Capítulo Vinte e Sete

Not According to Plan

(Não de Acordo com o Plano)

O elevador abriu, e Barty e outros três se ajeitaram para abrir espaço para Black e Robards. Preso ao último por uma corrente prateada delicada estava um elfo doméstico trêmulo, e Barty o olhou de soslaio com curiosidade passageira antes de esticar a mão além de uma bruxa minúscula, com cabelos grisalhos, para apertar o botão que fecharia as portas. O elevador começou ir para o lado.

Então congelou, sua boca se abrindo em choque e horror, porque não era um elfo doméstico qualquer, era sua maldita elfo... e o que era aquela coleira em seu pescoço?! Sabia da aventura de Wormtail em Hogsmeade à tarde — todo mundo falava sobre isso no Ministério. Logo no começo eles tinham concordado que era melhor que ele e Wormtail não soubessem nada específico sobre a localização e movimentos do outro, caso fossem capturados, então as notícias do dia tinham sido um choque para Barty. Mas Wormtail tinha escapado e era o que importava. Ninguém mencionara o envolvimento de Winky.

E ainda assim, lá estava ela, presa e na companhia de Aurores, o que não podia ser algo bom. Ela não tinha permissão de saber qualquer coisa que pudesse entregá-los e tinha ordens para não falar dos planos deles, nem como ela estava envolvida. Os Aurores não estavam nem perto, mas se de algum modo eles conseguissem fazer Winky falar, eles estariam de voltar no jogo, e Barty não precisava disso.

Black olhou em sua direção, franzindo o cenho, e Barty soube que ele sentira o cheiro de algo — Wormtail tinha essa habilidade e tinha lhe avisado que Black também a tinha. Xingando em seus pensamentos, Barty olhou mais abertamente para Winky, até Robards pigarrear.

— Desculpe, sei que estou encarando — falou —, mas o que esse elfo está usando? — Pronto, uma reação perfeitamente plausível. Os outros ocupantes do elevador murmuraram sua curiosidade.

— É bastante medieval, né? — perguntou Robards, fazendo uma careta para Winky e sua coleira, mas não falou mais nada e era claro que ele não estava incomodado, porque ele não a tirou.

Barty soltou um som de desaprovação e deixou o assunto morrer aí; quando o elevador anunciou seu andar, ele assentiu para os Aurores e saiu.

Caminhou calmamente pelo corredor até seu escritório, trancou a porta e se sentou para esperar passar o efeito da Poção Polissuco. Quando voltou a ser ele mesmo, tirou três frascos de um compartimento secreto em sua mesa.

Ao primeiro, adicionou um fio do próprio cabelo. Ao segundo, adicionou o cabelo que estava no terceiro frasco e o bebeu, estremecendo quando fez efeito.

Então, levantou-se, o primeiro frasco seguro em suas vestes, e voltou aos elevadores que, agora, estavam vazios exceto pelos memorandos, e apertou o botão do Átrio.

-x-

— ... tentei falar com você antes do Profeta de hoje — falou Padfoot. Harry acenou para Ron e Draco e entrou numa alcova para sair do caminho das portas do Salão Principal.

— Acho que é sobre Hogsmeade ontem, certo? — perguntou Harry com uma careta. Padfoot tinha um olho roxo e um par de mãos, assumiu serem de Marlene, passavam algum tipo de pomada nele. — O que aconteceu...

— Na verdade, você foi pra página cinco — falou Padfoot com um sorriso rápido, mas ele logo se acalmou. — Está em algum lugar que podemos conversar sem que alguém ouça?

— Er... — Harry se afastou do Salão Principal e da conversa que vinha dele. Primeiro, estava indo para outra alcova, mas pensou melhor; decidiu ficar no meio do Saguão de Entrada, onde era cercado por bastante espaço. Ninguém conseguiria se aproximar sem que os visse, nem mesmo Wormtail. — Sim, só fale baixo.

— Bom. Certo, então, para resumir, achamos que o Crouch Jr., mas não temos certeza porque ele não viu quem o atacou, usou o Imperius em um homem para obrigá-lo a tomar a Poção Polissuco...

— O que é isso? — perguntou Harry.

— Uma poção que te faz ficar com a aparência de outra pessoa.

— Foi isso que Wormtail usou para parecer com você?

