Capítulo Vinte e Nove
Meeting Dudley
(Encontrando Dudley)
No momento em que o Retrato se fechou atrás de Potter e dos Weasley Um e Dois — que pareciam estressados com o treino de Quadribol de último minuto que lhes tirara o tempo de fazer as malas —, Weasley se aproximou e se sentou à mesma mesa que Draco e Granger ocupavam.
Granger ergueu os olhos por apenas um momento, e essa foi toda a atenção que Weasley recebeu antes de ela se voltar para o dever de casa. Draco marcou a página e fechou o livro. Granger voltou a erguer os olhos, dessa vez claramente cautelosa.
— Malfoy falou que você entreouviu minha conversa com Harry hoje de manhã — falou Weasley.
Granger virou a cabeça.
— Você contou?!
— É claro que contei — respondeu Draco. — Vocês já não conseguem se comunicar direito sem minha ajuda.
— Acho que estamos nos comunicando muito bem — falou Granger, tensa. Ela não olhou para Weasley.
— Não é o que parece — disse Weasley, exasperado —, porque você entendeu errado.
— Eu... — Era claro que Granger queria que sua postura fosse distante e controlada, mas para Draco ela parecia desesperadamente esperançosa. — Mesmo?
— Mesmo — respondeu Weasley no mesmo tom de antes. — Malfoy falou que você achou que estávamos falando sobre você.
— Não estavam? — A voz de Granger era baixinha.
— Da tia do Harry — contou Weasley. — Você sabe... a muggle que ele vai visitar amanhã.
— A-ah. — A voz de Granger era tensa. — Eu... eu achei...
— É, a gente sabe — falou Weasley, sorrindo um pouco. — Honestamente, você é brilhante e tudo o mais, mas bem...
— Um pouco idiota às vezes — terminou Draco. Os lábios de Granger tremeram, então ele se apressou a adicionar: — Mas a maior parte deve ter sido culpa dos Dementadores.
Granger começou a chorar, mas Draco não achava que ela estava completamente infeliz. Em sua poltrona perto do fogo, a Garota-Weasley olhou para eles com uma sobrancelha erguida. Draco acenou e, depois de um momento, ela ergueu os dedões, hesitante. Draco devolveu o gesto, e ela sorriu, virando-se para Creevey.
— Eu o-odeio brigar com v-vocês — falou Granger. Weasley arrastou sua cadeira para mais perto dela e lhe deu um tapinha no ombro. — Eu realmente ia conversar depois do café, mas a-aí eu ouvi... E agora eu fui horrível o dia todo, nem falei com vocês! O Harry deve estar tão...
— Acho que ele está mais confuso do que qualquer outra coisa — falou Weasley com uma careta. — Eu estava até nós — indicou a si mesmo e a Draco — descobrirmos o que aconteceu.
— Me d-desculpe — disse Granger. — Eu não devia ter achado que vocês falariam algo do tipo...
— Foram os Dementadores — falou Weasley, puxando-a para um abraço. — Se não fosse por eles, Harry teria se desculpado no café da manhã e tudo estaria bem.
— Eles são horríveis — comentou Granger em voz baixa.
— Podia ser pior — respondeu Draco. — Você poderia ser como o coitado do Potter, que cai sempre que um se aproxima. — Isso arrancou uma risada surpresa de Granger, que aí pareceu horrorizada consigo mesma por se divertir com tal assunto. Ela secou os olhos na manga e se ajeitou. Weasley abaixou o braço.
— Ele não caiu hoje — contou Weasley em um tom que era defensivo e orgulhoso ao mesmo tempo. Draco abafou uma risada, e Weasley sorriu e balançou a cabeça.
Eles ficaram em um silêncio confortável por vários minutos; Granger se voltou para sua redação, mas Draco e Weasley ficaram em silêncio, sem fazer nada além de aproveitar a falta de tensão. Weasley parecia particularmente satisfeito; afinal, ele suportara tudo sozinho naquela manhã, enquanto Draco resolvia as coisas com Severus, e fora ele quem recebera a indiferença de Granger o dia todo, enquanto Draco conseguira manter uma posição neutra com Potter e Granger.
— Sabe — falou Draco por fim —, isso é bacana.
— O quê? — perguntou Granger, cautelosa.
