CAPÍTULO 5
"O tenente Potter está longe de ser insuportável. Muito pelo contrário: é uma companhia deveras formidável. Acho que você gostaria dele. É de Kent e está praticamente noivo de uma vizinha.
Mostrei a ele o seu retrato. Ele disse que você é muito bonita."
(Carta de Dan Granger à irmã, Hermione)
Harry insistiu em se vestir, de modo que Hermione achou por bem dar a ele um pouco de privacidade naquele momento e saiu para procurar algo para comer.
Ela tinha passado boa parte da semana naquele local e já conhecia bem o comércio das redondezas. A opção mais econômica – e, portanto, sua escolha de sempre – eram os pãezinhos com passas da barraca do Sr. Mathers. Os pães até que não eram de todo ruins, mas ela suspeitava que o preço irrisório só era possível devido à inserção de no máximo três passas por pãozinho.
Já o Sr. Lowell, que ficava mais adiante, vendia uma versão do pão de passas feita com massa espiralada e canela. Hermione não sabia dizer se o Sr. Lowell também era avarento com as passas, já que só tinha comido ali uma vez – um pãozinho dormido que ela devorou avidamente, concentrando-se apenas no prazer da cobertura açucarada que derretia na boca.
Mais à frente, virando a esquina, ficava a loja do Sr. Twycross, o confeiteiro holandês. Hermione só tinha entrado lá uma única vez, e não precisava de uma segunda visita para perceber que: a) não podia pagar por aquelas delícias e b) se pudesse pagar, logo estaria gorda como um balão. No entanto, se havia um dia que justificasse uma extravagância, com certeza era aquele: Harry não apenas tinha despertado como estava razoavelmente bem de saúde.
Hermione tinha duas moedas no bolso, o que daria para comprar um regalo, ainda mais agora que não precisava mais se preocupar em pagar pelo quarto de pensão. Ela tinha consciência de que deveria estar economizando cada centavo – só Deus sabia o que aconteceria com ela nas semanas seguintes –, mas não quis ser unha de fome. Não naquele dia.
Entrou na loja, sorriu ao ouvir o tilintar do sininho da porta e logo estava
suspirando de prazer com o aroma divino que se desprendia da cozinha aos fundos.
– Posso ajudá-la? – perguntou a moça de cabelos ruivos atrás do balcão.
Devia ser alguns anos mais velha que Hermione e falava com um sotaque muito sutil, cuja origem teria sido impossível de adivinhar caso Hermione não soubesse que os proprietários da loja eram da Holanda.
– Ah, sim. Eu gostaria de uma broa, por gentileza – pediu Hermione.
Apontou para uma prateleira onde havia uma fileira de três lindos pães redondos. Em sua cidade, Hermione jamais vira nada parecido com aquela casca dourada.
– Todos têm o mesmo preço?
A mulher inclinou o rosto para o lado, avaliando.
– A princípio, sim, mas, agora que a senhorita perguntou, estou notando que o da direita está um pouco menorzinho. Pode levar por um pouquinho menos.
Hermione já estava planejando onde iria depois para comprar manteiga ou queijo para comer com o pão, mas não resistiu e acabou perguntando:
– Desculpe, mas que cheiro delicioso é esse?
A mulher sorriu radiante.
– Speculaas. Acabaram de sair do forno. Já experimentou?
Hermione fez que não com a cabeça. Estava faminta. Na noite anterior, finalmente conseguira fazer uma refeição decente. Porém, em vez de aplacar a ira de seu estômago, parecia que ela o deixara ainda mais furioso com os maustratos que vinha sofrendo nos últimos tempos. E, embora a torta de carne e rins do Devil's Head estivesse muito boa, Hermione estava com água na boca só de pensar em comer um doce.
– Quebrei um enquanto desenformava – disse a confeiteira. – Pode ficar com ele, por conta da casa.
– Oh, não, eu não posso aceitar...
A mulher descartou a recusa de Hermione.
– A senhorita nem sabe se gosta de speculaas. Eu não posso cobrar por algo que experimentará pela primeira vez.
– É claro que pode – retorquiu Hermione, sorrindo –, mas não me farei de rogada.