— Para... sim, mas não é disso que estou falando. — Padfoot balançou uma mão, e Harry deixou que ele voltasse a falar sem interrompê-lo. — Então, esse pobre coitado, o Jessop, estava com a aparência do Crouch Jr., que é o motivo de ele ser nosso principal suspeito, já que a poção precisa de cabelo, unha, sangue ou qualquer coisa... A ordem dele era ir atrás da Winky. — Harry ergueu as sobrancelhas e, surpreendentemente, Padfoot abafou a risada.

— É — falou Harry, sarcástico —, hilário.

— Não devia ser — falou Padfoot, acalmando-se. — Até onde sabemos, Jessop foi escolhido aleatoriamente no Átrio do Ministério, e podia ter sido horrível... só que... ele é um Aborto. — Os ombros de Padfoot tremeram com a risada abafada. — Ele conseguiu me dar um bom soco, mais porque me pegou de surpresa, mas eu o Estuporei logo depois e acabou aí.

Ainda bem — falou Marlene de algum lugar. Suas mãos pararam de se mexer. — Você teve sorte, Sirius, e...

— É — falou Padfoot, olhando por cima do ombro —, e é bom ter sorte para variar. — Ele se virou para Harry, sorrindo.

— Então eles não pegaram a Winky?

— Não — respondeu Padfoot. Ele fez uma careta quando Marlene voltou a mexer em seu rosto e, quando voltou a falar, foi num tom tão baixo que Harry não teria conseguido ouvir se não fosse por sua audição excelente. — E se tentarem de novo não faz diferença. Eu passei a noite a questionando e demorou um pouco, mas conseguir fazer com que ela falasse.

— Como? — perguntou Harry, surpreso, mas seguiu Padfoot e manteve a voz baixa. — Ela não teria ordens para ficar quieta? — E mesmo se não tivesse, no dia anterior tivera a impressão de que ela amava tanto seus mestres que nunca se voltaria contra eles.

— Foi ideia de Scrimgeour na verdade; nós negociamos. Uma sentença menor para o Crouch Sr. e privilégios para que Winky possa visitá-lo desde que concorde em usar a coleira enquanto estiver lá. — Harry assentiu lentamente. — E leniência para o Crouch Jr.; o Ministério queria que ele e Peter fossem Beijados ao serem capturados, mas a condição de Winky era que Crouch fosse poupado e colocado em Azkaban, onde ela poderá visitá-lo.

— Valeu a pena? — perguntou Harry, mordendo o lábio. Olhou ao redor do Saguão de Entrada. As pessoas ainda desciam as escadas para o café da manhã. Hermione desceu com Ginny e Colin, que pareciam entretidos numa conversa. Quando Hermione olhou para ele e desviou os olhos, o coração de Harry se afundou. Falaria com ela quando acabasse sua conversa com Padfoot, decidiu. Não podia dizer que sentia muito por ter pedido para usar o Vira-Tempo e ainda estava desapontado por ela ter se recusado, mas também sabia que não tinha lidado bem com a situação e que tinha a chateado e por isso ele sentia muito.

— Winky colocou Peter aí dentro no começo do semestre — falou Padfoot, chamando sua atenção. — Ela aceitou trabalhar na cozinha, porque Crouch queria que ela estivesse aí para ajudar Peter se ele precisasse. Mas pelo que eu entendi, não tem afeição entre eles, especialmente depois de ele ter mandado que ela me atacasse ontem para pegar meu cabelo. Pelo jeito ele é um homem horrível e vil, e ela não gosta do fato de que ele trabalha com seu mestre. Infelizmente — suspirou Padfoot —, ou Peter está paranoico ou ele também não gosta muito de Winky; ontem foi a primeira vez que eles tiveram contato direto desde que ela o levou até aí. — Padfoot fez uma careta, e Harry tinha certeza de que sua expressão era desapontada.

— Então ela não sabe onde ele está se escondendo?

— Ela não tem ideia — respondeu Padfoot com uma careta. Uma cadeira arranhou o chão em algum lugar atrás dele; Harry achou que Marlene tinha desistido do rosto de Padfoot (coberto por uma pasta azul) e se sentado. — O que sabemos é que ele está no castelo, mas aí não sabemos por que ele não aparece no mapa, ou ele está em algum lugar próximo. Nós também sabemos que onde quer que ele esteja, ele tem acesso direto ao Flu, já que você o viu falando com Voldemort.

— Certo — falou Harry lentamente.

