As férias de verão daquele ano começaram surpreendentemente desinteressantes, em comparação ao fim do ano letivo que envolveu a revelação de Lupin como um lobisomem, coisa que Dallas sempre soube no segundo em que o viu, o pedido de demissão do próprio, coisa que ela lamentou porque Lupin foi o primeiro professor de Defesa Contra As Artes das Trevas decente que eles tiveram, a reviravolta envolvendo Bicuço, para o desprazer de Draco e imenso prazer de Dallas, e a captura e fuga de Sirius Black, quem Snape acreditava piamente ter tido ajuda do Trio de Ouro da Grifinória.

Dallas retornou para casa com a promessa de que falaria com a sua avó sobre a Copa Mundial de Quadribol, sob pena de receber uma bomba de bosta de Patrick via correio-coruja, e que iria explodir na mesa do jantar. Dallas quase considerou convenientemente esquecer de falar com a avó só para ver que cara Meredith faria com uma bomba de bosta explodida sobre ela, mas considerou mais sábio não cutucar aquela onça com vara curta. O retorno à Mansão Winford a fez ganhar olhares curiosos e mais prolongados de todos. Até mesmo Albert, ao passar por ela, teve que mirá-la duas vezes para confirmar o que via.

— O que foi? — Dallas perguntou à Amélia quando Clarisse, pela terceira vez naquele dia, a mirou como se tentasse entender quem era aquela garota, como se não a reconhecesse. — Tem alguma coisa na minha cara? Minha calcinha está aparecendo? O quê? — Amélia riu, um gesto curto e raro que fez Dallas olhar para os céus além das enormes janelas do solário para certificar-se de que o mundo não estava acabando.

— A puberdade finalmente a alcançou, Dallas, junto com os genes Veela. Acho que já é hora de abandonar este visual bonequinha. — Amélia comentou, percorrendo os olhos por ela, dos pés a cabeça. Dallas usava um vestido florido e sandálias e o cabelo longo estava quase chegando-lhe a bunda. Dallas também se olhou e pensou "por que não?". E foi assim que ela viu-se no dia seguinte com o cabelo cortado até um palmo abaixo dos ombros, com as pontas repicadas e uma franja que ia até o seu queixo, em seguida ela foi levada para a Harrods para uma troca completa do guarda-roupas. Dallas achou desnecessário tamanha mudança, visto que passava a maior parte do tempo, do ano, vestindo o uniforme de Hogwarts, mas Amélia estava em seu elemento e Dallas sempre gostou do cheiro de roupa nova, embora não tivesse tanto interesse por moda.

— Para que isto? — Dallas perguntou quando a atendente que estava as acompanhando naquela tarde retornou praticamente com uma arara cheia de vestidos de festa. Fazia anos que ela não frequentava uma festa de Natal da Mansão e Amélia sabia que este ano ela não abriria uma exceção, já havia até se conformado com a ausência dela nesses eventos.

— Hogwarts enviou uma carta informando que este ano eles terão um evento formal para os alunos do quarto ano e acima, e que era para ser providenciado vestimentas adequadas. — Amélia comentou distraidamente, enquanto deslizava os cabides com os vestidos pela arara, avaliando um por um. — Ah. — ela tirou da arara um dos vestidos. Ele era em um tom pêssego, bem claro, com aplicações em floral que adornavam o tórax, peito, até parte da saia aberta em formato sino, com tecidos finos e sobrepostos. O vestido tinha mangas de lycra da cor da pele, como meias-calças, onde também havia aplicações floral. O estilo, no corpo de uma pessoa, daria a impressão de que as flores estavam tatuadas na pele que era exposta pela peça.

Dallas apaixonou-se pela peça no instante em que a viu e Amélia lhe deu um discreto sorriso de aprovação. A neta não era chegada a moda, mas tinha os seus raros momentos de apreciação desta arte.

O retorno para a mansão foi feito já no final do dia e enquanto assistia o cenário familiar de Londres passar ao seu redor, Dallas hesitou um pouco antes de virar-se para a avó e contar as notícias.

— Patrick Gordon me convidou para assistir a final da Copa Mundial de Quadribol com a família dele. — Amélia assentiu, distraída. Dallas deu um minuto à ela antes de soltar a outra notícia. — E Narcissa Malfoy é a minha mãe. — isto fez Amélia virar-se para ela com tanta velocidade que a mulher até quicou no banco do carro diante do gesto brusco. — É. — Dallas continuou, com azedume. — Aparentemente dar aos filhos um colar com um narciso entalhado e a nossa foto quando éramos bebê é costume dela. Draco tem um colar igual, foi assim que descobrimos. — os olhos de Amélia foram para o colo de Dallas, não encontrando nada lá. — Eu devolvi a joia.

