Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 43
A cor que conjuga o amor
— Tadaima! — Kiba exclamou ao entrar no apartamento de Shino. Ou melhor, no apartamento deles. Tirou os tênis no genkan e nem calçou os surippa. A caixa em seus braços estava mais pesada do que admitia (para horror de Shino, que não achava prudente alguém recém-liberado do hospital fazer esforço).
No fim das contas, acabou carregando mais coisas do que planejara. E precisaria de mais uma viagem até o carro para dar conta! Não trouxera apenas a roupa e o console de videogame. Lembrou-se da coleção de álbuns de figurinhas dos Konoha's Angels! Todos, desde que ganhou o primeiro aos cinco anos, completinhos!
Havia a... Hum... Didática e preciosa diversidade de revistas... Instrutivas... Que mantinha debaixo do colchão, a salvo de possíveis traças (e das vistas da mãe), que ficariam ótimas debaixo do colchão de uma cama de casal como a que usaria dali para frente. E a caixa de madeira, onde escondia os troféus de todas as aventuras; chamadas carinhosamente de "traquinagens" por Tsume.
Kiba gostava de guardar algo como prova de que conseguiu seguir com o plano! Exceto quando davam errado, tipo tentar invadir o banho público para Alphas, acampar na escola durante a noite num teste de coragem informal, estragar o Valentine's Day porque nem ele nem Naruto ganhavam sequer um chocolatezinho... Planos fracassados assim não valiam a pena ter um troféu.
Foi depressa colocar a caixa sobre o sofá e estranhou um pouco. Alguém dobrou um cobertor e o colocou sobre um travesseiro, bem no cantinho do estofado; obviamente usando-o como cama.
— Shino...? — Perguntou para o Alpha que entrava naquele segundo, carregando duas grandes sacolas de viagem.
— Meu pai está dormindo na sala. — Ele explicou ao colocar as sacolas ao lado da caixa de Kiba.
— Por quê? Nós temos um quarto de hóspedes! — Mal disse aquilo e as bochechas coraram. "Nós temos"...
Shino ajeitou os óculos no rosto e suspirou.
— Não temos mais... — Soou misterioso, atiçando a curiosidade do companheiro. — Venha comigo.
Kiba nem pensou em questionar. Seguiu, junto com Shino, até o corredor dos quartos, ambos ficavam lado a lado. Então o Alpha fez um gesto, indicando que ele devia abrir a porta. E foi o que ele fez.
Entrou no quarto de hóspedes para ser surpreendido por uma das visões mais lindas que poderia ter. O quarto estava todo pintado de lilás clarinho (Kiba ficou muito feliz por poder enxergar em cores!). A cama de antes foi trocada por um delicado berço em um tom de lilás e branco que combinava bem com o das paredes. Um bonito guarda-roupa infantil estava na parede oposta, fechando o cenário principal.
Kiba deu um passo à frente e pisou sobre o carpete felpudo. Baixou os olhos encantado com a macies e o tom clarinho que trazia calma.
— É o quarto de Masako. — Shino entrou logo após Kiba. — Sua mãe deu o guarda-roupa. Hana deu o carpete, meu pai nos presenteou com o berço. Ino pagou pela pintura do quarto e Naruto... — Caminhou até o guarda-roupa e abriu uma das portas, mostrando uma pilha de roupinhas.
— Caralho! — Foi tudo o que Kiba conseguiu dizer.
— Seus amigos do Colégio. E os meus colegas da faculdade. — Shino apontou vários pacotes de fraldas descartáveis arrumadas em pequenas pilhas no cantinho do quarto, junto com algumas sacolas plásticas cujo interior não era visível. — Acho que fizeram uma campanha.
— A gente nem teve tempo de pensar nessas coisas! — Kiba aproximou-se do berço e ajeitou uma das almofadas. Podia imaginar a filha dormindo ali perfeitamente. Os presentes só o fizeram perceber quanto apreço as pessoas nutriam pelo casal. Precisava agradecer a todos.