– Nunca vi a senhorita por aqui antes – disse a mulher, olhando por cima do ombro, enquanto se dirigia à cozinha.
– Vim uma única vez – respondeu Hermione, preferindo omitir o fato de que não comprou nada. – Na semana passada. Quem me atendeu foi um cavalheiro mais velho.
– Era o meu pai – afirmou a mulher.
– Então você é a Srta. Took... hã, Twcr...
Céus, como é que se pronunciava aquele nome?
– Twycross– completou a mulher, sorrindo, enquanto voltava ao salão. –
Só que, na verdade, sou a Sra. Fortescue.
– Ah, graças aos céus – falou Hermione, com um sorriso aliviado. – Sei que a senhora acabou de dizer o sobrenome de sua família, mas acho que eu não seria capaz de repeti-lo.
– Costumo dizer ao meu marido que foi justamente por isso que me casei com ele – brincou a Sra. Fortescue.
Hermione deu uma boa risada, até perceber que ela também dependia do nome do marido. No caso dela, para forçar o maldito major Weasley a fazer direito o trabalho dele.
– Holandês não é uma língua fácil – observou a Sra. Leverett. – Mas se
planeja ficar em Nova York por mais tempo, talvez seja útil aprender algumas frases.
– Não sei quanto tempo ainda ficarei aqui – respondeu Hermione, sinceramente.
Com sorte, não seria muito. Tudo o que ela queria era encontrar o irmão. E se assegurar de que Harry recuperasse as forças. Não poderia, de jeito nenhum, partir antes de garantir que ele estivesse bem.
– Seu inglês é excelente – elogiou Hermione.
– Eu nasci aqui. Meus pais também, mas falamos holandês em casa. Olhe aqui. – Ela ofereceu a Hermione dois pedaços de um biscoito achatado, cor de caramelo. – Experimente.
Hermione agradeceu outra vez, juntando os pedaços quebrados para examinar o formato original, comprido. Depois, pegou o menor pedaço e mordeu uma pontinha.
– Oh, meu Deus! Isso é divino!
– Ah, então a senhorita gostou? – perguntou a Sra. Fortescue, arregalando os olhos com empolgação.
– Como poderia não gostar?
Tinha gosto de cardamomo, cravo e açúcar levemente queimado. Era diferente de tudo o que Hermione já provara, mas, ao mesmo tempo, fazia com que ela se lembrasse de casa. Ou talvez fosse efeito do mero ato de comer um biscoito e ter uma boa conversa. Hermione tinha passado tanto tempo ocupada que mal tivera a oportunidade de perceber que estava se sentindo muito sozinha.
– Alguns dos oficiais dizem que eles são finos e esfarelam demais – observou a Sra. Fortescue.
– Só podem estar loucos – respondeu Hermione, falando de boca cheia. –Embora, se me permite dizer, isso deva ficar perfeito com chá.
– Infelizmente não está nada fácil conseguir chá por aqui.
– É verdade – concordou Hermione, amargurada.
Ela tinha até levado algum chá consigo, mas a quantidade não chegou nem perto de ser suficiente, de modo que, após dois terços da viagem, o chá já tinha acabado. Na última semana, ela precisou reutilizar as folhas e usar metade da quantidade de chá em cada bule, para fazer render.
– Eu não deveria reclamar – disse a Sra. Fortescue. – Pelo menos ainda estamos recebendo açúcar, o que é muito mais importante para uma confeitaria.
Hermione concordou, mordendo mais um pedacinho do biscoito. Queria fazer aquela segunda metade durar um pouco mais.
– Os oficiais sempre têm chá – comentou a Sra. Fortescue. – Pode não ser muito, mas ainda é mais do que o restante de nós.
Harry era oficial. Hermione não tinha nenhum interesse em tirar vantagem da riqueza dele – já de seu estoque de chá… Seria capaz de vender parte da própria alma por uma boa xícara.
– Ainda não me disse o seu nome – falou a Sra. Fortescue.
– Ah, perdão. Hoje estou com a cabeça em outro lugar. Sou a Srta. Har… digo, Sra. Potter.
A outra mulher abriu um sorriso, astuta.
– Recém-casada.
