conversar com você um pouco? Ou precisa sair imediatamente?
Shaka me olhou com alguma surpresa. Nossa relação era tão estritamente profissional que, fora de cena, raramente trocávamos mais do que duas frases um com o outro.
Talvez por isso, pelo inusitado da situação, o empresário tenha decidido flexibilizar a agenda dele.
- Não; tudo bem. Meus negócios podem esperar um pouco. Venha; vamos conversar no meu camarim. Lá teremos mais privacidade.
Segui com Shaka e obviamente notei como Hyoga nos observou entrando no camarim dele. Apenas suspirei e entrei, fechando a porta atrás de mim.
- E então, Ikky? Do que se trata?
- Shaka, eu sei que você é muito ocupado... Inclusive, sei que já dei muito trabalho a você nesse sentido. – ri um pouco, lembrando como, no começo, nossas gravações eram bem mais problemáticas – Mas acho que já passamos dessa época e hoje temos uma relação de trabalho boa, com uma troca bacana em cena, num entrosamento legal.
- Concordo. Fazer nossas cenas têm sido bem mais tranquilo, de fato.
- Então, posso estar enganado, mas acho que existe hoje cumplicidade suficiente entre a gente para eu te fazer um pedido.
Shaka arqueou uma sobrancelha:
- Um... pedido?
- Sim. – suspiro pesadamente – Não é para mim. É para uma outra pessoa.
- E quem seria essa pessoa?
- Hyoga.
- O jornalista?
- Exato. Ele precisa muito conversar com você.
- Já dei uma entrevista para ele. Se não me engano, a pedido seu.
- Eu sei. E estou pedindo que o faça de novo. Ele realmente precisa conversar com você.
Shaka se mostra pensativo. Deve estar ponderando algumas questões e resolvo impulsioná-lo a acatar meu pedido:
- Shaka, Hyoga está investigando um caso muito sério. Envolve uma empresa que já fez negócios com você. Segundo Hyoga me disse, você não tem culpa e nem possui envolvimento com os erros cometidos por essa empresa que o Hyoga está tentando denunciar. Mas parece que só você pode ajudá-lo a encontrar as provas necessárias para ele levar essa empresa à justiça.
- Hum... Agora, algumas das perguntas que ele me fez na entrevista passam a ter algum sentido...
- Ele está nesse caso há muitos anos, Shaka. É realmente importante para ele.
- Estou percebendo. Não nego que ele seja persistente. Eu já estava quase cedendo a uma nova entrevista, tamanha a insistência dele em vir atrás de mim. Minha secretária já está com pena dele...
- Então, faça isso hoje. Por favor. Ele está aí fora, provavelmente tentando conversar com você.
- Eu notei. – Shaka riu de leve – Eu ia tentar escapar mais uma vez, mas... acho que posso dar um jeito de encaixá-lo na minha agenda.
- Que bom. – sorrio aliviado – Muito obrigado por isso.
Eu já me preparava para deixar o camarim dele, quando Shaka disse:
- Antes de você ir, Ikky... Posso lhe fazer uma pergunta?
Eu, que já estava me levantando da cadeira onde me encontrava, voltei a me sentar, indicando com esse gesto uma resposta afirmativa à pergunta dele.
- Há quanto tempo você está apaixonado pelo Hyoga?
Acho que meu rosto não conseguiu esconder a surpresa que senti ao ouvir aquelas palavras. Eu sabia bem que estava apaixonado, mas não achava que estivesse assim tão evidente.
- Não se preocupe. Não está tão óbvio assim. – ele respondeu, como se tivesse lido meus pensamentos.
- Então, como você percebeu que...?
- Eu estava desconfiado. Imaginava que você estivesse apaixonado. Não sabia que era pelo Hyoga; isso ficou claro para mim apenas agora.
- O que levou você a desconfiar disso?
Shaka sorriu largamente. E então me olhou, ainda sorridente:
- Comecei a perceber que, nas gravações, você estava agindo de uma forma muito parecida comigo.
- Parecida em que sentido?
- Você também fica pensando em outra pessoa enquanto gravamos juntos. Notei que você faz isso, porque é como eu ajo também...
- Você... está apaixonado, Shaka?
- Sim, Ikky. Estou. – o sorriso dele se abriu ainda mais – Por um amigo meu. Temos uma relação complicada e... – ele suspirou – Enfim... Sempre que estamos em cena, eu penso nele. E percebi que você parece fazer o mesmo. Estou certo?
- Está sim. – acabei sorrindo um pouco também. De fato, em cada cena gravada nessa série, tenho sempre pensado em Hyoga. Nem era consciente, simplesmente, acontecia assim.
- Então, acho que preciso mesmo ajudar o Hyoga, como forma de retribuir por ele ter me ajudado a gravar essa série com mais tranquilidade. É graças a ele que nossas cenas têm sido mais fáceis de se gravar. Pelo visto, estar com ele em mente ajuda você a se concentrar mais. – brincou Shaka.
- É, acho que sim. – limito-me a dizer.
- Mas você não respondeu a minha pergunta. Há quanto tempo está apaixonado por ele?
- Há um tempo razoável.
- E, entretanto, eu raramente vejo você na companhia dele.
- É que não é tão simples assim, Shaka.
- Você não gostaria de estar com ele?
- É claro que sim.
- Então por que não busca se aproximar dele?
- Já disse que não é tão simples assim.
- É por causa do seu irmão? O Ikki? Acha que eles estão envolvidos?
- Shaka, eu já disse... Não é simples...
- Como você pode saber? Já tentou?
- Escuta, por que tanto interesse em ajudar na minha relação com o Hyoga? Que eu saiba, não pedi ajuda para isso! – acabo elevando o tom de voz e agindo como o Ikky imaturo que, há algum tempo não aflorava em mim.
Shaka arregalou um pouco os olhos, diante da minha reação. Achei que ele iria revidar e eu já me arrependia de ter agido assim, mas, para minha surpresa, o empresário respondeu, com a voz calma, porém um pouco triste:
- Você tem razão. Não tenho de me intrometer na sua vida. Estou até sendo um pouco hipócrita aqui... Eu falo para você agir, quando eu mesmo não faço o que prego.
- Seu amigo... Ele não sabe do que você sente por ele?
