Antes de ler este capítulo, certifiquem-se de que leram o 21. Publiquei os dois quase simultaneamente, por isso, podem achar que este foi o único a ser adicionado com a atualização.
Epílogo – Alguns meses depois.
Diferente do que alguns pensam, eu não nasci com um livro na mão; até eu tive de me esforçar para estabelecer hábitos proveitosos de estudo. Nunca esquecerei dos meus oito anos, quando pus em minha cabeça de uma vez por todas que investigaria as pequenezas e grandezas ao meu redor. Corri pelas bibliotecas da cidade e esgotei a paciência de todos os bibliotecários pedindo listas de leitura a fim de iniciar minha formação, porém, depois de tanto preparo, a turma me convidou para uma viagem justo no fim de semana no qual eu pretendia pela primeira vez me debruçar a sério sobre o conhecimento. E adivinhem só? Eu escolhi a turma. Sim, escolhi a turma, e nem por isso deixei de experimentar a maior depressão de minha infância ao retornar para casa. Diverti-me quase de forma obscena numa das raras viagens de fato sem mistérios, verdade; ainda assim, sentei-me na cama, pensei no tempo perdido, em minha preguiça, em meu hedonismo e chamei-me de incapaz, estúpida e tudo de mal que ainda não conhecia pelas restrições de vocabulário de mamãe. Ora, repeti aquele pecado várias vezes, mas nunca deixei de ficar à beira do pranto na segunda-feira seguinte, como uma filha pródiga.
Eventualmente, aprendi a conciliar meus estudos com minhas amizades. Foi um processo tortuoso no qual prefiro não me aprofundar, afinal, houve muitas etapas das quais não me orgulho, como reflexões mesquinhas em que me perguntava se aquelas pessoas eram mesmo dignas de minha companhia, se me fariam progredir em algo. A descoberta de que Fred, Daphne, Salsicha e Scooby existiam em minha vida justo como ponto de equilíbrio para eu não perder minha humanidade só veio com a própria maturidade. Desde então, jamais imaginei que teria outra daquelas manhãs geladas de segunda-feira, aliás, caso imaginasse, tinha certeza de que seria por causa de mais pesquisas negligenciadas e ensaios mofados no baú. Até depois de adulta, subestimei a importância de meus amigos. Não diria que seria capaz de esconder o rosto entre as mãos por causa daqueles meros hobbies e descontrações.
Até aqui e agora, conforme Daphne vem por entre os bancos alvos dispostos no jardim da mansão Blake, as palmas de minhas mãos formigam e meu rosto responde em igual sintonia; eles querem se juntar, tanto quanto meus olhos querem lacrimejar, mas eu não sucumbo. Orgulho, qual teu valor, afinal? Fizeste tua dona cegar-se para si mesma por décadas, mas deixaste a consciência dela alterar o espaço e o tempo para devolvê-la à cama da casa paterna e à prostração da época em que ela realmente não era nada!
E pensar que, se dependesse de Fred, aquela seria literalmente uma segunda-feira. Ele queria marcar a data definitiva para um dia no qual poucas pessoas, senão nenhuma, se dispusessem a abandonar seus trabalhos e lares para presenciar uma união alheia. Daphne bateu o pé, disse que seria em um sábado e eis nós em um sábado.
Quase não vi a cerimônia. Os aspectos mais transcendentes não me importavam nem depois de minhas experiências mais recentes e meu cérebro não parava de indagar se depois do domingo viria uma nova razão para eu me odiar. Nem a doçura madura do beijo de sonho realizado dos meus amigos de infância tirou-me do meu pesadelo.
Salsicha e Scooby aproximaram-se de mim enquanto um mar de histéricos rodeava os noivos para cumprimentá-los. Em momento nenhum daquele dia tive mais vontade de correr para meu carro e ir embora, pois Salsicha portava aquela franqueza sem ressentimentos que só me piorava. Eu não merecia um perdão tão rápido!
— É engraçado como as alterações são tão variadas sobre os seres humanos apesar de a circunstância causadora ser a mesma, não acham? – questionei, agarrando-me ao primeiro assunto que me permitisse desviar os olhos da amenidade de Salsicha e a docilidade de Scooby. Até Fred e Daphne eram preferíveis aos dois.
Salsicha entreabriu a boca.
— Como é que é?
Ali estava uma das muitas ajudas que acabei ganhando daquele espírito que desdenhei como simplório. Não fossem as demandas dele, nem outros acadêmicos suportariam meu estilo rebuscado e, porque não, pomposo de escrita. Salsicha ensinou-me a sintetizar e naturalizar.
— Já parou para pensar em como uma mesma coisa faz as pessoas mudarem de formas tão diferentes?
Ele continuou com a mesma expressão.
— Não.
Comecei a rir e aumentei a confusão dele, que me ajudou de novo sem notar. Senti-me um pouco melhor, quer pela besteira da situação quer pela confirmação de minhas hipóteses sobre ele ser um simplório, o que significava que nem tudo era culpa de meu orgulho. Mas era um simplório querido, um simplório do fundo do coração.
