- Festa? Que ideia é essa, Hyoga?

- Olha aqui, Rikki. – ele me estende o panfleto – Não é exatamente do que precisamos agora?

Vejo do que se trata a tal festa. É um baile de máscaras, que está acontecendo do outro lado da cidade.

- Me desculpa, Hyoga... Mas eu não estou no clima...

- Rikki, só me escuta. Eu não... – o loiro olha para os lados, como se buscasse ao redor as melhores palavras para se expressar – Eu não quero terminar esta noite assim. Se você sair desse jeito, eu acho que... As coisas nunca mais vão ser as mesmas entre a gente.

- Claro que vão, Hyoga. Eu só preciso ir embora, respirar, espairecer.

- Rikki, pense bem. Da outra vez, quando tivemos aquela conversa caminhando pela praia, nós terminamos nossa conversa em bom tom. Pelo menos, é o que eu tinha achado.

- Sim, nós tínhamos finalizado bem aquela conversa. – concordei.

- E, mesmo assim, ficamos sem nos ver por dias. E você nem estava gravando com o Shun. Você tinha tempo livre o bastante para vir falar comigo. Em vez disso, você simplesmente sumiu do mapa.

Desviei os olhos para outro lado. Não tinha como eu dizer que não quis procurá-lo, simplesmente não teve como eu fazer isso, atribulado como eu estava.

E eu também não sabia se ele realmente queria me ver...

- Então, pela lógica, se você for embora agora, depois de um desentendimento entre a gente... Vamos nos ver de novo quando? Daqui a um ano? Vai ser assim?

- Claro que não, Hyoga.

- Não sei. Eu apresentei fatos para você. E você só fica me dizendo que não seria assim, mas...

- Está bem, Hyoga. Vamos parar com esse assunto, porque não vamos chegar a lugar algum. – olho novamente para o panfleto em minha mão – Você realmente quer minha companhia?

- Quero, Rikki.

- E você quer ir para essa festa?

- Não seria bacana? Quanto tempo faz que não nos sentimos pessoas normais, desconhecidas, no meio da multidão? Um baile de máscaras seria o ideal! Podemos ir e ninguém vai nos reconhecer...

- Está bem, então. Nós podemos ir. – vejo como Hyoga abre um grande sorriso de contentamento e acabo sorrindo de volta para ele – Só tem um problema... Precisamos ir vestidos a caráter... Será que encontramos alguma loja de fantasias aberta a essa hora?

- Não sei, mas ir a uma loja está fora de cogitação. Alguns paparazzi nos flagrariam e aí nosso disfarce seria facilmente reconhecido. Não, ir a uma loja não é boa ideia...

- Mas se não for assim... Como você quer que nós... – começo a falar e Hyoga volta correndo para dentro do estúdio. Sigo atrás dele, sem entender.

- Aqui! – o loiro tinha aberto o armário cheio de figurinos – Aqui temos roupas de todos os tipos a nossa escolha!

Eu acho graça da empolgação dele. Eu me aproximo do armário e dou uma olhada nas roupas ali penduradas – Será que estão em bom estado, Hyoga?

- Parece que sim! Foram bem guardadas. Venha, só vamos descobrir olhando.

Começamos a passar olhos e mãos pelas diversas peças que ali estavam. Havia realmente uma quantidade grande e, apesar de algumas peças estarem em condições ruins, outras estavam em ótima situação.

- Olha aqui. Achei a roupa perfeita para você.

- Sério? Deixa-me ver.

Estendo para ele o figurino de um típico príncipe de contos de fadas. Hyoga olha o vestuário e faz uma expressão de que não concordava muito com aquilo.

- É a sua cara, sim. Você tem esse jeito de príncipe, realeza, estampado em você.

Hyoga analisa a roupa, com uma expressão de quem vai se acostumando aos poucos à ideia. Subitamente, ele diz:

- Tudo bem. Eu uso essa roupa. Mas você me deixa escolher sua fantasia, então.

- Pode ser. Para mim, eu vou ficar parecendo um bobo de qualquer jeito... Então, tanto faz. – respondo, sentando-me à cadeira.

Hyoga entra no armário e se demora alguns minutos ali. Quando achei que ele estivesse prestes a desistir, o loiro sai de lá bastante animado:

- Achei! É perfeita para você!

Curioso, estendo o braço para ver o que ele pegou.

- Você vai ver, mas já no seu corpo. Não quero opiniões antes de você provar. Vá se vestir, que eu vou fazer o mesmo.

Sorri de leve e acenei positivamente com a cabeça. Realmente, para mim não faria diferença...

Porém, hora em que vesti, me senti... bastante exposto.

- Hyoga, você só pode estar de brincadeira comigo...

- Terminou de se vestir? Deixa eu ver.

- Essa calça é colada demais... – falo, resmungando.

- Não, Rikki! Está perfeito! Vestiu bem em você.

Só então olhei para o loiro. Ele também havia vestido a fantasia. Parecia, de fato, que eu estava diante de um príncipe encantando.

- Sua fantasia é daquele modelo renascentista. – Hyoga começou a falar, enquanto me rodeava, analisando como minhas vestes caíram sobre meu corpo – Você não gosta de Shakespeare? Parece que você saiu de uma peça dele.

Penso em Shakespeare e olho para a mesinha ao meu lado. Tiro do vaso uma das rosas e a fico fitando, enquanto declamo:

- "O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, teria igual perfume."

- Adoro esse trecho de "Romeu e Julieta". – diz Hyoga, enquanto separa as máscaras para vestirmos com o restante da fantasia.

- E você concorda com esses dizeres? Acredita nisso?

- Concordo, claro. O que é um nome, afinal? Apenas designação. Se você não se chamasse Rikki, continuaria sendo a mesma pessoa, tendo a mesma essência... – Hyoga me responde e sequer percebe como o que ele disse me trouxe um grande sorriso ao rosto – Como diz Julieta, um nome é apenas um nome... Ah, pronto! Essas duas máscaras vão combinar bem com nossos trajes. Aqui, separei essa para você.

- Acha melhor já vestirmos?

- Sim. Chamamos um carro pelo aplicativo e fazemos o teste com o motorista. Vamos ver se ele nos reconhece assim.

- Certo. – retiro os óculos e coloco a máscara preta, que encobre apenas meus olhos. Voltou meu olhar o loiro e o vejo terminando de vestir a máscara branca, que também só cobre a parte de cima do rosto.

Assim, vestidos a caráter, chamamos um carro. Quando este chega e entramos nele, percebemos que o nosso plano deu certo. Não fomos reconhecidos e o motorista nos levou ao endereço requisitado sem maiores problemas.

A festa era gigantesca. Do lado de fora, havia vendedores ambulantes de todos os tipos. Fomos abordados por uns dez até conseguirmos chegar à área da festa, para o qual era preciso pagar o ingresso para entrar. Nos ofereceram água, balas, chocolate, colares luminosos e até mesmo perfume!

Um homem se aproximou e perguntou se não queríamos comprar um vidro de perfume.

Mesmo negando, ele insistiu:

- Vocês não gostam de flores? Não gostam de rosas?

