Notas iniciais do capítulo

Boa leitura


Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 37
A cor de uma segunda chance

Mal terminou de virar-se para o quarto e o mundo parou. Ou, ao menos, foi essa impressão que Aburame Shino teve ao observar a cama onde seu companheiro estava deitado e deparar-se com arregalados olhos selvagens dominando o rosto trigueiro. O coração do Alpha bateu forte no peito. Kiba havia acordado.

Por instantes Shino experimentou a sensação de ser novamente mirado por aquelas íris tão exóticas, que pareciam vencidas pelo cansaço e não exatamente consciente da situação. Quando conseguiu romper a inércia momentânea, Shino foi até o leito, sem pressa, percebendo-se acompanhado pelo olhar do Ômega.

— Olá. — Disse baixinho, sentando-se na cadeira.

Não houve resposta. Shino não precisava, seu lado Alpha regozijou o reencontro, tornando-se muito mais calmo do que nas derradeiras semanas. O estado de alerta em que se mantinha desapareceu, pela primeira vez desde que se deu a internação, sentiu a segurança plena pelo bem estar do companheiro. Apertou o botão ao lado da cama, chamando a equipe para avisar das novidades.

A enfermeira veio rapidamente atender ao chamado, temendo ser algo ruim. Ficou surpresa por encontrar o paciente acordado, logo voltando para avisar a enfermeira chefe. Em minutos o quarto era tomado por uma equipe multidisciplinar já previamente orientada por Haruno-sensei, e Shino precisou sair do quarto para que realizassem uma série de procedimentos e verificações.

O Alpha foi esperar na recepção do hospital. A noite fria não espantou uns poucos shifters que aguardavam atendimento, como veio a notar naqueles meses: a sala de espera nunca estava completamente vazia.

Aproveitou para avisar família e amigos sobre as ótimas notícias. Deixou claro que apesar de acordar, Kiba ainda não parecia ter ciência das coisas ao redor, então não adiantava muito vir ao hospital tentar vê-lo, ainda era madrugada, não conseguiriam entrar no quarto para visitar.

Tsume passou por uma breve luta interna entre o instinto materno e o bom senso. Sabia que Shino tinha razão, não fazia sentido correr para o hospital para ficar sentada na área de espera, a não ser para fazer companhia ao genro. Logo amanheceria e era garantido que pudesse visitar o filho.

Shino só foi liberado para voltar ao quarto por volta das cinco da manhã, quando todo o procedimento foi finalizado. Logo teriam resultados, pois era prioridade do laboratório. Ele sentou-se ao lado do leito e suspirou.

Seu companheiro estava dormindo. Não naquele coma onde a inconsciência o impedia de ter qualquer contato com o mundo, era como quando Kiba estava saudável. Podia sentir a essência Ômega um tanto mais forte, igual às noites em que dormiam um nos braços do outro, numa época que parecia tão longínqua, antes de aquele pesadelo começar.

A segunda vez que Kiba acordou foi durante a manhã seguinte. Haruno Sakura já estava a par do acontecido, suspendera todos os pacientes da clínica particular naquele dia de modo a estar de prontidão quando o Ômega recuperasse a consciência.

Shino continuava no quarto, tinha pedido gentilmente que Naruto lhe cedesse a manhã, de um jeito que o rapaz não pôde recusar. Sabia que Tsume estava na recepção, junto com Hana, mas o hospital era rígido com o horário de visitas, não iam abrir exceções apesar de tudo. As mulheres teriam que esperar até a tarde para visitar Kiba. Não parecia justo, todavia a sociedade estava longe de ser a ideal.

Notou quando o companheiro mexeu-se de leve, agitando o lençol hospitalar. Houve um bocejo cheio de sono e então os olhos se abriram.

— Olá. — Shino cumprimentou num tom baixo, chamando a atenção do garoto.

Kiba sorriu de leve, ainda não parecia muito capaz de responder, embora já desse claro sinal de consciência. Tentou erguer a mão livre de soro e gemeu dolorido pelo ato, depois de mais de um mês em coma não era tão simples assim voltar a se mover.

