N/A: Não tenho palavras. Levou uma eternidade só para escrever este maldito capítulo, e há muitas razões para isso, como sabem se me seguirem em outro lugar, mas, finalmente, tenho o prazer de apresentar-lhes o Capítulo 33. Muito obrigada pela paciência!

Disclaimer: Copyright Jo-Ro.

Anteriormente: Marlene namorava um cara adorável, Miles; brincadeira, Miles era um idiota. Ele beijou Carlotta Meloni, e isso efetivamente destruiu seu relacionamento com Marlene. Infelizmente, Adam McKinnon – que verdadeiramente gostava de Marlene – decidiu que ser rejeitado por ela não era muito divertido, então foi e conseguiu uma namorada, a adorável Prudence Daly. Enquanto isso, Charlie Plex – provedor de todo o tipo de mal – está namorando Clancy Goshawk, de quem Remus gosta, mas Plex também está ficando com Shelley Mumps, que gosta de James, e é tudo muito complicado. Donna está procurando uma maneira de se vingar de Charlie; Sirius está procurando uma maneira de conseguir juntar Clancy com Remus, e Marlene decide ajudá-los a formar uma aliança profana que chamaram de "Operação Mancy." Além disso, Marlene entrou para a equipe de quadribol, substituindo Sirius, que foi expulso devido à sua brincadeira com Snape no ano anterior. E foi isso que você perdeu em TLAT.

Chapter 33- "Of Marlene"

(Sobre Marlene)

Or

"Here Comes the Sun"

E lá estavam eles diante dela.

Esquerda, centro, direita.

Esquerda, centro, direita.

Esquerda, centro, direita.

Os três aros da Corvinal pareciam monumentos contra o céu cinzento: altos, ameaçadores, magníficos, convidativos e intimidadores. Mas eram apenas madeira e, diante deles, pairando em sua vassoura, estava um garoto. Apenas um garoto.

As vestes azuis e bronze de Miles Stimpson ondulavam até mesmo no vento relativamente suave. Ele olhava para Marlene, apenas para Marlene, seus olhos se unindo a centenas de outros que estavam fixos naquela artilheira em particular. Marlene sentiu-se tonta. Ela parou de se mover e estava apenas flutuando, bem acima da grama, acima das arquibancadas e acima da metade dos outros jogadores no momento. Ela agarrou a ponta da Nimbus, os nós dos dedos brancos.

Potter voou até ela, murmurando algumas instruções que ela não entendeu – um som ensurdecedor soou em seus ouvidos, ecos de milhares de vozes, ou talvez apenas uma voz se repetindo várias vezes: abafou tudo mais, exceto a batida excessivamente barulhenta de seu coração, que devia estar sendo ouvida por todas as pessoas naquele estádio.

Hooch entregou a goles, áspera e dura em seus dedos. Desta vez, Marlene sabia que passaria mal.

Não era nada demais, sério. No grande esquema das coisas – até mesmo no grande esquema daquele jogo – não era grande coisa. Nada dependia de seu sucesso.

Exceto, talvez, uma coisa.

E, ah, Deus, ele estava certo.

Ela não podia fazer isso. Não podia, não podia, não podia, não podia...

Ia sufocar. Bem ali, na frente de todos, ela ia sufocar.

A jovem quase sufocou com o ar que inundou seus pulmões enquanto respirava fundo e colocava a goles debaixo do braço. Ela afastou a vassoura dos aros da Corvinal para se reposicionar. Seus companheiros e oponentes agora se reuniam em suas posições – por um momento, os outros artilheiros, batedores e apanhadores não estavam olhando para ela. Mas ele estava.

Os olhos escuros de Miles Stimpson estavam fixos nela, sem piscar.

Marlene encontrou seu espaço. Ela se virou para encarar o gol da Corvinal novamente.

Ele estava debruçado sobre a Cleansweep e sorria. Ele sabia. Sabia que ela iria sufocar.

Patético.

Não era nada de mais, sério. Não era nenhum momento decisivo... exceto por um aspecto.

Marlene engoliu em seco. A garota segurou a goles, rolando-a entre as palmas, e, enquanto isso, olhou para Miles – olhou de volta em seus olhos, para seu sorriso arrogante, para a inclinação consciente de seu queixo...

Dez galeões que você não marca um gol...

A anos-luz de distância, a escola inteira a observava agora. Eles murmuravam sem sentido, sem coerência com o rugido que coletivamente omitiam. A voz ampliada de Liam Lyle falava grego. Ou poderia muito bem ter sido.

Miles a encarou.

Marlene fechou os olhos.

Comece embaixo, disse outra voz, muito mais clara.

Suave e quente era a goles em suas mãos.

Você sempre foi.

Comece embaixo.

Vai ficar tudo bem.

E logo ia chover.

Ela abriu os olhos novamente.

(Duas Semanas Antes)

Marlene pousou sua vassoura – uma Cleansweep de Hogwarts – no meio do campo, seus pés batendo na grama quase no mesmo momento que os outros sete jogadores. Estava mais quente no chão, mas ainda bastante frio, e o suor que se agarrava à sua pele esfriou-a no ar vívido da noite.

Ela respirou fundo duas vezes para diminuir a frequência cardíaca e, ao fazê-lo, James Potter se aproximou. Ele já estava no processo de remover os protetores dos braços e mãos, mas caminhou com propósito na direção dela.

"Nada mal hoje, Price," disse ele. "Mantenha-se assim."

Então, ele passou por ela até a pilha de equipamentos perto da borda do campo, e Marlene sorriu, principalmente para si.

"Nada mal hoje, Price," provocou a voz de Adam McKinnon, imitando James, enquanto se aproximava da garota.

"Ei, farei o possível," respondeu ela, sentando-se na grama. A garota começou a soltar as correias das caneleiras.

"Então, o que acha?" perguntou Adam, e ele se juntou a ela no chão. "Quer jogar no próximo jogo?"

"Claro que eu quero," respondeu Marlene. "A decisão não é bem minha, não é?"

Adam encolheu os ombros. "Hopkirk está nervoso. O primeiro jogo é daqui a algumas semanas, e não acho que ele se sinta preparado."

"Bem, nem eu no momento, mas em algumas semanas, Potter provavelmente terá encontrado uma maneira de programar mais seiscentos treinos, então..."

"E a parte mais triste é que é apenas uma ligeira hipérbole," disse Adam sério, tirando as caneleiras e, em seguida, começando a tirar as luvas de goleiro. "Tragicamente." Ele se levantou e estendeu a mão para Marlene, ajudando-a a ficar de pé também. Enquanto caminhavam para a pilha de vassouras formadas no perímetro do campo, Adam acrescentou: "Suponho que não tenha terminado o dever de casa de Poções, não é?"

"Não, ainda não."

"Tem tempo para trabalhar nisso hoje à noite? Seria bom ter ajuda; pílulas de proteção para a pele me deixam meio lerdo..."

Marlene franziu a testa. "Eu gostaria muito," disse ela com sinceridade, "mas eu... meio que prometi a algumas pessoas que as ajudaria com uma coisa..."

Adam ergueu as sobrancelhas. "Você não parece muito entusiasmada," disse ele, divertido. "O que tem que fazer?"

"O.k., quero que imagine que é uma garota..."

"Eu sou uma garota."

"E eu também sou."

"Eu acredito em uma de vocês."

"Black, eu vou arrancar seu esôfago."

"E você se pergunta por que duvido de sua feminilidade, Shack."

"Podemos, por favor, tratar do assunto em questão?" interveio Marlene, chamando os outros à ordem e batendo na mesa da biblioteca entre eles com a palma da mão. Sirius se inclinou para frente, com o queixo apoiado no punho. "Então, a questão é," continuou ele, "como podemos fazer Chancy..."

"Clancy."

"Foi o que eu disse. Clancy. Como podemos fazer Clancy Goshawk entender que o namorado dela, V.D. Plex, está transando com Shelley Mumps nos armários de vassouras e corredores, para que a senhorita Goshawk troque o idiota e transfira sua capacidade de afeição e satisfação para meu companheiro virginal, Remus?"

"Talvez tenha sido uma má ideia incluir Black nisso," disse Donna.

"Só se for alérgica ao sucesso," disse Sirius.

"Isso é mais do que conseguir uma transa pro seu amigo," disse Donna, impaciente. "A questão é, como vamos conseguir tudo isso infligindo o máximo de dano à reputação e saúde física de Charlie Plex?"

"A questão é," interpôs-se Marlene, "como vamos conseguir tudo isso sem partir o coração da pobre Clancy Goshawk completamente."

Sirius e Donna pareciam céticos. "Nós nunca vamos atingir todos esses três objetivos," comentou Donna. "E como o meu objetivo e o de Black são o motivo de tudo isso, acho que têm prioridade."

Marlene abriu a boca para protestar, mas Sirius interrompeu. "Não há como fazer isso sem causar dor, Marlene," ressaltou ele. "Não é legal, mas não é como se ela fosse ficar permanentemente magoada com isso."

"Você não sabe disso! E devíamos ao menos levar em consideração os sentimentos dela."

"Talvez tenha sido uma má ideia incluir Price," comentou Sirius, e Marlene o chutou por debaixo da mesa.

"Sinto muito por ser a única aqui que tem alma," retrucou ela. "Mas não podem simplesmente brincar com os sentimentos das pessoas. Além disso, se Clancy ficar muito ferida com isso, ela não estará particularmente interessada em namorar ninguém tão cedo, não é?"

Sirius suspirou. "A loira pode ter razão," disse ele a Donna.

"Bem, então como vamos fazer?" perguntou Donna. "Como poupamos Goshawk?"

Marlene não tinha uma resposta para aquilo. Sirius suspirou novamente. "Bem, se você estivesse na situação dela, como gostaria de descobrir?"

"Eu acho que gostaria de pegá-lo no flagra," pensou Donna. "Praticar alguns bons feitiços, sabe?"

"Isso nós poderíamos fazer," disse Sirius. "Temos um padrão consistente de comportamento de Shelley e Plex, então, se seguíssemos os movimentos diários de Goshawk, poderíamos estabelecer um rumo que a levasse para aquela parte do castelo no momento certo. Inundamos alguns corredores, soltamos alguns Diabretes da Cornualha em uma ou duas escadas..."

"Isso é possível?" perguntou Donna, incerta. "Parece bastante improvável."

"Diga isso às outras oito vezes que fiz isso."

"Oito?" repetiu Marlene. "Como pode ter precisado usar isso por oito vezes?"

"Bem, no final, paramos de ter motivos. Era apenas divertido fazer as pessoas se atrasarem para a aula."

"Espere um minuto," disse Donna, "foi você no quinto ano?"

Sirius pigarreou. "Enfim, quanto a Chancy..."

"Clancy."

"Foi o que eu disse! De qualquer forma, com toda seriedade, vocês concordam que é a melhor maneira de fazer isso? Fazê-la flagrar Plex?"

Donna assentiu, mas Marlene parecia em dúvida.

"Bem, como você gostaria de descobrir?" perguntou Donna.

"Bem, se fosse eu," disse Marlene, "eu gostaria de descobrir com um dos meus amigos esquematizando para manter escondido de mim enquanto eu estou na sala ao lado, mas... ah, espere..."

"Bem, nesse caso, por nada," disse Donna.

Marlene fez uma careta e continuou: "Sinceramente, acho que eu gostaria de pegá-lo no flagra também. E então tirar uma página do Livro-da-Vingança de Cassidy Gamp e colocá-lo na Ala Hospitalar..."

"Eu sinto que este experimento será perigoso para Shelley Mumps..." comentou Sirius.

"...Mas," prosseguiu Marlene, "eu não sou Clancy Goshawk. Eu sou... alta e brava. E Donna é mais alta e mais brava..." Donna e Sirius assentiram. "Clancy parece... mais sensível. E ela é uma corvina... só Merlin sabe como a mente dessas garotas funciona..."

"Então," concluiu Donna, "o que temos que descobrir é o funcionamento patético da mente de uma garotinha sensível da Corvinal. Conhecemos alguém assim?"

"Nenhuma das que falam comigo," respondeu Sirius. Os dois se voltaram para Marlene.

"Quê? Eu?"

"Você é amiga de uma delas, não é?" perguntou Donna.

"Não, eu..." Ela parou de falar. "Ah, não podem estar falando sério..."

Com um aceno obrigatório para a Sra. Sevoy, Marlene adentrou a biblioteca na tarde seguinte, temendo completamente a tarefa em mãos. Mas ela avistou a pessoa que viera procurar sentada à janela e olhando alegremente para fora, até que seus olhos se voltaram para dentro e ela notou Marlene. Então, ela sorriu e acenou. Marlene reuniu coragem e se aproximou da mesa.

"Prudence. Olá. Obrigada por concordar em se encontrar comigo."

"Claro," respondeu Prudence Daly, caracteristicamente animada. Ela sorriu para Marlene enquanto a loira se sentava à mesa da biblioteca e depois olhou para a grifinória com agradável paciência. "Não há problema algum, eu espero?"

"Não, problema nenhum," murmurou Marlene, mantendo a voz baixa por conta da Sra. Sevoy. "E não vou tomar muito seu tempo. Eu só preciso da sua opinião."

"Minha opinião?"

"Sim. Sabe..." Mas as palavras não vieram facilmente.

"O que foi?" indagou Prudence.

"Eu... bem, talvez seja melhor eu perguntar."

"Vá em frente."

"O.k." Marlene respirou fundo. "Então, se o seu namorado estivesse te traindo..."

Prudence bateu a mão minúscula contra a mesa. "AH, MEU DEUS, ADAM ESTÁ ME TRAINDO?"

"Quê?" questionou Marlene depressa. "Não, não, não é isso..."

"Ele está me traindo? Como ele pôde me trair? Com quem? É uma corvina? É Alexa Kyle? É aquela garota?" Ela apontou para uma quartanista desnorteada na mesa ao lado, e Marlene, acalmando a garota agora histérica, puxou a mão de Prudence para a mesa e balançou a cabeça freneticamente.

"Não, não, não, Adam definitivamente não está traindo você, Prudence!"

Seus olhos ainda estavam arregalados de choque.

"De forma alguma," insistiu Marlene, e ela olhou por cima do ombro para lançar um olhar de desculpas à Sra. Sevoy, antes de se inclinar sobre a mesa e falar com mais calma ainda. "Isso não tem nada a ver com Adam."

"Não?"

"Não."

"Mas você disse meu namorado, e Adam é meu namorado..."

"Sim, e sim, mas é uma situação hipotética," continuou Marlene, com a maior paciência possível. "Eu só... só estou tentando descobrir uma coisa."

Prudence assentiu, inspirando e expirando algumas vezes para recuperar o equilíbrio. Quando finalmente se acalmou o bastante para falar mais racionalmente, ela disse: "Bem, o.k., qual é a pergunta?"

"Se seu namorado estivesse te traindo..." (Prudence estremeceu), "como gostaria de descobrir?"

A corvina olhou fixamente para ela. "Essa é a pergunta?"

Marlene assentiu.

"Bem..." Ela ficou perplexa por alguns momentos. "Eu... eu não... não tenho certeza se entendi. Por que ele está me traindo nessa hipótese? O que eu fiz?"

"Você não fez nada! Não é sua culpa! Ele é apenas um idiota que... sei lá... não sabe o que tem até perder, mas essa não é a questão. De forma alguma. Independente de todas as outras baboseiras, qual seria a forma menos terrível de descobrir?" Prudence continuou parecendo totalmente confusa, e Marlene tentou ajudá-la. "Quer dizer, gostaria de pegá-lo no ato? Ou seria mais fácil um amigo te contar, ou... o quê?"

Por mais alguns segundos, Prudence considerou a questão. "Mas... mas eu não saberia?" perguntou por fim. "Eu não seria capaz de perceber? Teria que ser informada?"