— Então, Robards e eu vamos dar uma olhada na Casa de novo. Peter não estava lá no começo do ano, mas ele pode ter ido pra lá nesse meio tempo. — Padfoot deu de ombros. — Dumbledore mandou os retratos procurarem o ano todo, mas se eles não o viram até agora, duvido que sejam de muita ajuda. Ele e Fudge vão se encontrar agora de manhã para conversar sobre medidas de segurança adicionais para a escola.

— E Crouch?

— Nada — respondeu. — A última vez que eles tiveram contato foi quando ele mandou que ela aceitasse o trabalho em Hogwarts. Ela não sabe onde ele está, nem sabe nada sobre Voldemort ou Polkov.

— Então foi uma completa perda de tempo? — perguntou Harry, desapontado. — Ela não sabe nada que nós não teríamos adivinhado.

— O principal é que Peter perdeu uma aliada importante aí no castelo — disse Padfoot. — Mesmo que ele não a usasse muito antes, agora ele não tem nem a opção. Quanto ao resto, nós pudemos deduzir algumas coisas... — Padfoot sorriu. — Primeiro, é improvável que tenha sido Peter a ver Winky ser levada para questionamento, o que significa que Crouch ou algum aliado a viu no Ministério. Mas, a não ser que o espião soubesse pelo que procurar, ele não teria reconhecido Winky, então achamos que deve ter sido o próprio Crouch. É óbvio que ele tem acesso a Poção Polissuco, já que ele a deu para Jessop, o que complica um pouco as coisas... Robards está procurando por alguém que possa ter visto Winky no Ministério. — Padfoot fez uma careta, e Harry supôs que ele não invejava a tarefa de Robards.

"Segundo, Crouch só mandaria alguém atrás de Winky por dois motivos: o primeiro é que ele estava verdadeiramente preocupado com ela e não a queria sob a custódia dos Aurores, a segunda é que ela sabe algo, algo que não conseguimos descobrir com nossas perguntas, ou que ele não sabe o que ela pode saber, o que significa que ele não está em contato com Peter." Os olhos de Padfoot brilharam.

— Por que isso é bom? — perguntou Harry, olhando ao redor para se certificar de que ninguém ouvisse a resposta de Padfoot.

— Porque podemos tentar atrair Crouch com informações falsas. Fazê-lo pensar que estamos chegando perto e esperar ele atacar ou errar.

— Desde que ele não acabe te enganando — falou Marlene. Harry não conseguia vê-la, mas imaginou que ela estivesse com uma carranca; quase um ano antes, ela tinha sido enviada para St. Mungos por Crouch e passara semanas se recuperando, mas ainda escapara com poucas consequências. Hemsley, o antigo parceiro de Padfoot, tinha sido morto na mesma armadilha.

— Vamos tomar cuidado — garantiu Padfoot. Seu braço sumiu do espelho quando ele a tocou. — Além disso, não queremos mentir tanto que ele logo perceba o que estamos fazendo. — Voltou sua atenção para Harry. — E isso nos leva ao motivo de eu querer falar com você, além de te atualizar. Skeeter estava rondando ontem à noite — Padfoot praticamente rosnava —, então a história do Profeta é uma besteira completa...

— E você está sendo gentil. — Marlene não soara nada impressionada.

— ... mas amanhã nós vamos inventar alguma coisa para incomodar um pouco o Crouch. Então, não fique em pânico se as coisas parecerem um pouco piores do que são ou se o que for publicado não fizer sentido com o que já sabemos. Você vem passar o natal em casa em alguns dias — o estômago de Harry se apertou com esse lembrete —, mas até lá não corrija o que o Profeta publicar onde possa ser ouvido. A última coisa que precisamos é que Peter fique sabendo do que estamos fazendo e arruíne tudo.

— Certo — falou Harry, assentindo.

— Bom — disse Padfoot. — É só isso mesmo, mas vou ter que falar de novo com você hoje à noite, ou amanhã logo cedo...

— Mais sobre isso tudo? — perguntou Harry, curioso.

— Não, planos para a estação amanhã e sobre como você vai para a Rua dos Alfeneiros e tudo o mais.

— Ah — falou Harry. Não sabia como se sentir e, por isso, não sabia que expressão apareceu em seu rosto, mas fosse qual fosse, fez Padfoot fazer uma careta.

Ele abriu a boca e a fechou antes de dizer:

— Vou te deixar ir tomar café. — Harry duvidava que era o que ele ia dizer desde o começo, mas ficou tão aliviado por não precisar discutir os Dursley ainda que não se importou muito.

— Tá bom. Tchau, Padfoot. Tchau, Marlene.

