*********************** Cap 23 Trio Ternura em: Verdades ***********************

— Eu me aproveitei dele — continuou Afrodite, e nessa hora fechou os olhos, baixou a cabeça e respirou fundo. Era difícil se expor, mais ainda admitir seus erros sem direcionar a culpa a nada nem a ninguém, como costumava fazer, porém também era a única maneira de encontrar alguma redenção — Eu sabia que o Saga não estava em seu juízo perfeito, sabe? Lembra o filho da puta do bem? Então, esquece ele. Eu era um filho da puta do mal mesmo, e com pedigree... O Saga, em sua sã consciência, nunca me olharia de outra forma que não como um pai olha para um filho, mas ali, naquela época, eu percebi que ele estava diferente, entende? E eu me aproveitei disso, desse momento de, sei lá, fraqueza? Se podemos chamar assim... então eu vi que ele me deu abertura e usei minhas toxinas para seduzi-lo e conseguir o que queria.

Geisty olhava para ele com a boca aberta e o rosto atormentado.

— Pela deusa!... Por quê? — ela o questionou magoada, num sussurro embargado.

Afrodite suspirou.

Sentia tanta vergonha que seu rosto queimava e o coração palpitava dentro do peito.

Deu de ombros fazendo um bico. Era difícil encarar o olhar inquisidor da amiga, e ainda relutante em verbalizar seus verdadeiros motivos falou a primeira coisa que lhe veio à cabeça, como desculpa.

— Porque eu sou um verme... porque eu não mereço o amor e amizade de ninguém... — disse fungando, torcendo para ser o suficiente para convencer à amiga.

Geisty sentiu como se o sangue lhe escapasse do corpo através de uma sangria profunda; um mal estar incômodo abateu-se sobre si por relembrar aquele passado pesado e amargo.

Não queria tratar daquele assunto. Não naquele momento e provavelmente em nenhum outro, mas principalmente porque se encontrava ferida de todas as formas. No entanto, as relações humanas eram assim; nem sempre as coisas acontecem nas melhores horas, e se para ela aquele de fato não era o melhor momento, para Afrodite não poderia ser em outro. Geisty sentia que ele gritava por socorro, pois que raras vezes o percebeu tão abalado, e que se não lhe desse a chance de expor o que o atormentava talvez não tivesse outra oportunidade. Sendo assim, ela se pegou repetindo um velho hábito, um ritual para quando se encontrava num momento de ansiedade sem a possibilidade de escapar. Entrelaçou as pontinhas dos dedos enfaixados por entre os fios dos cabelos, bem próximo ao couro cabeludo, e os puxou nervosamente enquanto aspirava profundamente e fazendo uma careta devido ao odor forte de rosas que já impregnava o quarto.

— Afrodite, olha para mim e não me enrole — Geisty falou firme, embora não conseguisse evitar que lágrimas também brotassem de seus olhos violetas, e quando Peixes levantou a cabeça e seus olhos encontraram os dela, ela repetiu grave a pergunta: — Por quê?

O pisciano ponderou por um momento, até que puxou a cadeira novamente e se sentou, não tinha mais escapatória.

— Eu sempre fui o preferido do Saga... Antes do Shaka chegar no Santuário, todos os mimos eram meus, sabe? Então Saga perdeu o controle para o Coiso pela primeira vez... Shaka se zangou e se colocou contra ele, mas mesmo assustado, quando o coiso sumiu eu fiquei lá, do lado dele, firme, sempre... E ele também do meu lado, me defendendo quando eu pisava na bola e Mestre Shion queria me dar algum castigo severo. Sempre fomos parceiros... até você chegar. — fez uma pausa e respirou fundo algumas vezes, sentia-se levemente nauseado, mas manteve o olhar firme e preso aos olhos dela — Quando ele trouxe você para cá, eu logo percebi que ele sentia algo forte por você. Eu via! Na maneira como ele olhava para você, no cheiro que o corpo dele exalava quando estava perto de você... No dia que nos conhecemos, você e eu, logo de primeira eu percebi que você não foi com a minha cara.

