Olá! Espero que todos estejam bem, apesar da situação inédita que vivemos junto com nossos irmãos desse planeta confuso.

Estou em isolamento porque as escolas estão fechadas. Confesso que nos primeiros dias rodei como um pião arremessado e pouca coisa produtiva pude fazer. Ainda mais com uma filha enfermeira trabalhando exatamente com o problema que enfrentamos.

Mas olhar para o futuro e tentar pensar positivamente sempre foi um hábito que cultivei. Então, tomei fôlego para revisar esse capítulo e finalmente postá-lo. Sou grata a minha mestra Myriara pelo incentivo.

Espero que quem ainda esteja acompanhando me dê um alô, porque nessa altura do campeonato estou precisando mesmo de muita motivação para continuar postando. Sabe-se lá se já não perdi todos os meus leitores cuja paciência é tamanha, mas tem limite sempre.

Paz e saúde para todos vocês, mellyin nîn, e obrigada por tudo.

Sadie

Observação: Para quem está perdido, vamos nos lembrar que Elrohir está novamente nas garras de Ilida Gaila, tentando resgatar Gandaf do Aphrodisios. Thranduil foi salvo por Elladan depois de ser baleado e agora o grupo do acampamento do rei está indeciso sobre o que fazer. Glorfindel e Estel estão ausentes. Eles foram tentar conseguir sementes para o descampado que Elladan tornou fértil. Legolas ainda está preocupado com as últimas visões que teve e Thranduil está igualmente preocupado com uma em especial: O vulcão que está prestes a destruir a ilha toda. Qualquer dúvida, estou por aqui.

Observação2: Estou numerando as cenas porque às vezes o ffnet some com as linhas divisórias entre elas e o leitor fica perdido.


Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços

Congresso Internacional do Medo - Carlos Drummond de Andrade


116 – NO LIMIAR DO QUE PODE ACONTECER


*1*

Não era como Elrohir queria. E sentado agora, com o corpo displicentemente jogado em um sofá luxuoso, as pernas afastadas, a cabeça apoiada na parede atrás dele, era só naquilo que ele pensava. Era como se, por ele ter decidido que a visão de Legolas não se concretizaria, o destino resolvera debochar dele, mudando as peças, transformando os cenários.

Era aquilo. Ou talvez apresentar-se no Kostbar fosse apenas uma espécie de aquecimento para o show que precisaria dar no Aphrodisios. Se fosse isso, ele esperava que, pelo menos a apresentação na casa de leilões fosse apenas igual ao que sempre fizera e não precisasse transformá-la na performance, que achava que teria que dar no clube da megera.

Ilida não aprovara a ideia desde o início. E como Adam conseguira convencê-la foi algo com o que Elrohir julgou que fosse prudente não se preocupar. Pelo menos não agora. Se aquela mulher havia colocado a alma dele em leilão naquela casa noturna ou algo pior, ele preferia não saber. Já tinha sentimentos e motivos o bastante para querer dar um fim a qualquer lugar que tivesse um palco no qual precisasse subir. Não precisava que Ilida Gaila lhe oferecesse mais algum.

O que o preocupava era que, de uma forma ou de outra, independente do que o destino lhe reservasse ali para aquela noite, ele tinha que fazer o que mais odiava, tinha que fazer uma apresentação perfeita, uma apresentação que lhe garantisse a certeza de que Ilida o levaria ao Aphrodisios. Precisava saber como estava Mithrandir, e ir até lá era a única forma de tentar resgatá-lo.

Somado a isso, agora, havia um detalhe diferente naquele enredo. Um detalhe novo e inesperado que mudara o sentido de muitas coisas. O que o impressionava mais era que, mesmo tendo visto uma espada em suas próprias mãos na visão de Legolas, seu inconsciente havia lhe escondido a identidade dela até o momento em que fora parar nessas mesmas mãos. Talvez tivesse sido melhor assim. Não sabia se teria tido coragem de vir se soubesse que a reencontraria, que portaria novamente a Anglachel.

Na verdade, a presença dela, por enquanto, era o único sinal de que a visão de Legolas ainda poderia se concretizar. Mas era também um forte indício de que, se ele não se acautelasse, talvez a visão se efetivasse exatamente como o elfo louro lhe havia mostrado. E ele e a arma se uniriam como um só guerreiro, e ele sairia do Aphrodisios deixando um rio de sangue atrás de si.

Elrohir fechou os olhos, e um calafrio sacudiu-lhe o corpo. Se aquela apresentação que faria em breve não tivesse sido o único pagamento possível para ter a espada para si, Elrohir talvez houvesse convencido Ilida a não aceitar a proposta. Mas não podia se arriscar a ver a arma nas mãos de outro alguém, principalmente daqueles que estavam interessados em pagar por ela o preço que fosse.

Essa era outra incógnita que o perturbava. Quais seriam os planos daqueles canalhas para uma arma tão peculiar como aquela?

A porta se abriu então, e o sorriso largo de Adam Predrag apareceu.

"Confortável, Nattergal?" ele indagou.

Elrohir ajeitou-se no sofá. Usar as roupas de gala que lhe foram oferecidas e agir como um cãozinho bem treinado, a fim de não colocar nada a perder, fazia com que "confortável" fosse a última palavra capaz de descrever como estava se sentindo naquela situação. Ele apenas meneou a cabeça educadamente, acautelando-se em não proferir palavra alguma. Temia que seu espírito inquieto resolvesse dar voz aos sentimentos que tinha. Vontade não lhe faltava de mandar todo aquele circo para...

"Que bom!" Surgiu a figura de Ilida ao lado de Adam, fazendo com que Elrohir engolisse o complemento daquela frase, ainda que mentalmente. Olhando para aquela mulher, ele não conseguia mais encontrar nada à altura para completá-la.

Ele se ergueu automaticamente ao vê-la. Aquele sempre fora o instinto de defesa que o movia quando próximo a ela. Tinha seus motivos. Contudo, esteve notando ultimamente que, diante de Adam, por alguma razão, Ilida não parecia à vontade para demonstrar como tratava seu animalzinho de estimação.

Elrohir sentiu-se grato, por isso, pelos dois dias que passara hospedado no Kostbar para sua segurança, e pela ausência dela durante esse período. Mal sabiam eles que o mal do qual julgavam o estar protegendo, nem se comparava ao que aconteceria se estivesse no Aphrodisios, onde Ilida Gaila era quem ditava todos os rumos.

Ilida ergueu as sobrancelhas ao vê-lo e logo se achegou, enroscando seu braço ao dele e alisando seu terno muito bem cortado.

"Você está maravilhoso! Ainda que escolhendo o preto de novo. Até a camisa desta vez? Você parece gostar dessa cor, não é?" ela disse, aproveitando a proximidade para olhá-lo bem nos olhos. "Sinto uma pontinha de insatisfação por saber que cantará nesse lugar mais canções, em uma única noite, do que já cantou no Aphrodisios."

"Ora, minha deusa!" Adam achegou-se também, tomando a mão livre da mulher e pousando nela um rápido beijo. "Sabe que tempo é dinheiro para nós aqui no Kostbar. E pelo que conversamos, creio que já deve ter compreendido que espécie de clientes estou reunindo aqui esta noite."

"Sim, sim." Ilida afastou-se, olhando Elrohir por sobre o ombro. "Pessoas ilustres, Nattergal," ela disse, andando devagar até o sofá que o elfo abandonara. Ela sentou-se e cruzou charmosamente as pernas. "Não tão diferente dos meus clientes do Aphrodisios," terminou, puxando a carteira de cigarros.

Adam ergueu os olhos para o céu discretamente. Depois deu uma piscadela para Elrohir, a seu lado. "Notou o tom enciumado? Você é mesmo uma preciosidade, Nattergal!" Ele riu, dando um amistoso tapinha nas costas do gêmeo.

