Capítulo Trinta

Return to Privet Drive

(De Volta à rua dos Alfeneiros)

A porta da frente do Número Quatro da Rua dos Alfeneiros se abriu antes mesmo que Padfoot pudesse tocar a campainha, e Moony os mandou entrar. Harry preferia que fosse assim — rápido —, porque significava que não tinha tempo de piorar as coisas em sua cabeça mais do que já tinha feito.

Atrás de Moony, a tia Petunia murmurou algo sobre os vizinhos antes de soltar um guincho animado ao ver Dudley e se aproximar.

Harry respirou fundo e olhou para o corredor. O tapete era novo, e as paredes eram as mesmas, apesar de uma ou duas das fotografias penduradas terem sido trocadas por outras mais recentes. Duas malas — provavelmente de seus tios — descansavam contra a parede. Um pouco depois de onde os Dursley se reuniam alegremente, Harry podia ver seu antigo armário. A viagem no Nôitibus com Dudley tinha sido boa, mas estar aqui, de volta a essa casa... Harry hesitou na porta.

— Correu tudo bem, pelo jeito? — falou Padfoot a Moony e Dora.

— Bem o bastante — disse Remus. — Você?

— Considerando tudo — suspirou Padfoot, esfregando o queixo. — Dudley não sabia tanto quanto deveria saber, e com isso quero dizer que ele não sabia nada... então...

Mas Harry não ouviu o resto do que Padfoot tinha a dizer, porque o tio Vernon andou discretamente — incrivelmente silencioso para um homem do seu tamanho. Alguns fios prateados tinham aparecido em seu bigode, mas, fora isso, ele estava exatamente como Harry se lembrava.

— Moleque — disse ele, um pouco sem jeito. Harry viu Padfoot e Moony ficarem tensos, e Dora juntou as sobrancelhas, mas a palavra não tinha o desgosto que tivera na última vez que Harry a ouvira. Merlin, Vernon estava mesmo se esforçando.

— Olá — falou Harry, esfregando a nuca.

— Fez boa viagem? — perguntou o tio Vernon, mal-humorado.

— Sim, foi... sim. — O tio Vernon fez um leve som de aprovação. — Você? — Os olhos de Vernon foram para Moony e Dora, e ele assentiu, cauteloso. Divertido, Harry imaginou se a reação dele teria sido a mesma se Dora estivesse usando o cabelo colorido de sempre (e não o cabelo castanho liso e normal que ela usava no momento), ou se Moony estivesse usando as vestes de professor em vez de um suéter e jeans.

— Bem — falou Petunia, pigarreando. Ela soltou Dudley e olhou para Padfoot, Moony e Dora. Harry não a vira o olhar nem uma vez ainda. Como Vernon, ela tinha a mesma aparência que ele lembrava. — Nós precisamos desfazer as malas, então se não se importarem...

Padfoot abriu a boca; Harry quis sorrir e se encolher ao mesmo tempo, mas Moony pisou no pé dele, e Padfoot a fechou.

— É claro; Dora e eu estamos indo — falou Moony, educado. — Foi um prazer conhecê-los. — Ele colocou uma mão quente no ombro de Harry. — Nós nos veremos logo, tenho certeza. — E aí ele olhou educadamente para os tios de Harry. — A gente se vê mais tarde, Padfoot. — Harry virou a cabeça, esperançoso; Padfoot tinha dito que ele e Dumbledore achavam que seria melhor se Padfoot mantivesse sua distância enquanto Harry se acomodava, mas Harry preferia que ele ficasse.

— Vai ficar, é? — murmurou o tio Vernon, olhando de soslaio para Padfoot.

— Dumbledore achou melhor que alguém os protegesse até ele chegar para organizar tudo — falou Padfoot, alegre.

A tia Petunia se esticou ao máximo de sua altura e, por um momento, Harry achou que ela fosse discutir, mas aí seus olhos foram para Dudley e ela assentiu lentamente.

— O Monstro fez empadão de carne para... oof... o jantar — falou Dora, tropeçando no tapete da porta ao sair. — Eu coloquei no forno para manter aquecido.

— Deixe o Padfoot longe dos eletrodomésticos — murmurou Moony a Harry ao seguir Dora para fora. Padfoot soltou um resmungo irritado, mas Harry sorriu e assentiu.

— Bem — falou Padfoot, fechando a porta atrás deles —, primeiro o jantar ou as malas?

— A que hora ele... Dumbledore vai chegar? — perguntou a tia Petunia.

— Oito — respondeu Padfoot. A tia Petunia assentiu.

