Saudações queridos leitores. Espero que estejam apreciando ler esta fic tanto quanto eu estou apreciando escrevê-la. Os irmãos de Asgard são, sem dúvida, uma companhia mais do que agradável, não é mesmo? Eles estão prestes a entrar no mundo adulto e suas aventuras ficarão mais densas. Muito obrigada pela companhia e vocês e continuem com as Reviews, ok! Um forte abraço.
Aquela estava sendo uma noite memorável. A cerimônia havia sido belíssima e os novos membros do exército asgardiano recebiam a paga por todos os seus esforços.
Os amigos haviam escolhido um lugar um pouco mais afastado para realizarem sua própria celebração. Já haviam comido, bebido e dançado por uma vida inteira. Naquele momento buscavam apenas a convivência que a eles era tão cara.
- Um brinde ao deus do Trovão - Volstag propôs.
- Quantos brindes mais ainda irá me oferecer, amigo? - Thor indagou, segurando a caneca de hidromel.
- Tantos quantos forem necessários para que ele caia desmaiado como um javali após ser abatido! - Fandral respondeu, rindo.
- Se Thor já não deseja meus brindes - Volstag retrucou com a língua embolada - eu dedicarei minha retórica a bela lady Sif! Um brinde a deusa do Combate!
As palmas foram inevitáveis. Sif, mais do que qualquer um deles, havia atravessado o inferno de Hel pra conseguir aquelas insígnias. E mesmo tendo iniciado seu treinamento tardiamente, a jovem quase os enlouqueceu com pedidos de treinamentos extras para que pudesse concluir seus níveis juntamente com eles.
- Deusa do Combate! - Hogun, que chegava naquele momento, levantou sua caneca de hidromel. - Não poderia haver título mais apropriado.
- Temi que Tyr se ressentisse da concorrência... - a moça comentou.
- Longe disso, Sif! - Thor enfatizou. - Viu o discurso dele? Não poderia estar mais honrado por sua homenagem! Que você, nobre lady Sif, inspire a muitas! Que ressurjam as bravas Valquírias!
- Mais mulheres como Sif no exército! - Volstag exclamou. - Não sei se exulto ou se temo! Ai! - gemeu, quando a jovem deu um murro no ombro dele.
- Olhem! - gritou Fandral. - Aí vem mais um! - Salve Loki, deus da Mentira!
Os amigos riram a chegada do jovem que trazia na mão uma sóbria taça de vinho.
- Pela luz de Vahalla, Loki! - Thor exclamou. - Nem hoje você se permite sair dessa austeridade? Vinho?
Loki riu.
- Não questione minhas escolhas, irmão, ou o delicioso hidromel que saboreia nessa caneca poderá se converter em sanguessugas ou aranhas...
- Não! - disse Thor, protegendo sua bebida. - Para trás deus da Trapaça!
- Ele teme que tentemos descobrir seus segredos, caso se embriague! - Fandral explicou.
- Deus da Mentira? Deus da Trapaça? - Loki sorriu maliciosamente, mudando o foco. - Não me recordo de ter recebido nenhum desses títulos.
Mais gargalhadas se seguiram.
- Você fez de Hogun um homem muito rico, Loki - Sif comentou. - Ele foi o único a não apostar nesses títulos.
- Deus dos Disfarces! - Hogun ergueu sua taça de hidromel.
- Não foi esse o título que ele recebeu, Hogun - Volstag observou.
- Sei que não! Mas foi o que mais se aproximou, não foi?
Loki sentou-se, sorvendo um gole de vinho.
- Ainda não acredito que fizeram apostas em torno do título que eu receberia!
- Era de longe o mais aguardado, Loki! Todos os outros já estavam certos.
- Os três lhe serviriam como uma luva, amigo - Fandral comentou. - Embora dois deles não fossem, exatamente, gloriosos.
- Deus dos disfarces soa bem mais elegante do que deus da Mentira ou da Trapaça! - Thor exclamou.
- Odin discorda de você - Loki comentou quase sério. - Ele faz questão de deixar claro o quanto minhas mentiras e trapaças são úteis ao exército.
- Mas evita a todo custo usar essas palavras. Em vez delas… estratégias, dissuasões, armadilhas...
- Disfarces! - Hogun completou.
- E minha magia... e minhas adagas? Não sou feito apenas de maquinações, meus amigos!
- Sabemos que não, Loki - Thor pôs a mão no ombro do irmão. - Mas pela escuridão de Hel! Por que escolher um título tão rebuscado? Sabe que ele permanecerá apenas em suas insígnias, não sabe?
- Claro que sei, irmão. Quis apenas poupar nosso pai do constrangimento que nomear um filho seu com as alcunhas de 'deus da Mentira' ou 'da Trapaça'! Viu como ele estava nervoso quando me aproximei para receber minhas insígnias? 'E você, Loki, filho de Odin, que título pede a seu rei?'
- Pobre Odin! - Volstag comentou. - O que ele fez para merecer isso?
