Capítulo Vinte e Oito
A Matter Of Perspective
(Uma Questão de Perspectiva)
Mesmo sem o mapa — que não tinha pensado em pegar com Malfoy —, Ron tinha quase certeza de que sabia para onde Harry tinha ido.
Estava certo; em uma sala de aula abandonada, que antes aparentemente guardava um espelho encantado — e que desde então Ron e Harry usavam para praticar o Patrono —, cercado por embalagens de Sapinhos de Chocolate, estava Harry.
Ele estava consciente, graças a Merlin, e olhava feio para as vestes negras que tinham pendurado em uma cadeira quebrada para fazer vezes de Dementador, a varinha em mãos. Era um Dementador muito ruim, na opinião de Ron, mas que hoje, com os Dementadores lá embaixo arruinando o humor de todo mundo, parecia ter uma presença que nunca tivera antes. Ron olhou com cautela para as vestes antes de entrar completamente na sala de aula.
— Ei — falou, deixando a mochila no canto.
— Expecto Patronum. — Uma névoa prateada e rasa saiu da ponta da varinha de Harry, e o franzir dele ficou mais pronunciado. Até as tentativas de conjurar um Patrono de Ron eram mais fortes; Harry costumava conseguir erguer um escudo decente.
Harry bufou quando a névoa sumiu e deixou a varinha de lado.
— O que está fazendo aqui?
— Alguém precisava ver se você não desmaiou e caiu da escada — respondeu Ron, sentando-se ao lado dele no chão. Harry o olhou feio, mas seus lábios tremeram.
— Estou bem — falou ele com um suspiro.
— Não, não está — disse Ron, batendo seu ombro no dele. Nenhum deles estava; Harry e Hermione claramente estavam bravos um com o outro e chateados por esse ser o caso. Ron odiava que os dois estivessem brigados, e Malfoy (apesar de Ron ser o único que estivera por perto para perceber) estava estranho desde que recebera aqueles livros de Sirius na noite anterior. — Mas leve Hermione para longe dos Dementadores e pode ser que tenha sorte.
— Se é que foram os Dementadores — falou Harry. — Você e Draco também acharam que eu ia brigar com ela. — Harry não parecia bravo com ele, apenas triste, o que era pior.
— Definitivamente foram os Dementadores — disse Ron. — Você não viu a cara dela quando eu vim embora... — Balançou a cabeça. Ela estivera chateada, e ele se sentira horrível por deixá-la, mas ela estava com Ginny e Malfoy, enquanto Harry estivera sozinho em um castelo cheio de Dementadores. Harry suspirou mais uma vez. — Apenas pense — tentou —, amanhã vamos pegar o trem e aí vamos ficar livres dos Dementadores por uma semana. — Estava ansioso para voltar para casa, comer a excelente comida da mãe e passar as tardes fuçando na barraca com o pai. A mãe tinha mencionado em sua última carta que eles teriam uma surpresa no natal, e Ron imaginou se isso significava que Bill ou Charlie iam visitá-los.
Mas o pensamento não pareceu reconfortar Harry; pelo contrário, ele parecia ainda mais chateado.
— É, acho que sim — respondeu, brincando com o fecho da mochila.
— E os presentes — falou Ron, esperançoso, cutucando-o.
— Claro, Ron — falou Harry, rindo um pouco. Ron sorriu, satisfeito por tê-lo animado um pouco. — Você... — Harry hesitou. — Você vai escrever? — Seu tom era leve e casual, e ele não olhou para Ron ao falar, mas ele se entregou ao olhá-lo pelo canto dos olhos.
— Claro — respondeu Ron, dando de ombros, antes de se lembrar tarde demais de onde Harry ia passar uma parte do feriado; Harry tinha mencionada uma vez, brevemente, que ia visitar seus parentes, mas não falara mais nada. Temeu ter sido casual demais, mas Harry parecia aliviado. — Pode ser que eu consiga convencer o pai a ir te visitar. Ele ama os muggles.
— Provavelmente não esses muggles — murmurou Harry, mas parecia grato pela sugestão e ainda não tinha tentado mudar de assunto, como sempre fazia quando falavam dos muggles.
Foi por causa disso que Ron sentiu a coragem de perguntar:
— Como eles são, afinal?
