Capítulo Vinte e Cinco

Winky The House Elf

(Winky, a Elfo Doméstico)

— Harry! — Hermione, Ron e Draco olharam para ele, sentados nos sofás do Salão Comunal, mas Harry só tinha olhos para Hermione. — Você está...?

— Preciso de um favor — falou Harry, dispensando as perguntas de Ron e ignorando o olhar de Draco. — Seu Vira-Tempo, quanto ele pode voltar?

— O quê? — perguntou Hermione, erguendo a mão para brincar com a corrente. — Harry...

— Wormtail estava lá — falou Harry.

— Honestamente — disse Draco —, eu deixo vocês sozinhos por uma manhã...

— Mas sério — falou Ron —, o que aconteceu? Todo mundo está dizendo que o Sirius atacou a Cho, e nós dois estávamos lá quando a rua explodiu...

— Não foi o Padfoot — respondeu Harry —, foi o Wormtail disfarçado, e ele não atacou ninguém na casa de chá... — Ele contou rapidamente o que tinha acontecido com Wormtail na casa de chá e depois no beco, e sua discussão com Padfoot.

— Bem — falou Ron quando Harry terminou e olhou para Hermione —, tá explicado por que o cachorro do Sirius parecia tão bravo quando tava falando com a McGonagall.

— Mas ele está absolutamente certo — disse Hermione, soando extremamente exasperada. — No que você estava pensando ao ir atrás de alguém como Wormtail sem sua varinha...?

— Não estava pensando — falou Harry, interrompendo Draco, que claramente ia dizer o mesmo. — Bem, pelo menos não nisso, eu só não queria deixar que ele fugisse, mas ele fugiu e é por isso que preciso de você, Hermione.

— Não gosto de onde está indo com isso, Harry — falou ela, franzindo o cenho.

— Olha, Padfoot disse que não podemos mudar o que aconteceu hoje, e ele não pode, mas nós podemos...

— Não — disse Hermione, balançando a cabeça. — Não, absolutamente não, Harry, sinto muito...

— Não? — Harry a olhou.

— Hermione, se ele voltasse, ele poderia capturá-lo — falou Ron, olhando-a.

— Mas ele não voltou — disse Hermione. — Ou Wormtail já teria sido pego.

— Porque você disse não — lembrou Harry. — Se falar sim...

— A resposta é não, Harry, desculpe. — Harry a olhou, traído.

— Mas e se ele voltou e fez algo para ajudar a si mesmo e a Black? — perguntou Draco, pensativo. — Wormtail escapou do mesmo jeito, mas talvez Black e Potter estejam melhores...

— É — falou Harry, aproveitando-se dessa ideia —, e se...

— Não — repetiu Hermione com firmeza. — Não há nenhum "e se", porque eu não diria sim, não para isso.

— Não para...? — repetiu Harry. — Hermione, foi esse homem que traiu meus pais ao entregá-los a Voldemort e arruinou a vida do Padfoot! Ele te machucou...

— E isso é horrível, Harry — falou Hermione, paciente. — Eu nunca disse o contrário, mas essas coisas aconteceram há tempo demais para serem mudadas...

— Mas hoje não — falou Harry, tentando fazê-la entender. — Nós podemos mudar...

— Você não pode simplesmente voltar e mudar o passado sempre que algo ruim acontecer, Harry — falou Hermione, começando a parecer frustrada. Harry também se sentia incrivelmente frustrado com ela. — E sim, Wormtail fugiu hoje, mas poderia ter sido muito pior. E se você voltar, mudar as coisas e alguém se machucar ou morrer por que ele entrou em pânico e saiu atacando?!

— Isso não aconteceria — falou Harry. Era bem a cara de Wormtail sair atacando, mas Harry não ia encurralá-lo em um lugar onde outros estivessem em perigo. — Eu iria chamar o Padfoot e nós o pegaríamos assim que ele saísse da Puddifoot...

— Aí você seria visto — falou Hermione. — Você não pode ser visto...

— Então iríamos embora assim que o pegássemos — falou Harry. Ron e Draco estavam quietos.