- Poupar nosso pai? Duvido disso, Loki. Você queria mesmo era pregar uma peça em todos nós.
Loki bebeu mais um gole de vinho, mirou-se no reflexo da taça dourada e comentou.
- E consegui.
Thor deu um murro no ombro dele e as gargalhadas se propagaram.
- Um brinde ao deus da Mistificação! - Fandral propôs.
- Um brinde ao deus da Mistificação! - Os amigos responderam.
Hogun aproximou-se de Loki, sentando-se ao lado dele.
- Mistificar - Hogun começou a falar seriamente. - Ato de velar uma certa realidade com o objetivo de ludibriar a credulidade e o bom senso. Tornar algo incompreensível à razão. Exagerar na complexidade ao descrever ou discursar sobre um tema. Disfarçar a verdade. Toldar a realidade.
- Engoliu um dicionário, Hogun? - Loki perguntou visivelmente incomodado com a postura do amigo.
- Mentir. Enganar. Ludibriar. Abusar da credulidade de alguém...
- Onde pretende chegar com isso?
O guerreiro pôs a mão no ombro do deus.
- Odin está certo, Loki. Todo exército precisa de um mistificador. E você é realmente muito bom no que faz, embora seja uma posição arriscada a que você assumiu.
- Arriscada? - Loki indagou, desconfiado.
- É preciso caráter e amor ao bem, Loki, para não se deixar corromper pelo hábito da mistificação. Seu caráter será sua fiança.
Loki baixou os olhos. O comentário inesperado o deixou desconcertado.
- Além disso - Thor comentou. - Nenhum desses títulos diz de verdade o que você é Loki. E nem o que nós somos. Hogun, Volstag e Fandral escolheram não assumir títulos. Serão guerreiros de Asgard, pura e simplesmente, e lutarão igualmente ao nosso lado.
Volstag, como sempre, tomou para si a incumbência de mandar às favas a seriedade do momento.
- Mas eu preciso deixar algo bem claro! - Os olhares voltaram-se para ele. - Deus da Mistificação é uma caca de abre-rombo! Eu vou continuar chamando você de deus da Trapaça e ponto final!
As gargalhadas voltaram a encher o ar.
Sif levantou-se, deixando de lado a taça que trazia.
- A despeito de mentiras e trapaças, preciso ir agora.
- Por que Sif? - Thor lamentou?
- Quando Volstag começa a fazer referências sobre atividades intestinais de criaturas repulsivas, é sinal de que uma lady já não pode permanecer presente.
As gargalhadas foram inevitáveis.
- Durma bem, deusa do Combate! - Fandral puxou a homenagem. Os demais ergueram as taças.
Eles ainda permaneceram conversando por um tempo razoável até que um a um os guerreiros foram se retirando até sobrarem apenas os dois irmãos. Quando a noite já ia alta e eles estavam a caminho de seus aposentos, ouviram uma conversa que vinha do quarto do casal real.
Thor fez um sinal para que Loki ficasse em silêncio e puxou-o pelo braço até se aproximarem porta semiaberta.
Loki o mirou, incrédulo. Se os pais os descobrissem ali, não haveria insígnias ou títulos que fossem capazes de protegê-los.
- Concordo com você, Frigga. Eles estavam magníficos! Estou orgulhoso dos meus dois filhos.
- Confesse que estava ansioso sobre o título que Loki escolheria.
- Sabe que eu estava - Odin respondeu contrariado.
Loki baixou os olhos. Por mais que o pai exaltasse a importância de suas habilidades, sempre havia um certo amargor em seu olhar.
- Ele foi astuto. Não esperaria outra coisa dele - Odin comentou.
- Loki vai se sair bem, Odin. Tem Thor e seus amigos ao lado dele.
O filho mais novo de Odin franziu o cenho. Por que estariam preocupados com ele em especial?
- Sei que acha minha preocupação exagerada, Frigga - Odin sentou-se na cama.
- É seu filho. É normal que se preocupe. Mas acho que tomou mais hidromel do que deveria se está com essas ideias na cabeça.
- Não me odeie por isso, mas às vezes me pergunto se tomei a decisão certa.
Loki sentiu uma facada no estômago e deu um passo atrás. Thor mirou-o. Do que poderiam estar falando?
- Mais nem uma palavra, Odin. Ambos são nossos filhos!
- Mas Loki traz o inverno dentro dele - Odin insistia. - Não finja que não percebeu.
- Thor é convencido demais, às vezes! Todos possuem suas fraquezas, Odin. Até mesmo você!
- Não falo de fraquezas, Frigga. Falo de... - Odin calou-se, temendo as próprias palavras.
Loki deu mais um passo atrás. Uma coisa era sentir que o pai admirava mais seu irmão do que a ele. Outra bem diferente era escutar da boca do próprio pai o que ele havia acabado de ouvir.
- Frigga, espere! - a rainha se dirigiu até a porta.
Os irmãos perceberam. Loki puxou Thor para perto de si, fazendo sinal para que ficasse quieto.
