*********************** Cap 21 Um Oceano de Opções ***********************

No mesmo dia...

Casa de Aquário, 8:35pm

Enquanto hesitava na entrada do templo, sem saber o real motivo de tanta apreensão, o cavaleiro de Peixes olhava para o extenso átrio de colunas gregas perfiladas, que gradativamente mergulhavam no escuro daquela passagem até desaparecerem por completo. Suspirou cansado e meteu ambas as mãos nos bolsos do jeans que vestia. Surpreendeu-se ao encontrar em um deles um chiclete todo amassado. Olhou a embalagem melada, cujas letras borradas e gastas não informavam com precisão a data de validade, mas que era certo de que estava lá há muitas eras. Não teve dúvidas; desembrulhou e o jogou na boca sentindo um gosto rançoso, de laranja murcha a princípio, depois de pão velho. Ainda assim era melhor do que nada. O nervosismo sempre fazia sua boca secar e as palavras empedrarem dentro dela, e mastigar algo ao menos o ajudaria a produzir saliva e amolecer as sílabas, já que iria precisar de muita calma e ponderação para conversar com Camus, pois que aquele recado que ele lhe dera no Templo de Baco, o frio intenso que invadiu o escritório de Saga e fez gelar seus ossos, lhe tinha sido bem claro.

— Dadá, me cubra com o manto da razão e coloque a coroa do juízo na cabeça ruiva dessa mona! — murmurou baixinho finalmente adentrando o templo, já seguindo para a parte residencial, enquanto tomava o cuidado de ocultar seu Cosmo completamente para que nenhum outro cavaleiro o sentisse ali, além de Camus.

Quando chegou à sala, todo o ambiente estava mais frio que o habitual. Não que as baixas temperaturas tivessem alguma chance de lhe assustar ou mesmo causar algum desconforto, visto que desde de criança estava mais do que acostumado a elas, mas o frio do Santo de Aquário era diferente, era opressor, assustador e dolorido como ter mil agulhas enfiadas nos ossos.

Assim que avistou Camus, que visivelmente transtornado andava de um lado para o outro entre a mobília soltando fumaça pela boca tal qual uma locomotiva desgovernada, Afrodite foi até ele caminhando lento e despreocupado.

— Hyoga já está na Arena? — perguntou com voz moderada.

Aquário respondeu com um aceno de cabeça seguido de um olhar tão furioso que pegou Afrodite de surpresa.

O espanto o fez tropeçar em uma das poltronas de couro branco e por muito pouco não ir ao chão.

— Aquenda Dadá! — rogou Peixes, seguido de um gemido, e enquanto recolocava o móvel no lugar olhou de volta para Camus, que agora lhe encarava estático — Nem precisa me chochar*, gata. Eu já sei porque você tá aí toda babadeira*, com essa cara de serial killer em abstinência.

Camus deu uma tragada profunda no cigarro antes de congela-lo, depois livrou-se dos cristais de gelo estalando os dedos no ar enquanto soprava a fumaça ruidosamente para cima.

— Olha, Camus, o que aconteceu ontem foi muito grave — continuou Afrodite de onde estava, olhando para o francês — Eu sei que você e eu temos opiniões conflitantes sobre a volta do Saga, e eu não tiro a sua razão, nem a de ninguém, de estar louco do edi* com ele, mas eu... EU conheço aquele Coiso que vive dentro dele. Eu estava lá, na primeira vez quando Ele apareceu, e foi horrível!... E eu vi, com esses belos olhos que hão de virar purpurina um dia, que Saga lutou, lutou muito, com unhas e dentes, para impedi-lo de dominá-lo... Mas ele não foi suficientemente forte, como não foi no dia que os suínos russos invadiram o bordel — suspirou recordando-se da tragédia — Então, eu acredito que, nesses seis anos, ele foi só mais uma vítima do mal que vive dentro dele, como todos nós fomos. Por isso eu não consigo simplesmente jogar o meu picumã* nesse caso, entende mon amour? Ele precisa de apoio, precisa acreditar que há pelo que ele voltar e lutar para impedir que esse malassombrado o domine de novo, ou tudo vai se repetir e...

— E para dar todo o seu apoio você precisa beija-lo também?

A pergunta de Camus pegou o outro de surpresa, que ficou sem reação por um breve momento.

— O... quê? — Peixes perguntou piscando repetidas vezes e contraindo as sobrancelhas finas.

Furioso, Camus avançou até ele parando a poucos centímetros de seus narizes se tocarem. Olhava dentro das íris aquamarines tão intensamente que era como se pudesse entrar pelas pupilas dele e lhe invadir a mente.

Non negue! Você non foi lá só para dar apoio a ele, non é mesmo? Ou non teria que mentir para mim — disse rangendo os dentes, apertando as mandíbulas com força para controlar a vontade terrível que sentia de esganar Afrodite até a morte.

— ALÔCA! — Afrodite berrou, com surpreendente espanto — Mulher, do que você está falando?

Transtornado, Camus deu as costas a ele e num carreirão foi até a estante no fundo da sala onde apanhou uma das elegantes garrafas de cristal que serviam de enfeite, a congelou em fração de segundos e a lançou contra Afrodite com a mesma garra e euforia de um arremessador da Major League Baseball*.

Peixes desviou facilmente.

— Do que estou falando? Seu cínico mentiroso? — gritou Camus extravasando toda sua fúria, depois que a garrafa se espatifou contra a parede — Você saiu daqui dizendo que ia ver a sua amiga no hospital, quando na verdade foi correr atrás do cretino do Saga. Depois de tudo o que ele nos fez!

— Não... Camus...

Peixes tentou interrompê-lo, mas foi Aquário quem o interrompeu.

— E non satisfeito em se jogar nos braços dele você... você O BEIJOU! Putain de merde! — rosnou Camus.

— Como é?

Muito nervoso, Camus fechou os olhos e tentou controlar-se, ou acabaria por destruir a própria mobília atirando-a toda em cima do pisciano.

— Eu non estou acreditando numa merde dessa, Afrodite! — massageou a ponte entre os olhos e os reabriu. Sentia o corpo todo fremir em claro descontrole emocional, odiando a forma como Afrodite conseguia afetar até mesmo sua fisiologia.

— ESPERA! ALTO LÁ! — Peixes apontou o dedo para ele, visivelmente nervoso — Eu não dei truque nenhum em você, Camus. Muito menos beijei... — fez uma pausa, bufou e balançou a cabeça em negação, indignado — Eu não beijei o Saga. Tá colocada, gata? A essa hora da manhã?

— Você non se faça, Afrodite! — Camus deu um tapa forte na mão dele, indignado com a negação do ato que ele mesmo viu, depois também lhe apontou o dedo — Non se faça comigo ou eu quebro a tua cara. Seja homem e admita o que fez! Desde ontem eu percebi que você estava louco para ir atrás dele. Eu vi na merde dos seus olhos, brilhantes de alegria, o quanto você ficou eufórico com a volta dele.

— Lógico que fiquei! — Peixes rebateu — Eu esperei, eu pedi aos deuses, eu torci anos por isso!

— Exatamente! Você esperou, torceu, rogou anos por isso. — Camus bufou ensandecido — E por quê?

Afrodite abriu a boca indignado, depois fechou e abriu de novo, até que respirou fundo para tentar manter a calma.

— Mulher, como por quê? Porque sim! Por todos nós, pelo Santuário, pelo próprio Saga, mas principalmente pela Mosca... Porque ele é meu amigo!