— Isso. Ter um problema que podemos resolver assim — estalou os dedos —, sem o Lorde das Trevas tentando voltar, nem alguém acabando na Ala Hospitalar. — Granger soltou um som que era uma mistura de risada e suspiro. Weasley só balançou a cabeça. — É uma pena que Potter não estava aqui para ver; ele certamente aprenderia algo.
Granger riu de verdade e deu um tapinha no ombro de Draco.
— Você pode contar pra ele mais tarde — falou ela, sorrindo. — Mas não imediatamente; acho que ele e eu precisamos conversar há tempos.
-x-
— Pronto? — perguntou Harry. Ginny concordou, e ele virou a página. Os dois estavam inclinados sobre uma cópia de Quadribol Trimestral, enquanto o trem chacoalhava em direção à estação King's Cross.
Draco e Ron passaram a maior parte da viagem jogando xadrez — apesar de nenhum deles ter movido uma peça há cinco minutos —, e Harry duvidava que eles terminariam o jogo antes de o trem chegar. Luna e Colin tinham saído dali havia meia hora — eles precisaram voltar ao seu compartimento, onde seus malões estavam —, e Hermione estava sentada com Bichento em seu colo, o nariz enfiado em um enorme livro de Runas.
Ela estivera o esperando depois do treino de Quadribol, com um abraço e um pedido de desculpas bastante tímido. Harry também tinha se desculpado, mas era tarde e os dois precisavam fazer as malas e dormir, então não tinham dito mais nada, nem à noite, nem durante a correria que tinha sido o café da manhã.
Ainda assim, o cheiro dela não era bravo nem chateado, apenas um pouco ansioso e, ocasionalmente, culpado; apesar de ela não ter falado muito durante a viagem — por estar lendo —, isso não era atípico de Hermione, então Harry não estava muito preocupado.
Draco suspirou e moveu seu bispo por duas casas. Em frente a Harry, Ron soltou um som satisfeito.
— Xeque-mate — falou. Draco suspirou novamente, e suas peças trocaram murmúrios bravos sobre traidores de sangue e levar vergonha à família, mas eles não gritavam como antigamente; eles tinham suavizado durante os anos, apesar de ainda tagarelarem para quem quisesse ouvir sobre pureza de sangue e outras besteiras do tipo quando Draco ganhava.
O trem começou a perder velocidade. Ginny se recostou em seu assento, e Harry guardou a revista, o coração de repente disparado. Tinha sido bastante fácil se distrair com a revista e com seus amigos pelas últimas horas, mas agora tinha chegado e faltavam apenas alguns minutos até reencontrar Dudley e só algumas horas até reencontrar a tia Petunia e o tio Vernon. Respirou fundo.
Era como se estivesse em um transe ao pendurar a mochila nos ombros, ajudar Ron a tirar os malões das prateleiras e ir para o corredor barulhento.
— A gente vai escrever — falou Ron, passando um braço pelos ombros de Harry, assustando-o. — E quando você for pra casa, eu posso ir te visitar ou você pode ir pra Toca.
— Obrigado — falou Harry, engolindo. Olhou pela multidão, mas ainda não conseguia ver Padfoot. — Feliz natal. — Ginny afastou Ron para que pudesse dar um abraço apertado em Harry. — E boa sorte com o seu pai — falou para Draco, que lhe deu um sorrisinho por cima do ombro de Ginny. — Espero que dê certo.
— Estou certo de que dará — falou Draco, arrogante. Hydrus o chamou com um grito do outro lado da plataforma, e Draco fez uma careta, abraçou as garotas e desejou a todos eles um feliz natal, antes de se afastar para se juntar à sua família.
— Vamos — falou Ron. — Estou vendo o Sirius com a mãe e o pai.
— Meus pais estão ali — falou Hermione, apontando para a direção oposta. Ela abraçou Ginny, Ron e Harry. — Espero que seu natal seja bom — falou em voz baixa. Harry lhe deu o melhor sorriso que conseguiu. Imaginou se Ron tinha contado as coisas que ele falara sobre os Dursley e se era por isso que ela tinha dito isso.
— Eu também — respondeu.
