Capítulo Vinte e Quatro

Wormtail And Padfoot

(Wormtail e Padfoot)

Rosnando, Harry procurou cegamente pelo vidro de seu espelho e o encontrou, mas Wormtail tinha levando suas varinhas.

— Sirius Black — rosnou Harry.

— Harry? — Padfoot soou confuso, mas a fumaça era densa demais para que Harry conseguisse vê-lo no espelho. Cho tremeu ao ouvir sua voz, mas Harry só se sentiu aliviado por ele ter atendido e não estar machucado ou coisa pior. — Está...

— Wormtail estava aqui, na Madame Puddifoot — contou, urgente. Parecia que o canto do espelho estava rachado por ter caído da mesa. — Ele acabou de fugir... — Algo caiu do lado de Padfoot, e Harry conseguiu ouvi-lo se mover. Guardou o espelho no bolso.

Aperio! — Harry reconheceu a voz de Percy e ouviu as janelas abrirem e a porta colidir com a parede. — Ventus! — O vento bagunçou o cabelo de Harry, levando a fumaça consigo.

Assim que conseguiu ver, Harry se levantou. Percy parecia irritado e dizia algo sobre Fred e George, mas Harry não ficou para ouvir. Cho segurava sua mão — não tinha acontecido do jeito que Harry teria imaginado —, então a levou consigo para o lado de fora.

Wormtail não tinha Aparatado — só Merlin sabia o porquê —, e Harry conseguiu vê-lo, já com a própria aparência, ainda usando as mesmas vestes de antes ao dar a volta na casa de chá. Harry o observou, mas algo o manteve no lugar; era Cho, ainda segurando sua mão. Harry ainda conseguia ver as costas de Wormtail, tentando fugir.

Não dessa vez, pensou. Dessa vez, Harry ia impedi-lo.

— Fique aqui — falou Harry, soltando-se gentilmente dela.

— Aonde... Harry?! — chamou ela quando ele saiu correndo atrás de Wormtail. — Harry, aonde você...?

Wormtail sumiu ao dar a volta em um prédio. Ele era rápido como um rato, mas como humano, ele era baixo — tinha a altura de Harry — e, por isso, as vestes do tamanho de Padfoot eram grandes para ele e, apesar de ele estar mais magro do que no julgamento de Padfoot, ele não estava em forma. Harry era jovem, estava em forma e diminuía a distância entre eles. Harry escorregou ao fazer a curva. Algo estalou atrás dele e alguém soltou uma exclamação de surpresa, mas não olhou.

Seguiu Wormtail por um beco estreito, que se esticava por trás dos prédios principais. Wormtail derrubou uma lata de lixo, e Harry escorregou numa parte congelada do chão ao desviar dela, mas conseguiu manter o equilíbrio e continuar a correr.

À frente, Wormtail passou por uma porta. Harry não hesitou e foi atrás dele — ou direto nele, como acabou acontecendo.

Um braço fino surpreendentemente forte o pegou, impedindo-o de cair, mas não o soltou. O aperto de Wormtail era quase doloroso. Com a mão livre, Harry procurou por sua varinha no bolso, antes de se lembrar que não estava com ela.

Opa. De repente, Harry se sentiu muito idiota.

— Queria que você viesse atrás de mim — ofegou Wormtail. Ele segurava a varinha com a outra mão e a apontava diretamente para Harry. Apesar de estar respirando pesadamente e de estar claramente cansado da corrida, sua mão estava firme. O coração de Harry estava disparado. — Eu não achei que você viria, mas torci para que viesse e, pra variar, as coisas estão acontecendo do jeito que eu quero... — Ele sorriu, e Harry conseguiu sentir o cheiro de triunfo sair dele.

Considerou se transformar, só por um instante, mas mesmo que conseguisse se soltar, estavam em um beco estreito, longo e reto, e Wormtail ainda tinha uma varinha. Se as coisas fossem ser tão ruins quanto Harry temia que fossem ser, então era melhor esperar para se transformar até achar que suas chances eram melhores.