— E porque ele foi seu amante, non é? — rosnou o francês, com os pensamentos voltados tanto para a cena que presenciara momentos antes no Templo de Baco, quanto para lembranças do passado que involuntariamente vinham à tona.

O choque provocado pelas palavras ditas por Camus fez o coração de Afrodite disparar e seu rosto ganhar uma lividez assustadora.

Enfim ele percebera que aquela não era uma discussão sobre posturas e opiniões divergentes, mas uma discussão de relação; uma maldita DR.

Ele era péssimo nelas.

— Ah! Então o Equê* na verdade é esse, Camus? — questionou sem muita paciência, só para ter certeza.

— Sim, Afrodite, o Equê é esse! Que merde de sentimento é esse que você tem por um canalha que quase te matou no Cabo Sunion, te obrigou a se prostituir por anos te forçando a trepar com todo o tipo de... de filho da puta sórdido que existe nesse mundo, os piores dos piores, depois desapareceu por seis anos, e sob a máscara de um outro pulha, tão miserável quanto ele, fez todo tipo de atrocidades, incluindo me obrigar a matar o Milo e me ameaçar de morte... e ele mesmo dar uma surra na tua amiguinha querida, aquela lenhadora desqualificada. Me diz, porra! Me diz que sentimento é esse que te faz correr para ele e exultante beija-lo mesmo depois de tudo isso. Mesmo estando comigo e me dizendo toda merde de dia que me ama!

Havia um brilho gelado nos olhos avelãs de Camus, um brilho perigoso, ameaçador, e que se não fosse a pressão do momento, Peixes teria notado que se tratava de lágrimas, as quais congelavam ao brotar dos cantos dos olhos e se desfaziam no ar.

— Mas eu te amo, Camus! — Afrodite disse aflito, e ainda sem entender direito o motivo pelo qual estavam tendo aquela conversa, ergueu as mãos e tentou tocar o rosto do francês, mas ele o repeliu na mesma hora com um safanão, lhe deu as costas e mergulhou nervosamente os dedos nos cabelos, esfregando as unhas contra o couro cabeludo.

— Me ama... — murmurou para si mesmo num misto de raiva e melancolia, em seguida apanhou outro cigarro da cigarreira sobre a mesa de centro e o acendeu com urgência — Mas é incapaz de ser fiel a mim!

— O que? — Peixes deu quase um grito, tamanha a indignação em ouvir aquilo — Teu cérebro virou geleia gelada, Camus? Desde quando eu não sou fiel a você, santa? Ah, tá boa! Se está falando da época do bordel, pode parar, gata. Sabe muito bem que depois que me declarei para você e assumimos um relacionamento, todo suíno com quem eu trepei foi por pura obrigação. Então, se está valendo infidelidade cachorra, ou para manter aparências, significa que eu também posso dizer que você não tem sido nada fiel a mim, princesa. Nada, nada! Já que vive metendo esse teu pau nas racha sebosa daqueles bordeis russos que a tua máfia chafure* sustenta e explora. Presta atenção, heim Camus!

Aquário soltou uma bufada e revirou os olhos impaciente.

Non teste a minha paciência, Afrodite. Estou falando de você e Saga. Hoje! Por que você beijou ele?

— Eu não beijei o Saga, por Dadá! De onde você tirou isso?

Camus virou para ele e o encarou com os olhos avelãs faiscantes.

— Eu vi você o beijando! Eu vi, idiota!

Peixes o olhou firme de volta, sem se alterar. Engoliu em seco e contraiu os lábios, enquanto considerava o que ele lhe dissera até agora e retomava em sua mente o ocorrido no Templo de Baco. A conversa com Saga, o lamento de ambos pela morte de Milo, o medo do geminiano frente a tudo que enfrentaria daquele ponto para frente para tentar retomar a vida que seu lado maligno lhe privou por seis anos, o frio repentino invadindo o escritório quando o abraçou para consola-lo e lhe beijou o rosto no único ponto onde não havia ferimentos ou curativos.

"Merda!" Concluiu alarmado.

— Não é o que está pensando, Camy — disse com voz bem mais amena, afinal era só uma pequena confusão. Um beijinho de nada.

— Ah! Non? — Camus perguntou cruzando com deboche os braços — Vai negar até a morte como sempre faz?

— Não... não vou negar... Eu beijei o Saga sim, mas foi um beijo de amigo — disse na sua santa ingenuidade.

Camus levantou as sobrancelhas, indignado com tamanha cara de pau. A confirmação só fez o ciúme borbulhar escaldante dentro de si e sua raiva gelar ainda mais o ambiente.

— Isso por acaso é um tipo de piada? — disse sarcástico — Eu pareço um palhaço?

— Não! Foi um beijo de apoio.

Camus respirou fundo esfregando o rosto.

— Do jeito que está falando até parece que eu escorreguei inteiro pela garganta do Saga. Por Dadá, Camus! Foi um beijo inocente — disse, sem saber que do ângulo de visão do aquariano o beijo não parecia nada inocente.

A "mentira" do namorado foi como uma facada profunda no coração do aquariano, que já estava no seu limite. Há oito anos esse nó crescia embolado em sua garganta e não ia deixar Peixes usar esse fio para enrola-lo como sempre.

— Você acha que eu sou idiota, Afrodite? — disse Camus o encarando novamente — Eu não sei que tipo de relação sórdida você tinha com Saga antes de começarmos a ter um relacionamento, mas eu sei que você tinha prazer em se submeter a ele. Ele era seu amante, seu chefe, seu dono! E você gostava!

— CHEGA! — gritou Afrodite espalmando ambas as mãos no peito do aquariano e lhe dando um empurrão — Eu não admito que fale comigo nesse tom, nem que insinue esse tipo de coisa, Camus de Aquário. Seja lá com quem ou o que eu fazia antes de me comprometer com você não é da sua conta. Isso inclui minha relação com o Saga, por isso mesmo que não tem que se meter no modo como eu lido com ele.

Cego de raiva Camus o aplaudiu com ironia.

— Que belo! Então quer fazer o que quiser com seu ex... ex-alguma coisa, sem a minha intromissão. Ótimo! Isso vale só para o Saga ou vale para todos? — perguntou Aquário num tom prepotente, extravasando bem mais do que queria inicialmente — Vale também para o Mu, a quem você tentou aliciar quando ele voltou de Jamiel? Para o Máscara da Morte, com quem todos sabem que você se deitava? Para os soldados dessa merde toda aqui que passaram pela sua cama, também vale? Para todo mundo que você vive de sorrisinhos, toques e beijos que non significam nada, apenas amizade, vale? O que fizer com todos eles non é da minha conta então?

Depois de encara-lo por um momento, Afrodite baixou a cabeça e suspirou. Sabia que carregaria o estigma de ter sido uma pessoa tão, digamos, despreocupada, com sua reputação, e que mais cedo ou mais tarde esse comportamento pesaria em seu relacionamento com o francês. Só não sabia que justamente Saga seria o gatilho.

— Você está sendo ridículo — disse Afrodite levantando a cabeça e encarando Camus nos olhos.

Pardon? — Aquário cruzou os braços.