Dessa vez Elrohir não fez nem um gesto sequer para demonstrar compreensão, ou aceitação, ou satisfação, ou o que quer que aquele homem estivesse desejando receber como retribuição ao elogio barato que fizera. Sua atenção estava em Ilida Gaila, cujo tom e semblante, inexplicavelmente, despertaram-lhe instintos que há algum tempo não sentia. Ela ainda permaneceu com seus enigmáticos olhos bem azuis focados nele, enquanto soltava fumaça pelos lábios entreabertos, depois olhou para outro lugar, como se tivesse percebido a reação do elfo.

"Temos ainda quarenta minutos, talvez mais," Adam disse, consultando o relógio de pulso e esfregando as mãos. "Acho que vou dar uma volta entre as mesas para assegurar-me de que tudo está bem. Se não precisa de nada, obviamente, Nattergal."

Elrohir respirou fundo, depois sacudiu negativamente a cabeça.

"Sou-lhe grato, Adam," lembrou-se dessa vez de dizer, esperando que aquele maldito agradecimento servisse para todas as outras vezes que o dono do Kostbar tivesse julgado necessário.

"Não por isso, meu caro," Adam ainda disse, antes de oferecer uma piscadela galanteadora para Ilida e sair porta a fora.

Ilida continuou onde estava, olhando Elrohir dos pés à cabeça.

"Você está mesmo muito bonito," ela disse, enfim. "Surpreendeu-me sua disposição em vestir-se assim sem qualquer queixa."

Elrohir franziu levemente a testa, esperando ter descoberto de onde vinha o olhar de desconfiança que a mulher vinha portando desde que entrara naquela sala.

"Não quero envergonhá-la," ele disse.

Ilida soltou um suspiro breve. "Já usou essa justificativa para mim uma vez. Lembra-se?"

"Não me lembro de todos os momentos nos quais digo a verdade."

Ilida ergueu o queixo. Levantando-se e se aproximando. Estava muito bem trajada, em um vestido justo, cor de prata e saltos que a faziam ficar praticamente da mesma altura do gêmeo.

"E das vezes que mentiu? Lembra-se?" Ela parou a poucos centímetros dele.

Elrohir deixou-se analisar por aquele par de olhos desconfiados por um tempo, depois estalou a língua.

"Que jogo é esse agora?" Ele resolveu não ficar na defensiva, posição que, particularmente, nunca fora sua favorita. "Vai me dizer o que a está aborrecendo, ou vou ter que ficar plantado aqui tentando descobrir o que você acha que fiz de errado desta vez?"

Os olhos dela brilharam, como Elrohir imaginava que aconteceria. A última coisa que Ilida Gaila aceitava eram rompantes mal-educados como o que ele acabara de encenar. Entretanto, ao contrário do esperado, ela não demonstrou a insatisfação que sempre demonstrava, quando ele a enfrentava daquela forma. Apenas estreitou os olhos e moveu o rosto sutilmente, parecendo buscar algo no semblante do elfo.

Aquilo o incomodou mais do que se ela tivesse explodido. Ela buscava por algo. Elrohir percebeu aquilo, e outros perigos. Alguma coisa estava incomodando aquela mulher e não descobrir o que era talvez fosse um erro. Ele soltou um suspiro fraco e baixou os olhos. Estava em um momento complicado demais para tal conflito.

"Está aborrecida por eu ter aceitado cantar durante uma noite inteira?" ele arriscou.

"E se estivesse? Não teria razão? Você nunca fez isso no Aphrodisios."

"Você sempre preferiu assim. Dizia que eu era o "brinde" do final da noite." Ele usou de uma veemência forçada para dizer aquilo. "Mas pelo que compreendi uma canção apenas já era o bastante para que aquelas pessoas "assinassem os tais papéis" que você precisava. Quantos estão lá fora hoje para que seja necessário um número maior de canções?"

Ilida estreitou mais os olhos e suas sobrancelhas envergaram. A insatisfação estava agora desenhada na face dela.

"Acreditou naquela história mesmo? Acha que tem tal poder, Nattergal?" completou, chamando-o pelo nome que ela mesma lhe dera, mas nunca usava quando estavam a sós. Dessa vez, a ironia com que o fizera não disfarçou a indignação que sentia.

"Não sei. Você me fez acreditar em muitas coisas sobre mim mesmo que eu duvidava. Talvez fossem apenas elogios ao vento," ele disse e se afastou dela, colocando-se na frente do espelho para ajeitar os botões do paletó. "Talvez fosse mesmo tudo fantasia minha, ou nossa, e Adam saia daqui hoje apenas com uma grande decepção."

A insinuação silenciou Ilida, incerta se compreendera o que o rapaz queria dizer. Na verdade, não conseguia saber se aquilo era uma provocação ou uma promessa.

"Você não faria isso. Não seria louco o bastante," ela disse, quando conjecturou qual poderia ser o plano do rapaz.

Elrohir olhou-a através do reflexo no espelho.

"Louco?" ele indagou com um leve sorriso. "Louco é meu nome de guerra."

"Meu Senhor, Rouxinol!" Ilida aproximou-se o quão rápido seu justo vestido lhe possibilitou. "Não se atreva! Você não faz ideia do que Adam é capaz. Não se iluda com o ar conciliador dele."

Elrohir moveu os olhos para os botões que ajustava e seus ombros sacudiram em um riso casual.

"Parece que você é cercada de pessoas capazes de fazer coisas que eu nem imagino," ele ironizou. Já que tinha que participar de um circo todo, que fosse um circo em chamas. Ele deixou aquele pensamento insano tomar-lhe a mente, ainda que por um instante, enquanto terminava de ajeitar as vestes. Não precisava de espelho algum para isso. Na verdade, detestava espelhos, sempre tivera seu próprio espelho onde quer que fosse, um espelho que mostrava uma imagem de alguém a quem ele sempre admirou.

A súbita lembrança de Elladan, porém, pegou-o no contrapé, e uma série de recordações surgiram sem que ele tivesse como evitar. Estava tão cheio de sentimentos contraditórios, receios e revoltas. Atrás dele, Ilida destilando todo o seu discurso venenoso, repleto de palavras nas quais ele não queria prestar atenção alguma, só o enervava mais. A imagem do irmão fora um péssimo destino para a linha de pensamento na qual ele estava tentando se apegar. Ilúvatar, aquela mulher não ia parar de falar nunca?

"Você está me ouvindo?" Ilida questionou, enfurecida com o descaso dele, e o virou brutalmente para ela. Quando o olhou, no entanto, seu rosto ganhou um ar intrigado. "O que foi? Por que seus olhos estão marejados?"

"Não foi nada." Elrohir aborreceu-se, soltando novamente os botões do paletó e se jogando no sofá. Ao inferno as aparências, ele odiava tudo aquilo. Como pudera acreditar que seria capaz do que intentava? Devia se julgar muito poderoso mesmo, fazendo uma insensatez daquela. Quem ele pensava que era? O que estava fazendo ali? Elbereth, deixara o irmão desacordado. Deixara seu pai abatido, sem uma palavra de consolo ou apoio. Pior que isso, teria partido sem informar seu destino, se Glorfindel não o tivesse encontrado. Que espécie de irmão, que espécie de filho, que espécie de pessoa ele era?

"Rouxinol?" Ele a ouviu chamá-lo por aquele nome maldito novamente e aquilo só o enervou mais. A sensação do que estava para acontecer, quando saísse por aquela porta, somava-se a seus outros conflitos. Ele fechou os olhos, tentando ignorar as fraquezas que sentia, as dúvidas que continuavam surgindo. Tinha que se apegar ao que o movera para ali, por mais absurdo que fosse. Ele precisava acreditar que funcionaria. Precisava se apegar às coisas que ainda tinha que fazer. Vivia um pesadelo no qual entrara por vontade própria. Não podia se esquecer disso.

