*********************** Cap 24 Família, família Papai, maman, titio! ***********************

Hospital de Atenas, Ala 5

Nenhum dos dois cavaleiros era um profundo conhecedor de genética, mas aquela informação surpreendente fora o suficiente para lhes colocar a par de que algo estava acontecendo ali.

— Como... — Shaka olhou para Adônis fixamente, os olhos azuis celestes arregalados. Em sua cabeça, um nó imenso ganhava forma e proporções gigantescas — Como isso é possível? Está dizendo que...

Mu subitamente o interrompeu quando a surpresa e ansiedade que queimavam dentro de si explodiram para fora.

— Isso deveria significar o que exatamente, doutor? Pelos deuses do Olimpo! — ele perguntou com a voz em volume mais alto do que pretendia, visivelmente alarmado por aquela impensável revelação. As pintinhas em sua testa desniveladas, uma para cima, outra para baixo — 12,5% do DNA total é... isso quer dizer que eu sou compatível? Que posso ser doador? — perguntou já sem muita paciência, enquanto em seu colo, agitado Kiki demonstrava ter a mesma pressa, ora olhando ansioso para o médico, ora levantando a cabeça para buscar os olhos dos pais e, quem sabe, encontrar neles uma prévia da resposta que ansiava ouvir.

— É mais do que isso, não é, Adônis? — soou aflita a voz de Shaka, que mal conseguia respirar, tanto devido à tensão e expectativa difíceis de controlar, quanto pelos tantos questionamentos que já começavam a eclodir em sua mente.

Adônis respirou fundo e apoiou os cotovelos na escrivaninha cruzando os dedos. Olhou sério para ambos os cavaleiros, então sorriu para Kiki com a docilidade de sempre.

— Sim, é bem mais do que isso. — explicou — Senhor Mu, o senhor não apenas é compatível com Kiki, mas também é um doador direto e com elevados níveis de semelhança genética. E é por esse motivo que eu posso dizer, com toda a segurança que me cabe, que o senhor e Kiki são parentes próximos.

— O que?! — Mu inclinou-se na cadeira apertando Kiki contra seus braços, genuinamente chocado.

De pé, Shaka endireitou a postura e tapou a boca com uma das mãos frias, perplexo.

Kiki, embora aquela conversa ainda não lhe fosse totalmente clara, sentia o coraçãozinho bater forte e acelerado, em expectativa pelo desenrolar do que o médico havia dito, porém muito mais eufórico por tê-lo ouvido dizer que Mu era compatível.

— Eu sei que parece loucura, mas vou explicar — disse Adônis ajeitando-se na cadeira — Os testes de compatibilidade genética que mandei fazer, revelaram uma porcentagem correspondente ao parentesco de 12,5%. E o que isso quer dizer? Bom, quer dizer que Mu é comprovadamente um parente em terceiro grau de Kiki, e com essa contagem ele seria bisavô, em uma linha vertical, ou tio, em uma horizontal. Como nós sabemos que o senhor Mu não tem filhos legítimos, biológicos, além de ser jovem para ter bisnetos, a primeira opção está totalmente descartada, o que nos leva a abraçar a segunda. Sendo assim, embasado nos testes genéticos, eu posso assegurar que o pai do Kiki é seu irmão de sangue, senhor Mu.

No silêncio aterrador que se fazia na sala, uma interjeição de espanto escapou da boquinha de Kiki.

— É verdade isso, Baba? — ele perguntou em voz alta e agitada, virando a cabeça para Shaka, já que era sempre o pai loiro a lhe sanar as dúvidas mais urgentes.

Mas Virgem não lhe soube o que responder.

Perdido em sua própria perplexidade, Shaka encarava Adônis sem nem ao menos piscar, enquanto Mu parecia paralisado, completamente em choque.

Percebendo o estado dos dois, quem respondeu ao garotinho foi Adônis, que seguiu lhes explicando os detalhes.

— Sim, Kiki, é verdade — o médico disse sorridente, recuperando a atenção do pequeno lemuriano — Há alguns pontos que facilitam a compreensão dessa realidade. Um deles é sabermos estar lidando com um cálculo amostral muito reduzido, devido existirem muito poucos indivíduos de sua espécie, e, no nosso banco de dados, apenas você, Mu e alguma coisa que Shion deixou com os poucos recursos da época, o que nos levou a repetir os testes diversas vezes para que não houvesse duvidas, já que, obviamente, há um certo grau de consanguinidade na geração dos filhos quando se trata de uma raça quase extinta. No entanto, quando nós notamos o elevado grau de semelhança genética que havia nas suas amostras, eu tomei a liberdade de aumentar a quantidade de regiões genéticas testadas, para garantir a qualidade e a confiabilidade dos resultados.

— O Kiki não entendeu — resmungou perdido o garotinho, chamando a atenção imediata de Shaka, o despertando momentaneamente do choque.

Com a mão trêmula e gelada, Virgem afagou os cabelinhos ruivos de Kiki, sem tirar os olhos do médico.

— Como sabe que esse parentesco vem do pai biológico do Kiki, e não da mãe? — Shaka questionou, muito atento ao que ele dizia, mas atento também a Mu, que ainda parecia em choque.

Adônis ergueu os olhos para Shaka e prosseguiu em tom mais sério.