— Tchau, Harry. — O espelho apagou, e Harry o guardou, indo para o Salão Principal, seus pensamentos nos Dursley e no tempo que ia passar com eles. Logicamente, sabia que tudo provavelmente ficaria bem. Era só que não os via havia anos e, apesar da ajuda de Petunia antes do julgamento de Padfoot, eles nunca tiveram um relacionamento bom. Não sabia o que esperar, não sabia como se comportar perto deles; quase tinha tanto medo de eles serem perfeitamente adoráveis durante sua estadia (porque não teria ideia de como lidar com isso) quanto de ser jogado de volta em seu armário, sem varinha, no instante em que Padfoot fosse embora.

Harry se afundou no assento ao lado de Ron, que olhou para seu rosto, trocou um olhar alarmado com Draco e começou a fazer perguntas. Hermione não estava sentada com eles. Ela estava um pouco mais pra baixo, sentada com Ginny e Colin.

— Então, o que aconteceu? — perguntou Ron, parecendo doente. — Ele está bem?

— Ele? Quem? — perguntou Harry, desviando os olhos de Hermione.

— Sirius! — falou Ron com urgência. Um grupo de alunos do quarto ano sentado ali perto ficou imóvel. Harry supôs que eles ouviam a conversa. De fato, várias pessoas o olhavam, não apenas na mesa de Grifinória. — O jornal disse que ele se machucou feio, que Pettigrew o pegou...

— Pettigrew? — perguntou Harry, perplexo. — Mas Padfoot... ele está bem.

— Ah, bom — falou Ron, parecendo aliviado.

— Eu te disse que a Skeeter não é confiável — falou Draco, mas ele também tinha relaxado quando Harry falara que Padfoot estava bem. Sua atenção voltou para o livro, um dos que Padfoot lhe mandara na noite anterior, que estava apoiado na jarra de suco.

Ron murmurou algo tão baixo que Harry não ouviu e lhe passou uma cópia do Profeta.

— Acho que ela não gosta do Sirius, cara — falou ele, triste. Os cartazes de procurados de Wormtail e Crouch olharam feio para Harry sob a manchete.

ATAQUE NOTURNO AO MINISTÉRIO!

Por Rita Skeeter

Nesta madrugada houve um ataque ao Departamento de Aurores do DELM que abalou o centro do mundo bruxo. Apesar de o Departamento de Aurores não ter reportado nada sobre os eventos da noite e quem pode estar por trás deles, todas as evidências apontam para Peter Pettigrew e Barty Crouch Jr.

O Auror Sirius Black, questionavelmente nomeado para essa posição há alguns anos em uma manobra não ortodoxa dos membros mais antigos do DELM, foi o alvo desse ataque ousado. Ele não é visto desde o ataque e, portanto, não estava disponível para comentar o caso, podendo-se especular se essa ausência é por causa dos graves ferimentos ou se é a vergonha de ter permitido que Pettigrew mais uma vez fosse melhor e fugisse (para saber mais sobre como Black não conseguiu prender Pettigrew após o ousado ataque a Hogsmeade ontem, leia a página 5)...

Harry jogou o jornal na mesa com uma carranca e não teve interesse em ler o resto da matéria. Levantou-se.

— Aonde você vai? — perguntou Ron. — Você acabou de...

— Hermione — falou Harry, inclinando a cabeça na direção dela. De repente, Ron parecia cauteloso, e Draco ergueu os olhos de seu livro, cheirando à preocupação.

— Por causa da matéria? — perguntou Ron, cauteloso. Draco o observava com atenção. Ocorreu a Harry que eles achavam que ele podia culpar Hermione pelo que tinha acontecido no Ministério, e ele os olhou feio por pensar tão pouco de si. Uma parte sua, que soava vagamente como Moony, lembrou que ele tinha feito por merecer depois de todas as coisas que tinha dito a Hermione.

— Para me desculpar na verdade — falou um pouco tenso.

Ron, pelo menos, teve a decência de parecer envergonhado, mas Draco apenas murmurou:

Finalmente.

— Boa sorte — falou Ron quando Harry se virou.

-x-

Hermione afastou o jornal, as lágrimas cutucando seus olhos. Ginny, sentada ao seu lado, o pegou e hesitou, mas começou a lê-lo, com Colin espiando nervosamente por cima de seu ombro.

— Primeiro Hogsmeade e agora o Ministério? — perguntou ele.

— Shh — falou Ginny, seu rosto ficando lentamente vermelho ao ler o artigo. Hermione brincou com seu café da manhã, já não se sentindo tão faminta.