Eu, que já estava rindo da insistência dele, acabei falando:

- Ele adora rosas! – apontei para o Hyoga.

- Então olhem isso! – e o homem, sem perguntar se queríamos experimentar, soltou uma forte borrifada do perfume sobre Hyoga – Sinta a fragrância floral! Não é maravilhoso?

- O que é isso, cara?! Ficou maluco?! – fiquei nervoso com a atitude invasiva do vendedor e o intimidei com o tom de voz usado, tanto que ele não falou mais nada e se afastou de nós.

- Você está bem?

- Estou ótimo, apesar do perfume forte e enjoativo que está em mim agora... – Hyoga riu.

- Nossa. – eu me aproximei um pouco e senti logo o cheiro fortemente adocicado que exalava do corpo de Hyoga – Que perfume enjoativo.

Rimos bastante e entramos na festa.

Lá dentro, havia uma fantástica estrutura. Havia um grande palco, e uma banda tocava ali. Havia trapézios com palhaços dependurados neles, fazendo todo tipo de acrobacias, enquanto o público no chão assistia àquilo, enquanto todos dançavam e se divertiam.

Foi uma noite incrível. Fazia muito tempo que eu não me divertia daquele jeito. Na verdade, eu me perguntava se alguma vez eu me diverti dessa forma...

Dançamos, rimos, cantamos, bebemos... Estávamos nos divertindo tanto, que quisemos guardar esses registros. Hyoga tirou diversas fotos de nós dois assim fantasiados e curtindo aquela noite a valer.

Ficamos um bom tempo, até que sentimos que estávamos no nosso limite. O corpo se sentia cansado e começava a sucumbir aos efeitos do álcool.

Saímos de lá, pedindo um carro no aplicativo, que nos deixou no nosso pequeno estúdio abandonado.

Talvez pelo cansaço, talvez pelo álcool, no caminho de volta ao estúdio, não falamos nada um com o outro.

Eu estava pensativo, porque tenho uma resistência razoável ao álcool. Mas não sabia se Hyoga estava sonolento ou se também estava reflexivo como eu.

De volta ao estúdio, fomos atrás de nossas roupas para nos vestirmos e voltarmos a ser quem éramos.

Quando eu estava retirando minha máscara, ouvi Hyoga atrás de mim dizendo:

- Na próxima vez, vamos usar máscaras de palhaços... Assim, conseguiremos manter um sorriso na cara pela noite inteira... Mesmo quando nos sentirmos com vontade de sorrir...

O tom de voz dele era melancólico. Virei-me para ele, no exato instante em que eu retirava a máscara.

Ao puxá-la, terminei de desalinhar por completo os meus cabelos, que em nada mais lembravam o penteado impecável de Rikki.

E também estava sem meus óculos.

Hyoga ficou olhando para mim. Seus olhos estavam nublados; ele não parecia enxergar com clareza. O álcool havia mexido com ele, certamente.

Entretanto, mesmo com o olhar enevoado, Hyoga me olhou profundamente. E eu me senti preso àquele olhar, sem chance de reação. Então, de repente, sinto os lábios de Hyoga tomarem os meus de uma vez, sem aviso prévio, sem nada assim.

Apenas o gosto daquele beijo.

Fecho os olhos e envolvo Hyoga em meus braços.

Eu o apertei junto a mim e começava a aprofundar aquele beijo, quando, tão repentinamente quanto iniciou, ele finalizou aquele beijo.

- Eu... me desculpe. Eu não devia. Eu... me confundi.

Parecendo meio confuso, Hyoga andou cambaleando até a porta.

- Hyoga... Espera um pouco...

- Não, Rikki. Está tudo bem. Só fiquei um pouco alto por causa do álcool, mas logo melhoro. O carro que nos trouxe ainda está me esperando; ele vai me levar para casa. É melhor você também chamar um carro, está bem? Você não está em condições de dirigir. – Hyoga falava com pressa, atropelando palavras. Ele estava realmente querendo ir logo embora dali.

Entendi que ele já se arrependia do que tinha feito. E queria sair logo de lá.

Não falei mais nada. Apenas deixei que ele partisse, sem dizer mais nada.

Eu também deveria ir embora, mas não me sentia em condições. Não por ter bebido, mas porque o que acabava de acontecer tinha mexido comigo de uma forma que eu não estava suportando.

Eu precisava colocar aquilo para fora.

Peguei uns papéis e um lápis que estavam sobre a mesinha.

Recostei-me sobre as almofadas e o lápis começou a correr livremente sobre a folha de papel...

Acordo sobressaltado, com o barulho estridente do meu celular.

Demoro a perceber onde estava. Esfrego os olhos e enfim percebo que ainda estou no pequeno estúdio.

Acabei adormecendo aqui.

Levanto e sinto meu corpo reclamar da posição em que dormi, sobre o tapete.

Sinto o corpo dolorido.

E a cabeça ainda bastante zonza, o que piora com o fato de que me celular continua tocando.

Busco embaixo das almofadas, das minhas roupas que estavam jogadas por ali...

Enfim, encontro o celular dentro do bolso da calça.

- Alô. – atendo, um pouco afobado.

- Ikki! Onde você está? – escuto Kanon, furioso, do outro lado.

- Estou... – olho ao redor – Num lugar aqui. Estou indo para casa.

- Você não está em casa? É por isso que não atende à porta, mesmo depois de eu quase derrubá-la de tanto bater nela.

- Já estou voltando.

- Ikki, você não esqueceu que tem de ensaiar hoje, não é? O evento à noite é muito importante!

- Eu sei, Kanon. Eu sei.

- Volte logo para casa, tome um banho, se recomponha. Pela sua voz, dá para perceber que você está em um péssimo estado...

E, sem esperar resposta minha, desligou o telefone.

Olho ao redor e vejo melhor meu estado.

Minhas roupas estão amarrotadas.

E as fantasias... largadas pelo chão.

Resolvo deixar o lugar razoavelmente arrumado antes de sair.

Pego minhas roupas pelo chão...

Vejo que a fantasia de Hyoga também ficou por lá, com as peças espalhadas no chão.

Vou pegando todas para colocar num saco e mandar para uma lavanderia.

Porém, não consigo evitar. Ao segurar as roupas de Hyoga em meus braços, aperto-as com mais força.

Sinto uma vez mais aquele perfume enjoativo de ontem.

E até esse maldito perfume passou a ser querido para mim agora.

Suspiro, cansado.

Guardo as fantasias em um saco. Pego as chaves do meu carro, que estavam sobre a mesinha...

E reencontro ali os papéis em que passei um bom tempo escrevendo durante a madrugada.

Passo os olhos por cima do que escrevi, antes de pegar no sono.

- Até que não é ruim.

Dobro os papéis e coloco-os dentro do bolso interno do meu blazer para então sair do estúdio.

Fazia uma noite bonita de lua cheia.

O céu estava límpido, sem nuvens.

O ideal para um show a céu aberto.

Havia muitas pessoas ali para o evento beneficente que estava acontecendo.

Muitas bandas iriam se apresentar naquela noite.