— Eu... eu também vou escrever — falou ela. — Enquanto estiver com seus parentes. Se quiser? — Sim, Ron definitivamente tinha dito alguma coisa; percebeu o olhar que eles trocaram. Mas estava grato e certo de que, agora que as desculpas tinham sido aceitas, as coisas estavam bem entre eles. Esse pensamento o animou, apesar de a ansiedade e o medo estarem aumentando lentamente, construindo um nó pesado e desconfortável em seu peito. Ainda assim, conseguiu dar um sorriso genuíno e grato, antes de ela acenar e ir embora.
— Vamos — chamou Ginny, segurando seu braço e o puxando gentilmente atrás de Ron, que (sendo o mais alto e, portanto, quem conseguia ver melhor) guiava o caminho até os outros Weasley e até Padfoot. George estava lá, conversando animadamente com Padfoot, mas Fred não estava com ele; ele chegava agora, saltitando ao lado de um Percy corado.
A senhora Weasley puxou Ron e Ginny no momento em que os viu e, depois de soltá-los (eles foram prontamente cumprimentados pelo senhor Weasley), também abraçou Harry.
— Ei — falou Padfoot, afável —, ele é meu.
A senhora Weasley riu e deu um tapinha na bochecha de Harry, antes de se afastar para que Padfoot pudesse se aproximar.
— Pare de se estressar — murmurou ele, baixo demais para que os outros o ouvissem ao puxar Harry para um abraço. — Está me deixando estressado.
— Desculpe — murmurou Harry em resposta. Padfoot o apertou uma última vez, antes de se afastar com o nariz torcido.
Eles se despediram dos Weasley logo depois — Padfoot tinha dito, no dia anterior, que o horário deles seria apertado — e atravessaram a barreira, indo para a parte principal da estação. Padfoot procurou por um pedaço de pergaminho nos bolsos. Ele passou um ou dois segundos o olhando, aí assentiu para si mesmo e gesticulou para que Harry o seguisse.
Eles se viram na Plataforma Quatro, onde as roupas muggles de Padfoot (jeans, uma camiseta e uma jaqueta de couro) começaram a fazer sentido. Meninos e meninas (ainda que em menor quantidade) em blazers marrons — e, apesar de tudo, Harry imaginou o horror de Ron se ele visse isso, e sorriu — e calças e saias cor de laranja enchiam a plataforma, conversando animadamente com seus amigos e familiares. Harry sentiu um pouco de pena deles por precisarem usar o uniforme na viagem para casa.
Alguém trombou com Padfoot, empurrando-o.
— Desculpe — disse o homem numa voz esganiçada. Ele era baixinho, atarracado e careca, com óculos enormes e um bigode ruivo. O nariz de Harry identificou-o como Quirrell na mesma hora. Quirrell estivera cuidando de Dudley desde que Polkov atacara Petunia, Harry se lembrou, e ficou tenso, assumindo que isso significava que seu primo estava por perto. Em um tom muito mais baixo, Quirrell disse a Padfoot: — Garoto grande e loiro, à esquerda. Assume daqui?
— Não se preocupe — falou Padfoot normalmente e apertou o ombro de Quirrell. Ele se misturou à multidão em instantes. — Certo, então... — Harry achou Dudley no mesmo momento que Padfoot. Anos tinham se passado, mas achou que o reconheceria mesmo sem a ajuda de Quirrell.
Dudley estava alto. Facilmente com a mesma altura de Ron, e talvez até um pouco mais alto, mas Ron era esguio enquanto Dudley era grande. Não gordo, exatamente, como quando Harry o vira pela última vez, mas certamente pesado. Era quase como se alguém tivesse tirado a barba do tio Vernon e o esticado. Ele era muito mais alto do que o garoto ao seu lado — Piers Polkiss, Harry ficou surpreso ao perceber. Ele não mudara nada; ele ainda era magrelo e parecido com um rato. Particularmente, Harry ficou satisfeito de ver que estava mais alto que Piers, o que nunca fora o caso antes.
— Dudley? — chamou Padfoot, dando um passo para a frente. Quando Dudley se virou, ele franzia o cenho e passou vários segundos olhando para Padfoot e, depois, para Harry. Harry tentou parecer calmo. Piers cerrou os olhos.
— Sim — respondeu ele lentamente. — Você... uh... Você deveria dizer...