- Não. Como ele poderia saber? Eu nunca disse nada a ele. Em vez disso, procuro sempre motivos para alfinetá-lo, provocá-lo, porque normalmente sinto que me aproximo dele quando faço isso. Mas essa aproximação não passa de uma ilusão e, no fundo, eu sei disso.
Eu me calo, por simplesmente não saber o que dizer. Eu não estava em uma situação muito melhor que ele.
- Sabia que foi por isso que eu entrei para essa série? – Shaka prosseguiu, para meu leve espanto. Pelo visto, ele estava precisava desabafar – Meu amigo sempre me disse que eu precisava me soltar um pouco mais... Ele diz que tenho muita necessidade de ter controle sobre tudo, que me faria bem fazer algo bem diferente do que estou acostumado, sair do que ele diz que é a minha zona de conforto...
- Por isso você aceitou o convite para essa série? – pergunto, curioso – Você seguiu à risca o que seu amigo falou. Aqui você realmente teve de lidar com situações bem fora de seu controle... Especialmente porque teve de contracenar comigo. – rio um pouco.
- É... Você não facilitou em nada o meu trabalho. Mas aprendi algumas coisas com isso... E acabei percebendo que Mu tinha razão sobre muito do que me dizia...
- Mu? – repito o nome – Esse... não é o nome do responsável pelas relações-públicas da série?
Shaka percebeu então que acabou entregando o nome de seu amigo sem querer, mas também não pareceu se arrepender muito disso:
- Sim, é ele mesmo. Mu e eu nos conhecemos de longa data... Temos uma amizade sólida, boa. Mas eu sempre senti que precisava de algo mais... só que não sei se ele aceitaria isso. Mu é uma pessoa incrível. Acho que dificilmente ele gostaria de se envolver comigo dessa forma.
- Por que diz isso?
- Você não conhece Mu. Se o conhecesse, saberia que ele é a pessoa mais incrível que você poderia conhecer. Ele consegue cuidar da imagem de todos dessa série, sempre apresentando o melhor lado de todos aqui, porque ele realmente acredita no que fala. Mu é uma pessoa muito boa. E justamente porque ele é tão bom em ver o lado bom de tudo, é que ele é tão bom para lidar com quaisquer adversidades que apareçam por ele. Mu lida com gente, e pessoas são sempre tão imprevisíveis... E ele consegue dar conta disso com tanta facilidade, sem nunca perder aquele jeito dele tão calmo, tão tranquilo, tão pacífico. Ele é tão oposto a mim. Acho que é por isso que preciso tanto dele. Sinto que me torno uma pessoa melhor quando estou com ele, porque aprendo com ele...
- Talvez ele sinta o mesmo. Justamente porque são assim tão diferentes, pode ser que um equilibre o outro.
- Pode ser. Mas ele sempre me disse que eu precisava abrir mão dessa minha necessidade de ter controle sobre tudo a meu redor. E eu sei que ele tem razão nisso, mas me era tão difícil... Acabamos tendo uma discussão feia por conta disso. Tão feia que tive muito medo de perder a amizade dele por ter falado que ele não me conhecia e não sabia nada a meu respeito. Eu o magoei com algumas palavras cruéis... porque eu sei ser cruel quando necessário.
- Eu sei bem disso.
- Eu me desesperei quando senti que ele estava até mesmo me evitando depois da briga que tivemos. Foi aí que recebi o convite para essa série. Num primeiro momento, eu já estava pronto para dar uma resposta negativa, mas foi quando escutei de Saga e Kanon as palavras "imprevisibilidade" e "abrir mão do controle". Eles disseram que isso seria fundamental para que a série desse certo e que essa era a tônica dela. Nem os diretores, nem os roteiristas, nem os atores poderiam ter pleno controle sobre o que aconteceria na série. Boa parte dela funcionaria com base na naturalidade da interação entre os atores e isso certamente traria alguns momentos bastante imprevisíveis. Isso caiu como uma luva para o que eu estava buscando naquele momento. Eu queria desesperadamente mostrar para o Mu que era capaz de fazer o que ele havia me dito. Por isso aceitei o convite.
- Nossa, ele deve ter ficado surpreso quando soube...
- Muito! – Shaka riu, parecendo se divertir com essa recordação – Ele ainda estava me evitando, então simplesmente enviei para ele um e-mail com o contrato assinado em anexo, para ele entender que eu faria parte de um projeto televisivo bem inusitado. Ele me ligou no mesmo instante, perguntando se eu havia perdido o juízo, me expondo dessa forma...
- E o que você disse a ele?
- Que eu era capaz de lidar com o imprevisível, sem ter de planejar todos os meus passos. A reação dele diante disso foi até positiva, ele compreendeu que esse era meu pedido de desculpas... Mas não deixou de ficar preocupado comigo, com a minha imagem. Por isso, ele quis fazer parte do projeto como relações-públicas, preocupado em me ajudar a manter minha imagem, afinal, eu também dependo da minha imagem para fazer negócios. E ele tem sido muito bem sucedido até agora.
- E ele deve estar tendo bastante trabalho. Afinal, somos todos assunto constante na mídia.
- É, acho que sim...
- Acho que isso é uma demonstração do carinho e do cuidado que ele tem com você. Talvez, você devesse seguir seu próprio conselho e se aproximar mais dele, Shaka. Não como amigo, porque nessa esfera vocês parecem se entender bem. Mas, talvez... você devesse arriscar... Não acha?
- Não sei, Ikky... Tenho medo de colocar tudo a perder.
- Shaka, se parar pra pensar... Não há como perder o que você não tem. Você e Mu não tem uma relação como a que você gostaria... então não tem como perder isso.
- Eu falo em respeito à nossa amizade... Não quero perder isso...
- E eu acho que a amizade de vocês, por tudo o que me falou, é forte o bastante para resistir ao que quer que seja. Dê algum crédito a ele. Não acho que ele deixaria de ser seu amigo, independente de você se declarar para ele ou não. Então... realmente acredito que valha a pena tentar...
Shaka se calou, pensativo. E eu olhei no meu relógio para checar o horário e confirmar o que já imaginava: eu estava atrasado. Mime e Pandora iriam ficar furiosos.
- Preciso ir agora. Mas muito obrigado por me ouvir e por aceitar ajudar o Hyoga...
- Eu é que agradeço pela conversa, Ikky. – o empresário disse, com um semblante mais leve, e apertou minha mão.