Em vez disso, Harry mirou um chute em seu joelho; talvez Wormtail adivinhara que Harry tentaria algo assim, ou talvez o cheiro de Harry tivesse o entregado, mas fosse como fosse, Wormtail se afastou, desviando sem soltá-lo. Harry tentou puxar seu braço, mas Wormtail o segurava com firmeza.

— Ah — disse Wormtail, balançando a cabeça. — Não dá pra você ficar fazendo isso. — Harry sentiu o cheiro súbito de determinação, e Wormtail balançou a varinha. Um jato vermelho saiu da ponta, e Harry estava tão perto que não teria tempo de reagir...

O feitiço acertou uma barreira invisível a poucos centímetros do peito de Harry e quicou de volta para Wormtail, que guinchou e desviou.

Ele e Harry olharam para a entrada do beco apenas para ver Padfoot parado lá, a varinha erguida e uma expressão ameaçadora no rosto. Seus olhos foram para Harry pelo mais breve dos momentos, antes de ele olhar para Harry, que assentiu para dizer que estava bem.

— Peter — falou Padfoot no tom mais frio que Harry o vira usar. — Solte-o. Não vou pedir de novo.

Harry foi erguido bruscamente e, aí, a varinha de Wormtail estava pressionada atrás de sua orelha. O próprio Wormtail estava parado atrás de Harry, usando-o como escudo contra qualquer coisa que Padfoot pudesse tentar. Harry não tentou nada; tinha visto que Wormtail usaria magia contra ele se tentasse, e não havia como o feitiço escudo de Padfoot ser rápido o bastante dessa vez.

Me acerte, Harry pensou para Padfoot, se é o necessário para acertar ele.

Mas conseguia ver que Padfoot não o faria, estava escrito em seu rosto e na forma como ele segurava a varinha.

— Senti falta das nossas conversas, Sirius — falou Wormtail, parecendo sem ar.

— Devia ter ficado onde estava, então — respondeu Sirius. — Ainda estaríamos conversando.

Wormtail abafou uma risada e disse:

— Não senti tanta falta assim. — Ele se mexeu um pouco atrás de Harry e aumentou o aperto em seu braço. — Eu entro em contato.

Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Primeiro, Wormtail puxou, levando Harry consigo ao tentar aparatar. Segundo, Harry percebeu o que estava acontecendo e não tentou se afastar, como Wormtail provavelmente achara que ele faria; em vez disso, Harry segurou a mão de Wormtail, a que segurava a varinha, quando tudo começou a se apertar e borrar a sua volta e puxou de volta, tentando continuar onde estava, no beco, onde Padfoot estava. Terceiro, Padfoot soltou um som estrangulado e começou a correr, a boca formando palavras que Harry não conseguiu ouvir, porque estava sendo apertado e o beco começava a sumir...

Por um momento, Harry viu apenas escuridão e, aí, sentiu um pouco de dor — pelo aperto de Wormtail, mas talvez por alguma outra coisa — e caiu pesadamente com as costas no chão gelado. Já não segurava mais a mão de Wormtail, e ele não segurava mais seu braço, que doía e contraía. Ouviu passos ao redor de sua cabeça latejante.

Harry rolou para longe dos passos, abrindo os olhos, mas foi a voz de Padfoot que ouviu, não a de Wormtail, tampouco — graças a Merlin — a de Voldemort.

Levicorpus! — Um guincho agudo soou quando Wormtail, outra vez um rato, foi erguido no ar pelo pequeno pé. Padfoot avançou, o rosto determinado. — Petrificus tota...

Wormtail se transformou e suas vestes cobriram sua cabeça, mas ele estava com a varinha em mãos e conseguiu desviar o feitiço. Ele sangrava. Wormtail se debateu, balançando os braços até que as vestes caíram no chão coberto de neve a tempo de desviar outro feitiço de Padfoot, que queimou o chão a poucos centímetros do pé de Harry. Ele recuou, e Padfoot rosnou, olhando rapidamente para Harry, antes de voltar a olhar para Wormtail.