Ela sabia, é claro, que não era sua culpa Pettigrew ter invadido o Ministério e atacado Sirius, sabendo que dar o Vira-Tempo a Harry — como ele tinha lhe pedido no dia anterior — não teria impedido que acontecesse, mas duvidava que Harry veria as coisas assim. Pelo jeito Sirius tinha se machucado, e provavelmente tinha sido grave se ele não estivera disponível para comentar. Hermione secou os olhos discretamente — ou foi o que achou — com a manga da blusa.

Mas pelo jeito não tinha sido tão discreta quanto achara, porque Ginny lhe passou um guardanapo. Um momento depois, Ginny passou o jornal para Colin, que ficara vesgo ao tentar lê-lo e sumiu atrás dele. Ginny não falou nada ao voltar a tomar seu café da manhã, mas ela franzia o cenho. Será que ela também culpava Hermione?

Mas Ginny não olhava para Hermione, ela olhava para Harry, que tinha acabado de entrar no Salão parecendo particularmente deprimido. Ginny parecia menos brava e mais preocupada enquanto Harry se sentava ao lado de Ron. Hermione engoliu em seco.

Ao passar por Ron e Draco naquela manhã, os dois pareciam confusos o bastante para que ela soubesse que eles esperavam que se sentasse com eles, e isso confirmara que não guardavam rancor dela por causa do acontecia entre ela e Harry. Mas ela não estivera pronta para lidar com Harry naquela manhã, já que ele ainda não se desculpara nem fizera um gesto amigável — como Ron e Draco com o jantar da noite passada —, então ela ficou com Ginny e Colin.

Suspeitava que Ginny entendera o que estava fazendo, porque ela normalmente se sentava com Hermione e os meninos ou pelo menos perto deles, mas ela escolhera se sentar a quase meia mesa deles. Hermione era grata por isso e gostava de passar o tempo com Ginny, mas seu lugar não era ao lado dela e de Colin. Seu lugar era com os seus meninos.

— Acha que ele está bem? — perguntou Ginny, e Hermione não sabia se ela falava de Harry ou Sirius. Hermione observou Harry aceitar a cópia do jornal que Ron lhe ofereceu, observou-o franzir o cenho e o deixar de lado, observou-o trocar algumas palavras com os outros dois e ir em sua direção. Hermione estremeceu. Ginny se remexeu ao seu lado.

Sim, ele a culpava totalmente, e parecia que ele ia lhe dizer o quanto — ou tentar... Ron e Draco pegavam suas coisas — inclusive o café da manhã — e seguiam Harry, mas não perto o bastante para que estivessem envolvidos no que estava prestes a acontecer. É claro, ao não se envolverem e ao não tentarem impedir Harry de dizer as coisas horríveis que ele queria dizer, eles deixavam bastante claro do lado de quem eles estavam.

— Vai embora — falou Hermione assim que Harry estava perto o bastante para ouvir. Só era grata por sua voz não ter falhado.

— Hermione — começou Ginny, encolhendo-se. Hermione franziu o cenho para ela antes de voltar sua atenção para Harry, que não tinha ido embora.

— Preciso falar com você — disse Harry, franzindo o cenho.

— Eu não quero falar com você — respondeu. — Acho que você já falou o bastante ontem, e realmente não estou interessada em ouvir sobre a pessoa horrível que eu sou! — Harry abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Então, ele lhe deu as costas e foi embora. Hermione não conseguia acreditar na sua sorte.

— Pra que você fez isso? — perguntou Ron, dando um passo pra frente. — Ele ia se desculpar! — Hermione bufou, zombeteira, e as orelhas de Ron ficaram vermelhas. Draco olhava de um para o outro, o cenho franzido, e Ginny... estava bastante pálida, na verdade, e apoiada em Colin, que olhava alegremente para a frente do Salão.

— Brilhante — disse ele, gentilmente se afastando de Ginny. O rosto dela ficou tenso e ela murmurou algo para si mesma enquanto Colin pegava sua mochila. — Passei o ano querendo tirar fotos dos Dementadores, e como os Aurores estão aqui, vou conseguir tirar uma sem ser atacado!

Hermione olhou para a frente do Saguão, onde o professor Moody e dois Aurores entravam por uma porta lateral com dois Dementadores logo atrás.

O olhar que Ron deu para Hermione era ao mesmo tempo apologético, exasperado e magoado, e ele saiu correndo atrás de Harry.

Continua.