*********************** Cap 25 Levanta a cabeça, princesa, senão a coroa cai ***********************

Após uma longa subida, na qual os degraus da escadaria pareciam infinitos, Afrodite chegou em casa relutante. Talvez devesse ter ficado em Aquário e insistido naquela conversa com Camus, ter exigido dele que desse o problema por resolvido, como, aliás, sempre fazia, ou mesmo tido a coragem de se abrir para ele. Sentia-se incomodado, o estômago revirava lhe causando náuseas, então, antes que se rendesse a seus já conhecidos ataques de fúria e quebrasse toda a mobília, foi até o único lugar daquele Templo onde conseguia alcançar alguma paz para fazer calar a voz turbulenta que berrava dentro de si: o jardim das rosas.

Antes de embrenhar-se nas roseiras, que eram uma extensão de si mesmo, tão belas quanto letais, ele despiu-se da farsa que cobria-lhe o corpo e caminhou nu e descalço por entre os ramos, sentindo a terra úmida sob seus pés, até quando não se sabia mais o que eram braços ou ramos, pernas ou galhos, seiva ou sangue.

No meio das centenas de rosas, brancas, vermelhas e negras como a noite, ele era mais uma, a mais bela, então suas pernas cederam completamente e com o baque ele dobrou os joelhos no chão.

Será que conseguiria viver uma vida inteira ao lado de Camus?

Os pensamentos o castigavam incessantemente, apontando-lhe a culpa por ter ferido terrivelmente a autoestima do homem que amava com repetidas acusações mordazes escoradas em um falso sacrifício e abnegação de sua parte.

Cabisbaixo ele suspirou sentindo os cachos exuberantes de seus cabelos serpentearem por entre os finos galhos do roseiral, que parecendo sentir sua dor e desespero pungentes fechavam-se em torno de seu corpo com cuidado e delicadeza maternal, tocando-lhe a pele alva sem feri-la com seus espinhos.

Mas o conforto não vinha, tampouco o abrandamento de sua angústia. A cada suspiro novas cenas de brigas acendiam na mente de Afrodite. Eles eram um casal errado. Um amor que nascera na pior época para ambos. Eram opostos. Camus um homem extremamente violento, agressivo, fechado, e ele... Ele próprio era egoísta e manipulador. Sua violência não estava nos gestos, mas nas palavras.

Será que estavam insistindo em um erro?

Camus, pelo jeito, tinha se cansado de insistir.

Tombou a cabeça para trás e inspirou o ar em torno de si profundamente. Era tóxico. Como ele.

Talvez o erro foi ter pensado que amaria alguém mais que a si mesmo.

Narcisista!

Como odiava aquela palavra e tudo o que ela representava. Como a negava veementemente ao ponto de cegar-se para as consequências.

Será que conseguiria, de fato, viver uma vida inteira ao lado de Camus? Amá-lo de maneira saudável, sem jogos, sem manipulações, sem agressões...

Não que subestimasse o amor e a lealdade de Camus. Sabia que não era nada simples para o francês amar um hedonista que um dia fora um promíscuo assumido e tivera mais parceiros sexuais na vida do que ele tinha de sardas no rosto. Não que Camus buscasse nele um companheiro virginal, visto que era sabido que não, o que magoava o francês era o modo como lidava com esses ex-amantes. Tal constatação, aparentemente óbvia, porém negada por oito anos, encheu de tormento o coração de Afrodite, e o desespero o puxou para baixo feito raiz que se embrenha na terra à procura de água. Com as mãos trêmulas a apartarem firme a terra ele chorou, enquanto em sua mente atormentada a voz triste de Camus repetia que tinha chegado a seu limite.

Embora tivessem momentos bons, a verdade era que estavam se destruindo lentamente, e contra todas as suas expectativas fora Camus a cair primeiro. Justo ele, o imponente mago do gelo.

Será que conseguiria, de fato, viver uma vida inteira ao lado de Camus?

A reflexão martelava em sua mente insistente e incômoda.

A quem queria enganar? A si mesmo é que não era!

Depois de duas horas ali, Afrodite seguiu até o quarto, tomou um banho para livrar-se da terra em seus pés, joelhos e braços e sentou-se na cama de frente para um imenso espelho que tomava a parede toda. Ficou imóvel por quase mais uma hora, olhando sua imagem refletida.

Quão diferente de Camus ele era, pensou. Aquário sempre tão contido, introvertido, ponderado... quantas coisas ele guardava para si, calado. Quanto ele sofrera em silêncio até desabar daquela maneira a sua frente...

Peixes sabia também que não queria passar a vida simplesmente se escondendo de tudo e de todos.

Será que conseguiria, de fato, viver uma vida inteira ao lado de Camus?

Farto daquele questionamento, da culpa, das brigas, das acusações e cobranças, farto de tudo, foi a necessidade gritante de dar um basta naquele dilema de uma vez por todas, acabar com a dor de Camus e também com a sua, que fez Afrodite levantar-se num salto e correr para o closet.

Não esperaria o sol nascer. Não esperaria nem mais um minuto para dizer a Camus o que pensava de sua proposta de relacionamento aberto.