— Acabou — rosnou Padfoot, voltando a erguer a varinha.

— Já tivemos essa conversa, Sirius — respondeu Wormtail, apontando a própria varinha para Padfoot, que parou. Curiosamente, Wormtail sorria, apesar de parecer tenso.

— Peter... — começou Padfoot num rosnado, mas aí, mais rápido do que nunca, Wormtail balançou a varinha na direção de Padfoot, que pulou para desviar, indo na direção de Harry, gritando alguma coisa.

Foi quando o beco explodiu, e Harry se virou, erguendo os braços para cobrir o rosto, mas teve menos calor e barulho do que ele tinha esperado. O motivo ficou óbvio quando pedras, gelos e madeiras bateram no meio do ar, mantidos longe pelo feitiço escudo particularmente bem cronometrado de Padfoot.

Do outro lado, protegido pelo próprio feitiço escudo, ou talvez apenas intocado pelo próprio feitiço, Wormtail anulou o feitiço que o mantinha no ar, girou e sumiu antes mesmo de seus pés tocarem o chão.

Padfoot xingou alto e avançou, acenando a varinha pela área da qual Wormtail sumira. Do outro lado dos prédios, as pessoas falavam em tons altos e alarmados e, poucos segundos depois, os Aurores chegavam. Harry reconheceu Robards, mas nenhum dos outros três. Padfoot foi encontrá-los, falando em voz baixa.

Harry se levantou, cambaleou um pouco e foi até as vestes esquecidas de Wormtail. Sua varinha e a de Cho ainda estavam no bolso e Harry as pegou, aliviado.

— Ele estava com a sua varinha?

Harry se virou para ver Padfoot o observar com uma expressão impossível de ler. Dois Aurores passaram correndo, voltando para a casa de chá, onde dois Dementadores esperavam. Robards conversava no Auxiliar com o que parecia ser Scrimgeour, e o quarto Auror tinha aparatado.

— Sim — respondeu, dando um passo em direção a seu padrinho e agradecendo a Merlin por ele ter o próprio cheiro. — Ele pegou...

— E se estava com ele — continuou Padfoot, ignorando Harry —, então você não estava com ela. Que diabos você estava fazendo ao ir atrás dele? — A pior parte era que ele não parecia bravo, ou não estava só bravo. Ele parecia incrédulo, como se não conseguisse acreditar que Harry tinha sido tão idiota. Harry também não conseguia. Engoliu.

— Eu não...

— Pensou? — sugeriu Padfoot e sua voz tremeu. Se de raiva ou alguma outra coisa, Harry não sabia; o cheiro de Padfoot estava bastante confuso no momento. — Não, Harry, isso está bastante óbvio.

— Eu só... ele não podia fugir de novo... — Só que ele tinha fugido e a única coisa boa disso tudo era que, apesar de Wormtail ter escapado, ele não conseguira levar Harry junto. — Eu sinto muito...

— Isso precisa acabar — disse Padfoot, cortando o ar com a mão. — Eu te mantenho informado para que você pelo menos saiba o que está acontecendo, não para que... Eu não quero que você se envolva... — Padfoot respirou fundo.

— Eu não procuro essas coisas — murmurou Harry, e Padfoot o olhou de um jeito quase perigoso. — Bem... isso... — Harry usou uma mão para indicar o beco destruído. — Eu meio que... Mas eu não comecei. Wormtail foi me procurar, ele ameaçou Cho e...

— E não é sua responsabilidade resolver isso! — explodiu Padfoot, jogando os braços para cima. — É quando você abaixa a cabeça e deixa tudo pra mim, para os outros Aurores e para os professores, e...