— Não fui mesmo, mas cazzo, Afrodite, pudera! Olha a situação que eu estava, seu viado insensível! — disse exasperada, com o máximo de controle que conseguia no momento, mas não o suficiente para conter as lágrimas que escaparam de seus olhos e o travesseiro que voava arremessado para o meio do quarto.

— Pois é, acertou no insensível... Eu não me importava — Peixes apanhou o travesseiro no ar e levantou o indicador apontado para ela — Veja bem o tempo verbal, Mosca, não me IMPORTAVA!... Eu senti ciúmes de você, porque eu queria a atenção toda dele para mim. Eu só conseguia pensar que ia ter problemas com você, e consequentemente com o Saga, então entrei numa abilolação uó. O meu coágulo passou a me dizer que você estava tirando o que era meu, que você era uma pedra no meu caminho que eu precisava chutar... Eu só conseguia pensar que tinha que fazer alguma coisa para separar vocês dois e convencer o Saga a mandar você embora, foi então que passei a usar minhas toxinas para seduzi-lo.

Geisty mal respirava.

Se seu olhar tivesse o poder de queimar, Peixes seria nada mais que um toco de madeira esfarelado e completamente carbonizado.

Que Afrodite a princípio lhe pareceu uma pessoa extremamente egoísta e inescrupulosa, capaz de todo o tipo de atrocidades por pura vaidade não lhe era novidade, apenas a aproximação, o convívio e a amizade apagaram tais julgamentos, porém essa faceta do pisciano, pelo jeito, nunca deixou de existir, e isso lhe doía, ainda que ela tivesse conhecido seu lado bom e se surpreendido muitas vezes com este.

— Sem você no meu caminho, eu seria o preferido dele, e eu seria a joia da casa. Único e exclusivo! O mais belo e o mais poderoso!

— E você só conseguiu ser o que fez mais merda naquele cazzo de zona, porca madonna, Afrodite. Não estou acreditando nisso. — resmungou Geisty entre soluços.

Peixes ficou um momento em silêncio apenas olhando para ela, sério.

— É... mas a senhora também me apodrecia muito nessa época, né santa? Assuma — jogou os cabelos para trás das costas e enxugou as lágrimas que desciam por seu rosto — Mas aí eu descobri o plano do Saga, que fez tudo o que fez só para poder ficar com você e protege-la da Vory, e então me dei conta de que você nunca iria embora mesmo... E nem foi por isso que desisti de separar vocês, mas porque eu levei uma surra de cinta da vida. Eu descobri que estava apaixonado pelo Batman e acabei comprando um problema bem maior — suspirou.

Tentando recobrar o autocontrole, a italiana esfregou o rosto com as mãos cheias de talas, tanto para enxugar as lágrimas como para coçar a pele que pinicava devido às toxinas do pisciano. Com um suspiro longo e uma risada triste concluiu algo óbvio para si.

— Você é muito burro, bicha — falou fazendo uma negativa com a cabeça — Oito anos se passaram e até hoje não percebeu o que aconteceu.

Afrodite não se conteve. Emitiu um gemido manhoso fazendo bico e depois, ainda com os olhos encharcados de lágrimas, riu.

— Se eu fosse burro não seria o cavaleiro mais estrategista desse Santuário... Digamos que o meu coágulo, nessa época, estava operando em turnos duplos, em ambos os hemisférios do meu cérebro — brincou.

— Sabe porque eu te perdoei? Mesmo agora? — disse Geisty enxugando com as talas em seus dedos a coriza que escorria pelo nariz, enquanto o coçava vigorosamente — Porque você acha que ludibriou, enganou, abusou, sei lá como chamar isso, do Saga, quando na verdade foi o Coiso quem usou você.

Afrodite não disse nada, o que revelou à Geisty que ele poderia estar em choque ou apenas ponderando, até que momentos depois ele recostou as costas na cadeira e olhando para ela disse:

— Bem... considerando que o Coiso me odeia, eu não sei se procede.