Já era madrugada, e no Templo de Aquário Camus finalmente conseguira pegar no sono depois de muito insistir, esse conturbado e inquieto como seu estado de espírito. A conversa com Afrodite horas antes contribuíra, e muito, para tal. Estava tão triste que precisou esforçar-se para conter o choro e esquivar-se como pôde das perguntas de Hyoga. O garoto russo não era bobo, ele sabia que os pais estavam enfrentando uma briga bem mais séria do que as que costumeiramente presenciava, mas depois de uma conversa amena, na qual percebeu que Camus mais o enrolava do que de fato lhe esclarecia algo ele desistiu e seguiu para o seu quarto.

Hyoga dormia profundamente quanto foi desperto de súbito por um aroma fortíssimo de rosas que invadiu o quarto. Surpreendido, abriu os olhos e sentou-se na cama, então notou uma trilha de rosas vermelhas que brotavam magicamente do chão e iam da sua cama em direção à porta. Nem perdeu tempo em tentar entender o que acontecia ali, pois que sabia que só havia um Cosmo naquele Santuário capaz de invadir o Templo de Aquário daquela maneira sorrateira sem despertar as defesas de seu guardião. Aquelas rosas eram reais, não se tratavam de ilusão. Deu um salto da cama e eufórico deixou o quarto. Contudo, bem na hora que abriu a porta viu Camus passar apressado pelo corredor. Não teve dúvidas, correu atrás dele seguindo a trilha.

Para o francês aquela invasão silenciosa tinha sido ainda mais admirável. Chegou a pensar que estava sonhando quando sentiu no corpo o toque macio e delicado das pétalas perfumadas. Acordou assustado. O aroma das rosas era forte e inebriante, e ele só se dera conta de que não era sonho quando percebeu-se deitado em meio a tantas flores que sua cama mais parecia o carpete de um suntuoso jardim. Intrigado ele logo percebeu a trilha de rosas que o chamava para fora do quarto.

E agora lá estavam os dois, pai e filho, que guiados pelas rosas fantásticas chegaram à cozinha e viram, ainda mais curiosos, que elas terminavam na única janela aberta que havia ali. Estava completamente escuro, por isso Camus acendeu a luz e viu as cortinas balançarem devido à brisa, que trazia para dentro um perfume já muito conhecido de ambos.

Eles seguiram juntos até a janela. Camus num andar lento e circunspecto, Hyoga tentando administrar como podia com sua jovial euforia. Então, ao chegarem ao parapeito e se debruçarem para olhar para o lado de fora, veio a surpresa.

Ali estava Afrodite. Há alguns metros abaixo, já que por conta do terreno inclinado da montanha, aquela parte do Templo de Aquário ficava acima do nível das escadarias. Atrás dele a escuridão só não era total devido às luzes da casa de Virgem lá embaixo, que brilhavam fracamente mesmo àquela hora da madrugada, e a luz que vinha da cozinha, a qual iluminava sua figura o suficiente para ver que vestia-se com trajes femininos. Mais que isso, Afrodite usava um vestido todo branco de rendas com detalhes em tule, gola alta, mangas longas, cintura marcada por um largo cinto de cetim e saia rodada até o meio das coxas. Brancos também eram os saltos em seus pés e a coroa feita de rosas que adornava sua cabeça. Os cabelos longos soltos estavam escovados e lisos caiam por sobre o peito feito duas cachoeiras de águas cristalinas que refletiam o azul do céu de um dia ensolarado. E uma das mãos ele segurava uma única rosa, vermelha como seus lábios pintados de batom.

— Mas... O quê?! — Camus inclinou-se ligeiramente sobre o parapeito da janela e surpreso levou a mão ao peito.

Maman Di! — Hyoga exclamou com um sorriso efusivo, espremendo-se no pequeno espaço que dividia com o pai — O que está fazendo ai fora?

Mon petit, o que as pessoas fazem na calada da noite debaixo da janela da casa da criatura amada? — Afrodite disse aos sussurros, sorrindo divertido quando viu Hyoga trocar um rápido olhar com Camus, que ainda com a mão no peito entreabriu os lábios meio desconcertado.

— Eu não sei não — disse Hyoga rindo voltando a olhar para Peixes.

— Uma serenata, óbvio! — sussurrou Afrodite.

Camus chegou a abrir a boca para dizer algo, mas nem teve tempo. Antes que sua mente começasse a pensar que aquela seria mais uma das tantas diabruras que Peixes lhe aprontava, o ouviu pigarrear limpando a garganta e então com as mãos juntas e os olhos aquamarines fixos aos seus ele começou a cantar.

— O cravo brigou com a rosa

Debaixo de uma sacada

O cravo saiu ferido

E a rosa despedaçada

O cravo ficou doente

E a rosa foi visitar

O cravo teve um desmaio

E a rosa pôs-se a chorar

A rosa fez serenata

O cravo foi espiar

E as flores fizeram festa

Porque eles vão se casar.

A voz do Cavaleiro de Peixes era doce, calorosa e levemente embargada por uma emoção que já na terceira estrofe do verso cantado ele não conseguiu segurar. Seus olhos marejados não se desprendiam dos de Camus, que agora agarrava-se ao tecido da camiseta velha com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

Quando Aquário menos esperava, ele viu Afrodite enfiar a mão na fita de cetim em sua cintura e dela retirar duas pequenas argolas, as quais, de onde via, e devido à penumbra, lhe pareceram feitas de pequenos galhos de roseira trançados, depois viu Peixes se ajoelhar ali mesmo e então seu coração disparou.

