Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 42
A cor da estrela guia
A alta de Kiba veio numa manhã não tão fria do começo de março. O inverno ainda agarrava-se à Konoha, vacilante de ceder espaço à primavera que chegava tímida e sem alardes.
Naqueles últimos dias em que ficou internado, além da fisioterapia alternada com repouso e da assistência da psicóloga Hinata, Kiba passou a receber orientações sobre como cuidar do bebê e se cuidar, quando estivesse em casa. Soube de detalhes importantes do desenvolvimento infantil a coisas mais essenciais como o leite materno.
Não era segredo que poucos Ômegas machos lactavam. E o leite materno era o alimento mais importante da primeira infância, nutrindo o filhotinho com tudo o que ele precisava para sobreviver de modo saudável e o mais natural possível. Nesse caso o hospital tinha um grande acervo de doadoras, mamães que produziam leite demais para os próprios filhos e dividiam com quem precisava. Masako podia se beneficiar dessa generosidade!
A notícia de que ele logo seria liberado espalhou-se pelo hospital. Graças a isso houve uma movimentação nada discreta de funcionários indo se despedir do garoto que comoveu e conquistou um espaço no coração de cada um deles. Torceram tanto para que a jovem família saísse dali unida, que o resultado trouxe felicidade não apenas aos mais próximos de Kiba, mas de todos que acompanharam o drama.
E foi assim, em um clima leve de festividade, que Haruno Sakura assinou o prontuário de seu jovem paciente e o liberou para que pudesse ir para casa.
— Masako continua muito bem. — Sakura explicou para Kiba, ainda no quarto do hospital. Todos os dias reforçava isso. A voz da experiência provou que a preocupação com o bem estar do filhotinho nunca abandonava seus genitores, por isso a insistência em clarificar cada informação, fosse repetitiva ou não. — Creio que mais um mês é suficiente para que possamos liberá-la também. Enquanto isso as visitas seguem o mesmo padrão. O Berçário de Alto Risco não suporta acompanhamento vinte e quatro horas. Sua filhotinha está muito bem, mas temos outros bebês com quadros delicados.
Kiba sorriu. Compreendia a situação. Havia... Uma espécie de intuição. Algo que ganhava os contornos de um vínculo, diferente do que tinha com Shino, era muito semelhante a como se sentia em relação à mãe e à irmã. Isso o ligava a Masako e continuava cada dia mais forte, era a garantia que precisava.
Queria visitá-la todos os dias? Sim. Quando o tempo apertado acabava ele sentia relutância em se afastar? Sim. Mas já notara outros filhotinhos chegando à UTI, um deles tão pequenino e frágil quanto sua garotinha ao nascer. Não podia ser egoísta e querer ficar ao lado de Masako, que já estava fora de perigo, e arriscar; assim, a segurança das outras crianças.
Era um garoto arteiro, impulsivo e boca suja, defeitos que encabeçavam uma longa lista. Porém não era mesquinho. Não pensava apenas em si próprio.
— Virei visitar minha filha todos os dias!
Sakura sorriu de volta. Era impossível não se contagiar com a animação vinda de um Ômega. O ambiente todo mudava, se tornava mais leve, ameno. Imaginou que aquela sensação trespassou as barreiras do quarto e chegou aos pacientes mais próximos. Hinata e outros psicólogos faziam um excelente trabalho de acolhimento, todavia a atuação treinada sequer chegava perto de algo assim: espontâneo, natural, um resgate à premissa da casta que atingia mais do que a parte racional. Algo que tocava o lado shifter de cada um e era fantástico.
— Então está liberado. — Sakura terminou de preencher a ficha pessoal, marcando a data e a hora da liberação e baixou a prancheta para encarar Kiba. — Pode me ligar caso algo aconteça.
— Obrigado! — O garoto disse em despedida.
Sakura meneou a cabeça de leve para ele e para Shino, que estivera parado à porta assistindo a cena. Segurava uma bolsa de viagem com as poucas coisas de Kiba que ainda ficaram por ali e respondeu à despedida com aceno similar.
O Ômega não perdeu mais tempo. Saiu do quarto, puxando Shino pelo braço. Depois daqueles meses internado, após chegar a um nível de enfermidade tão grande que quase não saiu dali com vida; reassumir os próprios passos e voltar ao mundo lá fora podia ser considerado um milagre.
Na recepção encontraram com Tsume, Hana e Naruto. Os três deram um jeitinho de estar ali, já que no período da tarde era mais complicado.
— Que bom que está de volta, cara! — Naruto não quis saber de educação. Furou a fila e o abraçou antes mesmo da família de sangue de Kiba.
— É foda estar de volta, Naruto! — O abraço foi retribuído com igual força. — To pronto pra invadir outro banho de Alphas. — Gracejou brincalhão.
— Sua mãe mata a gente! — O Beta riu ao se afastar.
Tsume imitou o gesto de abraçar o filho. Um carinho que demorou um tiquinho a mais do que esperado para alguém que não era muito de contato físico. Mais do que receber o filho, Inuzuka Tsume se despedia dele.
— Se esse Alpha pisar na bola não se preocupe. — Ela resmungou meio brincando, meio falando a sério. — Seu quarto estará sempre lá.