Marlene já começara a questionar a sensatez de pedir conselhos a Prudence Daly sobre isso, e agora estava firmemente convencida de que era um erro... mais precisamente: uma perda de tempo. "Acho que sim. Não sei. Mas se ele não estivesse agindo diferente... se fosse o mesmo, e você não percebesse por conta própria, como gostaria de descobrir?"

Esta última pausa foi a mais longa. Então: "Eu não acho que gostaria de descobrir."

O que quer que Marlene estivesse esperando, não era isso. "Não?" repetiu ela incrédula. "Por que não?"

"Por que eu iria querer isso em minha mente?" continuou Prudence com mais fervor. "Quando achei que estava falando de Adam há poucos minutos, isso durou cerca de dez segundos e quase dei um tapa naquela garota na mesa ao lado. E... e... eu não consigo imaginar como seria carregar isso comigo! Eu não... eu não conseguiria olhar para ele se soubesse!

"Por que iria querer isso?"

Como se fosse completamente óbvio: "Porque eu o amo."

Marlene suspirou.

"Que foi?" perguntou Prudence inocentemente.

"Ela disse o quê?"

"Eu sei," respondeu Marlene, sacudindo a cabeça enquanto caminhava com Donna para o aconselhamento na tarde de sexta-feira. "Eu te disse que era uma má ideia perguntar a Prudence."

"Sim, bem, eu não sabia que ela vivia no século XVII," retrucou Donna, revirando os olhos. "Embora, o lado bom disso tudo é que tecnicamente isso pode ser permissão para transar com McKinnon."

"Ah, Merlin, isso a mataria," respondeu Marlene. "Usar a palavra 'trair' e 'namorado' na mesma frase quase fez o coração dela parar."

"Ainda bem. Você se desfaz dela na mesma oportunidade..."

Marlene bateu no braço da outra, mas de leve. "Prudence é uma garota legal."

"Que preferiria estar alheia a um namorado traidor do que ter a oportunidade de azará-lo? Até Cassidy Gamp teve o bom senso de dar tentáculos a Plex e me mandar para a ala hospitalar."

"Estou feliz que tenha essa perspectiva sobre isso."

"Ainda acho que ela é uma idiota chorona, mas ao menos teve coragem."

Elas chegaram à sala de aconselhamento e entraram; as mesas estavam, como de costume, alinhadas ao redor da sala de aula, e Lily e Mary já haviam se sentado. Donna e Marlene se juntaram a elas.

"Onde é que vocês duas estavam?" perguntou Mary. "Dando um amasso num armário de vassouras?"

"E é por isso que eu ignoro a de cabelos escuros," anunciou Donna. Ela tirou um livro de Runas Antigas da bolsa, abriu na página marcada e começou a ler.

Marlene se virou para Lily. "Evans, deixe-me te perguntar isso, então. Se o seu namorado estivesse te traindo, qual seria a melhor maneira de descobrir?"

"Por quê?" perguntou Lily, desconfiada.

"É... só uma coisa que eu e Donna estamos debatendo."

"Ah." Lily ponderou. "Eu acho que gostaria que ele confessasse," declarou ela por fim.

Donna tirou os olhos do livro, as sobrancelhas levantadas. "E no mundo real, onde as nuvens não são açúcar, e a lua não é queijo, como gostaria de descobrir?"

"Você perguntou a melhor maneira, e acho que essa é a melhor maneira," defendeu-se a ruiva.

"É insensível te perguntar, Mary?" acrescentou Marlene para a amiga. Mary sacudiu a cabeça com firmeza.

"Não, eu acho que gostaria de descobrir sem ele saber que descobri. Assim, eu poderia mexer com a cabeça dele por um tempo antes de psicologica e fisicamente castrá-lo e destruí-lo."

"Um simples, 'sim, é insensível', teria bastado," respondeu Marlene, batendo de leve no ombro da amiga.

Madame Keepdown chegou logo depois, trazendo um caixote de madeira que colocou no chão, já que não tinha uma escrivaninha.

"Boa tarde, meus amigos," cumprimentou ela.

"Boa tarde," disseram todos. Não havia consenso entre eles sobre a chamar de "Fiona," conforme ela ordenara, ou "Madame Keepdown," como se sentiam mais à vontade, então, normalmente, a maioria não lhe dava qualquer denominação, especialmente quando se dirigiram a ela em massa.

"E será que todos nós tivemos uma semana mágica?" indagou ela, sorrindo para seu próprio trocadilho.

"Mágica," murmurou Donna sarcasticamente em voz baixa, fazendo Lily e Marlene sorrirem.

"Nós falamos um pouco sobre o que está acontecendo aqui e agora na escola," continuou Madame Keepdown, iniciando seu caminhar habitual, de modo que sua posição no centro não excluísse ninguém de seus olhos arregalados. "Estava esperando que hoje pudéssemos discutir o futuro. Vocês estão todos no sétimo ano; em breve, estarão no passado – morrendo, se preferirem, para Hogwarts. Estarão experimentando coisas novas, excitantes e assustadoras do lado de fora dessas antigas paredes em ruínas..."

"Hogwarts não está em ruínas," sussurrou Lily, claramente irritada.

"E não estamos morrendo," acrescentou Mary. Mas a bruxa, felizmente, estava de costas para elas no momento, e não percebeu.

"...Então, eu gostaria que cada um de vocês compartilhasse um pouco sobre o que esperam dessas experiências. Quais são seus sonhos? Suas esperanças? Suas aspirações? Seus desejos mais profundos e secretos?" Ela parou de falar sonhadoramente e depois pareceu voltar à realidade: "Grupos de cinco, então?"

A turma começou a se separar lentamente, formando grupos típicos, com Marlene nem se mexendo no assento, pois supunha que faria parte do grupo Mary-Donna-Lily. Elas provavelmente teriam simplesmente ficado sentadas esperado por quem quer que fosse deixado sem grupo, se os olhos de Marlene não tivessem pousado sobre Clancy Goshawk no outro extremo da sala. Ela teve uma ideia.

"Vocês se importam de eu convidar Clancy?" perguntou Marlene às amigas. Mary deu de ombros com indiferença e Lily pareceu satisfeita com a ideia; Donna, por outro lado, franziu o cenho.

"Você tem algo contra Clancy Goshawk?" perguntou Lily, notando a expressão da amiga.

"É... não," respondeu Donna. "Mas... ela é... é..." A morena estava, evidentemente, tentando enviar a Marlene algum tipo de mensagem telepática que a loira não tinha ideia de como traduzir, e então apenas deu de ombros. "...Ela é baixa."

"Você odeia gente pequena agora também?" perguntou Mary, vagamente ofendida. "Convide-a, Marlene."

"Adorável."

"Price."

Donna seguiu Marlene, que se dirigia a Clancy, até que estivessem a uma distância segura das duas colegas de casa desnorteadas.

"Não a convide," sussurrou Donna, irritada. "Eu não quero falar com ela."

"Por que não? Isso pode nos ajudar a entendê-la melhor!"

"Eu não quero entendê-la!"

"Não quer pensar nela como uma pessoa real, você quer dizer," interpretou Marlene. "Quer pensar nela como uma corvina aleatória, para não precisar encarar sua própria culpa."

"Exatamente!"

"Eu não pretendo nenhuma boa ação com isso, Donna."

"Não a convide."

Marlene franziu a testa. "Como podemos ajudá-la se nem sequer a conhecemos?"

"Meu objetivo não é ajudar Clancy. Meu objetivo é prejudicar o namorado dela." Donna a olhou como se Marlene estivesse sendo muito tapada... embora Donna geralmente olhasse para todos como se estivessem sendo muito tapados.

"Eu vou convidá-la," decidiu Marlene. "Vá se sentar."

Donna cruzou os braços. "Não pode me dizer o que fazer; você não é Lily."

"Donna. Sente-se."

"Acho que não me importo com uma Price versão cabelo curto," retrucou Donna, mas mesmo assim virou-se para se juntar a Lily e Mary novamente, que certamente passaram a interrogá-la.

Marlene revirou os olhos e rumou mais uma vez até Clancy. A corvina ainda não havia se juntado a um grupo, pois a turma em geral estava muito lenta na organização. Madame Keepdown, enquanto isso, emitia mais instruções, que agora incluíam sentar em círculos no chão.

"Clancy?" começou Marlene, quando alcançara a bruxa. A morena olhou para ela, sorrindo com muita educação. "Você gostaria de... é... se juntar ao nosso grupo?"

O sorriso de Clancy vacilou com a surpresa. "Seu... grupo?"

"Lily, Mary Macdonald, Donna Shacklebolt..." apontou Marlene, e a surpresa de Clancy só aumentou. "Você ainda não tem um grupo, não é?" acrescentou Marlene, percebendo que isso devia ser ainda mais desconfortável para Clancy do que para ela. As duas só se conheciam de uma forma muito geral, pois frequentaram a mesma escola durante seis anos e, embora a relação delas nunca tivessem sido nada além de amigável, não eram de modo algum "amigas."

"Eu... eu acho que sim, sim," decidiu Clancy por fim. E agora o sorriso dela parecia mais genuíno. "Sim. Obrigada."

E isso foi bom, porque, pensou Marlene, teria sido muito estranho se ela tivesse rejeitado a oferta.

A corvina seguiu Marlene de volta ao grupo de grifinórias. Donna se recusou a sentar no chão, então elas encaixaram sua mesa em um círculo, e as outras sentaram no chão de pedra. Enquanto isso, Madame Keepdown andava pela sala com o caixote que carregava, o qual continha velas. Ela entregou uma para cada grupo e disse-lhes para colocá-la entre eles. Relutantemente, Lily colocou a vela laranja que receberam no centro do círculo. Madame Keepdown não comentou sobre como Donna estava sentada, apenas sorrindo e acenando para ela, e Marlene reconheceu a sabedoria disso. Keepdown sabia que não devia testar a paciência da Senhorita Shacklebolt.

As velas acederam por magia, as luzes da sala de aula diminuíram, e Madame Keepdown começou a explicar.

"Eu quero que pensem na chama como suas vidas," murmurou ela e, à luz do fogo, Marlene viu Lily revirar os olhos. "Brilhante e bonita agora, mas de curta duração. Eventualmente..." ela se aproximou de um grupo de lufanos e olhou para a vela violeta, "...o pavio será consumido."

"Novamente falando de morte," murmurou Mary.

"Então, somos a chama ou o pavio?" perguntou Lily.

"...quando estiverem prontos," continuou Keepdown, "podem começar as discussões."

Os alunos ao redor começaram a zumbir: com pouco interesse, Marlene olhou para o outro lado da sala, onde Adam estava sentado com os Marotos, e eles estavam rindo – provavelmente sem cumprir a tarefa. Típico...

"Eu vou primeiro, o.k.?" sugeriu Mary. Antes que alguém pudesse responder, ela iniciou: tudo – onde queria morar em Londres, o tamanho e a forma exata do futuro apartamento, a idade que queria ter filhos, o salário inicial em Madame Malkin... a garota falou por dez minutos, e, em seguida, Madame Keepdown lembrou-lhes que restavam quinze minutos para discussão, e Donna foi a próxima.

"Vou receber O em todos os meus N.I.E.M.s," declarou ela. "E quando terminar aqui, pretendo ir ao Egito – o museu no Cairo tem emprego para bruxos que protegem os artefatos e se certificam de que os trouxas não estraguem as coisas, ou sejam amaldiçoados com toda aquela magia antiga... e eles sempre são, então é um trabalho bastante intenso." Donna falou com muita certeza – não eram sonhos, eram planos. Mas foi um dos poucos assuntos que revelaram um interesse real da garota em algo, e foi engraçado – quase igualmente agradável – ver Donna Shacklebolt falar com paixão sobre alguma coisa. "...E eu também gostaria de ir ao México, porque os astecas tinham uma magia verdadeiramente interessante... e à Ilha de Páscoa. Eu tenho que ir à Ilha de Páscoa para trabalhar com os bruxos que tentam traduzir Rongorongo..."

Depois que Donna terminou de falar, foi a vez de Lily.

"Bem, recentemente," começou ela, "tenho pensado mais em jornalismo investigativo do que em correspondência internacional, que era sobre o que eu estava pensando antes. Mas acho que há muita coisa acontecendo aqui, sabe, e O Profeta..."

De repente, Marlene ficou bastante ansiosa. Planejava apenas listar alguns lugares que queria visitar antes de morrer, mas as outras pareciam ter ideias muito mais claras sobre o que queriam da vida pós-acadêmica. E, claro, ela sabia, até certo ponto antes, o que suas amigas queriam fazer, mas agora estava impressionada com quão imediato tudo parecia. Donna falou em concluir Hogwarts como se estivesse a semanas de distância e, na verdade, era muito pouco mais que isso.

Era como quando ela estava no trem no começo do ano – na cabine de Prudence Daly, quando todas as garotas tinham sido tão claras sobre o que queriam fazer em termos de carreira, e a resposta de Marlene tinha sido a mais vaga possível: "eu não sei."

Ela não sabia. E talvez estivesse tudo bem, mas o fato era que sairia dali em breve e teria que resolver alguma coisa. Teria que tomar algum tipo de decisão – e já tomara algumas, na verdade. Havia escolhido as aulas e assim reduzira suas opções àquelas que aceitavam os N.I.E.M.s que prestaria.

A ansiedade borbulhava em seu estômago, e ela esperava muito que não tivesse que falar agora. Talvez acabasse o tempo para o grupo delas – não que isso realmente importasse; Clancy Goshawk era a única ali que ainda não conhecia os planos futuros de todas, e Marlene não tinha motivos para temer a opinião dela, mas mesmo assim... era desconfortável ficar sentada lá, sem nada inteligente para dizer...

Como se tivesse lido a mente de Marlene e decidido agir de forma exatamente oposta, Lily terminou de falar logo depois, e foi a vez de Clancy.

"Eu vou estudar Direito Mágico," disse a corvina. "O que significa que preciso de um 'O' em História da Magia e um 'E' em tudo mais. E eu vou precisar de cartas de recomendação realmente brilhantes, mas acho que o Professor Slughorn deve ser bom para isso, e eu tenho uma tia também que provavelmente escreverá uma. De qualquer forma, estou particularmente interessada em estudos sobre a aplicação do Estatuto de Sigilo, então acho que esse será meu foco..."

Mas o que deveria ter sido uma oportunidade para conhecer melhor Clancy, estava praticamente perdida para Marlene; ela encarava a vela no meio do círculo, totalmente em pânico, pois era sua vez de falar em seguida, e como Clancy prosseguia com as complexidades da lei, e as outra – ou Lily, afinal – escutavam com interesse, Marlene tentava inventar algo que pudesse dizer... ao menos uma mentira decente e crível. Seu cérebro, infelizmente, ficou teimosamente em branco.

Clancy terminou de falar e as outras olharam com expectativa para Marlene.

"Bem," começou a loira. "Eu..."

"Só um momento, por favor," interrompeu Madame Keepdown, e Marlene nunca a amou tanto. "Se seus grupos terminaram, sintam-se à vontade para devolver suas velas e se sentarem... muito obrigada, prossigam..."

"Bem, é isso," disse Marlene, começando a se levantar do chão.

"Você ainda não disse nada," apontou Lily.

"Certo. Bem. Espero experimentar todos os sabores de cerveja amanteigada antes de morrer. Brilhante." Ela encolheu os ombros, pegou a vela e, quando as tochas ao redor da sala se acenderam novamente, apagou a pequena chama.

"Temos que escrever uma dissertação?" resmungou Marlene, encarando um pedaço de pergaminho deixado para cada um dos setimanistas ao final do aconselhamento. Ela caminhava com Mary, Lily e Donna para o almoço no Salão Principal.