- Conheço Loki melhor do que você, Odin - a rainha disse saindo do quarto e chegando ao corredor.
Loki mexeu a mão e assentiu para o irmão. Estavam protegidos.
- Então não negue o que não pode ser negado - Odin saiu logo atrás dela. - Lembra-se Vanaheim?
Frigga parou e fitou o esposo.
- Uma brincadeira entre adolescentes - ela afirmou.
- A questão é como esses adolescentes chegaram lá, Frigga!
- Por que tem tanta certeza de que Loki estava envolvido? Ninguém viu nada!
- Exatamente por isso! Uma invasão perfeita! Ocultada de todos os olhos vigilantes dos Mestres da Magia! Loki nunca deixa rastro!
Odin e Frigga miraram um ao outro. O rei de Asgard pôs a mão na cintura e soltou um riso fraco. De alguma forma, o ar havia ficado mais leve.
- Lembra-se do ar indignado de Njord? 'Só pode ter sido seu filho, Odin!' A fama dele já ultrapassou Asgard.
Frigga riu.
Thor piscou para Loki. O mais novo não tirava os olhos do pai.
Frigga aproximou-se.
- Loki é um elemento do Caos, Odin. Sabe disso. Eles são necessários para que o equilíbrio do universo seja mantido. Que modorra seria se todos fossem certinhos!
- Um elemento do Caos... - Odin falou pensativo. - Lembra-se de quando ele começou a andar?
- Nem me fale nisso! Não havia amas suficientes para detê-lo!
Loki sorriu. De certa forma, as palavras negativas que ouvira minutos atrás haviam ficado menos dolorosas.
- Thor gostava de movimento. Corria, pulava, nadava, gritava. Mas Loki mexia com tudo e com todos ao seu redor dele. Não conseguia ver alguém quieto ou alguma coisa em ordem. Sempre se sentiu mais à vontade com o caos.
Frigga observava o marido. Finalmente ele parecia ter recuperado a razão.
- O que você chama de inverno, Odin, o que você teme nele é justamente esse caos que você não consegue controlar. E que, na verdade, não precisa controlar - disse, pondo a mão no rosto dele.
- Tyr parece pensar como você, minha querida.
- Por que diz isso?
- Ele me disse que quando a batalha estiver tão caótica que ninguém mais consiga decidir ou resolver coisa alguma, o melhor a fazer será chamar Loki e pedir a opinião dele. 'Ele enxerga melhor o mundo através do caos', foram as palavras exatas de Tyr.
Thor pôs a mão no ombro de Loki. Ele sabia o quanto seu irmão mais novo se considerava preterido pelo pai.
- Talvez, por isso goste de causá-lo - Frigga disse, sorrindo. Odin sorriu junto.
- Deus da Mistificação.
Algo se revolveu dentro de Loki. Odin havia dito aquelas palavras com certo... orgulho…
- Ele poderia estar nos observando agora e não saberíamos, Frigga – Odin, ficou pensativo.
- Eu saberia – Frigga garantiu.
Loki sentiu um frio no estômago.
- Está certa disso?
- Tanto quanto são nove os reinos de Yggdrasil.
- Ele não está aqui, está? - Odin aproximou-se, passando a mão no rosto da esposa.
- O que pretende? - Frigga corou. Odin aproximou o rosto dele do dela. - Vamos entrar, Pai de Todos. Loki pode não estar olhando, mas um corredor não é um bom lugar para o que vejo em seus olhos.
Odin entrou primeiro.
Frigga ficou para trás.
- Vão dormir, meninos! - Ela sussurrou, antes de seguir o marido e fechar a porta atrás de si.
- Eu pensei que ela não estivesse nos vendo, Loki! - Thor disse baixinho, enquanto se afastavam.
- Eu também pensei, irmão! Mas nossa mãe é a Mestre da Magia mais poderosa que conheço. Não é fácil enganá-la.
Eles caminharam até a entrada do quarto de Loki. O de Thor ficava ao lado.
Loki pôs a mão na maçaneta, mas não abriu a porta. Thor percebeu.
- O que houve, irmão? - indagou com a mão no ombro do outro, quase certo da resposta.
- Você ouviu o que nosso pai disse?
- Ouvi, Loki. E também ouvi o que nossa mãe disse. Agente do Caos. Deus do Caos também teria sido um bom título! - Thor tentou animar o irmão.
Loki ensaiou um sorriso.
- Não importa o que e faça, Thor. Ele nunca… - Loki baixou o rosto.
- Hey! Irmão, anime-se. Vamos começar a participar de grandes incursões, agora. Não somos mais aprendizes! Nosso pai verá do que somos capazes!
O mais novo sorriu com o canto do lábio e finalmente mexeu na maçaneta.
- Boa noite, Thor .
O mais velho permaneceu do lado de fora por um bom tempo. Loki poderia parecer um pouco estranho às vezes, mas a mãe estava certa. Ele era o que era e não havia nada de errado nisso. Seu pai acabaria capitulando. Algum dia.