— Não sei. Faz anos que não os vejo, né? — Harry o olhou pelo canto dos olhos, e Ron reconhecia quando alguém queria ser evasivo e estava preparado para deixar o assunto de lado, mas Harry continuou. — Mas quando eu os conhecia... Dudley, meu primo, era... meio parecido com Hydrus, mas claro que sem a magia e... bem, meio burro. — A sombra de um sorriso apareceu em seu rosto. — Mas não deve ser tão ruim. — Ron não falou. — Meu tio é basicamente a mesma coisa, só que um adulto. — Uma expressão estranha apareceu no rosto de Harry. — Ele nunca gostou muito de mim.
— Igual ao Malfoy, então — falou Ron. Harry riu. — E sua tia?
— Não sei — respondeu. — Ela também nunca gostou muito de mim e ela me deu pro Padfoot...
— Ela não pode ser tão ruim assim, então — disse Ron. Harry riu de novo. Era um som seco.
— Quando ele tinha acabado de fugir de Azkaban e todo mundo achava que ele era um assassino em massa — adicionou. — Ele não era, mas...
— Certo — falou Ron, incerto. Pegou-se imaginando como Harry seria se Sirius não tivesse ido atrás dele e tivesse sido criado pela família que não gostava dele. Será que ele seria muito diferente? Será que ele e Ron ainda seriam amigos? E se fossem, será que ainda seriam amigos de Hermione e Malfoy? — Bem, talvez eles gostem mais de você agora? Você está fazendo isso pela sua tia, então talvez ela perceba isso e seja legal.
— Talvez — respondeu Harry, incerto. — Eu... É complicado. É a coisa certa a ser feita, e eu sei que falei que faria, mas... Eu não quero. — Por um momento, Ron só pôde se sentir maravilhado com isso; por mais que ele constantemente se colocasse em situações perigosas e desagradáveis, Harry raramente reclamava, raramente verbalizava suas dúvidas, ele só abaixava a cabeça e fazia o que tinha de ser feito.
— Então fale — falou Ron por fim. — Ninguém vai te forçar...
— Exatamente — suspirou ele. — Seria muito mais fácil se alguém me dissesse que eu tenho que fazer isso. Aí poderia só... — Fez um gesto estranho com a mão.
— Está bem — falou Ron. — Você tem que fazer isso.
— Pelo menos finja estar falando sério — falou Harry, abafando a risada.
— Não dá — falou Ron sem remorso. Eles sorriram. Ron procurou por outras coisas que pudesse dizer para confortar Harry mais um pouco, mas ao olhá-lo, viu que ele não parecia precisar e desistiu, já que ainda não encontrara as palavras certas. Hermione era muito melhor nesse tipo de coisa. Imaginou o que ela teria a dizer sobre os parentes muggles de Harry se estivesse ali para ouvir o que ele tinha a dizer sobre eles.
— Acho que é melhor irmos para a aula de Poções — Harry falou depois de um momento.
— Provavelmente — concordou Ron. Malfoy não estava com eles, então Snape não seria muito gentil se chegassem atrasados. Harry parecia pensar o mesmo, então os dois pegaram suas coisas (Ron apenas sua mochila, Harry sua mochila e sua varinha) e saíram da sala.
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Hermione se sentia miserável. Parte disso era por causa dos Dementadores — Colin se aproximava de Moody, a câmera em mãos —, mas a maior parte era sua própria culpa. Ela odiava brigar com Harry e, ainda assim, tinha jogado fora a tentativa dele de se desculpar.
— Não vai atrás deles? — perguntou Ginny, observando Ron desaparecer pelas portas do Salão. Draco tinha ficado, mas ele também olhava para Ron.
— Está tudo bem? — Fred (ou talvez fosse George) se sentou ao lado de Ginny. O outro gêmeo se sentou do outro lado. Hermione não sabia se eles tinham ido distrair Ginny dos Dementadores (ela pareceu melhor no instante em que eles se sentaram) ou se eles tinham visto Harry sair seguido de Ron e só estavam sendo intrometidos. Ginny balançou uma mão para eles.
— Bem? — perguntou a Hermione.
— E falar o quê? — perguntou Hermione, trêmula.
— Harry sabe muito bem como os Dementadores são e o que eles te fazem sentir. — Isso da garota que ainda estava um pouco pálida e parecia doente, que sabia tanto quanto Harry. — Ele vai ouvir.