— Bem, devido ao fato de Kiki e Mu serem exemplares do sexo masculino, também analisamos o cromossom DNA mitocondrial de ambos — explicou com eloquência — O DNA mitocondrial vem unicamente da mãe. As variações nele se dão sempre por conta de mutações naturais, porque nunca há troca genética com o pai. O DNA mitocondrial do Kiki e do Mu são significantemente diferentes, o que nos confirma o que eu disse antes: não posso dizer qual a relação parental da mãe do Kiki com a família do Mu, nem se há uma, porque o único rastro que ela nos deixou aponta para outra linhagem, mas justamente por essa diferença, na criança, eu posso dizer sobre o pai. Assim como nos humanos, o cromossomo Y dos muvianos vem dos indivíduos masculinos. Nós usamos esse cromossoma como confirmação das nossas suspeitas, e o de Mu e de Kiki são muito semelhantes. É justamente essa semelhança que aponta que o Y de ambos provém da mesma origem hereditária: o pai. O pai do Mu, que é avô de Kiki... Sendo assim, eu posso afirmar a vocês que o pai do senhor Mu teve, pelo menos, dois filhos com uma mesma lemuriana, passou seu cromossomo Y para seus filhos do sexo masculino e, consequentemente, o seu irmão, senhor Mu, passou o cromossomo Y dele para o Kiki. Está tudo muito claro, como um livro aberto. O DNA nunca mente. Você, senhor Mu, é comprovadamente tio do Kiki.

De repente, um soluço alto ecoou por todo o consultório médico. Mu, finalmente desperto do choque inicial, agora caía em um pranto forte e convulso, deixando transbordar os sentimentos confusos represados dentro de si. Sua cabeça girava, com um milhão de pensamentos desconexos, enquanto as lágrimas jorravam de deus olhos molhando os cabelos ruivos do filho, que segurava muito firme junto ao peito.

O Cavaleiro de Áries nunca se sentiu tão feliz e tão triste ao mesmo tempo.

Seu corpo balançava, suas mãos tremiam e seus olhos turvos já não enxergavam mais nada. Kiki não apenas era seu filho do coração, mas era sangue do seu sangue, a criança que nunca poderia gerar, mas que fora enviada para si por seu próprio irmão... Irmão! A realidade dos fatos então vinha à tona, e como um braço de ferro destroçava sua breve felicidade, uma vez que mal tinha descoberto ter uma família e já a perdera. Seu irmão, quem quer que ele fosse, e sua cunhada estavam mortos, perseguidos por um guerreiro misterioso, e seu sobrinho, seu amado filho, gravemente doente.

Mu não estava preparado para aquilo; sentia-se como se tivesse sido atropelado por um trem, e em seu colo Kiki tinha a percepção exata, através do elo racial, de todas as suas emoções, e por isso mesmo que apesar de não entender completamente o significado das palavras ditas pelo médico, o menino teve uma compreensão muito clara da importância da nova informação. Dessa forma, mal o choro de Mu começou o pequeno se contorceu em seu colo e o abraçou forte, compartilhando com ele aquele momento de emoção.

Ao lado deles, foi só quando ouviu Mu irromper em pranto que Shaka conseguiu se libertar abruptamente do choque. Seus olhos cintilantes, esgazeados como se estivessem olhando para o mais aterrador dos cenários, desprenderam-se do rosto confiante de Adônis e encararam a figura de Mu, encolhida na cadeira aos soluços. Imediatamente ele agachou-se ao lado dele, guardando para si mesmo o turbilhão de questões e cobranças que já se fazia, visto que era de sua natureza pensar que poderia controlar a tudo à sua volta, e envolveu os dois em seus braços, encostando seu rosto no do ariano e lhe beijando ternamente a fronte. Quando podia imaginar que aquela lemuriana carregava o filho de um irmão que Mu sequer sabia que existia? Certamente, se soubesse, teria feito de tudo para leva-la até ele, para salva-la, mesmo ela lhe rogando para que salvasse apenas o bebê.

Agora, o que antes já era um mistério, ganhava ares de tragédia pessoal para eles.

— Shiii, Mu, se acalme... — Shaka sussurrou próximo ao ouvido dele, enquanto também acariciava as costas de Kiki procurando acalma-lo. Sua necessidade de confortar a família era tanta que agarrava-se a eles firme como rocha — Respire...

De sua mesa, Adônis olhava para eles penalizado. Sabia que aquela descoberta poderia ser um marco na vida de Mu, um divisor de águas, talvez, e daria a ele todo o tempo que fosse necessário para digeri-la. Sentiu-se tranquilo ao ver que Shaka, ao menos nessa hora, e contrariando sua expectativa, mantinha-se calmo e espantosamente sereno, bem diferente de todas as outras vezes em que tivera de lidar com o pior daquele cavaleiro cujo comportamento era sempre difícil. Mas ali não. O via falar baixinho com os dois enquanto lhes afagava os cabelos e rostos com toques gentis, enxugando as lágrimas de Áries cuidadosamente, aos pouco os acalmando. Um amor muito grande unia aquela família, e ele rogava aos céus para conseguir ajuda-los.

Foram necessários alguns minutos valiosos para que todos assimilassem aquela informação. Só então Mu conseguiu erguer o rosto e enxugar as lágrimas dos olhos vermelhos.

— Me desculpe, doutor — Áries falou um pouco fanho — Eu preciso de um tempo para pensar nisso tudo.

— Eu sei senhor Mu. — doutor Adônis respondeu paciente — Mas pense pelo lado bom, com um grau de parentesco tão próximo, as chances de haverem complicações no transplante são muito menores... E então, já podemos já marcar a data?

Mu arregalou os olhos e trocou um rápido olhar com Kiki e com Shaka.

— Pelos deuses! — exclamou dando uma fungada no nariz trancado — Com certeza! O quanto antes! Já estamos até na preparação a dias.

— Exatamente. Como só precisávamos da confirmação, creio que em dois dias estaremos prontos, tudo bem para vocês?

Shaka abraçou Mu com mais força e os três afirmaram com um aceno num movimento quase sincronizado.

No corredor onde ficavam os quartos da unidade de terapia intensiva, Mu, sentado na cadeira do meio de uma fileira de três cadeiras, era a pura imagem do tormento. Em seu íntimo, sabia que deveria estar exultante com o resultado dos exames de compatibilidade; não que não estivesse, mas a revelação surpreendente de que Kiki era seu sobrinho, e que por um mísero momento esteve tão perto de ter uma família de verdade do que jamais estivera, havia colocado um peso em seu coração.