Saí de lá apressado. Vi que Hyoga continuava por ali e que me notou tão logo abri a porta do camarim de Shaka. Ele me olhava com alguma desconfiança, provavelmente imaginando o que eu tinha feito lá dentro e por que havia demorado tanto...
Não disse nada; apenas segui meu caminho para a minha casa. Quando já estava quase chegando à minha entrada, ouvi a voz de Shaka:
- Hyoga! Pode vir até aqui, por favor?
Olho para trás e vejo o empresário, à frente de seu camarim, com a porta aberta e convidativa para que Hyoga entrasse e pudessem conversar.
Hyoga, por sua vez, pareceu não acreditar no que ouvia. Ele segurava o seu velho e surrado caderno, parecendo incrédulo do que acontecia.
Então, ele olhou para mim.
E eu me senti muito bem por ter aqueles olhos celestes novamente voltados para mim.
Hyoga me interrogou com um simples olhar.
Ele havia entendido o que tinha acontecido ali.
E eu apenas respondi com um sorriso, oferecendo a ele uma resposta silenciosa e afirmativa ao que ele me indagava.
Compreendendo tanto em meio a esse diálogo mudo, Hyoga acenou a cabeça para mim, em um gesto que indicava sua gratidão.
Abri um sorriso ainda maior e fiz um breve aceno de despedida com minha mão, entrando em casa logo em seguida.
Tratei de me arrumar o mais rápido que pude. Felizmente, era sempre mais rápido quando precisava me caracterizar como Ikki – ou seja, como eu mesmo.
Ainda assim, me atrasei consideravelmente.
Estava marcada, para esta noite, a primeira apresentação ao vivo que eu faria.
Conforme Mime já havia me avisado, eu me apresentaria, em horário nobre, logo após a exibição de mais um capítulo da nossa série.
Um atraso para a primeira exibição ao vivo não era nada legal.
Por isso, quando cheguei ao estúdio onde faria minha primeira aparição pública, Mime já estava em um considerável estado de nervos:
- Ikki! Onde você estava?
- Me desculpe, Mime... Eu me atrapalhei com o horário...
- Não tenho nem tempo de discutir com você agora! Vamos! Eles precisam ajeitar os últimos detalhes com você. – e ele fez um gesto, que chamou toda uma equipe para me ajudar a me organizar.
Minha apresentação seria feita em um talk-show, que tinha grande audiência.
O público que estava presente era razoavelmente grande. O suficiente para me trazer algum nervosismo.
- Pronto. Já vão chamar você. Não se preocupe, vai dar tudo certo. – Mime me falou, tentando em vão me tranquilizar. Eu subitamente me dava conta do que estava prestes a acontecer.
Finalmente, ouço chamarem meu nome. Era minha deixa para entrar no palco.
Felizmente, Pandora havia feito um acordo de não haver muita conversa antes ou depois da minha apresentação. Preocupada em manter ao máximo a aura de mistério em torno de mim, ela condicionou minha participação no programa a uma única pergunta que o apresentador poderia me fazer.
Assim, quando entrei no palco, primeiramente me vi um pouco cegado por tantas luzes e refletores.
O apresentador me anunciou e veio até mim. Eu ouvia muitos aplausos, mas mal enxergava o público à minha frente.
- Então, Ikki! É uma honra que você faça sua primeira apresentação ao vivo aqui conosco! Porém, sabemos que você tem uma agenda apertada e que infelizmente não teremos tempo para um bate-papo mais longo agora... Então, vamos ao que interessa! Que música você vai nos apresentar hoje?
- É uma música nova. – respondi – Não foi apresentada na série, mas foi escrita por mim já há algum tempo. Representa a forma como, durante muito tempo, eu enxerguei que deveria levar minha vida.
- Fantástico! Então, sem mais delongas... Com vocês, Ikki Amamiya!
A banda já havia se posicionado no palco. Eles eram ótimos, eram os mesmos músicos que me acompanharam na primeira vez que me apresentei para Pandora. Estávamos bem afinados, eles trabalhavam muito bem comigo.
A presença deles me ajudou a entrar na vibe certa para aquela apresentação.
Então, começamos a tocar a música:
This ain't a song for the broken-hearted
No silent prayer for faith-departed
I ain't gonna be just a face in the crowd
You're gonna hear my voice when I shout it out loud
It's my life, it's now or never
I ain't gonna live forever
I just want to live while I'm alive
(It's my life) my heart is like an open highway
Like Frankie said: I did it my way
I just wanna live while I'm alive
It's my life
This is for the ones who stood their ground
For Tommy and Gina who never backed down
Tomorrow's getting harder make no mistake
Luck ain't even lucky, got to make your owns breaks
It's my life, it's now or never
I ain't gonna live forever
I just want to live while I'm alive
(It's my life) my heart is like an open highway
Like Frankie said: I did it my way
I just wanna live while I'm alive
'Cause it's my life
Better stand tall when they're calling you out
Don't bend, don't break, baby, don't back down
It's my life, it's now or never
I ain't gonna live forever
I just want to live while I'm alive
(It's my life) my heart is like an open highway
Like Frankie said: I did it my way
I just wanna live while I'm alive
It's my life
It's now or never
I ain't gonna live forever
I just want to live while I'm alive
(It's my life) my heart is like an open highway
Like Frankie said: I did it my way
I just wanna live while I'm alive
It's my life
Esta não é uma canção para quem tem o coração partido
Não é uma oração para quem perdeu a fé
Eu não serei só um rosto na multidão
Você vai ouvir minha voz quando eu gritar bem alto
É a minha vida, é agora ou nunca
Eu não vou viver para sempre
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
(É a minha vida) meu coração é como uma rodovia aberta
Como Frank Sinatra disse: Eu fiz do meu jeito
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
É a minha vida
Isto é para aqueles que fizeram seu caminho
Para Tommy e Gina que nunca desistiram
Está ficando difícil não cometer nenhum erro amanhã
A sorte ainda não é sortuda, tem de fazer suas próprias regras
É a minha vida, é agora ou nunca
Eu não vou viver para sempre
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
(É a minha vida) meu coração é como uma rodovia aberta
Como Frank Sinatra disse: Eu fiz do meu jeito
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
Porque é a minha vida
É melhor estar em alerta quando eles chamam por você
Não se curve, não desmorone, baby, não desista
É a minha vida, é agora ou nunca
Eu não vou viver para sempre
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
(É a minha vida) meu coração é como uma rodovia aberta
Como Frank Sinatra disse: Eu fiz do meu jeito
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
É a minha vida
É agora ou nunca
Eu não vou viver para sempre
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
(É a minha vida) meu coração é como uma rodovia aberta
Como Frank Sinatra disse: Eu fiz do meu jeito
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
É a minha vida
Ao término da apresentação, eu fui efusivamente ovacionado. A sensação era realmente incrível.
