Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 39
A cor da honestidade
Fevereiro foi um divisor de águas na vida de Shino e Kiba. Foi um mês de testes em vários sentidos, de provas que questionaram a ligação entre os protagonistas daquele enredo, ao colocarem, novamente, ambos em um palco recoberto de drama.
O mês seguiu uma rotina promissora a princípio. Foi retomada a escala de acompanhamento, a recuperação da operação cesariana mostrou-se tão boa quanto o esperado. O corpo de Kiba ganhava forças e tornava-se mais e mais saudável.
No começo da fisioterapia, ao tentar andar por si só usando apenas o apoio do andador, ele percebeu como a corriqueira tarefa de caminhar era difícil. Tão logo deu os primeiros passos, sentiu como se agulhas perfurassem as solas dos pés. O preço por ficar mais de dois meses sem mover-se foi alto. Mas não tão alto que Kiba não pudesse pagar.
As sessões começaram com tempo pequeno. Cinco minutos, duas vezes ao dia que resultavam em menos de dez passos a cada vez, muito suor derramado e algumas lágrimas. Na segunda semana, dez minutos por sessão. E então vinte minutos sem dor, sem tanto esforço. O fisioterapeuta se mostrou otimista, ao final do mês teve certeza de que não precisariam mais do andador. Março prometia devolver a liberdade total de movimentos ao garoto.
Autonomia parcial veio como prêmio quando Sakura decretou o fim do uso da sonda, das fraldas geriátricas e até mesmo da malfadada comadre. Ela orientou Kiba a chamar o enfermeiro sempre que sentisse vontade de ir ao banheiro, e ele o levaria na cadeira de rodas. (Bom era quando Shino estava no quarto e o carregava nos braços, coisa que adorava e jamais admitiria).
As aplicações do jutsu medicinal reduziam a quase zero as células diluídas que lhe sobrecarregavam os órgãos abdominais. Ele já conseguia armazenar urina como antes, o chacra não era mais usado para se proteger, o que resultava na ausência do cansaço anormal junto com a fadiga que o derrubara em dezembro, assim como no fim da vontade exacerbada de ir ao banheiro, do peso nas pernas.
Sakura decretou o fim das visitas de terceiros à UTI neonatal, permitindo que apenas os dois pais tivessem acesso ao Berçário de Alto Risco. O laço entre ambos os pais e a filhotinha mostrou-se tão positivo que resolveu investir nele.
Eram momentos curtos, porque o desenvolvimento seguia como esperado, conquanto o risco seguisse em paralelo. Kiba recuperando-se tão bem, não era motivo para descuidos. A médica manteria o ambiente ao redor de Aburame Masako tão controlado e protegido quanto possível. Além disso, havia as outras crianças que precisavam do ambiente sem perturbações.
Esses breves encontros eram uma das melhores coisas no dia de Kiba. Sentir a essência da filhotinha, mais forte a cada reencontro, acalentava seus medos e anseios. Era... Esquisito. Mal começou a senti-la em seu corpo, quando crescia em seu ventre.
De repente ela estava ali diante de seus olhos! Não podia tocar ainda, embora a ausência do contato tátil fosse perfeitamente substituída pelas demais possibilidades: o cheiro da própria cria, a imagem tão tranquila que parecia sempre dormir, alheia ao mundo que a recebeu... a pele branquinha!
Quando a viu pela primeira vez, junto a Shino, não prestou atenção de modo consciente, porém tais detalhes ficaram gravados em sua memória sensorial. Assim como os fios de cabelo ralinhos, num tom escuro. Ficariam pretos como os de Shino!
Foi em fevereiro que a Editora Uchiha definiu uma nova linha de atuação. Ao lançar outro artigo sobre a gestação precoce focando no parto, começou a divulgar um compilado em dois volumes. O primeiro seria um livro detalhando o caso clínico durante a gestação. O segundo livro acompanharia o casal e a filhote durante o primeiro ano de vida. Não precisou oferecer novo contrato, pois a extensão pós-parto estava prevista no acordo que Shino e Kiba assinaram.