— Presta atenção no que está dizendo, bonita — disse Peixes — Será possível que o meu coágulo passou por osmose para a tua cabeça enquanto a gente dormia, Camus? Ah, tá boa! Liga o pisca alerta, santa. Eu nunca deixei de ser eu só porque escolhi ficar com você. O máximo que fiz foi aceitar dar truque no Hyoga fingindo ser uma mulher que finge ser um homem que finge ser uma mulher fingindo ser amada, e apenas! Sentiu? Você me conheceu assim, abraçando e beijando todo mundo. Eu preciso do toque das pessoas, eu preciso sentir, eu sou tátil! Eu não tenho culpa se você é um repelente ambulante e não entende isso. Agora, não admito que diga que menti para você. Eu fui ao hospital ver a Mosca sim. Ela estava sedada, e então eu voltei para cá, mas senti o Cosmo do Saga no Templo das Bacantes e fui até lá ver como ele estava.

Camus fechou os olhos e apertou os punhos com tanta força que camadas de gelo se formaram ao redor deles. Ele entendia que Afrodite basicamente confirmara a traição e para completar lhe dizia que continuaria a traí-lo. Respirou fundo soltando bufadas de ar frio, tentando encontrar forças para lidar com a situação da maneira mais racional possível, já que assassinar Afrodite naquele instante não era uma opção.

— E aproveitou o momento para suprir sua necessidade de toques e matar as saudades beijando o cretino. — rosnou baixo ao abrir os olhos e mirar muito sério os olhos de Afrodite. Aquilo não fora uma pergunta.

— Não! Eu fui levar notícias da Mosca para ele, porque Shina me disse que Mu não o permitiu que a visse — respirou fundo tentando manter a calma — Camus, eu fiquei feliz, sim, com a volta dele, não vou mentir. Saga é importante para mim. Ele me acolheu quando cheguei da Suécia, abandonado e sozinho, só com uma malinha com três calcinhas. Se há oito anos eu fui tão vadia a ponto de confundir o afeto que tenho por ele com tesão, isso acabou no dia em que você entrou bêbado como um suíno no meu quarto do bordel e me mostrou o que era amor de verdade. Desde aquele dia eu nunca mais consegui tirar você da minha cabeça.

— Isso! — bradou trêmulo de tanta raiva— Belíssimas palavras! Diz que me ama de verdade e vai lá beijar outro, Afrodite, porra!

Camus teve um ataque de fúria. Num único movimento rápido e brusco ele deu as costas ao pisciano e desferiu um poderoso murro na mesinha de canto que ficava ao lado do sofá. Esta se cristalizou em milésimos de segundos, transformando-se em uma nuvem de pó gelado.

— Sangue de Dadá, Camus! Já disse que foi um beijo de amigo!

Parfait! — Aquário se voltou para ele e bateu duas sonoras palmas próximo ao rosto de Peixes — Então eu posso beijar o Misty também, non? Oui! Já que Misty é meu amigo.

Afrodite abriu a boca de supetão, prendeu o ar dentro dos pulmões e fixou os olhos arregalados nele, espantado... Sentiu o rosto queimar e os pelos finíssimos dos braços eriçarem. O coração disparou.

— MULHER! — exclamou, quase num grito. Deu um passo para trás, outro para frente e depois deu um giro em torno de si mesmo jogando os cabelos longos para trás dos ombros. Por fim parou de frente para Camus e o encarou nos olhos — Você não disse isso! VOCÊ NÃO DISSE ISSO, SUA FODIDA!

Camus inclinou-se para ele e lhe apontou o indicador, quase o encostando no peito.

— Que Zeus parta a minha cabeça ao meio agora mesmo se eu estiver errado, Afrodite, mas você me crucificou por anos por eu ter transado com o Misty num momento de fraqueza, e que, inclusive, eu estava solteiro. Uma merde de noite apenas, que só aconteceu por culpa SUA, mas que foi o suficiente para você tirar a minha paz por anos e até hoje me jogar isso na cara. Agora vem me dizer que eu non tenho nada que ver com quem você transou, e que tenho que aceitar os seus beijos e suas demonstrações exageradas de afeto com aquele cretino do Saga?

— Gata, como você tem coragem de comparar a minha amizade com o Saga com a sua amizade, que diga-se de passagem só existe na sua cabeça ruiva oca, porque na dela eu tenho certeza que é tudo, menos o que você acha que é, com aquela Lagartixa craquelenta do Tejo? — fez uma pausa para recuperar o fôlego — Aquela besta humana de ventosas não é amiga de ninguém, muito menos de... ESPERA! — outra pausa, e de repente bateu as mãos no ar com tanta força que parecia estar tentando matar um mosquito bem nutrido — EU SABIA! EU SABIAAAA! FOI ELA, NÃO FOI?

Camus revirou os olhos e irritado deu as costas a ele caminhando por sobre os cristais congelados no chão até a mesa de centro para apanhar mais um cigarro.

— Foi aquela cria mal parida do Aqueronte que foi bater para você que eu estava no bordel naquela hora com o Saga! ÓBVIO QUE FOI!

Aquário virou-se para ele já lhe apontando o dedo em riste.

— Ah! Pelo menos a bonita admite que non era para eu estar lá! — Camus disse desgostoso e até um tanto conformado ao finalmente tragar e sentir a nicotina — E por que non era para eu estar lá, Afrodite? Heim? Para non ver você aos beijos com o seu amante?

— Amante? Que amante? Olha, Camus, eu não tô boa, heim! Não tô boa! — chutou a poltrona a seu lado quase a mandando voar pela janela — Foi a desgraçada da Lagartixa que armou tudo!

— Armou o que, ô bicha burra? Para de jogar no Misty a culpa das merdas que você faz, por Dieu! Assuma o que fez. — Camus soltou um suspiro cansado, coçando a testa com o cigarro entre os dedos. Não estava aguentando mais, aquela loucura que vivia há tantos anos o estava adoecendo, enlouquecendo — Você beijou o desgraçado porque você quis! O Misty non te obrigou. Ele por acaso estava lá? Ele estava segurando a sua língua e a enroscando na dele? Non, só você estava lá.

— Não fale o nome daquele girino do Estige, por favor!... Você não percebe, Camus? — Afrodite agarrou o francês pelo braço e o puxou para perto — Ele nunca vai desistir de tentar me separar de você!

— Eu já te disse que ninguém melhor que você mesmo, Afrodite, para me fazer querer me separar de você — disse Camus olhando nos olhos dele. Diferente de momentos antes, seu olhar agora fora esvaziado de toda a fúria e raiva, sobrando apenas uma melancolia severa, amarga e tão profunda que lhe inundava a alma — Por que você beijou o Saga? — perguntou com voz baixa, ressentida — Só me diga isso. Por que?

Com um empurrão Peixes soltou Aquário e com um gesto quase agressivo esfregou o próprio rosto repetidas vezes.

— Eu não beijei o Saga — murmurou chacoalhando a cabeça, incrédulo no rumo que aquela discussão estava tomando — Não do jeito que acha que beijei. Não do jeito que você acha que viu... Foi um beijo no rosto.

— Hum... claro que foi. — Camus deu de ombros.

Estava farto de tudo aquilo. Peixes finalmente o levara ao verdadeiro limite, onde nem mais raiva era capaz de sentir.

Afrodite levantou o rosto e olhou para ele. A súbita calmaria de Camus era estranha; estava bem mais acostumado com os gritos e ameaças. Por alguns segundos pensou se deveria dizer-lhe o que sentia, talvez aquela fosse a brecha perfeita, então simplesmente as palavras saíram de sua boca como se tivessem vontade própria.

— Por que, mesmo depois de oito anos, você ainda desconfia de mim? Por que eu sempre tenho que te dar provas da minha lealdade e do meu amor por você, Camus? Por que sempre me obriga a te confessar algo que eu não fiz? Por que simplesmente a minha palavra nunca é o suficiente para você?

