Parque Dreyfus, 25 de setembro de 1999.

Saímos da mansão escondidos de Fitzgerald ainda durante nossa suposta ronda. Achamos o barco de Snakebite no ancoradouro principal em que havíamos chegado com Jacques há um ano e, por ser ele o principal, não passamos por armadilhas nem crocodilos.

Às seis da manhã embarcamos. Precisamos improvisar uma maca para Fred com um colchão da mansão Lenoir e foi maravilhoso ver o riso de Daphne ante o desgosto de Fred por precisar deitar-se numa velha posse de Simone, ou talvez até de Lena.

Supondo que Fred dirigira o "nosso" barco, Fitzgerald tomou o lugar dele na cabine do leme. Hugo, tão rapidamente apegado ao velho devido aos poucos minutos de pavor passados juntos, além de fascinado por uma vista mais ampla das águas, acompanhou-o.

Logo que eu e a turma ficamos sozinhos, esperei comemorações, gritinhos animados, batidas de mãos, contudo, Velma olhou pelos lados, sentou-se bem perto de Fred e Daphne, pediu para eu e Scooby nos aproximarmos também e, só então, disse, bem baixinho:

— Eu denunciarei os eremitas das cavernas à polícia.

Fred entendeu, assentiu e perguntou:

— Não dirá o que são?

— Claro que não. Vou mencionar onde os vimos durante uma de nossas rondas, afinal, nossos suspeitos fugiram e não têm uma identidade exatamente conhecida. Haverá investigações oficiais.

Daphne suspirou e protestou:

— Eles foram corteses conosco, e, como disseram, não estavam na ilha.

Velma argumentou:

— Não vimos toda a ilha. Alguém poderia estar lá sem notarmos.

— Não tantos!

— Paciência, Daphne. A polícia trabalha com provas. Se não acharem nada, vão deixá-los em paz. Mas se tampouco acharem aquelas criancinhas que estavam com eles na caverna, as quais certamente mencionarei com antecedência, o problema é deles e a justiça é nossa.

— Como assim?

— Não notou que eram as únicas que não estavam transformadas? Quem garante que eram mesmo parentas deles? Eu não carregarei mais outro peso na consciência durante o próximo ano.

Daphne baixou a cabeça como se uma barata imensa, cascuda e voadora acabasse de pousar sobre a macia mãozinha dela; arregalou os olhos conforme o inseto imaginário ensebava seu braço e entreabriu os lábios, gritando silenciosamente.

Para a surpresa de todos, Fred falou:

— É mesmo necessário nos sujeitarmos a ansiedades nojentas por mera suposição? Fizemos tudo ao nosso alcance e salvamos nossas vítimas. O resto deixaremos com os policiais. Os da caverna são muitos para nós.

Vendo que Velma estava muito atenta à própria teoria e Daphne continuava deveras abalada, só restou a mim ajudá-lo:

— Isso, gente! Relaxem. Nós nem parecemos nós mesmos com toda esta tensão. Notaram que sequer paramos para ouvir os monólogos do vilão a fim de entendermos o mistério?

Aquilo distraiu Velma, que estapeou a própria testa.

— Droga! É verdade! Tivéssemos feito aquele imbecil falar por mais uns instantes, poderíamos não estar sofrendo com essas dúvidas.

Fred a corrigiu:

— Mas ele havia negado ter cúmplices. Nem mencionou Ariel.

Subitamente, Velma deixou de achar aquele tópico interessante e saltou para outro com a maior naturalidade:

— Pergunto-me quando ele se transformou pela primeira vez em criatura.

Fred mordeu a isca:

— Bem, se ele conseguiu virar o que virou, podemos ter certeza que, pelo menos, sabia da existência do Deus Gato e acreditava nele o suficiente para rezar pedindo por imortalidade.

Daphne despertou e balançou a cabeça:

— Mas por que o Deus Gato concederia? Ele não foi afrontado, foi? No último ano, quebramos uma maldição que ele mesmo acionou, então não pode ter sido por vontade de se vingar de nós.

Fred retorquiu:

— Está se esquecendo do que nos disseram na caverna. Se o Deus Gato só concedesse os dons dele de um modo, digamos, benévolo, faria sentido que ajudasse Lena e Simone a vingarem o povo delas, contudo, os descendentes do povo delas vivem e afirmam que não foi assim. Então teríamos que nos perguntar, antes de tudo, porque o dom foi concedido às duas.

— Seja qual for o motivo, faria sentido conceder a Snakebite por falta de seguidores, mas o povo da caverna já anulou essa hipótese.