"Não uma dissertação," corrigiu Mary. "Um parágrafo."

"Mas nós já conversamos sobre isso," reclamou a loira. "Por que temos que escrever uma dissertação sobre nossos futuros também?"

"Parágrafo," Donna e Mary corrigiram em uníssono.

"Mesmo assim..."

"Então não faça," sugeriu Donna. "Não é como se fosse receber uma nota. Só pontos para a casa."

"Eu duvido que ela leia," falou Lily. "Ou saiba ler. Palavras provavelmente são muito prosaicas para a grande Fiona Keepdown."

"Ela escreveu um livro," observou Mary.

"Supostamente," foi a resposta cética de Lily.

A caminho do Salão Principal, os corredores ficaram lotados com os outros alunos liberados das aulas matinais da sexta-feira, e Marlene e Mary logo foram separadas de Donna e Lily por vários grupos do quarto ano. No entanto, Mary fez questão de ficar perto de Marlene, e quando estavam a uma distância segura de qualquer pessoa que quisesse ouvir a conversa, a morena enlaçou o braço ao da amiga e perguntou: "Então, quando vai me contar o que está fazendo com Donna e Black?"

Marlene olhou para a amiga, surpresa, mas logo decidiu que não havia sentido em mentir. "Quando eu puder," respondeu ela em vez disso. "Eu já teria te contado, mas... eu meio que prometi."

"Mas eu sou sua melhor amiga..."

"Sim, é, e eu vou te contar quando puder. Eu só... é um assunto delicado no momento."

Mary assentiu devagar. "Promete que vai me dizer quando puder?"

"Prometo."

"Tudo bem. E é melhor que seja bom..."

"Ah, é sim."

"Primeiro ministro?"

"James Callaghan."

"E o partido dele é..."

"Dos trabalhadores."

"E o escritório dele fica na..."

"Rua Downing, número dez."

Marlene sorriu e acenou com a cabeça, preenchendo o espaço vazio na avaliação. "Acertou todas," declarou ela, e Adam sorriu.

"De sua boca para os ouvidos do Professor Glade."

"Verei o que posso fazer."

Eles estavam nos vestiários da Grifinória no sábado à noite, porque James achava essencial que se preparassem para o próximo jogo contra a Corvinal inspecionando o campo de todos os ângulos, incluindo o dos portões dos quais a equipe voaria no começo da partida.

Mas o treino terminara agora, embora quarenta e cinco minutos depois da hora marcada e a equipe estivesse tirando seus pertences e os arrumando nos armários, enquanto Marlene fazia perguntas a Adam para o exame de estudo dos trouxas com o guia de estudo dele, que o garoto inexplicavelmente levou na bolsa.

"Se ao menos fizessem perguntas sobre música," refletiu Adam, soltando as fivelas das botas de couro. "Eu preferia fazer um exame sobre afinação e Jimmy Page."

"Prioridades, Professor Glade."

"Exatamente."

"Bem, é para isso que você tem a mim." Marlene se endireitou, assumindo uma expressão muito séria. "Melhor álbum do Pink Floyd."

"Dark Side of the Moon."

Marlene arqueou uma sobrancelha. "Dá licença, isso vale a retirada de dez pontos agora mesmo. Wish You Were Here."

"Repetir isso mil vezes não faz ser verdade, Price. Estamos falando do álbum inteiro." Ele se levantou do banco, em frente ao de Marlene, e pegou a lista de perguntas do estudo.

"O que prova que eu estou certa," disse Marlene.

"Tudo bem. Discordo."

"Ótimo. Embora você esteja errado. Iggy Pop ou Steven Tyler?"

"Não me faça rir. Iggy."

"Naturalmente."

Sentando-se novamente, Adam começou a vasculhar sua bolsa em busca de seus sapatos. "E você?"

"Ah, sabe que eu sou uma garota dos Stooges."

"Não, eu me referi à lição de casa," explicou Adam. "Você me questionou sobre tudo, desde telefones até Wilson Churchill..."

"Winston, Adam."

"Tanto faz. Não tem nenhum dever de casa?"

"Claro, mas eu não trago minhas anotações para o treino de quadribol," respondeu Marlene, sorrindo.

"Bom, eu tenho prova na segunda e tive o pressentimento de que Potter nos prenderia por mais quarenta e cinco minutos!" Ele disse esta última parte alto o suficiente para o capitão de quadribol do outro lado do vestiário ouvir, e James fez uma careta por cima do ombro enquanto trancava os balaços.

"Bem, talvez se você não tivesse deixado a goles cair duas vezes..."

"Ei, Shack derrubou também!" disse Adam, apontando um dedo acusador para Donna.

"Só por alguns segundos," defendeu-se a garota. "Você derrubou por quase um minuto."

"Havia um balaço."

"Desculpas e mais desculpas." Donna sentou-se ao lado de Marlene e James também se aproximou deles.

"Vocês dois foram desleixados," disse ele, sentando-se. "Mais um treino assim e vou expulsá-los da equipe."

"Sim, Potter," murmuraram Adam e Donna.

"Mas você não, Price," disse James. "E eu preciso dar uma palavrinha."

Marlene ficou um pouco tensa. O Capitão de Quadribol James era uma entidade completamente diferente de James Potter Com Quem Estudou nos Últimos Seis Anos. Capitão de Quadribol James tinha autoridade.

"Sim?"

"Eu decidi," começou ele, "que você jogará na partida do próximo sábado."

O desconforto de Marlene sumiu de uma só vez. "Sério?"

"Sério."

"E... você falou com Hopkirk?" Ela olhou com cautela para o outro potencial terceiro artilheiro, que arrumava suas coisas – suficientemente alegre – não muito longe dali. James aliviou seus medos um momento depois.

"Ele não está pronto para o jogo e você está."

"Mesmo?"

"Mesmo." James bateu no ombro dela. "Então, não estrague tudo." Com isso, ele partiu. Marlene olhou para Donna e Adam, que sorriam para ela – Adam com muito mais entusiasmo do que a morena, mas o fato de Donna se dignar a sorrir era significativo por si só.

"Vocês dois sabiam?"

"Potter nos contou hoje de manhã," respondeu Adam. "Parabéns."

"Vocês sabiam o dia todo?" indagou Marlene com um beicinho. "Amigos terríveis é o que vocês são."

Adam encolheu os ombros. "Eu obedeço a uma autoridade superior."

"Um Furioso James Potter," disse Donna.

"Precisamente."

Marlene fez uma careta e depois acrescentou para Adam: "Arcebispo da Cantuária."

"Não-sei-o-que Coggan."

"Quase isso."

Os dois acabaram voltando juntos ao castelo, enquanto Donna os acusou de demorarem e correu sem eles. Enquanto andavam, conversaram principalmente sobre as aulas e o dever de casa – nada sério.

"Enfim," disse Marlene, quando estavam cruzando os gramados, "tudo que realmente me resta é a dissertação de Madame Keepdown e não quero fazer."

"Por que não? É a mais fácil."

"Sim, mas não vale nota."

"Você ganha pontos."

"Não gosto de escrever sobre mim," disse Marlene com um encolher de ombros. "E acho que todo esse negócio de expectativas e sonhos é um monte de tolice. Acho que posso inventar alguma coisa."

"É isso aí. Diga que quer ser um unicórnio."

"Ah, eu prefiro ser um hipogrifo."

"Dragão."

"Amasso."

"Testrálio."

"Pelúcio."

"Ramora."

"Hinkypunk."

"Kappa."

"Fênix."

"Dilátex."

Marlene riu. "Do que estamos falando?"

"Eu não tenho ideia," admitiu Adam. "Só estou tentando lembrar das tarefas do quarto ano de Trato das Criaturas Mágicas."

". Ei, lembra quando você quase foi puxado para um tanque de Kappas?"

"Na verdade, não. Eu bloqueei totalmente esse incidente."

"Bem, deixe-me lembrá-lo..."

"Por favor, não."

"...Sirius Black disse que você não conseguia colocar a pulseira de Alexa Kyle no pescoço deles..."

"Merlin, você está mesmo fazendo isso?"

"...e você disse que conseguia, tentando impressionar Alexa, sem dúvida..."

"Nunquinha."

"...e o negócio enroscou nos seus dedos – você ficou preso pelo ombro até que Lupin e Kettleburn te puxassem..."

"Quebrou três ossos!"

"Seus dedos ficaram tão inchados! O Professor Kettleburn ficou irado. Ele quase azarou Black, eu juro."

"Eu quase azarei Black... Os testes para o quadribol eram na tarde seguinte, e eu pensei que minha mão seria arrancada. Poderia ter sido, aliás!"

"Bobagem. Dr. Holloway poderia ter consertado isso em um minuto."

Adam levantou a mão direita, examinando os dedos em questão, pensativo. "Mas ele não consertou. Você consertou."

"Bem, eu ainda estava naquela onda de curandeira," disse Marlene, grata pela sombra da noite que poderia ter escondido um pouco o seu rubor. "Estudando ditamno e essência de murtisco..."

"Por que você não escreve sobre isso?" perguntou Adam, ainda brincando com os dedos médios e indicadores pensativamente. "Para a tarefa de Keepdown, quero dizer."

"Não quero mais ser curandeira," zombou Marlene. "Isso foi há séculos. Eu não sabia tudo que era preciso passar para isso... é preciso ser diabolicamente inteligente para passar nos testes... ter cerca de um milhão de N.I.E.M.s."

"Sim, mas se você quisesse..."

Marlene sacudiu a cabeça. "Ser curandeiro é uma grande responsabilidade. Estou nervosa com essa partida de quadribol... vamos ver se desabo com a pressão disso antes de começar a colocar a vida das pessoas em minhas mãos."

"Sim," disse Adam novamente, "mas se você quisesse..."

Marlene apenas sorriu. "Foi a outra mão, babaca."

"Quê?"

"Foi a mão esquerda que você enfiou no tanque dos Kappa."

Adam olhou para as mãos novamente. "Acho que foi, não é?"

"Seu grande poser... nem consegue lembrar que ossos quebrou, aposto."

Eles chegaram ao castelo. Do lado de fora das portas, uma bruxa e um bruxo de capas negras – parte do esquadrão de proteção bruxa da escola – estavam de braços cruzados sobre o peito. "Um pouco tarde para um passeio romântico, não é?" perguntou a bruxa, quando Adam e Marlene se aproximavam.

"Somos da equipe de quadribol," disse Adam educadamente, segurando a vassoura como prova. Marlene tinha certeza de que sua resposta não teria sido tão gentil: não conseguia deixar de vê-los como ameaçadores desde o protesto no Ministério da Magia. "Ainda há mais um vindo."

"Muito bem," disse o bruxo, mas continuou a olhá-los com desconfiança ao passarem pelos portões.

"Idiotas," sussurrou Marlene quando estavam a uma distância segura dentro do Hall de Entrada. "Ficam intimidando os alunos."

"Só estão fazendo seu trabalho," apontou Adam. "E estão aqui para nossa segurança."

"Talvez, mas..."

Ela parou abruptamente. Prudence Daly estava sentada no último degrau da escadaria de mármore, com um largo sorriso no rosto, e ficou de pé quando os dois grifinórios se aproximaram.

"Olá, Adam. Marlene."

Adam sorriu. "Oi, Prudence." Ela saltou e deu-lhe um beijo no rosto.

"Olá, Prudence," disse Marlene. Ela não deixou passar mais de dois segundos de estranheza antes de acrescentar depressa: "Acho que te vejo mais tarde, Adam. Boa noite, Prudence."

"Ah, você não tem que ir, não é? Eu ia perguntar a Adam se ele gostaria de dar uma caminhada..." Prudence olhou esperançosa para o namorado, mas Adam parecia menos entusiasmado.

"Acabei de treinar, Pru," disse ele com pesar. "Estou um pouco cansado."

"Ah, claro... que tolice minha..."

"Que nada... talvez uma caminhada rápida, então?"

"Não está muito cansado?"

"Não, tudo bem."

Ele olhou para seus pertences – a bolsa e a vassoura – e Marlene suspirou. "Eu levo para você, McKinnon."

"Ah, não precisa..."

"Não se preocupe. Me dê." Ela colocou a própria bolsa no ombro direito e a dele no esquerdo. Então, pegou sua Cleansweep e, com um sorriso de despedida para os dois, subiu a escada de mármore. Adam e Prudence agradeceram e ela gritou de volta: "não é nada," antes de se afastar do casal com a maior velocidade possível, considerando sua carga.

A Sala Comunal ainda estava bastante cheia quando ela chegou, e Marlene foi primeiro aos dormitórios masculinos deixar as coisas de Adam. Foi difícil bater à porta, mas Remus Lupin a abriu quase imediatamente

"Boa noite, Marlene," disse ele. "Em que posso te ajudar?"

"Ei, está esperando uma garota, não é?" chamou uma voz – a de Sirius – de algum lugar dentro do dormitório.

"Cale a boca," retrucou Remus. "É Marlene."

"Marlene é uma garota," apontou Sirius.

"O treino de quadribol já acabou?" chamou a voz de Peter Pettigrew. "Não é nem meia-noite ainda. James está ficando bonzinho com a idade."

"Mais uma volta ao redor do campo, então," imitou Sirius. Remus revirou os olhos.

"Ignore-os. Em que posso ajudar, Marlene?"

"Ah, eu só queria deixar as coisas do Adam."

"Entregadora mulher. Picante."

"Padfoot."

"Quê? Eu não disse nada ofensivo."

"Ele está passeando com Prudence," explicou Marlene. Houve um coletivo 'ah.' A garota pigarreou. "Então, se eu pudesse só..." Ela indicou a bolsa e a vassoura.

"Ah, eu vou guardar," Remus se ofereceu e pegou os dois itens.

"O que estão escondendo?" perguntou Marlene desconfiada. Remus olhou por cima do ombro e deu de ombros.

"Mas isso seria contar."

"Certo. Boa noite, Lupin."

"Noite, Marlene."

"Boa noite, vocês dois," acrescentou ela para Sirius e Peter quando se virou para sair.

"Boa noite, Marlene."

"Noite, Price."

Ela desceu a escada dos dormitórios masculinos, atravessou o patamar e começou a subir para o próprio dormitório. A escada estava cheia de meninas sentadas nos degraus, conversando ou compartilhando anotações, e Marlene se esforçou para não pisar nos dedos de ninguém. Ela finalmente alcançou seu quarto, quando encontrou Lily descendo.

"Olá, Mar... como foi o treino?" perguntou a monitora-chefe, que já estava de pijama e carregava uma pilha de pergaminho, provavelmente relacionado à escola.

"Bom. Legal. Eu... é..." Ela se esforçou para parecer casual, mas o sorriso apareceu, "...eu vou jogar na próxima partida."

"Ah, Merlin, Marlene! Isso é brilhante!" Lily deu-lhe um abraço rápido. "Parabéns!"

"Obrigado. Sim, vai... vai ser divertido."

"Muito divertido! Ah, vai ser demais! E Donna não disse uma palavra quando chegou, a idiota. Vai dormir agora?"

"Quê?"

"Dormir... você vai agora?"

"Ah. Acho que vou tomar banho primeiro. Por quê?"

Lily suspirou. "É essa tarefa estúpida de Feitiços que estou fazendo. Eu realmente deveria terminar... é para segunda. Mas apareço antes de você dormir, e você pode me contar tudo, está bem?"

"Ah, não há muito a contar, honestamente," respondeu Marlene, corando.

"Bobagem. Tenho certeza que tem histórias de como deslumbrou James com seus espetaculares movimentos de artilheira."

Marlene bufou. "Na verdade, não."

"Não acredito em você. Certo, bom banho."

"Ah, definitivamente."

Lily retomou o exame das anotações em suas mãos e começou a descer a escada novamente. Marlene hesitou e depois chamou seu nome.