O apresentador veio novamente falar comigo:
- Ikki, parece que o sucesso quer ser muito seu amigo! Todas as suas músicas que foram lançadas nesses últimos dias estão entre as mais ouvidas, baixadas... Alguns achavam que os números incríveis que suas músicas estavam alcançando eram fruto de já terem aparecido em uma série, que está fazendo também gigantesco sucesso. Mas acho que isso agora ficou provado que não é verdade... Claramente, o público gostou dessa nova música!...
Foi realmente uma noite incrível. Eu me senti vivo, eu me senti bem...
E, paradoxalmente, eu me senti triste por não ver Hyoga ali. Minha felicidade, naquele momento foi tão grande, que senti uma vontade imensa de compartilhá-la com ele. Entretanto, ele não estava ali... e isso fez aquela noite ter um sabor doce e amargo.
Na manhã seguinte, quando acordei e fui ver se havia mensagens no meu celular, percebi que não teria condições de ler e tampouco de responder a todas. Era uma verdadeira enxurrada de congratulações.
Contudo, no meio dessas mensagens todas, uma delas me chamou mais a atenção.
Era de Saga, avisando que eu me organizasse para, no dia seguinte, gravar com Shun. Ao que tudo indicava, a mãe dele já se via plenamente recuperada e agora ele poderia voltar a gravar. No mais, Saga dizia que eu tirasse o dia de hoje para folga, afinal, eu tinha feito por merecer esse descanso.
Resolvi aproveitar o dia de folga e fazer uma visita a Shun. Durante todo esse período, não tive tempo de vê-lo e saber como ele estava apropriadamente. Afinal, no dia seguinte, não teríamos muito tempo para conversar, já que precisaríamos correr com as gravações, para tirar o atraso do tempo perdido.
Levanto-me bem disposto da cama, tomo uma ducha revigorante e me visto como Rikki. Passando pela cozinha, pego uma maçã e deixo minha casa.
Saga e Kanon haviam me comprado um carro para que eu pudesse me locomover com mais prestreza. Eu preferia uma moto, mas eles alegaram que eu precisaria da privacidade de um carro e eles tinham razão. Quando eu saía, dificilmente encontrava paz. Sempre havia fãs querendo falar comigo, pedindo autógrafos e tudo o mais.
Eu não era ríspido com essas pessoas, pois compreendia bem que meu trabalho dependia da aceitação deles. Mas não fazia parte do meu perfil me prolongar muito nesse contato com os fãs. Por isso, poder entrar em um carro para sair de onde estivesse quando necessário era realmente essencial no momento que eu estava vivendo.
No meu carro, rumei rápido para o apartamento de Shun e Hyoga. Não nego que meu coração batia um pouco mais forte com a possibilidade de talvez encontrar o loiro lá também...
Ao chegar, havia alguns repórteres ali em frente ao prédio. Isso havia se tornado constante. Os paparazzi sempre ficavam rondando os lugares que normalmente frequentávamos, esperando tirar alguma foto que pudesse estampar seus tabloides.
Estaciono o carro e, sem dar assunto aos fotógrafos que se colocavam à minha frente, apenas toco o interfone. Escuto a voz de Shun:
- Pois não?
- Shun? É o Rikki.
Escuto em seguida a porta se abrindo e, rapidamente, adentro o prédio.
Lá dentro, respiro um pouco aliviado, já que os paparazzi não tinham permissão para entrar ali.
Subo as escadas e finalmente chego ao apartamento.
Toco a campainha, e logo a porta se abre:
- Rikki! Que bom ver você! – Shun exclama, assim que me vê! Em seguida, me dá um forte abraço.
- Oi, garoto. Tudo bem com você? Vim ver como estava... Soube que vamos voltar a gravar amanhã.
- Ah, eu estou ótimo! Entre, por favor.
Assim que entro no local, me é explicado como as coisas foram organizadas por ali. Shun estava dormindo no sofá da sala, porque eles haviam trazido a mãe para ficar no apartamento, pelo menos por um tempo enquanto ela fazia algum tratamento específico para sua situação delicada no hospital, que era referência no seu caso. Como ela e Esmeralda moravam muito longe do hospital, foi acordado entre todos que as duas se instalassem também no apartamento, até que a mãe de Shun não tivesse mais necessidade de ficar voltando com frequência para o hospital, a fim de fazer novos exames.
Por isso, o apartamento estava cheio. Além de Shun, Esmeralda e a mãe, estavam ali também June e Aioria.
- Vem, Rikki! Eu ainda não apresentei você para a minha mãe. Quero muito que a conheça!
Recebo um olhar hostil de Aioria, mas nem me abalo com isso. Sigo Shun pelo corredor, após acenar brevemente com a cabeça para cumprimentar June e Esmeralda.
No quarto, Shun me introduz e me apresenta para sua mãe, uma senhora de aparência bastante frágil, que logo me abre um enorme sorriso:
- Então você é o Rikki? Muito prazer. Shun já me falou bastante de você.
- O prazer é todo meu. Como está a senhora?
- Estou ótima! Não poderia estar melhor. Meus filhos estão me mimando... E vejo como meu filho está cercado de boas pessoas. Eu não poderia pedir que ele estivesse melhor!
Sorrio para a boa senhora e conversamos sobre mais algumas amenidades. Depois, Shun diz que ela precisa descansar um pouco e nos retiramos do aposento.
No corredor, antes de regressarmos à sala, Shun me faz um sinal para parar e começa a me dizer, em tom de voz baixo:
- Rikki, eu sei que você presenciou uma vez uma cena péssima de quando minha irmã invadiu o set de gravações... E sei que ouviu coisas terríveis a meu respeito. Sabe-se lá a imagem que você teve de mim a partir daquilo...
- Imagine, Shun. Eu nunca pensei mal de você.
O garoto sorriu, com uma expressão de gratidão.
- Você é um ótimo parceiro de cena, Rikki. Sabia disso?