— Preciso conversar sobre algumas coisas com o Dudley antes de ele chegar, então. — O jeito que ela olhou para Dudley era ansioso, e o cheiro do tio Vernon era desconfortável. — Eu... nós não...

— Não, eu sei que vocês não contaram — disse Padfoot ironicamente. A tia Petunia ficou imóvel, uma mão trêmula a meio caminho de Dudley, como se fosse puxá-lo para mais perto. Dudley olhou para os adultos. — O que significa que eu cuidei dos dois meninos... — Padfoot indicou Harry e Dudley — até agora. — A tia Petunia só o olhou. — Ele aceitou bem — adicionou, prestativo. Harry se encolheu.

— Você... — gaguejou Petunia. — Dudley... ele...?

— Olha aqui — falou o tio Vernon, severo, o rosto assumindo um fraco tom rosado. — Você não pode simplesmente vir aqui e começar a contar ao meu filho suas histórias malucas sobre... sobre...

— Magia? — terminou Padfoot. Seu cheiro era divertido de um jeito irritado. O tio Vernon se contorceu ao ouvir a palavra, do mesmo jeito que os bruxos faziam ao ouvir o nome de Voldemort, e a tia Petunia crispou os lábios de um jeito que lembrava a professora McGonagall. — Alguém tinha que contar a ele...

— Nós íamos contar — ralhou a tia Petunia.

— Mas não contaram. — O cheiro de Padfoot era exasperado, e ele ignorou os resmungos da tia Petunia sobre ela mesma querer contar pessoalmente, em vez de contar pelo telefone. — E eu não podia simplesmente colocá-lo em um ônibus mágico sem explicar um pouco.

— Ônibus mágico?! — exigiu saber o tio Vernon. As narinas da tia Petunia se alargaram, e ela abriu a boca para falar algo que Harry sabia que seria petulante e grosseiro, mas Dudley falou primeiro.

— Foi muito lega, pai — falou ele, dando de ombros. Harry olhou para seu primo, surpreso, mas satisfeito. Padfoot deu o menor dos sorrisos; Harry achou que ele gostava bastante de Dudley. A tia Petunia e o tio Vernon congelaram. Harry quase conseguia ver seu desgosto por magia brigar com sua inabilidade de negar algo a Dudley (inclusive opiniões). — Ele apareceu do nada e andou tão rápido... Ele pode ir alguma hora? — Dudley de repente olhou para Padfoot e depois para Harry. — E a mãe?

— Claro — respondeu Padfoot com um sorriso maldoso.

E apesar de a tia Petunia ter olhado para Padfoot duramente, o fato de que Dudley estava do lado dele e de Harry era o que tinha resolvido a situação com mais eficiência do que qualquer outra coisa — exceto, talvez, pela magia.

— Talvez outro dia, querido — falou a tia Petunia lentamente. — Por que não vai guardar suas coisas antes do jantar? Eu já subo. — Dudley ergueu seu malão com uma facilidade que Harry invejou só um pouco e subiu as escadas. Harry imaginou se ela queria que ele não estivesse ali para que pudesse falar mais coisas a Padfoot sem que Dudley interferisse, mas tudo o que ela fez foi olhar para Harry. — Você vai ficar no quarto de hóspedes — falou. Harry olhou de soslaio para o seu armário, um pouco aliviado. Se a tia Petunia percebeu, ela não falou nada. — Não está arrumado, já que chegamos pouco antes de vocês, mas pode deixar suas coisas lá e eu levo a roupa de cama depois.

— É, tudo bem. — Apesar de nunca ter sido proibido nos sete anos que morara ali, nunca tivera motivos para colocar os pés no andar de cima (afinal, seu armário, o banheiro, a cozinha e as portas da frente e do fundo eram todos no térreo), então não tinha certeza de onde o quarto de hóspedes ficava. Tentava decidir se devia perguntar a tia Petunia ou se devia deixar à sorte quando ela pigarreou.

— Lá em cima, à esquerda e à esquerda de novo — falou ela.

— Obrigado — murmurou Harry.

— Eu fiquei lá uma vez — falou Padfoot, empurrando Harry gentilmente na direção das escadas —, quando o senhor e a senhora Evans moravam aqui. Acho que ainda sei onde é. — Ele ergueu o malão de Harry antes que ele pudesse sequer erguer a mão e mandou Harry subir as escadas à sua frente. — Jantar em uma hora? — perguntou a tia Petunia, que assentiu, tensa. — Ótimo. Grite se precisar de mim. — O tio Vernon resmungou algo ininteligível.

Harry e Padfoot não voltaram a falar até estarem no quarto de hóspede, com a porta fechada atrás deles.