— Obrigado. — Kiba agradeceu dando tapinhas nas costas da mãe. Não chorou, mas sentiu um treco danado de esquisito na garganta...
A última a se despedir foi Hana. Ela não se preocupou em conter a emoção. Teve momentos naquelas semanas que temeu perder o irmão caçula. Kiba era a alegria em sua vida. Perder o garoto seria perder uma parte importante, fundamental de si mesma.
— Meu irmãozinho me passou a perna em tudo! — Riu entre lágrimas. Hana tinha um namorado, Beta, que conheceu no Colegial, ambos satisfeitos com o compromisso que mantinham, sem planos de casar ou ter filhos num futuro próximo.
— Porra, Hana-nee. Me alcançar é fácil pra...
— Kiba... — Tsume resmungou. — Tua imunidade já passou, moleque. Me tenta pra ver se meu chinelo não te acerta no traseiro...
— Tudo tem seu tempo, irmã. — Kiba afirmou em um tom comicamente profético. — Não precisa apressar nada.
A mudança de discurso fez os demais rirem. Até Shino permitiu que diversão fluísse pelo vínculo. Como sentira falta desse jeito despojado ao seu lado.
— Nesses primeiros dias você pode se sentir solitário. — Tsume voltou a se aproximar quando a dupla de irmãos separou-se do abraço. — Pode ir lá em casa brincar com Akamaru ou passar algumas tardes.
O cachorro não se mudaria para o apartamento de Shino, cujas regras proibiam animais de estimação de grande porte. Além disso, Akamaru estava acostumado a correr livre pelo quintal. Não se adaptaria a viver preso no espaço restrito. Seria maldade com o mascote.
— Não se preocupem! Vou colar sempre por lá! — Naruto garantiu. — Kiba não vai ter tempo de se sentir sozinho!
— Ih, Shino... Ganhou um Beta de brinde! — Hana provocou.
O rapaz preferiu não se comprometer com nenhum tipo de comentário. Foi o sinal para a despedida breve. Tsume, Hana e Naruto iriam trabalhar o resto da tarde. Shino e Kiba passariam pela casa do Ômega – antiga casa – para pegar algumas coisas que ainda faltavam.
A viagem de carro foi breve e descontraída. Depois de meses dentro de um quarto de hospital, a chance de sair assim na rua e voltar ao cotidiano encantou Kiba. Ele se permitiu assistir o cenário pela janela do carro, reconhecendo os detalhes em cores de uma paisagem que, secretamente, temeu nunca mais ver.
Em casa, foi recepcionado por um Akamaru tomado por euforia incontrolável. O cachorro veio correndo ligeiro do quintal e recepcionou Kiba com latidos, ganidos, uivos e lambidas! Que terminaram com os dois abraçados, quietos, exceto pela cauda de Akamaru que balançava tanto quanto possível. As saudades que o bichinho sentia de seu dono eram infinitas. Teria ele tido alguma intuição do pior? Ou... Seria uma antecipação sobre a nova separação?
Quando enfim se afastaram, Kiba permitiu que o mascote entrasse com eles na casa, ainda que fosse contra as regras de Tsume.
— Me sinto meio estranho, sabe? — Ele perguntou enquanto subiam para o quarto dele. — Acabei de sair do hospital... Vir aqui pegar minhas coisas...
— Quer mais tempo para se adaptar à ideia? — Shino ofereceu com boa vontade, sabendo-se incapaz de impedir a relutância de fluir pelo vínculo. Queria tanto o companheiro ao seu lado.
Kiba meneou a cabeça, feliz com a oferta. Sem hesitar em descartá-la.
— Crescer não é fácil. Eu amo essa casa e amo minha família, mas posso continuar amando elas enquanto vivo com você, não é? — Abriu a porta do quarto sem esperar resposta.
O Alpha sentiu o peito se aquecer de carinho. Seu companheiro era um moleque traquinas de marca maior, conquanto esses resquícios de maturidade pontuassem suas ações de quando em quando, surpreendendo na maior parte do tempo.
— Vou levar algumas roupas. O play! — Kiba deu uma olhada no quarto, já saudoso de tudo o que viveu ali. Todas as descobertas fantásticas que assomavam enquanto crescia. Os planos mirabolantes que criava com Naruto.
Foi naquele mesmo quarto que, meses atrás, planejou detalhes depois de comprar camisinhas para a primeira noite de amor com seu companheiro destinado? Wow! Parecia outra vida.
Sentiu uma presença chegando de mansinho e braços envolvendo sua cintura. Em seguida Shino descansou o queixo na curva de seu pescoço, silencioso e solene. Participou da despedida com Kiba, transformando o ato em uma transição. O fim de um ciclo e o começo de um novo.
Um pequeno ritual que pontuou mudanças importantes para cada um daqueles dois jovens. Trazendo anseios, esperanças, medos... E a certeza de que estavam no caminho certo.
Kiba chorou de alegria. A alegria de saber que deixara a infância definitivamente para trás e dava um passo milagroso para frente. A alegria de quem esteve em um ponto além dessa vida e voltara para dar continuidade a tudo que começou a construir. Para começar coisas novas. Para lutar pela chance de ser feliz.
Ele não chorou sozinho.
Ele nunca mais precisaria enfrentar algo sozinho.