Levemente enjoado, Mu baixou a cabeça, e sentindo como se fosse desmaiar apoiou os cotovelos nos joelhos cruzando os dedos das mãos atrás da nuca, respirando pesadamente na tentativa de controlar suas emoções. Não podia arriscar perder-se naquele momento. No quarto ao lado, Shaka e Kiki estavam com Geisty e Afrodite, provavelmente lhes contando a boa nova de que o transplante seria realizado em dois dias, mas ele mesmo não tivera coragem de entrar. Se pudesse, nesse exato momento, estaria longe de tudo, daquele hospital, do Santuário, da sua vida de cavaleiro... Queria recolher-se na solidão de Jamiel para conseguir rearranjar os pedaços de si mesmo, mas sabia que isto não lhe seria permitido, porque precisava estar focado no que lhe era o mais importante no momento, a cura do filho.

Filho...

Kiki era seu filho adotivo e filho legítimo de um irmão que com certeza teria movido mundos e fundos para conhecer, caso soubesse da existência. Mas... Por que Shion o havia privado desse irmão? Será que também não sabia de sua existência? E quem seria o guerreiro que portava uma espada que deu cabo de sua vida e feriu de morte a esposa grávida? E por que motivo o fez?

Mu sentia a cabeça rodar quando ouviu a porta do quarto ser aberta. Ergueu o rosto lívido e ainda chocado viu apenas Shaka sair do quarto.

— Kiki contou tudo a eles... — disse Shaka fechando a porta e indo sentar-se ao lado dele — Ele está feliz como há meses eu não o via! — seus lábios rosados tremiam levemente num sorriso aflito.

— Eu sabia que ele não ia aguentar segurar.

— Ele está muito orgulhoso de ser dois em um, filho e sobrinho — Shaka disse afagando as costas dele para tentar confortá-lo.

Em resposta, Mu apenas fez um aceno de cabeça e uma tentativa falha de sorrir.

— Como você está, Mu? — Virgem perguntou, preocupado com ele.

Áries endireitou a postura e recostou as costas no acento da cadeira dando um longo suspiro.

— Mal... Estou enjoado... — ele respondeu buscando a mão de Shaka e a segurando firme contra seu peito — Não consigo acreditar ainda.

Foi só tocar no assunto que os olhos do lemuriano voltaram a marejar, porém dessa fez ele usou de todo seu autocontrole para não voltar a chorar, apertando forte as pálpebras.

— Eu não consigo parar de pensar no que Adônis disse, e todos os cenários que se formam em minha mente só me trazem angustia e tristeza — abriu os olhos e buscou o rosto do marido — A mãe do Kiki, ela... foi enviada pelo marido em busca de Mu, o Cavaleiro de Áries e Ferreiro Celestial do Santuário de Atena, ela sabia o meu nome, Sha. Entende no que eu estou pensando? Será que meu irmão sabia da minha existência? Será que sabia da nossa ligação e por isso confiou Kirian a mim? E se sim, por que ele fez isso?... Por que, Shaka, em nome dos deuses, ele nunca me contatou antes?

Shaka entendia perfeitamente a dor e angustia que consumia o espírito de Mu.

— Mu... — exclamou, respirando fundo, e correndo os olhos pelo rosto atormentado dele lhe afagou os cabelos lavanda — Muitas perguntas rondam o nascimento do nosso filho, e para muitas delas talvez nunca encontremos resposta, mas eu posso te dizer, com toda a certeza desse mundo, que aquela mulher sabia exatamente quem você era... Eu vi nos olhos dela, que embora tomados pelo desespero, quando olharam para mim se encheram de esperança. Entende o que estou querendo dizer, Mu? Ela não apenas sabia quem você era, como foi muito bem instruída para encontrá-lo. E ela chegou muito perto de nós, só não conseguiu alcançar o Santuário porque estava em trabalho de parto e muito ferida... mas o Samsara me fez chegar até ela para salvar Kiki, nem que para isso eu precisasse viajar no Tempo — fez uma pausa, agora olhando serio para Mu — Com a descoberta do Adônis, eu não tenho dúvidas de que ela e o marido sabiam quem você era. A minha dúvida é por que motivo ela não me disse que era esposa do seu irmão?

Mu suspirou, ainda mais confuso e atormentado, então em um gesto de pura frustração esfregou o rosto com as mãos.

— Não sei. Talvez ela não confiasse plenamente em você...

— Ou ela não podia dizer — disse Shaka pensativo — Mu, tudo o que você sabe sobre si mesmo, sobre sua origem, é apenas o que o Shion te contou.

— E eu jamais duvidei da palavra do meu mestre — disse Mu categórico.

— Não estou dizendo para que duvide, marido, é só que... — Virgem balançou a cabeça, em seguida olhou firme para ele — Alguma coisa nessa história não se encaixa.

— Shaka, quase nada se encaixa — disse Mu voltando-se para ele e pegando em suas mãos — Além disso, há um detalhe simples que estamos esquecendo. Aquela mulher até poderia saber quem eu era, mas ela não sabia quem você era, o meu marido, o meu companheiro... Talvez ela não tenha te falado pelo mesmo motivo que você não disse isso a ela, não tiveram tempo para apresentações descentes.

— Talvez... — Shaka soltou as mãos dele para lhe segurar o rosto pálido com carinho — Mas eu estive com ela, nos meus braços, no meu peito. Eu a encaixei no meu corpo para que ela pudesse pegar Kiki no colo e amamenta-lo ao menos uma vez antes de partir... Mu, eu olhei diretamente para o espírito dela e senti seu desespero em me dizer tudo o que podia, o máximo de informações que conseguisse passar acerca do que aconteceu a ela, para a segurança do bebê, e... algo como ele ser seu sobrinho não seria uma informação importante demais para não ser dita apenas por falta de tempo ou apresentações descentes?

Mu respirou fundo e baixou o olhar, e quando voltou a falar sua voz embargou carregando um enorme pesar.