— Eu te chamei assim que pude — brigou. Padfoot fez um gesto agitado na direção de Robards, que acenou e aparatou. — Mas até lá, era minha responsabilidade, porque eu era o único que sabia o que estava acontecendo! Como sempre! — adicionou. — Porque é o que fazem, eles me procuram quando estou sozinho para que não precisem lidar com você, com os Aurores nem com os professores.

— E você deixa!

— Eu não tenho escolha!

— Sim, Harry — falou Padfoot, de repente soando muito cansado. — Você tem, é o que estou dizendo.

— Da próxima vez eu deixo a pedra, então — falou brevemente. — E Ginny. Me parecem escolhas ótimas, porque eu sou mais importante, certo? — Padfoot não respondeu, então Harry continuou. — E daí se Voldemort recuperar seu corpo, ou se o homem que matou meus pais, arruinou sua vida e a de Moony e atacou meus amigos escapar, desde que eu esteja seguro! Eu devia tê-lo deixado ir!

Eles se encararam por alguns segundos tensos, o peito de Harry pesado.

— Sim — falou Padfoot por fim. — Hoje, pelo menos. Eu estava aqui, logo atrás...

— Se eu não tivesse o seguido, ele não teria ficado por aqui — falou pesadamente, a raiva sumindo. — Ele teria ido embora antes mesmo de você chegar na Puddifoot.

— Provavelmente — suspirou Padfoot. — Mas quando ele... Eu achei... — O maxilar de Padfoot ficou tenso, e a culpa de Harry voltou. Ele ficara preocupado quando Wormtail tentou aparatar, mas achou que não era nada comparado a como Padfoot devia ter se sentido. Depois de longos segundos, Padfoot pigarreou. — Você está sangrando — falou por fim, a voz pastosa. Harry olhou para baixo, achando que Padfoot só queria distrai-lo, mas havia um borrão molhado e vermelho se espalhando pela manga de seu suéter.

— Huh — disse, e Padfoot sacou a varinha, aproximando-se para curá-lo. — Obrigado.

Havia mais que Padfoot queria dizer, Harry tinha certeza, mas ele só balançou a cabeça e puxou Harry para um abraço apertado.

-x-

— Acha que o Percy ia... — Houve um estouro que fez o chão e as paredes tremerem, e Hermione trombou com Ron. Uma garota da Sonserina ofegou alto, alguém choramingou e o dono da loja sacou a varinha. Ron trocou um olhar com Hermione, jogou o pequeno calendário de mesa para a prateleira de onde o pegara e os dois correram para as ruas.

Uma enorme nuvem de fumaça e poeira estava sobre o céu da rua principal, e escombros caiam pelo chão de paralelepípedo. As pessoas corriam para todos os lados; McGonagall era cercada por um grande grupo de alunos, a varinha erguida, e Hagrid mandava outro grupo menor passar por dois Dementadores, o guarda-chuva em mãos. Homens e mulheres com as vestes dos Aurores surgiam em todos os lugares para onde Ron olhava.

— Não, senhor — dizia um deles, falando rapidamente em um objeto pequeno e dourado. — Robards acabou de dizer que Pettigrew fugiu, mas ele está...

— Pettigrew? — guinchou Hermione, e Ron a olhou em choque. — Harry, Ron!

— Ele vai ficar bem — falou Ron ao tentarem atravessar a rua em direção à casa de chá. Ele sacou a varinha por precaução. — A casa de chá não é nem perto...

Eles viraram uma esquina e Hermione gemeu, puxando sua manga.

— Ron, olha! — Ela apontou à frente. Havia várias pessoas em frente à casa de chá. Ron notou Percy e sua namorada, mas não conhecia os outros. Olhou para Hermione. — No banco!

Eram três deles; o primeiro era um garoto alto, de cabelos castanhos, cujo braço estava ao redor de uma garota de cabelo vermelho cacheado. A terceira era Cho Chang, que segurava a mão de sua amiga e um lenço. Harry não estava com eles, e o estômago de Ron se apertou de um jeito desagradável.