— Eu acabei trombando com seu professor de inglês — falou Padfoot, calmo. — Literalmente, na verdade.
— Ah — falou Dudley. — Bom. — Harry olhou para Padfoot com confusão, e ele murmurou algo sobre uma pergunta de segurança. Dudley levantou seu malão com uma mão grande e rosa, assentindo para Piers. — Vou indo, então.
— Boa sorte, Dud — murmurou Piers.
— É — falou ele. — A gente se vê amanhã, tá?
— Tá — respondeu Piers. Ele olhou com cautela para Padfoot e Harry uma última vez, deu um tapinha no ombro de Dudley e foi embora. Dudley se aproximou mais de Harry e Padfoot. De perto, seu cheiro era tão ansioso e cauteloso quanto Harry se sentia, e isso era estranhamente reconfortante.
— Oi — disse Harry.
— É. — Dudley se remexeu. — Então... uh... Onde está o carro?
— Pensei em pegarmos o Nôitibus Andante, na verdade — falou Padfoot. — É um dos nossos ônibus... você sabe... — Ele olhou ao redor. — Um especial.
— Você tem um ônibus? — perguntou Dudley, olhando de Harry para Padfoot. — Achei que você fosse um criminoso. — A risada escapou antes que Harry pudesse evitar, e Dudley franziu o cenho para ele antes de voltar a olhar para Padfoot, que o olhava boquiaberto. Hesitante, Dudley perguntou: — É especial por que você o roubou?
Padfoot fechou a boca e, parecendo divertido, disse:
— Não, ele não é meu e, não, eu não roubei, e é especial porque... É especial do mesmo jeito que Harry e eu somos especiais.
— Certo — falou Dudley por fim, parecendo (e cheirando) confuso. — Então vamos para casa nesse seu ônibus que não é seu?
— Se você estiver confortável com isso — falou Padfoot. — Já que é... sabe...
— Especial? — perguntou Dudley.
— Exatamente — respondeu Padfoot, assentindo.
— Certo — falou ele. — Claro. O ônibus. — Padfoot o olhou com aprovação e gesticulou para que o seguissem. Harry ficou onde estava.
— Er, Dudley — falou —, sua mãe disse qualquer coisa sobre mim, ou nós?
— Ela disse que você precisava de um lugar para ficar por alguns dias, por isso ia ficar com a gente. — Dudley olhou para Padfoot, considerando-o. — Achei que algo tinha acontecido com você, tipo acabou na prisão ou algo assim.
— Não sou um criminoso — suspirou Padfoot.
— Ela não disse mais nada? — insistiu Harry.
— Tipo o quê? — perguntou Dudley, o rosto ficando vermelho.
— Padfoot, acho que ele não sabe sobre... er... a escola que eu frequento — falou Harry.
— Está brincando — falou Padfoot, olhando para Harry, que fez uma careta, e depois para Dudley, que os olhava feio; era claro que ele não entendia o que estava acontecendo. — Ah, pelo... — Padfoot correu uma mão pelo cabelo, murmurando xingamentos. — Certo. Como, em nome de Merlin, vamos para Surrey então?
— Nome de Merlin? — repetiu Dudley, confuso. Eles o ignoraram.
— Você tem dinheiro muggle? — perguntou Harry.
— Cinco — respondeu Padfoot, tirando uma nota amassada do bolso. Harry balançou a cabeça.
— Dudley?
— O quê?
— Você tem dinheiro? Pra um táxi?
— Não — respondeu ele. — A mãe disse que vocês cuidariam de tudo. — Harry ainda reconhecia seu tom, apesar dos anos; era um que aumentava gradualmente, que significava que ele faria birra se as coisas não melhorassem logo. — Por que não podemos pegar seu ônibus idiota?
Harry e Padfoot se entreolharam. Harry não gostou do franzir no rosto de seu padrinho.
— Sabe...
— Padfoot...
— Acho que vamos mesmo pegar.
— Padfoot...
— Será educativo — falou Padfoot com um ar de finalidade.
-x-
O padrinho de Harry os fez dar a volta na estação e descer uma rua lateral vazia. Dudley arrastou seu malão em silêncio. Harry parecia ter dificuldades com o dele. Ele estava mais alto do que Dudley se lembrava, mas ainda meio magrelo e claramente não era muito forte. Isso era reconfortante; se acabassem trocando socos, Dudley sabia que venceria.