— E se você cometer um erro? E se ele fugir, e se o Sirius demorar um segundo a mais para chegar ao seu eu do passado naquele beco?

— Isso não aconteceria — repetiu Harry, frustrado.

— Você não sabe! — exclamou Hermione. — E eu também não sei, e é por isso que você não pode voltar!

— Sabe o que eu sei? — perguntou Harry. — Cada segundo que Wormtail está livre, o mais provável é que alguém se machuque ou seja morto, e se você não quer me ajudar agora, é como se estivesse ajudando ele!

A mágoa apareceu no rosto de Hermione, mas logo foi substituída por raiva quando ela levantou num pulo.

— Eu estou ajudando você — brigou ela. — Você pode estar disposto a se arriscar, Harry, mas eu não estou, e se Sirius estivesse aqui, acho que ele diria a mesma coisa!

Furioso, Harry abriu a boca para responder, mas Hermione já tinha lhe dado as costas e subia as escadas do dormitório feminino.

— Bem, você lidou muito bem com a situação, Potter, parabéns — suspirou Draco, afundando-se no sofá.

— Acho que você concorda com ela — resmungou Harry.

— Acho que vocês dois têm bons argumentos — falou Draco, franzindo o cenho. — Mas, no fim, o Vira-Tempo é dela e é ela que decide quem pode usá-lo.

— Não estava falando sério quando disse que era como se ela estivesse o ajudando, né? — perguntou Ron. Ele parecia um pouco chocado.

— Mais ou menos — respondeu Harry e bufou, levantando-se. — Não de verdade. — Correu uma mão pelo cabelo, agitado. — Eu vou para a cozinha. — Não tinha almoçado antes de Wormtail interromper, e o café da manhã tinha sido horas antes, então estava morrendo de fome.

— Vou junto — falou Draco, levantando-se. — Faz tempo que não vejo o Dobby e quero ver se ele conhece as habilidades mentais do meu pai. Weasley?

Ron olhou para as escadas das garotas, mas Hermione tinha mesmo subido — Harry se sentiu um pouco culpado, mas só um pouco, porque ainda estava bravo com ela — e deu de ombros.

Vários alunos caminhavam pelos corredores, especulando sobre a explosão em Hogsmeade, mas ou eles não viram Harry ou ainda não sabiam de sua participação, então conseguiram ir à cozinha sem maiores problemas.

Harry fez cócegas na pera e os três entraram. Várias cabeças se viraram para eles na mesma hora, as orelhas abanando. E aí:

— Mestre Draco, Harry Potter e mestre Wheezy!

Dobby avançou, sorrindo, e curvou-se antes de abraçar Draco e Harry e, entusiasmado, apertar a mão que Ron lhe ofereceu. Ele ainda vestia a blusa de seda do pijama enfeitada com um "DM" com que Draco o libertara, e Harry tinha visto a gravata de um tom elétrico de azul e o calção de futebol na sua última visita, mas a meia violentamente laranja, acompanhada de uma meia da Grifinória, era nova, assim como a touca que mais parecia um abafador de chá.

— Caramba — murmurou Ron, baixo demais para que alguém além de Harry o ouvisse. Ele sorria.

— Dobby — disse Draco, sorrindo. — Tem um momento para conversar?

— Ah, sim, mestre Draco — respondeu Dobby, assentindo animadamente. — Dobby sempre tem tempo para falar com o mestre Draco, e Harry Potter, e mestre Wheezy! — Ele fez um gesto e os levou até um canto mais calmo da cozinha, os outros elfos curvando-se quando eles passavam, como faziam sempre que visitavam. Draco nem pareceu notar, mas Harry não estava acostumado com isso (Monstro não era um elfo doméstico convencional), e Ron parecia um pouco desconfortável. — Os mestres querem uma xícara de chá?

— Seria ótimo — respondeu Harry. Três elfos se aproximaram com uma bandeja de chá na mesma hora. — E algo para comer, se não for incomodar? — Mais elfos se aproximaram, oferecendo sanduíches a Harry, enquanto Dobby servia o chá. — Ótimo — falou Harry. — Obrigado.