— Ah! Pois eu posso te dizer com convicção que sim, procede... Oh, e como procede! — ela disse com um semblante triste — Pensa comigo. Viver seis anos ao lado daquela versão terrível do Saga me fez enxergar muitas coisas. Aquele demônio se alimenta da fraqueza dele, como uma erva daninha que parasita e transforma seu hospedeiro. Naquela época, eles disputavam constantemente o poder pela autonomia; tudo o que ele fazia visava destruir toda e qualquer base que pudesse fortalecer o Saga... Então, pelo que está me dizendo, e agora conhecendo bem a ele e também a você, para mim está claro que foi aquele cretino do Coiso que fez com que o Saga te desse abertura. Ele me vendeu para o Camus e para o Milo, Afrodite. Saga, em sã consciência, jamais faria isso, assim como nunca transaria com você de livre e espontânea vontade, não acha? Ele influenciava as ações do Saga, o fazia errar, pois errando sabia que Saga se consumiria em culpa atrás de culpa, e ficaria cada vez mais perturbado e frágil. Você acha que seduziu o Saga, mas foi aquele demônio que tornou tudo possível. Ele jogou com a sua vaidade, para te colocar onde ele queria, num quarto de bordel como garoto de programa. E quanto às suas toxinas, cazzo!... Saga também é um cavaleiro de Ouro, ele no mínimo reagiria caso não quisesse cair na sua armadilha entorpecente de sedução, não acha?

Peixes ficou contemplando o rosto machucado da amiga por um tempo, pensativo, então bateu com as duas mãos espalmadas nos joelhos inclinando-se para frente.

— Pelos lóbulos imensos das orelhas de Buda! Então foi um ato mútuo de canalhice! — disse quase num grito.

— Mudou de entidade protetora? — Geisty perguntou com desdém, arqueando as sobrancelhas e erguendo as mãos no ar.

— Dadá deve estar envergonhado comigo — Peixes suspirou afundando-se na cadeira. Seu egoísmo e vaidade, por vezes incontroláveis, o sabotaram mais uma vez, e como em todas as vezes agora sentia-se péssimo. Maldito era aquele impulso incontrolável que às vezes o fazia desejar que o mundo girasse ao seu redor — Na verdade, tudo o que fiz foi ajudar aquela alma sebosa do Coiso tirar vantagem do Saga...

— Sim, você fez — o pensamento escapou alto da italiana.

Um peso no peito o fez puxar o ar profundamente, e sua fisionomia mudou de atormentada para assombrosamente apreensiva.

Desde que era criança manipulava as situações e pessoas a seu favor, e suas maquinações eram tão inconsequentes que sempre lhe rendiam punições severas. A pior delas no Cabo Sunion, quando quase foi morto pelas próprias mãos de Saga, na primeira vez que o geminiano perdeu totalmente o controle para seu lado maligno.

Mas agora talvez estivesse sofrendo a pior punição de todas. Camus o estava deixando.

Um gosto amargo lhe subiu pela garganta apertada e o coração palpitou ainda mais forte. Suas mãos estavam geladas e trêmulas, e um medo terrível congelou seu estômago.

Até quando permitiria que seu egoísmo e vaidade se sobrepusessem ao amor verdadeiro que sentia pelo aquariano? Quantas vezes mais precisaria machuca-lo para sentir-se no controle, sentir-se soberano? Seu amor próprio era tão inabalável assim, a ponto de ferir o único homem por quem sentiu seu coração bater mais forte?

Já tivera tantas provas de que aquele impulso só o levava para o fundo do poço; perdeu seu melhor amigo da adolescência, deixou de ser a joia do Templo das Bacantes para ser apenas um garoto de programa a cumprir ordens sem questionar, menosprezou o amor de Camus e seus presentes caros por uma suruba idiota com três russos, que acabaram mortos pelas mãos do próprio aquariano. Tantas vezes em que sofreu as consequências de seus próprios atos e ainda assim seguia repetindo os mesmos erros.

É, talvez Geisty estivesse certa. Poderia ser um ótimo estrategista em batalhas, um excelente guerreiro, mas na vida pessoal, especialmente na romântica, estava sendo extremamente burro.

— Psiu... ei... bicha, você ainda está aí? — Geisty chamou atenção de Afrodite depois de minutos em que ele ficara em silêncio olhando para o chão emborrachado.

Peixes levantou os olhos para ela, e seu semblante agora era de pura tristeza. Chorava novamente, porém um choro bem mais sofrido, de medo, de arrependimento.