Preso naquele mantra que repetia mentalmente, ele não percebeu a chegada de Ilida. Ela estava sentada a seu lado agora, olhando com um misto de desconfiança e preocupação.

"Você não parece bem. Algo me dizia que essa ideia não era boa."

Elrohir só sacudiu a cabeça, mas continuou na mesma posição.

"Eu estou bem."

"Está zangado. Mais do que já o vi zangar-se."

"Tenho motivos."

"Eu sei, mas não quero pagar por eles. Nem quero que Adam pague."

O comentário fez Elrohir reabrir os olhos, voltando-os para Ilida.

"Por que aceitou o convite de Adam?" ela indagou, bastante séria. "Sei que odeia apresentar-se de forma forçada assim. Não acredito que o tenha feito apenas por uma espada. Ainda acho que quer o gosto de tirar a arma daqueles velhos. Acredita mesmo que isso vai fazer diferença para eles? Por certo estão lavando dinheiro roubado, como todos metidos na política. Amanhã encontrarão outra peça rara para comprar."

"Podem comprar o que quiserem. Menos minha espada..." ele desafiou baixinho, quase para si mesmo, desviando os olhos para a porta do camarim.

Ilida torceu os lábios, pouco satisfeita.

"Sabe que, se prejudicar a apresentação de hoje, aquela espada será de qualquer um, menos sua. Se irritar Adam, ele será capaz até de dá-la aos velhos só para se vingar de você. Eu o conheço bem."

Elrohir soltou um pouco a cabeça nas costas do sofá, fechando os olhos com um suspiro forçado. "Não vou fazer nada de errado. Não se preocupe," ele assegurou.

"Está zangado demais para que eu possa acreditar no que me diz. Eu conheço você. Já vi do que é capaz. Não o quero brincando com os sentimentos do público de Adam como fazia com meus convidados."

"Eles não se queixavam..."

Ilida bufou em desprazer. "Não se queixavam, mas nunca mais voltavam."

Elrohir ergueu intrigado a cabeça e dessa vez foi Ilida a olhar para outro lugar qualquer, como quem não deseja falar do assunto tratado.

"Alguns não voltavam," ela esclareceu mesmo assim. "O Aphrodisios é um lugar para fortes. Se você amolece o coração deles, eles simplesmente não conseguem se encaixar no que... no que é preciso fazer," completou, ainda com o rosto virado para o outro lado.

Aquela era uma revelação surpreendente, mais ainda pela sensibilidade e visão que Ilida demonstrava ter ao perceber o que se passava. Quando ela o olhou novamente, ele notou que havia algo mais além de desconfiança e insatisfação em seu olhar. Ela parecia magoada.

"Não quero que faça isso nunca mais. Cantar para aquelas pessoas, dar a elas aquela sensação de prazer, como você fazia, era o que as trazia de volta. Era o que as fazia querer mais e mais. Mas aquela... aquela última canção à capela... Aquilo não foi justo. Custei a perceber o porquê de muitos dos meus convidados nunca mais cruzaram as portas do Aphrodisios depois daquilo. Você os deixou com uma sensação que... Eu não sei explicar..." ela disse, virando novamente o rosto, os olhos perdidos como se revivessem aquela cena. "Ficavam me pedindo para que organizasse um evento com você em algum lugar, ofereciam-me fortunas, sentiam falta de ouvir sua voz, mas não queriam mais fazer parte dos negócios."

Ilida parou um instante, abalada com o que acabara de dizer. Ela apanhou a bolsa que estava jogada sobre o sofá, puxando de dentro dela a carteira de cigarros.

"Miseráveis," disse por entre os dentes, acendendo um deles e dando uma tragada. Quando expeliu a fumaça, Elrohir sentiu que ela queria expelir algo mais. "E eles nem sabiam que você havia me abandonado..."

Enquanto Ilida mais olhava para o cigarro em sua mão do que o trazia aos lábios, Elrohir ficou em silêncio, lidando com a inesperada informação que recebera. Ela levantou-se então, com um suspiro impaciente, e deu alguns passos até uma mesinha próxima. Lá amassou o cigarro em um cinzeiro e puxou da bolsa um estojo de pó facial, verificando a maquiagem no pequeno espelho. Ainda parecia menos satisfeita.

"Está quase na hora." Ela consultou rapidamente o relógio de parede, depois respirou fundo, olhando-o a com o canto dos olhos. "Quero sair daqui com sua palavra de que hoje vai ser diferente. Porque se não for assim, Rouxinol, eu juro pelo que você quiser, que vou colocar todos os seus planos a perder e entregar em mãos essa maldita espada para Harald Weald. Vou fazer isso mesmo que perca a amizade de Adam para tal. Talvez eu até entregue sua cabeça com ela, dependendo do que você me aprontar."

Elrohir a encarou de volta. Em sua mente aquelas ameaças não eram novidade, mas todo o desabafo dela esclarecia o motivo do desconforto que demonstrava, com a ideia de levá-lo de volta ao Aphrodisios. Ilida nutria agora o receio de reviver uma sensação de abandono. Somado a ele havia uma desconfiança indigesta que crescia. Ela era muito astuta, e com o convívio dos dois, também aprendera a conhecê-lo, a ler-lhe as atitudes e até mesmo prever seu comportamento. O risco crescia cada vez mais.

Ilida continuou parada, espalhando pó pelas faces como quem não se importa com seus arredores. A força com que sua mão segurava o pequeno recipiente, no entanto, dizia muito sobre como ela se sentia.

Elrohir analisou tudo o que ouvira e a situação na qual estava. Julgando que talvez aquela apresentação não fosse o único obstáculo que o separava da entrada do Aphrodisios. Ele se levantou então, optando por uma manobra que sempre tinha seu risco. Baixar sua guarda. Fora assim as poucas vezes que conseguira convencê-la. Ele caminhou lentamente para perto dela e, pela primeira vez, percebeu que era Ilida agora quem se intimidava com a aproximação dele. Ela nem sequer o olhou, continuando a ajeitar uma maquiagem que parecia perfeita.

Ele parou então ao lado dela e, notando a defensiva na qual ela parecia querer continuar, tomou-lhe gentilmente o recipiente das mãos, para conseguir sua atenção. Mesmo assim ela não o olhou mais.

"Lamento muito tê-la feito sentir-se assim," ele disse, olhando seu reflexo no pequeno espelho e fechando o estojo em seguida. "Mas eu não a abandonei. Você sabe disso. Eu tinha dado minha palavra de que trabalharia para você."

Ilida apenas apertou os lábios, soltando um suspiro fraco.

"Trabalharia..." ela repetiu por entre os dentes. "Era só por isso que não cruzava aquela porta e ia embora? Porque me deu sua palavra?"

Elrohir pensou no que responder. Sabia o que ela esperava dele, ou talvez não esperasse de fato, mas ansiava em seu íntimo que ele dissesse. Ela sempre cobrara dele uma prova genuína de afeto. Algo que o elfo ainda se sentia incapaz de oferecer, mesmo na melhor de suas encenações.

"Não era..." ele apenas disse e ela voltou a olhá-lo nos olhos, esperando que a frase tivesse um complemento que no vocabulário dele não existia para aquela situação. Ele baixou os olhos então, devolvendo a ela o pequeno estojo. "Não gosto de espelhos..."

Ilida franziu a testa, tombando a cabeça para o lado como se não tivesse compreendido. Depois olhou o objeto que costumava guardar na bolsa, ainda sem entender.