— Sim. E, já que estamos pensando nisso, que deus benévolo permite que suas seguidoras sustentem a si mesmas durante séculos mediante a força de inocentes? Para ser franco, eu não duvidaria que, ironicamente, Lena e Simone fossem as únicas no povo delas a estarem certas sobre a natureza daquilo que adoravam, e apenas agiram em coerência.

Velma continuou calada, enquanto Daphne imergia-se no debate:

— Assim sendo, assumindo que o Deus Gato é maligno, faria todo sentido conceder a Snakebite seu dom para que este servisse de provedor. As criaturas podem não ser as únicas a se fortalecerem com a energia vital de suas vítimas.

Velma começou a gargalhar e saiu de perto de nós. Estranhamente, ela voltou a sentar pouco depois em um ponto a alguns metros, comprometendo o segredo de nossa conversa pela altura com que zombou:

— Fred falava contra as suposições ansiosas não faz nem cinco minutos e agora é ele quem mergulha nelas. Querem saber? Eu também me declaro cansada. Chega de falar disso por hoje, talvez para sempre.

Apesar do engajamento na conversa com Fred, Daphne foi a primeira a concordar:

— Com certeza. Já não é urgente que saibamos de alguma coisa.

Dizendo isso, ela fez silêncio e relaxou no ombro de Fred, saindo da bolha de calma só vários instantes depois para sussurrar:

— Não me predispuseram ao medo. Primeiro nasci rica e depois fiquei noiva de um paranoico armado até os dentes. Trapacearam para driblar tais sortes, então hoje tenho uma ideia do que é o suspiro avivado de nossas pernas por enfim poderem parar de tremer. Gostaria de dizer que sempre tive plena confiança de que vocês, meus heróis, conseguiriam enxotar o mal de perto de mim. Seria mentira. Por isso me escondi atrás de portas e outras durezas. Devia ter pedido desculpas já quando Snakebite caía, amarrado pelo raciocínio rápido de Velma. Devia ter gritado assim que nos reencontramos após nos separarmos na floresta, pois podia ser minha última chance. Em vez disso, consigo falar-lhes agora, nesta paz, o que é mérito de todos, então agradeço a todos.

De risonha, Velma caiu para lamentosa. Eu nunca tinha visto sua expressão refletir estado mais contrário à ufania. O peso que rebaixava seus ombros parecia próprio a quem era responsável pela autoria de um crime, não mera indolência que nem chegara a consumar-se.

Eu tomei a palavra rapidamente:

— Ninguém precisa sentir remorso. Em meia-hora ou menos, vamos devolver uma criança ilesa ao pai e presenciar o reencontro de mais uma família emocionada.

Fred juntou-se a mim, olhando para Daphne, enquanto eu me concentrara em Velma:

— Eu nem sei a que você se refere.

Lembrando de um dado especialmente atrativo ao qual não prestava atenção desde a minha chegada ao Parque Dreyfus, ergui-me, quase gritando:

— E se meu perdão inútil não for motivo suficiente para alegria, o que eu entendo completamente, a recompensa de cinco mil dólares que o senhor Thomas está oferecendo pelo filho com certeza é!

Daphne perdeu qualquer traço de docilidade e me deu um olhar de mãe assassina:

— Salsicha!

— Nossa, que surpresa. A riquinha não saliva pelos mesmos anseios dos reles mortais.

— Se eu não te conhecesse bem, diria que finalmente sei do seu motivo para nos chamar aqui.

Encolhi os ombros e defendi-me:

— Eu só descobri sobre a recompensa um dia depois.

— E a usou como motivação o tempo todo, aposto. O que mais te faria levantar da cama toda manhã?

— Espere, não acha que está exagerando? Nunca fui conhecido por ganância.

— Não, mas sempre o foi pela gula. Hoje à noite mesmo você estará gastando toda sua parcela da recompensa em um restaurante com Scooby.

— Sim! – eu e ele confirmamos.

Velma aproximou-se. Ela não estava ainda alegre como eu queria, mas dera espaço a um moderado humor sádico no rosto enlutado, e declarou:

— E eu já terei gastado a minha parcela com teus velhos colegas de profissão, Daphne.

Fred bufou e questionou:

— Acha que usarão a memória curta para nos perturbarem?

— Não sei, pois pretendo deixar o parque mais rápido do que Salsicha e Scooby irão ao restaurante. Mas, caso tentem, não esperarei pelo patrocínio dos pais de Daphne para reagir.

Não perdei tempo em sugerir:

— Já que temos todos de nos apressar, podemos ir ao restaurante juntos.

Ninguém assentiu mais que Scooby, mas foi Fred quem confirmou:

— Desde que ele fique perto do aeroporto ou do hospital, está ótimo.