Capítulo 17 - I don't understand
John esfregou as mãos com força, pouco preocupado com o nervosismo claro que estava demonstrando. Estava muito mais preocupado com o problema e o problema era que Philippe Lawrence era a última pessoa que deveria estar na presença de Sherlock Holmes, por um único motivo obvio que agora fazia todos os olhos se arregalarem.
― Bem... ― pigarreou, virando-se para o grupo na mesa. ― Okay, esse é Philippe Lawrence... um amigo.
― Hunf... amigo ― Mycroft debochou revirando os olhos.
― Também é um prazer revê-lo, Mycroft ― Philippe retorquiu sarcástico, arrastando uma cadeira e sentando entre o Holmes e John.
O médico queria muito perguntar como os dois se conheciam, mas se reprimiu, sabendo que seria mais seguro perguntar em particular.
― Vo-você é muito parecido... com Sherlock ― Molly gaguejou pálida.
― E você deve ser Molly Hooper ― Philippe saudou melodiosamente, fazendo-a corar. ― O homem assustado do seu lado deve ser o Inspetor Lestrade, por favor, respirem. John me falou sobre vocês.
― Ele falou de mim? ― Sherlock chamou atenção, inexpressivo.
― Philippe... ― John alertou temoroso.
O olhar de Sherlock transmitia o desgosto com clareza. O detetive não gostava do novo visitante, olhava-o com frieza, analisando cada movimento mínimo como se pudesse ataca-lo a qualquer momento. Para John parecia que o parceiro ia vomitar a qualquer momento.
― John me contou tudo sobre você. Detetive, certo? ― Philippe respondeu mais animado do que deveria, ignorando os chamados do loiro. ― Sociopata altamente funcional e essas coisas.
― E essas coisas? ― Sherlock franziu o cenho atento.
John previu o início de uma discussão e rapidamente interviu, pegando-o pelo pulso e o puxando.
― Certo, Philippe. Precisamos conversar.
― Isso é totalmente verdade ― ele concordou se soltando. ― Mas vai ficar pra depois.
― Philippe, agora. Vamos?
― Parece nervoso, Doutor Watson ― Irene provocou se curvando sobre a mesa. ― Algum motivo especial?
― Não tenho que falar com você ― John retorquiu seco, voltando a sua cadeira ao ver que Philippe não se movia.
O foco de surpresa saiu de Philippe para John, até mesmo o olhar interessado de Sherlock. O pior olhar que o médico poderia receber naquele momento. Era compreensivo. John nunca teve uma opinião certa sobre Irene, se gostava ou não, se sua irritação ia além das mensagens ou dos flertes que ela enviava para o parceiro, mas não era do seu costume agir daquela forma. Repentinamente se sentiu um pouco mais atordoado e enjoado que o esperado. Sempre fora neutro, forçava-se a isso, tendo como exceção apenas o dia em que descobriu que ela fingira a própria morte.
Mas naquele pub? Depois de tudo o que aconteceu? John nem lembrava mais o significado de neutralidade. Tudo o que sentia por Irene Adler claramente oscilava entre irritação e pura raiva.
― Não sei se lhe dei motivos para se irritar comigo ― Irene comentou rodeando com o dedo a borda do seu copo vazio.
― Não sei se ele precisa de motivos ― Philippe rebateu sorrindo de modo convencido.
― Está se deixando levar pela opinião do seu namorado, sr. Lawrence?
John prendeu o fôlego, surpreso pelas palavras e temendo o que viria a seguir. Houve um breve e pesado silêncio, onde os olhares se intercalavam entre A Mulher e o novo visitante. Mas Philippe continuou sorrindo como se a batalha sempre estivesse ganha, levantou-se e se inclinou sobre a mesa, aproximando-se de Irene para responder calmamente:
― John não é meu namorado... ainda, vou mudar isso muito em breve. E não, não preciso me deixar levar pela opinião de ninguém, querida. Sei o suficiente sobre você.
― Sabe mesmo? ― Irene o desafiou.
― Ah sim, eu sei. Você é A Mulher que grudou em Sherlock Holmes como um carrapato, tentando sugar tudo dele para si mesma e que ainda não percebeu que ele não está tão interessado assim.
― Posso garantir que ele está interessado em muita coisa.
― Claro ― Philippe sorriu falsamente. ― Mas o quanto é ruim ele estar interessado em muitas coisas e nenhuma delas ser você?