Deleitados, os elfos se curvaram e se afastaram, mas ficaram observando de seus lugares, certamente querendo estar prontos se Harry ou os outros quisesse mais alguma coisa. Era um pouco incômodo.

Ele e Ron comeram e conversaram enquanto Draco questionava Dobby sobre Lucius Malfoy. Ron queria saber o que tinha acontecido antes de Wormtail interromper o encontro de Harry e Cho.

— Posso imaginar o resto — falou Ron, dando um tapinha em seu braço, compreensível. — Nós, Hermione e eu, vimos quando ela chorou em Hogsmeade. — Ele sorriu, mas foi mais uma careta. — Mas... digo, você devolveu a varinha dela... — Sim, tinha mesmo, e ela ficara impressionada e agradecida. Harry sentiu seu rosto corar. Ele tinha se esquecido disso durante sua discussão com Hermione. — Então, talvez quando ela se acalmar, ela não te odeie... — Ron recostou-se em sua cadeira abruptamente. — O quê?

— Acho que ela não me odeia — murmurou Harry, ainda incapaz de acreditar na sua sorte. E não conseguia decidir se queria contar a Ron ou guardar para si. Quisera contar a Padfoot, mas ele estivera com Robards e, depois, o mandara embora com os outros Aurores. Harry ainda não sabia se estava aliviado ou desapontado por causa disso. — Ela... er... nós...

— Vocês o quê? — perguntou Ron, parecendo curioso.

O rosto de Harry esquentou ainda mais. Beijar garotas já tinha sido o assunto das conversas do dormitório várias vezes — desde que Seamus beijara Lavender na última visita a Hogsmeade —, mas tinha sido mais para provocar Seamus e, depois, imaginar como seria. Era um pouco diferente agora que tinha acontecido com ele.

— Nós... er...

— Eles se beijaram — falou Draco, olhando-os por um momento. Ron ergueu as sobrancelhas. — Não foi? — Harry assentiu, envergonhado.

— Ah! — falou Ron, triunfante, antes de começar a rir. Vários elfos o olharam com cautela, e Harry se pegou sorrindo.

Draco revirou os olhos e se virou para Dobby, dizendo:

— Mas tem certeza...?

— E aí? — perguntou Ron quando se recompôs. — Como foi?

— Foi... sei lá, bom? Gostoso? — E tinha sido. Harry queria poder beijá-la novamente.

— Bom? — zombou Ron. E aí deu um sorriso dissimulado. — Não foi brilhante ou malditamente ótimo? — Harry também riu; era o que Seamus tinha dito sobre Lavender.

— Cala a boca — murmurou, mas Ron continuou sorrindo.

— Winky! — exclamou Dobby de repente, e Harry viu uma elfo minúscula cambalear ao se virar para eles. Ela usava o pano de prato de Hogwarts como se fosse uma toga e carregava uma garrafa de cerveja amanteigada em cada mão (uma das quais estava vazia), mas certamente era a mesma elfo do Cabeça de Javali. Mas o que isso significava? Sequer significava alguma coisa? Talvez os elfos tivessem que ajudar em Hogsmeade nos dias que os alunos iam...? — Mestre Draco, essa é a boa amiga de Dobby, Winky. Winky, esse é o mestre de Dobby, Draco. — A elfo se curvou, vacilante. — E os amigos do mestre Draco, Harry Potter e mestre Wheezy...

Mas Harry duvidava que Winky sequer ouvira Ron ser apresentado, porque ela começara a urrar assim que ouviu o nome de Harry, recuando alguns passos, ainda cambaleante. O cheiro dos elfos domésticos era diferente dos humanos e era difícil lê-los, mas ele tinha praticado um pouco com Monstro e achava ter sentido pânico e um pouco de medo no cheiro dela.