Os olhos avelãs outrora severos e faiscantes, agora tinham adquirido uma aparência ainda mais soturna, lastimosa, quase súplice, como os olhos das Madonas retratadas no estatuário barroco. Camus olhava para o rosto belíssimo de Afrodite, e em cada contorno perfeito via os oito anos em que tudo o que mais desejou foi fazer aquele homem feliz, mas parece que havia falhado desde o início; e continuava falhando miseravelmente.

Foi com grande esforço que sufocou um soluço e engoliu de vez aquele nó na garganta que parecia sufoca-lo.

— Eu non tenho uma boa resposta para te dar, Afrodite — disse pesaroso e reticente ao abaixar os olhos e levar o cigarro aos lábios mais uma vez.

— Não? Mas eu tenho! Porque a Lagartixa te envenenou contra mim, e você prefere acreditar nela, mesmo depois de tudo que eu aceitei para poder ficar com você. Minha vida gira em torno da sua há oito anos, Camus. Eu fico aqui semanas, meses, esperando você aparecer com o Hyoga, para uns míseros dias de companhia apenas, até você voltar para aquele maldito país gelado. Faz seis anos que reeduquei minha alimentação e que vivo de dietas rígidas, quase enlouquecendo de fome, para não ganhar massa muscular e colocar em risco meu disfarce. Tudo para parecer cada vez mais feminino quando me visto de mulher, contra a minha vontade, para você poder pagar de machão para o nosso filho e aqueles suínos da Vory. Oh! O hétero convicto! Eu vivo diariamente com uma maçaroca de chumbo aqui no meu peito por estar enganando uma criança que eu amo como se eu mesmo o tivesse parido... Eu deixei de ser eu, de ter a minha identidade, para ser quem você exigia que eu fosse, e por causa da merda de um beijo você esquece de tudo o que eu faço por você e nada mais importa.

Afrodite afastou-se dando as costas a Camus e caminhando até a janela, onde cruzou os braços e olhou para o horizonte. Uma lágrima desceu por seu rosto, solitária e silenciosa.

Camus ficou olhando para ele de onde estava, calado. Cada palavra dele sendo absorvida como tapas em sua cara. Bofetadas tão dolorosas e humilhantes como as que um dia lhe dividiram as sobrancelhas com cicatrizes profundas.

Afrodite estava certo. Em tudo.

O errado ali era ele, sempre fora.

Errou desde o momento em que nasceu como uma aberração da natureza.

Em profundo silêncio, Camus levou calmamente o cigarro pela metade aos lábios, refletindo e ponderando em detalhes sua real situação atual. Os oito anos de relacionamento serviram para torna-lo dependente de Afrodite como jamais fora de ninguém. Tinha necessidade dele, da companhia, do corpo, da presença, até mesmo das implicâncias e maluquices que ele lhe aprontava, e essa realidade irrefutável só o deixava cada vez mais inseguro e apavorado. Em oito anos de relacionamento não havia ainda conseguido encontrar uma brecha para legitimar seu amor por ele. Não podia assumir Afrodite de fato nem perante o próprio filho mais, pois além do risco agora havia o medo. O terrível pavor da punição e da rejeição de Hyoga, caso ele descobrisse a verdade.

Camus convivia todos os dias com a plena certeza de que mais cedo ou mais tarde Afrodite se cansaria de tudo aquilo, se cansaria dele, e o deixaria. Que bastava a ele encontrar um homem bonito que o assumisse, sem medo, sem dúvida, sem vergonhas ou inseguranças, pois ele merecia isso. Daí vinha toda aquela desconfiança e até mesmo o ciúmes de Saga, ainda que essa fosse uma realidade completamente insana. Além do imenso terror que sentia de ficar sem ele e voltar à vida de merda que tinha antes de estarem juntos, a verdade era que sentia inveja das liberdades que Afrodite tinha com Gêmeos e os outros cavaleiros mais próximos a ele, e que não podia ter consigo, a menos que estivesse enclausurados e sozinhos em seus templos, em sua casa em Moscou, no Vênus ou em algum quarto de motel.

Camus queria tudo aquilo para si. Queria poder toca-lo ao se encontrarem na arena. Queria rir das bobeiras que ele dizia no refeitório. Queria poder beija-lo quando o visse tão lindo em uma festa que seu coração parecia bater apenas em função dele...

Mas não podia, pois era uma aberração...

Uma aberração covarde.

Aquário se achava um grande covarde. E essa covardia um dia o faria perder Afrodite. Essa era a raiz da erva daninha que dia após dia se enraizara dentro dele ganhando força e destruindo toda a confiança no namorado, e toda sua própria autoestima, até que o fizesse se sentir menos do que uma aberração.

Camus tinha convicção de que era um nada.

— Pelo visto, viver comigo non está te fazendo nada bem — Camus quebrou o silêncio ao se sentar em uma das poltronas com a cigarreira e o cinzeiro de cristal nas mãos. Mantinha a cabeça baixa, sem coragem de olhar para o pisciano ao admitir o próprio fracasso.

Da janela, Afrodite virou-se e olhou para ele. Estavam de frente um para o outro.

— Você tem razão — continuou Aquário — Eu te forço a ser uma pessoa que você non é, te obrigo a viver uma vida de mentira e non posso te assumir. Você finge estar feliz comigo, mas eu sei que non está. Ninguém é feliz com uma vida de merde como a que eu levo com você.

Peixes respirou fundo.

— Camus...

— Por favor, me escute, Afrodite. Eu non conseguirei falar isso novamente — pediu o aquariano olhando para ele muito sério, enquanto acendia mais um cigarro com os dedos levemente trêmulos, entregando o abalo interior — Você tem razão. Eu sou uma merde de uma bicha ridícula.

— Eu não disse isso.

— Eu sei. Você non disse porque non é preciso dizer. Eu sei disso. Eu sempre soube o que eu sou... Eu convivo com a natureza do que eu sou desde que nasci, assim como com tudo o que me torna uma maricona enrustida ridícula. Há oito anos eu coloquei correntes em você e o prendi a mim, a essa vida de bicha ridícula que eu levo, mas eu errei. Nunca deveria ter feito isso com você... mas agora está livre — disse como quem desfere uma sentença.

Afrodite descruzou os braços e encarou os olhos de Camus com um semblante confuso.

— Oi?

Aquário soltou a fumaça que prendia dentro dos pulmões para alto com uma longa e lenta baforada. Precisava de toda força e nicotina do mundo naquele momento para não fraquejar.

— Eu errei desde o começo, mas eu já estou acostumado a viver uma vida de mentira, onde tenho que fingir ser alguém que eu non sou. O erro foi arrastar você comigo. Foi achar que você conseguiria ser feliz pela metade, sendo quem você non é — disse, então apagou o cigarro no cinzeiro e se levantou. Num caminhar lento foi até Peixes e parou a poucos palmos de distância — Você non nasceu para viver preso em um aquário. Ainda mais um aquário como o meu, pequeno, feio, escuro e cheio de perigos, sem nenhum atrativo. Esta é a minha prisão, não a sua. Eu errei, mas não quero continuar errando. Por isso, eu estou te tirando do meu aquário. Você está livre.

Afrodite sacudiu a cabeça sentindo o coração acelerar e a boca secar.

— Espera! Eu acho que estou com gelo nos ouvidos — cutucou os ouvidos com as pontas dos indicadores enquanto encarava Camus com os olhos aquamarines esbugalhados — Você está terminando comigo, Camus? É isso?