— Por quê? — Dallas deu de ombros e desviou os olhos do rosto da avó, voltando a atenção para a rua. Amélia não deixou transparecer os seus julgamentos em suas expressões, mas Dallas conseguiu ver nos olhos azuis iguais aos seus uma fração do reflexo das emoções dela e essas estavam a chamando de idiota. — Sabe qual era a ideia inicial de Narcissa após o seu nascimento? — Amélia comentou antes de dar um relance para Montgomery que, compreendendo o olhar dela, ergueu a partição que separava os assentos traseiros dos dianteiros, transformando aquela conversa em algo particular entre avó e neta. — O plano inicial dela era de entregá-la a guardiões pagos por ela, que iriam criá-la em uma vila que Narcissa possui no interior da Itália. Você seria educada conforme o seu status provindo de uma família tradicional como os Black, mas seria escondida até a maioridade. Não frequentaria escolas, não iria a Hogwarts ou até mesmo a Beauxbaton. Seria tratada como uma verdadeira vergonha.

— E no que isto difere de como eu sou tratada agora? A vergonha da família Black e Winford? — Dallas rebateu, petulante.

— Eu não tenho vergonha de você. — Amélia respondeu em tom calmo.

— Não? Grand-mère, a senhora irá me casar com os Halliwell porque este casamento é a única coisa que me dará estabilidade dentro da elite londrina.

— Será? — Amélia comentou em um tom vago e desta vez ela quem mirou de forma desinteressada a paisagem que passava por elas. — Francis não me deixou muita coisa com a morte dele e o pouco que me deixou eu fiz render, mas a fortuna que eu tenho não chega perto do que Albert herdou, do que os gêmeos irão herdar. O que eu tenho dentro desta família é apenas poder de influência que irá sumir com a minha morte.

— Grand-mére, a senhora tem algo que deseja me contar? — porque não era a primeira vez que Amélia vinha com este assunto de estar garantindo o futuro de Dallas diante de seu eventual falecimento.

— Eu não estou morrendo, Dallas, Veelas têm juventude e longevidade como os bruxos, mas no mundo de hoje, velhice e doenças não são as únicas causas de mortes. Estou sendo apenas precavida. Eu preciso garantir que você terá estabilidade financeira…

— Grand-mère, a senhora tem ciência que eu não sou estúpida, que eu posso pegar o que herdar da senhora e transformar em bilhões, certo? — Amélia soltou uma risadinha curta e discreta.

— Ah, disto eu tenho certeza, mas Meredith vai querer colocar entrave no caminho, ela vai querer protestar, vai querer garantir que você não receba nada, porque ela é uma cobra ambiciosa e nada mais. Eu preciso que você tenha um nome no qual se calcar quando isto acontecer e os Halliwell são este nome. Eles são futuristas, eles são a melhor aposta para garantir que Meredith não consiga nada. Eu não tenho vergonha de você, Dallas. Você, na verdade, é a única coisa que me dá orgulho nesta família disfuncional.

Dallas permaneceu em silêncio por alguns segundos, para segurar as traiçoeiras lágrimas de emoção que surgiram em seus olhos diante do elogio da avó.

— O que fez Narcissa mudar de ideia sobre não me entregar para tutores para ser criada às escondidas? — Dallas perguntou assim que recuperou o controle.

— Eu. — Amélia respondeu com calma no momento em que o carro atravessou os enormes portões de ferro da entrada da propriedade Winford. — Parte da minha razão de pegá-la para criar foi para irritar Meredith. — o carro estacionou em frente a escadaria de entrada da mansão. — A maior parte foi para provar para mim mesma que eu não era um fracasso como mãe. Que eu poderia acertar com você onde eu falhei com Albert. — declarou e deixou o carro assim que Montgomery abriu a porta do carona para ela.

oOo

Aurora Gordon não era em nada parecida com o irmão. Onde Patrick tinha ganhado uns bons centímetros no último mês e perdido algumas gorduras extras, ganhando um ar meio doentio, acentuado pelos seus olhos e cabelos escuros que contrastavam com a sua pele pálida, a figura de Aurora encaixaria-se perfeitamente em praias paradisíacas da Austrália e esbanjava saúde. Os olhos dela eram verdes como a água do mar e o seu cabelo era dourado, com finas tranças enfeitadas por fitas coloridas. A sua pele era bronzeada e até mesmo o físico atlético de uma surfista ela tinha.