— Queria estar morta! — ele suspirou — Eu faço tudo errado, Mosca. Mesmo quando eu acho que estou certo eu estou errado, e o pior é que eu sei que estou errado, eu só faço porque sou um filho da puta não tão do bem, com pedigree... É o coágulo, sabe?... Agora eu perdi minha amiga, perdi o Batman, e perdi a tarrachinha do meu brinco — passou a mão na orelha, dando pela falta do brinco minúsculo de brilhante — Perdi também o direito à exclusividade da peruca da Cher... Se quiser ainda ser minha amiga, agora ela é sua. Eu fico com a da Dana Sumers.

Geisty esticou o braço com certa dificuldade na direção dele.

— Dá aqui sua mão — ela pediu, e ele imediatamente atendeu segurando firme a mão dela, aos prantos — Eu já te perdoei a muito tempo, justamente por ter consciência de tudo isso. Quando me casei com Saga, eu estava plenamente consciente de que muitos dos atos questionáveis dele foram feitos contra sua vontade, foram influencias daquele maldito demônio. Eu apenas não sabia a sua versão da história, e sim, ela me foi um pouco chocante, mas... Afrodite, você tem sido meu melhor amigo, junto com o Mu, há mais de seis anos, e se você fosse uma pessoa totalmente ruim, jamais seria meu amigo. Perfeito ninguém é. Mas precisa prestar atenção, bicha, porque há erros que não têm conserto.

Peixes fungou limpando o nariz na barra da malha que vestia.

— Tá falando do Saga? — perguntou com a voz fanha já de tanto chorar.

— Se encaixa ao Saga sim, mas estou falando do Batman — disse Geisty — Por que você disse que perdeu ele? Afrodite você fez merda com o Batman, bicha burra? Só sendo muito burro para perder um namorado milionário.

— Ai, Mosca, eu fiz! — num ato de desespero foi arrastando a cadeira até a beirada do leito e então debruçou-se sobre o peito da amazona, chorando copiosamente — Eu joguei um monte de titica em cima dele. O acusei de coisas que ele nem tem culpa, só porque eu sei que é o calcanhar de Aquiles dele, sabe? Eu sabia que ia doer... e agora... agora o maiô tá todo cagado.

— Olha, você sabe muito bem qual é a minha opinião sobre o seu namorado, não vou com a cara dele.

— Ai Mosca, como que você não vai com uma cara de alguém que você nunca viu a cara?

— Não interessa! Mas também sei como ninguém que quando você quer consegue machucar fundo... — olhou com certa zanga para ele, pois mesmo o perdoando lembrava-se bem da dor das palavras e ações dele no passado.

— Vai me gongar você também?

— Cala a boca. Não me interrompe — disse com o dedo enfaixado em riste, só com a pontinha roxa da unha de fora — Se você ama mesmo o Batman, e está disposto a suportar tudo por ele, até fingir que ele não é um cuzão casado com uma coroa endinheirada que sustenta vocês dois, você não pode mais cagar todo seu maiô e esfregar na cara dele. Não adianta falar que ama e não respeitar os sentimentos dele, senão seu amor não vai passar de palavras vazias jogadas ao vento. Você tem que ter o mínimo de bom senso e pensar com o lado do cérebro sem o coágulo, porque, bicha, nem todo mundo é ariano nessa vida para quebrar o pau com você e depois fazer as pazes. E nem sempre o seu pedido de desculpas meloso vai funcionar, pois você pode ter causado mágoas bem mais profundas do que pode lidar. E aí, por mais lindo que você seja não vai ter volta... Por isso, não se esqueça que por baixo da armadura do Batman, existe um Bruce Wayne, um homem apenas, viado, milionário e casado com uma coroa gorda endinheirada.

Afrodite levantou a cabeça, deu uma fungada e soprou uma mecha de cabelo que lhe caia por sobre os olhos

— Lá vem você botar ovos no estado civil do meu namorado. Avoa, Mosca! Quantas vezes vou ter que te dizer que o Batman não é casado com uma coroa gorda?

— Com uma coroa magra, então? Porque é óbvio que ele é casado, por isso que não te assume. Só você que não quer aceitar.