— Camus de Aquário, você aceita se casar comigo? — disse Afrodite sem nenhuma sombra de hesitação.

Quoi? — Camus murmurou estarrecido. Tinha os olhos arregalados, o rosto lívido e as mãos frias. Chegou a sentir uma pontada de dor no coração.

Hyoga abriu a boca e arregalou os olhos. Olhou eufórico para o pai, na expectativa pela resposta.

Do lado de fora, Afrodite também era pura expectativa.

— Camus, você é o amor da minha vida, e o Hyoga é meu mini Camus... Eu não quero ser livre, não quero nadar em um oceano... Eu quero ser uma peixinha de Aquário!... Casa comigo, mon amour? — disse Afrodite, sentindo seu coração bater cada vez mais forte.

Inerte, Camus ainda tentava processar em sua mente o que estava acontecendo.

Aquilo era real? Estaria ele sonhando? Ou melhor, seria aquilo um pesadelo?

Não conseguia organizar seus pensamentos em forma de palavras. A realidade era que sua Fleur estava debaixo da janela de sua cozinha vestido de noiva, fazendo-lhe uma serenata e o pedindo em casamento logo depois de lhe ter proposto terem um relacionamento aberto. Camus sentiu-se tremer da cabeça aos pés. Na verdade, casar-se com Afrodite era um sonho antigo, íntimo, um desejo reprimido que guardava consigo em seu coração e que jamais tivera coragem de expor a ele. Como não tinha mesmo agora.

Logo, o mutismo de Aquário começou a afligir o coração de Peixes.

— Camus? — o sueco o chamou.

Mas foi Hyoga quem tirou o pai de seu torpor.

Père! Père! Responde a Maman! Responde logo. — Hyoga chacoalhou seu braço, animado. Só então notou que os olhos avelãs dele estavam marejados e uma lágrima já deslizava por seu rosto atordoado — Père, o que foi?

Camus olhou para Hyoga e sentiu-se envergonhado por ele o ver chorando, então discretamente enxugou o rosto com a ponta dos dedos, respirou fundo e finalmente inclinou-se sobre o parapeito para olhar para Afrodite lá embaixo.

— A minha resposta é non!

A rosa vermelha que Peixes segurava na mão murchou na hora, assim como todas as outras no interior da casa de Aquário.

— O QUÊ? — ele gritou, com os olhos esgazeados e a boca escancarada, esquecendo-se do silêncio obrigatório que impunha a calada da noite.

Père?! — Hyoga virou-se para Camus, com o rostinho tomado pelo choque daquela resposta inesperada.

Inesperada também foi a reação do Santo de Aquário, que visivelmente abalado deu as costas aos dois e deixou a cozinha às pressas.

Do lado de fora, Afrodite o viu desaparecer da janela e Hyoga ainda ali a olhar para si com uma fisionomia angustiada.

— Camus? — Peixes o chamou, sentindo o coração palpitar acelerado dentro do peito e o estômago revirar — Ei! Camus? Volta aqui!

Maman, eu acho que ele não gostou da serenata. — Hyoga falou apoquentado, olhando para Afrodite do lado de fora, que era a pura e genuína expressão do desespero.

Fazendo um sinal para que o menino se afastasse da janela, Afrodite saltou no parapeito e depois para dentro da cozinha, ficando frente a frente com ele.

— Será que eu cantei tão mal assim? — disse enquanto ajeitava a saia do vestido e os cabelos alisados.

— A senhora cantou lindo, Maman... mas dessa vez acho que a briga foi feia, né? — Hyoga falou fazendo um biquinho.

Afrodite respirou fundo e com carinho segurou no rosto dele, beijando-lhe a fronte em seguida. Deixou nela uma marca vermelha de batom.

— Presta atenção. Não quero que esquente essa sua cabecinha loirudinha linda de neném com problemas de dois adultos que só fazem merda, tudo bem? Maman vai resolver isso. Vou falar com ele.

Separaram-se depois de um abraço apertado no qual Hyoga deixou claro que apoiava, e ansiava, pela união legal dos dois, e que o gesto de Afrodite, embora achasse ousado demais para uma mulher, tinha sua total admiração.

Seguindo pelo Templo de Aquário a dentro, Peixes logo chegou à suíte de Camus, de onde sentia emanar frio e fraco seu Cosmo. Parou em frente a porta e agarrou-se à maçaneta como se precisasse se firmar em algo para não desmontar. Sentia suor frio aflorar de sua testa. Estava nervoso. Na verdade, estava com medo. Foi até ali com a certeza de que um pedido de casamento seria claro o suficiente para provar a Camus que o amava e que escolhia viver ao lado dele, e somente dele, independentemente do modo de vida que tivessem, mas sua negação fez suas certezas caírem por terra e agora o desespero voltava a lhe devorar a alma.

Deu dois toques na porta antes de abri-la, e quando entrou no quarto encontrou Camus sentado na beirada da cama; os cabelos soltos caídos no rosto voltado para baixo e a respiração ligeiramente ofegante entregava que ele parecia tentar controlar um aparente nervosismo. Segurava firme ambos os joelhos com as mãos.