— Exatamente. E é isso que me atormenta, todas essas dúvidas e incógnitas. Pelos deuses... eu não consigo pensar em um motivo para ela esconder isso de mim, ou mesmo Shion ter me escondido algo... Eu sempre senti que havia algo de errado com o meu nascimento, que Shion me protegia de alguma verdade dolorosa, e esse sentimento agora voltou tão forte...

Shaka encostou a testa na de Mu por um instante, partilhando com ele todas aquelas dúvidas e sentimentos.

— Não podemos nos torturar com isso também. Pode ser apenas obra do acaso. Ela estava muito ferida, e hemorragia pode causar confusão mental... em um primeiro momento chegou até a pensar que eu era você, e eu nem sou lemuriano — afastou-se e afagou face amada com carinho — Sei que temos poucas respostas, mas podemos estar criando perguntas erradas.

Mu recobriu a mão de Shaka com a sua, sentindo todo o conforto que aquele toque lhe trazia.

— Eu sei, você está certo... Nos instantes finais eu estive na mente dela... Eu mostrei àquela mulher todo o amor que eu e você demos ao Kiki, e eu senti a gratidão dela. Isso deveria me confortar agora, mas eu só consigo pensar que deveria ter mandado todas as regras do Universo para o alto e ter corrido para aquela praia assim que ela apareceu lá... quem sabe agora nós teríamos muito mais respostas do que perguntas.

Com todo o cuidado do mundo, Shaka lhe enxugou as lágrimas e depois o puxou para um abraço, aconchegando a cabeça dele na curva calorosa de seu pescoço.

— Sabe que não podia interferir, Mu — disse baixinho lhe afagando os cabelos mais curtos — Tudo precisava acontecer exatamente como aconteceu... Eu sei que quer respostas, eu também as quero, e ajudarei você a consegui-las se esse for o seu desejo, mas por favor... Não pode deixar isso te abalar agora. Não agora, Mu. Kiki precisa de você. Precisa estar inteiro para ele.

Áries apertou ainda mais aquele abraço e deixou que mais lágrimas lhe escapassem dos olhos e molhassem a camiseta de Shaka.

Ficaram unidos por alguns instantes, até que o lemuriano se afastou enxugando os olhos com as mãos para se recompor.

— Você está certo — exclamou ao pôr-se de pé — Nada disso importa agora. Nosso filho vai receber minha medula e eu sou muito grato aos deuses que me fizeram tio dele — estendeu a mão ao marido com o mais próximo que conseguiu de um sorriso — Vem, vamos entrar lá naquele quarto e comemorar essa nossa pequena vitória.

Santuário de Atena

Quando Afrodite voltou ao Santuário, o sol já começava a deitar atrás do monte Star Hill. Decidido, especialmente depois da conversa que tivera com Geisty, a acertar-se com Camus, ele primeiro esperou que Shina voltasse ao hospital, pois que ela iria passar a noite com a amiga, e depois despediu-se dela com a promessa de voltar no dia seguinte.

Antes de subir para Peixes, Afrodite passou no Templo de Baco para resolver alguns pepinos pendentes que faziam parte do trabalho de Mu e de Geisty, já que ambos não retornariam a seus cargos tão cedo, e também para instruir Marin e Misty, a quem pediu para que cuidassem de tudo naquela noite, já que ele ficaria ausente. Marin não o questionou em momento algum, e terminada a reunião deixou o escritório para se arrumar para o expediente que logo teria início, mas Misty ainda ficou lá, sentado em uma das duas poltronas de frente para a escrivaninha, com seu sorrisinho debochado nos lábios pintados de batom rosa claro e seu semblante cinicamente vitorioso.

— Camus está de bom humor? Por isso vai tirar a noite de folga? — ele perguntou cínico, enquanto balançava as pernas freneticamente e fazia uma bola com o chicletes em sua boca.

Afrodite ergueu os olhos para ele, enquanto suas mãos continuaram anotando na ficha de reservas de mesas os últimos nomes a fazer contato naquele dia. Não cairia em suas provocações. Estava demasiado feliz com a notícia do transplante de Kiki, embora surpreso com a novidade de que ele e Mu eram sobrinho e tio, e não deixaria que Misty lhe tirasse do sério.

— Não é da sua conta — respondeu somente, voltando a olhar para as anotações.

— Camus é da minha conta sim, ele é meu amigo, oras — insistiu Misty.

— Quantas vezes vou ter que falar para você não dizer o nome dele aqui, cria do Aqueronte de ventosa — resmungou Afrodite já perdendo a compostura, logo depois apoiou o cotovelo na mesa e apontou para ele com a caneta que tinha nas mãos — Aliás, eu sei bem o que você fez, Lagartixa imunda. Envenenou o Batman com essa sua peçonha de Lagartixa tóxica e fez ele armar um flagrante que nunca existiu. Eu sei que foi você. Não pense que eu sou idiota, bonita.

— Não, eu não penso não, querida. Eu tenho certeza que você é — Misty riu — Afinal se o "Batman" está puto é porque alguma merda ele viu ou ouviu. Ele caiu como um patinho, não foi? — riu mais alto e batendo palmas — Ah, como você é previsível, Afrodite! Para você se enforcar, basta te dar a...

Louco de raiva, Peixes não o permitiu concluir a frase, e sem que ele esperasse, na velocidade esperada de um Cavaleiro de Ouro, conjurou uma Rosa Diabólica em sua mão e a mandou direto no meio das pernas de Lagarto.

— AAAARGH, SUA LOCA! — Misty gritou, do chão, pois que com o tranco do golpe a poltrona se virou para trás — VOCÊ ME ATACOU COM UMA ROSA NO PINTO! BICHA DE MERDA! AAAAHHH

Enquanto contorcia-se no chão, Misty tentava arrancar a rosa cravada na base de seu pênis, já sentindo toda a região adormecida.