— Eu não aceito porque é delírio dessa sua cabeça, que tem mais franja do que massa cinzenta. Ah, tá boa! — suspirou, já mais calmo, porém não menos apreensivo — O Batman me deu motivos para atacar ele... Ok, eu assumo que exagerei e mandei um truque nele, falei o que não devia porque queria machuca-lo, sabia como, e sabia que ele não tinha controle sobre o que eu o acusei, mas... ele não merecia. Então, Mosca, será que o Saga merece pagar por coisas que estão além do controle dele? Pelos erros do Coiso também? Pensa nisso também? Mas pensa com o coração, porque se você pensar com a cabeça a sua franja vai engolir os pensamentos bons e te deixar só os com titica.

Geisty soltou um suspiro pesaroso e se jogou de costas para trás, nos travesseiros, mas pela falta de um bateu com a cabeça no encosto da cama.

— Aiii! — ela gemeu alto.

Afrodite logo veio ajeitar a amiga lhe colocando sob a cabeça o travesseiro arremessado. Feito isso, inclinou-se sobre ela e lhe abraçou com força.

— Mosca, ninguém é perfeito nessa vida, todo mundo tem um lado torto, e o do Saga, além do pau ser torto, a cabeça também é meio torta, né. Mas ele disse que vai dar um jeito nisso, por ele, por você, por vocês dois... Dá uma chance para ele como deu para mim...

— Afrodite...

— Ah! Falei do assunto proibido, né? A piroca torta. Me desculpa, eu não quis dizer que...

— Afrodite...

— Esquece a piroca torta, Mosca, eu estou falando de amor! Amor verdadeiro!

— Bicha, pela deusa!

— Oi?

— Tá me sufocando! — ela falou entre ofegos, enquanto usava os dedos enfaixados para afastar os cabelos azuis piscina asfixiantemente perfumados de seu rosto.

— Ah! Desculpa! — disse Peixes imediatamente se afastando dela.

— Deuses! — ela exclamou ao se ver livre, e prontamente respirou fundo buscando o ar. Seus olhos estavam vermelhos e irritados — Eu quase beijei na boca de Hades agora... Puta que me pariu dum cazzo, Afrodite! Diminui esse cheiro. Você está me matando sufocada.

— Eu não consigo evitar. Eu tô quase parindo um mastodonte aqui de nervoso, Mosca — ele falou enquanto ia abrir mais a janela para ventilar o quarto — Tô arrasado com tudo isso, com minha briga com o Batman, com você desistindo do amor e ainda indo morar do lado da Shina para pegar sapinho.

— Shina não tem sapinho, bicha. Senão ela já teria morrido depois de todo esse tempo, né! — disse dando uma risada, que logo cessou — E eu não quero mais ter de lidar com esse assunto.

— Do sapinho?

— Não. Do Saga... Especialmente o que deixamos no passado. Não quero mais remoer isso, Afrodite. Nunca mais. Você acha que consegue?

Ela recebeu como resposta um menear positivo de cabeça.

— Ótimo! De resto, eu realmente preciso de um tempo. Do meu tempo. Preciso muito disso — Geisty completou.

— Tudo bem, Mosca — disse apertando os lábios com os dedos como se os fechasse.

— Então está combinado — ela disse em um sorriso fraco que escondia em si uma melancolia, mas estava mesmo decidida a esquecer aquilo — E quanto à peruca da Cher, você a perdeu mesmo. Na próxima noite do pijama ela já vem para minha cabeça.

— Espero que sua franja rejeite ela e ela volte para mim — Peixes brincou, indo apanhar um dos potinhos de pomada que havia deixado sobre a mesinha para besuntar as escoriações mais leves no rosto da amiga.

— Não esperava outra reação vinda de você — Geisty riu.

Momentos antes...

O consultório de doutor Adônis ficava ao fim de um corredor largo e extenso de paredes brancas estéreis que recentemente ganharam um ou outro quadro com motivos infantis, a seu pedido. Crianças eram raras na Ala 5, e Adônis fazia questão de manter seu único paciente o mais confortável possível.