- Ikki! Aí está você! – Mime abre um grande sorriso e vem em minha direção – Então, está tudo certo para sua apresentação?

- Sim. – respondo, enquanto experimento algumas cordas da minha guitarra.

- Não tem por que nos preocuparmos, certo? Você já tinha passado essa música várias vezes com a banda semana passada. Eu sei, quando tocamos ao vivo, é sempre um bom momento de apresentar uma nova música, mas hoje era melhor seguir um caminho seguro, com uma música mais conhecida...

- Eu não concordo.

- Como? – Mime pareceu confuso ao ouvir minhas palavras.

- Eu não concordo com o caminho seguro. Por isso, resolvi apresentar uma música nova hoje. – eu falo, sem me dar ao trabalho de olhar para o ruivo.

- Você desobedeceu a uma ordem expressa da minha parte, Ikki?!

- Fiz o que julguei melhor.

- Mas você não tinha esse direito! Havia um combinado! Céus, por que você precisa ser tão teimoso? Nem tudo tem de ser do seu jeito, está bem? Eu não pedi para você repetir uma música à toa! Fiz isso porque não poderia te acompanhar no ensaio de hoje! E sabe por quê? Porque eu estava conseguindo fechar uma apresentação para você em um programa de enorme audiência! Sabe o quanto é difícil fazer isso, Ikki?

- Está tudo bem, Mime. Eu ensaiei bem com a banda. – respondo com um tom de voz calmo, contrastando com o de Mime, que era bastante elevado.

O ruivo passava a mão pelo rosto, nervoso:

- E que música é essa? É alguma das que estávamos planejando gravar no estúdio?

- Não. – digo com tranquilidade – É uma música nova em folha. Eu a escrevi ontem.

- Você o quê? – Mime estava agora furioso. Mas não pôde fazer mais nada. Eu e a banda estávamos sendo chamados para o palco nesse exato momento.

- Relaxa, cara. Vai dar certo. – falei, sem me exaltar.

- E agora, o nome que não sai dos "Trending topics"! A sensação do momento, que vai apresentar uma música nova para abrilhantar nossa noite! Com vocês, Ikki Amamiya!

Aplausos. Espaço lotado. Noite estrelada.

Combinação perfeita.

Eu precisava explodir.

E seria ótimo fazer isso para uma plateia cheia como aquela...

You want commitment
Take a look into these eyes
They burn with fire, yeah
Until the end of time
And I would do anything
I'd beg, I'd steal, I'd die
To have you in these arms tonight

Baby I want you
Like the roses want the rain
You know I need you
Like a poet needs the pain
And I would give anything
My blood my love my life
If you were in these arms tonight

I'd hold you
I'd need you
I'd get down on my knees for you
And make everything alright
If you were in these arms
I'd love you
I'd please you
I'd tell you that I'd never leave you
And love you till the end of time
If you were in these arms tonight

We stared at the sun
And we made a promise
A promise this world would never blind us
And these were our words
Our words were our songs
Our songs are our prayers
These prayers keep me strong
And I still believe
If you were in these arms

I'd hold you
I'd need you
I'd get down on my knees for you
And make everything alright
If you were in these arms
I'd love you
I'd please you
I'd tell you that I'd never leave you
And love you till the end of time
If you were in these arms tonight

Your clothes are still scattered
All over our room
This old place still smells like
Your cheap perfume
Everything here reminds me of you
And there's nothing I wouldn't do

And these were our words
They keep me strong

I'd hold you
I'd need you
I'd get down on my knees for you
And make everything alright
If you were in these arms
I'd love you
I'd please you
I'd tell you that I'd never leave you
And love you till the end of time
If you were in these arms tonight
If you were in these arms tonight
If you were in these arms tonight
Baby!
Like the roses need the rain
Like the seasons need to change
Like a poet needs the pain
I need you, in these arms tonight

Você quer compromisso
Dê uma olhada nesses olhos
Eles queimam como fogo, sim
Até o fim dos tempos
Eu faria qualquer coisa
Eu imploraria, eu roubaria, eu morreria
Para ter você nestes braços hoje à noite

Baby, eu quero você
Como as rosas querem a chuva
Você sabe, eu preciso de você
Como um poeta precisa da dor
Eu daria qualquer coisa
Meu sangue, meu amor, minha vida
Se você estivesse nestes braços hoje à noite

Eu te seguraria
Eu precisaria de você
Eu ficaria de joelhos por você
E faria tudo ficar bem
Se você estivesse nestes braços
Eu amaria você
Eu te agradaria
Eu te diria que eu nunca te deixaria
E te amaria até o fim dos tempos
Se você estivesse nestes braços hoje à noite

Nós olhamos para o sol
E nós fizemos uma promessa
Uma promessa que esse mundo nunca nos cegaria
E estas foram nossas palavras
Nossas palavras eram nossas músicas
Nossas músicas eram nossas orações
Essas orações me mantém forte
E é o que eu ainda acredito
Se você estivesse nestes braços

Eu te seguraria
Eu precisaria de você
Eu ficaria de joelhos por você
E faria tudo ficar bem
Se você estivesse nestes braços
Eu amaria você
Eu te agradaria
Eu te diria que eu nunca te deixaria
E te amaria até o fim dos tempos
Se você estivesse nestes braços hoje à noite

Suas roupas ainda estão espalhadas
Por nosso quarto
Esse velho lugar cheira como
Seu perfume barato
Tudo aqui ainda me lembra de você
E não há nada que eu não faria

E essas eram nossas palavras
Elas me mantêm forte

Eu te seguraria
Eu precisaria de você
Eu ficaria de joelhos por você
E faria tudo ficar bem
Se você estivesse nestes braços
Eu amaria você
Eu te agradaria
Eu te diria que eu nunca te deixaria
E te amaria até o fim dos tempos
Se você estivesse nestes braços hoje à noite
Se você estivesse nestes braços hoje à noite
Se você estivesse nestes braços hoje à noite
Baby!
Como as rosas precisam da chuva
Como as estações precisam mudar
Como um poeta precisa da dor
Eu preciso de você nestes braços hoje à noite

A apresentação tinha sido um sucesso.

Mas eu não me sentia satisfeito.

Eu tinha conseguido explodir, colocar para fora tudo o que sentia.

Ainda assim, havia ainda tanta angústia guardada aqui dentro.

Assim que coloquei meus pés dentro da minha casa, senti como se a sensação de sufoco aumentasse.

Já fazia um bom tempo que eu não me sentia mais em casa naquele lugar.

Casa, lar... há alguns dias era já um outro lugar para mim.

Mal entrei e tratei logo de sair.

Aquela casa me sufocava.

Peguei meu carro e dirigi para o único lugar onde ultimamente consigo me sentir em paz.

Enquanto dirigia, tratei de me livrar da gravata que vestia.

O evento pedia black tie, então eu estava vestido de acordo. Mas aquela gravata parecia aumentar minha sensação de falta de ar.

Quando enfim cheguei, estacionei o carro e entrei naquele que havia se tornado um pequeno oásis na minha vida.

Só de adentrar aquele espaço, eu já me sentia melhor.

Entretanto, assim que entrei, percebi algo.