– Sim, sim.
"Digamos que seja por isso", pensou Hermione.
– Meu marido – continuou Hermione, tentando não tropeçar naquela palavra – é oficial. Capitão.
– Bem que eu tinha suspeitado – observou a Sra. Fortescue. – Por que outro motivo a senhora estaria em Nova York no meio de uma guerra?
– Sabe, é curioso – comentou Hermione. – Não sinto que estou na guerra. Se não tivesse visto os soldados feridos...
Hesitou, reconsiderando sua declaração. Por mais que ainda não tivesse presenciado nenhuma batalha naquele posto avançado inglês, havia sinais de conflito e miséria para todos os lados. O porto estava cheio de navios-prisão.
Tanto que, quando o navio de Hermione chegou ao cais, a tripulação a aconselhou a se recolher para a parte interna enquanto passavam ao lado das embarcações com prisioneiros.
Segundo contaram, o mau cheiro era absolutamente insuportável.
– Queira me desculpar – disse ela à outra mulher. – Meu comentário foi deveras insensível. A guerra se alastra muito além do front.
A Sra. Fortescue sorriu, mas foi um sorriso triste. Cansado.
– Não há por que se desculpar. As coisas têm estado relativamente calmas por aqui nos últimos dois anos. Que Deus permita que continuem assim.
– Amém – murmurou Hermione. Olhou para fora, pela janela, sem saber bem o porquê. – Daqui a pouco preciso ir. Mas primeiro, por favor, separe para mim meia dúzia de speculaas. – Franziu a testa enquanto fazia contas de cabeça, e viu que tinha no bolso o dinheiro certinho. – Minto, vou levar uma dúzia.
– Uma dúzia inteira? – A Sra. Fortescue deu um sorrisinho provocador. – Espero que a senhora consiga mesmo arrumar um pouco de chá.
– Também espero. Estou comemorando. Meu marido... – e lá estava aquela palavra outra vez – ... está saindo hoje do hospital.
– Oh, sinto muito. Eu não sabia. Mas presumo que, como está saindo, ele já tenha se recuperado.
– Quase. – Hermione pensou em Harry, ainda tão magro e pálido, e se deu conta de que ainda nem o tinha visto fora da cama. – Ele ainda precisa descansar e recuperar as forças.
– Pois ele é um homem de sorte por ter a esposa ao lado.
Hermione assentiu, mas com um nó na garganta. Queria poder dizer que o nó era de sede, por causa do açúcar do speculaas, mas tinha certeza absoluta de que o desconforto fora causado pela consciência pesada.
– Sabe – disse a Sra. Fortescue –, mesmo com a guerra à nossa porta, há muito o que fazer em Nova York. A nata da sociedade ainda dá festas. Não que eu as frequente, mas vejo, de vez em quando, as senhoras vestidas em seus trajes mais elegantes.
– É mesmo?
Hermione ergueu as sobrancelhas.
– Sim, sim. E, se não me engano, haverá uma montagem de Macbeth no John Street Theatre na semana que vem.
– Não me diga!
A Sra. Fortescue levantou a mão, dizendo:
– Juro pelos fornos do meu pai.
Hermione não conseguiu reprimir uma risada.
– Talvez seja uma boa ideia. Faz tempo que não vou ao teatro.
– Não garanto o nível de qualidade da produção – pontuou a Sra. Fortescue. –A maior parte dos papéis será representada por oficiais britânicos.
Hermione tentou imaginar o coronel Dumbledore ou o major Weasley se aventurando na ribalta. Não era uma imagem muito animadora.
– Minha irmã foi assistir quando eles apresentaram Otelo – prosseguiu a Sra. Fortescuet. – Disse que a pintura dos cenários estava muito bem-feita.
Hermione pensou com seus botões que aquele elogio soava mais como um demérito à qualidade da peça. Mas a cavalo dado não se olham os dentes – ademais, ela nem ia mesmo com muita frequência a peças shakespearianas em Derbyshire... Talvez fosse uma boa ideia tentar ir ao teatro.
Se Harry estivesse disposto.
Se eles ainda fossem continuar "casados". Hermione suspirou.