"Desse tipo?"

"Qualquer um," ele respondeu, movendo o queixo para o grande espelho no qual se mirara há pouco. "Por isso estava zangado. Me incomodo toda vez que tenho que me arrumar e checar se está tudo bem diante de um espelho. Ultimamente tem sido um pouco pior. Não se preocupe, não vou estragar a noite de Adam, nem a sua."

Ilida olhou na mesma direção, mas suas sobrancelhas continuaram encurvadas. Aquilo deu a ele um pequeno alívio, sentir que conseguira focar a mulher em outra sensação qualquer que não aquela que ela estava querendo explorar. Sabia que, em certas ocasiões, a verdade que se pode revelar acaba sendo a melhor saída. Sempre achara que toda grande farsa só seria convincente se houvesse nela um pouco de verdade.

Ela continuou olhando o espelho de pedestal por um tempo, depois torceu os lábios e seu rosto tornou a ganhar aquele ar de insatisfação que estivera desenhado nele por quase toda a tarde. Sua mente ainda parecia estar na pequena discussão inacabada, o que trazia a ela um aborrecimento difícil de disfarçar. Ela soltou os ombros, jogando enfim a caixa de volta a seu lugar em sua minúscula bolsa.

"Você sempre teve manias estranhas," ela afirmou descontente, afastando-se em direção ao pequeno bar de canto e analisando, com proposital displicência, o que havia ali. Era uma estratégia que Elrohir ainda não a havia visto tomar. Fugir de um combate, afastar-se sem todas as respostas que queria. Ela apanhou uma garrafa de um vinho claro e serviu-se. Não parecia realmente disposta a beber, mas sim mostrar-se desinteressada de seus arredores.

"Você me perguntou o que havia de errado," ele lembrou, sem sair de onde estava. "Estou esclarecendo. Não tem nada a ver com o espetáculo de hoje. É só uma coisa pessoal."

Ilida bufou, fechando os olhos como se a insistência naquele assunto fosse uma gota a mais em um copo já transbordando. "Quer saber?" ela perguntou, olhando-o por sobre o ombro. "Estou cansada disso tudo. Não precisa mentir mais para mim. Nem se preocupar. Não vou tomar a sua espadinha. Ela estará no palco, em um belo pedestal, só para lembrá-lo da recompensa pelo seu esforço. É só fazer exatamente o que combinou." Ela parou um instante, tomando um pequeno gole, depois pressionou o maxilar, parecendo tão insatisfeita com o gosto da bebida, quanto estava com todo o resto.

"Estou tentando lhe dizer a verdade. Mas desde que cheguei, o que lhe digo parece não convencer você."

"O que esperava, depois do que você fez?"

Elrohir sacudiu a cabeça.

"Mulher teimosa. Quantas vezes vamos voltar ao mesmo assunto?"

"Não ouse me chamar assim." Ilida bateu o copo no bar e se virou para ele.

Elrohir esvaziou o peito, quando sentiu toda a ira que havia nela. Estavam em um ir e vir de conflitos cada vez mais perigoso. Tudo o que ele pensava era que estava caindo em um buraco sem fundo. Só esperava que o preço valesse à pena. Havia outra informação agora a importunar sua mente: Elbereth, a espada estaria ali. Ao alcance de sua mão.

"Não gosto de espelhos," ele repetiu e quando ela girou os olhos, irritada, ele ergueu um pouco o tom, falando mais pausadamente. "Não sei se é uma mania minha. Não gosto porque quando olho para eles não é a minha imagem que vejo," ele esclareceu e quando os traços dela demostraram a surpresa da compreensão, ele se arriscou a continuar. "Estou cansado do peso das perdas que tivemos e confesso que tenho medo do que está por vir. Não sei se quero me envolver, mas acabo tendo que fazê-lo e isso me deixa insatisfeito."

Ilida ponderou o que ouviu, olhando-o como se buscasse qualquer sinal de que estivesse mentindo, ou representando uma cena triste para comovê-la. E Elrohir, diante da força que ela demonstrava quando convicta, deu graças por aquele sentimento genuíno que lhe escapara. Ele se deixou levar por ele, e a saudade do irmão, fielmente retratada em todo o seu ser, acabou por ser sua salvação. Ela soltou um suspiro, depois balançou a cabeça.

"Ninguém obrigou você a se envolver hoje. Eu não entendo o que essa espada..."

"Eu conheço a espada." Elrohir foi mais longe na trilha perigosa que percorria. "Eu já a vi antes. Alguns dizem que já pertenceu a minha família, mas eu nunca tive provas disso. Não a quero nas mãos daqueles desgraçados."

Ilida voltou a franzir o cenho. A mesma mistura de sentimentos que vinha demonstrando voltou a surgir na face dela. Ele não podia culpá-la. Não depois de tudo o que acontecera. Aquela era uma história muito estranha.

"Essa espada valiosíssima?" ela indagou em descrença, estreitando os olhos e se aproximando novamente. "Pelo que sei ela tem mais de mil anos."

"Ela tem bem mais que isso," Elrohir apenas disse, olhando para o chão agora e se questionando até onde podia ir. Dali para frente pisaria em solo ainda mais perigoso, precisava acautelar-se.

Ilida ergueu as sobrancelhas, ainda mais intrigada.

"O que quer dizer com sua família? Um ancestral seu distante?" ela indagou e dessa vez ele apenas assentiu, esperando não ter que se aventurar naquela narrativa a ponto de ser obrigado a distorcê-la, como já fazia com quase todas as histórias que contava a ela.

"Como sabe que é ela? Já a viu em algum quadro ou fotografia?" ela questionou então, movendo a cabeça para encontrar os olhos dele. Tinha adquirido aquele hábito desconfortável de sondá-lo a cada frase, parecendo duvidar de absolutamente tudo o que ele dizia.

Ele voltou a assentir, mas dessa vez ela torceu os lábios, desconfiada do que estava por trás daquele silêncio.

"Disse que seria sincero. Por que estou sentindo que não está sendo?"

"Estou dizendo a verdade," ele tentou ser mais enfático, olhando para ela como ela gostava que fizesse. "Só me sinto desconfortável. Essa espada tem uma história em minha família. Posso contá-la um dia a você, embora ache que não vá lhe agradar."

Dessa vez as linhas de desconfiança se desfizeram no rosto dela, e Ilida o olhou com curiosidade.

"Parece falar dela com remorso... até raiva."

Elrohir sentiu um calafrio. "Há um pouco de tudo isso," admitiu, decidindo não se intimidar, confiar em seus instintos. "Mas mesmo que se interesse em saber, essa é uma história muito longa para que eu lhe conte agora."

Ilida franziu novamente o cenho, avaliando os traços de Elrohir. Suas intenções ainda não estavam claras para o gêmeo. Isso o preocupava.

"Dez minutos, Senhor Nattergal!" alguém informou do outro lado da porta, sobressaltando os dois.

Elrohir respirou fundo. Aquela mistura de sensações o preenchendo novamente.

"Tenho dez minutos para convencê-la... Não sei se é tempo suficiente," ele disse.

Ilida ainda o encarou com firmeza, depois balançou a cabeça.

"Não é," ela afirmou. Então deu um passo à frente, eliminando a distância entre eles. "Você é cheio de mistérios. Acho que vou precisar de uma vida inteira para compreender você. Será que vamos ter tanto tempo assim?"

Pego dessa forma, sem nenhuma máscara, Elrohir quase pôs tudo a perder. Ele apenas moveu a cabeça positivamente, mas seu rosto era tão inexpressivo quanto o de Ilida, como se estivessem blefando em uma mesa de pôquer.