Aquário demorou alguns instantes angustiantes antes de finalmente conseguir responder.

Non estou terminando com você, mas se quiser entender assim a escolha é sua. — Camus deu de ombros ao desviar os olhos por um instante — Eu quero que faça tudo o que quiser fazer, se isso incluir me deixar... Tudo bem.

— Aquenda! Minha Santa Britney dos surtados! Mulher você tá louca?

Non estou louca. Pela primeira vez desde que você entrou na minha vida eu acho que estou tomando a decisão mais equilibrada e correta que poderia tomar. Você está livre de tudo o que é obrigado a fazer contra a própria vontade, e que tanto te faz sofrer, por minha culpa. Eu estou te libertando de mim. É diferente.

— Diferente é o seu rabão, Camus de Aquário! Você está terminando comigo! — disse Afrodite, visivelmente alterado — Por causa de uma badalhoca* de um beijo de amigo!

Non. O beijo que você deu no Saga foi apenas um choque de realidade. Eu estou te liberando de todo e qualquer compromisso comigo, Afrodite. De hoje em diante você pode fazer o que você quiser, sair com quem você quiser, beijar quem você quiser... Pode também usar a roupa que quiser usar, viajar para onde bem entender, ser livre! Eu te amo, peixinho, por isso eu estou te tirando do meu aquário e te soltando no mar, que é de onde nunca deveria tê-lo tirado, mas estou deixando a porta aberta. Se quiser nadar em outras águas, nade, e quando quiser voltar para mim, volte... — Camus baixou ligeiramente a cabeça para evitar olhar nos olhos transtornados do pisciano. Sentia como se as palavras ditas por sua boca fossem proferidas por outra pessoa enquanto observava toda a cena de algum lugar distante, anestesiado, e a cada nova palavra dita, menos podia sentir, pois morria aos pouquinhos — Infelizmente eu tenho necessidade de você. Eu gostaria, sim, de terminar esse relacionamento doentio que nós vivemos, do qual eu sou profundamente dependente, e que te faz tão infeliz, mas sinto que sou incapaz, então... essa é a melhor solução para nós. Eu apenas non suporto mais viver com seus abusos, com as suas acusações constantes de como eu destruí a sua vida sem te dar nada em troca, ou de como eu o faço infeliz e incompleto. E eu sei que também sofre com os meus abusos. Estamos adoecendo por conta dos nossos sentimentos e precisamos ser racionais, por nós dois, e pelo Hyoga. Seja livre para fazer da sua vida o que quiser Afrodite, não tem mais obrigações comigo. A única coisa que eu te peço em troca é que apenas non faça nada que magoe meu filho, ou eu... — levantou o olhar para ele e então o brilho ameaçador lhe voltou aos olhos ao encara-lo firme — Ou eu juro que mato você sem pensar duas vezes.

Em choque, Peixes olhava para ele de volta sem acreditar no que ouvia.

— Está sugerindo a merda fedida de um relacionamento aberto, Camus? É isso que está sugerindo? — perguntou com a voz trêmula e abafada.

— Se esse for o nome... Sim, eu estou.

— Pois eu não aceito! — esbravejou Peixes dando um empurrão em Aquário — Não aceito porque isso é só mais um dos seus malditos caprichos! Você está de cafuçu por causa de um beijo sem importância nenhuma, e me julgando porque já tive mais parceiros na cama e na vida do que você tem de sardas nessa tua cara de pau, sua cretina.

— Pense o que quiser, Afrodite. Eu non me importo mais. Cheguei ao meu limite. Eu amo você, mas non quero mais ser comprometido com você, porque non suporto ter de ouvir, em toda maldita discussão que temos, o quanto você se sacrifica e o quanto você sofre por estar comigo. Chega. Você está certo. Já conseguiu me provar sua insatisfação, mas isso me faz mal, me destrói, me corrói por dentro, principalmente quando, por mais que eu tente, non consigo mudar nossa situação ou te fazer feliz. Eu cansei de ser o algoz do seu sofrimento. Você está livre para ser quem você é, do jeito que você é, sem compromisso nenhum comigo, assim ao menos non me sentirei enganado e nunca mais terei que ouvir que a sua vida é uma merde por culpa minha.

Para surpresa de Peixes, Camus aproximou-se dele e lhe deu um beijo rápido nos lábios trêmulos, apenas um toque suave, mas que já serviu para deixa-lo inerte e sem reação.

— Deixei Hyoga sozinho na Arena. Preciso voltar para acompanhar o treinamento dele. Aproveite sua liberdade, ma Belle Rose.

Camus deixou a sala em silêncio, levando consigo o frio intenso que pairava no ar e o coração partido em milhares de pedaços.

Afrodite soltou todo o peso do corpo sobre o sofá e por longos minutos ficou ali, com o olhar vago e a sensação de que o chão havia desaparecido sob seus pés.

Santuário de Atena 01:15pm.

Após acordar de um sono revigorante, ainda que compulsório, no divã de seu escritório no Templo de Baco, Saga sentia-se um pouco menos estropiado, porém ainda longe de sua plenitude e vigor físico. No entanto, nem a moléstia, que lhe açoitava impiedosamente o corpo e a alma, era o suficiente para frear o desejo de reparar todo o mal que a sua ausência causou nos últimos seis anos. O tempo agora lhe urgia como uma fera faminta a devorar tudo a sua volta, e no momento ele era seu principal obstáculo.

Por conta disso, seu primeiro passo logo depois de acordar foi enviar um mensageiro até o Décimo Terceiro Templo ordenando a Gigars que descesse até seu encontro com um resumo dos relatórios dos últimos anos que apontasse em particular as mudanças mais drásticas arquitetadas por sua face maligna voltadas diretamente o Santuário e suas dinâmicas, como a triagem dos aspirantes e o treinamento dos aprendizes.

Quando Gigars chegou ali, ambos seguiram juntos até a Arena de treinamento. Parecia, enfim, que os deuses resolveram lhe dar uma mãozinha, já que depois de repetidos dias chuvosos as nuvens cinzas, que remontavam as tempestades primaveris, saíram de cena para dar lugar ao sol, o qual trazido por Apolo agora iluminava toda a área de treinamento, proporcionando, assim, uma visão ampla, porém nada agradável, ao Patriarca.

Da tribuna localizada no alto, recostado em uma dezena de almofadas de veludo carmim dispostas em um divã, acompanhado de suas dores e temores Saga agora folheava relatórios específicos que levantavam as estatísticas dos últimos anos correspondentes às baixas de aprendizes em fase de treinamento, e nem mesmo a máscara azul anil que cobria-lhe o rosto machucado podia disfarçar sua perplexidade diante dos números altíssimos.

— Pelos deuses... — ele murmurou incrédulo perante as atrocidades cometidas em sua "ausência", as quais estavam, uma a uma, descritas naquelas folhas.

Nem fora preciso terminar de ler os seis balanços anuais disponíveis para se dar conta das mudanças nocivas nesse setor do Santuário.

Seis longos anos de vidas sendo perdidas em vão por conta de um capricho megalomaníaco, perverso e sádico de seu outro "eu".

Saga sentiu o estômago embrulhar. Dispensou a refeição do meio do dia que uma das inúmeras servas veio lhe oferecer, e diante da negativa esta então chamou outra garota que prontamente se ajoelhou a seus pés com um generoso jarro de prata nas mãos.

— Gostaria de uma taça de seu vinho, Patriarca? — ela perguntou solícita.