– Perdão, a senhora disse alguma coisa?
Hermione fez que não com a cabeça, mas devia ter sido uma pergunta retórica, pois a Sra. Fortescue já estava concentrada em embrulhar os biscoitos em um pedaço de pano.
– Infelizmente não temos papel – informou a confeiteira, desculpando-se. – Assim como o chá, não tem sido fácil achar papel.
– Melhor assim, pois desta forma terei que voltar aqui para devolver o seu pano – observou Hermione.
De repente, percebeu que tinha ficado feliz com essa perspectiva – a oportunidade de voltar a trocar pelo menos algumas palavras com uma mulher da sua idade. Então, se apresentou:
– Meu nome é Hermione.
– Beatrix – respondeu a outra.
– Muito prazer em conhecê-la – disse Hermione. – E obrigada por... não, não.
Como se diz "obrigada" em holandês?
Beatrix deu um belo sorriso.
– Dank u.
Hermione ficou até surpresa.
– É mesmo? Só isso?
– Você escolheu uma frase fácil – observou Beatrix. – Ainda bem que não me perguntou como se diz "por favor"...
– Ah, nem me diga – falou Hermione, sabendo muito bem que a outra diria assim mesmo.
– Alstublieft – falou Beatrix, com um sorriso zombeteiro. – E não venha me dizer que parece um espirro.
Hermione deu uma risadinha.
– Fico satisfeita em saber dank u, pelo menos por enquanto.
– Não perca mais tempo comigo – tornou Beatrix. – Vá comemorar com o seu marido.
Aquela palavra outra vez. Hermione se despediu com um sorriso, mas não havia muita alegria nele. O que Beatrix Leverett pensaria se soubesse que Hermione não passava de uma fraude?
Tratou de sair da loja antes que as lágrimas conseguissem escapar de seus olhos marejados.
– Espero que você goste de doces, porque eu trouxe... ah!
Harry ergueu os olhos. A esposa tinha voltado com um pequeno embrulho de tecido e um sorriso obstinado. Ou não tão obstinado assim, pois a expressão alegre no rosto dela vacilou e se dissipou assim que ela o viu sentado na beirada da cama, com os ombros caídos.
– Você está bem? – perguntou ela.
Não estava. Harry tinha conseguido se vestir sozinho, mas só porque Hermione havia deixado o uniforme na cama antes de sair. Para ser franco, ele não sabia se teria sido capaz de se levantar para buscar a roupa sozinho. Ele já sabia que estava fraco, mas só foi ter a real dimensão de sua fraqueza quando pôs as pernas para fora da cama e tentou se levantar.
Foi uma cena patética.
– Estou bem – resmungou ele.
– Que bom – murmurou ela, sem convencer ninguém. – Eu... hã... Que tal um biscoito?
Com as mãos finas, ela desembrulhou o pacote.
– Speculaas – disse ele no mesmo instante, reconhecendo o doce.
– Você já experimentou? Ah, mas é claro que já. Esqueço que você já está aqui há anos.
– Não é bem assim – rebateu ele, pegando um dos biscoitos. – Passei quase um ano em Massachusetts. Depois fui para Rhode Island.
Ele mordeu o biscoito. Meu Deus, que delícia. Ergueu os olhos para ela e prosseguiu:
– E, não que eu me lembre, mas parece que também já estive em Connecticut.
Hermione sentou-se de leve na ponta da cama, mal se apoiando. Tinha no rosto aquela expressão de quando não se pretende se acomodar muito em um lugar.
– Os holandeses se estabeleceram em todas as colônias?
– Não, só aqui. – Harry comeu o restante do biscoito e pegou outro. – Já faz mais de um século que essa região deixou de se chamar Nova Amsterdã, mas a maior parte dos holandeses acabou ficando por aqui, mesmo depois que a ilha foi tomada.
]Ele franziu o cenho. Na verdade, não tinha certeza se era isso mesmo, mas essa era a impressão que tinha ao andar pela cidade. A influência holandesa estava espalhada por toda a ilha, desde a fachada em zigue-zague dos prédios até os biscoitos e pães típicos nas padarias.
– Aprendi como se diz "obrigada" em holandês – contou Hermione.