— Vá com calma. Não tenha pressa para nada. — Shino seguiu a orientação recebida e apertou o botão ao lado do leito. Sakura queria ser avisada assim que Kiba despertasse.

— Água. — O Ômega pediu num tom de voz rouco, que veio arranhando a garganta. Não sentia fome, mas a sede era incômoda.

O pedido foi atendido. Shino pegou um pouco de água da jarra que era trocada duas vezes ao dia. Então ergueu a cabeceira da cama e ajudou o namorado a beber devagar, dois copos cheios.

— Obrigado. — A gratidão veio pela palavrinha soada mais firme e pelo vínculo que os unia. Recebeu uma emoção forte de volta, que fez Kiba olhar para Shino com mais atenção. A felicidade do Alpha não se manifestava na face indiferente, mas veio tão forte pela ligação entre os dois que deixou Kiba sem reação. Conseguiu ter uma leve imagem de quão grave foi sua situação.

O cansaço continuava, seu corpo estava exaurido, conquanto de um jeito diferente de como sentia ao ser internado. Agora era mais uma canseira familiar, similar às de pós-torneio, quando vencia uma prova de natação ou enfrentava um oponente no tatame. Antes, parecia incapaz de realizar certos movimentos, como se as pernas já não fizessem mais parte do próprio corpo.

— Por nada. — Shino respondeu indo devolver o copo para o pequeno armário, ao regressar para a cadeira, aproveitou para ajeitar o lençol sobre o namorado.

Notou como as mãos de Kiba descansavam sobre o próprio tórax, em uma posição adversa de antes, quando fazia questão de acomodá-las sobre a barriga que se arredondava. Com certeza já se dera conta da ausência, de que não mais carregava a criança, e tal percepção se manifestou em palavras quando o Ômega indagou:

— O que aconteceu...? — Teve um pouco de medo irracional pela resposta. A postura de Shino era tão positiva, captava só coisas boas vindas de sua Alma Gêmea. Poderia alimentar a esperança de um final feliz para eles? Para os três? Ou seria ousado demais? Kiba não se sentia preparado para receber notícias ruins, porém a pergunta abrangente nunca foi respondida.

A porta se abriu e a médica entrou no quarto. Dirigiu um sorriso caloroso para Kiba, depois um breve aceno de cabeça para Shino. Trazia um prontuário na mão e a expressão facial que indicava satisfação.

— Bom dia. Soube que acordou essa madrugada. Tenho aqui o resultado dos exames que fez, e eles são ótimos! Como se sente? Está preparado para uma longa conversa ou prefere se recuperar um pouco mais?

Kiba engoliu em seco e olhou rápido para Shino. O Alpha segurou-lhe a mão, pronto para oferecer qualquer apoio que precisasse. Sentia certo nível de confusão mental, algo similar a quando chegava da escola e tirava uma soneca a tarde. Ao acordar precisava de alguns segundos para se localizar no espaço e no tempo.

Lembrava vagamente de neve, e da exaustão física que o prendeu na cama por dias longos. E mais nada. Mais do que preparado, Kiba precisava saber de tudo.

— Por favor. — Pediu rouco. — Quero saber.

O sorriso da médica aumentou. Pelo que conhecia de seu jovem paciente adivinhou que a resposta seria exatamente aquela. Respirou fundo, preparando-se para o longo relato.

— Masako. — Kiba sussurrou quando ficou a sós com o companheiro. Aproximava-se da hora do almoço, finalmente sentiu um pouco de fome. — Eu disse que era menina!

— Você escolheu esse nome.

— Me é familiar.

Os olhos voltaram-se para a janela, analisando o dia iluminado por um fraco sol. A proximidade de fevereiro tornava as nevascas mais raras, embora o frio fosse a característica constante no clima. Agora sabia de tudo, Sakura não economizou detalhes, não dourou a pílula: contou como o parto foi difícil, como estiveram a um passo de perdê-lo e como o elo familiar lhe deu a estabilidade que precisava. Pôs na mesa a impossibilidade de gerar novos filhos. Teve apenas o cuidado de ocultar a atitude de Aburame Shino ao usar a voz de comando, não era algo que Kiba devesse enfrentar naquele momento, cabia ao próprio Alpha escolher o como e o quando confessar seu crime.