Ela ainda virou sutilmente a cabeça, encarando-o com o canto dos olhos mais uma vez. Apesar da força que ele sentia nela, podia perceber que o espírito da mulher ainda estava em conflito. Ela queria acreditar nele, mas ainda não encontrara algo realmente sólido no qual estruturar essa confiança.

"Pelo menos você voltou pra mim," ela disse enfim, forçando um sorriso sutil e enigmático. "Alguns dos que estão naquela plateia hoje duvidaram disso, sabia? Vou apreciar vê-los perceber o quanto estavam enganados. Esse vai ser meu verdadeiro lucro por permitir que você trabalhe em favor de outra pessoa hoje."

Elrohir intrigou-se com mais aquela informação, porém Ilida apenas se aproximou de seu ouvido e sussurrou-lhe:

"Hoje nós dois vamos surpreender, Rouxinol. E vou provar a você que ninguém me governa. Nem aqueles velhos malditos, nem ninguém." Ela olhou-o nos olhos mais uma vez. "Entre essas pessoas que mencionei, Basir Karim estará em uma das mesas, pronto para apreciar sua apresentação impecável e descobrir que o que é de Ilida Gaila, não é de mais ninguém," ela acrescentou e ignorou o ar surpreso do rapaz, limitando-se a cobrir-lhe os lábios com um beijo rápido, como quem marca um território, antes de se afastar.

"Break a leg," ela ainda disse, já diante da porta aberta. "Não é assim que se deseja boa sorte no teatro?" acrescentou com um olhar que Elrohir não conseguiu interpretar. "O assistente de palco virá buscá-lo, não se preocupe."


*2*

Legolas estava sentado agora em um dos cantos da câmara de cura. Os olhos semicerrados vez por outra queriam ajudá-lo a ceder para o cansaço extremo que aquela torrente de emoções lhe trouxera. Mas ele os fechava apenas para reabri-los em seguida. O corpo ansiava pelo descanso, mas o espírito ainda desacreditava ser aquele o momento adequado.

E não era. E o momento adequado talvez não chegasse mais. Era por aquele motivo que seu coração ainda parecia acelerado, como estava desde o começo. Ele revia todas as cenas do passado próximo em busca de pistas, de explicações, de provas que o fizessem retirar de dentro de si aquela angústia de um jogo pausado, cujo acionar da nova etapa cabia a alguém cuja identidade ele não ousava questionar.

No meio daquelas imagens revistas, a cena do dramático, mas espetacular ressuscitar do pai, era a que se repetia incansáveis vezes. A esta se seguia a sensação terrível que lhe sucedera então; a de que seu corpo pesava toneladas, e de que, mesmo se usasse todas as suas forças seria incapaz de mover-se ou sequer manifestar sua alegria com a força e intensidade com que a mãe o fizera.

Em seu íntimo, aquela, no entanto, era a única realidade cuja razão ele não questionava. Não precisava fazê-lo. Ele sabia o que o impedira. Conhecia bem a sensação de culpa que o deixara ali, à sombra de um momento de estupenda emoção.

E à sombra ele permaneceu, mesmo com o desvendar intrigante do papel de Elladan. Mesmo quando a alegria daquele momento deu lugar ao sentimento de angústia que a pouca compreensão dos fatos trouxe aos demais. Mesmo assim ele não se moveu, mesmo assim ele não se manifestou. Nem se lembrava como chegara aquele lugar onde estava, sentado de costas contra a parede fria da câmara de cura, tendo como única sensação a mão firme de Danika ainda segurando a dele. Ela já deixara de olhá-lo há algum tempo, tentando, talvez como ele, entender o pouco que as últimas ocorrências trouxeram de informação. Danika fora quem o acolhera e era ela que ainda estava ao lado dele, sentada, sem qualquer restrição, naquele chão frio da caverna, a cabeça apoiada no ombro dele.

Elladan já estava de volta a seu leito, os olhos novamente fechados. Para sua surpresa, fora o próprio Thranduil a trazê-lo. Ele insistira, talvez por notar o extremo abatimento de Elrond, talvez por gratidão, Legolas não conseguira interpretar. Apenas acompanhara os passos do pai, que lançara a ele um olhar bastante breve e bem pouco significativo no percurso, limitando-se a acomodar, com a ajuda de Elvéwen, o jovem curador da melhor forma que podiam. Celebrían e Elrond os acompanharam, o braço da elfa envolto firmemente no do marido.

Pararam então todos nos lugares no qual estavam. Elrond ainda o olhou preocupado, mas a mera sensação do arqueiro retribuir-lhe o olhar pareceu bastar ao curador, cujas preocupações ainda lhe desenhavam os traços da face.

Era como um pesadelo, do qual não havia absoluta certeza de se ter despertado.

Thranduil passou por ele com outro breve olhar. Havia ouvido a chegada de alguém na entrada da caverna e adiantava-se para encontrar o capitão da guarda, cuja voz reconhecera. Elrond apanhou sua arma e o acompanhou. Parecia tão pouco inclinado a julgar a questão encerrada, quanto estava Legolas. Ao passar por ele e percebê-lo dispor-se a levantar-se e acompanhá-lo, o curador, porém, balançou a cabeça negativamente.

Elvéwen foi quem se aproximou. Deixando Celebrían ter um momento com o filho desacordado, ela viera em busca do dela.

Ao vê-la, Danika apertou levemente a mão de Legolas e a soltou, levantando-se e retribuindo o sorriso sereno de Elvéwen antes de ir ficar ao lado da mãe.

Legolas acompanhou aquelas cenas todas como em um sonho. Sua mente estava agora nos sons de fora da caverna. Na conversa que gostaria de ouvir e que, por algum estranho motivo, não estava conseguindo. A mão da mãe em seu joelho foi o que o impediu de continuar tentando. E o olhar paciente dela o agraciou.

"Saia desse chão, lasse-nîn," ela disse em seu discurso sempre prático e direto. "O difícil e o inexplicável já permearam nossos caminhos mais vezes do que desejávamos. Percebo que continuarão à nossa espreita por mais tempo. Temos que nos acautelar com a complexidade das coisas. Não podemos dispor nossa energia buscando explicações que não estão ao nosso alcance. Nenhuma resposta nos agraciará hoje, posso sentir."

Legolas franziu as sobrancelhas com os significados ocultos da fala da mãe. Por vezes esquecera-se que ela tinha um passado naquele lugar, que ele nem se atrevera a questionar até o momento.

Elvéwen apertou os lábios, lendo os traços do filho como quem calcula mentalmente um problema matemático. Ela apoiou então a ponta do indicador sobre o espaço entre as sobrancelhas envergadas do filho e fez uma leve pressão. "Não estamos em um momento muito propício para introspecção, Esquilo. Você menos ainda. Precisamos que você fique conosco, o mais atento possível. Consegue fazer isso?"

Talvez aquela não tivesse sido a intenção dela, mas o comentário fez o efeito de uma torrente de água fria. E Legolas deu a ele a única interpretação que seu coração foi capaz de ter, fechando os olhos e voltando a sentir todas as suas faltas daquele dia com peso redobrado. Ele ainda teve um ímpeto de buscar algum argumento para si, antes que o dedo da mãe cobrisse agora seus lábios entreabertos e ela sacudisse veementemente a cabeça.

"Não é ao passado que estou me referindo, Lasse. É ao agora," ela disse com firmeza. "Consegue perceber a situação na qual estamos? Foram momentos extremos assim que o afastaram de mim," ela expôs enfim seu temor, contorcendo o rosto ao perceber o ar de surpresa do filho. "Eu não o quero sentado aqui nesse chão frio. Eu quase posso ver a sombra a sua volta querendo capturá-lo novamente. Prometa-me que não vai permitir."