— Bem — falou Padfoot, afundando-se na cama —, podia ter sido muito pior. — Era verdade, mas Harry ainda não sabia o que dizer. Caminhou até a janela e olhou para o jardim dos fundos do Número Quatro. Dudley tinha sido uma surpresa agradável, mas o tio Vernon e a tia Petunia eram mais ou menos como Harry tinha esperado; tentavam ser educados, mas não estavam particularmente diferentes do que a última vez que Harry os vira. E se eles todos voltassem aos hábitos antigos? Harry sabia que era o que ele já tinha feito; não falava se não falavam com ele, não fazia perguntas... A luz acendeu, e Padfoot se remexeu na cama atrás dele. — Tudo bem, garoto? — Harry deu de ombros. — Voltamos a isso, foi? — Ele soava divertido, mas havia preocupação em seu cheiro. — Você não passou nem dez minutos nessa casa e já voltou a responder com um dar de ombros a qualquer pergunta pessoal e a não encontrar os olhos de quem está falando.

— O que quer que eu diga? — perguntou, irritado, virando-se para encarar seu padrinho e encontrando seus olhos deliberadamente. — Que é bom estar de volta e que estou muito feliz de ver todo mundo? — Ficou aliviado e desapontado quando Padfoot não brigou com ele em resposta.

Agora você parece mais com você mesmo — falou Padfoot, sorrindo. Harry o olhou feio. — Não se esqueça que isso tudo está acontecendo nos seus termos, você está fazendo um favor a eles. Se eles forem desagradáveis e você decidir que não quer ficar aqui... — Harry já não queria estar ali, mas achava que Padfoot sabia disso. — Não há nada que te impeça de ir embora.

— E se não funcionar? — perguntou Harry.

— No pior dos casos, você tem uma varinha — falou Padfoot, sorrindo. — Eu gostaria de vê-los tentar te parar... Apesar de que seria melhor se não chegasse a tanto.

— Não estou falando de ir embora — falou Harry, rindo um pouco. Padfoot pareceu satisfeito consigo mesmo, e Harry perguntou-se se ele tinha "entendido errado" de propósito, apenas para animar Harry. — Estou falando do... sabe... feitiço. Eles têm que gostar de mim ou não vai funcionar. — A última parte tinha saído murmurada, mas sabia que Padfoot tinha ouvido.

— E? — falou Padfoot. Harry o olhou, um pouco impotente. Era desnecessário dizer, é claro, que os Dursley nunca gostaram de Harry, e que ele nunca gostara deles. De verdade, não se importava muito com o que eles pensavam de si, mas também não queria que essa experiência desagradável fosse em vão. — Harry?

— Deixa pra lá — suspirou Harry.

— Harry. — O tom de Padfoot era severo.

— Não importa...

Harry.

— Está bem! — falou Harry, um pouco mais alto do que quisera. — Eu tentei quando era pequeno e nunca funcionou. Eu fazia o que me mandavam fazer, não falava muito, não respondia, não mencionava magia, não fazia perguntas, era legal com Dudley, fazia as tarefas da casa, tentava fazê-los feliz, e ainda assim eles nunca gostaram de mim!

— Primeiro, seu tio não é protegido pelo feitiço, então, francamente, quem se importa com o que ele pensa? — falou Padfoot, balançando uma mão. — Segundo, não se preocupe em fazê-los feliz. — Padfoot parecia muito mais calmo do que Harry achava que ele tinha o direito de estar, considerando o estresse que o próprio Harry sentia. — Como você disse, isso nunca funcionou, então não perca tempo. Olhe para Dudley, falando sobre como ele achou o Nôitibus legal; eles não gostaram disso, mas não foi por isso que o odiaram, né?

— Não, mas eles gostam dele — murmurou Harry.

— Eu também gosto — admitiu Padfoot, bastante confuso, antes de se acalmar. — E eles obviamente não gostam nem um pouco de mim, mas eles foram grosseiros?

— Não — murmurou Harry. — Mas é você. Eles provavelmente acham que você vai transformá-los em sapos ou qualquer coisa assim.

— Seria interessante — falou Padfoot, pensativo, o que arrancou outro sorriso relutante de Harry. — E, sim, parte disso pode ser esse medo, mas acho que é por que estou aqui, os ajudando, quando eles sabem perfeitamente bem que não preciso ajudar. Você está na mesma posição.

— Mmm — falou Harry, sem se deixar convencer.

— Quer meu conselho? — perguntou Padfoot. — Fique com Dudley. Ele é o mais sensato deles e não parece se importar muito com a sua presença. — Harry resmungou. — E quando você o conquistar, acho que já é meio caminho andado com seus tios.