As luzes dos lampiões estavam acesas.

E o vaso de cristal... estava com rosas novas e frescas.

- Droga! Será que ele está aqui?

Era tarde, não tinha passado pela minha cabeça que Hyoga pudesse estar ali, a uma hora dessas.

E eu não estava vestido como Rikki.

Quero dizer, as roupas até poderiam enganar... mas meu cabelo não tinha o penteado característico... e os óculos... eu estava sem eles!

Havia uma garrafa com água que deixávamos sempre ali.

Corri até ela e tentei molhar meus cabelos, para tentar fazer algo parecido com o penteado de Rikki antes que Hyoga aparecesse.

E foi no momento cravado que ele entrou no lugar.

- Rikki?

- Hyoga? – eu falei, terminando de ajeitar meus cabelos da melhor forma possível – Eu... não esperava encontrar você aqui.

- Nem eu. Por que veio para cá a essa hora?

- Eu... ahn... estava precisando organizar uns pensamentos. – respondi, ainda um pouco afobado.

- Ah é? – Hyoga entrava devagar, me analisando com cuidado – Sei. Por que está vestido assim? Onde estava?

Engoli em seco antes de responder:

- Eu estava no evento beneficente.

- É mesmo? Você foi junto com o Ikki? – o loiro falava, enquanto ia se aproximando devagar de mim.

- Sim, claro. Somos... irmãos. Qual o problema de eu estar lá para prestigiá-lo?

- Nenhum. Até porque você já me contou que vocês não são brigados, como se fala por aí. Mas achei que vocês não pudessem dar bandeira. Ir ao evento do seu irmão poderia atrair a atenção errada, não?

Hyoga estava falando de um jeito estranho. Ele parecia desconfiado e me olhava como quem quer descobrir algo.

- Se eu for discreto, não há problema algum. Eu só queria vê-lo se apresentando e fui vestido de acordo. Apenas isso. – aquilo estava ficando perigoso. Hyoga estava se aproximando de forma perigosa – De todo modo, eu estou bem cansado. E já me sinto melhor. Vou voltar para casa.

- Não vai, não. Ainda não. – Hyoga se colocou à minha frente – Não sem antes me contar a verdade.

- Verdade? Que... verdade? – minha voz saiu trêmula nesse momento.

- Você sabe muito bem que verdade, Rikki.

- Sim, mas... eu já lhe disse que não posso contá-la para você. Não ainda.

- Mesmo se eu tiver descoberto sozinho?...

Senti o coração falhar uma batida.

Como assim, ele tinha descoberto sozinho?

- Você... descobriu?

- Descobri. – Hyoga foi assertivo – E não precisava ser muito inteligente para perceber isso, não é, Rikki? – o loiro suspirou, parecendo chateado – Eu descobri assistindo ao show. Estava no apartamento e Shun queria muito ver a apresentação do seu irmão... Sintonizamos no canal e, quando Ikki começou a cantar aquela música... Eu entendi o que estava acontecendo.

Fiquei em silêncio, esperando que ele concluísse seu pensamento.

- Eu entendi, Rikki. Entendi o segredo e acho que até entendi por que você precisa manter sigilo sobre isso. Acho injusto com você, mas acredito que você deve ter seus motivos para aceitar essa situação...

- Espera, Hyoga. Eu não estou entendendo. Do que você está falando?

- Rikki, eu ouvi a música. Eu prestei atenção à letra da canção. Era uma música nova, não é isso que foi dito? Eu logo percebi. Era muito nova. Foi escrita depois de ontem... não foi?

Meu Deus. Meu coração agora batia tão rápido que parecia querer sair fora do meu peito.

Então ele tinha descoberto?

- Aí eu juntei os fatos... e compreendi tudo, Rikki. – Hyoga suspirou pesadamente – Por que faz isso, Rikki? Por que aceita ser colocado nessa posição?

Eu estava confuso. Hyoga parecia ter descoberto a verdade, mas, ao mesmo tempo, continuava a me chamar de Rikki...?

- Você é o verdadeiro autor das músicas que o seu irmão canta. Por que deixa que ele fique com os créditos por essas letras? Por que não deixa que o mundo saiba que quem escreve todas essas letras é você?

E, subitamente, como um balde de água fria, compreendi que Hyoga não havia descoberto o meu segredo.

E eu não sabia se me sentia aliviado ou pesaroso por isso.

- Eu entendi tudo na hora! Você não pode revelar que é o verdadeiro autor... Do contrário, as pessoas podem desconfiar que vocês se dão bem e a série precisa da polêmica de que vocês não se aturam. Tudo bem, entendi que esse era o motivo. Mas não consigo concordar, Rikki! Se é você quem escreve essas letras, é você quem deveria ser reconhecido por isso...

A essa altura, Hyoga estava bem próximo de mim.

- Eu não consegui dormir depois de entender isso. Fiquei rolando de um lado para o outro da cama. Decidi que precisava respirar ar fresco. A princípio, eu planejava apenas caminhar um pouco pela praia. Estava tão tarde, que eu sabia que não haveria ninguém por lá. Porém... fui andando, andando e, quando dei por mim, já tinha chegado aqui. Entrei, tentei me acalmar. Fiquei um pouco aqui dentro, mas continuava sentindo que algo estava entalado na minha garganta, sabe? Por isso, resolvi dar uma volta lá fora. Foi quando você chegou...

- Hyoga, você entendeu tudo errado.

- Não entendi, não. Vai negar e dizer que não foi você que escreveu a letra que o Ikki cantou hoje na apresentação do evento? Vamos, Rikki! Olhe nos meus olhos e me diga que não foi você quem escreveu!

Eu olhei nos olhos dele.

E não consegui dizer que uma palavra sequer.

- Eu sabia. É você quem escreve essas letras. É por isso que me sinto tão atraído por você! É você quem escreveu aquelas letras...

Desviei meu olhar do dele.

Aquilo estava ficando difícil de suportar.

- Rikki... – ele levou a mão ao meu rosto e, delicadamente, fez uma carícia nele – Olha para mim.

Não poderia negar a um pedido assim.

Deixei que meus olhos encontrassem os dele novamente.

- Eu achei que tinha sido efeito do álcool... ontem... quando vi você sem os seus óculos. Achei você tão parecido com seus irmãos... Mas agora... eu vejo nitidamente... vocês são realmente muito semelhantes fisicamente. Mais do que imaginava.

- Hyoga, eu...

- Rikki, eu quero ficar com você. Eu me decidi. Eu me sinto atraído por você e, agora que eu sei que é você quem escreve aquelas letras, tudo se encaixa! Eu me sentia muito atraído por essas músicas; era esse o lado misterioso, enigmático do Ikki que tanto me prendia a ele! Mas agora eu sei que esse lado nunca pertenceu a ele... Esse lado é seu... é você quem escreve as letras... E eu quero ficar com você, porque agora tudo faz sentido...

Eu sabia que aquilo não era correto. Hyoga não tinha descoberto a verdade.

Mais uma vez, ele tinha apenas conhecimento parcial da verdade.

Eu não deveria permitir que aquilo prosseguisse.

Eu deveria ser forte.