— Onde...? — Mas Hermione já tinha começado a avançar, indo em direção aos três alunos da Corvinal, pelo menos até ter sido interrompida por uma Auror baixinha, de cabelos escuros.

— Vocês não podem ir por aí — falou ela com os olhos arregalados. — Os alunos precisam voltar para a escola... Aqui, vamos achar uma carruagem para vocês dois...

— Mas...

Mas por mais que protestassem — que estavam procurando por seu amigo, que era o irmão de Ron que estava logo ali —, a Auror foi inflexível e, pouco graciosamente, Ron e Hermione permitiram que ela os levasse até McGonagall, que supervisionava as carruagens que voltavam a Hogwarts. Dois Dementadores flutuavam ali perto, e Ron os olhou com inquietação.

— Obrigada, Prewett — falou McGonagall rapidamente, e a Auror foi embora. Aí, McGonagall pareceu notá-los de verdade. Seus lábios se crisparam. — Senhorita Granger, senhor Weasley... Onde estão os outros dois?

— Draco não veio hoje, professora — respondeu Hermione na mesma hora —, mas não sabemos onde Harry... — Ela parou de falar ao ver a expressão de McGonagall. Ela mandou os dois ficaram em um canto e mandou um grupo de garotos do quinto ano da Lufa-Lufa entrar em uma carruagem.

— Por favor, falem com um dos monitores da sua casa quando chegarem na escola — falou aos meninos — e marquem seus nomes na lista. — Eles assentiram e a carruagem foi embora. McGonagall se virou para Ron e Hermione. — Black estava aqui hoje, pelo que ouvi?

— Sim — falou Ron, engolindo. — Harry ia se encontrar com ele...

— Obrigada, senhor Weasley. — McGonagall acenou a varinha e algo pequeno e prateado, vagamente felino, saiu da ponta. — Encontre Black: houve um acidente em Hogsmeade, e Potter está desaparecido. — A coisa foi embora.

Outro Auror apareceu, dessa vez com McLaggen e dois de seus amigos. McGonagall tinha acabado de colocá-los em uma carruagem quando outra figura prateada apareceu. Essa era maior, canina e conhecida. Os olhos de Hermione brilharam ao vê-la, então era óbvio que ela também a reconhecera.

— Harry está comigo — falou o cachorro com a voz de Sirius, e ele não parecia feliz. — E há alguns alunos aqui também, com os Aurores, dando seus depoimentos. Ninguém se machucou. Já vamos te mandar uma lista com os nomes. — O cachorro sumiu.

— Bem — disse McGonagall depois de um momento. — Então é isso.

— Podemos esperar por eles? — perguntou Ron. Hermione o acotovelou; ela claramente achava que já tinham abusado demais da paciência da professora por terem ficado tanto tempo.

— O senhor Potter os encontrará na escola quando terminar com os Aurores — respondeu McGonagall gentilmente. Ela recuou quando uma carruagem se aproximou e os mandou entrar. — Assim que chegarem na escola, vocês dois vão encontrar um monitor...

— Sim, professora — falou Hermione, puxando Ron para dentro da carruagem. — A gente ouviu quando você falou pros outros alunos.

— Podem ir, então — falou e se virou para o próximo grupo de alunos.

-x-

— Vamos ter que falar com... — Algo pequeno e prateado apareceu aos pés de Padfoot. — Ah. Só um instante. — Ele se virou e se afastou alguns passos de Harry.

— ... nem ideia que era Pettigrew — dizia Percy Weasley a dois Aurores. — Só conheço o feitiço que ele usou, porque tenho dois irmãos malcomportados, então fiz o que qualquer um teria feito...

— ... teve esse barulho e aí tudo ficou escuro...

— ... o garoto Potter e a namorada dele saíram correndo...

— ... nem percebi até Potter virar a mesa...

— ... não era Peter Pettigrew que estava sentado com eles, era Sirius Black...