A simples menção da bebida fez Saga tirar a atenção dos papéis em suas mãos para olhar aflito para o jarro, no qual viu sua imagem refletida. O odor do vinho o fazia salivar, mas de repente os trajes da jovem serva, ou a quase ausência deles, o deixou desconcertado e o fez voltar os olhos para os números no papel.

— Não. Não quero, obrigado. — disse um tanto confuso, com a voz saindo abafada pela máscara.

— Posso lhe servir algo? — ela insistiu fitando o chão de carpete vermelho, evitando olhar em seu rosto mascarado.

— Chá gelado... Com um canudo... por favor — disse ele, e olhando de soslaio viu quando a moça se levantou para providenciar o pedido. Ela tinha os seios nus, e um fino tecido de seda transparente lhe cobria apenas os quadris e parte das pernas finas.

Assim que ela deixou a tribuna, Saga sinalizou para que Gigars se aproximasse.

— Por que essa garota está... — não sabia como se referir aos trajes da serva — Está vestida desse jeito?

— Desse jeito, como, meu senhor? — disse ao se abaixar com dificuldade se apoiando em seu cajado.

— Ora, homem. Essa menina está praticamente pelada! — disse exasperado, fazendo as outras servas, que tinham um pouco mais de tecido enrolado pelo corpo, o olharem de soslaio.

— Meu senhor, os trajes usados pelas servas que o servem diretamente foram ordens suas. — disse Gigars — Que inclusive também exigiu que fossem todas bem jovens e belas. Eu pessoalmente as selecionei e supervisionei seu treinamento, mas se não estiverem do seu agrado posso dispensa-las e mandar providenciar outras mais para a nobre tarefa de servi-lo.

Saga ouviu a tudo perplexo.

Os absurdos cometidos pelo Outro pareciam brotar dos cantos mais inesperados.

A única certeza que tinha de fato era de que estava muito mais em maus lençóis do que sequer conseguia imaginar.

— Não! — ele disse nervoso, prontamente e de forma eloquente — Não preciso de mais servas, pelos deuses! Só providencie a elas trajes com mais pano. Isso já está bom demais... Depois faça um levantamento das servas que foram dispensadas e envie para mim com os devidos motivos, para que sejam ressarcidas de alguma forma.

Dando por encerrada aquela conversa, Saga voltou novamente sua atenção para o relatório que tinha em mãos, e que agora pontuava a morte de um jovem em consequência de nítidos traços de tortura, porém sob a alegação do ônus do treinamento. Nem mesmo o chá gelado que lhe fora servido, o qual ele bebia pelo canudinho enfiado por debaixo da máscara, deu conta de apaziguar o azedume que lhe subia pela garganta.

Era ojeriza o que sentia.

Ojeriza do Outro, e também um tanto de si mesmo, por ter permitido todas essas atrocidades por anos que possivelmente se arrastaram lentos para quem vivia naquele reinado de terror.

Mergulhado nesse mar de culpa, de repente Saga teve sua atenção roubada por um grito que veio de fora da tribuna, lá da arena, e que de tão forte e autoritário alcançou seus tímpanos. Era uma voz grave em tom de ameaça. Imediatamente o Patriarca levantou a cabeça e esticou o olhar para o lado de fora, então conseguiu identificar o interlocutor. Por um momento o ficou observando, analítico e calado, enquanto este treinava dois jovens aprendizes que de tão assustados perdiam facilmente o foco e por vezes caíam ou erravam golpes banais.

Saga então soube por onde começar a consertar as coisas.

Se seus planos consistiam em modificar as estruturas da formação de base de seus cavaleiros, toda alterada pelo Outro, aquela era a hora de deixar de lado os relatórios e agir.

Tentando se levantar com certa dificuldade o geminiano seguiu manco para a escadaria que dava para a saída da tribuna, sem falar com ninguém. Iria descer até a arena mesmo que para isso precisasse se escorar nas paredes com uma das mãos, já que com a outra comprimia as costelas trincadas e doloridas, mas qual não foi a sua surpresa — mais uma dentre tantas naquele dia — quando ouviu Gigars bater palmas e imediatamente em seguida quatro servos aparecerem no fim da escadaria carregando uma liteira*!

Saga olhou espantado e um tanto irritado para a cena. Pensou em perguntar o porquê de ter uma maldita e ridícula liteira ali, mas já tendo conhecimento de algumas das peculiaridades espalhafatosas do Outro guardou o questionamento para si. Engoliu seu embaraço e apenas aceitou a carona.

Logo a comitiva adentrou a arena e obviamente não passou despercebida. Os olhares curiosos de todos acompanharam a alegoria até que ela estacionou em frente a um trio de cavaleiros que treinava fazendo muito barulho.

Ao desembarcar da liteira, o Grande Mestre foi recepcionado por uma mesura do treinador, Algol de Perseu, e também de seus dois aprendizes.

— Patriarca! — disse o cavaleiro de Prata — É uma honra sua presença em nossa Arena.

Saga tinha o rosto voltado para ele, mas era para os dois aspirantes maltrapilhos que ele olhava. O odor do sangue que exalava forte dos muitos ferimentos nos corpos visivelmente exaustos deles, misturado à areia e ao suor era tão desalentador quanto seus olhares vazios de esperança; como de moribundos que aguardam pela morte.

Quantos não devem ter passado por isso? Perguntou-se Saga em seu íntimo, ainda que de forma retórica, pois que ele sabia o número exato deles. Estavam nas estatísticas dos relatórios que lera.

Um pouco mais de si morreu ali, naquela arena, junto do futuro vazio daqueles dois aprendizes à sua frente.

A vida de um aspirante a cavaleiro era sim, regada a rotinas de treinamentos exaustivos, disciplina e sacrifícios, mas jamais de tirania e abusos.

— No que, exatamente, consiste o treinamento que está ministrando a esses dois aprendizes, Algol de Perseu? — Saga perguntou em tom firme e severo, diretamente ao cavaleiro de Prata.

— Grande Mestre, após esse aquecimento eles...

— Aquecimento? — Saga o interrompeu elevando o tom de voz — Apenas no aquecimento eles já conseguiram todas essas escoriações?

Algol deu de ombros, um tanto encabulado.

— Isso porque são dois imprestáveis, meu senhor — disse encarando os dois jovens com severidade — Ordenei agora a eles que duelassem para ver se eles acordam e se dão conta de uma vez por todas de que não estão aqui para brincadeira, nem para moleza. Não temos espaço para fracos! Só treinarei aquele que vencer, que for perseverante! — concluiu com uma risada cínica de escárnio.

Com os olhos por detrás da máscara pregados aos do cavaleiro de Prata, Saga sentiu o sangue ferver e seu rosto inchado queimar. Cada hematoma em seu corpo pulsava doído, enquanto penalizado ele observava os dois aprendizes pensando no quão grande eram suas resiliências e coragem.

— Essa é a lição que você está dando a eles como mestre, Algol? — disse Saga — A lei do mais forte?

— Exato, meu senhor! — Perseu respondeu orgulhoso, inflando o peito.

Saga ponderou por um breve instante.

— Certo... Esse é de fato um método bem... didático, não é mesmo? Uma lição que não dê margem para questionamentos — disse Saga, agora correndo os olhos pela arena, observando quem eram os outros cavaleiros que treinavam ali naquele momento.

Sorriu por baixo da máscara ao avistar exatamente quem queria ver ali.

— Sim, meu senhor — respondeu Perseu.

— É bom que pense assim, dessa forma não irá questionar a lição que eu, como Grande Mestre, me vejo na obrigação de dar a você e aos seus aprendizes — disse Saga pousando a mão enluvada sobre o ombro de Algol, que olhou para ele curioso.