Eu deveria ter dito que não.

Mas não consegui.

Hyoga me abraçou, me envolveu com seus braços, com seus beijos...

Aqueles beijos cálidos logo me fizeram perder a razão.

Os beijos eram intenso e, em vez de serem interrompidos, como normalmente acontecia quando estávamos juntos, eles iam crescendo cada vez mais.

Muito rápido, o desejo se fez urgente e começamos a tirar nossas roupas.

O contato, pele com pelo, o calor... Tudo aquilo era inebriante demais.

Eu não conseguir evitar.

Nunca antes havia estado com outro homem, mas o desejo era tão demandante que me espantei em perceber o quanto nossos corpos sabem simplesmente se guiar movidos pelo desejo de se tornar um.

Foi avassalador. Breve e intenso. Não demoramos muito para atingir o êxtase, porque tanto eu quanto ele parecíamos desesperados por algo que não sabíamos exatamente o que era.

Havia paixão, medo, desespero, desejo, tudo isso misturado e confundindo os nossos sentidos.

Eu não queria pensar e me deixei guiar por um desejo cego.

Hyoga parecia agir da mesma forma. Ele me amava com desespero, como se assim as certezas dele pudessem se tornar mais sólidas...

Quando alcançamos o clímax, caímos esgotados um sobre o outro.

Ficamos assim um bom tempo, até acalmarmos nossas respirações.

Embora estive me recriminando internamente, eu simplesmente não conseguia deixar de sorrir, sentindo o peso de Hyoga sobre meu peito.

Eu queria ficar ali para sempre e esquecer o resto do mundo.

O loiro logo pegou no sono.

Quando percebi que ele dormia profundamente, eu me levantei cuidadosamente.

Peguei uma vez mais aqueles papéis e, assim como tinha feito da outra vez, comecei a escrever.

Dessa vez, não escrevia freneticamente. Apesar de tudo, eu nunca tinha me sentido tão bem, tão feliz...

E as linhas que iam surgindo agora transmitiam uma calma, que contrastava bastante com o efeito explosivo da letra escrita na noite anterior.

- Rikki? Rikki, acorde...

Abro os olhos, sentindo-me ainda sonolento.

Então vejo Hyoga a meu lado.

Abro um sorriso enorme.

Não tinha sido apenas um sonho...

- Bom dia, Rikki. – ele sorri para mim.

- Bom dia. Dormiu bem?

- Como uma pedra. – ele me responde com um sorriso – Não queria te acordar, porque você parecia dormir tão tranquilo... Mas eu preciso ir... E não queria sair sem antes me despedir de você.

- Aonde você vai?

- Tenho assuntos a tratar com Shaka. Isaac encontrou para mim os arquivos que faltavam para... – Hyoga para de falar ao ver como eu fecho o rosto ao ouvir o nome desse cara – Rikki, por favor... Já disse; Isaac é apenas um amigo.

- Se você diz... – bufo, sem conseguir esconder meus ciúmes.

- E mesmo que ele quisesse algo comigo... Ele não tem a menor chance... Porque eu estou apaixonado por você, Rikki.

Ao escutar ele dizer essas palavras, as palavras que tanto eu queria ouvir... mas direcionadas para Rikki, e não Ikki... senti um aperto no peito.

- Enfim, tenho de ir, porque Shaka odeia atrasos. Mas que tal nos encontrarmos mais tarde?

Pego meu relógio e checo o horário.

- Já é quase meio-dia? – falo, espantado.

- Sim. Tenho esse almoço marcado com o Shaka... senão, eu ficava aqui com você. – o loiro me diz, sorridente – Mas podemos nos encontrar para a sobremesa, se quiser. O que acha?

- Não posso. – me levanto de supetão, lembrando que Mime havia combinado uma apresentação minha em um programa que ia ao ar no final da tarde – Eu tenho... quero dizer, o Ikki tem uma apresentação hoje em um programa no início da noite. E eu tenho de estar lá também.

- Rikki... Você vai continuar com isso? Vai continuar vivendo à sombra do seu irmão?

- Hyoga, eu... – já vestia, atrapalhadamente, pelo lugar. Ia buscando minhas peças de roupas que tinham se perdido pelo estúdio – Olha... É complicado. Podemos conversar sobre isso depois?

- Tudo bem. Eu também tenho de ir agora. Mas saiba que não concordo com isso, está bem?

- Está bem. – eu terminava de me vestir, apressado. Eu precisaria ensaiar com a banda e já estava atrasado.

- Podemos nos encontrar à noite então? Na minha cafeteria predileta? Você me encontra lá depois da apresentação do Ikki. Pode ser?

- Pode sim.

- Ótimo! – Hyoga falou, parecendo muito feliz. Ele veio até mim e me beijou.

Dessa vez, por melhor que fosse esse beijo... Ele tinha um sabor de culpa...

O loiro já estava se aproximando da saída do estúdio, quando se voltou para trás e me disse:

- Ah! Eu li a letra nova que você escreveu. Ficou muito boa!

Ele me sorriu charmoso e foi embora.

- Eu vou contar a verdade para ele. De algum modo, eu vou contar... – fiquei repetindo para mim, tentando aplacar a culpa que crescia gigantesca em mim.

- Boa noite! Hoje vamos abrir o programa com uma apresentação muito especial! Dono de uma trajetória meteórica, dono de recordes de downloads, com pelo menos cinco músicas nas listas das mais tocadas, vem aí... Ikki Amamiya!

Sou recebido com uma chuva de aplausos. A banda se posiciona no palco.

Sorrio para o público. Vejo Mime no canto do palco, acenando positivamente para mim.

Hoje eu apresentaria outra nova música.

E, dessa vez, Mime não me impediu. Pelo contrário, deu o maior apoio. Afinal, a apresentação de ontem tinha valido o risco. Então, o ruivo não viu problema em repetir o sucesso da noite anterior.

Comecei a dedilhar minha guitarra...

E iniciei mais uma apresentação.

It's hard for me to say the things
I want to say sometimes
There's no one here but you and me
And that broken old street light
Lock the doors
Leave the world outside
All I've got to give to you
Are these five words and I

Thank you for loving me
For being my eyes
I couldn't see
For parting my lips
When I couldn't breathe
Thank you for loving me
Thank you for loving me

I never knew I had a dream
Until that dream was you
When I look into your eyes
The sky's a different blue
Cross my heart
I wear no disguise
If I tried, you'd make believe
That you believed my lies

Thank you for loving me
For being my eyes
When I couldn't see
For parting my lips
When I couldn't breathe
Thank you for loving me

You pick me up when I fall down
You ring the bell before they count me out
If I was drowning you would part the sea
And risk your own life to rescue me

Lock the doors
Leave the world outside
All I've got to give to you
Are these five words tonight

Thank you for loving me
For being my eyes
When I couldn't see
For parting my lips
When I couldn't breathe

Thank you for loving me
When I couldn't fly
Oh, you gave me wings
You parted my lips
When I couldn't breathe
Thank you for loving me
Thank you for loving me
Thank you for loving me
Oh, for loving me

É difícil para mim dizer as coisas
Que às vezes quero dizer
Não há ninguém aqui, a não ser você e eu
E aquela velha lâmpada de poste quebrada
Tranque as portas
Deixe o mundo lá fora
Tudo que tenho para te dar
São estas cinco palavras e eu

Obrigado por você me amar
Por ser meus olhos
Quando não podia enxergar
Por abrir meus lábios
Quando não pude respirar
Obrigado por você me amar
Obrigado por você me amar

Eu nunca soube que tinha um sonho
Até que esse sonho era você
Quando olho dentro de seus olhos
O céu é um diferente azul
Juro pela minha vida
Eu não usarei disfarce
E se eu tentasse, você faria de conta
Que acreditou em minhas mentiras?