A monitora-chefe fez uma pausa, virando-se, mas sem tirar muito os olhos do pergaminho. "Hum?"

"Lily... você se lembra..." começou Marlene devagar; Lily olhou para ela. "Você se lembra de quando eu era mais jovem, do que eu queria fazer?"

Lily arqueou uma sobrancelha. "Não sei o que quer dizer... o que você queria fazer? Tipo... uma carreira?"

"Sim. Isso mesmo."

"Sim, você queria ser curandeira." Lily sorriu com a lembrança. "Você estudava feitiços de cura e... praticava episkey e torego. Você era uma fofura com treze anos."

Marlene assentiu e imitou o sorriso da outra. "Certo... bem, obrigada."

"Espera..." Ela parecia confusa. "Por que perguntou? Está pensando em ser curandeira de novo?"

"Ah, não," respondeu Marlene rapidamente. "Não, eu... eu não sou qualificada para isso. Eu só... Adam e eu estávamos conversando e me lembrei disso, só isso."

"Marlene..."

"Você deveria terminar a tarefa de feitiços, Procrastinadora," interrompeu a loira, sorrindo. "E eu deveria tomar um banho. Boa noite!"

"Boa noite..."

Marlene entrou depressa no dormitório, e Lily, presumivelmente, voltou ao andar de baixo.

"Marly!"

A primeira pessoa a se dirigir a Marlene na manhã seguinte foi a última pessoa com quem ela queria falar. Porém, o apelido só poderia ter sido proferido por um indivíduo em particular, e, contra seu melhor julgamento, a garota parou no saguão de entrada e esperou que Miles Stimpson se aproximasse dela.

"Olá, Miles," cumprimentou ela secamente, quando ele a alcançou na entrada do Salão Principal.

"Ouvi dizer que foi designada para jogar a primeira partida," disse o corvino. "Contra a minha casa, não menos."

"É isso mesmo," disse Marlene, incerta, amaldiçoando a incrível velocidade com que as notícias se espalhavam naquela escola às vezes. "Será um bom jogo, eu acho."

"Vai ser difícil com Potter e Shacklebolt," respondeu Miles, "tendo que marcar todos os gols por conta própria."

E lá estava. "O que quer dizer com isso, Miles?" indagou ela secamente.

"Então, não está nervosa?" perguntou Miles. "Só um mês de treino e acha que está pronta?"

"Potter parece achar que sim."

"Suponho que ele estava escolhendo com quem preferia transar," disse Miles. "E ainda assim demorou semanas para se decidir."

"Vá se ferrar." Marlene tentou contorná-lo, mas Miles se moveu para bloquear seu caminho.

"Você não acha mesmo que está pronta para jogar pela equipe, não é?" questionou ele, quase incrédulo. "Pela Grifinória? Eu te vi voar."

"Quando?"

"...e tenho certeza que não esqueceu que eu vou jogar de goleiro."

"Claro que eu..."

"Admita, Marly," retrucou Miles, e agora ele parecia aborrecido. "Essa é a razão de você estar fazendo tudo isso – se juntando à equipe... jogar contra mim. É para se vingar de mim, e é patético..."

"Isso não tem nada a ver com você!"

"Eu não acredito nisso nem por um segundo."

"Eu não me importo com o que você acredita."

"Você só está ressentida porque eu não te deixei jogar..."

"Me deixou?" disse Marlene com raiva. "Eu não participei dos testes porque achei que te satisfaria. Eu estava obviamente delirando, porque não só você era totalmente indigno dos meus esforços, mas também é tão amargo que nada nunca vai te fazer adequadamente feliz."

"Você certamente não conseguiria."

"Dane-se. Quando se trata de satisfazer, um de nós obviamente fez um trabalho muito melhor que o outro." Marlene fez uma pausa. "E jamais foi preciso esperar muito," acrescentou ela para dar ênfase. Ela tentou mais uma vez passar por ele, mas Miles colocou o braço contra o limiar da porta e se inclinou para perto.

"Você vai sufocar," murmurou ele. "Conheço seus nervos. Nessas situações, você sufoca. Dez galeões que você não marca um gol."

Se Miles tinha um dom, era encontrar uma insegurança para cutucar. A mente de Marlene ficou vazia, exceto pela imagem que Miles sugeriu – ela, na vassoura, no ar, segurando a goles... o coração batendo forte em seu peito, incapaz de agir... de lembrar o que devia fazer... todas as lições que Potter e Donna tinham incutido em sua mente arrancadas de seu cérebro... seus dedos tremendo, todos observando...

Miles sorriu com a dúvida óbvia no rosto dela.

"Nem um," repetiu ele. "E seu cabelo está ridículo."

Respostas espirituosas não se apresentaram a Marlene. Ela se sentiu com quinze anos de idade novamente – ingênua e impotente contra a maldade dele. Conscientemente, ela tocou os grampos segurando sua franja.

"Cai no meu rosto quando eu voo..." disse ela, estupidamente.

"Devia raspar completamente," disse Miles. "Ficaria mais feminina do que como está hoje em dia."

"Marlene."

Lily tinha chegado para o café da manhã e estava se aproximando dos dois, sua expressão uma mistura de desgosto e desconfiança. Marlene ainda não conseguira falar quando a amiga chegou, imediatamente passando um braço pelo dela.

"Evans," cumprimentou Miles. "Estou só conversando com Marlene sobre a partida. Quer apostar quantas vezes ela vai errar os aros?"

"Ela poderia errar todos, e o recorde de pontaria dela ainda seria melhor que o seu, pelo que eu ouvi," rebateu Lily. Sem outra palavra, ela conduziu Marlene para além de Miles no Salão Principal. Cinco ou seis passos depois, a loira saíra do que a deixara temporariamente muda.

"Eu sou tão idiota."

"Não, não é," rebateu Lily. "Miles é um babaca. E um idiota. E um goleiro medíocre."

"Não," sussurrou Marlene. "Ele não é. Quer dizer, sim para o babaca e o idiota, mas ele é um bom goleiro. Uma porcaria de ser humano, mas um bom goleiro."

"Decente na melhor das hipóteses," bufou Lily. Marlene sorriu e soltou o braço do da amiga, apenas para jogá-lo sobre os ombros da ruiva.

"Você não acha que ele tem razão, não é?"

"Sobre o quê? Não importa, não preciso saber. Tenho certeza que ele está errado."

Elas se sentaram à mesa da Grifinória, e Lily apertou Marlene com força, antes de soltá-la e pegar a jarra de suco de abóbora. "Ele é um sujeitinho sem escrúpulos, e está tentando te desestabilizar, Mar. Está preocupado que a Grifinória destrua a Corvinal, o que faremos, e está com medo."

"Você não acha que foi um erro? Entrar para a equipe? Eu fico nervosa, e se eu sufocar..."

"James escolheu você," disse Lily confiante. "E mesmo que eu não confiasse no julgamento dele, sei que você será brilhante. Você sempre é." Ela estendeu a jarra de vidro em suas mãos. "Suco de abóbora?"

Marlene sentou-se no sofá no escritório de Madame Keepdown, e a bruxa mais velha sorriu para ela, recostando-se em sua cadeira grande enquanto a loira se inclinava conscientemente para frente.

"E como você está esta noite, Marlene?" perguntou Keepdown em um tom muito conversacional.

"Bem," respondeu a loira. "Mas tenho treino de quadribol depois, então não posso ficar até tarde."

Keepdown parecia mais compreensiva. "E você está gostando dos treinos de quadribol?"

"Muito. É... brilhante."

"Mesmo?"

Marlene assentiu. "Exaustivo, mas brilhante."

Keepdown sorriu, e por um momento observou a garota com muito cuidado. "O que a está incomodando?" perguntou por fim.

"Quê?"

"Algo a está incomodando," reiterou a bruxa. "Você vai se sentir melhor se falar comigo sobre isso."

"Nada..." Mas Marlene interrompeu a mentira; Madame Keepdown ergueu uma sobrancelha desconfiada. Marlene baixou o olhar para o chão e, depois de alguns segundos, confessou. "Estive pensando sobre sua tarefa. A dissertação."

"Ah, não quero que você se preocupe com isso," disse Keepdown seriamente. "Não precisa ser mais do que um parágrafo... até mesmo algumas frases, se quiser..."

Marlene assentiu, mas não disse nada.

"Mais alguma coisa?" perguntou a outra bruxa baixinho.

"Eu só... não sei sobre o que quero escrever."

"Você pode escrever sobre qualquer coisa, querida," disse Keepdown. "Qualquer coisa que sonhe em fazer!"

"Eu sei, entendo isso," respondeu Marlene. "Mas..." Ela parou de novo, então: "A senhora sempre soube o que queria fazer?"

Madame Keepdown franziu a testa. Pela primeira vez, ela parecia genuinamente insegura. "Por muito tempo, pensei ter nascido para fazer uma coisa... mas então outra coisa se apresentou, e eu escolhi um caminho diferente."

"Mas algo se apresentou," disse Marlene.

"Algo sempre se apresenta."

"Não para mim."

"Minha querida..."

Mas Marlene se sobrepôs a ela: "Lily sabe o que quer fazer da vida desde que tinha uns oito anos. Donna também. O plano financeiro de Mary é 'casar bem,' Adam quer fazer ligações trouxas... Clancy Goshawk tem a resto da vida decidida, até o bairro em que quer morar... então... parece que desde o ano dos N.O.M.s. todos, exceto eu, decidiram tudo, e eu... eu não tenho ideia. Nenhuma ideia..."

"É uma idade difícil, dezessete anos..."

"Mas eu nunca me senti... segura," disse Marlene. "Nunca vi nada que eu achasse que... seria perfeito para mim, ou que eu pudesse fazer. Tudo que eu quero parece tão distante de mim... completamente impossível. E eu sei que deveria seguir meu coração e toda essa bobagem, mas eu me conheço... Eu sei do que sou capaz e o que é simplesmente impossível para mim. E eu simplesmente não sinto que haja algo que nasci para fazer. Não há nada que eu real, verdadeira e inquestionavelmente queira fazer... nunca me incomodou muito, porque sempre pensei que poderia simplesmente fazer algo normal. Não sou uma pessoa chata... eu tenho uma imaginação: mas não tenho sonhos... não para mim, pelo menos."

Madame Keepdown se inclinou para frente, fechando bastante do espaço entre elas; ela pegou a mão de Marlene. "Você pode fazer o que quiser."

"Não," disse Marlene, de forma séria e realista, sem argumentação, apenas com praticidade. "Na verdade, não posso. É um pensamento bacana... mas não é realmente verdade, né? Eu não poderia... eu não poderia jogar quadribol profissional, certo? Não sou boa o suficiente. Não poderia ser auror: não escolhi as matérias adequadas para os N.I.E.M.s., e, de qualquer forma, eu seria uma porcaria. Eu não poderia ser escritora... não consigo escrever nada, e não poderia ser desfazedora de feitiços, porque não estudei Aritmancia. Só porque... só porque você quer algo não significa que possa fazer. Isso é algo que se diz às criancinhas para que façam o dever de casa."

Marlene recuou um pouco.

"Sinto muito, eu não quis ser rude, Madame Keepdown."

"Por favor. Fiona."

"Certo. Desculpe."

Madame Keepdown assentiu lentamente, ondas de cabelos brilhantes caindo diante de seu rosto e depois deslizando para trás a cada movimento. "Marlene, querida, dizer que 'você pode fazer o que quiser,' não significa que pode fazer qualquer coisa: significa que pode fazer tudo que quiser fazer."

Aquilo confundiu a garota completamente. "Você não... acabou de dizer a mesma coisa com algumas palavras a mais?"

"Quero dizer," insistiu Keepdown, "que se você realmente quer algo, pode tê-lo. E que se não puder tê-lo, é porque você não queria de verdade."

Marlene franziu a testa. "Então, eu devo ser ainda mais autossabotadora do que pensava." Madame Keepdown lançou-lhe um olhar de pena, como se ela fosse muito estúpida e não tivesse entendido nada.

(Borboletas)

"Você não está prestando atenção, Marlene," repreendeu Sirius, enquanto a loira continuava desenhando redemoinhos no pedaço de pergaminho à sua frente sobre a mesa da biblioteca. Ela balançou a cabeça.

"Nem um pouco. Qual é o sentido? Vocês dois só estão brigando."

"É por isso que você está aqui, não é?" indagou Sirius. "Para nos controlar?"

"Ah, é por isso que estou aqui? Pensei que fosse carma ruim."

"Não, essa é a razão de eu estar aqui," corrigiu Donna. "Então vamos deixar isso resolvido primeiro, o.k.? Maravilha."

Sirius cruzou os braços sobre o tampo da mesa e descansou o queixo sobre os pulsos. "Acho que devemos contar a Remus," afirmou.

Marlene e Donna olharam para ele. "Por você ser sádico?" perguntou Marlene secamente.

"Não, pense nisso," prosseguiu o Maroto. "Se uma de vocês deixar escapar para Remus, afinal não poderia ser eu, já que ele não daria ouvidos, mas se uma de vocês fizesse isso, ou ele contaria a Clancy ou azararia Plex. Além disso... ele seria um bom ombro para chorar!"

Marlene e Donna continuaram a encará-lo. "Você realmente não sabe nada sobre o sexo oposto, não é?" perguntou Marlene.

"Nem eu sou tão maliciosa," disse Donna. "Não se pode dizer a um cara que uma vagabunda está ficando com o namorado da garota de quem ele gosta."

"Especialmente quando o cara é Remus," acrescentou Marlene.

"Ele só vai se sentir culpado e provavelmente não fará nada a respeito. E mesmo que ele faça alguma coisa..."

"Humilhação total para Clancy. E se ele não fizer nada sobre isso..."

"Quando Clancy descobrir..."

"E ela descobrirá."

"Ficará lívida."

"Lívida e humilhada."

"Ela vai odiá-lo."

"E não conseguirá olhá-lo nos olhos."

"O que pode não ser um obstáculo absoluto para namorar ou transar..."

"Mas isso tende a complicar o processo."

Sirius fez uma careta "Tudo bem, mas não estou vendo vocês sugerindo algo melhor."

"Bem..." interrompeu Marlene, enquanto a Srta. Sevoy escolhia aquele momento para lançar um olhar arrogante na direção deles. Ela se inclinou sobre a mesa e murmurou: "Por que nos encontramos na biblioteca, aliás? Sevoy fica olhando furiosa para nós."

"Foi ideia de Black," disse Donna.

"Ah, sim," disse Sirius. "Bem, há uma razão para isso."

"E qual é?"

"Vocês verão."

Elas viram, cerca de dois minutos depois, quando Clancy e Remus chegaram. Sirius se abaixou atrás de um livro – um dos de Donna – mas não foi realmente necessário, já que o casal de monitores não os notou. Eles escolheram uma mesa do outro lado da biblioteca, e Marlene e Donna amarraram a cara para o Maroto diante delas.

"Do que se trata isso, então?" perguntou Donna.

"Bem," disse Sirius, "vocês são garotas. Mais ou menos. Achei que poderia servir de um pouco de inspiração."

"Você não vai fazer a gente ver Plex e Shelley se beijando num armário de vassouras também, vai?" sussurrou Marlene com ceticismo.

"Não," respondeu Sirius. "Mas às quintas no corredor do quarto andar depois do jantar, se estiverem curiosas."

Donna estremeceu. "Ninguém está curioso com isso."

Marlene arriscou um olhar cauteloso por cima do ombro para o casal, que parecia examinar anotações das aulas... de certa forma. O olhar de Remus permaneceu na corvina um pouco mais do que no pergaminho entre eles, e o sorriso de Clancy não era do tipo que se usava ao revisar Transfiguração.