Ainda surpreso, Legolas pensava em como responder, quando percebeu alguém parado próximo a eles. Thranduil retornara e parecia interessado na conversa que a família tratava naquele chão. Ao receber o olhar do filho, ele ergueu o queixo, cobrando silenciosamente a promessa exigida pela esposa.

Legolas respirou profundamente. Não sabia se podia oferecer aquela garantia, muito menos empregar sua palavra em algo que talvez não pudesse cumprir. A verdade se fazia mais clara a cada instante; mascarar para si e para os outros o que via ou sentia nunca tivera o benefício que ele tolamente julgava ter. Na verdade, havia sido o que colocara a todos na situação extrema daquele dia.

Elbereth, seu pai quase... Ele ainda pensou, mas nem intimamente conseguiu completar a frase. Seus olhos se voltaram para Elladan, outra face daquela verdade inegável. Se aquele dia tivesse sido diferente, talvez o gêmeo estivesse de pé.

Diante dele, o pai analisava em silêncio o que lhe pareceu bastar como resposta. Thranduil soltou um suspiro forte e estendeu a mão à esposa, já olhando a sua volta, enquanto repetia o gesto para ajudar também o filho a se erguer.

"Teremos que ficar aqui enquanto não forem esclarecidas nossas dúvidas," ele informou aos demais, que se entreolharam preocupados. Danika adiantou um passo instintivamente, mas Thranduil a conteve com um gesto de mão. "Já pedi ao capitão da guarda que traga suas crianças. Vou até o rádio agora tentar contato com seu marido ou Glorfindel, qualquer um dos dois que seja capaz de me responder naquele equipamento dos infernos," ele completou, segurando o braço do filho em uma indicativa que queria que este o acompanhasse. "Não faço ideia de onde esses infelizes se enfiaram. Bela hora para comprar sementes para um campo que resolveu ficar fértil, justamente agora que provavelmente tenhamos que abandoná-lo."

Depois disso, Thranduil não esperou resposta ou tentou ler o que seus comentários ácidos haviam semeado. Líder experiente, ele já deduzira todas aquelas informações. Por isso, pôs-se apenas a cumprir o que dissera, caminhando para a cozinha e puxando o filho consigo, enquanto dava as costas aos demais. Precisava de um tempo para encarar o que sabia que suas palavras duras haviam despertado. No entanto, ainda estava, ele mesmo, lidando com as informações e sensações que sua última experiência lhe trouxera. Não tinha energia para mais nenhuma outra.

Legolas acompanhou-o em silêncio. Diferente do pai, ele vira bem a reação dos demais, e o modo como olhavam aquelas paredes agora. A clausura não o incomodava mais. A ideia de lhe ser negado o direito de ir e vir fora uma rotina em sua vida em diferentes momentos. O problema era o que aconteceria se os temores que surgiram se intensificassem, como o pai parecia prever, e uma mudança de acampamento fosse necessária. Como Elrohir os encontraria se realmente conseguisse resgatar Mithrandir?

"Não podemos sair até que Elrohir volte..." ele disse quase para si mesmo, enquanto Thranduil apanhava o comunicador.

"Um problema de cada vez," Thranduil respondeu, sem olhá-lo. "Preciso de liberação do canal," ele disse ao rádio, um sinal para que todos que o estivessem usando lhe liberassem o acesso. "Detesto essa porcaria ainda mais do que aqueles comunicadores miseráveis," sussurrou para si mesmo, enquanto desvendava os sons desencontrados que recebia. "Tigre 1 chamando quem estiver na estrada. Preciso de contato com o líder do grupo da semeadura."

Legolas acompanhou o metafórico diálogo do pai apreensivo, reconhecendo surgir, enfim, a voz de Anselmo, encarregado dessas comunicações no grupo de Glorfindel.

"Tigre 1. O encarregado não pode atendê-lo no momento," ele disse.

"Não me importa o que esteja fazendo, rapaz. Chame-o e coloque-o na linha. Estou com uma emergência de caráter prioritário. Todos têm que partir para o plano de defesa original."

"O original?" A voz de Anselmo subitamente perdeu o tom decisivo e confiante que demonstrava até então. "Em sua íntegra ou parcial, senhor?"

Legolas baixou os olhos, a inquietação de Anselmo era evidente, mas, mesmo assim, ele se preocupava em manter o código que todos sabiam. Emergência de caráter prioritário era sinônimo de invasão ou descoberta de espionagem dentro de algum acampamento. Plano de defesa original era o comando para início de evacuação. O que Anselmo queria saber agora era se todos os campos estavam em risco ou apenas o de Thranduil.

"Ainda não tenho essa informação, rapaz. Mas a parcialidade já foi decretada e os preparativos estão se seguindo."

"Senhor..." Anselmo tentou dizer algo, mas conteve-se.

"Os seus são minha prioridade. Vê-los-ei em segurança e usarei minhas próprias mãos para isso se necessário for. Tenha certeza," Thranduil afirmou veemente, interpretando melhor que ninguém aquelas reticências e ouvindo o suspiro de alívio de Anselmo. Os avós Antônio e Anita ainda viviam naquela casa isolada e o irmão Felipe continuava trabalhando na área de cura do acampamento. Eles eram a família da qual Anselmo estava distante demais para garantir a segurança. "Agora coloque o líder na linha, pois tenho muito a fazer."

"Ele não está aqui, senhor."

"Então por que você atendeu ao chamado? Coloque-me em contato com quem está próximo dele."

"Ele não está próximo a ninguém capaz de responder agora, senhor."

"Como assim? Nenhum dos dois?"

"Não senhor."

"Explique-se, rapaz, pois isso infringe regras que até nossos líderes sabem bem como funcionam."

"Sim, senhor. Não havia como levar o equipamento para onde eles estão, senhor. Porém me parece que em breve retornarão. Posso passar-lhes o recado se o senhor quiser."

"Passar-lhes o recado? Em que tipo de situação você acha que estamos? Saia de onde está e vá encontrá-los onde quer que estejam. Essa mensagem é prioridade. Espero o contato deles o quanto antes."

Dessa vez Thranduil abandonou a pouca diplomacia que usava e desligou sem esperar qualquer resposta.

"O que aquele infeliz está fazendo? Entrando em um shopping center para comprar sementes?" ele resmungou entre os dentes, empurrando o rádio para um canto e sentando-se em uma das cadeiras do lugar. Então, segurou o pulso de Legolas e o obrigou a fazer o mesmo.

Legolas obedeceu, mas surpreendeu-se ao ver que o pai ainda não soltara seu pulso. O contato deles sempre tivera aquele caráter agridoce. Por mais que ansiasse por ele, normalmente esse contato não acontecia com o intuito que desejava. Aquele não parecia ser um momento diferente dos demais.

Legolas respirou fundo, observando os dedos firmes do pai envolvendo seu pulso. Thranduil, contudo, não olhava para ele. Estava com o outro braço apoiado na mesa e os olhos baixos de quem faz uma lista de problemas para priorizar. Legolas preocupou-se, não conseguia conjecturar o motivo para ainda estarem ali. Será que o pai esperava dele alguma palavra? Esperava que lhe desse alguma explicação? Que se desculpasse? Elbereth, ainda estava sendo difícil olhar para ele e tentar ignorar o que acontecera. Não queria acabar fazendo uma cena sentimental que, por certo, roubaria o resto de paciência do pai, se é que ainda havia um resto. Falar sobre aquilo estava fora de cogitação.

"Ada..." ele murmurou, com a esperança que iniciando o diálogo conseguisse sair da tortura daquela espera, mas Thranduil fez um movimento curto e forte de cabeça, cujo significado não foi muito claro.

"Como nos acharam?" ele indagou, por fim, erguendo os olhos para o filho.