- Obrigado, Shun. Também gosto muito de gravar com você. Você se entrega na atuação; tanto que aprendi muito com você... – respondi, com um sorriso sincero para ele.
Shun ri, com alguma leveza.
- Sabe? Foram coisas assim que me deixaram tão encantado por você. – o rapaz enrubesceu um pouco – Tenho certeza de que percebeu que eu estava interessado em você, Rikki.
Fiquei bastante sem-jeito quando ele começou a falar assim. Shun notou e abriu um sorriso mais largo:
- Não se preocupe. Não estou querendo cobrar nada de você, Rikki. Pelo contrário. Queria apenas agradecer. Sabe, eu... imagino que você, assim como todo mundo naquele estúdio, escutou as reclamações da minha irmã. Todos vocês ouviram ela dizer que não me queria ali, participando de uma série. Mas ela não fez por mal. Minha irmã estava muito preocupada comigo, porque ela temia que eu seguisse o caminho do meu pai. Meu pai atuou, muito tempo atrás, em um programa de TV de relativo sucesso. O problema é que ele se envolveu com gente que só foi puxando ele para um buraco cada vez mais fundo. Meu pai começou a beber demais, depois passou a experimentar muitas outras drogas... Ele não se controlou e, bem... – Shun suspirou triste – Isso acabou tirando a vida dele. Minha mãe nunca se recuperou dessa perda.
- Eu não sabia disso, Shun... Sinto muito pelo seu pai. – falei com sinceridade. Eu sabia como era doloroso perder um pai quando se é tão jovem.
- Obrigado. De todo modo, minha irmã temia por mim... Mas hoje, tanto ela quanto minha mãe viram que a história não vai se repetir comigo. Estou, como mamãe acabou de dizer, cercado de pessoas boas. Além de estar na série junto do meu melhor amigo e de ter o apoio os roteiristas que até escreveram os últimos roteiros de modo que eu pudesse ficar em casa, cuidando de minha mãe... Também tive o apoio dos diretores, especialmente do Aioria, que vem aqui todos os dias, para saber se não estou precisando de algo. Ele é muito cuidadoso comigo...
Notei um brilho diferente nos grandes olhos verdes de Shun ao falar de Aioria. Sorri discretamente.
- E, além de todos eles... Eu também tive a sorte de ter um parceiro de cena incrível como você.
- Eu não fiz nada de mais, Shun.
- Fez sim, Rikki. É como eu acabei de dizer. Tenho certeza de que você percebeu que eu estava me apaixonando por você. E isso foi devido a esse seu jeito tão cuidadoso comigo...
- Shun, eu...
- Não; espera eu terminar de falar. Por favor. – Shun respirou fundo – Eu me encanto com facilidade pelas pessoas. Não é culpa sua que eu estivesse começando a nutrir sentimentos mais fortes por você. Eu também estava misturando um pouco de realidade e ficção, sabe como é... – ele riu de si mesmo, mas um pouco sem-graça – Enfim... o seu jeito é encantador por si só. Não deu para evitar. Mas... a grande questão, e é especialmente por isso que eu quero lhe agradecer, Rikki... é que você não correspondeu ao meu sentimento. E tudo bem, sabe? A vida é assim. Nem sempre esses sentimentos são recíprocos. O ponto que eu quero destacar é que, apesar disso, você nunca deixou de ser gentil comigo. Nunca me destratou, nunca agiu como se estivesse sendo um incômodo para você.
- Shun, eu jamais faria isso com você.
- Nem todo mundo faria isso no seu lugar, Rikki. Ainda mais depois de...
- ... de? – repeti, já que ele se interrompeu, pensativo, como se estivesse se indagando se deveria continuar o que iria dizer.
- De... – ele sorriu serenamente – De você talvez perceber que tivesse um outro interesse romântico. Sabe, eu tenho consciência de que fui um pouco inconveniente algumas vezes. E você, estando inclusive interessado em outra pessoa... Poderia ter me dado um "chega-pra-lá" com gosto, sabe? Poderia ter sido grosso, poderia ter me falado diretamente para ficar longe quando não estivéssemos gravando...
- Por que eu faria algo assim, Shun?
- Porque você estava interessado no meu melhor amigo. E meu interesse em você poderia atrapalhar alguma investida da sua parte... Enfim... só queria agradecer por ter tido um cuidado comigo de me permitir que a desilusão acontecesse dentro do meu tempo. Você não precisou me traumatizar para que eu me afastasse de você. Desse jeito, meu encantamento foi passando, porque você também não alimentou esse meu sentimento... E hoje resta uma grande admiração e o desejo de manter uma forte amizade com você. Mas apenas isso. – ele finalizou, me oferecendo um bonito sorriso.
Fiquei sem palavras. Não sabia como responder a palavras tão carinhosas e inesperadas...
E também não sabia o que dizer... Então ele tinha percebido como eu me sentia em relação a Hyoga?...
- A propósito... Ele não está aqui agora, viu? – Shun piscou um olho para mim.
Nesse momento, Aioria surgia no corredor:
- Shun, Esmeralda está chamando você na sala.
- Ah, ela deve estar procurando meu carregador pela milésima vez. – Shun se encaminhou para a sala – Esmeralda, já disse para você comprar um carregador novo! Não dá para você ficar usando o meu toda hora...
Eu ia e retirar também, mas Aioria se colocou à minha frente:
- Olha aqui...
Bufei, cansado. Já estava na hora de Aioria se situar e, se ele não fazia isso sozinho, então era minha vez de colocá-lo no seu devido lugar:
- Olha aqui, você. – comecei, em tom baixo, mas sério o suficiente para intimidar – Pare de ficar querendo me acuar. Por que gasta energia comigo? Não é em mim que você está interessado. Por que não direciona toda essa energia que você dispende tentando me intimidar e não cria logo coragem para chamar o garoto para sair com você qualquer dia desses? Aposto não só como ele aceitaria, como gostaria muito de receber esse convite de você!
Deixei Aioria completamente sem reação. Dei dois tapinhas amigáveis no ombro dele e saí dali.
- Shun, estou indo. – avisei, já me dirigindo à porta.
- Está bem. Obrigado pela visita, Ikki! Vejo você amanhã! – ele diz, enquanto parece procurar o carregador da irmã atrás do sofá.