Os olhos de Irene brilharam perigosamente e John gemeu de frustação, passando as mãos no cabelo em um ato nervoso.
― Oh Inferno...
― Caso não saiba, não sou mulher de família, Sr. Lawrence. Não me apego ou crio vínculos ― Irene respondeu entre dentes.
― Parece que Sherlock Holmes foi uma exceção. É por isso que está tão interessado nele? Por que ele a faz mudar de ideia? ― Philippe questionou voltando a sentar.
― Pensa mesmo isso? ― Irene franziu o cenho, diminuindo o impacto do que ouvira.
― Claro... ou talvez ele seja um desafio, não? Quer fazê-lo mudar de ideia, é isso? ― Philippe abriu um sorriso malicioso. ― Quer fazê-lo parar de olhar para John e olhar para você?
John queria arrastar Philippe para o canto mais distante daquele lugar e perguntar o que infernos ele estava fazendo e o que esperava conseguir com todas aquelas palavras. Aproveitou o novo e tenso silêncio para olhar ao redor, para quem ainda estava na mesa. Lestrade estava com a boca entreaberta, como se não acreditasse em tudo o que via e ouvia, Mycroft demonstrava o mais simples e puro desgosto ao fitar Irene, enquanto Molly tinha o mesmo alvo, mas um olhar muito mais irritado ao segurar o copo com força exagerada. No entanto, quem o preocupava era Sherlock, que estava mais observador e analítico do que nunca, seus olhos brilhavam de uma maneira quase assassina. John sentia como se o parceiro estivesse montando todo um quebra-cabeças em sua mente, um quebra-cabeças banhado em sangue.
― Quero fazê-lo ver o mundo ao seu redor com mais clareza ― Irene respondeu com seriedade. ― Não estou preocupada com a influência de um mero cachorrinho obediente na vida de Sherlock, mesmo porque esse cachorrinho nem é confiável no momento, sequer merece atenção.
― Desculpa, o que disse? ― John arfou indignado.
― Sherlock, vai deixar ela falar assim do John? ― Molly questionou irritada.
― Não perco tempo com quem não merece ― Sherlock respondeu indiferente, dando de ombros. ― Até saber de que lado John está, não ouso fazer nada.
O médico abriu e fechou a boca várias vezes, sem saber o que dizer, assim como todos na mesa. Na verdade não estava surpreso, já ouvira muito da boca do homem que não se importava e as vezes nem notava ao machucar as pessoas. Mas aquelas palavras o magoaram, mais do que previra. Definitivamente assumira o posto de traidor na mente do seu melhor amigo.
― Mesmo depois de tudo o que passamos? Todos esses anos? ― certificou-se com a voz falha.
― Como vou saber que não esteve ao lado de Moriarty todos esses anos?
― Isso é ridículo ― bufou Mycroft. ― E é chamar a si mesmo de idiota.
― Talvez seja, mas por enquanto eu só confio em mim mesmo ― Sherlock garantiu.
― Eu tenho vergonha de ser tão parecido com você, ainda bem que essa semelhança é só física ― Philippe cuspiu forçando uma careta de nojo. ― Fique na minha casa essa noite, John, aposto que Sherlock não hesitou em convidar a Srta. Adler para uma pequena reunião noturna.
John despertou do transe e olhou incrédulo para Sherlock.
― Convidou Irene para o nosso apartamento?
― Ele é mais meu que seu, na verdade ― Sherlock retorquiu bebericando a bebida.
― Mais seu que meu? Dividimos o aluguel!
― Eu passo mais tempo dentro dele.
― Dane-se! Ainda dividimos o aluguel!
― Isso não faz diferença para mim.
John riu sem humor, levantou-se com certo esforço e pegou seu casaco na cadeira.
― Que seja, vamos Philippe ― chamou antes de se virar para Sherlock que o encarava de cenho franzido. ― Se forem transar, fiquem longe do sofá, da minha poltrona e principalmente da cozinha. Você tem um quarto, Sherlock, use-o.
― Ora, não garanto nada. Sherlock sempre foi insaciável ― Irene o interrompeu manhosamente. ― Mas fique mais um pouco, tenho algumas perguntas a fazer.
― Estamos de saída ― Philippe retrucou rudemente, puxando o médico para longe da mesa.
― Diga-me John, como é ser o traidor da vez? ― Irene provocou alto, fazendo-os paralisar. ― Como é ser o alvo da desconfiança de todos nessa mesa?