Afrodite aproximou-se dele vagarosamente.

— Camy? Eu sei que...

— Por que está fazendo isso? — Camus perguntou o impedindo de concluir a frase.

— Isso o quê? — questionou Peixes o examinando.

— Por que está aqui? — levantou o rosto para olhar nos olhos dele — Por que está vestido assim?... Eu o libertei do martírio de ter de mentir para o Hyoga. Do sacrifício de ter de fingir ser mulher, que finge ser um homem, que finge ser mulher e que finge ser amada... Aliás, eu sempre amei você de verdade, non sei porque merde diz que finge ser amado. — Camus disse em voz baixa — Eu te libertei de tudo, Afrodite, do sofrimento que eu te causo, das mentiras... então você aparece aqui, me faz uma serenata e me pede em casamento? Por quê? Por que está fazendo isso?

— Mulher, como por quê? — Peixes disse angustiado, então suspirou e foi até ele, forçando-se a manter o foco na questão que realmente deveria tratar, sem deixar-se escapar pelas arestas que sua própria mente narcisista criava. Talvez não conseguisse ser exatamente claro como deveria, mas não custaria tentar — Estou vestido assim porque sou a mãe do Hyoga, e porque sou seu parceiro, seu cúmplice e seu companheiro. Foi isso que escolhi ser — disse mostrando-se claramente seguro em suas palavras, enquanto sentava-se ao lado dele na cama assumindo a mesma postura — Pensei que tivesse entendido... Camus, você quer mesmo um relacionamento aberto? Por quê? Porque não confia em mim?

Camus não conseguiu disfarçar o quanto aquela conversa o machucava. Simplesmente não conseguia conter a emoção.

Non... non é isso, Ma Belle... — disse esfregando o rosto — Apenas non posso mais viver sabendo que te obrigo a ser quem non é, a ir contra a sua natureza, quando eu mesmo levo uma vida de mentira fingindo ser alguém que eu non sou...

— Camy...

— Você se sacrifica por mim, enquanto eu non faço nada por você, apenas te dou presentes caros para que me aceite... Non bato de frente com a Vory, non conto a verdade a Hyoga, non assumo ser uma merde de uma bicha ridícula...

— Não... Não! Camus! — Peixes num impulso aflito levou ambas as mãos ao rosto dele e lhe afastou os cabelos ruivos desgrenhados para espreitar seus olhos — Olhe para mim... — fez uma pausa tentando regrar o compasso de sua respiração — Pode ser que me odeie depois do que vou dizer a você, mas esse é um risco que preciso correr, porque nem a facada nas tripas que tomei do Ale seis anos atrás me doeu tanto quanto ver você assim e saber a culpa é minha.

Os olhos confusos e marejados de Camus divisaram profundamente as íris aquamarines.

— Culpa? Non... você non tem culpa de nada, eu é que te faço mal, que non te compreendo e non respeito suas necessidades... A sua vida é triste por minha causa... Como pode querer se casar com alguém como eu? Nós non temos futuro, Afrodite.

Afrodite soltou o rosto dele, sacudiu a cabeça num gesto frenético e bruscamente se levantou da cama. Ficou de pé na frente de Camus o olhando firme nos olhos.

— Meu amor, existe um panteão todo de deuses acima de nossas cabeças, e o pior deles bem abaixo dos nossos pés, só esperando uma oportunidade para acabar com a raça humana, e a razão da nossa existência é justamente impedi-los para garantir o futuro da Terra, então, se a gente pode lutar pelo futuro de mais de seis bilhões de pessoas, porque não poderíamos lutar pelo nosso? — fez uma pausa e respirou fundo enquanto Camus o olhava atentamente como se absorvesse aquela informação — Mas, não é isso que está em questão, mon amour.

Non? O que é então?

Peixes se ajoelhou e de frente para Camus apoiou ambas as mãos em suas coxas, sempre o olhando firme nos olhos.

— A questão é que nós, você e eu, cagamos no maiô um com o outro, por várias vezes nesses oito anos, mas... mas eu caguei mais que você, Camus, muito mais, porque eu caguei no meu e no seu maiô também.

Dieu, Afrodite... — Camus levantou a cabeça e com um semblante exausto esfregou o rosto — Por que você non pega minha pistola ali na gaveta e me dá um tiro na cara logo de uma vez? Quer me matar, seja breve... Eu non te entendo.

— Tá, eu vou me fazer entender. — Peixes piscou os olhos e respirou fundo, como que tomando fôlego e coragem, então com calma segurou nas mãos dele e deu um beijo em cada uma — Camus... Eu... Eu não fui leal com você... Em muitas situações, em quase todos os nossos equês, eu não fui leal com você... A verdade é que eu fui um enorme de um canalha.

Camus abaixou a cabeça e olhou para ele com os olhos estreitados. Demorou-se a dizer algo, analisando a fisionomia atormentada dele.

Pardon? — questionou, verdadeiramente curioso com o rumo que aquela conversa estava tomando — É sério que vai falar do cretino do Saga uma hora dessa?

— Do Saga? Não! Não estou falando do Saga.