Obrigado por você me amar
Por ser meus olhos
Quando não podia enxergar
Por abrir meus lábios
Quando não pude respirar
Obrigado por me amar

Você me levanta quando estou caído
Você soa o alarme antes que eu seja nocauteado
Se eu estivesse me afogando você separaria o mar
E arriscaria sua própria vida para me resgatar

Tranque as portas
Deixe o mundo lá fora
Tudo que tenho para te dar
São estas cinco palavras nesta noite

Obrigado por você me amar
Por ser meus olhos
Quando não podia enxergar
Por abrir meus lábios
Quando não pude respirar

Obrigado por você me amar
Quando não pude voar
Oh, você me deu asas
Você abriu meus lábios
Quando não conseguia respirar
Obrigado por você me amar
Obrigado por você me amar
Obrigado por você me amar
Oh, por me amar

Assim que terminei a apresentação, os aplausos tomaram conta do lugar.

Eu já estava me preparando para sair, quando Pandora entrou em cena.

Fiquei confuso, pois não esperava por isso. Nem sabia que ela estaria lá; tinha me acostumado a ir acompanhado apenas de Mime.

- Pandora Luna, pessoal! Muito obrigado por nos dar o ar de sua presença!

- Imagine! É um prazer para mim e Ikki estarmos aqui! – Pandora falou com um sorriso que me pareceu exagerado.

- Nosso tempo já está acabando, e precisamos ir para os comerciais. Mas antes, revele para nós um segredo, Pandora! Ikki está comprometido? Essas músicas dele estão deixando seu público agitado e ansioso por respostas...

- Ah... infelizmente, não posso responder a essa pergunta... Digamos que a situação dele seja... complicada de se explicar... Não é mesmo, querido? Ops!

Pandora então começou a rir, como se estivesse envergonhada de algo.

Chamaram os comerciais e pudemos sair de cena.

Assim que chegamos aos bastidores, eu disse:

- O que pensa que está fazendo? O que estava tentando sugerir lá?

- Nada de mais, Ikki. Como eu disse, é importante criar um rebuliço, alguns boatos... Enfim, é importante manter a atenção sobre você.

- Que eu sabia, já estou ganhando atenção suficiente.

- Mas sempre pode receber mais. A mídia está querendo saber se você está comprometido ou não. Resolvi dar para eles algumas sugestões, hipóteses com as quais eles possam criar algumas histórias interessantes. Isso vai manter seu nome ainda mais quente nas redes sociais.

- Eu não entendo como você se presta a algo assim.

- Não aja como se estivesse sendo pego de surpreso. Você sabia que isso iria acontecer. Eu falei que estava disposta a criar situações que despertassem no seu público feminino o desejo de conquistar você. É o que estou fazendo.

- Está bem. Você é quem sabe.

- Não fale como se você fosse tão puro e santo. Você aceitou fazer parte de algo tão sórdido quanto isso, quando aceitou fazer parte da história inventada por Saga e Kanon! Então, não fique apontando para mim como se eu fosse digna de pena. Porque, se for o caso, então você também é, meu caro.

Engoli em seco as palavras de Pandora.

Ela tinha razão...

Estava sentado a uma das mesas da cafeteria preferida de Hyoga. Estava razoavelmente cheia. Eu já tinha sido abordado por diversos clientes do local, apesar de me encontrar em uma mesa que ficava mais isolada, próxima do canto.

Minha mente estava a mil por hora. Eu não sabia mais o que fazer. Tinha me perdido nas minhas próprias mentiras e já não sabia como agir.

O certo e o errado se misturavam diante de mim e eu não conseguia me livrar da rede de mentiras que me via completamente enredado agora.

Tão absorto eu estava nos meus pensamentos, que nem me incomodava o fato de que praticamente todas as pessoas por lá já haviam tirado seus celulares para me gravarem ou tirarem alguma foto minha.

Olhei para o meu reflexo projetado na vidraça da cafeteria. Eu olhava e não sabia mais quem estava ali. Eu não conseguia me reconhecer.

A imagem ali era de Rikki. Penteado impecável, óculos, roupa social...

Eu sabia que estava vendo Rikki.

Mas quem era Rikki?

Quem era eu...?

- Oi. – finalmente despertei dos meus devaneios, ao perceber que Hyoga já havia chegado e estava sentado diante de mim.

- Oi, Hyoga. – respondi, com um sorriso frágil.

- Já pediu alguma coisa?

- Não. Estava esperando você chegar.

- Ah. Ok. – Hyoga me respondia com os olhos presos ao cardápio.

- Por que está olhando tão fixamente para esse cardápio? Você sabe de cor e salteado tudo o que está aí...

Hyoga então suspirou pesadamente.

Eu sabia que algo não estava bem. Assim que chegou, ele evitou de me olhar nos olhos.

- Rikki... Eu... Sinto muito...

Eu já devia saber.

Não tinha como dar certo.

Não assim...

- Eu acho que... nós dois... cometemos um erro ontem à noite.

Eu não dizia nada. O que poderia dizer? Especialmente quando, lá no fundo, eu sentia que ele estava certo.

- Eu me precipitei. – os olhos celestes encheram-se de lágrimas – Eu queria, Rikki... Eu queria que tudo estivesse tão claro e tão nítido para mim, como eu disse ontem que estava... Eu queria que tudo fosse tão simples assim e que eu não estivesse tão confuso... Mas eu me enganei. Eu me enganei, Rikki... Me desculpe...

- Hyoga...

- Não; deixe-me terminar o que tenho para falar. Por favor. – Hyoga respirou fundo, para ganhar fôlego – Eu disse que o fato de você escrever as letras era o bastante para me fazer desencantar do seu irmão. Eu realmente pensei isso ontem, Rikki! Mas... eu me enganei... Hoje, eu assisti à apresentação do Ikki pela TV... Eu vi ele cantar a letra que você escreveu! A letra que você escreveu sobre nós dois! E, mesmo sabendo que a música era nossa, sua e minha... Ainda assim... meu coração disparou vendo ele cantar daquele jeito! E foi então que entendi... Não é só a letra da música... É o jeito como ele canta... É o jeito como ele... Como ele é... Simplesmente, o fato de ele ser quem ele é mexe comigo... E eu não consigo me enganar a respeito disso, Rikki... Por favor, me perdoe... Eu não queria iludir você...

- Hyoga, por favor, eu...

- Ei! Você é o Rikki, não é?