Marlene sentiu uma pontada estranha no peito – culpa, provavelmente.

"Vamos sair daqui, Price?" indagou Donna, cutucando a loira. "Eles estão me dando dor de dente."

Marlene assentiu depressa. Sirius suspirou.

"A solidão congelou seu coração para o romance, Shack?" perguntou ele, balançando a cabeça tristemente. "Isso é trágico."

Marlene mostrou a língua. "Trágico é a palavra para isso, sim," disse ela, com um menear de cabeça para Remus e Clancy. Ela se levantou e pegou a mochila, deslizando-a por cima do ombro, murmurando para que ninguém, a não ser os três, pudesse ouvir: "Você esquece que eu fui a Clancy."

"E eu fui a Shelley," disse Donna. Ela tornou a estremecer. "Merlin, espero nunca mais dizer essas palavras."

"Mas essa é a questão, não é?" indagou Sirius, e ele se referia a Marlene. "Você não gostaria que alguém tivesse te contado?"

Marlene deu de ombros desafiadoramente. "Alguém me contou."

Enquanto seguia Donna para fora da biblioteca, Marlene deu outra olhada em Clancy e percebeu que não era culpa que a incomodava. Era – e isso era muito estranho – nostalgia: nostalgia por uma época em que o mais simples dos gestos (estudar na biblioteca, jantar juntos, escutar música, compartilhar um guarda-chuva) lhe causava borboletas. Esse era o tipo de sorriso que Clancy ostentava – o tipo que denunciava totalmente o segredo das borboletas.

(Quinta-feira)

Redação

Quando eu sair de Hogwarts, quero ser um Kappa. Acho que seria uma carreira brilhante, viver na água atraindo as pessoas para a morte. Parece uma vida relativamente simples também, se quer saber; mesmo que falhe, você tem o conforto de saber que, tecnicamente, sua falha salvou a vida de alguém. Só se tem a ganhar.

Marlene amassou o pedaço de pergaminho no qual rabiscou a tentativa de brincar com a tarefa de Madame Keepdown, e, assim que o fez, Mary se juntou a ela no dormitório. Lily já estava lá, deitada na cama de Donna, trabalhando em sua própria redação para Madame Keepdown.

"Olá, Mar. Lily. O que estão fazendo aqui?"

"Desperdiçando meu tempo," respondeu a monitora-chefe. Mary arqueou uma sobrancelha em questionamento e a ruiva explicou: "A redação de Madame Keepdown."

"Ah."

Marlene, que estava sentada em sua cama, virou a cabeça do novo pergaminho em branco e dirigiu-se a Mary. "E, então, como foi seu encontro?"

"Não foi um encontro," respondeu Mary. "Foi só um passeio."

"Aposto que Derrix Pomfrey não está dizendo isso aos colegas de quarto dele," disse Lily secamente.

"Provavelmente não," concordou Mary, jogando-se na cama. "Mas, mesmo assim, foi só um passeio. E um muito pouco promissor."

"Ah, é?"

Mary encolheu os ombros. "Claro, Derrix Pomfrey é bonito, mas ele é... chato. Lembrou-me do meu primeiro encontro com o Vadio Promíscuo."

"Pegador," corrigiu Marlene.

"Qual é a diferença? Enfim, até onde eu sei, isso prova que minha teoria está correta."

Marlene franziu a testa. "De que homens com cílios mais longos que os seus estão jogando no outro time?"

"Não, a outra teoria."

"De que homens com meias combinando são trapaceiros?" sugeriu Lily.

"Não, a outra teoria."

"De que 'passear' é um eufemismo barato para 'beijar?'"

"Não, a outra... eu tenho um monte de teorias, não é?"

"Eu tenho uma teoria sobre isso," disse Lily.

Mary mostrou a língua. "A teoria à qual estou me referindo," disse ela, "é a de que eu não deveria estar... passeando com alguém."

"Acho que essa teoria é minha," disse Marlene.

"...simplesmente não estou pronta," prosseguiu Mary, ignorando-a. "Derrix parou para amarrar os sapatos em certo ponto, e eu pensei – e nem estou brincando, eu pensei: 'o safado costumava amarrar os sapatos.'"

"O idiota," brincou Lily.

"...e isso me levou a uma conclusão." Mary respirou fundo e levantou-se da cama, como se estivesse se preparando para fazer um anúncio muito importante. "Estou desistindo dos homens."

Marlene e Lily olharam para ela duvidosamente.

"Não, sério, estou," disse Mary.

"Eu sempre achei que você e Donna formariam um casal adorável," falou Marlene.

Mary olhou feio para ela. "Não, não, não, eu não estou desistindo dos homens para ficar com mulheres. Estou desistindo de namorar. E... aqui está a melhor parte..."

"Ah, Merlin."

"Vocês também!"

Mary sorriu para as duas; nenhuma delas retribuiu.

"Como é que isso é a melhor parte?" perguntou Lily.

"Essa parece ser a pior parte," concordou Marlene.

"Ou a parte que não existe."

"A parte que jamais deve existir."

"Certo."

Mary fez beicinho e a porta do dormitório se abriu. Lily imediatamente pulou da cama de Donna para a do lado – sua cama, há muito vazia – e a própria Donna entrou no quarto. A morena largou a mochila no chão, tirou-a do caminho e seguiu em direção ao malão ao pé da cama.

"O que está acontecendo?" ela perguntou a Lily, vasculhando preguiçosamente seu malão em busca de – o que ficou evidente um momento depois – seu equipamento de quadribol. "Não que eu me importe. Ei, pensei que você tivesse sessão individual com Keepdown hoje à noite, Lily?"

"Não," respondeu a ruiva, tentando parecer confortável em sua cama, como se estivesse lá o tempo todo. "Potter conseguiu remarcar para o final do mês, já que a partida está próxima e vocês têm treino hoje à noite."

"Entendi. Ah, e se eu te pegar na minha cama de novo, vou azarar você."

"Droga."

Mary limpou a garganta. "Se não se importa, Donna," disse ela, "eu estava bem no meio de algo importante."

"Ela está desistindo de namorar," falou Marlene.

"Certo."

"E quer que a gente desista com ela," disse a ruiva.

"Ah. Isso parece mais plausível."

"Ei!" disseram Lily e Marlene em coro.

"Eu não quis dizer como algo ruim," disse Donna. "Só quis dizer que as duas vão achar muito mais fácil ficar solteiras, porque poucos caras convidam vocês para sair."

Lily voltou para a cama de Donna.

Marlene revirou os olhos. "Vai se trocar pro quadribol, Shacklebolt."

"Honestamente, vocês duas são tão sensíveis às vezes..."

Mas Donna pegou suas coisas e se dirigiu ao banheiro, enquanto Mary retomava as tentativas de influenciar as outras duas. "Estão vendo? Até ela acha que é uma boa ideia."

"A primeira e mais óbvia pista de que provavelmente não é," disse Marlene.

"Sim, mas pense nisso," continuou Mary, sentando-se novamente em sua cama. "Vocês duas tiveram péssimos relacionamentos no ano passado. Eu tive um relacionamento péssimo este ano. Seríamos magníficos suportes emocionais uma da outra!"

Lily riu e balançou a cabeça. "Eu serei o melhor suporte emocional que você poderia desejar, querida. Mas não prometo não namorar mais ninguém para isso."

"Não é para sempre," disse Mary petulantemente. "Só por... um ano."

"Não."

"Seis meses?"

"Também não."

Mary olhou esperançosa para Marlene. "E você, melhor amiga?"

"Mary..."

"Ah, vamos lá, Marlene." Ela sentou ao lado da loira. "Por favor..." (Só que, de alguma forma, ela conseguiu fazer a expressão ter cerca de seis sílabas). Marlene suspirou pesadamente.

"Mary, eu nunca te vi ficar um mês sem um encontro desde que tínhamos dez anos de idade. Quer ficar seis?"

Mary franziu a testa. "Tem sentido." Então, ela se iluminou. "Sexo."

"Quê?"

"Sem transar. Seis meses sem transar. Não, espere, se estamos só falando de sexo, pode muito bem ser um ano de novo... um ano sem transar. Vamos... isso não pode ser tão difícil, não é?"

"Não para mim," admitiu Marlene. Mary gritou e apertou a mão dela; a loira suspirou novamente. "Ah, tudo bem. Celibatária por um ano."

"Brilhante!" Marlene estendeu a mão, Mary a apertou e ambas cuspiram nos respectivos ombros direitos. "Ei, é a minha cama!" protestou Marlene, quando notou onde a outra escolhera cuspir.

"É muito nojento quando vocês duas fazem isso," apontou Lily. Mary sacou a varinha para limpar a bagunça.

"Você deveria aderir também, Lil," disse ela para a monitora-chefe. "Conseguiu ficar por dezessete anos: não deveria ser muito difícil ficar dezoito."

Lily, que retornara à tarefa, encolheu os ombros. "Eu não descarto nada."

"Só acredito vendo," cantarolou Mary. A porta do dormitório se abriu novamente, e desta vez entrou uma Shelley praticamente saltitante. O humor de Mary logo azedou. "Você parece alegre," disse ela, enquanto a loira se sentava na penteadeira. "Madame Pomfrey já deu um jeito naquela assadura, não é?"

"Ela já deu o diagnóstico da sua?" respondeu Shelley friamente.

Mary revirou os olhos e levantou-se da cama de Marlene, caminhando em direção à porta. "Acho que vou sair. Está um pouco abafado aqui... não sabia que fabricavam perfume de bosta de cachorro."

Ela saiu do quarto antes que Shelley pudesse retrucar, e então a loira apenas revirou os olhos antes de voltar o olhar para o espelho da penteadeira, murmurando: "vadia."

Lily não parecia mais entusiasmada do que Mary com o desenrolar dos fatos, então, fechou o tinteiro, secou a pena e guardou as coisas na mochila. "Vou sair também," disse ela, com um pouco mais de diplomacia. "Bom treino, Marlene."

"Ah, você tem que ir embora?" indagou Marlene.

"Sim, eu tenho que... limpar meu quarto."

"Limpar seu quarto?"

"Limpar meu quarto."

"Patético."

"Tchau!"

Lily acenou, despediu-se de Donna no banheiro e depois se foi também. Marlene lançou um olhar desconfortável para a alheia Shelley. Desde que a "Operação Mancy" começara, ela temia a companhia da outra, especialmente quando ficavam a sós. O que piorava as coisas era que, ultimamente, Shelley começara a dar pequenas pistas sobre suas... atividades extracurriculares: nada drástico a princípio, só pequenas pistas... declarações feitas com a óbvia intenção de provocar uma pergunta que ela, por sua vez, respondia apenas enigmaticamente. Naquela noite, ela estava com força total.

"Estou completamente exausta," disse ela, bocejando e se espreguiçando, mesmo com o pincel do rímel em sua mão.

"É?" indagou Marlene rigidamente. Ela foi até a cômoda e começou a pegar suas roupas de quadribol. O treino era em vinte minutos, afinal.

"Morta," elaborou Shelley. "Que dia. Aula dupla de Estudo dos Trouxas. Fiz aquele exame idiota também... quase morri." Desde a perda dos quilos extras e a mudança no tom da pele, a garota também começara a xingar mais, Marlene notou.

"É?" indagou ela novamente. "Como foi?"

"Bom." Shelley deu de ombros e se concentrou nos cílios. "Eu não me importo, para ser honesta. Mas não queria nada além de me deitar e dormir por um ano."

"Parece bom," concordou Marlene.

"É uma pena que eu tenha planos para hoje à noite."

"Hummm..."

"Eu gostaria de poder desmarcar," prosseguiu Shelley. "Mas não deveria."

Marlene sentiu os olhos da outra garota sobre ela e fez questão de não olhar. "Hummm."

"Então, suponho que vou ter que me esforçar e dar meu melhor."

"Suponho que sim."

Shelley se virou na cadeira para encarar Marlene por completo. "Você tem algum lápis de olho branco? O meu já era."

"Não, não tenho."

"Não tem? Mas, Marlene, isso é totalmente essencial!"

"É... o.k. Ainda assim não tenho."

"Tudo bem..." Em um tom altamente autossacrificial: "Eu me viro." Ela encarou o espelho novamente. "Que horas são?"

Sem se incomodar em mascarar o aborrecimento em sua voz, Marlene olhou para o relógio e respondeu: "Quinze para as sete."

"Ah, acho que vou me atrasar," disse Shelley alegremente. "Mas não importa. É bom deixar um cara esperando... especialmente se for gostoso. Mantém o ego dele sob controle."

"Hum."

"Mas ele tem razão." Shelley não dava a mínima para o fato de Marlene não se importar, e isso estava ficando frustrante. "Ele é bem bonito."

(A expressão de Clancy na biblioteca pairou na mente de Marlene)

"Hummm."

"Beija bem demais também..."

"Hummm...

"E quanto a tudo mais..."

Marlene fechou a gaveta da escrivaninha. "Shelley, pare com isso," disse ela, com uma expressão brusca, e a outra a encarou através do reflexo no espelho.

"Parar o quê?"

"Tudo. Pare."

"Eu não sei o que..."

"Charlie Plex," interrompeu Marlene. A porta do banheiro abriu e Donna colocou a cabeça para fora.

"Ei, Price."

"Ah, é claro que você contou," retrucou Shelley. "Merlin, não podia simplesmente manter a boca fechada, não é?"

"Ah, por favor," disse Marlene, cruzando os braços e caminhando até a outra. "Não é como se você estivesse tentando manter isso em segredo. Todas as pistas, tentando fazer as pessoas perguntarem sobre o cara misterioso..."

Shelley corou. "Me deixe em paz. Eu tenho que me arrumar..."

"Não, não tem não..."

"Price, deixe..."

"Eu não vou deixar, Donna... Shelley precisa ouvir."

"Eu te disse, já tentei argumentar com ela."

"Bem, deixe-me tentar," respondeu Marlene. Donna a encarou por um momento, e então deu de ombros, murmurando "está bem" de uma forma que sugeria que via pouco potencial nessa conversa. A morena voltou ao banheiro e fechou a porta. Marlene encostou-se à mesa; Shelley agora evitava o contato visual.

"Shelley, eu não ligo para o que você faz, mas, pelo amor de Merlin, Clancy Goshawk é uma garota muito legal, e..."

"Eu não quero ouvir, Marlene."

"Eu não ligo se quer ouvir! Você tem que ouvir!"

"Na verdade, não tenho." Shelley bateu a mão na mesa e ficou de pé. "Não tenho que ouvir seus sermões hipócritas sobre Clancy Goshawk! E quanto à sua amiga? Shacklebolt fez a mesma coisa e fica livre só por ser sua amiga? Bobagem! Não pode me dizer nada, e, francamente, não ligo de ouvir seus ressentimentos insignificantes!"

O queixo de Marlene caiu. "Ressentimentos?" repetiu ela.

"Sim!" Shelley ergueu o queixo desafiadoramente. "Ressentimentos. Todo mundo sabe que perdeu seu namorado para outra garota, e provavelmente não conseguiria outro se tentasse! O que, a julgar pelo estado chocante de sua maquiagem no momento, você não está fazendo. Então, não fique aí me dando sermão. Eu mereço ter um cara a fim de mim, não é?" Ela não esperou por uma resposta, mas se virou e saiu apressadamente do quarto.

Alguns segundos se passaram e, então, Donna saiu do cômodo ao lado.

"Está ficando cada vez mais tentador entregar uma câmera a algumas das fofoqueiras da escola e colocá-las atrás dela e de Plex."

Marlene suspirou. "Não deixe Sirius ouvir essa ideia."

(Sexta-feira)

Para a surpresa de Marlene, ela encontrou Prudence Daly depois da aula de Herbologia na sexta-feira à tarde. A pequena corvina sorriu para ela quando saiu da Estufa Dois, e a loira foi obrigada a interromper seu caminho e falar com ela.