Ele sentiu um sorriso começando a se espalhar em seu rosto.
– Realmente, é um feito e tanto.
Ela lhe lançou um olhar meio contrafeito.
– Suponho, então, que você já saiba como é.
Ele pegou outro biscoito, dizendo:
– Dank u.
– De nada – disse ela, com certa hesitação –, mas talvez seja melhor ir devagar. Acho que não é prudente comer demais de uma vez.
– Acho que não – concordou ele, mas comeu o biscoito assim mesmo.
Ela esperou pacientemente que ele terminasse de comer, depois esperou pacientemente que reunisse forças para se sentar na beirada da cama.
A esposa era uma mulher paciente, pensou Harry. Tinha mesmo que ser, uma vez que havia passado três dias tediosos sentada ao lado de sua cama. Não há muito o que fazer quando se cuida de um marido inconsciente.
Pensou na travessia do Atlântico que ela fizera. Ficou sabendo dos problemas de seu irmão e decidira ir ajudá-lo, mesmo sabendo que poderia levar meses... Aquilo também indicava como ela era paciente. Ele se perguntou se ela às vezes não se sentia frustrada a ponto de querer gritar.
"Parece que ela vai ter que continuar sendo paciente", pensou ele, com amargura. Suas pernas estavam moles como geleia. Mal conseguia andar. O mero fato de ficar de pé já era difícil para diabo, e quanto à consumação do casamento, a tornar a união inteiramente legal...
Isso teria que esperar.
O que, sem dúvida, era uma lástima.
Contudo, ocorreu-lhe que eles ainda poderiam desistir da união, se assim desejassem. Anular um casamento por não ter sido consumado era uma manobra legal um tanto espinhosa, mas, por outro lado, o mesmo valia para o casamento por procuração. Se ele não quisesse continuar casado com ela, tinha quase certeza de que havia escapatória.
– Harry?
A voz de Hermione ecoou em alguma parte remota de sua mente, mas Harry estava tão perdido em pensamentos que nem respondeu. Afinal, ele queria ou não queria estar casado com ela? Se não quisesse, não poderia, de jeito algum, se juntar a ela no Devil's Head. Por mais que talvez não tivesse forças para consumar o casamento, a honra daquela jovem ficaria comprometida apenas pelo fato de dividirem um quarto, mesmo se fosse só por uma noite.
– Harry?
Ele se voltou para ela, devagar, esforçando-se para se concentrar nela. Hermione estava olhando para ele, com evidente preocupação – o que, contudo, não era suficiente para turvar a clareza espantosa dos olhos dela. Ela se sentou ao lado dele, tomando sua mão.
– Tem certeza de que está bem o suficiente para receber alta? Quer que eu vá procurar o médico?
Ele olhou no fundo dos olhos dela.
– Você quer mesmo estar casada comigo?
– O quê? – Um traço de preocupação percorreu a expressão dela. – Não estou entendendo.
– Você não precisa estar casada comigo – disse ele, com cuidado. – Ainda não consumamos o casamento.
Os lábios dela se entreabriram, e Harry percebeu que ela prendia a respiração.
– Achei que você não se lembrava de nada – sussurrou ela, enfim.
– Eu não preciso me lembrar. É uma questão de lógica pura e simples. Eu estava em Connecticut quando você chegou. Nós nunca tínhamos estado no mesmo ambiente antes de você me encontrar neste hospital.
Ela engoliu em seco, e o olhar dele se concentrou na garganta dela, o arco delicado do pescoço, a pulsação sob a pele.
Por Deus, como ele queria beijá-la...
– O que você quer, Hermione?
"Diga que me quer."
O pensamento tomou de assalto a mente dele. Não queria que ela o deixasse. Mal conseguia se pôr de pé sozinho. Ainda levaria semanas para recuperar ao menos metade de suas forças. Precisava dela.
E a desejava.
Mas, acima de tudo, desejava que ela o desejasse.
Hermione passou vários segundos sem dizer nada. Largou a mão de Harry, cruzando os braços com força. Parecia estar olhando para um soldado do outro lado da nave ao perguntar:
– Você está me oferecendo a chance de me liberar do compromisso?