Do lado de fora da porta do consultório, entalhada em madeira e pintada a mão, uma alegre e graciosa ovelha de lã avermelhada e olhos lilases, pendurada logo abaixo da placa com o nome do médico, dava as boas-vindas aos pequenos pacientes. Era para ela que Shaka olhava firme enquanto segurava com a mão trêmula a maçaneta de alumínio. Sua outra mão segurava com força a de Mu.

— O que foi, Shaka? — Áries perguntou com uma vaga apreensão em seus olhos — Você estava com tanta pressa. Praticamente me arrastou pelo corredor... Por que parou?

Virgem olhou para ele angustiado.

— Eu prometi a ele que você seria compatível — disse em voz baixa e consumida.

Mu lhe devolveu um olhar terno. Com a mão que tinha livre, afastou alguns fios do cabelo dele que lhe caiam por sobre os olhos azuis aflitos.

— Não disse que Adônis falou que os resultados dos exames foram surpreendentes? — Mu perguntou.

— Sim... mas notei que ele estava com uma fisionomia estranha — disse Shaka — E não quis me dizer os resultados sem que você estivesse presente.

Mu respirou fundo.

— Sha, se você fez essa promessa ao nosso filho, é porque sabia que podia fazê-la, estou certo? Eu te conheço, Luz da minha vida... Você sentiu algo?

Virgem afirmou com um balançar de cabeça ao modo indiano.

— Então o que estamos esperando?

— Shaka não confia mais no que ele sente...

— Mas o Mu confia — disse, apertando a mão dele com mais força — Você só está com medo, como eu... Anda abra essa porta.

Virgem concordou com outro aceno afirmativo e então abriu a porta.

Dentro da sala, doutor Adônis terminava de fazer os exames físicos em Kiki, que estava sentadinho na maca enquanto era distraído por um pequeno fantoche.

— Olá, doutor! — a voz de Mu chamou a atenção do médico e do pequeno paciente, que olhou ansioso para ele a tempo de vê-lo fechar a porta atrás de si — Desculpe pela demora. Meu marido falou que já está com os resultados, mas queria me ver antes de dizê-los.

— Ah, sim! Por favor, sentem-se — Adônis apontou as poltronas à frente de sua escrivaninha enquanto pegava Kiki no colo e o entregava a Mu. Ficou extremamente espantado ao ver o lemuriano tão machucado. Sabia que ele havia se envolvido em uma briga com outro cavaleiro de Ouro durante a madrugada, mas não imaginou que tinha sido tão grave, até vê-lo ali... Porém, muito educado, logo tratou de disfarçar o susto indo para sua mesa pegar os exames.

— Eu prefiro ficar de pé mesmo — disse Shaka, que nem tentava disfarçar sua ansiedade e nervosismo assombrosos — Os exames deram compatíveis, né?

Da poltrona, tanto Mu quanto Kiki olharam apreensivos, primeiro para Shaka, e imediatamente em seguida para Adônis. Virgem então segurou na mãozinha do filho a sentindo gelada.

— O papai vai poder ajudar o Kiki? — o pequeno perguntou com os olhões lilases arregalados fixos no médico.

Um tanto eufórico e até atrapalhado, Adônis apressadamente retirou várias pastas de papel duro da gaveta. Dentro delas era possível ver várias folhas impressas.

— Por favor, senhores, eu preciso que se acalmem. Prometo que já lhes darei a resposta que tanto querem ouvir — disse encarando a família aflita do outro lado da mesa — Apenas antes preciso esclarecer algumas informações, e também, junto de vocês, tentar entender uma nova situação que nos foi apresentada quando estudamos a fundo as compatibilidades genéticas entre o senhor Mu e Kirian.

Os dois cavaleiros se entreolharam confusos.

— Eu não estou entendendo, doutor — disse Mu apertando gentilmente o filho contra o peito.

— Vai entender — respondeu Adônis olhando para ele, então logo em seguida levantou o olhar para o Santo de Virgem, que estava de pé — Consta na ficha do Kirian que foi o senhor quem fez o parto dele, senhor Shaka.

— Sabe que sim. Já disse a você como foi. Por quê? — Virgem respondeu.

— Certo, e o senhor me confirma que nenhum de vocês dois conhecia mesmo aquela lemuriana?

— Sim — os dois responderam em uníssono.

