Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 41
A cor do amadurecimento

No dia seguinte ao pernoite de Tsume, Kiba estava se sentindo melhor. Como se um peso tivesse saído de seus ombros. Ainda não sabia lidar com a situação geral, embora a impressão de se afogar em culpa tivesse sumido.

Pela manhã, quando Naruto chegou, já agia mais como o garoto de sempre. Naruto não fez grande caso do dia anterior. Quando (e se) Kiba quisesse falar sobre suas aflições, estaria ali para ouvir. Se conheciam desde o Jardim da Infância, época em que Naruto se agarrou a amizade com o Ômega como válvula de escape para a vida no Orfanato.

O sentimento de irmandade continuava, mas ambos estavam crescendo. Kiba tinha sua própria família agora, seus medos e desafios. Nem tudo compartilharia com Naruto. E ele precisava se acostumar com esse conceito, de que o grande parceiro de traquinagens elegeu outras prioridades em sua vida, desafiar o sistema não estava mais no topo da lista.

A sessão de fisioterapia rendeu em dobro, como compensação. Agora era uma espécie de reta final. O Ômega já estava forte o bastante para ir ao banheiro sozinho, dispensando equipamentos de apoio e ajuda de outras pessoas. O fisioterapeuta informou que estavam terminando. Naquela semana completariam a série prevista de sessões e Kiba estaria liberado, o que significava quase certamente a alta hospitalar.

A animação que já era grande redobrou com a curta visita à UTI neonatal. Masako se desenvolvia a olhos vistos. Já tinha alcançado o peso de dois quilos e oitocentos gramas e quarenta e um centímetros. Se aproximava de uma constituição saudável e ideal para também receber alta.

À tarde, Ino chegou para cumprir seu turno. Trouxe consigo a grande cesta de doces, com vários pedaços de bolos, tortas e croissants de chocolate. A tristeza do jovem Ômega no dia anterior abalou sua parte Alpha. Ainda não conseguia lidar bem o sofrimento dessa casta, quando a pessoa era alguém a quem nutria afeto. Isso mostrou que ela devia procurar um psicólogo também. Algo que sabia, claro. Relevou o quanto foi possível, mas não podia simplesmente virar o rosto e fingir não ver todas as feridas que carregava no coração, na mente. Na alma.

Naruto aproveitou-se da generosidade para roubar alguns petiscos antes de partir para o emprego. A tarde passou tranquila, até a visita da médica. Assim que Sakura entrou no quarto, Ino deu alguma desculpa e saiu. Seu lado animal notou a leve tensão que tomou conta de Kiba à medida que a médica se achegava ao leito, com um prontuário nas mãos.

— Olá! — ela cumprimentou sorrindo.

— Olá. Eu... Hum... Eu...

— Não se sente mais confortável em ser meu paciente? — Ela ofereceu ajuda com simpatia.

— Não é bem isso. — Kiba balançou a cabeça. — Sinto muito mesmo toda essa coisa que aconteceu e... Eu sei que deveria ficar horrorizado com o Shino, mas ele fez aquilo pra salvar a minha vida. Porra... Não tem como eu ficar chateado com ele, sabe?

— Sim. Eu sei.

— Ainda me sinto meio culpado por tudo. Se eu pudesse voltar no tempo... Não. Isso só é bacana em ficção. O que aconteceu me ajudou a amadurecer muito. Não vou olhar pra trás com arrependimento. — Suspirou. — Minha mãe me disse umas coisas ontem. Quero que continue atendendo a Masako, sabe? Talvez eu fique meio estranho no começo, porque a situação é foda pra caralho. Será que a gente consegue levar assim?

Haruno Sakura observou o Ômega por alguns segundos, refletindo na questão. Kiba evitava contato visual até formular a pergunta final, momento em que a fitou nos olhos. A postura era um tanto tensa, todavia ansiosa. Era o primeiro passo dado no sentido de ser um bom pai. Ele colocava o bem estar de Masako a frente de qualquer obstáculo, porque via Sakura como uma médica competente e capaz, a profissional que ajudou a filhotinha quando nenhum outro médico quis enfrentar os riscos.

— Claro, Kiba, vamos tentar juntos. Se ficar desconfortável para você ou para mim, indicarei alguém de confiança, está bem? — Com a bebê nascida e saudável era mais fácil encontrar um pediatra que a acompanhasse.

— Combinado!

Naquele momento o bom termo parecia possível. Uma tênue ilusão, claro, como viriam a descobrir no futuro próximo.

— Então vamos para a verificação de praxe. Vou pedir uma última batelada de exames. Tive uma breve reunião com Hayate-sensei e o relatório dele foi ótimo, a cicatrização da cesariana está curando muito bem. Já vá se preparando para juntar suas coisas e voltar para casa.

Notícias maravilhosas para quem estava cansado de tanto repouso.

Naquela noite, seguindo a escala de pernoite, seria a vez de Hana vir cuidar do irmão. Mesmo que Kiba estivesse mais forte e completamente curado, não queriam abandoná-lo sozinho (aproveitavam que o diretor do hospital não removeu a autorização especial de internação vinte e quatro horas acompanhado).

Todavia o garoto pediu para que Hana trocasse de lugar com Shino, para que eles pudessem continuar a conversa interrompida porque o Alpha queria que seu companheiro refletisse bem na decisão de morarem juntos, sem que ele agisse de modo precipitado ou impulsivo.