Então, sem que o cavaleiro de Prata esperasse, o Patriarca fez um sinal para um cavaleiro de Ouro que treinava mais adiante com outros dois cavaleiros e alguns dos aprendizes novatos, completamente alheio ao que se sucedia ali.

— Máscara da Morte será o seu adversário — disse Saga a Perseu, que arregalou os olhos e abriu a boca em espanto.

— O QUÊ? — indagou atônito o cavaleiro de Prata.

Toda a arena se calou para acompanhar os passos do Cavaleiro de Câncer no trajeto até o Patriarca e sua comitiva.

Bongiorno! Já na ativa, Grande Mestre? — disse Máscara da Morte com um risinho sarcástico, enquanto entediado ajeitava as bandagens em seus pulsos e antebraços — Acordou bem disposto hoje! Não achei que fosse ver a sua cara tão cedo por aqui depois de...

— Literalmente você não está vendo a minha cara, não é mesmo, Câncer? — Saga o interrompeu, referindo-se à máscara — Eu o chamei porque, como está vendo pela demarcação no solo, temos um duelo de vida e morte prestes a acontecer aqui.

Máscara da Morte olhou sem muito entender para os dois aprendizes dentro do círculo demarcado na areia, que tinham os rostos lívidos, porém não mais que o do próprio cavaleiro de Prata.

— E esse duelo é entre você e o cavaleiro Algol de Perseu — completou Saga, para espanto, num primeiro instante, e depois o deleite de Câncer.

MA CHE! — Máscara da Morte encarou o cavaleiro de Prata e abriu um sorriso largo e assustador — Que bela notícia!

— Perseu, eu ordeno que lute com Máscara da Morte de Câncer num combate que só terminará quando um dos dois morrer, ficar sem Cosmo ou perder os sentidos — disse Saga.

— Mas... meu Patriarca! — exclamou Perseu com voz nitidamente trêmula e semblante transtornado. Atrás dele seus aprendizes trocavam olhares assustados e confusos — Um cavaleiro de Prata contra um cavaleiro de Ouro?

— Sim. Algum problema? — perguntou Saga.

Houve um silêncio repentino. Câncer encarava Perseu dos pés à cabeça, que só de estar sob sua mira já sentia-se aterrorizado, haja visto que sua morte pelas mãos do outro era certa.

— Sim! Claro que há problema. Esse não é um combate justo, meu senhor — disse Algol.

— Eu sei. Máscara da Morte também sabe, assim como todos aqui sabem, incluso os seus dois alunos, Perseu. Mas, você vai nos dar uma aula prática sobre não estar de brincadeira, não fazer corpo mole e sobretudo, como ter perseverança! — deu um tapinha no ombro do cavaleiro — Boa sorte!

Máscara da Morte estalou a língua no céu da boca, sorriu satisfeito e mandou um beijo para Perseu, que só não parecia um fantasma de tão pálido porque a humilhação lhe corava as maçãs do rosto.

— Já até sei aonde vou pendurar essa tua cabeça cabeluda — provocou o canceriano com satisfação, entrando no círculo demarcado no chão onde já estava Algol em visível desespero — No mio banheiro. Quero cagar olhando para ela.

Saga abafou uma gargalhada ao ouvir aquilo, já se afastando deles quando sentiu Câncer acender e elevar seu Cosmo a um nível impressionante, deixando clara a diferença que existia entre os dois combatentes.

Que fim inglório. Pensou o cavaleiro de Perseu, humilhando diante de seus aprendizes e de toda a arena, e sem poder declinar da ordem também acendeu seu Cosmo e encarou a morte certa; esta que tinha um sorriso macabro de presas pontiagudas e olhos sedentos por sangue e violência.

Todos ao redor dos dois gladiadores aguardavam ansiosos e apreensivos o início, que também seria o desfecho, daquele combate, incluso Hyoga, que assim que sentiu os Cosmos dos cavaleiros se elevarem pediu permissão ao pai, que havia acabado de chegar ali, e mergulhou na rodinha de curiosos para ver o embate de perto.

Demorou alguns instantes para Saga identificar o jovenzinho alto de cabelos loiríssimos e Cosmo gelado ali no meio dos outros, mas quando o reconheceu sentiu seu peito apertar como se houvesse levado mais um golpe, só que agora da vida.

— Hyoga! — o geminiano murmurou estremecido, espantado em vê-lo tão crescido, já praticamente um rapaz. Ainda o tinha na lembrança como um garotinho serelepe vestido em uma fantasia de Batman a correr alegre enquanto se comunicava por um grego embolado com forte sotaque russo.

Foi como ter todo o longo tempo de sua ausência esfregado na cara.

Novamente uma sensação terrível acometeu o corpo e a alma do Cavaleiro de Gêmeos, fazendo seu coração bater forte e uma melancolia torturante lhe sufocar. O Cosmo de Hyoga já estava quase no ponto de conseguir uma armadura. Foi impossível não pensar que seus filhos, se estivessem vivos, hoje também seriam meninos fortes e cheios de vida assim como o loirinho, e também estariam treinando para se tornarem cavaleiros.

Saga respirou fundo procurando afogar a melancolia, esquecer o passado e focar no presente.

Precisava correr atrás dos prejuízos que causara, especialmente agora, quando finalmente, após mais de dez anos, desde o incidente com Afrodite e Aiolos no Cabo Sunion, sentia-se livre e dono absoluto de suas vontades. O Outro estava calado. Sua voz pérfida, cheia de ódio e malícia se calara. Por quanto tempo permaneceria livre ele não sabia. Que os deuses tivessem piedade de si lhe agraciassem com a benção de poder ser para sempre, mas ele sabia que não podia contar apenas com a benevolência e compaixão divina. Ele sabia que teria que lutar ainda, muito, para assegurar que sua liberdade jamais lhe fosse tomada novamente, e só aquela sensação indescritível de enfim poder ser ele mesmo, pensar e agir sem nenhuma influência do Outro, já lhe fazia querer agarrar-se a esse intento e nunca mais solta-lo.

Felizmente Saga voltou a tempo de ouvir a voz grave de Máscara da Morte selando o destino de Algol de Perseu.

— ONDAS DO INFERNO!

Câncer estava prestes a arrancar a alma de Perseu de seu corpo ainda vivo e fisicamente pleno.

— Já basta, Máscara da Morte! — disse Saga esticando o braço e apontando o polegar da mão direita para cima.

Ma che! Io nem comecei! — disse Câncer indignado, bem ao seu modo italiano, com as mãos suspensas no ar em forma de coxinhas bem fartas de recheio.

— E nem será preciso que termine — disse Saga aproximando-se deles. Perseu caiu de joelhos no chão e agora lhe fazia uma reverência cheia de eloquência, com ambas as mãos espalmadas na areia — O intento aqui não é a batalha, tampouco a execução, mas a lição. A lição de que toda vida é importante, desde o ser humano mais fraco até o mais forte. Toda vida importa... É por isso que nossa deusa Atena reencarna de tempos em tempos na Terra, e nós temos o dever e o comprometimento de seguir sua justiça. Por Atena vivemos e morremos. À Atena entregamos nossas vidas. Serviremos à sua causa e abraçaremos sua justiça quando formos solicitados, em defesa da humanidade e da Terra. Por isso, Algol de Perseu, a sua vida tem o mesmo valor que a de seus discípulos. Preze por elas e estará prezando pela sua. Haja como um tirano sem escrúpulos, e será exonerado de nossa Ordem — disse soberano, enquanto todas as atenções estavam vidradas em sua figura, especialmente a dos cavaleiros de Ouro e de Prata que estavam ali presentes, pois que, para estes, as palavras de Saga, além de chocarem, lhe soavam demasiadamente hipócritas, tendo sido ele mesmo um tirano por diversos anos, em menor ou maior grau.