— E ela também não lhe disse nada sobre o pai biológico do Kirian, senhor Shaka? — insistiu Adônis — Tente se lembrar, porque qualquer informação é relevante e de suma importância nesse caso.

— Doutor — Mu falou antes que o marido pudesse responder; estava muito ansioso — Tudo o que sabemos foi exatamente o que já dissemos. Não houve tempo para conversas... Ela estava muito machucada e em seus últimos momentos de vida.

Mu franziu a testa ferida, desconfiado com o rumo daquela conversa. Lembrava-se nitidamente do rosto da mãe de Kiki, e tirando a semelhança racial entre eles, ela não era mais familiar do que qualquer outra estranha na multidão. Além disso, a coitada mal conseguia falar, quem dirá dizer nome, sobrenome, endereço, filiação...

Estava começando a ficar incomodado com aquelas perguntas e também com o suspense.

Doutor Adônis por sua vez, deixou escapar um suspiro, então abriu uma das pastas, folheou as páginas grampeadas dentro dela e finalmente a colocou aberta sobre a mesa.

— Senhor Mu — disse olhando firme nos olhos dele — O senhor nunca me falou nada significativo sobre sua família. Por acaso conhece a sua árvore genealógica?

— Como assim? — Mu já tinha o semblante totalmente sério e circunspecto.

Adônis foi mais direto.

— O senhor sabe quem são os seus pais?

Visivelmente constrangido, e até um tanto consternado, Mu buscou Shaka com os olhos enquanto ajeitava o filho no colo, que observava a tudo quieto por conta de sua indisposição, embora estivesse extremamente atento.

— Não —- Áries piscou os olhos nervoso. Não gostava de falar sobre aquele assunto — Eu não sei nada sobre minha origem, doutor... Nenhum sobrenome ou mesmo clã, nada. Tudo que sei é apenas o que o meu mestre me disse, que nasci predestinado a ser seu sucessor como o Cavaleiro de Áries e ao ofício sagrado de ferreiro celestial. De onde eu vim, quem eu sou, a que clã eu pertenço e porque fui abandonado ainda bebê e entregue a ele, eram assuntos proibidos que me seriam revelados apenas quando eu atingisse a maioridade muviana, mas... — a voz de Mu foi diminuindo, e uma tristeza lhe abateu de tamanha forma que as palavras sumiram de sua boca a medida em que baixava os olhos.

Os Muvianos eram um povo extremamente familiar, e uma criança ser abandonada era algo tão hediondo e vergonhoso que Mu muitas vezes se perguntou o que fizera seus pais o rejeitarem sem nem ao menos lhe darem um sobrenome.

— Mas Shion foi assassinado antes que Mu tivesse a chance de questioná-lo acerca de sua família — Shaka interveio percebendo o desconforto do ariano.

Adônis respirou fundo e um silêncio se fez no consultório, quebrado apenas quando Kiki questionou curioso, pegando a todos de surpresa:

— Por que está perguntando tudo isso para o papai, doutor? O que tem a ver a mamãe do Kiki com a família do papai?

Com a cabeça encostada no peito de Mu, Kiki sentia sua aura triste, além de absorver toda a tensão do momento. Por mais doente que estivesse, sua inteligência nata não o tinha abandonado, e agora ele também exigia respostas para as dúvidas que lhe surgiram.

— Boa pergunta, meu pequeno e bravo guerreiro — Adônis respondeu com um sorriso e imediatamente virou a pasta na mesa sinalizando aos pais que prestassem atenção nos dados contidos nos papeis — Eu não posso dizer o que a sua mãe tem a ver com a família do seu papai, ou seja, qual é a ligação dela com o Mu, mas o que eu posso te dizer, com base nesses resultados, é que com mais de 98% de certeza, você, pequeno Kirian, tem muito mais a ver com este lemuriano que te segura nos braços do que vocês imaginam.

Alarmado, Shaka inclinou-se apoiando uma das mãos na mesa enquanto olhava atento para os dados nos papeis, sem entender nada.

— O que quer dizer? — Virgem perguntou.

— Quero dizer que Kiki e Mu compartilham em igualdade 12,5% do DNA total.

Novamente a sala mergulhou em silêncio. Mas esse seria bem mais breve.