— É que Fred e Daphne reagem às coisas muito diferente, olhe lá – apontei sutilmente com o queixo – Ele não para de mexer a cabeça, baixá-la e empalidecer enquanto está rodeado de gente. Ela parece que nunca quebrou uma unha da vida, e não sei como prega esse sorriso na cara com tanta facilidade.
— É que o pé do Fred ainda não sarou todo, além de tudo, você e o Fred sempre foram meio irmãos no gosto pela discrição – Salsicha comentou, encolhendo os ombros – Quanto à Daphne, o mais próximo dela nisso sou eu. Entendo porque é fácil sorrir. Estamos aqui e não mais lá, diabos. E nunca estaremos de novo.
— Achávamos a mesmíssima coisa há um ano.
— Burrice nossa esquecermos do pescador. Não sobra mais ninguém agora.
— Eu sei disso bem aqui – pus um dedo em minha cabeça – Mas não aqui – levei-o ao coração – Como se não bastasse, tenho alguns ensinamentos de professores antigos para embasar a paranoia, sem contar minha experiência. O excesso de certeza não faz bem.
Salsicha olhou-me significativamente e até assentiu. Por um momento, pensei que teríamos uma conversa duradoura explorando vários aspectos de nosso passado, presente e futuro, daí ele voltou ao normal.
— Pare com isso, mulher! – agarrou-me o braço e sussurrou – Já, já eu vou começar a tremer por tua causa! Você que é tão esperta não sabe que irritação é coisa de quem tem fome? Vamos para a mesa logo.
— Não sinto irritação. E os garçons ainda nem começaram a servir. Não começarão até Daphne jogar o buquê.
O que demoraria, tendo em vista a fila de bajuladores dos Blake esperando para lamber os dedos da herdeira.
— E de que serve sermos amigos da noiva se não vamos usar a língua?!
— Você não vai pedir para ela mandar o serviço de buffet começar mais cedo na frente de todo mundo, vai?
— Não só vou como já fui. Vamos, Scooby! Vamos, Velma! Você perdeu peso, menina, e diferente da Daphne, não está precisando se segurar para entrar em vestido nenhum.
Infelizmente, ele era mais rápido que eu e pôde enlaçar meu braço e arrastar-me até aquele mico antes mesmo de alguma resposta.
Daphne devia, mas não ficou ultrajada. Ela perdoaria tudo de todos naquele dia, o que não se repetia nos grã-finos ao redor dela, incluindo seus pais. Fez-se uma única expressão facial no rosto dos convidados e eu pude ler em letras vermelhas garrafais: Por que Daphne Blake ainda fala com esse cara? Bem, o prejuízo era deles.
Até eu hoje em dia sabia porque nunca deixaria de falar com pessoas como Salsicha. Usá-los para relaxar depois de uma longa semana de leituras, anotações e meditações provara-se só mais um delírio de uma imatura enrustida, ou seja, eu não havia amadurecido coisa nenhuma depois de me estabelecer nos meus estudos, que tomei como se fossem eu mesma.
Talvez agora sim eu tenha aprendido, pois estou olhando para cada um desses quatro seres humanos e os medindo por eles, não por mim. Estou observando-os e pensando no quanto quero vê-los atingirem o máximo da felicidade permitida individualmente neste mundo, o que não é a essência de uma amizade, mas de algo bem maior, afinal, se continuasse os amando só pelas paixões que tivemos em comum, no fundo morreria amando só a mim mesma.
É por causa desse amor que me calarei para sempre. Eu nunca mais rirei sarcasticamente de meus amigos quando eles, cheios de alegria, lerem notícias de buscas pelos foragidos Snakebite e Ariel. Nunca como recentemente percebi os bens que poderia fazer à humanidade mantendo o silêncio. Em minha defesa, o erro que nos corrige de um vício grave costuma ser o maior de nossas vidas.
Na caverna, a polícia não achou nenhum eremita e nenhuma das crianças com eles. Espertos, já deviam ter mudado de lar, como no tempo cismático de Lena e Simone, e foram embora talvez cientes da verdadeira natureza do Deus Gato, graças aos fatos e, especialmente, à curiosidade incentivada por mim.
Meus amigos nunca saberiam que podíamos estar repetindo nossos comportamentos, deixando de nos fazer as mais essenciais das perguntas conforme preferíamos ocultar de nossas memórias o fato de que havíamos incutido na cabeça de vários fiéis reclusos e selvagens uma dúvida cujo esclarecimento nos arrastaria novamente até a Louisiana dali a poucos anos, porém, na próxima vez, cinco não seriam o suficiente independentemente de qualquer união, de qualquer estratégia.
Como consolo, tudo isso, por mais perturbador que fosse, não passava de ponderação.
O que já não podia apenas ponderar, entretanto, eram três verdades às quais cientista moderno nenhum era simpático: um deus existe e ele se fez homem, eu por pouco não lhe prestei apostolado e minhas palavras jamais teriam mais credibilidade que um Evangelho.
