Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 35
A cor de nossas escolhas
Tinha a impressão de ter ficado exausto por tanto tempo... Pelo que parecia a duração de uma vida inteira e naquele instante era como se pudesse se libertar, como se tivesse chegado ao fim de uma jornada que cobrou mais do que poderia oferecer, pagando um preço alto demais. Estava tão abatido, tão esgotado. Talvez, se aquele silêncio durasse para sempre, ele finalmente pudesse descansar.
Seria errado? Aquele desejo de parar, a tentação de... Desistir? Podia considerar como desistência mesmo sabendo ter lutado tanto? Mas lutado para quê? Por coisas importantes, com certeza, ainda que as recordações lhe escapassem como água entre os dedos, intuía o suficiente para afirmar que nunca lutava por causas supérfluas.
E se ainda fosse cedo demais? E se o cansaço que minava suas forças fosse um dos maiores obstáculos que precisasse enfrentar? Talvez, ao render-se, estivesse abrindo mão de coisas realmente importantes, coisas às quais deveria abraçar e trazer junto ao corpo, tesouros para guardar no coração. Todavia aquele silêncio absoluto o esmagava com o peso de toda solidão do mundo, exceto pelo pensamento recorrente que martelava sua mente.
Alguém... O ensinou. Alguém lhe mostrou que silêncio e solidão são coisas diferentes.
Foi então que sentiu a presença, algo nítido e intimamente conhecido, mais do que familiar. Chegou de mansinho, trazendo calma e segurança, o envolveu aos poucos, devagar, de modo caloroso e cuidadoso, transbordou emoção no coração de Kiba, presenteando-o com uma irresistível vontade de chorar.
Aquela pessoa era a responsável por mudar sua visão de mundo e ampliou seus horizontes, o fez compreender que a injustiça e o preconceito não se condicionam à apenas uma das castas e lutar contra isso sempre faria parte da vida. Que se tornou o norte indicando um caminho cheio de sonhos, não daqueles infantis, idealizados e inalcançáveis, mas sonhos plausíveis de um futuro a dois, planos a serem conquistados no relacionamento que os unia.
E não parou ali. Uma segunda presença se somou, fraquinha e pequenina, mas firme. Desconhecida, conquanto familiar de um jeito tocante. Também o envolveu e foi tão quentinho, tão acalentador... Uma mensagem impossível de ignorar: não vamos desistir de você.
De fato, silêncio é diferente de solidão e aquelas duas presenças vieram lhe lembrar disso. Ainda que o cansaço fosse grande e houvesse certa sensação de paz, Inuzuka Kiba não podia ficar por ali, ele tinha para onde voltar: para o amor, para continuar o seu legado.
— Perdão...? — A voz de Shino a tirou de seus pensamentos. Ele pareceu tão confuso quanto sua voz transpareceu, fez o coração de Haruno Sakura se comprimir em tristeza.
— Podemos perdê-lo a qualquer instante. — Falou com calma. Também era experiente o bastante para temer que aquele Alpha se descontrolasse. — Sinto muito, Shino. Agora é só uma questão de tempo.
Então Shino compreendeu a insinuação por trás das palavras da médica e ao compreendê-las não se descontrolou, continuou tão racional quanto possível, conquanto tomou uma decisão pela qual pagaria até o fim de seus dias e da qual jamais se arrependeu.
— Está desistindo dele? — Perguntou com a voz um tanto rouca, havia uma ardência desagradável na garganta que dificultava até mesmo respirar.
— Eu nunca desisto de um paciente. — Sakura replicou. — Tento ser realista e dar ao menos uma chance de despedida para vocês.
O rapaz não respondeu, seu lado Alpha continuava inquieto, apreensivo, não aceitaria aqueles sinais como a intuição de que perderia sua Alma Gêmea! Sempre foi racional e prudente, pouco dado a impulsos de momento, até que conheceu aquele garoto, que lhe apresentou uma faceta do mundo então desconhecida ou talvez... Ignorada.