— ... aí Sirius Black, o de verdade, apareceu e foi atrás deles. — Harry conhecia essa voz e virou-se sem pensar. Cho falava com uma Auror que Harry não conhecia, mas seus olhos estavam nele, a boca um pouco aberta. Ele lhe ofereceu um sorriso, mas ela apenas o olhou. Seu coração (que já estava perto de seus joelhos depois da briga com Padfoot) afundou ainda mais, mas ele não se moveu; estava com a varinha dela e ela certamente a queria de volta.

— Foi isso? — perguntou a Auror. Cho assentiu.

— Posso ir? — perguntou ela, ainda olhando para Harry.

— Só queria perguntar... — A Auror leu suas anotações. — Você disse que Pettigrew queria uma capa? Que capa?

— Eu... eu não sei. — Os olhos de Cho voltaram para Harry, e a Auror se virou, vendo-o. Houve uma pausa, e a Auror assentiu.

— Obrigada por seu tempo, senhorita Chang. — Ela os deixou sozinhos. Harry esfregou a nuca, sem saber o que dizer. Atrás de Cho, conseguia ver Padfoot conversar com Robards com um franzir.

— Eu tenho... aqui — falou Harry, tirando a varinha de Cho do bolso. Ela ficou boquiaberta e a aceitou com a mão trêmula. Ele lhe ofereceu um sorriso e fez menção de se afastar.

— Espere. — Cho tirou um amontado de lã vermelha e dourada da bolsa (Harry reconheceu seu cachecol) e o virou em suas mãos. — Entendo por que você é um Grifinório — falou, trêmula. Harry não sabia o que pensar de seu cheiro. — Você estava tão calmo.

— Eu... meio que tinha que estar — respondeu.

— A mesa foi uma boa ideia — continuou ela, ainda olhando para o cachecol. — Eu nem pensei nisso, estava tão assustada... — Harry não sabia o que responder, então ficou quieto, mas parecia ter sido a coisa certa a se fazer: ela o olhou por trás de seus cílios. — Você foi tão corajoso hoje, Harry.

Mais uma vez, Harry não sabia o que diz e, de novo, o silêncio parecia ser a melhor opção; Cho se aproximou — ela estava quase perto demais —, e isso fez Harry ficar nervoso de um jeito bom. Ela passou o cachecol por seus ombros um pouco desajeitada, mas não se afastou.

Será que ela ia beijá-lo, Harry pensou, ou será que ele deveria beijá-la? Ou será que estava entendendo tudo errado e... Cho inclinou a cabeça e o beijou.

Foi rápido, mas gostoso, e Harry tinha certeza de que seu rosto estava tão vermelho quanto o dela quando ela se afastou.

Alguém pigarreou e, por um momento, Harry temeu que Padfoot estivesse atrás deles, mas era Percy, com o distintivo de Monitor-Chefe brilhando em seu peito.

— Desculpem interromper — disse ele, e Cho corou ainda mais —, mas eles vão nos levar de volta para a escola agora.

— Certo — falou Harry, corando. — É melhor eu... er... — Olhou para Cho rapidamente e depois procurou por Padfoot. Cho murmurou algo sobre Marietta e Riley e se afastou com um sorriso tímido para Harry.

-x-

— ... acho que podemos concordar que as coisas teriam sido bem diferentes se Potter não estivesse lá...

— É óbvio — ralhou Sirius, fazendo Austen se encolher —, porque se Harry não estivesse lá, Wormtail também não estaria.

— Não foi o que Austen quis dizer, Black — suspirou Robards. — Ela quis dizer que ele se virou muito bem. Como sempre. — Ele ergueu uma sobrancelha, e Sirius lembrou que ele estivera lá depois da aventura de Harry na Câmara Secreta.

— E esse é o problema — suspirou Sirius. — Ele não devia ser arrastado nisso tudo...