Legolas sobressaltou-se com a pergunta inesperada. "Não sei..." foi sua resposta instintiva.

"Como nos acharam?" Thranduil usou de mais firmeza, tanto na voz, quanto na mão que segurava o braço do rapaz.

Legolas fez uma careta de dor, mas não desviou o olhar. Não era possível que, porque havia sentido a presença dos algozes do lado de fora da caverna, o pai pensasse que ele tinha aquela resposta.

"Eu... não sei... Eu não sei, ada..."

Thranduil avançou na cadeira onde estava, usando a mão livre para segurar o ombro do filho com a mesma determinação.

"Escute e escute bem o que vou perguntar. E eu não quero seu silêncio, nem rodeios como resposta."

Dessa vez Legolas apenas assentiu com a cabeça.

"Essa maldita escuridão que sua mãe mencionou. Essa sombra dos infernos que está a sua volta, tão nítida que até ela diz estar percebendo. Não é apenas uma metáfora, é?"

"Como assim?"

"Pouco escapa aos instintos de sua mãe. Eu bem sei. Diga-me o que mudou que a mim está escapando."

Legolas balançou a cabeça, confuso.

"Não estou entendendo..."

"Diga-me," Thranduil disse por entre os dentes. "Diga-me no que seu processo está se tornando. Nunca seguimos caminhos semelhantes. Mas antigamente você falava em frestas abertas, em espaços ocultos onde a visão que o espreitava aparecia. Aquilo fazia sentido para mim. Mas algo me diz que essa sombra não tem relação às tais frestas. Não funciona mais assim."

Legolas franziu as sobrancelhas. Ele ainda tentava compreender aonde o pai queria chegar.

"Eu não sei do que o senhor está falando, ada. Não consigo compreender," disse, apenas para que seu silêncio não enervasse ainda mais o pai.

Thranduil estreitou os olhos, parecendo tentar ler autenticidade naquela resposta.

"Não é mais uma porta. A escuridão há muito invadiu o lugar onde você está. Ela o rodeia agora e você negocia com ela um pouco de paz quando pode," ele expôs suas conjecturas então, olhando o filho profundamente. Seu tom profético fez o rapaz estremecer. "É um oceano de escuridão, dentro do qual você vez por outra se arrisca a molhar as pontas dos dedos. Você o faz deliberadamente agora. Não precisa de qualquer convite."

Legolas soltou os lábios, mas desviou o olhar para esconder a surpresa que aquela afirmação lhe trouxera. A interpretação daquilo não ficou clara para Thranduil, que ainda não tinha como certas todas as hipóteses que sua mente formara. Isso acabou por deixar o antigo rei ainda mais aborrecido.

"Não vai me negar essa informação." Ele voltou a apertar o braço do filho, mas dessa vez Legolas fez algo que não se lembrava de ter feito antes; ele puxou violentamente o braço para libertar-se e se ergueu. Thranduil acompanhou-o, tomando a frente da porta da cozinha, como se imaginasse que ele fosse fugir. Talvez fosse, se sua coragem permitisse aquela nova afronta ao pai.

"Ilúvatar. Estou certo. Pode conseguir qualquer informação que deseja agora, ou existe algum limite?"

Legolas deu as costas ao pai e àquelas ideias que ouvia. "Eu não sei," disse, sacudindo a cabeça. "Não sei do que o senhor está falando. Não tenho tal poder."

Thranduil voltou a aproximar-se, mas ao perceber isso, Legolas se moveu, temendo agora qualquer contato. Contudo, o pai não hesitou, continuando seu trajeto até encurralar o filho contra a parede.

"Se eu ouvir de você mais alguma negativa, juro que conseguirei saber o que quero usando minhas mãos."

"Como posso responder se eu não sei?" Legolas perguntou, mas dessa vez seu tom de desespero fez com que Thranduil enchesse o peito de ar, buscando controlar-se. Eles se olharam por um tempo, até que os ombros do jovem elfo caíram. "Eu não tenho essa liberdade... Apenas..."

"Apenas?"

"Não sei explicar... Continua sendo quando o destino quer... Mesmo rodeado... Eu só consigo tocá-la quando... quando me é permitido."

Thranduil ficou surpreso com a confirmação daquela parte de sua conjectura, mas aquilo ainda não bastava.

"Explique-se."

"É como sempre foi... Um chamado... Um chamado silencioso. Não posso negá-lo, mesmo me contendo... Posso ignorá-lo por dias... meses... mas enquanto não atendê-lo... não vou ter paz... Não vou ter paz..." ele explicou, apertando os olhos, em um desabafo tão profundo que o fez apoiar-se na parede atrás de si, sem mais qualquer energia.

Thranduil nada mais disse, sua mente navegava agora pelo mar revolto que suas ideias, ganhando maiores horizontes, estavam se tornando. Quando Legolas reabriu os olhos, intrigou-se com o olhar perdido do pai. Seu semblante estava abatido, como nas vezes que percebia uma parte de sua floresta perdida para o inimigo.

"Eu sinto muito, ada..." ele se viu dizendo, também como fazia naquele tempo.

Thranduil olhou-o novamente, entretanto, seu semblante era grave e firme, também como era naquele tempo. Legolas prendeu seu olhar ao dele, tentando esconder a angústia que estava em seu peito e que, com os acontecimentos daquele dia, parecia querer explodi-lo e libertar-se de vez. Com sorte, contava que o pai fizesse o que fazia naquele tempo também. Desse as costas a ele, sem qualquer palavra e o deixasse amargar suas falhas e fraquezas sozinho, como deveria ser.

Entretanto, o que se seguiu não foi exatamente o que Legolas esperava.

"Acha que essa escuridão pode ter duas margens?" Veio a pergunta, colocada em um tom completamente diferente do que Thranduil viera usando até agora.

"Como... como assim?" Legolas tentou disfarçar o misto de surpresa e desconforto que aquela atitude lhe trouxera.

"Quando você estava preso nela por todo aquele tempo, você conseguia ver o que se passava com os desgraçados..."

"Não conseguia o tempo todo," Legolas apressou-se em dizer. "Ficava a mercê do vazio a maior parte do tempo. Eram raras as vezes que eu..."

"Acha que eles também, ainda que em raras vezes possam fazer o mesmo?"

Legolas perdeu completamente a cor e sua reação fez com que Thranduil pressionasse os lábios, insatisfeito. Ele voltou a segurá-lo pelos ombros, mas não da forma como fizera antes.

"Acha, Esquilo?" reforçou, seu tom, no entanto, mais tênue.

Legolas cobriu o rosto com as mãos, como quem tenta se proteger daquela ideia. Não imaginava quão clara estava sua situação para o pai. A metáfora usada por Thranduil era perfeita. Tratava-se exatamente de como ele se sentia; em uma redoma de energia cercado por um mar de informações de todos os tipos. Colocar o dedo para fora, como o pai insinuara que representasse as vezes que ele se arriscara, já era uma sensação assustadora, mas aceitar a possibilidade de que outros talvez não compartilhassem o temor dele e, pior do que isso, fossem capazes de fazer um uso ainda mais efetivo de uma arma daquele poder era aterrador.

Ele sentiu então as mãos que o seguravam diminuírem a força, mas não o soltarem. Dessa vez preferia que o tivessem feito. Que tempos eram aqueles nos quais um contato sempre tão ansiado estava se transformando em angústia?

"Olhe para mim," Thranduil insistiu.

Legolas apertou os olhos, ainda cobertos. Se tudo aquilo fosse verdade, a situação deles ainda era mais desfavorável do que todos imaginavam.

"Não pode ser," ele disse em voz baixa, quase para si mesmo. "Não é possível."

