Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 40
A cor da vida entre os extremos

Naruto chegou para fazer companhia a Kiba e encontrou o Ômega sozinho. Shino tinha saído alguns minutos mais cedo, permitindo assim que o garoto ficasse com os próprios pensamentos.

Notou de imediato que algo estava errado. A expressão no rosto de seu amigo era tensa, estranha de um jeito que nunca viu antes. Nem mesmo após o terrível episódio na detenção, momento em que Shino o salvou de um estupro coletivo.

— O que aconteceu? — Perguntou sem rodeios — Tá com dor?

Kiba apenas balançou a cabeça de um lado para o outro. Não sabia o que falar. Não queria falar. E isso era algo a ser considerado levando em conta que era um tagarela nato.

O Beta deu-se conta do clima estranho. O lado Ômega do outro garoto estava contrariado, havia certa sensação de culpa nublando a alegria que até então encontrava ao chegar ali.

— Quando quiser falar sobre isso... — Lançou a oferta no ar e sentou-se na cadeira.

As horas se arrastaram silenciosas, lentas. Nem a sessão de fisioterapia que costumava ser bem recebida funcionou. O desanimo de Kiba era tão grande que Hayate não insistiu muito. Surpreendeu-se pela postura negativa, pois desde o começo seu jovem paciente mostrou-se empolgado com os exercícios.

Graças aos anos de experiência sabia que algumas pessoas passavam por crises de internação. Ficar confinado em um quarto impessoal, privado da rotina e de tudo o que se ama podia ser pesado. Até alguém como Kiba tinha direito de sentir-se desmotivado de vez em quando.

Torceu para que o quadro tivesse se revertido na sessão que fariam à tarde. Já tinha se acostumado ao sorriso do garoto. Era meio contagioso vê-lo assim deprimido. Fosse pela influencia da parte Ômega ou fosse por simples questão de empatia. Hayate chegou com altas expectativas e saiu do quarto sem alcançar os objetivos.

Assim passou-se a parte da manhã, cuja visita à Masako foi a parte mais suave e, logo após o almoço que Kiba apenas beliscou, Naruto trocou de turno com Ino.

Essa parte era uma das preferidas de Kiba. Significava assistir Ino tendo pequenos... "coisos" quando a psicóloga vinha visitá-lo. Durante o coma, a Alpha até se esqueceu da questão com Hinata. Apenas ao retomar à normalidade todo o reconhecimento veio-lhe a mente. Ainda não encontrara a oportunidade de se aproximar da mulher e era engraçado ver o jeito que Ino ficava quando a psicóloga partia.

Ino, igualmente, notou algo errado com Kiba. Mas junto com ela também chegou Haruno Sakura, para a visita diária. E foi aí que a situação tornou-se esquisita. Bastou um olhar inicial para a face consternada de Kiba e Sakura compreendeu que ele sabia.

— Pode nos dar um momento a sós? — Pediu para Ino.

— Claro! — A jovem Alpha consentiu. — Vou até a cantina tomar um chá.

Despediu-se com um aceno de cabeça. Então a médica fechou a porta e se aproximou do leito, analisando Kiba com seriedade no olhar.

— Aburame-kun te contou...?

Kiba arregalou os olhos. Aburame-kun... sim, deu-se conta de que a médica vinha chamando Shino assim ultimamente. E o Alpha passara a chamá-la como "Haruno-sensei". Não considerou estranho, porque seu namorado era uma pessoa formal. Porém se tratavam pelo primeiro nome antes que ele entrasse em coma. Nem passou pela sua cabeça que durante sua inconsciência algo tivesse acontecido para afastar Shino e Sakura. Mas acontecera.

Ficou observando a face daquela mulher, sem saber o que dizer. Fato raro em se tratando de Inuzuka Kiba.

Uma vez, ao sofrer com o florescer prematuro do cio, Kiba quase foi atacado por Alphas em uma sala de detenção. Sentiu medo e uma paralisia que tinha a ver com reações corporais de sobrevivência e autoproteção frente a tantos Alphas descontrolados.

Agora, era a complexidade da situação que tirava-lhe a fala. Não sabia o que dizer, ainda que estivesse em pleno controle do próprio corpo. Angustiado, buscou um sinal nos olhos de Sakura, qualquer indício que lhe desse o norte a seguir, a melhor coisa a ser dita. Encontrou apenas compaixão.

— Eu não queria que Aburame-kun lhe dissesse nada antes de ser extremamente necessário. Creio que ele deve ter seus motivos pra contar agora. Vou pedir que confie no meu profissionalismo, quero seguir acompanhando Masako e você até a alta dela. E depois... Bem, depois discutimos como tudo vai ficar.

Kiba escutou em silêncio, sem se comprometer. Claro que queria Haruno Sakura como médica pessoal de sua filhotinha. Porém... Que complicação dos diabos!