— E se não ouvir?
— Aí você tentou — falou Ginny —, ele será culpado por não ouvir e você pode ficar tão brava quanto quiser. — Ela tentou sorrir, mas não chegava aos seus olhos, que foram para os Dementadores novamente.
— Briga de namorados? — perguntou Fred. Hermione o olhou feio, apesar de Draco ter abafado o riso. Hermione olhou para Draco.
— O que a Garota-Weasley disse — falou Draco, dando de ombros. — Ele ia se desculpar. — Algo em Hermione cedeu.
— Eu nem sei para onde ele pode ter ido — falou. Ron já tinha sumido completamente e era muito mais rápido do que Hermione. Ela nunca o alcançaria, então teria de encontrá-los sozinha. Mas aonde eles poderiam ter ido? Para a cozinha, talvez? Harry ainda não comera e ele certamente estaria com fome.
Draco tirou um pergaminho conhecido da mochila. Grata, Hermione o aceitou e, depois de um momento de hesitação, enrolou duas torradas amanteigadas em guardanapos para entregar a Harry como uma oferta de paz. Voltou a olhar para Draco.
— Você... vai vir...
— Vai ter que lidar com Potter sem mim — falou Draco gentilmente. — Eu preciso conversar com Severus antes da aula. — Havia algo estranho em sua voz e, se ela não tivesse essa bagunça com Harry para resolver, teria o questionado.
— Certo — falou Hermione. — Tudo bem. — Respirou fundo e se levantou, acenando a varinha para o mapa e murmurando a senha para revelá-lo. Deixou os outros lá (Ginny rindo de algo que Fred e George falavam, Draco franzindo o cenho para o professor Snape) e foi em direção ao nome de Harry.
Ela não demorou muito para chegar ao corredor da sala de aula em que eles estavam. Hermione guardou o mapa no bolso e respirou fundo. Um grupo de alunos da Lufa-Lufa que passava a olhou de um jeito estranho.
— ... talvez ela perceba isso e seja legal. — A voz de Ron passou pela porta entreaberta, e Hermione hesitou. Eles falavam dela?
— Talvez. — Harry não parecia convencido. — Eu... É complicado. É a coisa certa a ser feita, e eu sei que falei que faria, mas... Eu não quero. — Certamente eles não falavam sobre ela... Mas sobre quem mais poderiam estar falando?
Silêncio por vários segundos, enquanto o coração de Hermione se apertava, e aí Ron voltou a falar.
— Então fale. Ninguém vai te forçar... — Hermione engoliu, sem saber se Ron estava sendo sincero ou se ele só dizia o que Harry queria ouvir. Torcera para que Ron fosse um pouco mais neutro nisso tudo, mas, pensando bem, ele sempre fora o melhor amigo de Harry, não o dela.
— Exatamente. Seria muito mais fácil se alguém me dissesse que eu tenho que fazer isso. Aí poderia só... — Harry parecia cansado, e ela achou que ele tinha uma cara de pau e tanto quando tinha sido ele a começar isso tudo ao lhe pedir pelo Vira-Tempo e ficar bravo ao ouvir uma recusa.
— Está bem — falou Ron. Ela conseguia ouvir o sorriso em sua voz e soube que ele não levava a conversa a sério. — Você tem que fazer isso.
— Pelo menos finja estar falando sério.
— Não dá. — Ainda parecia que Ron estava sorrindo e, curiosamente, foi isso, mais do que qualquer coisa que Harry pudesse ter dito, que mais a machucou. Ela não tinha brigado com Ron, nem feito nada que o chateasse (exceto ter se recusado a ouvir Harry naquela manhã) e, ainda assim, lá estava ele praticamente dizendo a Harry que ela não valia o trabalho. De repente, ela não queria ver nenhum dos dois.
Afastou-se da porta, quase trombando em dois alunos do primeiro ano da Sonserina em sua pressa para ir embora.
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Não era do feitio de Snape se atrasar para a aula de Poções, mas Ron que não ia reclamar, porque isso significava que nem ele nem Harry perderiam pontos; Harry parecia mais animado, mas o castelo ainda estava frio e o ar, pesado com a sensação dos Dementadores, e Ron não achava que precisaria de muito para estragar o humor dele. Malfoy não estava lá, tampouco estava... Espere, não, lá estava Hermione com Lavender e Parvati, no canto. Ela lhe deu as costas assim que notou que Ron a olhava, e Lavender o olhou feio com os olhos cerrados.