Ela era naturalmente muito tensa — fora a impressão que ela dera no pub — ou havia mais nisso? Monstro sempre tinha sido um pouco turrão, e Dobby era sempre ridiculamente alegre, mas a maioria dos elfos domésticos que conhecia era amigável — ocasionalmente tímida — e educada. Ele nunca vira um elfo temê-lo antes e... Sim, ela tinha medo dele. Ela não tirara os olhos dele desde que Dobby mencionara seu nome...

— Por que não vem se sentar com a gente, Winky? — convidou Harry rapidamente. Draco e Ron o olhavam de um jeito estranho. — Os amigos do Dobby são nossos amigos.

— É — falou Ron lentamente. Winky parecia querer se esconder atrás de sua garrafa de cerveja amanteigada e olhou para a porta várias vezes.

— Sim, sente — falou Draco. Ele tinha usado o tom dos Malfoy, mas parecia ter funcionado, porque Winky encolheu os ombros, arrastando os pés ao ir se sentar no banco.

— Faz tempo que trabalha aqui, Winky? — perguntou Harry. Winky começou a chorar. Ron parecia perplexo. Draco parecia desconcertado.

— Winky veio pra Hogwarts antes do Dobby, Harry Potter — falou Dobby, ansioso. — Winky procurou trabalho — Winky olhou tristemente para a garrafa em suas mãos —, como Dobby, e o professor Dumbledore deu trabalho pra ela.

— Então faz alguns meses? — perguntou Harry, e Dobby assentiu, as orelhas balançando.

— Winky sente falta de seu antigo mestre — falou Dobby, esticando uma mão para dar um tapinha no joelho do outro elfo.

— Seu mestre? — perguntou Harry, aproveitando a oportunidade. Era paranoia, tinha certeza, mas havia algo nisso tudo... — Então ela...

— P-pobre mestre! — guinchou Winky, puxando as orelhas. — O pobre mestre de Winky! — Ela se jogou no chão com um urro que virou soluços altos, batendo os braços e as pernas de um jeito que Harry tinha visto Dudley fazer uma vez.

— O mestre de Winky vai pra prisão, Harry Potter — sussurrou Dobby, observando Winky com olhos tristes. Harry franziu o cenho, mas seu coração disparou e, agora, ele duvidava que a presença de Winky em Hogsmeade tinha sido por acaso. Padfoot não tinha se machucado quando ela derramara a cerveja amanteigada nele, tampouco ela os atacara, mas havia algo a mais ali, tinha certeza.

— Caramba — murmurou Ron, desviando de Winky. — Por quê?

— Dobby não sabe, mestre Wheezy, senhor — respondeu Dobby, nervoso.

— Não é da conta do Dobby — falou Winky, soluçando. — Winky não está se metendo na vida de Dobby e Dobby não devia se meter na vida de Winky e dos seus pobres mestres!

— Mestres? — perguntou Harry. Winky parou de falar na mesma hora e ficou imóvel, mas ela o olhou, furiosa, apesar do rosto vermelho e nariz escorrendo. Era possível que, de algum jeito, Winky estivesse ajudando Wormtail? Se seus mestres fossem Comensais da Morte, talvez eles tivessem colocado Wormtail em contato com ela... Mas não, porque Winky trabalhava aqui agora, então Dumbledore ou outra pessoa era seu mestre... Mas se Wormtail tivesse a encontrado por acaso, Harry imaginava que ele daria informação sobre o mestre ou mestres de Winky em troca de ajuda.

— Winky é uma boa elfo, Winky não vai contar os segredos dos seus mestres, não vai, não! Não para o Dobby, e não para o Harry Potter!

— Winky não vai ser grosseira com Harry Potter! — guinchou Dobby, furioso, erguendo-se num pulo. Draco escondeu uma risada atrás da mão.

— Ah, não — falou Harry rapidamente. — Dobby, não tem problema...

— ... e — continuou Dobby numa voz aguda — Winky tem que se lembrar que o professor Dumbledore é seu mestre agora. Ele...

— Quieto, Dobby — falou Winky, fazendo um gesto para mandá-lo se calar. A outra mão torcia a toga de Hogwarts que ela usava. De repente, ela parecia temerosa, mas Dobby continuou.