Dudley se preocupara um pouco ao saber que veria Harry. Nunca tivera problemas com ele; afinal, Dudley sempre soubera que era o favorito, sempre vencera quando brigavam, sempre tivera mais amigos, os professores sempre gostaram mais dele, sempre ganhara mais presentes. Ele nunca tinha vivido em um armário. Ele não tinha por que ressentir Harry.
Mas Harry tinha muitos motivos para odiá-los. Ele ficara tão feliz em ir embora, tinha ido embora com um criminoso (os jornais diziam que ele tinha morrido, mas a mãe prometera não ser o caso) e, quando Dudley soubera que morariam juntos por alguns dias, preocupara-se que Harry poderia estar bravo com a mãe, com o pai e com o próprio Dudley. Preocupara-se que Harry pudesse ter aprendido coisas horríveis com seu padrinho. Dudley não queria ser esfaqueado, nem tomar um tiro ou ser envenenado por seu primo vingativo, mesmo que a mãe tivesse dito achar que Harry não os machucaria. Até agora, parecia que ela estava certa. Harry e seu padrinho não pareciam ser perigosos — ainda que o padrinho fosse um criminoso, então as aparências enganavam no caso dele —, mas Dudley ia ser cuidadoso só por precaução.
— Aqui já está bom — falou o padrinho de Harry. Harry soltou seu malão, o rosto vermelho e a respiração ofegante. — Agora, Dudley, isso tudo vai ser um pouco demais para você e me desculpo por isso. Se seus pais tivessem te contado o que já deviam ter contado, essa seria uma experiência muito melhor para você.
— Quê? — perguntou Dudley, confuso. Olhou para Harry (de todas as pessoas) num pedido de ajuda, mas Harry apenas fez uma careta.
O padrinho de Harry ergueu uma mão. Ao lado de Dudley, Harry se encolheu e deu um passo para trás, olhando para alguma coisa. Um momento depois, um jovem surgiu do nada. Dudley recuou com um grito, as mãos se erguendo numa posição defensiva.
— Quem é você? — exigiu saber.
— Stan Shunpieke — falou o homem. — Cobrador do Nôitibus Andante. — Ele olhou para o padrinho de Harry com confusão. — Ele não é um...?
— Três, para a Rua dos Alfeneiros, Surrey, por favor — falou o padrinho de Harry com firmeza, entregando duas moedas de ouro enormes para o homem, como se fosse perfeitamente normal que as pessoas simplesmente surgissem. Um olhar rápido para Harry mostrou que ele também não parecia surpreso, apesar de ter olhado rapidamente para Dudley pelo canto dos olhos. Determinado a não fazer papel de bobo até saber o que estava acontecendo, Dudley abaixou as mãos e tentou parecer tão calmo quanto eles. Harry ergueu o canto dos lábios. — Vamos, Harry, Dudley.
— Caramba — falou Stan Shunpike, piscando para o padrinho de Harry. — Você é Sirius Black. Você estava no jornal...
— Três para Surrey — falou o padrinho de Harry, mal-humorado.
— Então... Você disse Harry? Não o Harry Potter? — Harry se encolheu atrás de seu padrinho, ajeitando o cabelo.
— Três para...
— É, eu ouvi — suspirou Shunpike. — Três para Surrey. Entrem, então, e encontrem seus lugares. Eu levo as malas!
— Entrar? — perguntou Dudley em voz baixa.
— Vamos explicar no caminho — falou Harry, segurando o braço de Dudley. — Só... não grite nem nada assim, está bem?
— Eu não grito — falou Dudley a seu primo com uma carranca. Harry ergueu uma sobrancelha.
— Cuidado com o degrau — falou Harry, guiando Dudley.
Apesar do aviso, Dudley quase tropeçou no degrau, que apareceu junto da porta de um enorme ônibus púrpura. Ele não gritou, mas ficou boquiaberto. Em vez de fileiras de bancos, havia pequenos conglomerados de cadeiras, mesas e camas. O ônibus estava cheio; havia várias famílias, todas com filhos com a idade de Dudley, que eram normais — exceto por um garoto, que brincava com um baralho que pegou fogo enquanto Dudley observava —, mas os adultos eram outra história. Alguns usavam roupas que não combinavam — havia uma mulher com o paletó de um terninho e as calças de um pijama, e um homem numa saia longa e uma jaqueta de futebol —, mas os outros usavam vestidos estranhos e, alguns, chapéus pontudos. Duas corujas piavam de suas gaiolas no canto.