Harry — que obviamente também olhava naquela direção — pareceu se encolher.
— Foram os Dementadores, hm? — murmurou ele.
— Foram — falou Ron, mas agora não tinha tanta certeza. Hermione não parecia se sentir culpada nem triste, como acontecera quando saíra do Salão, apenas brava. Será que ele entendera errado sua expressão? Não achava ter sido o caso, mas o que poderia ter acontecido desde o café da manhã para que ela reagisse assim? Harry estivera com ele o tempo todo, então ele não podia ter dito mais nada para chateá-la, e Malfoy quisera que as coisas se resolvessem tanto quanto Ron, então ele também não teria dito nada inconveniente. Talvez ela estivesse chateada que Ron tivesse ido atrás de Harry em vez de ter ficado com ela? — Eu vou falar com ela — decidiu.
— Melhor você do que eu — falou Harry, olhando mais uma vez para Hermione com cautela. Ron deixou Harry na companhia de Neville, Dean e Seamus, que tinham acabado de chegar. Neville estava um pouco pálido, e ele e Harry trocaram um olhar triste de entendimento. Ron não invejava essa fraqueza aos Dementadores e torcia, egoisticamente, que nunca se juntasse a eles.
Parvati e Lavender bloquearam Hermione e o olharam feio. Ele era quase uma cabeça mais alto que as duas, mas não sentia ser o caso. Mesmo assim, fingiu não notar.
— Hermione — chamou, incerto. Ela o ignorou. — Você está bem? — Ela soltou um som de desdém, e Lavender e Parvati se entreolharam. — Olha — tentou de novo —, eu falei com o Harry mais cedo e...
— Sim, eu sei — falou Hermione, mordaz. Ron tentou, mas não conseguiu entender por que ela falava assim. Talvez ela mesma quisesse ter conversado com ele?
— Você está bem mesmo? — perguntou Ron, certo de que ela não estava. Hermione soltou um som parecido com um soluço e lhe deu as costas. Alarmado, Ron olhou para Lavender num pedido de ajuda. — Você está... Hermione, o que...
— Ooh — falou Parkinson, alto, apontando para Hermione. — Você está chorando, Granger? O que aconteceu?
— Ela deve ter se olhado no espelho — falou Greengrass, e Parkinson e Malfoy gargalharam. — Eu também choraria se tivesse essa aparência.
— Não tem nada de errado com a aparência dela — falou Ron, raivoso, dando um passo para frente. Apesar de ter deixado claro que estava do lado de Hermione (por que é que tinham lados, Ron não sabia), Lavender segurou o braço de Ron para mantê-lo no lugar.
— Então você é tão cego quanto o Potter — falou Malfoy. — Só que sua família não consegue comprar óculos, Weasley. — Parvati segurou o outro braço de Ron. Dean segurava o ombro de Harry.
— Entrem. — Snape chegou e acenou a varinha para abrir a porta da sala de aula. Ele mal pareceu notar o que acontecia à sua volta quando passou. Malfoy olhou feio para Ron ao bater seus ombros ao passar, e Ron esticou um pé. Malfoy quase tropeçou o bastante para bater no batente. O Malfoy deles correu atrás de Snape, sua expressão contrariada. Ron imaginou sobre o que eles tinham conversado. — Vão trabalhar sozinhos hoje. As instruções estão na louca. Comecem.
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A aula de Poções foi desconfortável. Draco se sentou ao lado de Granger, cujos olhos estavam avermelhados e que não falou nem uma palavra sequer a aula inteira. Era claro que as coisas não tinham dado certo depois de ela ter ido embora do café da manhã, e Draco perguntou-se se deveria ter ido com ela; Severus o evitara — ou, pelo menos, foi o que Draco assumiu pela forma que ele pedira licença no momento em que vira Draco e se apressara para a aula —, e, por isso, a conversa que Draco queria ter com ele não acontecera. Cerrou os olhos para Severus, que se colocara atrás de sua mesa no começo da aula e não se mexera, nem mesmo quando o caldeirão de Longbottom vazou. Draco o olhou várias vezes e, apesar de ter certeza de que Severus percebera, ele não o olhou de volta.