— Acho que sim — falou. Já tinha visto isso no térreo.

— E, Harry?

— Mmm?

— São só três dias.

-x-

— Vão ser os três dias mais longos da porcaria da minha vida — bufou Sirius, jogando-se numa das cadeiras da cozinha, em frente a Dora. Eles o esperavam.

— Chá? — Sirius acenou a varinha para a despensa e uma garrafa de uísque de fogo saiu voando. Remus convocou três copos do armário e serviu aos três. — Vai ficar tudo bem, Padfoot; vamos visitar amanhã — falou Remus, reconfortante, e passou um copo de uísque de fogo para ele.

— Dumbledore falou que só depois do jantar — bufou Sirius.

— O feitiço funcionou? — perguntou Dora, tomando um gole de sua bebida. — Foi complicado?

— Foi erguido, se é o que quer dizer. Um pouco de sangue de todos eles, algumas Runas, e Dumbledore deu umas doze voltas na casa, mas não vai se consolidar se eles não se apegarem. — Sirius fez uma careta. — Eu não devia ter deixado que ele fizesse isso, ele já está deprimido, todo quieto e mal-humorado, sem encontrar os olhos de ninguém.

— Ele estava meio estranho quando vocês chegaram — comentou Remus, tomando um gole generoso de sua própria bebida. Remus só conhecera Harry alguns meses depois de Sirius ter o adotado (exceto por um encontro muito rápido naquele dia que Harry se perdera no Flu), então ele nunca o conhecera como ele era inicialmente, e Dora o conhecera ainda mais tarde.

— Só um pouco — respondeu brevemente. — Ele fez os Elfos da escola guardarem comida no malão dele.

— Ele não gosta da comida dos Dursley? — perguntou Dora, cautelosa.

— Ele não acha que eles vão dividir. — Sirius terminou sua bebida num gole só, que queimou sua garganta, e colocou o copo na mesa mais duramente do que intencionara. Harry não falara nada sobre a comida enquanto desfazia a mala, e Sirius fingiu não notar, mas com o conhecimento que tinha, era bastante fácil adivinhar a lógica de seu afilhado. Dora o olhou, perplexa. — Sei que vão dividir... Eles dividiram no jantar, mas o fato de que ele sequer achou precisar... — Pegou o Uísque de Fogo, encheu os copos e tomou outro gole. — É o mesmo garoto que enfrentou um Comensal da Morte na semana passada, um maldito basilisco no ano passado e o próprio Voldemort algumas vezes, mas três muggles o deixam todo nervoso! O que eu vou fazer com ele?!

— Guardar comida foi uma decisão calculada — ofereceu Remus —, não imprudente, como foi com Peter. Isso deve contar para alguma coisa, né?

Sirius lhe deu um olhar fulminante. Remus sorriu contra sua bebida.

— Ele vai ficar bem, Sirius — falou Dora, dando um tapinha em sua mão. — Se tem uma coisa em que o Harry é bom, é tirar o melhor de péssimas situações.

— E se ele tiver algum problema, qualquer que seja, você vai estar na porta no instante em que ficar sabendo — adicionou Remus, os lábios se torcendo. — Que Merlin ajude Petunia ou Vernon se eles sequer sonharem em abrir a porta do armário embaixo das escadas. — Sirius bufou, zombeteiro, contra seu copo de Uísque, e Remus o olhou na mesma hora, os olhos duros, mas divertidos.

— Padfoot — disse ele, exasperado. — O que você fez?

— Tranquei — contou Sirius, tomando um gole rápido. — Eles não vão conseguir abrir o armário se o Harry estiver a seis metros dele. — Remus balançou a cabeça, sorrindo.

— Pronto — falou Dora, bebendo o resto de seu Uísque —, o armário está trancado, o Harry vai comer quer os parentes o alimentem ou não... Qual é o pior que pode acontecer?

-x-

— ... já disse — falou Harry, exasperado, porque devia ter dito a mesma coisa quarenta vezes (no mínimo!) naquela tarde —, nós não somos criminosos.

Dudley o olhou com ceticismo e abaixou uma carta.

Alguém bateu na porta de Dudley. Harry abaixou a própria carta.

— Dudley? — chamou a tia Petunia.

— Que, mãe? — respondeu ele, impaciente. Ele estava bastante concentrado, se a língua que saía de sua boca era uma indicação. Suas bochechas rosadas estavam cobertas de fuligem, assim como seus dedos gordinhos; Dudley ainda não vencera nenhuma partia de Snap Explosivo, mas, surpreendentemente (Harry esperara um ataque de birra), isso não tinha diminuído seu entusiasmo.

