Notas iniciais do capítulo

Vocês sabem, né?

Antes de uma (pequena) tempestade...

Boa leitura!


Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 38
A cor da calmaria

O almoço foi atípico para os padrões de Kiba. Ele sentiu apetite, mas a dificuldade de mover-se tirou a voracidade com que costumava se alimentar. Não dificuldade como antes do parto, quando sequer parecia dono do próprio corpo, dessa vez era resultado de ficar mais de um mês inconsciente, basicamente deitado.

Sakura explicou que o prejuízo poderia ter sido maior, caso o hospital não oferecesse as sessões de fisioterapia. E recuperar os movimentos por completo era simples questão de tempo.

Uma enfermeira veio com a funcionária que distribuía o almoço, na intenção de auxiliar Kiba a se alimentar. E tal oferta foi gentilmente dispensada por Shino. Ele se encarregou de ajudar o companheiro, quando as dores nas articulações dos dedos e dos pulsos se tornaram maiores do que a fome.

Logo depois, a esperada sequência de reencontros que marcou o retorno definitivo de Kiba para junto das pessoas que o amavam. Shino saiu do quarto cedendo espaço para que Tsume e Hana abrissem o quadro de visitas. E Tsume entrou daquele jeito intempestivo, com a forte presença indiscreta e chamativa, com um sorriso enorme e intrépido no rosto.

— Eita, moleque. Você me apronta cada uma!

Começou a bronca no tom materno que sempre indicava a Kiba o quão encrencado ele estava. Mas toda a pose desapareceu quando Tsume viu o sorriso que recebeu de volta. A postura de fachada se foi e ela mostrou o que realmente era: uma mãe aliviada por ter o amado filho de volta. Evidenciou isso com um abraço apertado que quase esmagou os ossos de Kiba. Embora o que roubou a reação do garoto foram as lágrimas nos olhos maternos. Naqueles dezessete anos de vida, era a segunda vez que assistia sua mãe chorar! E ambas por culpa do filho caçula. Foi tão impactante que ele conteve a própria emoção, se permitindo apenas consolar Tsume com tapinhas carinhosos nas costas.

— Nunca mais faça isso, Kiba. Tem um limite de susto que meu coração aguenta e você esbarrou nele dessa vez.

— Caralho, mãe. Prometo que outra assim nunca mais!

— Kiba... — Tsume rosnou.

— O quê?

— Aproveita bem a imunidade, que quando sair daqui eu te arranco as orelhas por causa da falta de modos.

O garoto remexeu-se na cama. O palavrão escapou-lhe da boca sem que percebesse e não passou incólume pela mãe, claro.

— Irmãozinho... — Hana veio ter com eles, pelo outro lado da cama, desejosa de um pouco de interação.

— Hana-nee! — A irmã acariciando seus cabelos daquele jeito, com tanto carinho, trouxe acalento e certa vontade de chorar.

— Mamãe já deu a bronca. — A moça sorriu. — Então eu te dou os parabéns: tem uma filhotinha linda!

Ambas assistiram o ego de Kiba inflar junto com o peito empertigado, como se ele fosse o único e grande responsável pela filha.

— É uma Alpha muito forte! Masako é incrível! — Só podia admirar a garra da bebê, que se apegou à vida com unhas e dentes e venceu um desafio tão grande, antes sequer de vir ao mundo.

— Parabéns! — Tsume precisava concordar que a neta era incrível. — Minha neta é linda!

Neta.

NETA!

O pensamento soou chocante. Foi naquele momento que a ficha caiu. Inuzuka Tsume, com joviais e maravilhosos quarenta e cinco anos de idade (quase quarenta e oito na verdade) já era avó.

A expressão facial com o qual presenteou os filhos foi tão engraçada que ambos riram, adivinhando o que ia pela mente da mãe. Acabaram se divertindo com a situação e levando um olhar indignado em alerta. Que não adiantou de nada, só fez Kiba rir ainda mais desdenhando do perigo. O som cristalino soando como a mais bela música para os ouvidos daquela mãe.

Ainda ficaram por meia hora no quarto, conversando e trocando impressões. Não podiam demorar muito, por mais que quisessem, outras pessoas desejavam rever Kiba.

— Avisa aquele teu Alpha que hoje à noite eu que poso aqui. — Tsume disse ao se despedir. — E amanhã a escala volta ao normal. — Decretou. Pois Shino tinha dado um jeitinho de passar a noite e esticar pela manhã, era um espertinho.

Kiba riu baixinho, concordando. Fazer o quê se era tão foda e as pessoas sentiram sua falta?!

O reencontro seguinte foi igualmente marcante. Naruto entrou no quarto destilando euforia a cada passo. Só parou ao enroscar o braço no pescoço de Kiba e bagunçar-lhe os cabelos.

— Porra, cara! Senti falta disso! — A exclamação veio alta, para disfarçar a emoção. O Ômega nem reclamou muito, apesar de dolorir um pouco o corpo. Ele também sentiu falta da interação com aquele que considerava um irmão.

— Eu também, maldito! — Riu tentando se libertar. — Parece que faz um ano que não te vejo.

— Cê tava tipo a Bela Adormecida e... Caralho! Tive uma imagem mental fodida do príncipe te acordando.

— Vai se foder, Naruto! — Kiba riu sentindo o rosto esquentar.