Potter estava sentado do outro lado do corredor, os ombros curvados e concentrado em seu caldeirão de um jeito que Draco nunca vira, apesar de sua poção estar laranja em vez de verde-limão, então sua concentração claramente não lhe fazia nenhum favor. Se ele desviou os olhos alguma vez durante a aula, Draco não viu. Weasley, por outro lado, constantemente erguia os olhos para tentar olhar além de Potter, para Granger. Draco encontrou seus olhos uma vez e ergueu uma sobrancelha para perguntar o que estava acontecendo, mas Weasley apenas deu de ombros, parecendo confuso.
Quando a aula terminou, Granger foi a primeira a entregar sua poção e a primeira a sair da sala. Potter não estava muito atrás dela, mas se ele a seguia ou só tentava fugir, Draco não sabia. O pobre Weasley olhou para Draco, que gesticulou para que ele fosse em frente — ele ia falar com Severus antes das festas, quer seu padrinho gostasse ou não. Com uma careta, Weasley foi atrás dos dois.
Draco passou por seus colegas de classe e foi até a mesa de Severus.
— Tem um momento? — perguntou ele.
— Temo que não — respondeu Severus sem olhá-lo direito. — Preciso me preparar para a próxima aula. Tenha um bom natal, senhor Malfoy.
— Desculpe, professor — falou Draco —, mas é importante. Eu recebi uma carta de Black ontem.
Severus ficou imóvel por um momento. Se Draco não estivesse procurando por uma reação, não teria notado. Ele se recuperou logo e brigou com Hydrus e Pansy por demorarem. Eles foram embora rapidamente.
— Não vejo como isso é da minha conta — disse Severus, levantando-se. Ele balançou a varinha, e as poções daquela aula se arrumaram em um suporte.
— Ele me mandou alguns livros — continuou Draco. — Sobre Oclumência e Legilimência. Ele achou que a Oclumência seria uma boa solução para as dores de cabeça que tenho tido.
— Talvez — falou Severus, tenso, virando-se para olhar para Draco pela primeira vez. — Ainda não vejo como...
— Ele disse que você é habilidoso nas duas artes — disse Draco. A expressão de Severus não mudou. Ele não falou por um bom tempo, e Draco não fez nada para ajudá-lo; ele chegara a várias conclusões desde que recebera a carta de Black, e nenhuma delas era particularmente agradável. Tomou cuidado com sua expressão.
— Sou só um pouquinho habilidoso — falou ele depois de um tempo.
Mentira, a cabeça de Draco lhe disse, solícita. Manteve-se em silêncio. Era um pouco cruel, talvez, mas Severus também tinha sido um pouco cruel, então Draco não conseguia se sentir mal por fazer isso.
— Pode me ensinar? — perguntou Draco quando achou que o silêncio já tinha se arrastado por tempo o bastante.
Severus se engasgou, e Draco engoliu sua satisfação antes que ela aparecesse em seu rosto.
— Como é? — murmurou ele. Draco, apesar de não saber Legilimência, imaginou conseguir ouvir os pensamentos de Severus; será que Draco sabia ou suspeitava que era Severus quem estava por trás das dores de cabeça? E, se soubesse, então por que estava pedindo a ajuda de Severus? Draco tomou o cuidado de não demonstrar nada em seu rosto além de um sorriso educado.
Sim, agora que tinha lido um pouco sobre Legilimência, Draco tinha certeza de que era Severus por trás das dores de cabeça. Tinha ficado magoado no começo, depois bravo e... Bem, honestamente, ainda estava. Mas Severus nunca tivera medo de machucar Draco para lhe ensinar algo — a cicatriz na palma de sua mão era uma prova disso — e, antes, ele frequentemente passava seu tempo ensinando as coisas para Draco ou jogando jogos estranhos com ele sem lhe explicar nada. De verdade, como isso era diferente?