– Se essa for a sua vontade, sim.
Devagar, o olhar dela encontrou o dele.
– O que você quer?
– Não é isso que está em discussão.
– Acredito que seja.
– Sou um cavalheiro – disse ele, austero. – Satisfarei a sua vontade no que diz respeito a este assunto...
– Eu... – Ela mordeu o lábio inferior. – Eu... não quero que você se sinta preso a mim.
– Não é assim que eu me sinto.
– Não? – reagiu ela, com evidente surpresa.
Harry deu de ombros e disse:
– Eu teria de me casar algum dia, de qualquer maneira.
Se Hermione se sentiu incomodada com a falta de romantismo no comentário dele, não deixou transparecer.
– Eu obviamente concordei com este casamento – declarou Harry.
Amava Dan Granger como a um irmão, mas nem isso seria suficiente, pensou, para que consentisse um casamento indesejado. Se tinha se casado com Hermione, só poderia ter sido por livre e espontânea vontade.
Olhou para ela com atenção. Ela encarava o chão.
Estaria analisando suas opções? Tentando decidir se desejava mesmo ser a esposa de um homem com um cérebro defeituoso? Era possível que ele continuasse naquele estado pelo resto da vida. Não havia nenhuma garantia de que o dano afetasse apenas a memória. E se acordasse um dia sem conseguir mais falar? Ou sem conseguir se mexer direito? Ela poderia se ver forçada a cuidar dele como a uma criança.
Era possível. Não havia como prever.
– O que quer fazer, Hermione? – perguntou ele, notando o traço de impaciência que se infiltrara na própria voz.
– Eu... – Ela engoliu em seco. Quando falou de novo, demonstrou um pouco mais de certeza: – Acho melhor irmos primeiro para o Devil's Head. Não gostaria de ter uma conversa destas aqui, neste hospital.
– Minhas condições não mudarão na próxima meia hora.
– Sim, mas você se sentirá bem melhor quando comer uma refeição que não seja feita de açúcar e farinha. E tomar um banho. E se barbear. – Ela se levantou rápido, mas não o suficiente para esconder o rubor em suas faces. – É claro que lhe darei privacidade para as duas últimas.
– Muito generoso de sua parte.
Ela ignorou a aspereza na voz dele. Em vez disso, apenas pegou o casaco de Harry, que estava atravessado aos pés da cama como se fosse uma faixa escarlate, e o estendeu para ele.
– Nós temos uma reunião hoje à tarde. Com o major Weasley.
– Por quê?
– Ele nos trará notícias sobre Dan. Pelo menos, assim espero. Eu o vi ontem à noite no hotel. Ele prometeu que investigaria o caso.
– E ele ainda não estava investigando?
Claramente desconfortável, Hermione respondeu:
– Aceitei seu conselho ontem e tratei de informá-lo sobre o nosso casamento.
Ah. Então tudo ficou claro. Ela também precisava dele. Harry se forçou a sorrir, mesmo com os dentes trincados. Não era a primeira vez que uma dama julgava que o aspecto mais atraente nele era o seu sobrenome. Pelo menos aquela dama em específico tinha motivos altruístas.
Ela estendeu o casaco aberto para ele. Com certo esforço, ele se levantou, permitindo que ela o ajudasse a se vestir.
– Você vai sentir calor – avisou ela.
– Como você mesma disse, estamos em junho.
– O verão daqui não é como o de Derbyshire – resmungou ela.
Ele se permitiu sorrir com aquele comentário. Nas colônias, o ar no verão ficava bastante desagradável. Parecia quase sólido, como um vapor aquecido até a temperatura do corpo.
Ele olhou para a porta ao longe, respirando fundo.
– Eu... Eu vou precisar de ajuda.
– Todos nós precisamos de ajuda – disse ela, baixinho.
Assim, ela o pegou pelo braço e, bem devagar, sem dizer palavra, eles conseguiram chegar à rua. Uma carruagem os aguardava para conduzi-los ao Devil's Head, que ficava bem perto dali.
# A história começa a se desenrolar… como será a vida de casada?
# Lembrando que toda a obra pertence a Julia Quinn e Personagens de J. K. Rowling