— Como são rudes! — A voz de Ino atraiu o olhar dos garotos. A expressão dela era de pura contrariedade, graças à falta de modos que presenciou. Não foi nem um pouco assustadora, porque segurava uma grande cesta de palha enfeitada com um laço vermelho. Notou que Kiba ficou curioso com a cesta, por fim entrou no quarto — Eu... Hum... Não sabia o que trazer...

Colocou a cesta sobre o leito e forneceu uma bela visão das guloseimas dentro dela. O Ômega salivou só de ver os pedaços de tortas, bolos, croissants achocolatados e outros tesouros da terra dos sonhos. Parecia ter se passado séculos desde a última vez que provou algo assim.

— Obrigado! — Agradeceu com emoção sincera.

Ino fez um gesto de mão dispensando a gratidão. Era uma Alpha, no fim das contas. Apegada àquele moleque, não podia resistir a agradá-lo depois do susto tomado. Obviamente se informou com Shino antes e confirmou que Kiba continuava sem restrições alimentares.

— Parabéns pela bebê. Ela é linda, é uma sorte que não puxou essa sua cara de cachorro.

Kiba parou com a mão a um centímetro de pegar a primeira embalagem com uma grossa fatia bolo de morango e refletiu a afirmação, em dúvida sobre responder a provocação ou aceitá-la em respeito aos doces recebidos. Preferiu deixar para lá ao menos daquela vez.

— Parabéns! — Naruto pegou um dos croissants e começou a comer. — A gente conheceu a Masako. A sua médica liberou visitas controladas por dia. Consegui ir na UTI duas vezes! Foi rápido, mas é pra segurança dela, né? Quando ela tiver alta e for pra casa eu vou ter muito tempo pra brincar e começar a ensinar uns truques de tio.

— Oe, nem vem! — Kiba resmungou de boca cheia. — Olha lá o que você vai ensinar pra minha filha! Tem que passar juízo pra ela, mas isso você nem tem.

Terminou a frase com um gemido dolorido. Seus pulsos e dedos ainda estavam um tanto sensíveis pelo tempo inconsciente. Ino empurrou Naruto para o lado e tratou de ajudar Kiba a comer o que faltava do bolo, recebendo outro daqueles olhares cheios de gratidão.

Naruto aproveitou para contar duas ou três traquinagens que podia ensinar para uma dama, nada que Masako fosse realmente fazer. Eles bem o sabiam.

— Já falei pro Shino que amanhã eu reassumo o posto. — Ino revelou na hora de despedida. — Sei que ele vai ficar aqui hoje, é justo.

No dia seguinte estava pronta para retomar as tardes com Kiba! Aquele mês foi um suplício, assistir as pessoas que amava sofrer sem poder fazer nada para ajudar levou Ino de volta ao passado, quando ela própria foi responsável pelo sofrimento de um Ômega importante. Queria apenas a normalidade de volta, podia facilmente ficar horas em vigília no quarto de Kiba, pois sabia que ele se recuperava e logo teria alta.

Naruto garantiu que estaria ali sete horas da manhã para contar todas as coisas incríveis que aconteceu no emprego integral. Ele já tinha até um lamen no menu! Imagine, um lamen preparado por ele para que os clientes experimentassem!

A última dupla de visitas foi a mais tranquila do dia. Shino voltou com o pai. Shibi deu os parabéns pela netinha (ele pôde usar a palavra com menos drama do que Tsume) e desejou uma rápida recuperação. Prometeu que ficaria em Konoha até o dia que Kiba tivesse alta e cuidaria de Shino nesse período, então que o Ômega ficasse tranquilo e se concentrasse apenas na própria saúde e na saúde da filhotinha.

Ficou pouco mais de vinte minutos, pois o fisioterapeuta chegou no quarto, junto com um enfermeiro. Traziam um andador de adulto, uma das melhores visões que Kiba teve depois de encontrar família e amigos.

— Olá! — O rapaz cumprimentou tão logo Shibi saiu do quarto. — Eu sou o fisioterapeuta dessa ala, meu nome é Hayate Gekkou.

— Olá! — Kiba respondeu.

— Como está se sentindo? Acha que é capaz de testar os primeiros passos? Sei que acordou ontem, se estiver muito cansado podemos iniciar a rotina de exercícios amanhã.

Kiba não precisou pensar na oferta. A simples ideia de poder ficar em pé, ainda que usando aquele apoio, era maravilhosa!

— Podemos tentar! Hoje mesmo, caralho. Sim, vamos fazer esses exercícios! — A alegria explodiu tão forte que atingiu o lado animal dos três naquele quarto, tendo um efeito abrasador em Aburame Shino. Ele continuou apenas sentado, assistindo. A alegria de seu companheiro era o melhor prêmio que poderia receber.

— Ótimo. Ele — Hayate apontou o enfermeiro — vai te ajudar com a sonda. Haruno-sensei quer fortalecer suas pernas para tirá-la o quanto antes. Mas não tenha pressa, na fisioterapia a paciência é o principal requisito para ter resultados. Vou te orientar e estarei o tempo todo ao seu lado, me avise quando chegar ao limite. Não force seu corpo, combinado?

Kiba sorriu largo, exibindo os caninos afiados. Se aprendeu alguma coisa com tudo o que aconteceu, com certeza foi respeitar os limites. Queria fazer tudo do jeito certo e voltar para normalidade o quanto antes. Com Shino ao seu lado, claro. E a filhotinha de ambos!