Dieu très saint, está falando de quem então? — perguntou, trêmulo e nervoso, pondo a mão sobre o coração dolorido — Você me traiu com mais alguém, Afrodite?

— O quê? Alôca! Camus eu nunca te trai, gata, mas que merda! Isso nunca aconteceu antes, mas está acontecendo de novo!* — Afrodite arregalou os olhos e sobressaltado sacudiu a cabeça fortemente em negativa.

— Está acontecendo de novo? — Camus perguntou aflito, quase hiperventilando — Então você me traiu!

— Não!

— Está falando de quem?

— Não estou falando de ninguém, santa. Por Dadá, não traga mais ninguém para esse quarto. Isso é só entre você e eu... Estou falando de mim, e apenas de mim... Camus, eu não fui leal com você, porque eu te truquei esse tempo todo... Eu menti.

— Você... mentiu? — Aquário perguntou aflito. Afrodite era um homem imprevisível demais e estava com pavor do que viria — Mentiu para mim? Mentiu sobre o quê?

— Sobre mim.

— Como assim sobre você?

— Sobre como me sinto estando com você. Sobre como me sinto sendo conivente com a história que inventamos para o Hyoga, sobre Maman Di, sobre o que eu sinto fingindo ser uma mulher que finge ser um homem que finge... ser amada — suspirou e encheu os pulmões em seguida, sentindo seu coração bater tão forte e rápido que chegava lhe faltar o ar — Camus, eu não finjo. Quer dizer, eu finjo que eu finjo.

Dieu... — Aquário soluçou angustiado — Você vai me enlouquecer.

Afrodite segurou forte nas mãos dele.

— Camus, eu sei que eu sou amado por você. Eu nunca fingi... Eu sinto o seu amor como eu sinto o vento, o sol, os pingos da chuva... a toda hora e nos mais ínfimos momentos, nas pequenas e também nas grandes demonstrações... Mas o meu coágulo me obriga a mentir.

Non... Arrête ça! Pare já com essa merde, Aphrodite, s'il vous plaît... Você non vai começar com isso agorapediu Aquário irritado lhe apontando o indicador em riste.

— Me ouça, por favor...Tem algo dentro de mim que me obriga a dizer que sou infeliz, e que tudo o que faço por você e por nossa família é um grande sacrifício, um fardo, quando na verdade não é. Nunca foi!

— Ah, non? Então por que sempre joga isso na minha cara?

— Para fazer você se sentir mal... para fazer se sentir culpado e em dívida moral comigo — confidencializou, e logo em seguida sentiu a garganta apertar e o peito queimar.

Peixes começou a chorar sem se importar em conter-se. Na verdade, estava bem mais preocupado em desvendar a expressão severa que agora cobria o rosto de Camus, até que de repente sentiu as mãos dele tão frias que foi obrigado a solta-las, mas manteve-se ajoelhado diante dele.

— Não teve um só dia, nesses oito anos, em que eu não tenha me sentido amado por você, Camus... — continuou o pisciano — E tem mais... eu tenho plena consciência de que você é um homem com traumas severos, e eu também usei disso algumas vezes para fazê-lo duvidar de si mesmo e conseguir o que eu queria — baixou a cabeça e num choro convulso cruzou os braços. O quarto estava começando a ficar insuportavelmente frio — Mas tem que acreditar em mim, toda vez que eu fazia isso, logo em seguida eu me dava conta, então me sentia um merda, um homem desprezível, mas mesmo assim nunca consegui admitir, nem voltar atrás... Eu simplesmente não consigo controlar... Eu sei o quanto é difícil e desgastante para você, viver esse relacionamento comigo, assumir-se para si mesmo como gay e acredite, eu não acho que você seja uma maricona enrustida. Eu sei de todos os problemas que nos cercam e que te impedem se assumir, e de me assumir... eu só digo essas coisas para te machucar, mas eu não queria dizer, só que quando me dou conta meu coágulo já me fez dizer.

Aphrodite... — a voz de Camus era um mero murmúrio.

— Eu juro, juro por Atena, juro pela minha pinta debaixo do olho. Que ela suma e faça de mim um homem comum, ordinário e sem graça se eu estiver mentindo. Eu juro que sempre tentei me policiar e não deixar isso me vencer, sempre tentava fazer o meu melhor, mas acabava fazendo o de sempre.*

Alors... pourquoi? — Camus perguntou em franca inocência.

Peixes olhou para ele, mas logo em seguida voltou a baixar o rosto envergonhado.

— Porque eu coloquei meu amor próprio acima do meu amor por você... e porque... porque é isso que eu faço, sabe? Mas o meu amor próprio está longe de ser uma questão saudável de autoestima... ele é nocivo... Me dói admitir, mas enquanto você acreditasse que eu estava com você por algum tipo de pacto, ou acordo informal, mera gratidão que seja, e não apenas por amor, eu teria o controle do nosso relacionamento nas minhas mãos... e porque eu sentia que a qualquer momento você pudesse descobrir isso e me deixar. O que te prenderia a mim se isso acontecesse? Nada, mas se você ficasse inseguro talvez isso não acontecesse... — levou as mãos ao rosto e o escondendo chorou de soluçar.