- Pode deixar que eu abro a porta para ele, Shun. – disse Esmeralda.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, a garota já havia aberto a porta e saído para o corredor. Fui atrás e, uma vez fora do apartamento, ela encostou a porta e, timidamente, começou a me falar:
- Obrigada por ter cuidado do meu irmão. Sei de como o tratou por todo esse tempo; ele me conta tudo... – ela sorriu e percebi o quanto os dois eram realmente parecidos fisicamente – Desculpe-me se não tratei você muito bem da última vez em que nos vimos, no hospital... Mas é que, naquela época, Shun estava no auge da paixão por você e ele me falava de você de um jeito que... – ela baixou os olhos verdes, um pouco acanhada – Acho que o encantamento dele passou um pouco para mim. Na verdade, ele falava de você como sendo tão protetor, que eu acabei me atraindo um pouco por isso... – ela riu nervosa – Nós dois perdemos o pai quando éramos muito novos e tivemos de cuidar de nossa mãe desde então. Acho que tanto ele quanto eu passamos a ter atração por pessoas assim, que tem esse perfil de cuidador... – ela falava um pouco rápida, ansiosa por se justificar.
- Esmeralda, não precisa se justificar. Não foi nada de mais. Naquele dia, no hospital, imaginei que estivesse muito preocupada com sua mãe. Não fiquei julgando suas atitudes; nem poderia.
A garota sorriu.
- Você realmente é muito gentil.
- Na verdade, não sou, não. – sorrio de volta – Costumo até ser ríspido demais. Mas você e seu irmão são muito doces e simplesmente não é possível tratar vocês de outra forma.
- Esmeralda? – June aparece de repente, abrindo mais a porta – Shun está chamando. Disse que encontrou seu carregador.
- Ah, que ótimo! – respondeu Esmeralda – Obrigada mais uma vez, Rikki. Você é mesmo um cavalheiro. – ela me sorri delicadamente e volta para dentro do apartamento.
Assim que ela entra, June simplesmente fecha a porta, permanecendo do lado de fora, comigo, no corredor.
- Olha... eu sei que não faz por mal. Mas você poderia dar menos sinais confusos para esses dois.
- Sinais confusos?
- Sim. Como parece que acabou de acontecer. Eu olho para você e sei que não é do seu feitio ser assim tão "cavalheiro", como a Esmeralda acabou de falar. – a amiga de Shun olhava para mim com imponência, enquanto cruzava os braços.
- De fato, essa não é uma das minhas principais características. Mas não estou querendo enviar sinais confusos para eles. E pode ficar tranquila, eles sabem disso muito bem.
- Sabem, é? – June me olhava desconfiada.
- Sim. Ambos me falaram isso. Não há mal-entendidos aqui, pode ter certeza.
June me encarava, sem medo de olhar nos meus olhos.
E percebi que os olhos dela tinham algo em comum com o meu. Era um olhar que sabia ser tempestade como o meu.
- Está bem. Você me parece um cara bacana. – ela falou, após me olhar tão profundamente nos olhos – Desculpe se pareci muito rude com você. Mas é que, em se tratando dessa família, eu me faço extremamente protetora. Eles já passaram por muitas coisas. Então, se eu puder afastar qualquer tipo de sofrimento deles... É o que vou fazer...
Eu me surpreendi em ver como a amiga de Shun demonstrava tanta força em suas palavras. E, por um lado, me senti um pouco triste, por saber que Shun não correspondia aos sentimentos dela...
- ... mesmo que os meus sentimentos nunca sejam correspondidos... Eu não preciso de reciprocidade para ser leal a essa família. Eles já me ajudaram muito na minha vida. Fico feliz de poder retribuir como puder. – June prosseguiu, como se soubesse o que eu estava pensando.
Eu sabia que essa última parte ela falou mais para si mesma, do que para mim. Não disse mais nada; já havíamos nos entendido. Fiz um aceno com a cabeça como gesto de despedida e fui embora dali.
Eu tinha um dia de folga, mas não sabia o que fazer. Já tinha algum tempo que eu não dispunha de tanto tempo assim para mim e agora eu nem sabia o que fazer com tantas horas para gastar como bem entendesse.
Meu primeiro pensamento foi o de me dirigir para a praia. Era verão, o sol brilhava intensamente no céu azul.
Entretanto, assim que me aproximei da praia, percebi o quanto estava lotada. Pelo visto, não fui só eu que achou que fazia um bonito dia para aproveitar à beira-mar.
Dei meia-volta com meu carro e fiquei dirigindo meio sem rumo. Contudo, quando passei perto das docas, eu vi aquele pequeno estúdio abandonado e um sorriso tomou os meus lábios.
Havia sido tão agradável entrar naquele pequeno mundo à parte, que parecia um tesouro que eu e Hyoga tínhamos encontrado naquele dia.
E, no momento, seria ótimo voltar para aquele mundinho particular, afastado dessa realidade que se mostra um tanto sufocante.
Estaciono ao lado do pequeno estúdio. Ali era uma região bastante vazia, tomada por ampla vegetação do lado de fora. Realmente, uma parte da cidade que estava um pouco abandonada, e que por isso mesmo trazia a sensação de que eu estava em um outro lugar, em uma outra época...
Assim que entro no estúdio, tenho uma grata surpresa:
- Hyoga? – falo, sem esconder um enorme sorriso.
- Rikki? – o loiro se levanta de um aconchegante tapete que estava sobre o chão. Olho ao redor e percebo diferenças comparadas à última vez que estive ali. O local permanecia parecendo um lugar perdido no tempo, graças a uma série de artefatos antigos que ainda se encontravam lá. Porém, além de estar limpo, demonstrando que alguém havia tirado toda a poeira dali, o lugar abrigava agora alguns novos objetos.
Além do grande e confortável tapete estendido sobre o chão, havia um grande número de almofadas sobre ele. Havia também um pequeno conjunto de mesa e duas cadeiras dobráveis ali. Sobre a mesa, um pequeno vaso de cristal com várias rosas vermelhas.
Ao redor do loiro, uma quantidade razoável de livros.
- Como me achou aqui? – Hyoga pergunta.
- Eu não estava procurando você. Na verdade, eu vim aqui porque... da última vez em que estivemos neste lugar, eu me senti bem. E estava procurando um lugar que me fizesse sentir assim. Recordei-me desse estúdio e então... simplesmente segui esse impulso.