— ... é quem dá trabalha a Winky depois de Winky ter sido libertada... — Winky se encolheu, e Harry franziu o cenho. Algo lhe ocorreu, apenas uma desconfiança, mas pela reação de Winky, ele achava ser possível. — E...

— Ah! — falou Harry, olhando para seu relógio num gesto muito óbvio. — Eu esqueci completamente que eu tenho treino de Quadribol!

— Mas é... — Harry acotovelou Ron com muita discrição. — Ah, é, verdade, treino de Quadribol. — Ele fez menção de se levantar, parecendo um pouco confuso.

— Não precisa ir embora por minha causa — falou Harry, e Ron se sentou novamente, confuso. — Draco ainda quer conversar com o Dobby.

— Certo — falou Ron, incerto. Draco apenas assentiu.

— Foi um prazer te conhecer, Winky — falou Harry. — Tchau, Dobby. — E como ia passar sua mensagem sem que Winky entendesse? — Eu... er... fico feliz que tenha uma amiga aqui, Dobby. — Olhou para Ron e, depois, para Draco; felizmente, os dois o olhavam. — Você deve... er... mantê-la por perto. — Os olhos de Ron brilharam com entendimento, graças a Merlin, e Draco era mais difícil de ler, mas seu cheiro não era de confusão. — Guardem um lugar pra mim no jantar.

— É — falou Ron enquanto Harry ia embora. — Ei, Winky, acha que pode me pegar outra xícara de chá...?

Assim que saiu da cozinha, Harry pegou seu espelho.

— Sirius Black — chamou, começando a correr. A superfície do espelho estava escura. — Padfoot? Sirius Black.

-x-

— ... não é o lado positivo. Ele fugiu. — Quando Sirius e Robards tinham ido atrás de Peter, ele já tinha sumido completamente; ele tinha aparatado em uma área minúscula várias vezes para confundir os Peritos em Leitura de Rastros, mas eles tinham conseguido segui-lo até o Caldeirão Furado, de onde usara o Flu para ir ao Ministério. De lá, ele poderia ter usado o Flu novamente, ou ter ido embora a pé, ou ter encontrado com alguém que o esperava, mas fosse lá como ele tivesse escapado, não tinham conseguido encontrá-lo, nem mesmo usando o nariz sensível de Padfoot.

— Aí está. Pelo menos dessa vez você chegou a tempo de fazer alguma coisa — continuou Remus, enchendo a xícara de Sirius.

— Obrigado.

— No passado, você estava morto — os dois fizeram uma careta — ou incapaz de chegar lá antes de acabar.

— Se eu não tivesse chegado lá, hoje tudo teria acabado — falou. — Peter teria Estuporado o Harry e sumido, e Harry já estaria morto. — Engoliu.

— Mas chegou lá — disse Remus. — E fez toda a diferença. Peter fugiu e isso é... — Remus respirou fundo, e havia raiva triste e profunda em seu cheiro. — Uma pena, mas se tivesse tentado pará-lo em vez de... Eu... Sem aquele feitiço escudo, Sirius... — Seu feitiço escudo tinha lhe custado a chance de capturar Peter, mas Sirius não conseguia se arrepender dessa decisão. Ele faria sempre a mesma.

— Esse é seu lado positivo? — perguntou Sirius, rindo sem humor. — Que Harry e eu não explodimos?

— Sim — respondeu Remus, sério. — É claro, Padfoot, você e Harry... Eu já te perdi duas vezes e acho que não consigo lidar uma terceira vez. E Harry... — Balançou a cabeça. Ele parecia tão assombrado, que Sirius não teve coragem de provocá-lo. Não que estivesse no humor para brincadeiras.

Tomaram o chá em um silêncio pesado.

— Eu... Dora e eu estamos pensando em voltar — contou Remus.

— O quê? — perguntou Sirius. — Mas e o seu trabalho...