Com a fisionomia transtornada, Camus instintivamente se afastou dele alguns centímetros arrastando-se para o lado. Estava tão chocado, tão atordoado que sequer conseguia chorar ou definir que tipo de emoção estava sentindo diante de tão crua revelação.

Dieu... você tem noção do quanto... do quanto isso é grave, Afrodite? — perguntou em voz baixa, atônito, ainda que soubesse a resposta, já que a julgar pelo pranto copioso do pisciano ali, ajoelhado na beirada da cama, sim, ele tinha noção.

— Sim... eu tenho... — disse Peixes ainda aos soluços — Eu fui egoísta com a única pessoa no mundo que eu jamais desejei ser... E a cada vez que eu repetia o mesmo erro eu me culpava, porque eu te amo, te amo muito, mas deixei meu maldito narcisismo falar mais alto porque... era mais forte do que eu, sempre foi, e porque eu tinha vergonha de admitir, mas quando percebi que te feri de verdade eu vim aqui dar minha cara a tapa e admitir. Camus... dentro das suas limitações, e dentro do que você pôde fazer considerando a vida que leva, e na qual foi criado, você é um homem incrivelmente forte e corajoso, sempre foi. Você escolheu arriscar a sua vida e a do seu filho por um garoto de programa, e eu o admiro imensamente por isso, então, mesmo que me odeie e nunca mais queria olhar na minha cara eu te peço perdão. Perdão por ter feito você acreditar que é um merda, uma maricona ridícula e enrustida... me perdoa. Você não é nada disso. — levantou a cabeça para ele e olhou em sua face congelada — Eu odeio ser assim, odeio esse narcisismo, e luto todo dia para vencê-lo... mas... é tão difícil... já ferrei com a vida de tanta gente por isso, com a minha própria vida, mas não posso deixar isso destruir você. Não você... Me perdoa, Camus... por favor, me perdoa.

Em meio aos pedidos e súplicas de Peixes, Camus levantou-se da cama sobressaltado e nitidamente nervoso. Um turbilhão de sentimentos o afetavam tal qual um choque elétrico, lhe revirando o estômago, secando a boca, fazendo tremer os músculos do corpo todo e o coração palpitar dolorido e acelerado. Haviam muitos pesos e meditas a se considerar.

Desnorteado, e ainda ouvindo o pranto incessante de Afrodite, Camus esfregou o rosto enquanto dava alguns passos lentos pelo quarto, andando em círculos e tentando acalmar o coração e a mente. Respirou fundo buscando dentro de si mesmo a calma que era preciso ter para ponderar sobre tudo o que Peixes havia lhe dito e tomar uma decisão para o tormento que lhe afligia desde aquela manhã, quando reunira todo seu raciocínio lógico para propor a ele um relacionamento aberto, pensando essa ser a única solução para ambos, mas sofrendo amargamente desde então. A considerar tudo o que Afrodite dissera, talvez fosse mesmo o melhor a se fazer, já que sentia-se incapaz de fazer o correto, que era separar-se dele de vez. Porém, diante daquela nova realidade, e embora o desejo de seu orgulho ferido fosse mesmo deixar Peixes, o de seu coração, e de sua alma, eram outros. Camus amava Afrodite e não tinha como negar isso. Peixes era sua benção e sua maldição.

Com calma, porém não menos atormentado e consumido pela mágoa, embora entendesse o dilema de Afrodite, que ainda chorava copiosamente ajoelhado diante do leito, Aquário foi até ele e voltou a se sentar no mesmo lugar onde estava, de frente com o sueco, que imediatamente levantou o rosto molhado encontrou sua face impassível e dura. Os olhos de Camus eram tais quais os de um falcão, e olhavam para si com uma expressão aterrorizantemente séria.

— Repita a pergunta. — Camus ditou em voz grave. A postura firme como a de um general.

— O quê? Que pergunta? — Peixes soluçou ofegante, depois, distraído, puxou a barra do lençol da cama e enxugou o nariz.

— A pergunta que me fez debaixo da minha janela.

Afrodite engoliu em seco e fungou enxugando os olhos.

— Eu sei o que está pensando — olhou para os dedos sujos da tinta preta da máscara para cílios, que não era à prova d´água — Está pensando que eu vim aqui te pedir em casamento para te comover ou te manipular de novo, te amansar de alguma forma, ainda mais depois tudo o que eu te disse.

— Que tal, a partir de agora, você me deixar tirar minhas próprias conclusões das coisas? — propôs o francês.

Afrodite o fitou por um momento sem dizer nada. A fisionomia dele continuava apavorantemente séria como era de costume. Suspirou meio que esgotado, então enfiou os dedos sujos no cinto de cetim e apanhou as duas argolinhas feitas de galhos de roseira trançados; as levantou até o nível dos olhos de Camus com as mãos meio trêmulas.

— O meu amor pode ser tóxico, como eu, mas eu acredito que o amor em si vale a pena quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser, então... você quer ser o meu antídoto, Camus? Eu não quero me afastar de você, porque eu jamais encontraria liberdade em outros braços que não nos seus, e eu jamais seria feliz vivendo outra vida que não exatamente esta, então... você aceita se casar comigo? Não importa se isso for possível só amanhã, semana que vem, daqui cinquenta anos, quando os suínos da Vory estiverem todos mortos ou caducos, ou em outra vida... O que importa é se você aceita ou não se casar comigo.