Por essa época a mídia farejou a história do casal, intuindo que seria algo interessante a explorar. Dois ou três repórteres foram sondar o hospital, investigando as pessoas relacionadas a Shino ou a Kiba. Quis o destino que apostassem as fichas naquela que descobriram ser a mãe do jovem Ômega. Ora, que telespectador não ficaria comovido com a imagem de uma mãe sofrendo por seu filho...? Pois cometeram o erro de tentar entrevistar Tsume e... O resultado foi indubitável. Desistiram da matéria, ao mesmo por enquanto!
Na última semana do mês, Sakura reuniu-se com o casal no quarto em que Kiba estava internado. Ela trazia o prontuário com os exames recém-realizados, todos com os melhores resultados possíveis. O corpo do Ômega estava reestabelecido o bastante para ela assinar alta. O manteria internado até março, apenas para finalizar as sessões de fisioterapia de acordo com o programa que Hayate estabelecera.
Em março, provavelmente entre os primeiros dias, Inuzuka Kiba poderia voltar para casa! Masako ainda continuaria internada, claro. Não por muito tempo, pelos cálculos da médica a primeira semana de abril seria a época em que o parto ocorreria naturalmente. A internação não iria muito além disso, se tudo continuasse dando tão certo.
E aí as coisas se complicaram.
Quando Sakura saiu do quarto, a alegria de Kiba extravasou a tal ponto que sua essência preencheu o ar, talvez tenha ido um pouco além atingindo os pacientes dos quartos vizinhos. Comoveu Shino sentado ao lado do leito. A médica sempre tinha o cuidado de visitá-los nos turnos de Shino, tão logo o rapaz chegasse ao hospital. Ao menos ao dar as notícias mais importantes para o casal.
Tanta alegria por parte de sua Alma Gêmea agiu feito uma faca de dois gumes. Alegrando e ferindo o coração de Shino. O Alpha mal prestou atenção no falatório desregrado e cheio de planos que se seguiu. Também não conseguiu partilhar da janta com Kiba, não sentia fome. Isso causou estranheza no garoto.
— Shino, o que foi? Você ficou estranho desde que a Sakura passou aqui — Kiba mostrou que não estava tão indiferente ao jeito alheio como parecia — Conversa comigo... Foi uma notícia tão boa!
— Sim, foi excelente! — O rapaz concordou. — Vamos conversar sim, amanhã de manhã, está bem? Preciso organizar meus pensamentos.
Kiba lançou um olhar incerto na direção do companheiro, aceitando o pedido. Seria uma longa noite, pensou. Não ia conseguir dormir sabendo que Shino estava tão preocupado com algo. E, obviamente, enganou-se nas previsões. Meia hora depois adormecia tranquilo, enquanto o Alpha ia para a janela, observar a noite fria e silenciosa.
Não conseguiu dormir, nem mesmo cochilar sentado na cadeira como em noites anteriores. Decidiu que precisava ser honesto com Kiba e colocar na mesa tudo o que planejava para o futuro de ambos e o novo obstáculo que em breve poderiam enfrentar.
Shino acordou Kiba por volta das seis da manhã. Naruto chegava pontualmente às sete. Queria conversar com o namorado sem qualquer interrupção. E deixá-lo pensar sobre tudo o que contaria.
— Bom dia. — O "a" prolongou-se em um bocejo sonolento, enquanto Kiba esfregava os olhos.
— Bom dia. Precisamos conversar.
O tom de voz sério afastou a confusão de Kiba e o pôs em alerta. Fez um gesto pedindo que Shino erguesse a cabeceira da cama, para que pudesse ficar numa postura meio sentada mais confortável. O Alpha obedeceu, assim que terminou a tarefa ignorou as regras do hospital e sentou-se no leito junto ao outro.
— Você receber alta é a melhor notícia que eu poderia ouvir — Shino foi falando, ciente de que toda a atenção do garoto estava presa em si. — Eu esperei tanto por esse dia, Kiba...
— Então por que ficou chateado ontem? — A curiosidade pontuou cada palavra.