Agora que sabia dos fatos, reinava o alívio. A filhotinha seguia bem, se desenvolvendo como esperado, as chances de sobrevivência aumentavam a cada dia. E Kiba poderia conhecê-la em breve, pois Sakura saiu com a promessa de que voltaria com a filhotinha para que a visse pela primeira vez.

A ansiedade que não era pouca dobrou quando o casal captou a energia pequenina vir pelo corredor. Kiba lançou um olhar na direção de Shino que era puro espanto. Sua gestação foi atípica, isso criou uma ruptura no processo que em casos normais seria contínuo. O garoto podia se lembrar da filhotinha em sua barriga, algo impossível de explicar, de repente, sua consciência pulava para o presente, em que a ausência do bebê era contundente.

E então... A energia que carregava no ventre se aproximava como uma nova presença, uma criatura viva e existente no mundo como algo separado se si. Perdeu meses de gestação, perdeu o parto, mas ganhou uma filha. Formou uma família.

Chorava baixinho quando médica e enfermeira entraram no quarto com a incubadora de transporte, era muita emoção para que pudesse controlar sem extravasar. No dia a dia era um garoto enérgico e cheio de vida, tal intensidade se manifestando em igual medida quando a situação tinha tons adversos.

Com calma e cuidado Sakura colocou a incubadora o mais perto possível do leito, para que Kiba pudesse vê-la bem. Contudo, mais do que ver, o Ômega sentia a essência infante unindo-se a sua, não num conhecimento, mas em uma espécie de reencontro. Bem como lhe foi dito, não era a primeira vez que encontrava aquela criança, ela foi metade da equação que o salvou naquele quarto de UTI. As palavras claras de Sakura ainda ecoavam em sua mente: as essências Alpha de pai e filha ajudaram a estabilizá-lo.

— Considero esse primeiro contato importante, por isso trouxe Masako. Depois disso poderá visitá-la no Berçário de Alto risco assim que estiver melhor. Não é procedimento padrão tirar os filhotes da observação, mas... Seu caso deixou de ser padrão há muito tempo.

Shino captou a tensão por baixo das palavras gentis da médica. Imaginou que Sakura sempre levaria aquela experiência ruim por sua culpa. Lamentava, conquanto não se arrependia.

— Ela é perfeita. Obrigado.

— Estou muito otimista. É uma filhote forte, não posso negar, e nem agir de modo leviano por isso. Essa pequenina só vai sair da UTI quando eu assinar à alta, combinado?

— Sim, claro. — Kiba concordou mais do que depressa. Os olhos que em via de regra brilhavam selvagens, ao admirar a filha refletiam uma serenidade incomum. E amor. Já amava a criaturinha minúscula enroscada no lençol verde, que respirava graças ao tubinho de oxigênio, olhos fechados ignoravam o mundo, ainda que percebessem algo além da própria existência.

— Excelente. Agora se prepare para almoçar, sei que não é fácil acordar e seguir com a vida, um enfermeiro vai te ajudar com a refeição, porque apesar de fazer fisioterapia esse tempo todo, se apropriar do corpo e voltar a ser como antes leva algum tempo. Ah, quase esqueço. Consegui convencer o diretor e abrir um horário especial de vistas pra você. Se eu não fizer isso é bem capaz de Inuzuka-san invadir o quarto ou de chamarem a polícia para aquele seu amigo barulhento.

As revelações descontraídas vieram com a intenção de tranquilizar Kiba, mas só o fizeram chorar mais. Não apenas recuperou a consciência, mas conheceu a filhotinha e se deu conta de quanta falta sentiu das pessoas que amava. As lágrimas eram silenciosas, sofridas e significativas. Traduziam na falta de palavras toda a alegria que Kiba sentia por aquela segunda chance na vida.