Shino podia dizer que pessoas hiperativas e barulhentas o incomodavam, teve sua cota de baderneiros durante a escola, pessoas que o tratavam como um esquisitão assustador, principalmente por ser um Alpha e deter meios de intimidar e dominar os outros se assim o desejasse. Esse preconceito o obrigou a uma vida de silêncio e solidão, aceitou ambas imposições como companheiras fieis que teria para sempre ao seu lado. Aprendeu a apreciá-las, pois a sociedade o obrigava a tanto, que opção restava a não ser submeter-se e aceitar que seu destino era seguir sozinho?
Exceto que não era. Porque um Ômega bagunçado, arrogante e atrevido invadiu seu caminho sem pedir licença, fez questão de mostrar como era um partidão e como seria vantajoso para Aburame Shino reconhecê-los como as Almas Gêmeas que eram. Trazendo assim toda uma nova realidade para que o Alpha desvendasse, preparando o terreno em que o amor seria plantado e se desenvolveria, amor que dava frutos, legado que seria herdado pelo mundo.
Shino não podia aceitar aquilo: receber uma dádiva tão grande e assisti-la minguar, enfraquecer a ponto de ser incapaz de lutar a boa luta, de ser aquele guerreiro rebelde que abraça causas e as defende dando tudo o que tinha, de melhor e de pior, pois Kiba não fazia nada sem dedicar cem por cento de si mesmo.
Aburame Shino cresceu ao lado da solidão, não a queria de volta em sua vida e não queria que a pessoa que amava enfrentasse a pior batalha sozinho. Ele deu um passo a frente, chegando o mais perto possível do leito, compreendendo, por fim, porque seu lado Alpha estava tão inquieto: manifestava seu desejo de fazer algo! De abraçar aquele Ômega, envolvê-lo e protegê-lo! Trazê-lo de volta de onde quer que Kiba estivesse!
Sem Inuzuka Kiba, Shino era apenas nada, não podia ser um abraço literal, então projetou a própria presença, direcionou-a para o companheiro e o cobriu com toda a calma e ternura que possuía. Leve o tempo que precisar, pensou tentando fluir tal sentimento pelo vínculo, recupere-se no seu ritmo, mas volte pra mim.
Foi o instante em que a energia Alpha resvalou em algo, a presença Ômega fraquinha, tão tênue que temeu ser incapaz de fazer algo. O garoto estava por um fio, caminhando no abismo entre a vida e a morte. Como podia ter certeza disso? Seria a ligação misteriosa e rara entre duas Almas Gêmeas? Duas almas alcunhadas e separadas em algum momento no espaço e no tempo, que só se completam de novo quando o reencontro se estabelece? Unas. Plenas. Perfeitas.
Reencontro que ameaçava ser dolorosamente breve e fugaz.
Compreendeu o terror de ter um elo tão profundo quando aquele: perderia Kiba.
Sim, Sakura tinha razão. Percebia a energia tão amada como algo além de seu alcance, longe demais para que pudesse resgatar de alguma forma, era um Alpha que fracassava na tarefa mais importante e...
A não ser que...
— Por favor, traga nossa filha. — Pediu para Sakura, sem desviar os olhos do rosto de Kiba, temia sequer piscar e perdê-lo.
— Você enlouqueceu? — Sakura soou rude. — A bebê está estável, mas é prematura demais, não vou correr esse risco.
Shino virou-se para ela. Sua decisão era irredutível.
— Traga minha filha. Rápido! — Não foi um pedido, a ordem veio na voz de comando, aquela premissa Alpha que os manteve no topo da cadeia alimentar por séculos, que precisou de muita dedicação e conscientização para deixar de ser usada como algo rotineiro pelos Alphas, que tirava a liberdade de Betas e Ômegas ao privá-los do livre arbítrio.
O rapaz viu a face séria de Haruno Sakura distorcer-se em surpresa e então algo que misturava rancor e decepção. Ela saiu da sala quieta, sem outra alternativa a não ser obedecer e Shino não se permitiu ter arrependimentos. Execrava o uso da força para obter algo, fosse de maneira física ou mental, obrigar alguém a agir contra a própria vontade era abominável e covarde. Todavia o que estava em jogo ali era a vida de Kiba e por ele transporia qualquer limite.