Shino suspirou. Sua situação era pouco confortável.
— Eu não estava... Não estou chateado com isso. Amo você como nunca pensei que amaria alguém na vida. — A revelação veio sem aviso algum, pegou Kiba desprevenido. — Quando nos conhecemos, agi como se fosse inconveniente. Porque eu já tinha planos para uma vida toda e nunca lidei bem com mudanças repentinas. Fiz planos e me preparei para viver sozinho até o fim, nunca tive a menor esperança de que alguém me aceitasse. Cresci ouvindo como sou esquisito.
— Porra, Shino! — Eles namoravam há cerca de um ano, ainda não se conheciam assim tão bem. Havia aspectos do passado que Shino nunca lhe contou. Aquele era um deles. Claro, Kiba podia concluir que a infância do Alpha não foi exatamente maravilhosa. Crianças são cruéis, adolescentes mais ainda. Quem não se encaixa na média social sempre tem sua cota de tristeza atrelada à própria história.
Kiba era o oposto: fazia amizades fácil, não era lindo (bem, ele se achava muito lindo, obrigado, fazer o quê se o resto da humanidade tinha gosto duvidoso?), embora a aparência agradasse no geral. Era espontâneo, bom nos esportes... Vivia cercado de pessoas. Cultivou bons amigos. Não podia reclamar. O que não o isentava de saber que nem todo mundo era assim. Não praticou bullying contra ninguém e já se meteu em duas ou três brigas defendendo nerds do colégio.
Não pretendia salvar o mundo, só não admitia covardia na sua frente. Tinha certa vantagem por ser Ômega: isso ajudava a acabar com as brigas, pois Alphas e Betas não queriam correr riscos de uma expulsão do colégio ao agredir alguém da casta mais frágil. Enfim, nada daquilo ocupava muito a mente de Kiba. Só agora, ao dar-se conta que seu companheiro pertencia ao outro grupo juvenil. O grupo dos excluídos.
— Então eu conheci você. E aprendi a aceitar o silêncio. — Shino retomou a fala. — Não porque seria a única opção, mas porque eu sei que ele não permanece, pois você volta para a minha vida. Não quero silêncio, nunca mais. Esses dias e noites no meu apartamento têm sido um castigo pior do que imaginei. Quero você comigo, para sempre. Quando tiver alta, Kiba, quero que venha morar comigo, no nosso apartamento.
O garoto entreabriu os lábios pela surpresa. Vinha se adaptando para a mudança desde que souberam da gestação. Pelo visto Shino confiava que dariam conta. Ora, pois ele também amava aquele Alpha. Não apenas pelas cores maravilhosas que ele trouxe à sua vida...
Shino era uma das melhores pessoas que conheceu. Alguém que o respeitava, que o ouvia, que dava espaço para sempre dizer como se sentia, acolhia seus medos... Com Shino, Kiba sentia que construía uma relação entre iguais, independente de casta, de idade, de qualquer outro fator. Sem hierarquia, sem verticalização.
— Eu... — Preparou-se para exclamar o "sim" mais importante jamais dito antes.
Shino moveu a mão de leve e o impediu de responder.
— Não quero sua resposta hoje, Kiba. Ainda não terminei de dizer tudo o que preciso. Nossa vida tem que começar do jeito certo. Eu entendo o respeito, a confiança e a sinceridade como base de qualquer relacionamento. Não posso continuar nada antes que você saiba de toda a verdade.
Kiba engoliu em seco. Sufocou um pouco pelos sentimentos que transitaram pelo vínculo. Medo, apreensão, até mesmo leve repulsa. Repulsa... Observou bem o companheiro, confuso e sem entender o que podia ser tão grave.
Shino respirou fundo, não desviou os olhos em momento algum, ainda que estivessem protegidos pelas lentes dos óculos. Então a confissão veio de uma vez. Sem nenhum traço de arrependimento, ainda que recoberta de suave tristeza:
— Quando você estava na UTI eu me desesperei e perdi a razão. Eu usei a voz de comando e dominei Haruno-sensei.