A chegada de Shino era anunciada por um fato muito peculiar. Antes mesmo que pudesse captar o lado animal ou discernir o vínculo que os ligava. A primeira parte que se transformava era o próprio mundo ao redor de Kiba: vinha de repente, sem aviso... As cores aflorando, transbordando com suavidade. Assim Kiba sabia: sua Alma Gêmea se aproximava.

Continuou parado próximo à janela, para onde foi sozinho, sem apoio, caminhando com as próprias pernas, para admirar o pátio interno onde alguns pacientes se arriscavam no friozinho daquele fim de inverno. Vestia um pijama de flanela com estampas do símbolo Hokage. O sonho não realizado sempre estaria presente, de alguma forma, em sua rotina.

— Olá — Shino cumprimentou quando por fim entrou no quarto.

— Olá! — A resposta veio acompanhada de um sorriso. Kiba podia captar certa insegurança fluir pelo vínculo, apesar da expressão séria e indiferente. Talvez não fosse a condição de Shino ter nascido Alpha que o dificultava expor os sentimentos. Talvez fosse um traço próprio de personalidade. Esperou que o companheiro viesse ter consigo, parando ao lado da vidraça meio embaçada. — Precisamos conversar.

— Eu sei.

— E eu não ia aguentar até amanhã no seu pernoite. A Hana entendeu e trocou, ela é demais, né?

— Sim. Sua irmã é incrível.

O silêncio caiu entre eles e não foi exatamente confortável. Kiba escaneava a face de Shino, em busca de algum sinal do mar revolto que fluía pelo vinculo. Até mesmo um pouco de medo! Nada que transparecesse exteriormente. Aquele Alpha era tão controlado em suas reações. E mesmo assim... Mesmo assim...

Que nível de desespero ele sentiu para usar a voz de comando? Bem, controle era a palavra de Shino. Algo que não podia ser relacionado ao Ômega. Kiba aproveitou que estava perto o bastante para que os ombros de ambos se roçassem, então acertou um tapa generoso nas costas do companheiro, surpreendendo Shino.

— Então é isso! — Exclamou num tom eufórico demais. — Vou ter alta em breve, vai se acostumando que agora você não mora mais sozinho.

Shino virou-se para analisá-lo com mais atenção. Concentrou-se no vínculo, mais sincero do que a alegria exagerada. Kiba nunca foi um Ômega típico, de vez em quando dava uns passos ousados para a casta, com atitudes e decisões condenáveis socialmente. Nem sempre discernia entre o que era arriscado e se jogava de cabeça mesmo assim! Mas tinha vezes em que agia com o peso das regras sociais sobre os ombros e temia ter sido ousado demais e ofendido o Alpha que tinha por companheiro. Como naquele instante, em que o jeito efusivo mascarava algum nervosismo. Não medo, nem rejeição. Apenas o nervosismo que Shino já conhecia.

— Posso me acostumar fácil com isso.

— Ah, que bom. Porque eu sou... Hum... Você já sabe: tenho uma dificuldade de organizar as coisas, mas aprendo fácil! Cozinho mal... E odeio lavar louça, principalmente no frio. Esses caralhos de dona de casa são um saco. Mas eu quero dividi-los com você, Shino. No nosso apartamento.

— É o que eu mais quero — O Alpha ergueu a mão e tocou o rosto do outro, um gesto de carinho comedido, cheio de significado.

Kiba colocou a própria mão por cima da de Shino e fechou os olhos, saboreando o contato. Agora vinha a parte difícil da coisa.

— Sobre a voz de comando... — O garoto sentiu o outro ficar apreensivo e foi perceptível. — Isso é foda, Shino. Conversei com mamãe ontem... Minha mente sabe que é errado e que um Alpha não deve usar a voz de comando nunca, mas meu coração não sente assim. Não posso criticar algo que você fez pra salvar minha vida. Caralho! Minha mãe falou que é sim a porra de um dilema, mas eu discordei porque eu nem tive dúvida sobre defender você. Na escola eu vivia matando as aulas de Ética e nem tenho mais certeza do que to falando... — Deu uma risadinha sem graça.

Shino deslizou a mão até alcançar a nuca de Kiba e puxá-lo de encontro ao peito. O garoto passou os braços pelo corpo alheio, estreitando o contato.

— Por você eu faço qualquer coisa. — A afirmação de Shino veio simples, sem afetação. Extremamente verdadeira.

— Venha o que vier. A gente passa por mais essa juntos, okay? Eu te disse uma vez que enfrento qualquer obstáculo desde que você não perca a fé na gente. — A voz do Ômega soou abafada contra o casaco do companheiro.

— Amo você. Nosso apartamento está esperando o dia em que vai receber alta. Vamos nos adaptar, nem sempre será fácil, eu sei. Não planejo nossa relação em cima de ilusões.

— É. A gente é diferente pra caralho! Ainda bem que é assim! — Kiba riu. — Dois de mim no mundo seria um desastre. Ah... E eu também amo você.

Agora sim, toda a tensão e apreensão afastou-se daqueles dois. Eles estavam prontos para uma nova etapa da vida. Com tudo de bom que viria. E tudo de ruim também, pois, como Shino ressaltou, a vida não é um mar de rosas. Não queriam estar juntos apenas nos momentos afáveis, mas em qualquer situação que o futuro lhes impusesse.