— Eu só não quebro a tua cara, Lagartixa, porque dessa vez, só dessa vez, eu caguei muito mais no maiô do que você — disse Afrodite levantando-se da cadeira — Mas o Camus me ama! Ele me ama, ouviu bem? E ele vai entender, e nós vamos ficar bem, como sempre ficamos. Já você... — aproximou-se dele parando bem próximo a seu rosto e lhe encarou nos olhos azuis que faiscaram de raiva — Vai continuar sozinho, porque não suporta ver ninguém feliz, e ao em vez de buscar sua própria felicidade fica ai, vuduzando a felicidade dos outros... Ah! Eu marquei três clientes para você essa noite, então, se o seu pau não subir, como eu sei que não vai por umas boas horas, espero que use sua criatividade e malícia para satisfazê-los. Vai ser péssimo recebermos reclamações de mau atendimento.

Afrodite deixou o escritório sobre gritos, ofensas diversas e protestos de Misty. Era bem verdade que dessa vez a culpa de seu desentendimento com Camus não estava somente nas armações feitas pelo cavaleiro de Prata, e ele estava disposto a assumir os próprios erros e encerrar de uma vez por todas aquele mal entendido com o francês.

Quando subiu as Doze Casas, sentiu o Cosmo de Saga em Gêmeos, e como havia prometido, entrou para dar-lhe notícias de Geisty. Não se demorou ali mais do que vinte minutos, e penalizado pela tristeza do geminiano subiu para a Casa de Peixes convicto a, pelo menos, tentar aplacar a de Camus, além da sua própria.

Ao passar por Aquário sentiu um frio incomum tomar todo o corredor; era o claro sinal que Camus dava a todos que por ali passassem, de que não estava para conversas, tampouco visitas. Porém, a tristeza excruciante que emanava de seu Cosmo apenas Afrodite era capaz de sentir.

Depois de passar quase uma hora sentado debaixo do chuveiro remoendo tudo o que tinha ouvido de Camus, e também o que tinha dito a ele, Afrodite foi para o quarto e enfiou-se no closet abarrotado de roupas, ponderando sobre o que deveria fazer. Por um segundo, sentiu vontade de vestir-se como bem queria e acabar de vez com a farsa de Maman Di, mas apenas por um segundo... A simples ideia de partir o coração de Hyoga lhe era tão aterrorizante quanto a ideia de perder o amor e confiança de Camus, mesmo consciente de que ele nunca o obrigara a se vestir-se de mulher e enganar Hyoga, como o acusou pela manhã. Não era por Camus que mantinha a farsa, era por si. Por isso, muniu-se de todos os pormenores do disfarce e de um vestido elegante de estampa de oncinha, com mangas fofas, gola alta e saia rodada. Prendeu o cabelo com um laço, passou na cozinha para pegar a sobremesa que havia comprado no cominho de volta do hospital e desceu para Aquário com o coração palpitando.

Chegando lá, deu duas batidas na porta de entrada para a área residencial. Não costumava bater, mas o Cosmo de Camus estava tão consternado e arredio que achou melhor não provoca-lo com uma entrada barulhenta e festiva, como era de seu costume. Não queria que ele pensasse que a discussão que tiveram pela manhã não lhe tinha importância, pois que tinha muita, e agora iria ao menos tentar deixar tudo às claras mostrando a ele o quanto se importava.

Não demorou nem meio minuto para que Hyoga viesse atender à porta.

Maman! A senhora demorou. Estou morrendo de fome — disse ele abraçando calorosamente a "amazona" por quem tinha um amor tão grande que seus olhos chegavam a brilhar ao olhar para "ela".

Afrodite sorriu sem graça, retribuindo o abraço.

— Ah, eu sei, me desculpe, meu loirudinho. É que eu queria ficar bonita para os homens da minha vida, né.

— A senhora é a mulher mais linda desse mundo, Maman Di! Não precisa fazer nada para ficar bonita — ele disse, com um sentimento tão sincero que fazia seu coraçãozinho bater forte.

O coração de Afrodite também acelerava sempre que ouvia tais elogios, mas cada pancada que dava em seu peito mais forte sentia sua culpa.

Com um suspiro longo e profundo Peixes sorriu e acariciou o rostinho alegre dele.

— Olha, para compensar, eu trouxe sorvete de chocolate e calda de morango — disse o sueco entregando a Hyoga a sobremesa dentro de um pote elegante de vidro.

— Oba! Adoro sorvete de chocolate. Podemos comer com torresmo! — Hyoga comemorou, já caminhando para a sala — A Dafne fez torresmo para acompanhar o Coq au vin.

— Onde está seu pai? — Afrodite perguntou, não vendo Camus por ali.

— Na biblioteca — Hyoga respondeu em tom bem menos exultante, até um pouco sério demais para alguém de sua idade, então virou-se para Afrodite — Maman, vocês brigaram?

Peixes piscou os olhos e engoliu em seco.

— Hum... não — disse com um muxoxo, fingindo naturalidade — Por que?

Hyoga abaixou os olhos e deu um suspiro.

— Porque o père está muito estranho — falou, e abrindo o pote meteu o indicador no sorvete e levou um tanto à boca.

— Ele tá estranho é?... Estranho como? — Afrodite repetiu o gesto do garoto russo também enfiando o dedo na massa gelada e trazendo um bocado à boca.

— Sei lá... ele me deixou sozinho na Arena hoje de manhã, e sabe que ele faz questão de inspecionar pessoalmente meu treinamento, né. Depois de horas só que apareceu, mais calado que o de costume, e o resto do treino ele nem parecia que estava lá. Quando subimos para cá, ele me mandou estudar sozinho os diários de Degel e do Mestre Yuri... A senhora sabe que sempre fazemos a leitura juntos... E a casa... não que seja um problema para mim, mas tá muito fria, Maman... Eu acho que ele está triste.

— Hum... Vamos fazer o seguinte? Vá colocar o sorvete na geladeira que eu vou chama-lo para o jantar. Aproveito e vejo se descubro o que está acontecendo, tudo bem? — disse embaraçado, pois que sabia exatamente o que estava acontecendo.