— Não vou prestar queixa contra Aburame. — Sakura falou. — Eu não quero vingança, nem destruir a vida de vocês. Sei que ele estava desesperado, Kiba, pra te salvar. Mas... Não posso perdoá-lo tampouco. Usar a voz de comando é recorrer à solução mais fácil.

Sakura silenciou, sua mente voltou no tempo, para a cena na UTI. Quando Shino ordenou que trouxesse a filhotinha, fazendo a exigência sem nenhuma explicação, Sakura deduziu que ele tinha a intenção de que Kiba e a filha se encontrassem ao menos uma vez antes que o pior acontecesse. Despedida era o tema debatido.

E não, no fim a intenção do Alpha era usar o laço entre pai e filha como uma âncora que resgatasse Kiba através da essência Ômega. Se Sakura soubesse disso, se ao menos Shino tivesse falado seu plano, ela teria cedido sem o uso da força.

Comunicação. Shino escolheu usar o poder sobrenatural ao invés de recorrer ao diálogo. O diferencial entre homens e animais. O que os fazia superar instintos e possibilitava que as interações entre shifters fossem pautadas no bom senso.

— Sinto muito. — Por fim Kiba encontrou a própria voz. — Por tudo isso.

Numa atitude mais humana do que ética, Sakura reclinou-se e o abraçou com gentileza.

— Você não tem nada o que sentir. Posso ver que está abalado, vou pedir que Hinata venha aqui primeiro. Passei agora por rotina, volto amanhã, está bem?

O garoto apenas balançou a cabeça concordando. E nem a presença gentil da psicóloga o demoveu de vencer o silêncio. A luta interna que travava era nítida e comovente. Mantinha os fantasmas na mente, enfrentando-os sozinho, com medo de colocar em palavras e dizê-las em voz alta. Dar poder a elas.

Postura que durou até o fim do dia; infelizmente fazendo a segunda sessão de fisioterapia nada render, quando Tsume veio para o turno da noite como o esperado seguindo a escala pré-determinada.

A mulher chegou pronta para uma noite típica em que conversaria um pouco com o filho, fariam a última refeição do dia, depois terminaria cochilando na cadeira junto ao leito.

— Olá! — Cumprimentou como sempre.

E foi só Kiba olhar para a mãe para entender o próprio silêncio durante o dia todo. Não queria apoio de amigos, nem palavras treinadas de uma psicóloga. Não queria o conforto de ninguém, por mais sincero que fosse. A única coisa que precisava era o colo da sua mãe.

Que ficou confusa ao ver seu garoto chorar. A estagnação durou dois, talvez três segundos antes que o instinto materno falasse mais alto e ela fosse até a cama oferecer o que lhe era pedido. Abraçar. Aconchegar. Acolher a dor daquele Ômega, ainda que não soubesse o que causou tanto sofrimento.

Por um tempo permitiu que as lágrimas viessem de encontro ao casaco que vestia, acariciando as costas do filho de modo a acalmá-lo sem apressar nada. Conhecia a cria que pariu. Seu moleque era duro na queda. Nem nos piores castigos ou consequências o viu desabar assim. Nos primeiros meses de gestação Kiba ficou chorão e manhoso, uma ferramenta para manipular as pessoas ao redor e ganhar certos mimos.

As lágrimas que via ali não eram assim levianas. E fizeram todo o sentido do mundo quando Kiba se recompôs um pouco e, mantendo-se nos braços da mãe, contou tudo sobre o que o preocupava e assustava. Seu companheiro tinha usado a voz de comando e dominado uma Beta. Isso era um crime gravíssimo na legislação voltada aos Alphas. E era punida com rigor.

— Me sinto péssimo! — Kiba confessou.

— Meu filho...

— Tudo isso é minha culpa.

— Não seja bobo, Kiba. Você não obrigou Shino a nada.

— Não. Eu digo tudo o que aconteceu... Se eu tivesse esperado um pouco mais... — Como ia imaginar que uma única noite de amor sem proteção resultaria em tudo isso? O sexo foi consensual e agradável para os amantes, mas só aconteceu porque Kiba foi um tiquinho afoito demais e... Manipulou um tiquinho os sentimentos de Shino.

E olha só onde foram parar.

— Kiba, bem vindo à vida! — Tsume o abraçou com um pouco mais de força. — Todas as decisões que você tomar daqui pra frente serão assim: mesmo planejando a gente nunca sabe quais consequências serão positivas e quais serão negativas. É importante fazer o seu melhor, pra não ter arrependimentos na vida.

— Me sinto tão culpado!

— Shino é adulto e...

— Não! — Kiba cortou. — Não por isso, mamãe. Eu sei como é ser dominado por um Alpha, sei como é sentir medo e ser incapaz de se controlar. E... Mesmo assim não consigo guardar rancor ou julgar Shino por isso. Me sinto péssimo pela Sakura mas... Mas...