"Adam está dando uma palavrinha com Puttman," informou Marlene. "Tenho certeza que não vai demorar muito."

"Ah. Acabei de sair de Trato das Criaturas Mágicas e pensei em voltar para o castelo com ele," explicou Prudence. "Mas se está subindo, posso ir contigo. Você se importa?"

"Ah. É... não. Não, claro que não." Tudo bem, não era exatamente a preferência dela, mas também (estritamente falando) não se importava. Lily tinha ido na frente com Lupin, e Mary estava com Reginald Cattermole, então poderia muito bem aceitar a companhia até o castelo. "Sim, vamos."

"Maravilha."

Era uma espécie de luta para Prudence acompanhar alguém com pernas significantemente mais compridas, e assim a loira fez de tudo para diminuir o ritmo. Isso tornou a escalada dos gramados inclinados que levavam ao castelo uma forma de batalha, e Marlene ficou quieta, guardando energia. Prudence, por outro lado, parecia ser pura energia.

"Então, está animada?" perguntou ela, quase saltitando. "Para o jogo neste fim de semana, quero dizer."

"Ah, sim. Vai ser brilhante."

"É contra a minha casa, sabe?" falou Prudence. "É a primeira partida que vou ficar dividida... com Adam na Grifinória e tal."

"E a última," disse Marlene.

"Como assim?"

"Bem, ele é do sétimo ano. É seu último jogo contra a Corvinal."

"Ah, sim." Prudence franziu a testa por um momento. "Mesmo assim," continuou ela, animada, "espero que seja uma partida brilhante. Os jogos entre nossas casas sempre são. Eu amo quadribol, você não?"

"Aham."

"Está nervosa?"

Claro que Marlene não despejaria todas as suas inseguranças sobre a garota que namorava o garoto que ela gostava, não importava quão doce Prudence Daly fosse. "Ah, um pouco. Espero que dê tudo certo."

"Ah, claro que dará. Só espero que não chova." Ela olhou para o céu nublado. "O jornal está dizendo que vai chover."

"Sorte a minha, não é?"

"Vou ter que lembrar de levar um guarda-chuva," disse Prudence distraidamente, mais para si do que para Marlene. "Como se enxerga no quadribol quando está chovendo?"

"Eu não sei," admitiu Marlene. "Mas Potter terá uma dúzia de dicas."

"Ah, entendi," disse Prudence, com um sorriso brincalhão em seus lábios. "Não pode me dizer; estou do outro lado, não é? O inimigo."

"Estou tentando não ver dessa maneira," respondeu Marlene; ela tentou imitar o tom de diversão de Prudence, mas achou que o resultado deve ter parecido tenso.

"Olá, Daly."

Para o imenso descontentamento de Marlene, Miles Stimpson as alcançou. "Associando-se com o inimigo, não é?" perguntou ele, ficando ao lado das duas. Ele lançou um sorriso para a loira. "O que Potter diria se soubesse que você estava andando com uma corvina, Marly? Com dois, ainda mais."

"Você dificilmente conta, Miles," retrucou Marlene. "Corvinos devem ser inteligentes."

"E os da sua casa devem ser corajosos," respondeu ele. "Mas veja só você."

"Ah, Miles," sussurrou Prudence.

"Cai fora, Stimpson."

"Eu tenho direito de retornar ao castelo também, não tenho?" disse ele. "Então, diga-me, Price..." Ele passou um braço sobre os ombros dela, que a garota afastou antes de acelerar o passo. "Está nervosa?"

Ela o ignorou.

"Afinal de contas, deve ser um pouco preocupante... entrar em uma partida sabendo que só ingressou na equipe devido ao capitão querer transar com sua melhor amiga."

"Miles."

"Saia já daqui, Miles," ordenou Marlene com firmeza. Ele sorriu, e devia saber que o estrago estava feito, porque, com uma piscadela e um encolher de ombros, o rapaz obedeceu, correndo na frente delas.

"Não deve se incomodar com o que ele diz," falou Prudence com sinceridade. "Ele é só um garoto. E não falou sério também. Pelo que ouvi, ele deveria... sabe... te intimidar. Para a equipe." Prudence corou. "Não deve se importar com ele," disse ela novamente. "Suponho que ainda esteja um pouco magoado por você ter rompido com ele."

"Não, não está," disse Marlene friamente. "Ele é só um idiota. É assim que ele é."

"Mas vocês ficaram juntos por tanto tempo... ele não pode ser de todo ruim."

"Claro que pode." Marlene encolheu os ombros. "Eu só tenho muito, muito mau gosto."

(Sexta à Noite)

Pá, pá, pá, pá. Pá, pá, pá, pá.

"Mais uma vez ao redor do campo, e então terminamos," dissera Potter, mas o campo de quadribol parecia muito maior quando percorrido a pé. Naquela noite, o treino tinha sido leve – nada muito desgastante, porque James queria todos dispostos para o jogo na manhã seguinte. Consequentemente, Marlene sentiu-se um pouco culpada por não correr ao redor do campo em velocidade máxima, e isso foi, estranhamente, bastante relaxante.

Ela chegou ao ponto de partida e sua corrida diminuiu para uma caminhada, o som de seus sapatos suavizando na grama e depois desaparecendo completamente. Ela parou a vários passos dos outros, com as mãos nos quadris enquanto recuperava o fôlego. Estava uma noite linda... não era possível ver uma única estrela e as nuvens faziam o céu parecer meio... lamacento, mas estava bonito, fresco e frio mesmo assim.

Os outros guardaram seus pertences. Eles conversaram, arrumaram as coisas e começaram a voltar para o castelo, mas Marlene ficou para trás. "Você vem, Price?" perguntou James, o último a sair, como de costume.

Marlene estava na grama agora, suas coisas já recolhidas e guardadas em uma pequena pilha à sua direita. Ela olhou para James e assentiu. "Eu vou daqui a pouco."

James pareceu insatisfeito. "É um pouco tarde, não?"

"Não vou demorar mais do que dez minutos, prometo," garantiu Marlene.

O capitão hesitou, mas depois assentiu. "Certo. Tenha uma boa noite de sono, então."

"Sim, claro."

Então, ele também foi embora, e Marlene ficou sozinha no campo escuro.

Em cerca de doze horas, estaria ali de volta – para o jogo – e "nervosismo" era o mínimo que sentia agora. Ela se sentou no gramado com as pernas cruzadas. Deveria ter voltado ao castelo para se aquecer e se proteger (os bruxos da segurança ficariam furiosos com ela), mas a sala comunal da Grifinória era sempre uma exibição dramática na noite anterior a uma partida, e não achou que suportaria isso agora.

Os ruídos da noite – os grilos, uma constante brisa na grama e nas árvores, e os rangidos das arquibancadas de madeira – resistiram ao silêncio, e foi assim que não percebeu que alguém se juntara a ela até ele falar.

"'Boa noite, Price."

Marlene se assustou. Sirius Black apareceu, as mãos nos bolsos e um sorriso sombrio no rosto.

"Olá, Black," respondeu ela. "O que está fazendo aqui?"

"Só andando," disse ele. "E você?"

Ela encolheu os ombros. "Tendo um ataque de pânico?"

"Sim, isso é bastante típico, eu acho."

"Você teve um antes do seu primeiro jogo?"

Sirius bufou. "Merlin, não. Mas eu era um babaca arrogante. Presumi que seria brilhante. Se tivesse algum bom senso, teria me escondido nas cozinhas chorando a noite toda."

"Não é exatamente reconfortante."

"Certo." Sirius se juntou a ela na grama. "Sabe, estou lutando contra meus mínimos instintos agora. É terrivelmente complicado tentar não esperar que você seja uma porcaria amanhã."

"Uau. Valeu."

"Eu disse que eles eram mínimos. Não pode culpar um cara por sentir um pouco de inveja, pode? Você estará lá em cima..." os olhos dele se moveram para o céu, "...jogando com meu melhor amigo e minha equipe..."

"Eu gostaria que você não sentisse," interrompeu Marlene secamente. "Eu já sinto que não pertenço ao time."

Sirius pareceu surpreso. "Por quê?"

"Bem, estou me juntando à equipe no sétimo ano. Todos eles já jogaram muitas partidas, e essa é minha primeira. Além disso, fora Donna, eu sou a única garota no time, e Donna não é exatamente... acessível."

"Certo," disse Sirius novamente. "Mas não se preocupe com isso. Vai ficar tudo bem."

"O que te faz pensar isso?"

"Primeiro, acho que James é o melhor capitão e artilheiro que esta escola viu em séculos. E ele escolheu você."

"Você não acha..." Marlene parou e baixou o olhar.

"O quê?"

"Ah, não sei. Que... talvez ele só tenha me escolhido porque..."

"Porque o que, Price?"

"Porque sou amiga da Lily."

Sirius riu. Ele enfiou a mão no bolso, retirou um maço de cigarros e, enquanto tirava um, o Maroto balançou a cabeça. "Você tem escutado fofocas da Corvinal."

"Especificamente de Miles Stimpson," modificou Marlene suavemente. Sirius acendeu o cigarro.

"Ah." Uma longa tragada, e ele a ofereceu um cigarro, o qual a garota recusou. "O maléfico ex-namorado. E goleiro da Corvinal, ainda mais. Dramático, não?"

"Isso não é uma resposta," disse Marlene. "Afinal, há uma possibilidade real..."

"Não, não há." Sirius balançou a cabeça novamente. "Prongs e Evans têm... um relacionamento complicado, mas James Potter não brinca com quadribol. Com todo o resto, sim, mas não com quadribol."

Marlene não via muita razão em debater o assunto. Ela apenas assentiu. "Se você diz."

"Digo," disse Sirius levemente.

"E o julgamento dele é infalível, do Potter?"

"Bem, isso é mais complicado." Sirius sorriu e bateu no cigarro. "Com namoradas? Não. Com os artilheiros? Claro."

"Com namoradas, de fato," murmurou Marlene. "Carlotta Meloni. Sério mesmo."

"Para defendê-lo, ela é muito bonita."

"Ela é uma vadia."

"Bom, tudo bem. Mas há quem diga o mesmo sobre você, Price."

"Como é que é?" perguntou Marlene sem acreditar.

"Não seja acanhada," disse ele. "Eu joguei dez dedos com você."

"Ah, seu idiota." Marlene deu um tapinha no ombro dele e Sirius riu novamente. "Acredite... sou amiga de Mary Macdonald. É preciso bastante para eu chamar alguém de vadia. É claro que não significaria nada, se ela não fosse tão mesquinha, mas Carlotta Meloni preenche todos os requisitos. E você também, por acaso."

"Ei!"

"Não seja acanhado," disse Marlene. "Se bem me lembro, você perdeu aquele jogo dos dez dedos."

"Idiota." Mas ele não estava terrivelmente ofendido. "Mesmo assim, Meloni à parte, quando se trata da equipe, o julgamento de James é confiável. Já deu vários tiros?"

Marlene assentiu. "E fiz vários lançamentos." Ela ajustou a voz para a melhor imitação de James: "Aprume os dedos, Price! Você está passando a goles, não a punindo por xingar sua mãe."

Sirius riu. "Ei, por que não lança um pouco mais devagar para que os espectadores possam pegar suas vassouras e interceptar a jogada?"

"O pior são os agachamentos nas paredes."

"Ah, Merlin. Esqueci disso."

"Eu acho que Potter imagina que ficaremos de pé nas vassouras todo jogo! Estive em todos os jogos disputados nesta escola, e, em sete anos, a única pessoa que vi fazer isso foi ele, e apenas uma vez!"

"Ele é fanático."

"É lunático."

"Mas brilhante."

"Sim."

Sirius ficou quieto.

"Sente falta?" perguntou Marlene, observando-o segurar o cigarro.

"Ah, sim." Sirius deu de ombros. "Eu não voo desde..." Ele mascarou sem sucesso a emoção dessa frase com outro trago. "...Desde que fui expulso do time. Uma pena."

"Por você ser muito brilhante?" brincou Marlene.

"Rá. Não. Meu tio... antes de morrer... ele me deu uma Nimbus 1500. Vassoura fantástica."

"Entendo."

"Sim." Sirius sorriu novamente, mas desta vez a expressão não tinha humor. "Eu acho que Regulus reclamou à minha mãe... Regulus, meu irmão. Ouvi dizer que ele tem uma Nimbus 1500 agora. Sabe, aí será quando realmente sentirei inveja de vocês... quando jogarem contra a Sonserina."

"Então, por que não a usa?" perguntou Marlene. "A Nimbus, quero dizer. Não tem que jogar quadribol para voar. E Potter estava esperando que ajudasse nos treinos... mas você não apareceu."

"Não estava no clima."

"Ah." Ela não insistiu no assunto.

"Eu falei com Shack," recomeçou Sirius. "Sobre este negócio de Clancy Goshawk."

"E?"

"Ela vai contar a Mary amanhã."

"Sobre Charlie e Shelley?"

"Sim."

"Ela não pode fazer isso," disse Marlene em um tom sério. "Está tudo errado. Metade da escola vai saber antes mesmo de Clancy ouvir..."

"Rápido e eficaz," disse Sirius, encolhendo os ombros. "Honestamente, é mais doloroso do que fazer com que ela o pegue no flagra?"

"Eu não sei, mas não está certo."

"Não há um jeito certo de fazer isso, Price," observou o Maroto. "Se for para agir certo, podemos muito bem calar a boca e cuidar das nossas próprias vidas, não é?"

"Sim, mas... ah, não consigo explicar."

"Tente?"

"É... bem, é delicado. É... ah, você está rindo de mim."

"Não estou não."

"Sim, está."

"Não, eu só..." Sirius sorriu. "Eu tive um pensamento."

"Que pensamento? Sobre Clancy?"

"Clancy? Não, não sobre isso. Sobre você."

Perplexa: "Sobre mim?"

Merlin, mas ela era linda.

"Você tem certeza?" perguntou Marlene pela décima quinta vez.

Sirius sentou-se na cama e assentiu. "Acho que você poderia usá-la, não é?"

"Sim, mas... eu não quero te incomodar."

"Nem um pouco. Sempre fico feliz em ajudar um amigo."

"Mesmo?"

"Claro."

"Mas eu não... eu não poderia..."

"Relaxe, Price. Você pode, e você vai."

Ela já sabia que ele a vencera, mas era educado protestar um pouco mais. "Mas é importante para você, e eu não poderia simplesmente..."

"Marlene, eu já estou cheio dessa conversa. Você vai usá-la e vai gostar. Só confie em mim, está bem?"

Marlene pegou a Nimbus 1500, e até mesmo seu conhecimento relativamente limitado sobre vassouras era suficiente para informá-la de que esta superaria umas cem vezes a Cleansweep sem graça da escola.

"Vou trazê-la de volta logo depois da partida amanhã," assegurou ela, principalmente por não conseguir pensar em mais nada para dizer.

"Não, não se preocupe com isso." Sirius se deitou, as mãos cruzadas atrás da cabeça. "Fique com ela."

"Quê?"

"Bem, não para sempre," corrigiu ele preguiçosamente. "Mas pra temporada. Para os jogos, treinos e tudo mais. Pode muito bem ficar com ela; só vai juntar poeira aqui."

"Mas e se você quiser usá-la?"

"Não vou querer."

"Mas e se mudar de ideia?"

"Não vou mudar."

"Mas e se mudar?"

"Bem, então vou buscá-la, não é?" disse Sirius, impaciente. "Honestamente, Price, você precisa aprender a aceitar um favor."

Marlene franziu a testa para a vassoura, mas ela não parecia querer franzir, pois logo não pôde deixar de sorrir. "Obrigada," disse a Sirius. Ele sorriu.