Oui.

Afrodite prendeu o ar dentro dos pulmões e piscou os olhos meio que incrédulo.

— Sim? — perguntou com os lábios trêmulos — Você... você disse sim? Ou disse não e eu é que ouvi dizer sim?

— Eu disse sim... Eu aceito me casar com você, Afrodite — repetiu Camus, com um tom de voz ainda mais grave que o usual.

O rosto de Afrodite iluminou-se e ele sorriu emocionado, porém quando levantou os braços eufórico e já se preparava para puxar Aquário para um abraço, eis que este fez um gesto indicando-lhe para que não o tocasse.

— Espere... eu também tenho algumas coisas a dizer — disse ele — Você me magoou muito, Afrodite, e embora ainda esteja chocado com tudo o que me disse eu tenho que admitir que também sou falho. Non errei apenas com você, mas com Hyoga, com Natássia, porque a envolvi com a Vory e a deixei morrer, com tanta gente... — suspirou contraindo os lábios — A verdade é que nós dois sabemos que isso é uma grande loucura, esse pedido de casamento, mas por Dieu, eu aceito... Aceito ser seu noivo, mas com a condição, ou a promessa, chame como preferir, de que, de agora em diante, nós dois iremos nos comprometer a ser verdadeiros um com o outro. Você entende o que isso quer dizer? Chega de colocar a culpa dos seus erros nos outros e na merde de um coágulo que todo mundo sabe que non existe.

— Meu coágulo existe sim! — disse Peixes pousando a mão sobre a cabeça.

— O seu coágulo é esse seu narcisismo desenfreado que non poupou nem a mim, non se faça! — o repreendeu — Ouça bem, eu estou te dando uma última chance, como você deu a mim tantas vezes no começo do nosso relacionamento... Uma chance para o nosso amor, então, quem sabe um dia uma versão melhor de nós dois realizará os sonhos que ainda non podemos realizar.

Só depois que Camus se calou Afrodite conseguiu enfim relaxar dando um longo suspiro, então fechou os olhos sentindo as lágrimas voltarem a deslizar por seu rosto. Sentiu como se um peso enorme fosse tirados de seus ombros, e em silêncio deu graças à Atena.

Quando abriu os olhos Peixes encontrou Camus de pé lhe oferecendo a mão para ajudá-lo a se levantar do chão. Ele a tomou na sua e de pé ambos ficaram a dois palmos de distância apenas um do outro.

— Eu amo você, Camus, e eu sei que esse amor pode fazer de mim uma pessoa melhor — disse o pisciano ainda de mãos dadas com o francês — Não há outro lugar no mundo que eu queira estar senão no seu aquário, mon amour. E também não precisa me prometer nada. Eu só quero poder amar você e ficar com minha família, você, eu e Hyoga. Jamais trocaria vocês por uma charufináceia de relacionamento aberto e oceanos cheios de peixes-espadas. Eu quero ser um peixe de aquário, quero ser seu e quero que seja meu, até que tudo se acabe como tiver que acabar.

Camus hesitou por um momento, mas com um meio sorriso rendeu-se ao momento e ao amor que sentia por Afrodite. Tocou o rosto dele de leve, fazendo uma carícia sobre a pele úmida das bochechas até descer o indicador para os lábios tintos de batom vermelho.

— Eu também amo você, Afrodite, amo muito, e apesar de tudo... de todas as dúvidas que tenho na minha vida, essa é a minha única certeza — disse, e em seu íntimo já pensava que não importasse o tempo que levasse, iria se unir a ele um dia. Se consolidaria ainda mais dentro da Vory v Zakone, eliminaria todos seus inimigos e alcançaria a lealdade incondicional de todas as células da facção, então, quando chegasse a hora deixaria seu legado a Hyoga, seu filho, e estaria livre para viver seu amor com Afrodite como desejavam — Isso ai são alianças? — perguntou apontando para as argolinhas na mão de Peixes.

— Ah! Sim! — ele respondeu as mostrando para o francês — Eu as fiz com o meu Cosmo, então não irão secar, murchar ou morrer enquanto eu estiver vivo... Eu sei que a ocasião pede uma joia Odara, mas isso é tudo que eu consegui diante do imediatismo da ocasião — sorriu sem graça — Eu posso ir até a Tiffany amanhã encomendar duas alianças e...

Non. — Camus o interrompeu falando em voz baixa e tom bem mais ameno, depois tomou as duas alianças das mãos dele — Nenhuma joia desse mundo terá o mesmo valor dessas.

Com delicadeza o cavaleiro de Aquário tomou a mão direita de Peixes e deslizou vagarosamente a argolinha viva em seu dedo anelar. Afrodite repetiu o gesto com Camus, e a aliança, assim que foi posta em seu dedo, ajustou-se sozinha enquanto o sueco lhe tomava as mãos e as segurava com firmeza.

— Camus, eu te prometo esperar o tempo que for preciso, sendo fiel a você e leal ao nosso compromisso. Obrigado por me dar uma chance de provar que posso ser melhor com você, posso, e quero ser — disse olhando nos olhos dele.