— Tem certeza que vocês são irmãos? — Dallas gracejou ao percorrer os olhos dos pés a cabeça de Patrick, cujos membros longos e desengonçados estavam juntos ao corpo e os olhos castanhos estavam largos, não sabendo para qual parte da sala de estar da mansão ele olhava primeiro.

— Muito engraçado. — Patrick soltou com escárnio e às suas costas Dallas ouviu o clique-clique característico dos saltos de Amélia contra o piso frio. Os olhos do amigo corvinal ficaram ainda mais largos com a chegada da matriarca da família.

— Senhora Winford. — Aurora deu um passo à frente e estendeu uma mão para Amélia. — Aurora Gordon. — apresentou-se com um sorriso largo e de dentes brancos e perolados. — Acredito que a minha mãe explicou tudo na carta dela. — Amélia recebeu a mão de Aurora em um cumprimento curto. A sua avó era orgulhosa, mas não era mal educada.

— Quem é você? — Samantha, no entanto, não tinha a mesma classe que Amélia. Ela surgiu na sala de forma silenciosa, vinda de um treino de equitação, de acordo com os seus trajes, o seu tom era uma mistura de pura desconfiança e desdém e ela nem ao menos pediu licença, somente empurrou Aurora com o ombro em um fingido esbarrão acidental, tirou a mulher do caminho e lançou um olhar para Patrick da cabeça aos pés, avaliando a importância dele naquele contexto. E então, ela sorriu largamente para o rapaz e estendeu uma mão para ele. — Samantha Winford. E você é? — Patrick, inocente e polido demais, o que o encaixaria perfeitamente na Lufa-Lufa, somente reagiu e estendeu uma mão de volta para Samantha, mas Dallas foi mais rápida e segurou a mão oferecida do amigo e o puxou em direção a porta de saída.

Au revoir grand-mère! — ela desejou com um aceno por cima do ombro e não deu um segundo relance para Amélia, ou Samantha, quem ela tinha a certeza estar fumegando de ódio naquele momento, e arrastou Patrick para fora da casa, parando somente quando chegaram no carro trazido pelos irmãos Gordon e o qual Montgomery fechou o tampo do porta-malas que agora continha o malão de escola de Dallas. A gaiola de Osíris já estava confortavelmente acomodada no banco detrás do veículo que era tão compacto que fez Dallas se perguntar se eles três iriam caber ali dentro.

— O que aconteceu lá dentro? — Patrick perguntou ao abrir a porta do lado do carona e abaixar o encosto do banco para permitir a passagem de Dallas, após a garota ter despedido-se de Montgomery.

— Aquilo fui eu te livrando da falsidade de Samantha. — Dallas respondeu ao acomodar-se no banco e Patrick empurrou o encosto de volta para o lugar e entrou no carro, batendo a porta em seguida. — Lembra de Samantha, não é mesmo? Creio que eu te contei sobre os gêmeos. — na verdade, Dallas não contava muito sobre a vida dela no mundo trouxa e Patrick admitia, com uma certa vergonha, que teve que apelar para revistas de fofocas e tabloides para entender um pouco mais sobre o peso e a influência do nome Winford na sociedade britânica não mágica. As histórias que descobriu sobre Dallas, sobre o passado dela, sobre aquela família, foram das mais variadas, algumas tão absurdas que ele perguntava-se até hoje se eram realmente verdadeiras. Mas uma verdade aparentemente foi comprovada hoje: havia animosidade entre Dallas e os gêmeos Winford, o que fazia a notícia sobre a briga entre os três irmãos em uma festa de Natal na mansão, alguns anos atrás, soar verdadeira a cada segundo que passava.

— Não, você não me contou sobre os gêmeos. — Patrick fez-se de ignorante. Era melhor a amiga não saber o que ele sabia, ou corria o risco dela fechar-se ainda mais nesta concha que rodeava o seu coração.

— Eles não são flor que se cheire e portanto indignos de sua nobre presença. — Patrick riu ao trocar um olhar cúmplice com Dallas pelo retrovisor do carro. A risada dele foi interrompida com a chegada de Aurora e sua entrada nada elegante dentro do veículo.