— Eu amo meu trabalho — falou Remus, olhando com carinho para seu escritório. — E gosto bastante daqui, mas com tudo o que está acontecendo na Inglaterra... E Dora passa metade do tempo dela lá, com todo esse planejamento da Copa Mundial...

— Ainda bem. — Sirius tinha trombado com ela no Ministério e lhe contado o que tinha acontecido; depois de ouvi-lo, ela lhe disse que Remus tinha uma aula vaga e lhe dera a Chave de Portal Internacional que ela usaria para voltar para casa. Culpado, percebeu que não sabia como ela ia voltar, mas precisara conversar com Remus para atualizá-lo sobre a situação de Peter, assim como apenas conversar, e não pensara muito além disso.

— É o que parece. — A boca de Remus tremeu. — Eu... nós nos sentimos muito... desligados aqui. Sentimos falta de você, de Harry e da Marlene, e a Dora sente falta dos pais.

— Bem, você não pode voltar antes do natal — falou Sirius com uma careta. — Você emprestou sua cabana, lembra?

— Como poderia esquecer? — perguntou Remus. — Não que vá demorar muito; o natal é semana que vem, Sirius. — Sirius olhou para o calendário na mesa de Remus, um pouco surpreso. Poderia jurar que ainda faltavam duas semanas. Balançou a cabeça. — Mas não — continuou Remus. — Eu vou terminar o ano escolar aqui, mas depois disso... — Alguém bateu na porta. Remus olhou para Sirius, que fez um gesto. — Entre.

Uma garota loira muito bonita, usando o uniforme de Beauxbatons, passou a cabeça pela porta, mas seu sorriso sumiu quando ela viu Sirius. Ela olhou para Remus, confusa, e disse algo em francês, hesitante. Sirius — que aprendera o idioma na infância, mas não praticara — ouviu o que poderia ser um pedido de desculpa.

Remus disse algo em resposta e a garota sorriu, murmurou uma despedida e foi embora.

— Ela frequentemente vem tomar chá — falou Remus, explicando. Ele sorriu, irônico. — Ela está virando a versão francesa do Matt.

— Quer dizer que ela é um...

— Não um lobisomem, não. — Sirius assumiu que isso significava que ela era alguma outra coisa. Remus tomou um gole de chá. — Um quarto Veela. — Sirius ergueu as sobrancelhas, mas acreditava. — Como pode imaginar, isso causou problemas com seus colegas de sala. — Suspeitava que isso era atestar o óbvio. — A Madame Maxime gosta bastante dela, também.

— Ela cospe fogo? — perguntou Sirius, sorrindo.

— Sirius! — exclamou Remus, horrorizado.

— Só perguntei — falou Sirius, erguendo as mãos. Remus revirou os olhos. Eles tomaram o chá em um silêncio amigável; na maior parte do tempo, Sirius pensou... sobre Harry, sobre a visita que precisava fazer a Snape no futuro próximo, sobre Peter e como ele tinha levado a melhor de novo e sobre como ele, Crouch e Voldemort sempre estavam vários passos à frente... Suspirou; uma dor de cabeça começava a se formar atrás de seus olhos.

— Pensando no Harry? — perguntou Remus. Sirius não sabia se ele queria ser solidário ou se só estava se sentindo divertido.

— Em partes — murmurou. — Ele só... — Parou de falar quando a voz de Harry saiu de seu bolso, antes de franzir o cenho e tomar outro gole de chá. A adrenalina já devia ter se esvaído e Harry certamente se sentia culpado e queria se desculpar novamente. Remus ergueu uma sobrancelha quando Harry voltou a chamar.

— E se for importante? — perguntou quando Sirius tirou o espelho do bolso com uma carranca; a mesma pergunta tinha lhe ocorrido.

— Padfoot! — Harry soara particularmente aliviado e um pouco ofegante, mas não parecia estar machucado ou chateado.

— O que, Harry? — Sirius soara seco para os próprios ouvidos, e os outros dois pareciam concordar; Remus crispou os lábios do outro lado da mesa, e Harry se encolheu. Sirius suspirou, um pedido de desculpas na ponta da língua, mas Harry voltou a falar antes que pudesse se desculpar.