— Eu escolhi a cor do quarto. — Shino confessou um tanto ansioso.
— Ficou perfeita, Shi... Ee? Como?! Conseguiu ver cores longe de mim? Nem perto você conseguia! — O choque na voz do garoto era perceptível.
— Não... — O Alpha parou ao lado dele. — Quando fui com Ino encomendar a tinta, a funcionária me mostrou uma palheta especial. Disse que eu devia sentir cada tom e deixar o lado Alpha decidir.
— Porra... — Kiba não resistiu a inclinar-se um pouco e recostar-se no ombro do namorado. — Acertou pra caralho, Shino. Ficou perfeito.
— Ainda não arrumei tudo. — Shino falou baixinho. — Estava esperando você chegar para fazermos isso juntos.
A revelação animou Kiba. Ajudar a arrumar o quarto da filhotinha trouxe grande emoção.
— Porra... — O palavrão deu a impressão de escapar. Não era comum vê-lo sem palavras, fato que mostrava quão feliz o Ômega se sentia.
— Vou encomendar alguma coisa. Depois do almoço, se não estiver muito cansado, podemos começar a arrumar as suas roupas e o quarto de Masako.
— Claro! — Kiba concordou mais do que depressa. Cansado?! Ele passou meses no hospital, se recuperando. Reuniu energia demais para gastar. Teve certeza que não se cansaria tão cedo.
E ele acertou em cheio. Depois de uma refeição reforçada se dedicaram a ajeitar o que faltava no quarto do bebê (Kiba garantiu que aquilo era mais importante do que as próprias roupas). Era noite quando Shibi voltou para o apartamento e flagrou o casal terminando a tarefa: além de algumas roupinhas, encontraram baldes de lenço umedecido, escova de cerdas extra macias, algodão, cotonete... Vários pequenos itens que ajudariam na rotina de cuidados, que não tiveram tempo nem cabeça para pensar; mas com que, graças aos grandes amigos que tinham, já não precisavam se preocupar.
O que restava do mês de março passou tão depressa que pareceu "voar", levando o frio consigo. A cada dia a primavera chegava perceptível e nada tímida. Os dias se alongavam, mais abafados e aprazíveis.
Nem deviam ter se preocupado com adaptação. Kiba sentiu-se tão à vontade como se sempre tivesse morado no apartamento. Já sabia o lugar de cada coisa e agia com toda liberdade possível. Aos poucos tudo ia encaixando em seus devidos lugares.
Cada visita a Masako trazia a certeza de que a menininha rumava para a alta muito em breve. Exames de rotina afastavam e diminuíam a taxa de sequelas. Os resultados provavam que era uma Alpha que crescia saudável. Fosse pelas características da casta ou pelo elo que tinha com os pais, ou quem sabe, a condição de ambos serem raras Almas Gêmeas... A ciência ainda não explicava, apenas comemorava o caso milagroso indo a termo em tão boa expectativa.
A prova disso era o burburinho que os artigos da editora Uchiha vinham causando na comunidade científica, despertando o interesse de estudiosos e pesquisadores não apenas de Konoha. Shino já não podia ignorar os contatos insistentes que o procuravam via e-mail e telefone. Teria que respondê-los em algum momento.
O próprio Sasuke pediu uma reunião com o casal. Ele montou um esquete para o último artigo, o texto que fecharia o primeiro compilado e para o qual seria fundamental uma nova entrevista com o casal. A esse compromisso Shino e Kiba não podiam fugir, afinal. E não era como se quisessem.
Precisavam apenas de um tempo para organizar a própria vida, reconheciam que tal tempo foi cedido pela editora sem que o pedissem. Agora era hora de honrar a palavra dada. Pois se não fosse o acordo assinado e toda a assistência recebida, a história da família Inuzuka-Aburame poderia ter acabado de um jeito pouco feliz.