— Mas ele foi — falou Robards, inconscientemente usando os argumentos de Harry... ou talvez ele soubesse; afinal, ele estivera por perto quando Sirius e Harry brigaram. Ele mandou Austen ir juntar os outros alunos.

— Nós devíamos ter chegado primeiro — falou Sirius.

— Mas não chegamos — lembrou Robards, mais uma vez usando o argumento de Harry. — Não dessa vez. Dessa vez, Pettigrew foi mais esperto, mais rápido e, provavelmente, mais sortudo do que a gente. — As palavras obviamente doíam tanto em Robards quanto em Sirius (conseguia sentir em seu cheiro), mas estranhamente ele sorriu. — Vamos ser gratos por seu garoto ter sido mais que ele.

— Hoje ele teve sorte, não inteligência — murmurou. Nunca se esqueceria da maneira que seu peito se apertara quando Pettigrew começara a aparatar, da maneira que o horror aparecera no rosto de Harry quando ele entendera o que estava acontecendo.

— Depois de sair da loja, talvez — concordou Scrimgeour. — Mas antes disso, ele foi inteligente. Ele sabia que não era você, ficou calmo e tirou Pettigrew de lá antes que ele pudesse machucar alguém.

Sirius resmungou. A verdade era que, depois de ouvir o depoimento de todo mundo, estava incrivelmente orgulhoso da maneira que Harry agira, pelo menos até ele ter tido a ideia idiota de iniciar uma perseguição sem sua varinha. Isso o deixava bravo, em parte com Harry, mas também com a situação, com Wormtail e consigo mesmo.

Robards estivera certo ao dizer que não tinham previsto isso, mas Sirius ainda não estivera onde precisara estar, não conseguira impedir Wormtail antes que ele entrasse, mais uma vez usando Sirius como seu disfarce — apesar de, felizmente, dessa vez ter sido apenas seu rosto, não sua vida, e todo mundo o conhecia.

Como Wormtail conseguira fazer isso era outra história — Polissuco, talvez, ou outra coisa? —, e Sirius perguntaria mais sobre isso a Harry quando conseguisse ficar perto de seu afilhado sem querer estrangulá-lo e abraçá-lo — e nunca mais soltar — ao mesmo tempo.

— Pare de se remoer, Black — falou Robards, e Sirius o olhou feio. — Já passou e não podemos mudar nada, só fazer melhor da próxima vez. — Sirius suspirou, cedendo. — Austen está levando as crianças de volta, você quer ir com eles...

— Vou atrás do Wormtail — falou Sirius, balançando a cabeça. Robards pareceu surpreso. — Você está seguindo os rastros da aparatação dele, certo?

— Wellington, Proudfoot e o Recruta de Proudfoot já estão lá... Potter.

— Ei. — Harry deu um aceno distraído a Robards e olhou para Sirius. — Falaram que vocês vão nos levar de volta... ? — Seu rosto estava bastante corado. Sirius perguntou-se se ele estava com frio, mas acabou descartando essa ideia; como ele, Harry não sentia o frio. Ele também usava um cachecol que não estivera ali antes.

— Austen vai levar — respondeu Sirius. — Eu vou atrás de Pettigrew, com Robards. — Como Robards, Harry pareceu surpreso.

— Ah — falou ele. — É, certo. — Ele olhou para Robards, que esperava por Sirius, mas tinha se virado para lhes dar um pouco de privacidade. — Eu... Padfoot, eu sinto muito por...

— Não sinta — falou Sirius; poderia ter parado Wormtail, mas teria lhe custado o feitiço escudo que salvara aos dois. Sirius não se arrependia da escolha que fizera, ele a faria milhares de vezes. — Já passou e não podemos mudar o que aconteceu. — Suspirou. — Eu falo com você mais tarde.

— É — murmurou Harry, franzindo o cenho. — Até mais...

Sirius foi atrás de Robards, deixando Harry com Austen e os outros. Ia ser uma longa noite.

Continua.