Com um beijo na bochecha rosada de Hyoga, Afrodite separou-se dele e foi para a biblioteca. O cheiro de cigarro dava para ser sentido já do corredor, assim como a sensação de frio que se intensificava à medida que se aproximava. Encontrou a porta apenas encostada, então devagarzinho a empurrou e avançando teve a sensação de estar entrando em uma câmara frigorífica. O abajur ao lado da poltrona de leitura estava aceso e a luz amarela trazia uma ínfima e enganadora sensação de calor ao ambiente.

Camus estava ali sentando. Em uma das mãos um livro, do qual seus olhos avelãs não se desprenderam mesmo quando sentiu Afrodite entrar. Na outra mão o cigarro estava já quase no fim. Um meio arco de cinzas formava-se na ponta perigando cair no carpete a qualquer momento.

Afrodite aproximou-se em silêncio, penalizado ao vê-lo tão abatido e triste daquela maneira, mas respeitando o mutismo dele. Logo de cara estranhou o modo como estava vestido, calça de moletom pelo menos uns dois números maiores, ou então a peça era tão velha que já estava toda esgarçada, especialmente nos joelhos e barras tortas que arrastavam pelo chão, uma camiseta bege que ele podia jurar ter sido arrancada do rodinho e vestida, pois que, além de toda manchada, a gola estava tão puída e esgarçada que abrigaria fácil as três cabeças do cão Cérbero, e descalço. O cabelo todo erguido para o alto e preso com um elástico de amarrar notas de dinheiro. Se Camus tivesse um cachorro, teria certeza que aqueles eram os panos que forravam sua casinha, e que ele apanhara para vestir por algum capricho ou desgosto.

Afrodite não se recordava de já ter visto Camus tão mal arrumado e desleixado como agora. Aquário sempre presara por uma aparência impecável e elegante, até mesmo nos momentos mais difíceis e controversos, por isso mesmo era extremamente perturbador vê-lo daquele jeito, mas Peixes tentou ignorar o traje de mendigo e concentrar-se no que fora fazer ali.

— Não há nada mais desesperador para o homem do que, vendo-se livre, encontrar a quem sujeitar-se. Dostoievski — disse em voz mansa e cordial, parado à frente dele — Oi, mon amour.

Camus demorou um pouco, como se terminasse de ler algo, até que levantou os olhos e olhou para ele com certa indiferença. Não pôde deixar de notar, no entanto, que Afrodite estava usando os trajes de Maman Di. Por poucos segundos sentiu-se surpreso, pois que chegou a pensar que nunca mais o veria caracterizado daquela maneira. Sua mente estava mergulhada em um mar de melancolia, e tudo o que conseguia sentir era magoa, além de uma revolta por Afrodite pintá-lo como vilão absoluto naquela história onde os dois dividiam a culpa, embora não pudesse negar que sentiu certo alívio por vê-lo ali daquele jeito.

Salut — ele respondeu fechando o livro do autor citado por Peixes, depois descartou o cigarro no cinzeiro cheio sobre a mesinha ao lado da poltrona — Como non avisou mais cedo que vinha para o jantar, non tive tempo de pedir à serva que fizesse nada de especial.

— Não tem problema — disse Afrodite fazendo uma pausa em seguida — Camy, eu queria...

— Hyoga está nos esperando — Aquário o interrompeu. Tudo o que menos queria naquele momento era ter mais uma "daquelas" conversas com o sueco. Estava farto delas. Eram oito anos de brigas, chantagens e pedidos de desculpas que no dia seguinte eram esquecidos. Camus sentia-se à beira de um colapso; havia tomado uma decisão muito grave pela manhã e simplesmente não via motivos para ficar destrinchando aquela ferida ainda mais, a ponto de enlouquecer de vez. Por isso, rapidamente levantou-se, foi até o pisciano e lhe deu um selinho nos lábios pintados de batom vermelho forte — Venha.

Enquanto Camus já deixava a biblioteca, Afrodite baixou a cabeça e respirou fundo. Seu peito parecia sustentar o peso de toneladas. Nunca havia visto o francês tão abatido como agora. Mesmo quando ele veio até si, anos atrás, com Hyoga nos braços e a notícia da morte trágica de Natássia ele lhe pareceu tão arrasado, tão destruído, pois que, na ocasião, havia também uma raiva terrível encrustada nos olhos dele. Mas agora não. Agora os olhos de Camus eram dois lagos profundos vazios circundados por um anel de tristeza, e Afrodite sentiu-se horrível, já que sabia ser o causador de toda aquela dor. Às circunstancias cabia o restante da culpa.

Calados, os dois cavaleiros caminharam lado a lado até a cozinha onde um garotinho russo devorava a segunda taça de sorvete. Camus o repreendeu sem muita austeridade, mais pelo fato de sentir seu espírito indiferente a qualquer coisa que fosse naquela hora. Somado a isso, as combinações esdrúxulas e preferência por comer a sobremesa antes do prato principal já faziam parte da personalidade peculiar de Hyoga, traços que, talvez, ele tenha assimilado com a convivência com Afrodite, ou simplesmente os dois eram mais parecidos do que imaginava, ou gostaria, que fossem.

O jantar correu bem menos animado e descontraído do que o de costume. Camus mal falou, e quando Hyoga ou Afrodite puxavam algum assunto que exigia sua participação, limitava suas respostas quase sempre a monossílabos. No entanto, o francês não deixou de sorrir quando o filho contava alguma anedota engraçada, não deixou de servir Afrodite, como sempre fazia, demonstrando seu cavalheirismo para com a "amazona" que amava, e até acompanhou Hyoga em uma partida de xadrez na sala enquanto tomava calmamente seu licor de anis, mesmo que quem olhasse para ele visse apenas uma casca vazia, desprovida de alma e de vida.

Ele era como um fantasma, que movia-se e falava apenas quando necessário.