"Por nada."

"Eu vou cuidar bem dela."

"Eu sei que vai."

Ela se arrastou para a porta, ainda considerando a vassoura como algo estranho. No entanto, fez uma pausa antes de chegar à porta da escada. "Por que está me emprestando?"

"Eu não sei," admitiu Sirius. "Você parecia precisar dela." Ele encolheu os ombros. "Ou talvez eu esteja superando meus mínimos instintos, e não mais esperando que a Grifinória seja incapaz de vencer uma partida sem mim."

Marlene bufou. "Você é péssimo."

"Eu sei, eu sei."

(Sábado de manhã)

Marlene não tomou café da manhã no dia seguinte. Ela olhou para a comida nos pratos – a comida que os outros, inclusive e especialmente Donna, consumiam tão ansiosamente – e se sentiu mal. E assim manteve a boca fechada, exceto por alguns goles de água, para não vomitar por toda a mesa do café da manhã.

"Escute," dizia Donna, despejando instruções adicionais (ou reiterando outras) para Marlene, no que devia ser algum tipo de tique nervoso, "apenas lembre-se... comece embaixo. Se começar muito alto, é mais fácil para o goleiro bloquear. E não fique observando qualquer perseguição ao pomo, porque metade delas são alarme falso, e o goleiro da Corvinal estará pronto para isso. E..."

"Donna, por favor, cale a boca," implorou Marlene. "Eu sei que está tentando ajudar, mas está me deixando nervosa."

"Eu não estou tentando ajudar," protestou Donna. "Acho relaxante te dizer o que fazer. Apresse-se quando estiver recuando para a defesa, porque..."

O café da manhã terminou mais cedo para as equipes do que para os outros, já que os capitães geralmente exigiam que seus companheiros chegassem ao campo bem antes do jogo. Potter dissera para chegarem ao campo às nove e meia, e, assim, alguns minutos antes, Donna e Marlene disseram "adeus" às outras duas e foram para o dormitório recolher o resto de suas coisas.

Apesar de suas táticas de relaxamento, Donna parecia bastante calma. Ela gritou com um primeiranista que impediu seu caminho, mas não com mais raiva do que o totalmente usual e esperado, e não vociferou para um grupo de lufanos que as forçou a fazer uma pausa no último degrau da escadaria de mármore enquanto desciam, assim, a outra supôs que seu humor estava bom devido ao desafio que se aproximava. Marlene ainda se sentia enjoada.

Então, enquanto atravessavam o movimentado Hall de Entrada, seus olhos se voltaram para uma cena que só piorou as coisas.

Clancy Goshawk, adornada com as cores de sua casa, conversava com Charlie Plex: ela tinha um sorriso radiante no rosto, o cabelo castanho dourado cintilava à luz do sol que entrava pelas portas abertas, e havia um rubor em seu rosto devido ao ar matutino e uma luz em seus olhos, aparentemente por tudo que Charlie lhe dizia.

Marlene não sabia mais o que era aquilo, aquela sensação: culpa, nostalgia ou apenas nervosismo, mas ela se sentia péssima em saber que em poucas horas – depois da partida – Donna contaria a Mary sobre Charlie e Shelley, e então Mary estaria espalhando isso para todo mundo, e aí Clancy – a pobre Clancy saberia.

Por um breve momento – o tempo que ela levou para dar três ou quatro passos pelo saguão –, Marlene pensou ter entendido por que Prudence não gostaria de saber sobre a traição de um namorado. Talvez fosse apenas mais simples.

E, então, ela pensou melhor.

Clancy beijou Charlie na bochecha, e ele entrou no Salão Principal, enquanto ela seguia para os portões do castelo. Donna, enquanto isso, já estava vários passos à frente da sua companheira de equipe, e Marlene gritou para que a amiga seguisse sem ela. Não sabia se Donna a ouvira, mas ela prosseguiu mesmo assim. E Marlene se aproximou da outra bruxa.

"Clancy," disse ela.

Clancy respondeu ao chamado com um sorriso educado, afastando-se de seu grupo de amigos que se dirigia às portas.

"Olá, Marlene," disse ela.

"Olá," cumprimentou Marlene, distraída. "Preciso dar uma palavrinha com você."

"Ah. Tudo bem..." Perplexa como estava, Clancy mesmo assim seguiu a grifinória até um canto mais isolado do Hall de Entrada, fora do caminho dos estudantes que se dirigiam ao café da manhã. Marlene respirou fundo e depois começou.

"Eu sei que não me conhece muito bem," disse ela. "E não vai gostar do que tenho a te dizer, mas você parece ser uma garota legal, e em meio a toda intriga, planejamento e trama, me parece que essa é a única maneira de... bem, não é o único caminho... mas é o melhor caminho."

Clancy olhou para ela, provavelmente questionando a saúde mental da grifinória. "Marlene, você...?"

"Eu costumava namorar Miles Stimpson," interrompeu Marlene. "Ele não era legal. Não gostava da maioria das coisas que eu gosto, mas ele... ele tinha um sorriso encantador. Nós tínhamos muita história, e quando estávamos a sós, ele fazia eu me sentir muito, muito especial. Miles foi meu primeiro namorado, meu primeiro beijo e meu primeiro tudo, e mesmo que meus amigos pensassem que eu era louca, eu estava apaixonada por ele, e sabia que com seu jeito imaturo e pouco comunicativo, ele também me amava. Mas, em algum momento, eu parei de amá-lo e comecei a amar outra pessoa, mesmo que não soubesse disso."

Clancy apenas a encarava, como se a outra tivesse perdido a cabeça.

"E, então, ele beijou Carlotta Meloni. E mesmo que eu não o amasse como antes naquela época, e mesmo sabendo que ele era um idiota por vários motivos... apesar disso, partiu meu coração quando descobri. Eu me senti tão, tão estúpida. E não podia falar com meus amigos sobre isso, porque era... era como se eles soubessem. Como se eu fosse a última pessoa no mundo a descobrir. E se ele tivesse simplesmente me contado... ou se Carlotta tivesse me dito, ou se algum dos meus amigos tivesse sido sincero... eles só me diziam que tudo ficaria bem, que não era minha culpa... e eles estavam certos, mas nenhum deles estava dizendo o que eu... o que eu instintivamente sabia..." Marlene respirou fundo. "Que Miles beijou Carlotta porque não se importava comigo."

Houve um momento de silêncio. Clancy continuou a simplesmente encarar, mas Marlene pensou que talvez ela tivesse começado a entender. Então, ela piscou algumas vezes, como se tivesse saído de um transe, e disse: "Marlene, você está se sentindo bem?"

"Clancy," disse Marlene, falando com determinação. "Eu passei um tempo tentando descobrir a melhor maneira de colocar isso... a maneira mais gentil... menos complicada. Eu até considerei contar a Mary e deixar que você descobrisse quando se espalhasse por toda a escola. É horrível, eu sei, mas... não sei, pareceu uma boa ideia na época. Mas não um jeito legal para isso, e estive pensando nisso, tentando me colocar no seu lugar, mas a verdade é que eu estive no seu lugar, e a única coisa que eu realmente queria era que alguém fosse honesto comigo."

"Marlene..."

"Clancy, Charlie está ficando com outra pessoa."

Clancy congelou. Ela resistira a ouvir aquelas palavras, Marlene notou, mas agora que tinham sido ditas e não podiam deixar de ser ouvidas, Clancy congelou, chocada. Mas, eventualmente, ela começou a derreter novamente. "Como sabe disso?" perguntou ela.

"Me disseram," disse Marlene. "Mas foi... foi confirmado. Eu não viria até você se não soubesse com certeza, Clancy. E não tenho motivos para mentir para você."

A emoção... a emoção humana começou a penetrar. "Q-quem?" coaxou Clancy após alguns segundos.

"Isso..." Aqui Marlene hesitou. Shelley era desprezível em quase todos os sentidos, e ainda assim... "não cabe a mim dizer." A multidão no saguão de entrada foi diminuindo enquanto as pessoas saíam para o ar livre, e entre elas estava outro dos companheiros de equipe de Marlene, Damacus Weasley.

"Ei, Price, é melhor se apressar!" chamou ele ao passar. "Potter ficará furioso se você se atrasar!"

"Eu estou indo!" gritou Marlene por cima do ombro. "Clancy, eu sinto muito."

A corvina assentiu rigidamente. "Acho que preciso me sentar," disse ela.

"Certo." Marlene seguiu-a até a escadaria de mármore e as duas se sentaram no segundo degrau. "Escute, eu provavelmente estraguei tudo..."

"Não... não, eu só..." A voz de Clancy estava estranha... intrigada, como se tentasse resolver um problema difícil de matemática. "Eu só... isso é..." Ela olhou para Marlene: "Quem mais sabe?"

"Só eu... e dois dos meus amigos, mas nenhum de nós vai contar a ninguém. Eu juro."

Clancy assentiu novamente; o lábio dela começou a tremer, como se estivesse prestes a chorar, mas ela não chorou... ainda não. Não ali, diante de uma quase estranha, bem como de todo resto da escola. Isso, supôs Marlene, não era seu estilo. "E você n-não disse a Mary Macdonald, não é?"

Marlene sorriu, até perceber que isso provavelmente era insensível. "Bem, por mais que eu a ame, se Mary soubesse de uma coisa dessas, a escola saberia em cinco minutos."

"Verdade." Clancy engoliu em seco. "Eu... eu vou subir. Preciso... preciso pensar. Sim, é isso. Eu preciso pensar, e então preciso falar com Charlie."

"Tu... tudo bem."

Clancy, muito pálida agora, ficou de pé. "Obrigada por não dizer nada a mais ninguém."

"Ah, claro."

"Sim. Bem..." Clancy subiu o primeiro degrau, embora Marlene nem tivesse percebido que a conversa terminara até que ela o fizesse. "Só refletindo," Clancy murmurava para si, e então fez uma pausa no segundo degrau: "Você tem certeza absoluta, Marlene?"

Ela desejou não ter: "Sim. Eu realmente sinto muito, Clancy."

"Ah. O.k." Rapidamente: "O-obrigada."

De costas e de cabeça erguida, Clancy subiu a escada e Marlene a observou. Ela percebeu, enquanto o fazia, que tinha sido completamente bobo comparar Clancy Goshawk com Prudence Daly, com ela mesma, com Donna ou mesmo com Cassidy Gamp. A reação de Prudence à equivocada informação de que seu namorado poderia estar vendo outra pessoa não era absolutamente nada em relação a de Clancy: na verdade, a reação de Clancy tinha uma (estranha) classificação própria.

"Ei, Price!" Desta vez era Adam a chamando enquanto saía correndo do Salão Principal. "Vamos... a gente vai se atrasar!"

Marlene olhou para a frente, segurando a ponta da Nimbus com tanta força que os nós dos dedos ficaram vermelhos, depois brancos. O campo à sua frente parecia estar se movendo, com os alunos parecendo formigas rastejando pelas arquibancadas, em sua maioria vestindo roupas azuis ou escarlate em apoio a uma das duas equipes.

Ah, ela definitivamente passaria mal.

"Giradas Sóbrias," disse uma voz atrás dela, e a loira se assustou, virando-se para ver James Potter. Ele esboçava um sorriso e ajustava a alça de couro marrom de seus óculos, que descansava entre os cabelos negros no topo de sua cabeça.

"Quê?" indagou Marlene.

"Eu gosto de chamar de Giradas Sóbrias," disse James. "Essa sensação que está sentindo agora. Tonta, enjoada... com medo de mexer a cabeça e vomitar todo o chão do vestiário. Como quando se bebe muito, só que você está sóbria."

"É isso mesmo," respondeu Marlene, engolindo em seco. Ela olhou para o portão e fixou o olhar nas arquibancadas da Lufa-Lufa bem diante deles. "Você sente isso?"

"Não, não mais," respondeu James. "Você supera. Não acho que seja fisicamente possível se sentir tão nervoso toda vez."

"Quer apostar?" perguntou Marlene, trêmula, e o capitão riu.

"Você vai ficar bem, Marlene." Foi engraçado, porque esta devia ser a primeira vez desde que a temporada de quadribol começou que James a chamou por seu primeiro nome.

"É o que todo mundo diz," falou ela. "Então, suponho que se têm fé em mim, eu seria burra em não confiar em vocês."

"Fé?" repetiu James. "Não é ."

Marlene olhou para ele novamente. "Não?"

"Nah. Fé é quando você acredita em algo que não sabe. Eu sei."

"Como poderia?"

James sorriu. "Intuição."

"Bem, como vou saber se isso é bom?" resmungou Marlene.

"Fácil." James jogou a vassoura por cima do ombro casualmente, olhando para o céu cinza escuro lá fora. "Tenha um pouco de fé, isso é tudo. Merlin, vai chover."

"Shacklebolt está com a goles," anunciou a voz de Liam Lyle, saltando ao redor do campo como um dos balaços que os batedores lançavam de um lado para o outro pelos últimos dez minutos. Foi um dos poucos anúncios que os jogadores ouviram, e só porque o recente intervalo adiado da Corvinal significou uma pausa temporária na partida. Eles tinham acabado de recomeçar. Marlene decolou mais uma vez, voando para auxiliar Donna, um pouco mais abaixo e mais atrás dela, conforme exigido pela jogada que estavam executando.

Ela aumentou a velocidade e a voz de Lyle desapareceu. Apenas o vento e o ritmo do jogo atingiam seus ouvidos. A multidão ficou em silêncio... não, ela desapareceu completamente. Tudo desapareceu com a velocidade que estava seguindo. Tudo se estabilizou em um borrão constante, exceto pelos demais jogadores, as bolas, as vassouras, os aros e o vento.

Tendo sobrevoado metade do campo – ela não viu, apenas sentiu (intuição, dissera James), Marlene se inclinou para frente em sua vassoura, ganhando mais velocidade até passar por Donna – inclinar, dobrar, subir. Ela sentiu a goles vindo em sua direção na jogada ensaiada: estava em suas mãos antes de se virar para pegá-la. E, então, a parte complicada...

Ela não teve tempo de segurar a goles, que comprimiu debaixo do braço, e mesmo assim não considerou a possibilidade de deixar escorregar, pois estava desviando de um dos artilheiros da Corvinal enquanto sua vassoura disparada pelo campo, uma dividida diagonal de um lado a outro do campo. James veio correndo para encontrá-la, e ela aguardou só por um instante, enquanto se virava para fugir de um balaço que pareceu sair do nada. Isso a atrasou, mas James era um especialista. Seu ritmo encontrou o dela. Eles passaram um pelo outro, a goles foi passada, sem dificuldade, entre eles, e então James estava de cara com o gol (diante de Miles).

Foi lindo. A goles disparou das mãos de James como uma bala de uma arma (um feitiço de uma varinha). Nenhum goleiro tinha chance com um arremesso daquele.

"Grifinória marcou!" cantou, gritou ou disse Liam Lyle, e a plateia reapareceu brevemente enquanto os encorajados artilheiros e batedores grifinórios recuavam ligeiramente, preparando-se para a defesa. Marlene viu o apanhador deles, Ricki Nivens, e só então lembrou que ele estava no jogo.

"Corvinal tem a posse," declarou Liam Lyle. "Fawcett leva a goles..."