— Eu... desculpe — falou Harry num fio de voz —, eu só... Eu achei que você ia querer saber... aquela elfo doméstico do bar, hoje? O nome dela é Winky e ela trabalha em Hogwarts. — Harry tinha uma expressão esperançosa. Era uma coincidência interessante, mas, a não ser que Sirius estivesse deixando algo passar, não passava disso.

— Está bem — falou Sirius lentamente. Olhou para Remus, que deu de ombros. — E?

— Bem — respondeu Harry, enrugando o nariz —, isso... Eu não tenho certeza. — Ele fez uma careta. Sirius não sabia qual era sua própria expressão. Confusa, ou talvez exasperada. — Mas eu tenho... Eu tenho um pressentimento sobre ela... — Sirius trocou outro olhar com Remus, esse mais duro. — Eu acho que ela está envolvida de algum jeito.

— Envolvida no quê? — perguntou Sirius.

— Wormtail — respondeu Harry. — Talvez.

— Harry — falou Remus, e Sirius virou o espelho em sua direção, para que ele e Harry pudessem se ver. Harry soltou um som surpreso, mas feliz, e Remus sorriu. — Não estou desconsiderando a possibilidade, mas por que uma elfo da escola ajudaria Wormtail?

Sirius conseguia pensar em alguns motivos, a maioria dos quais se resumia a elfo ter sido enganada de alguma forma.

— Esse é o problema — falou Harry lentamente. — O jeito que ela estava agindo... Não tenho certeza de que ela é uma elfo da escola.

— O que quer dizer? — perguntou Sirius duramente.

— Como se ela não tivesse sido libertada antes de ter vindo pra cá — falou Harry, enrugando o rosto. — Como eu disse, eu não sei, é só um pressentimento...

Sirius entendeu as implicações na mesma hora; se Winky não estava em Hogwarts por ter sido libertada, então era provável que ela estivesse cumprindo a ordem de alguém... Mas quem? Apesar de a maioria dos Comensais da Morte terem elfos domésticos, Voldemort nunca tivera um. Peter não crescera com um e, se comprara um, Sirius estava certo de que teria sido mencionado em algum arquivo dos Aurores. Supôs que Polkov era uma possibilidade, ou Crouch...

— Onde Winky está agora? — perguntou Sirius. Sua voz saiu estrangulada. Tinha visto Winky antes, quase um ano antes, em St. Mungos. Quase não falara com ela, apesar de estar na companhia dela várias vezes no decorrer de alguns dias. De fato, tudo o que tinha realmente visto dela tinha sido a parte de trás de sua cabeça, quando ela estivera deitada, chorando, na cama do senhor Crouch. Sirius se ergueu num pulo.

— Ron e Draco estão a distraindo — falou Harry.

— Bom — falou Sirius. — Eu...

— Onde você está? — interrompeu Remus, e Sirius pausou, temendo a resposta.

— Estou chegando no escritório do Dumbledore — falou Harry. — Achei que seria melhor se ele falasse...

— Absolutamente — falou Sirius, aliviado. — Harry, acho que ela é a elfo do Crouch. — Harry ergueu as sobrancelhas. — Mas pergunte ao Dumbledore, ele deve saber, e veja se consegue descobrir se ela foi libertada ou não sem ela perceber. Chego aí assim que der. — Só precisava implorar por uma Chave de Portal Internacional para alguém no Ministério Francês antes. Harry assentiu, sério, e o espelho se apagou. — Desculpe por sair correndo, Moony...

— Eu já ia te expulsar mesmo — falou Remus, dispensando o pedido de desculpas. — Minha próxima aula começa em dez minutos.

— Eu te conto depois o que acontecer — falou, abrindo a porta.

— Eu volto na segunda — lembrou Remus. — Natal, lembra?

— Certo — falou. — Obrigado por... — Gesticulou vagamente para o escritório, mas Remus pareceu entender e lhe deu um sorriso pequeno.

— Sempre que precisar.

Continua.