O tempo todo que ficou sentado ao lado de Camus observando a partida, Peixes sentia as cenouras e cogumelos do Coq ou vin atravessadas em sua garganta querendo pular para fora.

Ou eram as palavras que ansiava dizer a Camus que queriam saltar de sua boca?

Felizmente, Hyoga limitou-se a apenas uma partida, e percebendo o clima horrível entre os pais pediu licença e foi para o quarto, os deixando a sós para que pudessem conversar.

Assim que Hyoga saiu, Camus levantou-se e serviu-se de mais uma dose de licor, indo também repor a do cálice de Afrodite, que prontamente se levantou do sofá e ficou de frente para ele.

— Pensei que podíamos ver um filme deitadinhos na cama. O que acha? — disse Peixes, tentando manter-se calmo. Por algum motivo não encontrava a coragem que precisava ter para dizer a ele tudo o que precisava ser dito — Vai passar Titanic naquele canal grego da bandeirinha.

Camus olhou para ele e instantes depois deu-lhe as costas indo devolver a garrafa ao balcão no fundo da sala.

— Sabe que odeio esse filme — ele disse no que mais se assemelhava a um resmungo.

Peixes sentiu o estômago dar um salto e as maçãs do rosto queimarem.

Merda!

Como pôde esquecer que ele detestava Titanic? Ele dizia que lhe lembrava Natássia e o terrível acidente que a matou.

Como podia dar tão pouca importância para os sentimentos de Camus? Para o que lhe feria a alma.

Com esse questionamento, Afrodite decidiu fazer uma nova tentativa, e já que era tão ruim com palavras como era com escolhas, deixou o cálice de licor sobre a mesinha de centro e aproximando-se dele lhe abraçou pelas costas, depositando-lhe um beijo na curva do pescoço.

— Desculpa Camy. Podemos ver outra coisa então, nós dois juntinhos.

Camus demorou algum tempo para responder. Aquele abraço, aquela voz carinhosa... Deuses! Só faziam seu peito doer ainda mais. Como Afrodite podia lhe trazer tanta alegria e dor ao mesmo tempo? Com as palavras ferinas que o sueco lhe dissera pela manhã ecoando em sua mente como um mantra, tomou sua dose de licor e com um movimento cauteloso deixou seu cálice vazio ao lado da garrafa.

A verdade era que queria ficar sozinho, estava muito ferido, magoado e humilhado pela atitude do namorado na briga que tiveram, sem ânimo algum para qualquer coisa que fosse, incluindo tentar explicar isso a Afrodite. Por isso, apenas deu um suspiro cansado, soltou-se do abraço e caminhou até o sofá onde em um gesto mecânico se sentou e ligou a televisão com o controle remoto.

— Venha, escolha um canal.

Olhando para ele, extremamente incomodado Afrodite aproximou-se, mas não se sentou, nem apanhou o controle remoto que ele lhe oferecia, ao em vez disso, parou à frente dele e respirou fundo.

— Se sua vontade de assistir televisão for a mesma de olhar na minha cara então é melhor desistirmos — disse o sueco — Mas tem uma coisa da qual eu não vou desistir, Camus, que é tentar entender a proposta que você me sugeriu hoje pela manhã.

O francês deu um suspiro cansado e piscou os olhos demoradamente, depois levantou uma das mãos até a testa e fez ali um pequena massagem.

— Ah, non... non — abriu os olhos e encarou o sueco — Eu non quero falar sobre isso agora.

— Você querendo ou não, nós vamos falar sobre isso agora — Afrodite insistiu aflito.

Camus olhava para ele como quem olha para uma imagem sacra e faz uma suplica.

— Afrodite, s'il vous plait — fez uma pausa levando a mão ao peito — Eu estou te pedindo. Eu non quero discutir, eu non quero brigar com você... por isso non quero falar sobre isso agora.

— Não quer brigar? — Peixes bateu palmas e apoiou ambas as mãos na cintura — Ah, Camus, pelo amor de Dadá! Você apontou o dedo na minha cara, me acusou de infiel, me propôs um relacionamento aberto, e agora não quer falar sobre isso porque não quer brigar? Então era chilique, gata? Ataque de pelanca?

Muito sério Camus desligou a televisão e se pôs de pé diante do pisciano.

Non — Camus disse em voz baixa encarando firme os olhos de Peixes — Eu falei muito sério, mesmo que non me alegre em nada essa decisão. Pelo contrário, ela me dói mais do que você sequer possa imaginar, Afrodite.

— Mas mulher de Dadá! — exclamou com os olhos faiscantes, e num gesto afoito segurou o rosto dele com ambas as mãos e lhe deu um chacoalhão — Você que está pegando essa dor para você! E por que? Por causa de um beijo mal dado? De uma coisinha matim, sem importância?

Camus encarou fundo os olhos dele, sem piscar.

Quem dera o problema deles fosse mesmo aquele beijo...

— É por isso que eu non quero discutir com você — se calou e engoliu em seco. Abrir o coração como fizera pela manhã tinha sido muito doloroso, assim como admitir a própria derrota sobre sua homossexualidade enrustida; sua autoestima estava destruída. Não sentia-se bem o suficiente para repetir o feito, por isso segurou nas mãos de Afrodite e lentamente as afastou de seu rosto — Se ainda acha que é sobre o beijo que estou falando, então...

— Camus eu...

Afrodite o interrompeu com os olhos estatelados e o coração aos pulos, mas não conseguiu prosseguir.

Ele sabia que não era sobre o beijo.

Infelizmente, por mais que tentasse negar, Peixes tinha plena consciência das tantas humilhações e palavras venenosas que repetia, não apenas naquela briga, mas ano após ano, para de Camus. Usava da homossexualidade dele, dos fetiches de submissão, de sua confiança, para agredi-lo verbalmente infindáveis vezes de forma velada, silenciosa e nociva, como era o veneno oculto em suas belas rosas. E tudo isso para que? Para conseguir se sobrepor a ele, ganhar presentes caros, controla-lo e pela vaidade de ter o poderoso, frio e cruel Camus de Aquário na palma de suas mãos, mas admitir isso era bem diferente, pois teria que admitir a si mesmo seu mais terrível demônio.