Havia também dois ou três cartões de emissoras locais querendo uma reportagem exclusiva sobre o caso. Algo mais voltado para a questão sensacionalista e exagerada de tabloides. A esses Shino fazia questão de evitar o quanto pudesse, ainda que algumas redes sociais tivessem notificado algo aqui e ali. Não com repercussão suficiente para incomodar o casal, felizmente.
E então abril chegou.
Trouxe consigo o esperado florescer da primavera, com árvores de cerejeira desabrochando em todos os cantos de Konoha, colorindo o ar com uma chuva encantadora de suas pétalas cor de rosa. O cenário de conto de fadas atraía as pessoas para o parque, onde faziam piqueniques ao ar livre com a família e os amigos. Oportunidade perfeita para comemorar mais um ciclo que começava.
Ciclo novo para muitos.
Shino completou o último semestre, formando-se com louvor e um ótimo currículo enriquecido através dos anos com as atividades extras que fazia e as horas de estágio a mais. Agora estava envolvido com os derradeiros trâmites da formatura e, em seguida, a busca pelo sonhado emprego que ajudaria a manter sua família.
Kiba, infelizmente, perdeu o ano letivo. Não poderia se formar com os amigos com o qual vinha estudando desde o fundamental, fato que não o entristeceu tanto assim. Mantinha contato com a maioria deles, via redes sociais. Tinha a promessa de sempre receber visitas (a maioria estava louca para conhecer o apartamento do qual ele se gabava tanto).
Shibi despediu-se do casal, infelizmente sem poder continuar a esperar a alta da netinha. Pôde visitá-la uma última vez, mas prometeu que voltaria assim que possível. Ele era um dos membros da equipe que viajava o mundo pesquisando a solução para a extinção das abelhas.
O navio que levava o time de cientistas esperava por ele, mas cada dia parado representava um gasto que comprometia o objetivo da viagem. Foi com o coração partido que precisou reassumir suas responsabilidades. Todavia tanto Kiba quanto Shino compreendiam aquilo.
O namorado de Hana surpreendeu e pediu a mão da jovem em casamento. E ela aceitou. Dariam uma festa de noivado no verão, um passo importante no relacionamento que vinha sem pressa.
E, por fim, no dia nove de abril, o desabrochar da flor mais importante na vida do Alpha e do Ômega que se descobriram Almas Gêmeas. Com três quilos e cem gramas, e cinquenta e dois centímetros, uma bela menina. Perfeita em todos os sentidos.
Quando Sakura assinou à alta, na privacidade do quarto de hospital, uma enfermeira veio trazer a filhotinha, que entregou com cuidado para o Ômega que a gerou. O coração do garoto bateu rápido e forte. Aquele pacotinho parecia tão frágil! E se derrubasse? E se não soubesse cuidar direito? E se...?
Todas as dúvidas desapareceram quando observou o rostinho que escapava por entre a manta cor-de-rosa. Masako tinha bochechas gordinhas! Sua filha era bochechuda! E os olhinhos se abriram e fecharam rápidos, mas o suficiente para que visse o quão escuros eles eram, de íris peculiar como as suas e as de Tsume, quase animalescos.
Sentiu em cada fibra de seu corpo, em cada músculo e terminação nervosa: seria capaz de cuidar da filhotinha. Amá-la e protegê-la de qualquer perigo, até mesmo da própria imperícia. Seus braços nunca fraquejariam. Jamais derrubaria aquela criança.
A promessa foi pontuada por cada lágrima que Kiba derramou, sem se preocupar em parecer chorão ou sensível como uma menina. Podia sentir que a emoção de Shino era igual ou maior do que a sua.
Mas ambos tinham direito. Estiveram muito perto de perder a filha, a preocupação e o medo ainda eram reais demais para libertá-los. Conquanto aquele fosse o último pranto trazido pela experiência ruim. Dali para frente que o destino lhes trouxesse apenas lágrimas de júbilo pelas vitórias que alcançariam.