— A partir de hoje, todo e qualquer abuso cometido por parte dos treinadores será punido com exoneração. — continuou Gêmeos — Não será mais admitido, sob hipótese alguma, condutas abusivas que levem à morte dos aprendizes a cavaleiros e amazonas. Os aspirantes que não mostrarem aptidão para prosseguir com o treinamento devem ser afastados imediatamente antes que suas vidas sejam ceivadas inutilmente.

Um murmurinho se ergueu entre os presentes, e então Saga elevou seu tom de voz:

— Sei que parece estranha essa mudança sobre ordens que eu mesmo promulguei anos atrás, mas os tempos agora são outros, eu sou outro. Isso é tudo que precisam saber. Estou, a partir de hoje, desativando algumas das zonas de treinamento consideradas de alta periculosidade, além de algumas práticas desnecessariamente arriscadas. Uma lista com as zonas e métodos erradicados e proibidos será enviada a cada um dos treinadores no início dessa noite. A partir de hoje, todo mestre será responsável diretamente por acidentes, fatais ou não, que porventura acometam seus alunos, com penas passíveis de reclusão no Cabo Sunion de acordo com sua gravidade — se voltou para o cavaleiro de Prata e disse em tom mais baixo do que o que discursava: — Você entendeu, Perseu?

— Sim, Grande Mestre — disse Algol ainda que chocado com o discurso que acabara de presenciar, assim como todos os outros presentes.

— E mais uma coisa, Algol. Eu não permito que transforme aspirantes ou fugitivos em estátuas de pedra, tampouco que os exponha para causar medo e terror... Eu ordeno que você dê um enterro digno a cada um dos que enfeitam, de forma lastimável, as fronteiras do nosso sagrado Santuário.

— Sim, meu senhor.

— Está dispensado por hoje para cumprir essa ordem. Seus aprendizes também estão. Os encaminhe à enfermaria imediatamente — finalizou Saga.

Caminhando com certa dificuldade, Gêmeos voltou para a liteira que o trouxera até ali. No curto percurso, por baixo da máscara azul ele olhou diretamente para Camus, que lhe devolvia um olhar frio, rude e ao mesmo tempo espantado. Cogitou chama-lo para conversar, mas o modo nada amistoso com que o francês lhe dirigia o olhar, somado à fisionomia que denotava certa raiva, o fez mudar de ideia e deixar o local. Deixaria os ânimos de todos se apaziguarem para depois tentar uma reaproximação, isso era de fato o mais certo a se fazer.

Camus por sua vez, como Máscara da Morte, Aiolia e quem mais estivesse ali, não havia entendido nada. Aquele discurso vindo de Saga em nada se parecia com ele ou com suas atitudes desde a morte do antigo Grande Mestre, Shion de Áries. Logo ele, Saga? O homem que abriu um bordel e obrigou cavaleiros e amazonas a se prostituirem em prol da sobrevivência do Santuário? Que enganou dezenas de pessoas, sobretudo uma máfia poderosa como a Vory v Zakone, apenas para salvar uma amazona e livrar-se do irmão gêmeo golpista e insano? Um homem capaz de todo tipo de atrocidades, sem nenhum respeito pela vida, fazendo agora um discurso sobre a importância de se preservar toda e qualquer vida na Terra? Mas que grande besteira! A quem ele queria enganar?

Camus bufou incrédulo e enfurecido. Não bastasse a discussão com Afrodite pela manhã, agora isso. Sentia ganas em desmascara-lo ali, na frente de todos, quando de repente sentiu Hyoga se aproximar e colocar-se a seu lado agitado. O filho o enchia de perguntas, pois que não era nada ingênuo e sabia que a mudança repentina do Grande Mestre estava ligada à confusão nas escadarias do Templo de Virgem durante aquela madrugada.

O que ninguém sabia era que Saga agora não sofria qualquer influência por parte de seu lado maligno, e que pela primeira vez em anos suas decisões e atitudes eram tomadas segundo seu verdadeiro julgamento.

Ao lado deles, Máscara da Morte, parado no centro do círculo desenhado na areia, enquanto todos retomavam suas atividades aos burburinhos, ficou um tempo acompanhando com os olhos Saga ser carregado de volta para a tribuna.

Ma che está dispensado, Máscara da Morte, obrigado, obrigado, de nada, ai, ai, ui, ui... — resmungava fazendo uma vozinha fina, remedando o geminiano — Figlio dun cane. Io só lavoro, lavoro... nunca tenho uma recompensa. Vaffancullo! E que merda de discurso hipócrita foi esse? Depois de anos ele voltou a ser o molenga que era quando era pivete?

— Eu me lembro muito pouco do Saga da época que éramos crianças e adolescentes — disse Aiolia chegando ali — Eu e Camus fomos treinados pelo meu irmão, mas... essa é a primeira vez em anos que parece que estou ouvindo o Saga de verdade... o cara por quem Aiolos sempre teve admiração e respeito, justamente por prezar pela justiça e igualdade entre todos.

Camus revisou os olhos, sem nenhuma paciência para aquele papo.

— Venha, Hyoga. Vamos continuar seu treinamento — disse já saindo dali, deixando os dois a sós, que acostumados com a postura nada simpática do aquariano nem se deram conta de sua irritação.

Máscara da Morte respirou fundo, visivelmente chateado.

— Perdi una bellissima cabeçorra cabeluda para minha coleção. Olhar para cara do Algol ia me ajudar com minha constipação... A vida é justa com todos, menos comigo — reclamou irritadogesticulando, enquanto batia as mãos no cós da calça de treino em busca de um cigarro para lhe acalmar os nervos.

— Ao menos ele tomou uma decisão sensata. Parece que Saga está mesmo afim de consertar as merdas que fez — disse o leonino.

Máscara da Morte deu de ombros.

— Ele que se foda... Você pita? — ofereceu a Aiolia um cigarro do maço que tinha na mão.

— Não, obrigado. Mas se quiser treinar eu aceito um parceiro.

— Agora tem regras novas. Você ouviu né? Não vale dedo no olho, chute no saco e nem mordida — brincou tragando o cigarro — Ou seja, vamos dançar balé que me parece bem mais interessante!

Aiolia riu e juntos foram concluir os treinamentos físicos do dia.

Uma nova era tinha início no Santuário, mas por quanto tempo ela duraria?

Major League Baseball - é o nível mais alto de jogo em beisebol profissional nos Estados Unidos da América.

Liteira - cadeira portátil usada como meio de transporte, coberta e fechada, sustentada por duas varas compridas que são levadas por dois homens ou dois animais de carga, um à frente e outro atrás.

Dicionário Afroditesco

Babadeira – nervoso; cheio de coisas, de questões

Badalhoca - pedaços mais ou menos pequenos de fezes que ressecam e ficam presos você sabe onde, ou seja, algo terrível de se presenciar

Chafure - coisa ou pessoa ruim, burra (charufinácia: coletivo de charuf)

Chochar - falar mal de alguém ou de algo

Equê - problema

Jogar o picumã - menosprezar ou ignorar alguém

Louco do edi – nervoso, descompensado