Entreolharam-se calados por alguns segundos, então Aquário inalou o ar profundamente e quebrou o contato visual com ele, enquanto tentava ajeitar os cabelos presos naquele coque horroroso.

— Você e eu, Afrodite... já passamos por incontáveis brigas como essas ao longo de oito anos — disse voltando a olhar nos olhos dele — Oito anos!... Eu non posso mais, non suporto mais. Entende? Ou eu descubro uma maneira menos nociva de viver com você ou eu...

— Ou você tenta viver sem mim? — disse Afrodite impacientemente.

Non acredito que conseguiria... — Camus respondeu contraindo os lábios.

— Mas acha que conseguiria viver um relacionamento aberto, santa?

— Por Dieu... — Camus suspirou e então se afastou de Afrodite mais uma vez lhe dando as costas. Extremamente cansado, esfregou o rosto segurando-se para não começar a chorar, enquanto o ar a sua volta esfriava vertiginosamente — Eu non acho nada, Afrodite... Sinceramente? Eu non sei.

— Camus... — Peixes tentou aproximar-se dele, mas desistiu, parando onde estava.

A conversa que tivera com Geisty no hospital reverberava em sua mente e ele tentava encontrar um meio de verbalizar tudo o que era necessário dizer a Camus, enquanto ainda havia chance; as acusações injustas, as ofensas e cobranças ditas na hora da raiva, mas que repetidamente, por oito anos, acabam ganhando um peso de verdades absolutas. Sim, ele tinha consciência de que passava do ponto, de que plantara uma semente horrível dentro do coração do homem que amava sem se importar com o que ele fosse pensar ou sentir, pois que tinha sempre o álibi perfeito para escapar de qualquer acusação e desmontar as defesas de Aquário; seu sacrifício em prol do relacionamento e de Hyoga.

Um comportamento cruel e egoísta, executado sutilmente como as ondas do mar que corroem um rochedo. E para seu completo horror, sentia que agora Camus ruíra completamente.

— Você mesmo disse que tem necessidade de afeto, e que eu sou um repelente... Você non me deixa com muitas opções, non? — o francês continuou, de costas ainda, apenas com o rosto levemente inclinado na direção dele. Não entendia bem o motivo, mas seu peito queimava em expectativa — Você quer sua felicidade, quer sua liberdade, quer suprir sua necessidade de afeto beijando seus amigos, visitando Polifemo naquele inferninho sadomasoquista degradante, enchendo nosso iate de homens... e eu... Eu sou eu! Non tenho nada além do meu inferno pessoal a te oferecer.

— Camy, isso não é verdade!

— Você sabe que é. Se non fosse, eu non o faria tão infeliz.

— Não fala isso. Você me deu tudo, até seu sangue você me deu, eu é que... — interrompeu-se e ponderou por um momento. Partia seu coração ver que Camus não acreditava mais nem em si mesmo, julgando que deveria deixa-lo livre porque não podia dar o afeto e o amor que ele necessitava para não perde-lo de vez. Teria que abrir o jogo e dizer a ele toda a verdade. Admitir que fazia tudo por amor, sempre foi por amor, desde o início, jamais por sacrifício, e com isso devolver ao homem que amava a confiança que o fizera perder. Mas, para tal, teria que admitir algo que detestava. Teria que admitir que o amor que o movera em seu mais profundo ato de egoísmo era seu imenso amor próprio, que vinha acima do amor verdadeiro que sentia por Camus.

Quando tomou coragem e tentou abrir o jogo, Camus virou-se de frente para Afrodite e o fez engolir as palavras.

— Por favor, vamos parar com essa conversa? — ele disse, e sua voz começava a embargar — Chega. Está tarde, eu non quero conversar. Minha cabeça está explodindo, eu quero deitar e esquecer esse dia. Non está sendo fácil para mim... colabore. É só o que te peço.

Afrodite fez um bico e respirou fundo. Em seu íntimo xingou-se de todos os nomes possíveis, dentre eles covarde e desumano. Camus estava lhe dando uma liberdade que nunca tinha desejado, quando era ele quem deveria devolver a liberdade e a auto estima que arrancara do francês nesses oito anos em que o acusou e o fez acreditar que era nada além de uma bicha medíocre que se escondia por trás de um papel de machão respeitado, chefe de uma organização criminosa; uma maricona ridícula com fetiches depravados e indigno de ter um relacionamento verdadeiro.

Como fazer Camus acreditar que não era nada daquilo que o fez crer piamente que era?

Afrodite queria gritar, mas não conseguia.

Olhar a figura sempre altiva e poderosa de Aquário arruinada daquela maneira lhe causava dor e um desespero pungente.

Sem querer pressiona-lo ainda mais, e também sem coragem de dizer o que necessitada ser dito, Peixes fez um sinal com a cabeça e engoliu um soluço.

— Está bem... Se prefere assim... Quer que eu vá embora? — perguntou mesmo já sabendo a resposta.

O francês fechou os olhos.

S'il vous plait... Preciso ficar um pouco sozinho.

Era duro ouvir aquelas palavras, mas nem mesmo Afrodite conseguia permanecer ali, encarando Camus, por isso em silêncio e de cabeça baixa, talvez porque estivesse envergonhado de si mesmo, deixou a sala apressado, com o coração em frangalhos e a cabeça fervendo.

Mal alcançou a porta ouviu um soluço ecoar abafado, não sendo preciso se virar para saber que era o pranto abafado de Aquário.

Aquele foi o gatilho final para que Peixes corresse para fora e subisse as escadas desolado, perdido e desesperado.

Tinha que tomar uma atitude, ou seria ele a perder Camus de vez, e essa possibilidade estava fora de cogitação.