"Noventa a quarenta para a Grifinória, aos quarenta e cinco minutos," disse o eco de Lyle. "A nova artilheira da Corvinal, Brenda Maddock, marcou um belo pênalti depois da falta de Shacklebolt... Potter não parece satisfeito, mas se ele continuar assim, estará no caminho certo para um recorde pessoal. São seis para ele, três para Shacklebolt... nada demais em termos de pontuação para a nova artilheira grifinória, Price, mas ela deu assistência em seis dos gols, e está lidando com os balaços muito bem. Price com a goles agora... outro bom desvio do balaço de Eavesworth; ela está na metade do campo agora, passou por Potter... mas Potter está em uma batalha com Connor Plex... mas não... ele passa por Plex, passa a goles para Shack... não, ele não passa; não passa para Shacklebolt. Ele ainda deve estar irritado com ela. Ah, aí está o passe. De Potter para Shacklebolt. Ela tem companhia dos dois balaços... Ela se esquiva e... ai. Ei, isso deve doer um pouco. Bem nas costas; Shacklebolt está machucada, dá pra ver, mas ela segura a goles e... passa para Marlene Price. Ou talvez tenha soltado, só Merlin sabe, mas foi uma excelente captura de Price... Price passa para Potter... pelo amor de Agrippa, essa equipe e seus trava-línguas... Potter parece seguir para o... não, o batedor Chaudry e os balaços são um muro; Potter devolve para Price... o arremesso é dela caso queira... Price arremessa e... não, Stimpson intercepta. Boa defesa do goleiro da Corvinal Miles Stimpson, e ele passa para Maddock... Maddock para Fawcett..."

Adam defendeu o próximo lançamento com facilidade, e James pediu um tempo para verificar as costas de Donna.

"...se tivéssemos um batedor que pudesse defender uma maldita..." ela quase uivou quando pousou no gramado.

"Não culpe a gente, Shack!" defendeu-se Damacus Weasley, um dos batedores. "Eavesworth é o melhor batedor da..."

"Ei, bem, é seu trabalho mantê-lo longe de mim, ruivo!"

"Calem a boca, vocês dois," disse James, enquanto também aterrissava e começava a apalpar as costas da garota furiosa. "Diga se isso dói..."

"Claro que dói e muito... fui atingida por um balaço!"

"Shack."

"Está tudo bem. Não tem nada quebrado. Não graças a Weasley e Mitchum!"

"Você não está vigiando seu lado direito, Shack," interrompeu Adam, enquanto ajustava as luvas. "Fawcett começou a liderar. Ela estará interceptando logo e..."

Donna afastou as mãos de Potter com força e zombou, virando-se para encarar Adam. "E você, Senhor dos Aros! Maddock e aquele pênalti...!"

"Ela não teria cobrado um pênalti se você não tivesse praticamente a derrubado do ar!" gritou Adam de volta.

"Bem, eu não teria acertado Maddock se o balaço de Weasley não estivesse a uma milha de distância!"

"Isso não foi culpa minha! Eavesworth estava marcando!"

"Calem a boca vocês todos!" gritou James novamente, enquanto Madame Hooch dava o aviso de quinze segundos. Todos montaram suas vassouras novamente. "Shack, vigie seu lado direito, e me diga se precisa de um intervalo para as suas costas. Estou falando sério; pediremos a Hooch para dar uma olhada. McKinnon, você é lento em seus mergulhos à esquerda... eu sei que defendeu aquele último, mas estava atrasado. Mitchum, encontre um maldito balaço de vez em quando, o.k.? Eavesworth está te destruindo. E, Price, fique mais em baixo em suas jogadas. Você está indo muito alto, e é mais fácil para Stimpson defender. Fui claro? Bom. Vamos."

Ele decolou. Os outros seis seguiram.

O vento frio deslizou pelo cabelo dela novamente quando ganhou altitude, e Marlene se perguntou se todos os intervalos eram sempre assim inflamados.

(Quase todos eram).

"Stimpson nem precisou mergulhar nessa," disse Liam Lyle – Marlene desejou não ter ouvido aquele comentário em particular... "Price errou, Corvinal ganhou a posse de bola e o placar está em cento e vinte para os Leões e cem para o bom azul e bronze... passe para Maddock... mas Potter intercepta; eles estão pressionando duramente a Corvinal. Eavesworth com um balaço... Potter toma a pancada. Outra defesa de Stimpson, e ele passa a goles para Plex... Shacklebolt e Price voltam à defesa."

Liam Lyle provavelmente não tinha o temperamento adequado para narrar quadribol. Ele gostava de jogos rápidos, e após uma hora e trinta e cinco minutos de partida ele já parecia cansado. Isso teve um efeito negativo sobre a multidão, cujo entusiasmo diminuiu ligeiramente, sem dúvida em parte devido à ameaça muito real de chuva nos céus. Mas Marlene não estava menos tensa. Ela havia sido avisada: de acordo com James, as partidas contra a Corvinal eram sempre longas.

Connor Plex avançou para os aros da Grifinória com a goles segura debaixo do braço; Marlene e Donna correram paralelas a ele por um quarto do campo, até que a morena acelerou e tentou bloqueá-lo; ele se esquivou dela. Marlene acelerou em seguida, puxando para frente de Plex, de modo que ele teve que se desviar loucamente para não colidir com ela. Um dos balaços – lançado por Mitchum – disparou em direção ao artilheiro naquele momento, e embora Plex novamente o tenha evitado, ele foi obrigado a segurar sua Cleansweep com as duas mãos, e, no processo, a goles escapou de seu alcance.

Marlene já estava abaixo dele, e pegou a goles que caía; ela atravessou o campo com Donna logo atrás e Potter bem à frente.

"Price tem a goles de novo," observou Lyle astutamente. "Ela está atravessando o campo... passou para Potter... de volta para Price... Price evita o balaço de Eavesworth... ela está procurando para quem jogar, eu acho, mas os artilheiros da Corvinal estão voando bem perto... ela se esquiva de um segundo balaço de Eavesworth, e está ganhando distância dos outros artilheiros, de modo que se puder usar melhor o braço dela aqui, Price pode ter chance de... bem, definitivamente não é a isso que estou me referindo quando eu digo 'melhor,' Price. Stimpson pega a goles, mas francamente não sei por que ele se dignou a fazer uma defesa daquele arremesso... Stimpson passa para Fawcett..."

Marlene segurou o cabo da Nimbus com muito mais força e se recompôs para ajudar a recuperar a goles, mas, quando o fez, Potter começou a voar paralelo a ela. "Se não consegue arremessar, passe a goles!" gritou ele para ela, antes de seguir em frente, mas Marlene sabia exatamente o que ele queria dizer: ela perdera a jogada - em todas elas, tivera a jogada: simplesmente não tinha a destreza.

Destreza, que agora estava enlouquecendo...

Ah, Deus, ela estava falhando. Estava falhando, estava falhando, estava falhando. Na frente de toda a escola, com Liam Lyle anunciando em um megafone mágico, estava falhando e tendo o relato inteiro transmitido para quase todo mundo que conhecia ouvir. Miles estava certo... não podia fazer isso. E, ah, Merlin, era ainda pior do que ela temia.

Todos estavam olhando para ela! Todos sabiam que ela não podia fazer isso! Decepcionara James, Sirius, Lily, Donna, a equipe e Adam, que sempre estivera tão convencido de que...

Como enfrentaria alguém nas aulas da segunda-feira?

Como enfrentaria alguém novamente?

Como iria...?

O apito de Madame Hooch interrompeu a autoindagação de Marlene. Foi um momento antes de perceber o motivo... a Corvinal marcara novamente. Seus torcedores irromperam em furiosos aplausos e Marlene percebeu que precisava se concentrar. Ela correu de volta até Adam, mas ele já entregara a goles a James, e Marlene e Donna foram obrigadas a dar a volta e retornar para o final do capo, do lado do oponente. James enfrentava problemas próximo ao meio do campo: Connor Plex simplesmente começara a segui-lo, independentemente da posse de bola, mas lá os dois balaços e Fawcett se juntaram a ele, e o capitão quase caiu da vassoura ao evitar a colisão arquitetada. Mas o Maroto mergulhou abaixo de todos eles, e lançou a goles para Marlene bem quando um balaço entrou em contato com a extremidade de sua vassoura. Isso o fez sair rodando para fora do caminho, e houve um coletivo "Ooh" da multidão.

Mas ele se recuperou depressa, com bastante tempo para ver Marlene e Donna avançando novamente até Miles Stimpson.

"Shacklebolt está retrocedendo nessa," explicou Lyle. "Movimento incomum para ela... talvez suas costas ainda doam um pouco. Price se aproximou dos aros da Corvinal..."

Marlene tentou imaginar os três aros da Corvinal – esquerda, centro, direita – como havia sido durante os treinos: com Adam os protegendo, em vez de Miles. Sem pressão, sem falhas passadas, nada, exceto sua tarefa muito simples de lançar a maldita goles através deles.

Uma parede sedutora de nuvens pairava do outro lado daquelas argolas, e Marlene tentou olhar para aquela parede depois de Miles. Miles não estava lá. Miles nunca esteve lá. Eram apenas os aros.

Esquerda, centro, direita.

Esquerda, centro, direita.

Marlene levantou o braço com a goles para arremessar de novo...

E, então, de repente, a Nimbus sacudiu. A loira soltou a goles, e não percebeu por que até que, mais uma vez, o apito de Hooch soou, desta vez muito mais cedo.

"Falta de Plex," anunciou Lyle; "aparentemente, ele nunca aprendeu que não se pode agarrar a cauda da vassoura de outro jogador, e... sim, Hooch está concedendo o pênalti a Marlene... o pobre Maddock está dando um sermão em Plex do outro lado do campo..."

A adrenalina e o foco desapareceram no momento em que a goles deixou as mãos de Marlene. Ela voltou a conduzir a vassoura para encarar os aros da Corvinal, e eles pareciam mais altos e mais estreitos do que antes. Além disso, Miles estava de volta.

Esquerda, centro, direita.

Esquerda, centro, direita.

Esquerda, centro, direita.

Mas ele era apenas um garoto. Apenas um garoto.

Ele a encarava. Pela primeira vez desde que a partida começou, Marlene fez contato visual com o goleiro da Corvinal. Pairando lá, ela finalmente encontrou os olhos de Miles. Potter voou até ela, murmurando algumas instruções que a garota não entendeu, e então se foi, e ela estava sozinha novamente. A goles estava em suas mãos um momento depois.

Não era nada demais, sério. No grande esquema das coisas – até mesmo no grande esquema deste jogo – não era nada demais. Nada dependia do sucesso desse pênalti, embora os segundos se arrastassem como minutos, como se este fosse o momento mais importante da partida. Mas não era – nem de perto. Assim que um dos apanhadores visse o pomo, tudo isso acabaria... nada realmente muito importante dependia dessa cobrança de pênalti...

Exceto, talvez, uma coisa.

E, ah, Deus, ele estava certo.

Ela não podia fazer isso. Não podia, não podia, não podia, não podia...

Ia sufocar. Bem ali, diante de todos, ia sufocar.

Ela quase sufocou com o ar que inundou seus pulmões enquanto respirava fundo e colocava a goles debaixo do braço. A loira afastou a vassoura dos aros da Corvinal para se reposicionar. Seus companheiros e oponentes agora se reuniam em suas posições – por um momento, os outros artilheiros, batedores e apanhadores não estavam olhando para ela. Mas ele estava.

Os olhos escuros de Miles Stimpson estavam fixos nela, sem piscar.

Marlene encontrou seu espaço. Ela se virou para encarar o gol da Corvinal novamente.

Ele estava debruçado na vassoura e sorria. Ele sabia. Ele sabia que ela iria sufocar.

Patético.

Não era nada de mais, sério. Não era nenhum momento decisivo... exceto por um aspecto.

Marlene engoliu em seco. A garota segurou a goles em suas mãos, rolando-a entre as palmas, e, por sua vez, olhou para Miles – olhou de volta em seus olhos, para seu sorriso arrogante, para a inclinação consciente de seu queixo...

Dez galeões que você não marca um gol, dissera ele. E até agora ele estava certo.

A anos-luz de distância, a escola inteira a observava agora. Eles murmuravam sem sentido, sem coerência com o rugido que coletivamente omitiam. A voz ampliada de Liam Lyle falava grego. Ou poderia muito bem ter sido.

Miles a encarou.

Marlene fechou os olhos.

Comece embaixo, disse outra voz, muito mais clara.

Suave e quente era a goles em suas mãos.

Você sempre foi.

Comece embaixo.

Vai ficar tudo bem.

Intuição.

Então, ocorreu-lhe que o que não importava era, na verdade, o resto da partida. Um dos apanhadores pegaria o pomo; tudo terminaria. Em duas semanas, todo mundo teria esquecido. Mas isso era outra coisa. Ali, naquele instante, perdida como estava entre as nuvens, o vento e o ruído, a única – a única coisa que importava – era aquela jogada.

E... isso, um último pensamento fugaz correndo em seu cérebro por razões desconhecidas: logo ia chover.

Marlene abriu os olhos novamente, levantou o braço e se preparou para jogar, sem tirar os olhos de Miles. Então, de repente, seu braço se encolheu, como se fosse jogar a goles. Miles mergulhou e, mesmo ao fazê-lo, percebeu seu erro.

Marlene sorriu. Ela jogou o braço para trás e arremessou a goles.

Ela trouxera seu guarda-chuva do castelo, mas permaneceu em sua mão mesmo quando saiu do abrigo das arquibancadas, e grandes gotas de chuva caíram, tamborilando contra a tela de sua bolsa e encharcando seus cabelos. O campo – no momento vazio – parecia inteiramente diferente agora que a partida terminara, mas Marlene achava que jamais conseguiria vê-lo como via antes daquela tarde. A lembrança de todo aquele barulho, pânico e empolgação ficou presa nas névoas da chuva (aquela neblina estivera ali durante o jogo?) e nas arquibancadas vazias. E estava tudo bem.

"Você foi brilhante hoje," disse Adam. Ele veio do vestiário e ficou ao lado dela, segurando o suéter em torno dos cotovelos e estremecendo na chuva.

Marlene assentiu. "Começo difícil, mas eu fui resgatada." Ela olhou para ele. "Você não foi tão ruim assim, McKinnon."

"Poderia ter impedido alguns insetos que passaram por aqui," disse Adam. "Mas nós vencemos, então Potter provavelmente não vai me bater muito no próximo treino."

"Otimismo."

"Ah, sim."

Marlene riu.

"Então, o que achou?" perguntou Adam, olhando para ela. "O que achou do jogo?"

"Bem, nós vencemos, não é?"

"Sim, mas não foi rápido. E você sempre pode dizer se gosta de quadribol ou se ama baseado em como se sente em relação a esses jogos longos e lentos, com pontuações muito altas e muitas faltas."

"E você?" indagou Marlene.

"Ah, eu amo."

"Entendo... você ama, e Potter respira isso."

"Sim, exatamente."

"Entendo."

Marlene voltou os olhos para o campo novamente. Adam também, e ambos estavam ficando bastante encharcados da chuva, mas nenhum deles proferiu uma palavra por mais de um minuto. "Estive pensando em ser curandeira novamente," disse Marlene após certo tempo. Adam se virou para ela, confuso. Mas ele não fez nenhuma pergunta; apenas assentiu.

"Pode ser divertido."

"Sim," disse ela. "Pode ser." Ela ergueu o guarda-chuva e o abriu, cobrindo os dois. "Venha comigo, então. Deve ter uma festa na sala comunal, e não podemos arriscar sua saúde, não é?"

"Não, acho que não," disse Adam, e eles caminharam juntos de volta ao castelo.

N/T: Olá, pessoal. Estou aproveitando a quarentena para atualizar minhas traduções! A primeira tinha que ser TLAT, obviamente! Aproveitem a leitura, mantenham a calma, fiquem em casa e confiem que isso tudo passará. Que Deus nos abençoe e derrame sua misericórdia sobre nós. Beijão enorme!

Dafny Fontenele: a amizade Sam/Lily é uma preciosidade, adoro! O Plex é sim imundo, mas reflete o caráter de muitos homens que circulam por aí, infelizmente! Espero que você curta esse capítulo que postei hoje e obrigada por comentar! Bjs!