A médica voltou tão rápido que provou como a voz de comando podia ser efetiva. Vinha com outra enfermeira, empurrando uma espécie de incubadora móvel, um maquinário moderno, similar ao do Berçário de Alto Risco, embora menor e alocado sobre um carrinho de quatro rodas. Vinha com o monitor de sinais vitais, suporte para soro, um pequeno galão de oxigênio e tudo o mais para garantir um transporte seguro dos filhotes em observação.
Shino imaginou que deveria existir algo assim, claro, por isso confiou no lado animal e fez o pedido ousado, o Alpha que levava na alma nunca arriscaria a própria filha se não houvesse a certeza de ser a escolha certa. Masako estava deitadinha, toda enroscada em uma das mantas esterilizadas do hospital, os sinais vitais tão estáveis quanto à energia Alpha pequenina. Sim, a jogada era arriscada e se provou ser a certa.
Tão logo a incubadora de transporte aproximou-se o bastante do leito, os três adultos presenciaram aquilo que devia ser considerado um milagre. A essência Alpha da recém-nascida propagou-se de levinho, quase diáfana, juntou-se à do progenitor Alpha e entrelaçou-se, ambas se direcionando ao Ômega para o resgate mais importante que um dia haveriam de realizar, em seguida as três energias se uniram, criando um vínculo de sangue tão poderoso que refletiu no ar da sala, tornando-o um tanto mais denso e sobrecarregado.
Haruno Sakura e a enfermeira presenciaram o poder de duas Almas Gêmeas e o resultado dessa união agindo em conjunto como um farol a mostrar para onde o Ômega deveria voltar e uma ancora puxando-o para solo seguro. Então o monitor preso ao leito apitou uma batida do coração de Kiba e outra logo em seguida, na medida em que ele respondia ao chamado que praticamente o tirava do reino dos mortos.
Um leve suspiro escapou-lhe pelos lábios entreabertos, completo oposto das lágrimas pesadas que deslizaram pelos cantos dos olhos fechados. A essência Ômega aflorou inegável, expandindo-se para além do quarto de UTI, um pouco de cor voltou ao rosto lívido ainda inconsciente, numa cena bonita de observar. Porém, se Shino tivesse plenitude de visão seria incapaz de admirar, impedido pelas próprias lágrimas que transbordavam por trás da proteção dos óculos, seu lado animal por fim se acalmou.
Sakura fez um gesto para a enfermeira, indicando que ela deveria levar a filhotinha de volta à UTI neonatal, em seguida aproximou-se dos monitores digitais, confirmando a melhora significativa nos sinais vitais de Kiba, antes quase inexistentes. Respirou fundo, contendo a sensação de raiva e impotência que a paralisou nas últimas ações, mas nunca esqueceria a sensação de ser subjugada e privada da liberdade de escolha.
— Salvou a vida dele, Shino — Murmurou ciente de que seria ouvida, os olhos fixos nos números do monitor, tentando acalmar o lado Beta, raivoso e assustado pela experiência de submissão. — Isso foi... Não vou prestar queixa contra você, entendo o desespero que sentia, mas vou exigir uma anotação de antecedentes, o que fez não tem perdão.
Shino concordou com um aceno silencioso. Usar a voz de comando era uma das violações mais graveis na Legislação específica para Alphas, por isso poderia pegar até vinte anos de reclusão, caso Haruno Sakura o denunciasse. E, no fim das contas, a anotação de antecedentes tinha um lado cruel, porque o marcaria como um Alpha capaz de usar a proibida voz de comando e impossibilitando que seguisse certas carreiras. Algumas profissões estariam para sempre fora de seu alcance.
Conseguiu salvar a vida de Kiba, ao preço de nunca realizar o sonho de se tornar professor, enfim, enfrentaria as consequências quando elas aparecessem. Naquele momento só queria liberar a emoção, seu amor viveria, assim como a filhinha do casal. Era tudo o que importava.