— Algum lugar quieto — falou o padrinho de Harry, entrando depois deles.
Dudley permitiu que Harry o guiasse até o segundo andar do ônibus, até um amontado de camas.
— Segure-se — falou Harry. Assim que Dudley se sentou, o ônibus inteiro avançou e saiu voando. Felizmente, Dudley tinha prestado atenção ao conselho de Harry e o poste da cama em que se segurou evitou que acabasse no chão. Dudley olhou pela janela, maravilhado com a velocidade que iam... Fez uma careta ao quase baterem em outro ônibus e desviou os olhos. Quando voltou a olhar para fora, estavam em alguma parte do interior.
Ofegou.
— Todo seu — falou o padrinho de Harry, indicando Dudley.
— Você pode explicar — argumentou Harry. — Você já teve essa conversa antes.
— E foi culpa da sua tia, também — suspirou o padrinho de Harry.
— O que foi culpa da mãe? — perguntou Dudley, preparando-se para ficar bravo se eles falassem qualquer coisa injusta.
— Ela nunca me contou que a minha mãe era uma bruxa — falou Harry, respondendo mesmo querendo que seu padrinho explicasse tudo. Aí a cabeça de Dudley entendeu o que seus ouvido escutaram, e ele apenas encarou. — O que significa que eu não sabia que era um bruxo até conhecer Padfoot. Nós usamos magia. Vou ficar com vocês porque sua mãe pediu; você, er... sabe que ela foi atacada, certo?
— Por um lunático com uma faca — rosnou Dudley. Quisera visitá-la no hospital, mas o pai não permitira. Dudley rasgara um saco de areia naquela noite.
— Por um lunático com uma varinha — corrigiu o padrinho de Harry gentilmente. Ele tirou um graveto longo e fino de sua jaqueta. Fagulhas vermelhas saíram da ponta quando ele o ofereceu a Dudley... pelo menos até Dudley o tocar, aí as fagulhas sumiram. Recolheu a mão. — Harry concordou em ajudar com um feitiço de proteção, porque ele tem o sangue da sua mãe.
— Magia? — perguntou Dudley, duvidoso.
— Magia — concordou Harry.
Dudley pensou em discordar — o pai sempre tinha dito que magia não existia (apesar de ter dito bem menos desde Harry ter ido embora e, agora que Dudley pensava nisso, era bem interessante) —, mas estava sentado em um ônibus que aparecera do nada e que tinha ido de Londres para o interior em menos de cinco segundos.
— Certo — falou.
Harry e seu padrinho trocaram um olhar incrédulo.
— Certo? — repetiu Harry, com um sorriso lento e descrente.
— Eu acabei de ver um homem surgir do nada — falou Dudley, dando de ombros. — Magia é uma boa explicação.
— Huh — falou o padrinho de Harry.
Dudley pegou mais alguns segundos para processar as coisas; principalmente que, se Harry ia proteger a mãe, então era improvável que ele os machucasse, com um passado criminoso ou sem. Era um alívio.
— Obrigado. — Dudley se pegou dizendo. Harry o olhou. — Nós provavelmente não somos suas pessoas favoritas, mas você ainda vai ajudar a mãe, então... é. Obrigado.
Harry parecia mais surpreso do que qualquer outra coisa, mas, depois de alguns segundos desconfortáveis, ele assentiu uma vez e disse:
— Sem problema. — Então, ele sorriu, hesitante e tímido, e ocorreu a Dudley que ele podia estar tão preocupado em ver Dudley quanto Dudley estivera em vê-lo.
Dudley retribuiu o sorriso por um momento, mas agora tinha algumas perguntas bem importantes.
— Então, se magia é real, os alienígenas também são?
Continua.
N/T: Como só uma pessoa se manifestou, é a opinião dela que decide sobre a frequência de atualização durante o isolamento. As coisas continuarão como sempre foram, uma vez por semana. Obrigada por comentar.
Até semana que vem.