John engoliu com dificuldade antes de voltar a encará-la. A situação não estava muito clara em sua mente, mas parecia que Irene Adler estava determinada a provoca-lo justamente com os pontos que o médico se esforçava a ignorar. Pensou por um momento se havia um objetivo mais sério por trás da clara provocação, mas notou que sua maior preocupação era se Adler retirava tais implicâncias de fatos que realmente conhecia.
― Não a escute, John ― Molly se pronunciou, firme pela primeira vez. ― Confiamos em você.
― Confiamos? ― Sherlock desacreditou, erguendo uma sobrancelha.
Irene fitou a especialista com diversão e John se sentiu no dever se aproximar, observando a amiga piscar repetidas vezes pelo nervosismo.
― Então? Confiam mesmo? Sequer são amigos? ― incitou. ― Não vejo o Doutor correndo atrás de você, pedindo por auxilio. Talvez ele não queira uma criança no fogo cruzado... ou talvez você só seja inútil mesmo.
― Ei, não fale com ela desse jeito! ― John se intrometeu irritado.
― O que ainda faz aqui? ― Lestrade se pronunciou pela primeira vez com seriedade. ― Se tem planos com Sherlock, espere por ele em Baker Street.
― Parece que estão todos contra mim mesmo ― Irene concluiu indiferente, sem se mover.
― Você vem aqui só criar intriga e ainda quer apoio?
― Apoio, não. Quem sabe um pouco mais de imparcialidade...
― Por favor! ― o Inspetor debochou. ― Pode procurar sua imparcialidade bem longe daqui.
Novamente, John engoliu com dificuldade. Suas mãos tremiam e seu estômago estava dando voltas. Sabia que havia algo errado, clinicamente falando, mas não conseguia raciocinar normalmente. Deveria intervir na discussão, somente assistir ou basicamente se levantar e ir embora?
― John? Tudo bem?
O médico olhou para Philippe que o fitava com preocupação e então olhou ao redor, notando que era o centro da atenção novamente. Mas sua visão estava lenta, assim como seu raciocínio.
― Me dê um minuto.
Levantou-se e, cambaleante, vagou entre as pessoas entretidas. Sentia-se esgotado e ainda nem chegara perto de concluir o plano ou de conseguir alguma resposta que garanta uma batalha ganha contra Moriarty. Algo além disso estava errado, porque sua cabeça doía e seu peito ardia o suficiente para incomodá-lo. Seria uma consequência de tudo o que vem passando e escondendo? De tudo o que já aconteceu?
Repentinamente seus joelhos ameaçaram ceder e John foi forçado a se apoiar no balcão de bebidas, mas logo um par de mãos frias o agarrou e o ajudou a se erguer, levando-o até o banheiro mais próximo. Sem precisar de mais avisos, John foi até a pia e molhou o rosto.
― O que você tem?
A voz lhe causou arrepios, mas fez seu máximo para esconder.
― Não sei, só estou cansado ― respondeu enxugando o rosto.
― Está mentindo ― Sherlock insistiu se encostando na pia, ao seu lado.
― Eu realmente não sei, Sherlock. Por favor, não insista. Temos assuntos mais importantes.
― Se vai falar do-
― Esqueça o beijo, okay? ― John o interrompeu firme. ― Foi um erro e nunca deveria ter acontecido, certo, entendi seu ponto. Mas ainda quero ter meu amigo.
Sherlock franziu o cenho e respirou fundo.
― Acha que é possível? Não só pelo... beijo, mas depois de tudo o que aconteceu? Não sei se ainda confio em você, John.
― E estou disposto a mudar isso ― John respondeu de imediato, em claro desespero. Obrigou-se a parar e respirar fundo antes de continuar, precisava estar calmo e não dar mais motivo para desconfiança. ― Apenas pergunte o que quer saber, Sherlock. Não me importo. Faço qualquer coisa pra fazer você entender que ainda sou seu amigo.
O Detetive o olhou com incerteza e maneou a cabeça antes de, abruptamente, concordar.
― Certo. Me diga o motivo.
― Do quê?
― O motivo de ter se aliado a Moriarty. Seja sincero e completo.
John suspirou, quase se lamentando em alto e bom som. Não estava preparado.
Que inferno... Pense com calma, Watson!
― Foi por causa de Harriet.
John se sobressaltou com o susto e voltou a se apoiar na pia, resmungando.
― Você sempre encontra a hora certa para interromper, não é Mycroft?