Tarde da noite — porque Draco não dormira bem — outro pensamento, muito mais perturbador, lhe ocorrera; os jogos de memória eram, talvez, inocentes, e nunca achara estranho Severus lhe ensinar as diferenças entre uma mentira e uma verdade... até agora, quando a Oclumência tinha sido adicionada. E se os jogos estranhos de Severus não fossem jogos, mas lições? A Oclumência resolveria suas dores de cabeça, Draco tinha certeza disso, mas só as tivera por causa de Severus. A Oclumência era parcialmente usada como autodisciplina e organização mental, mas sua verdadeira finalidade era como uma proteção contra a Legilimência. Não era algo que as pessoas aprendiam por diversão. Era algo que aprendiam quando tinham algo a esconder. Então, o que Severus queria que Draco escondesse e de quem?
Draco ainda precisava encontrar uma boa resposta, mas sua solução para esse problema com Severus era simples; se Severus usava Legilimência contra ele, então Draco estava certo de que era um método de ensino (tinha sido descrito assim em um dos livros), não uma tentativa de conseguir informação. E se Severus achava que Draco precisava aprender Oclumência — mesmo que ele não pudesse dizer ou explicar o motivo —, então, sim, era frustrante e confuso, mas... Até agora, Severus nunca o decepcionara. Draco precisava acreditar que havia um bom motivo para isso, mesmo se não pudesse ver ou saber no momento. Confiar em Severus tão cegamente fazia Draco se sentir desconfortavelmente vulnerável, e torcia para que o tiro não saísse pela culatra.
— Black achou que a Oclumência é uma boa solução para minhas dores de cabeça — repetiu Draco lenta e pacientemente, gostando da forma que a expressão de Severus se contorceu com impaciência. — Como você é só um pouquinho habilidoso — tomou o cuidado de dizer as palavras do mesmo jeito que Severus —, achei que você poderia me ensinar.
Severus não respondeu por longos momentos.
— Talvez — disse ele por fim. Sua voz estava rouca, o rosto mais pálido que o normal. Ele quase parecia doente, mas havia um tipo estranho de esperança, e Draco ficou satisfeito por ter tomado essa decisão. — Quando voltar das férias de natal, se ainda quiser aprender, então podemos... — Pigarreou. — Sim. É possível.
Draco assentiu.
— Feliz natal, senhor — falou e deixou Severus lá com aquela mesma expressão estranha no rosto.
Continua.
N/T: Obrigada pelos comentários.
Gente, como vocês estão aguentando a quarentena? Vocês estão todos bem, tomando cuidado? Espero que sim!
Queria falar com vocês sobre uma ideia que deixaram nos comentários, de aumentar a frequência de atualizações durante esse período. Eu posso fazer isso? Posso. Mas temos que levar em conta algumas coisas:
Primeiro, eu estou ficando em casa, mas não parei. Minhas aulas estão todas acontecendo on-line, e eu tenho aula de segunda a sábado, então entra a questão tempo para continuar traduzindo. Impose já está toda traduzida, mas Intensity está incompleta e a tradução do que já foi publicado não está terminada.
Segundo, além das minhas aulas continuarem, eu sempre trabalhei de casa, então minhas horas de trabalho não foram afetadas. Entramos de novo na questão de tempo.
Terceiro, se eu aumentar a frequência de atualização, entramos na questão de quanto ainda temos a cobrir da série. Como eu falei ali em cima, Intensity ainda está sendo postada pela autora e ela é a sequência de Impose.
No meu planejamento, seguindo com uma atualização por semana, Impose vai até o começo de setembro e o que já temos de Intensity vai até o meio de 2021. Se eu mudar a frequência de atualização, esse prazo obviamente ficará mais curto. Não sei dizer quão mais curto, porque teria que refazer o planejamento, mas vocês entendem a pegada, né?
E é por isso que eu quero deixar a decisão para vocês, porque são vocês que serão impactados. Se tudo seguir conforme o planejado, eu me formo até o meio do ano que vem, o que significa que mesmo se tudo ficar corrido, em teoria ainda tenho material pronto para disponibilizar para vocês uma vez por semana.
Se a gente adiantar, não posso garantir que seguiremos tendo atualizações todas as semanas, porque ter que esperar a autora atualizar e, aí, ter tempo de traduzir e revisar.
Se ainda assim vocês quiserem mais de uma atualização por semana enquanto durar a quarenta, então eu me comprometo a atualizar às segundas e às sextas. Ou, se preferirem continuar como está, sigo atualizando toda sexta-feira.
Deixem um comentário me falando o que vocês acham, tá? Na sexta-feira que vem eu conto pra vocês o que ficou decidido.
Obrigada e até mais!