— Eu sei que quer... — Camus suspirou, e rendendo-se ao desejo de abraça-lo o puxou para seu peito e o apertou contra si com força — Eu vou me casar com você, Afrodite de Peixes, te dou a minha palavra.

— Por enquanto, se me der um beijinho já tá de bom tamanho — disse o pisciano com um risinho abafado.

Beijaram-se demoradamente, no início um tanto contidos, já que eram muitas as mágoas e ponderações ainda à flor da pele, esperando para serem digeridas, mas depois rendidos à paixão ao amor que sentiam um pelo outro, que apesar de conturbado e fora dos padrões ainda assim era legítimo, e era deles. Só deles.

Quando se separaram, Camus foi até a penteadeira, pegou de um porta joias um fino cordão de ouro e colocou nele a argolinha viva.

— Sabe que non posso usar essa aliança no dedo, não é? — disse colocando o cordão em torno do pescoço — Mas a levarei sempre comigo no peito.

— Eu sei sim. — Afrodite sorriu, já bem mais aliviado, até sorridente — Quando a gente se casar, podemos mandar fazer outras, de ouro rosa com diamantes. Ai eu adoro ouro rosa! Ou então a gente manda banhar essas com ouro. Vão ficar lindas... Ah! O que você acha da gente fazer nossa festa de casamento num castelo na França? Ou na Suécia? Ah, tanto faz, desde que seja num castelo e a decoração seja toda em rosa nude e rosa marfim. Acho que dá um contraste tão babado o marfim com cinza rústico das pedras... Ah! Mon amour, podemos fazer nossa lua de mel em Bora Bora? Eu sempre quis conhecer Bora Bora! Podíamos ir com o Vênus e levar o Hyoga.

— Será que você pode ser um pouquinho menos pisciano, Ma Belle? — Camus sorriu para ele — Quando chegar a hora nós vemos isso. Agora temos uma coisa mais urgente para resolver. Hyoga deve estar roendo os cotovelos de ansiedade. Ele passou o dia todo preocupado conosco, com nossa briga. Conheço mon petit.

— Mas é claro! Vamos lá contar a novidade a ele — disse Peixes pegando Camus pela mão.

Juntos foram até a sala onde Hyoga aguardava paciente enquanto lia um livro de física quântica. Ao vê-los de mãos dadas o garoto jogou o livro sobre a mesa de centro e sorriu animado.

— Finalmente! Ele disse sim? — perguntou sorrindo para Afrodite.

— E ele tinha outra escolha? — Peixes respondeu dando um beijo no rosto de Camus, que corado sorriu acanhado.

— É isso ai, Maman! Père, se o senhor perdesse uma mulher dessa seria muito vacilo — disse indo até eles.

Afrodite e Camus trocaram um olhar cumplice aflito, mas nem tiveram tempo de amargurar a realidade, pois que já receberam Hyoga para um abraço triplo e ali ficaram aos risos e chamegos por longos minutos até que Peixes se separou deles para ir buscar na biblioteca uma câmera polaroide que era guardada na escrivaninha de Aquário. Quando voltou, saltitante de alegria, acenou a Hyoga e Camus que se preparassem para uma fotografia.

— Agora sim! Meus amores, vamos registrar esse momento perfeito! — disse exultante.

— Ah, non! Non! Estou horrível, Afrodite! — Camus reclamou, não apenas por não estar vestido de acordo, coberto com aquelas roupas horríveis que tirou nem sabia de onde, mas por não estar com um estado de espírito favorável à ocasião. Ainda sentia-se triste e magoado.

— Que isso, mon amour! Nem coberto de lama você conseguiria ficar horrível — disse Afrodite indo até ele, então lambeu a palma da mão e com a saliva ajeitou umas mechas mais rebeldes dos cabelos ruivos do francês, que pareciam não ver um pente há dias — Pronto, isso já ajuda. Agora um toque final.

Com seu Cosmo, Peixes fez uma rosa branca grande e vistosa, a qual prendeu no bolsinho mequetrefe da camiseta esfarrapada que Camus usava. Ao lado deles, Hyoga ria da cena inusitada. O pai vestido como um mendigo, cabelo lambido de saliva e uma rosa enorme presa na camisa velha.

— Nunca esteve tão bem apresentável, père — zombou, e levou um pequeno croque na cabeça de Afrodite.

— Seu pai está lindo! Vai, quero nós três na foto. Coloque a câmera ali em cima da estante, Hyoguinha. Programa o timer e corre pra cá.

Enquanto Afrodite se posicionava ao lado de Camus, Hyoga executou a ação e voltou correndo para juntar-se a eles. Aquário passou o braço pela cintura de Peixes e quando os três sorriram a máquina bateu a foto.

Ficaram ali, os três, conversando e fazendo planos que talvez nunca se concretizassem, mas com a certeza de que eram, e sempre seriam, uma família.

* Célebre, só que não, raciocínio inspirado em um dos discursos de Viktor Stepanovich Chernomyrdin, que foi primeiro-ministro russo entre 1992 e 1998, e é o segundo homem mais influente dentro do círculo de Boris Yeltsin, além de fundador da companhia Gazprom. Atuou como embaixador na Ucrânia entre 2001 e 2009.