- Ah, sim. Entendo. – era impressão minha, ou eu consegui notar uma ponta de frustração em seu tom de voz?
- Este lugar está diferente... – eu falo, caminhando pelo lugar – Foi você que o arrumou assim?
- Foi. – Hyoga sorri, também passeando os olhos pelo lugar – Eu também adorei esse ambiente da primeira vez que viemos aqui. Gostei tanto, que tenho voltado aqui com frequência. Nas últimas semanas, meu apartamento esteve... um pouco lotado... – o loiro ri de leve – Eu senti falta de ter um espaço só para mim. E eu sabia que se fosse para os lugares que estava acostumado a frequentar, como minha cafeteria predileta, a praia ou a livraria próxima da minha casa, eu não conseguiria ter meu momento de paz, como gostaria... Então me lembrei daqui... e resolvi fazer desse um refúgio para mim. Limpei o lugar e trouxe algumas coisas que pudessem deixar o ambiente mais confortável...
- Fez um excelente trabalho. Aqui ficou um lugar bastante acolhedor. Parece até mais iluminado.
- Ah, isso é porque eu limpei as janelas. Estavam muito empoeiradas. Agora que estão transparentes como deviam, percebe quanta luz natural entra aqui?
- Sim... E vejo que já criou o seu canto da leitura. – aponto para o tapete com as almofadas e livros.
- Esse é mesmo meu canto preferido aqui. O silêncio, a luz natural... e aqui é bem fresco, apesar do verão. Deve ser por conta de toda essa vegetação frondosa que cerca todo o estúdio. Tudo isso colaborou para este lugar se tornar o ponto ideal para as minhas leituras. Aqui sinto que consigo ouvir meus pensamentos... Sinto paz...
Observo mais uma vez o ambiente e consigo sentir exatamente tudo o que ele descreve:
- Realmente, aqui parece um oásis escondido daquele mundo lá fora...
Hyoga me observa por alguns segundos, antes de dizer:
- Olha... essa descoberta não foi apenas minha. Encontramos esse lugar juntos. Então, não é justo que somente eu tire proveito do que esse pequeno paraíso pode proporcionar. Se quiser, pode fazer uso do espaço também.
- Sério?
- Claro! Por que não? Esse oásis pode ser tanto meu quanto seu.
- Puxa, eu nem sei o que dizer... Obrigado, Hyoga. Eu realmente estava precisando de um lugar assim. A casa em que vivo lá no estúdio não me traz tanta privacidade como eu gostaria...
- Isso deve ser bem chato.
- Muito! Por isso, vou aceitar sua oferta muito satisfeito! – eu sorrio para ele, enquanto o loiro se senta novamente sobre o tapete, se acomodando melhor sobre ele.
- E vai ficar aí em pé?
- Como assim?
- Pode se sentar. Ou não quer usufruir desse paraíso agora?
- Eu... posso?
- Já disse que sim, Rikki.
- Achei que era para utilizarmos esse espaço alternadamente.
- Por quê? Não quer dividir o espaço comigo, na minha presença?
- Não, não é isso! É só que... Eu achei que você não quisesse.
- E por que eu não iria querer, Rikki?
- Não sei. Não sei como estamos...
- Até onde sei, depois da nossa última conversa, nós somos, no mínimo, amigos. Ou estou enganado?
Sorrio de leve.
- Vamos. Pegue um livro. Eu trouxe vários, deve haver algum que te interesse, Rikki.
Vou até o tapete e me sento sobre ele. Começo a passar os olhos pelos livros e logo vejo alguns volumes do meu autor preferido: Júlio Verne.
Acomodo-me melhor entre as almofadas. Hyoga já voltado para seu livro e parecia compenetrado em sua leitura. E eu, sentindo-me bastante confortável com aquele silêncio e, principalmente, com aquela presença, fui tomado pela agradável sensação de simplesmente me deixar estar ali.
Nos dias que se seguiram, aquilo havia se tornado um hábito. Sempre que eu conseguia uma brecha na minha rotina agitada, eu corria para o nosso pequeno oásis. Nem sempre Hyoga estava lá, mas eu permanecia ali mesmo assim. Contribuí com alguns livros meus, que eu levava e deixava lá para o loiro ler também. E, mesmo quando eu não o encontrava lá, sabia que ele havia passado pelo lugar porque Hyoga sempre trocava as rosas do vaso.
Na maioria das vezes, entretanto, nos encontrávamos ali. Líamos juntos, às vezes em silêncio, mas já nos sentíamos à vontade demais na companhia um do outro e o usual era que um ou outro sempre começasse a tecer algum comentário sobre o livro que estivesse lendo em determinado momento. E, a partir daí, começávamos a conversar sobre tantos outros assuntos, como um filme que fez a adaptação de certo livro, a trilha sonora do filme, um show que gostaríamos de assistir...
E assim os dias iam seguindo, tão agradáveis, que pareciam um sonho.
Eu tinha essa impressão às vezes... e temia o momento em que tivesse de despertar para a realidade.
Essa realidade pareceu se aproximar quando Hyoga chegou, em um fim de tarde e me encontrou acendendo os lampiões que deixávamos ali para quando fazíamos leituras à noite.
- Não achei que fosse encontrar você aqui hoje. Pensei que já tivesse ido para casa.
- Não, felizmente ganhei uma folga hoje...
Isso tinha se tornado um hábito. Toda vez que eu fazia alguma apresentação ao vivo, eu ganhava um dia de descanso. Ontem eu tive de me apresentar, então ganhei o dia para repousar... até porque amanhã, farei nova apresentação...
Esse ritmo frenético de gravações, apresentações... tudo isso poderia estar me enlouquecendo. Mas ter esses momentos no dia em que eu encontrava Hyoga me ajudavam a suportar tudo.
- E você? – perguntei, vendo o loiro se sentar ao meu lado sobre o tapete – Estava gravando com Shaka?
Apesar de eu não estar ainda gravando cenas como Ikki, Hyoga continuava gravando algumas cenas. Inclusive, na trama, Camus seguiu o conselho de Hyoga e fez o personagem de Shaka ser de alguma ajuda para que o jornalista conseguisse fazer justiça, na luta pela causa que defendia, dentro da trama criada no roteiro.
Era literalmente uma situação em que a arte imita a vida.