Era tudo o que eu não precisava agora. Não estava com paciência para ficar atendendo um fã agora.

- Sim, sou eu. – falei com rispidez – Mas estou no meio de um assunto importante aqui. Então, se puder nos dar licença, eu agradeço.

O rapaz que havia me interpelado olha então para Hyoga:

- E você é o Hyoga!

- Amigo, por favor. – agora eu falo fazendo uso do meu tom mais intimidador – Você não entendeu que está nos atrapalhando? Estamos no meio de uma conversa importante aqui, não percebeu?

- Hyoga, você pode mandar um recado meu para o Ikki? Por favor? – o rapaz parecia me ignorar solenemente – Sei que o Ikki não fala com os irmãos, então nem adianta mandar recado pelo Rikki! Mas você ele vai escutar! Pode mandar meu recado? Pode?

Hyoga baixou o rosto, ainda mais abalado com esse pedido. E isso tinha sido a gota d'água para mim.

- Olha, parece que você não está querendo entender o que eu digo. Vou pedir para tirarem você daqui, porque está passando dos limites, ouviu? – enquanto falo, já faço um gesto que o gerente do local logo entendeu e, rapidamente, enviou um segurança para a nossa mesa.

- Por favor, venha comigo... – o segurança começou a falar, mas antes que pudesse se aproximar o bastante, o rapaz demonstrou-se arisco, esquivou-se do segurança e, ao mesmo tempo em que se posicionou atrás do Hyoga, segurando-o pelo pescoço, ele sacava uma pistola de dentro de sua jaqueta.

Houve uma gritaria generalizada. Correria, pânico e eu fiquei paralisado diante do rapaz, que agora apontava a pistola na cabeça do loiro.

- Parem de gritar! Parem de gritar! – o garoto deu então um tiro para o teto, assustando ainda mais a todos, mas conseguindo que as pessoas ali fizessem silêncio.

- Fiquem quietos todos vocês! Eu não quero causar problemas! Droga!

Hyoga parecia que nem mesmo respirava. Ele tinha a respiração acelerada, mas fora isso, estava imóvel como uma estátua.

E eu sentia meu corpo inteiro tremer de pavor. Sentia um desespero tremendo tomar conta de mim, mas tentava racionalizar o que sentia, tentando me manter sob controle.

- Hyoga... Agora você pode me escutar com atenção? – o rapaz voltou a falar, no mesmo tom de antes.

- Posso... posso sim. – Hyoga respondeu, olhando para mim, assustado.

- Eu quero que você mande um recado para Ikki. Preciso muito que ele ouça o que tenho a dizer.

- Claro... Tudo bem... É só falar...

Eu mantinha meus olhos fixos na pistola. Meu coração batia tão forte, que eu poderia jurar que todos ali eram capazes de ouvi-lo bater.

- Diga a ele que... – e então o rapaz se calou. Ficou em silêncio por alguns segundos, até que voltou a falar – Ei, mas por que eu vou mandar recado? Eu posso falar com ele pessoalmente! Se ele souber que você está aqui, comigo, tenho certeza de que virá!

- Não... Não... – Hyoga respondeu – Ikki está ocupado agora... Ele não vai conseguir vir... Pode dar o recado...

- Não! Ele vai vir sim! Eu tenho certeza disso! Se eu chamar, com você do meu lado, ele vem! Quer ver? – o rapaz gritou e Hyoga se encolheu um pouco, enquanto derramava algumas lágrimas.

- Ei! Quem aí tem celular? Hein? Quem tem?

As pessoas, assustadas, foram levantando as mãos devagar.

- Ótimo! Podem pegar os celulares de vocês! E comecem a gravar lives! Filmem o que está acontecendo aqui! Quero que o Ikki saiba o que está acontecendo.

Todos então foram lentamente pegando seus celulares e passaram a gravar o rapaz, que mantinha Hyoga imobilizado, na posição de refém:

- Estão gravando? Pronto? Legal! Filmem direito, ouviram? – o rapaz então abriu um amplo sorriso – Oi, Ikki! Tudo bem? Meu nome é Kesty. Eu sou um grande fã seu! E estou precisando muito conversar com você sobre alguns assuntos importantes. Mas tem de ser pessoalmente. Então, você pode vir aqui? Olha, eu estou com o Hyoga junto de mim, está vendo? Eu não quero machucar ele, não tenho nada contra o Hyoga, mas se você demorar ou não vier, vou ser obrigado a fazer algo assim, entende?

Era o meu limite.

- Ei. Kesty... Esse é o seu nome. Não é isso? – começo a me levantar devagar da minha cadeira.

- O quê? – o rapaz olhou para mim, parecendo contrariado – Eu não estou falando com você! Fique sentado!

- Eu quero conversar com você, Kesty...

- Mas eu não quero! Não tenho nada pra falar com você, Rikki! Olha, não me leve a mal, também não tenho nada contra você. Na verdade, só não gosto mesmo é do Ikky! Mas com você, não tenho problemas. Só que eu quero é falar com o Ikki, tá bom? Então fica quietinho aí!

- Kesty, tudo bem, olha só... – eu falava com a voz no tom mais calmo possível. E me surpreendi em perceber como agora eu conseguia ter uma frieza absoluta tanto na fala quanto nos gestos – É melhor você falar comigo. O Ikki não pode vir...

- Já cansei de me dizerem que ele não pode vir! Então ele vai abandonar o Hyoga assim? Porque ele está me vendo pelas câmeras, eu tenho certeza! – e olhando para um dos celulares que o filmava – Não é mesmo, Ikki? Você está me vendo aqui! Está vendo que estou armado! E vai dizer que está ocupado com outra coisa? O que pode ser mais importante que salvar a vida do homem que você ama?

- Nada. Nada é mais importante. – eu falo, com a voz firme, chamando novamente a atenção do rapaz para mim – Está bem. Você quer conversar com o Ikki. Pode falar então.

- Eu já disse que não vou mandar recado! Já disse que quero conversar com ele pessoalmente! Por que você fica falando como se não entendesse o que eu digo? Está me chamando de idiota, é isso?

- Não, Kesty, de forma alguma. E eu entendo o que você diz. Entendo, de verdade. Você exige a presença do Ikki aqui para poder conversar com ele. Muito bem. Vamos fazer isso acontecer então.

- Você... vai ligar para ele? Vai pedir para ele vir aqui? – perguntou o rapaz, parecendo ansioso.

- Não... Eu não vou ligar. E não vou ligar porque não adiantaria.

- Por que não?

- Porque... – engoli em seco – Porque ele já está aqui, Kesty.

- Ele está? – o rapaz pergunta, animado – Onde? Onde ele está?

- Aqui. Na sua frente. – respirei profundamente – Eu sou o Ikki, Kesty.

- O quê? – o rapaz se agita – Você disse que não ia me tratar como se eu fosse um idiota, Rikki!

- Não, Kesty! Calma, olha só! Eu não estou subestimando você! Pelo contrário; estou valorizando você a ponto de contar um segredo que eu estava proibido de contar para qualquer um!

Nesse momento, Hyoga olhou para mim compreendendo que estava prestes a revelar o que tanto escondi dele.