— Família adorável a sua, não? — ela comentou ao dar um relance para Dallas por sobre o ombro e depois ligou o carro. — Aquela menina só faltou vomitar os pulmões de indignação por você ter retirado Patrick da presença dela. — Dallas riu. Era bem a cara de Samantha ter um ataque quando alguém tirava dela algo que atraiu o seu interesse. — Mas você não deveria ter tirado Patrick de lá. — Aurora continuou enquanto guiava o carro pelo caminho de cascalho entre a mansão e o portão de entrada. — Eu queria ver a cara que ela iria fazer quando percebesse que estava latindo para a árvore errada. — Dallas riu de imediato, mas Patrick levou alguns segundos para compreender as palavras da irmã e então corou de forma que pareceu que o seu rosto iria explodir de tão vermelho que ficou.

— Como? Quando… Como? — havia uma mistura de surpresa e pavor na voz dele e as risadas de Dallas morreram em um instante. Aurora deu um relance para o irmão e o seu rosto, antes iluminado por puro divertimento, ganhou uma expressão séria em segundos.

— Eu sou uma auror, Patrick, mas, sobretudo, eu sou a sua irmã. Eu sempre serei a sua irmã antes de tudo e sempre irei te amar e respeitar e te proteger, independente das suas escolhas, ou gostos.

— Pietro sabe também? — ele perguntou com uma voz quase sumida e carregada de insegurança e Dallas desejou estar em qualquer lugar, menos naquele carro apertado e presenciando aquela cena emocional entre dois irmãos que obviamente se amavam, e davam-se bem um com outro, e tinham medo de perder este tipo de relacionamento porque um deles desviava um pouco das arcaicas convenções sociais existentes no momento.

— Pietro desconfia, mas acho que ele não aceita mais pelo fato de que não quer pensar no caçulinha como um ser sexual. Ele te pegou no colo e trocou as suas fraldas. — Patrick ficou ainda mais vermelho diante desta confissão de Aurora.

— Só porque eu sou gay não quer dizer que eu estou transando com qualquer par de pernas que passa! — Aurora riu diante da indignação do irmão.

— Pietro é homem e já teve quatorze anos, não tente convencê-lo que nesta idade você não esteja pensando somente naquilo, independente da sua orientação sexual. — Patrick fez um bico contrariado que Dallas sempre achou adorável no rosto ainda redondo.

— Mamãe e papai?

— Mamãe e papai irão te aceitar como você é e se isto não acontecer, o que eu te disse quando começamos esta conversa?

— Que você sempre vai me amar, respeitar e me proteger.

— Exatamente.

— Até mesmo dos nossos pais?

— Sim.

— Como exatamente você descobriu? Que pistas eu dei? — porque Patrick sempre foi tão cuidadoso sobre o assunto. Uma coisa era dizer para Dallas, alguém que ele sabia que não o julgaria porque o teto dela também era de vidro, porque Dallas entendia de preconceito e desprezo por ser algo que ela não escolheu, mas que ela simplesmente era. Além do mais, a sonserina vivia sob a regra de que se a situação não a afetava diretamente, não era da conta dela e muito menos da alçada dela tecer opiniões.

Aurora deu um relance para Dallas, pelo retrovisor do carro.

— Você tem a garota mais bonita que eu já conheci como melhor amiga e em nenhum momento em que te ouvi falar sobre Dallas ouvi nada mais que carinho fraterno dirigido à ela, e profunda admiração. Óbvio que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas na sua idade sempre rola um paixonite entre melhores amigos. É normal. Mas com você, nada.

— Ah. — Patrick respondeu, sem muita reação. Fazia sentido as palavras de Aurora porque ele presenciou este cenário com alguns de seus colegas de escola.

— Você me admira, Patrick? — Dallas perguntou com um tom de divertimento mas, ao mesmo tempo, definitivamente honrada. As suas atitudes não eram dignas de admiração, sabia disto. Apesar de todas as besteiras que Draco falava, ela honrava o brasão e as cores da Sonserina, era ardilosa e manipuladora, levemente mentirosa e um com uma suave pitada de arrogância, portanto não era uma pessoa para ser admirada.

— Garota, eu sou o seu fã número um. — Patrick respondeu com seriedade e uma piscadela cúmplice para ela. Dallas sentiu as bochechas esquentarem e desviou o olhar para o cenário passando ao redor deles. Não queria que Patrick visse a sua vergonha, ou o sorriso satisfeito que deu diante deste juramento de amizade.