Em virtude disso, Hyoga gravava algumas cenas com Shaka e aproveitava para, depois da cena, trabalhar junto com ele na investigação.
Shaka acabou se envolvendo para valer na investigação que Hyoga estava fazendo. Ele ficou indignando com as descobertas que o jornalista tinha feito e decidiu que o ajudaria até conseguirem fechar esse caso.
- Sim. Shaka parece ter encontrado algumas provas definitivas para o meu caso. Mandei hoje umas fotos dos documentos que Shaka me apresentou para o Isaac e ele acha que finalmente estamos chegando perto do nosso objetivo.
- Isaac... é aquele seu amigo que te ajuda com essas coisas no jornal em que trabalham, não é?
- Sim. Não sei o que faria sem o Isaac. É ele quem me ajuda a usar o banco de dados do jornal para encontrar tudo o que preciso...E acho que ele acabou tomando essa investigação para si também. Ele às vezes me liga só para me contar alguma ideia que teve a respeito de como proceder no próximo passo da investigação... – Hyoga vai me explicando, enquanto troca as rosas do vaso pelas novas que ele havia trazido, como sempre fazia.
- Hum. – resmungo, fingindo ler algo no livro em minhas mãos.
- O que foi, Rikki?
- O quê?
- Não se faça de desentendido. Por que está resmungando aí?
- Não estou resmungando. Estou lendo meu livro aqui. Só isso.
- Sei. Então algo no livro te deixou zangado. Você costuma resmungar desse jeito quando lê algo que te deixa bravo... e, normalmente, quando isso acontece, você compartilha comigo, para eu ficar indignado com o livro junto com você. – e então ele me sorri de forma apaixonante.
- Não é nada, não. Só estou com um pigarro na garganta. – tento desconversar.
- O que você está escondendo de mim, Rikki? – Hyoga se senta a meu lado, muito à vontade, e toma o livro das minhas mãos – O que tem aqui para te zangar, hein?
O loiro fica folheando o livro e eu, sem conseguir mais esconder o motivo da minha frustração, acabo falando em voz alta:
- Esse Isaac está a fim de você. Ainda não percebeu?
Hyoga para de folhear o livro e olha para mim, parecendo surpreso:
- Como é?
- Agora é você que está se fazendo de desentendido. Até parece que não percebeu ainda o jeito que esse cara fica cercando você.
- Rikki... – Hyoga começa a rir – Ele é só um colega de trabalho que está me ajudando pra caramba nessa investigação...
- Eu não estou brincando. Estou falando muito sério, está bem? Você deve ser muito ingênuo de achar que realmente não há interesse nele em te ajudar dessa forma.
- Eu acho que você está vendo maldade onde não tem.
- Eu só não sou cego, Hyoga.
- E você acha que eu sou?
- Não. Mas você parece que não enxerga o quanto é incrível e o quanto é óbvio que qualquer um que te conheça vá ficar louco para chamar a sua atenção como puder...
Disparei essa frase sem pensar muito. E um silêncio pesado se fez depois disso.
Era a primeira vez que uma conversa nossa enveredava para esse lado. Evitávamos falar sobre sentimentos, atração...
Mas eu não pude me segurar.
Entretanto, eu sabia que tinha ultrapassado os limites para que nossa amizade pudesse continuar funcionando.
- Desculpe. Eu... – comecei a me levantar – É melhor eu ir embora.
- Rikki, espera. Não precisa ir embora por causa disso.
- Não é por causa disso. É que eu tenho coisas para fazer amanhã.
- Que coisas? Eu sei que você não tem horário de gravação agendado para amanhã.
Era verdade. Amanhã eu deveria passar o dia ensaiando com a banda para uma apresentação que faríamos à noite para um dos maiores eventos beneficentes da cidade.
- Eu... preciso praticar minhas cenas. Tenho de repassar minhas falas. – respondi, já vestindo meu blazer.
- Se precisa tanto praticar, eu posso te ajudar.
E então, novo silêncio. Tanto Hyoga quanto eu nos recordamos imediatamente daquele dia, no camarim dele, quando ele se ofereceu para me ajudar a encenar uma cena com Shun...
Só que, dessa vez, não havia qualquer malícia. Era apenas uma oferta para repassar as falas comigo, sem maldade alguma.
- Não precisa. Obrigado.
E, em grande parte, era isso o que mais me deixava chateado naquele momento. A possibilidade, cada vez mais distante, de ter algo com Hyoga. Ele obviamente não iria esperar até que eu pudesse revelar meu segredo. Aliás, com esse Isaac no pé dele, duvido que isso fosse acontecer. Eu já sabia; muito em breve esse maldito coleguinha já estaria saindo com ele... namorando com ele...
Vou para a saída, caminhando com pressa.
- Rikki, espera! – Hyoga se levanta do tapete e vem atrás de mim.
Ele me alcança quando estamos já do lado de fora.
- Não precisa ir embora desse jeito. Vem, volta para dentro. Vamos conversar. – ele fala, apresentando um bonito sorriso.
E isso me desconcerta ainda mais.
- Não, Hyoga. Não dá. Olha, eu... me desculpa, tá? Eu só quero respeitar o seu espaço.
- E para isso você precisa ir embora desse jeito?
- Preciso. Não é fácil ficar perto de você assim sem... – respiro fundo – Eu vou acabar falando besteira se continuar aqui, Hyoga. Olha, está tudo bem. Amanhã... quero dizer, depois de amanhã a gente se vê e vai estar tudo ok. Mas agora eu preciso ir.
- Rikki, eu não quero que você se afaste de mim assim. Eu nunca pedi para você fugir de mim desse jeito.
- Mas também, nunca me pediu o oposto.
- Como não? Eu não estou aqui, pedindo para você ficar?
- Você entendeu o que eu quis dizer, Hyoga.
O loiro se cala. Olha para baixo, pensativo.
O silêncio em que nos víamos é cortado por um automóvel que passa, a toda velocidade, pela pista que ficava ali em frente e que era normalmente pouco usada.
O carro estava cheio e tocava música bem alto.
Eram jovens que pareciam bem animados, provavelmente indo para alguma festa.
Do carro, voaram alguns panfletos.
Um deles voou para cair bem aos pés de Hyoga.
O loiro se abaixou para pegá-lo. Leu o que estava ali e, com um sorriso enigmático, ele me perguntou:
- Rikki... Quer ir a uma festa...?
Continua...