- E que segredo é esse? – indagou o rapaz, muito nervoso.

- Eu sou o Ikki. Eu sou filho único. Eu não tenho irmãos. – eu falava pausadamente, sem quebrar o contato visual que estabeleci com o rapaz – O que você vê na série é ilusão. Rikki e Ikky, que você conhece como meus irmãos, não existem.

- Que brincadeira sem graça é essa, Rikki? Para de falar essas coisas! Chama logo o seu irmão aqui! Eu quero falar com ele e estou perdendo a paciência!

- Kesty, Kesty! Olha para mim! Eu não estou mentindo! É sério! Olha, quer ver? – e então, bem devagar, eu retiro meus óculos e os coloco sobre a mesa. Em seguida, levo minhas mãos aos meus cabelos e bagunço completamente o penteado, deixando os fios bem desalinhados, da forma como Ikki usa.

O rapaz pareceu se surpreender diante da minha breve transformação. Mas, logo em seguida, ele balançou a cabeça negativamente:

- Não! Isso não quer dizer nada! Vocês são irmãos, são parecidos, apenas isso!

- Kesty, por favor, olha para mim. Eu estou te contando toda a verdade, está bem? Não existem irmãos. Sempre fui apenas eu. Sabe essa série? Os produtores dela, quando me encontraram, me fizeram o convite para participar da série. Eu aceitei e depois que eu soube que eles precisavam de outros atores, me prontifiquei para interpretar os outros papéis também.

O rapaz agora não rebatia tudo o que eu falava. Estava conseguindo fazê-lo ouvir. Continuei a falar, no mesmo tom calmo e pausado:

- Eles viram que eu dava conta de fazer os três papéis. E aí eles tiveram a ideia de inventar uma história sobre os três irmãos se odiarem, para justificar o fato de nunca poderem gravar juntos. A polêmica serviria para chamar a atenção para a série. Era só isso. Mas é tudo mentira...

- Não... não pode ser. Não pode ser! Você é o Rikki! Você fala como Rikki! O Ikki não fala desse jeito!

Ele tinha razão. Eu precisava provar o que dizia, da forma que me fosse possível.

Devagar, para ele não se sentir ameaçado, tirei o blazer azul-marinho que eu vestia. Então, olhei para um homem que estava parado próximo de mim e que vestia uma jaqueta jeans:

- Oi, tudo bem? Pode me emprestar sua jaqueta?

O homem ficou sem reação num primeiro momento, mas assim que entendeu meu pedido, tratou de logo tirar a jaqueta que vestia e a passou para mim.

Lentamente, sem desfazer o contato visual, eu vesti a jaqueta sobre a camisa social cinza. Agora eu estava muito mais visivelmente parecendo o Ikki de fato.

Faltava apenas incorporá-lo para valer.

- Pronto, cara. Tá satisfeito? Estou aqui. O que você quer falar comigo? – falei, em um tom mais agressivo, mas tomando o cuidado de não ser agressivo demais.

O rapaz então demonstrou uma imensa surpresa estampada no rosto:

- Ikki? Ikki, é você mesmo?

- Claro que sim. Quem mais poderia ser? Agora, fala logo. O que você quer comigo?

- Ikki! Você não imagina como eu sonhei com esse momento! Eu queria muito falar com você! Queria dizer que achava um absurdo você estar sendo impedido de aparecer na série! Eles não falam o motivo real, mas eu sei qual é! A culpa é do Ikky, não é? Sempre achei que ele tem muita inveja de você! Eu não gosto dele e...

De repente, o rapaz parou de falar, como se estivesse processando algumas informações.

- Espera um pouco. Se você é filho único... Então o Ikky não existe?

- Não. – respondo com firmeza – Era só um personagem que eu interpretava.

- Só um personagem? Não é justo! Eu odeio muito o Ikky! Eu sempre quis encontrar com ele para falar umas verdades! Eu...

Novamente, o rapaz interrompe o que dizia. Então abre um sorriso:

- Eu quero falar com o Ikky.

Pelo visto, ele tinha realmente entendido como as coisas funcionavam. Suspiro fundo e então começo a modelar meu cabelo para formar o topete usado pelo Ikky. Em seguida, retiro a jaqueta jeans e dobro as mangas da camisa social que vestia até os cotovelos, num estilo mais casual, como o Ikky gostava.

- Pronto. O que você quer comigo? – falei, num tom mais insubordinado, característico do Ikky.

- Ikky... Você não sabe como eu esperei esse encontro. Você é um folgado sabia? Acha que esse seu jeito aí pode conseguir tudo o que você quer, não é? Mas eu tenho algo pra te dizer! Você não passa de um imaturo, metido a rebelde! Seu irmão gêmeo sofreu muito mais na vida que você! Ele sim poderia ser imaturo, mas em vez disso, ele é só um cara que prefere ficar no canto dele...!

Enquanto falava, o rapaz se exaltava e comecei a ficar com medo de ele disparar o gatilho sem querer.

Eu não tinha alternativa, precisaria correr esse risco.

- Então, se me acha tão imaturo e idiota como está falando... Por que está apontando essa arma para o Hyoga? Não é para mim que você deveria apontar, hein? – falei, em um tom bastante provocativo.

- Nem brinca, viu? Sou bem capaz de fazer isso mesmo! – gritou o rapaz.

- Então aponta! Aponta aqui, olha! – apontei para o meu peito – Vamos! O que está esperando? Solta o Hyoga e vem acertar contar comigo, já que você diz que seu problema é comigo!

- Não me provoca, Ikky! Não me provoca! – o rapaz ia se exaltando.

- Não estou te provocando! Estou te desafiando! Vamos! O que está esperando?...

Foi tudo muito rápido a partir daí.

O rapaz largou Hyoga e estava prestes a apontar a arma para mim.

Mas um tiro quebrou a vitrine e a bala acertou o braço do rapaz.

O rapaz caiu e eu me joguei sobre ele, para tirar a arma de suas mãos.

Nesse momento, a polícia invadia a cafeteria de uma vez.

O rapaz estava ferido apenas no braço, mas conseguia se debater bastante no chão.

- Pode deixar. Nós assumimos a partir daqui. – os policiais me disseram, enquanto eu me levantava.

Olhei ao redor.

As pessoas saíam correndo para fora da cafeteria. Muitos carros de polícia do lado de fora.

Uma multidão com celulares, todos apontados para mim.

- Então... Ikki?

Olho para trás.

Hyoga havia se levantado.

Não estava machucado.

Ao menos, não fisicamente.

Seu olhar transmitia dor... ódio... decepção... raiva... angústia...

Baixei a cabeça. Não conseguia encarar aquele olhar.

- Ah, não. Levanta o rosto, Ikki. – Hyoga falou, com uma voz tão dura, que pareciam facas sendo cravadas no meu peito – Você vai olhar nos meus olhos enquanto me conta toda essa verdade da forma correta. – ele tinha uma expressão no rosto que eu nunca antes havia visto nele – É o mínimo que você pode fazer.

Ergui meus olhos, com muito pesar.

O mundo inteiro parecia rodar rápido demais...

Continua...