Tsume sabia o que o garoto queria dizer. Talvez seu filho nem estivesse ali em seus braços se Shino não tivesse recorrido ao crime condenável. O dilema dilacerava o coração tão jovem e inexperiente. Kiba se via entre algo que a sociedade condenava e o Alpha que reconheceu como companheiro.

— A gente enxerga em preto e branco, mas a vida não é assim. As opções não são apenas "certo" e "errado", Kiba. O mesmo vale para o que Shino fez. A lei nos dá um direcionamento, não podemos usá-la como se todos os casos fossem iguais. A intenção dele não foi usar a voz de comando para proveito próprio. Ele salvou meu filho, nem eu posso julgá-lo, condená-lo.

Kiba sentiu as lágrimas voltarem. Aproveitou que ainda tinha o rosto aconchegado em sua mãe para libertar o pranto outra vez. A sociedade seria assim tão sensata com Shino? Duvidava disso.

— O sonho dele de ser professor...

Tsume fez um carinho nos cabelos castanhos.

— Menino bobo. Você se lembra qual era o seu sonho?

Kiba hesitou um pouco antes de responder:

— Eu queria ser Hokage. Mas Ômegas não podem ser... só Alphas.

— Não existe nenhuma lei proibindo Ômegas de ser Hokage. — Ela revelou. — Infelizmente a sociedade decidiu que um líder precisa de força e capacidade total. Características associadas à Alphas. Por isso, Betas e Ômegas nunca são indicados. — A mulher respirou fundo. — Quantos professores Alpha você teve?

O garoto ia responder em um impulso, porém as palavras custaram a vir.

— Nenhum! — Só podia se lembrar de Betas e Ômegas na sala de aula. Alphas estavam no cargo de Direção e de Coordenação.

Tsume sorriu com tristeza, ainda que o menino não pudesse ver.

— Não existe lei proibindo Alphas de dar aula. Mas a sociedade não aceita isso, então o sonho de Shino sempre foi tão difícil de ser realizado quanto o seu. Evoluímos muito, melhoramos muito. E continuamos longe do ideal, do mais justo para todos.

As palavras gentis e atípicas, junto com toda a postura acolhedora acalmaram um pouco a angústia de Kiba. As lágrimas diminuíram até restar apenas traços marejando os olhos selvagens. Continuou aproveitando o calor daquele colo, sem querer se afastar.

— Shino pediu pra mim morar com ele quando sair do hospital.

A revelação não foi de todo surpreendente. Tsume percebeu que já esperava algo nesse sentido.

— E o que você decidiu? — Perguntou e esperou, mas a resposta hesitou demais. — Está com medo dele?

— Não! — Kiba exclamou depressa. — Claro que não, mamãe!

Aburame Shino foi o único Alpha que não perdeu o controle quando seu cio se precipitou. Decência era a qualidade mais marcante do rapaz. Como disse antes: não conseguia condená-lo por usar a voz de comando em uma situação desesperada.

Talvez Kiba sequer tivesse a chance de estar ali, conhecer a própria filha, aproveitar a segunda chance para viver. Ao invés de culpá-lo, sentia gratidão. O preço a se pagar talvez fosse alto. E, ainda assim, Kiba não podia julgá-lo.

— Eu só... Eu sou um desastre! Será que já to pronto pra me mudar? A gente ia se adaptar pelos nove meses... Mas nem deu tempo! — Falou baixinho, vacilante. Tinha medo de apressar de novo uma decisão importante e estragar a relação que teria com Shino. Impor consequências terríveis e arrastar o Alpha consigo apenas por não ter paciência e esperar o tempo certo.

Não sentia medo do Alpha. Jamais sentiria. Estava apenas inseguro. Na questão a respeito da voz de comando e de como isso afetaria o futuro, Kiba queria estar ao lado de Shino e ajudá-lo do jeito que lhe fosse possível.

— Garoto, aprenda uma coisa: quem faz o momento certo é você. Não porque seja, afinal na vida não tem isso de momento certo. Mas porque você faz sem arrependimentos, enfrenta o que vier sem medo. Cresce e amadurece com as lições, aproveita o lado bom, sofre com o lado ruim. A minha casa sempre será a sua casa. Se quiser arriscar, vá em frente. Você tem pra onde voltar, filho. Eu amo você, amo quando apronta, quando conta vantagem, quando é irritante... Amo cada um dos seus aspectos. Você é o meu moleque. Tenha coragem de arriscar, tente. Erre. Aprenda. Seja feliz!

Pela primeira vez no dia, desde que teve a conversa com Shino, Kiba sorriu. Ele não quis desabafar com Naruto, Ino ou com a psicóloga. Não porque não confiasse ou não se sentisse a vontade com eles. A verdade é que desejava o colo da mãe. Melhor decisão que poderia fazer.