A porta foi aberta, e a tia Petunia espiou dentro do quarto com desconfiança.

— Vocês estão fazendo bastante barulho — disse ela. Dudley abaixou outra carta, que explodiu com um estalo alto. A tia Petunia guinchou, e Dudley soltou um gritinho de animação enquanto as cartas caíam do teto. — Eu... Bem, isso explica o barulho... — Ela olhou para Harry de soslaio, cautelosa. — Algo seu, assumo? — Harry assentiu, igualmente cauteloso. — Bem, vai ter que guardar; Piers acabou de chegar e ele não pode ver...

— Piers está aqui? — perguntou Dudley, erguendo os olhos.

— Eu pedi para ele esperar lá embaixo — falou a tia Petunia, saindo do caminho quando uma carta quase acertou seu nariz.

— Ótimo! — Dudley se levantou e passou pela tia Petunia. Harry o ouviu descer as escadas pouco depois. Começou a recolher as cartas antes que Piers subisse e fizesse perguntas.

— Elas são... seguras? — perguntou a tia Petunia, apontando para uma carta caída perto de seu pé. Harry assentiu, e ela se inclinou, pegando-a com cuidado e a oferecendo a ele. Juntos, limparam o chão em segundos, e Harry tinha uma pilha de cartas inofensivas, embora desorganizadas, em sua mão. — Você lembra do Piers? — perguntou ela. — Vocês frequentaram a escola juntos.

— Lembro — respondeu. — Nós o vimos ontem, na plataforma. — Piers fizera parte da gangue de Dudley e, além do próprio Dudley, tinha sido o maior atormentador de Harry. Mas ao contrário de Dudley, Piers não tinha motivo para repensar sua atitude, então Harry não estava tão ansioso assim para ir passar o tempo com ele. Conseguia ouvi-los subir as escadas, provavelmente indo usar o computador no segundo quarto de Dudley.

— O pai dele me ajudou com aqueles documentos para o julgamento do seu padrinho. — Harry não sabia se quem estava mais surpreso por ouvir essas palavra era ele ou ela; até agora, ela tinha lhe dirigido poucas palavras e nunca fizera referência ao julgamento de Padfoot.

— Por que fez isso? — As palavras saíram da boca de Harry antes que pudesse impedi-las. A tia Petunia parecia bastante surpresa; se pela pergunta ou se pelo fato de Harry tê-la feito, ou ambos, Harry não sabia.

— Achei que você não fosse querer voltar, tanto quanto não queríamos que você voltasse — respondeu ela, desafiadora, apesar de parecer se encolher um pouco quando ele não a questionou. Ela estava certa, afinal, mas era estranhamente animador ouvia-la dizer que tinha tirado o tempo para considerar seus sentimentos. — E, apesar de tudo, aqui estamos nós. — Ela parecia um pouco desconfortável. — Você foi forçado a vir ficar conosco?

— Não — suspirou Harry. A tia Petunia pareceu verdadeiramente surpresa, mas apenas por um instante.

— Então por quê? — perguntou ela, desconfiada.

— Era coisa certa a se fazer — murmurou. O rosto dela se contraiu, e ele perguntou-se por que sua resposta a incomodara quando era claro que ela não tinha nenhum problema com a ideia de ele estar ali contra sua vontade.

Os dois se sobressaltaram quando a campainha tocou, mas o alívio tomou conta de Harry menos de um segundo depois. Achava que tinha se saído bem com os Dursley naquele dia, mas precisava de muita energia e muito cuidado com o que falar para lidar com eles. Padfoot tinha dito para não se preocupar em fazê-los felizes, mas era difícil se livrar de hábitos antigos. Estava bastante ansioso por uma visita da sua família de verdade, com quem podia apenas relaxar e não precisava censurar todos seus pensamentos.

— Mãããe — chamou Dudley do quarto ao lado, sobre o som de seu computador. — A porta!

— Deve ser seu padrinho — falou a tia Petunia, tensa, dando espaço para Harry passar. Ela cerrou os olhos. — Espero que ele não tenha vindo mais cedo só para jantar. Ele prometeu manter sua distância.

Harry — já na metade das escadas — assentiu para ela de um jeito que esperava que fosse reconfortante e foi até a porta.

Mas não era Padfoot quem estava do outro lado, tampouco Moony, Dora ou Marlene. Era uma mulher enorme de rosto vermelho, com uma mala presa embaixo de um braço e um bulldog mal-humorado embaixo do outro.

Eles se olharam por vários segundos, horrorizados, e aí a tia Marge soltou um grito alto e agudo:

— Vernon! Petunia!

Continua.