"Você lembra do que vimos, rapaz? Do Aviel em erupção? Daquele inferno em chamas?" Thranduil deu-lhe uma leve sacudida e enfim conseguiu que Legolas abaixasse as mãos e olhasse para ele. "Estávamos todos lá. Nós e aqueles magos malditos. Estávamos todos no mesmo plano, observando uma possibilidade de futuro que não existia até então. Estávamos todos no mesmo plano. Nós e aqueles magos malditos. Por sorte não fomos vistos ou eles saberiam que aquela ferramenta tem dois lados. Ou, pior ainda, descobririam que também sabemos."

Legolas sentiu um arrepio correr-lhe a espinha apenas por pensar naquela possibilidade, mas algo o intrigou mais. "Um futuro que não existia?" ele repetiu confuso.

"Um futuro que não deveria existir. Mas parece que mais uma das ferramentas daqueles calhordas saiu do controle."

"O que quer dizer?"

"Estava no rosto deles."

"O que, ada?"

"A surpresa. O despertar do Aviel pareceu representar um revés nos planos deles, não percebeu o ar de desolação em seus rostos?"

"A erupção do vulcão será uma catástrofe, se realmente ocorrer..."

"Quando ocorrer," Thranduil corrigiu. "Mas a região a volta dele está deserta. Desde o começo da resistência tenho percebido uma tentativa visível de esvaziar aquele lugar por algum motivo. O acampamento de Glorfindel é repleto das vítimas dessa expulsão."

"Acredita que eles tenham alguma intenção oculta para aquele lugar?"

"Penso que sim. Ou tinham. A iminente destruição de tudo pode arruinar os planos dos calhordas."

Legolas parou um instante para pensar em tudo aquilo, mas sacudiu a cabeça.

"Toda essa informação... parece que estou diante de um castelo desmoronado de cartas," ele queixou-se angustiado.

Thranduil assentiu pensativo.

"Era como eles pareciam se sentir. Diante de um castelo desmoronado de cartas. Um castelo que haviam construído com todo o cuidado. Talvez até intencionassem em pô-lo abaixo, mas não naquele momento."

Legolas assentiu, lembrando-se, ainda que com desconforto, da cena que vira.

"O senhor disse ferramenta..." ele se lembrou então, tentando entender aquela linha de raciocínio. "Acha que o vulcão seria uma ferramenta?"

"Talvez. Mas com certeza não ativo como está... Essa parte ainda não faz muito sentido."

"Mas disse que era uma ferramenta da qual eles haviam perdido o controle..."

Thranduil respirou profundamente, ainda olhando o filho nos olhos, mas depois o soltou e passou a andar novamente pela cozinha.

"Não era ao vulcão que eu me referia," ele disse, parando no meio do cômodo e olhando aquelas paredes, como se nelas visse algo além dos desenhos que a umidade fazia. Ele abaixou a cabeça então. "Eles tentavam o controle daquele lugar, mas algo aconteceu."

"O vulcão deixou sua inatividade e ameaça a região agora," Legolas colocou o que achava ser o complemento daquela frase.

Thranduil balançou a cabeça em concordância. "Estava tudo correndo como eles imaginavam. Mas então outra ferramenta saiu do controle deles."

Legolas envergou as sobrancelhas. Algo naquele termo que o pai agora usava o estava incomodando.

"Qual ferramenta, ada?"

Thranduil respirou profundamente. "A Narsoron," ele disse em um tom quase solene, depois se voltou para encontrar o rosto pálido do filho.

Legolas desprendeu os lábios, buscando um resto de voz.

"É uma lenda... mesmo entre os nossos."

"Tem parecido uma lenda para você?" Thranduil abriu os braços, deixando sua própria pessoa servir como exemplo daquele questionamento.

"A Águia de Fogo..." Legolas desviou o olhar. "A Fênix..."

Thranduil moveu os olhos pelo lugar mais uma vez, depois se aproximou.

"Elladan pousou suas mãos no chão dessa terra maldita e não curou apenas um campo estéril. Ele despertou toda a força de Rórdán."

Legolas fechou os olhos. "E estragou os planos deles..." concluiu, colocando forçosamente as palavras boca a fora. Concordar com aquilo, ainda em um ensaio de teoria, era assustador.

"Sim. Afiaram o que julgavam ser apenas uma faca de uso doméstico, mas se depararam com uma espada poderosa, ou algo cuja magnitude até um guerreiro como eu não encontra precedentes. Achavam que doutrinavam um cachorro, mas na verdade libertavam um dragão."

Legolas arredondou os olhos.

"Fala dele de uma forma assustadora, ada."

"Digo a verdade. Elladan é uma arma letal. A justiça se fará através dele. Oremos ao bom Ilúvatar para não sermos vítimas dela também."

Dessa vez foi Legolas a se aproximar, o rosto contorcido de dúvida.

"O que o senhor quer dizer?"

"Quero dizer que se essa região é de algum interesse para esses magos, talvez a única solução seja que ela deixe de existir. Talvez Eleazar não esteja fadado a ser o líder de uma nação unificada, mas sim aquele a salvar uma nação inteira de uma morte certa. Quem diria, a miserável Nova Cillian talvez tenha que receber seus irmãos ilustres de Rórdán."

Legolas sentiu o queixo cair e seu corpo foi sacudido por um tremor incontrolável.

"Acha que o vulcão tem poder para destruir toda a ilha?" ele indagou, mas dessa vez Thranduil não respondeu, ele apenas soltou os ombros, o que foi uma resposta pior ainda. "Uma região inteira..." Legolas continuou desolado. "O que aqueles magos queriam com aquele vulcão afinal?"

"Não sei. Mas creio que não vamos gostar quando soubermos qual é o interesse naquela região específica. Talvez o interesse seja mais amplo. Eles deveriam ficar felizes, afinal estava claro que a ideia era esvaziar toda a ilha, nem que fosse devastando-a com uma peste maldita. O Aviel pode fazer isso com muito menos perdas humanas."

Legolas sobressaltou-se, diante da confirmação do que muitos conjecturavam.

"Acha que existe ligação entre todos esses acontecimentos? Acha que eles podem ter trazido aquela doença terrível para cá?"

"Trazido, criado, não importa. Mas, se existia ligação entre todas essas abominações, os elos estão se rompendo. Nossos magos construíram um castelo, então Elladan tirou uma carta de sustentação e colocou tudo abaixo." Thranduil trabalhou a teoria que vinha desenvolvendo com a mesma metáfora que usavam, seu tom era grave e rápido, enquanto dava pela cozinha mais alguns passos.

Legolas acompanhou-o com os olhos, ainda abalado com toda aquela informação, mas quando o antigo rei parou novamente e lhe lançou um intrigante olhar de desafio, ele sentiu-se ainda mais confuso.

"Quer saber?" Thranduil não esperou a indagação que sabia estar na boca do filho. "Se os malditos conseguem realmente nos espionar por essa sombra dos infernos, espero que tenham visto mais essa parte de seus planos definhar. Espero que vejam a satisfação que eu, Thranduil, mais vivo e mais determinado do que nunca de colocar minhas mãos em volta do pescoço deles, estou tendo com mais essa derrota que tiveram."

"Elbereth, ada..." Legolas aproximou-se mais então, segurando o braço do pai preocupado.

"Não há clamor que alivie isso, Esquilo. E o que presenciamos hoje é um motivo bastante claro para justificar o fato deles moverem céus e mares atrás da experiência bem-sucedida deles."

Legolas sacudiu a cabeça. Agora mais preocupado com Elladan do que vinha estando. Foi então que uma conclusão ainda pior lhe veio à mente.

"Ilúvatar..." Legolas deixou outro clamor escapar-lhe, mas quando o pai voltou a olhá-lo, quase não teve coragem para fazer a pergunta que estava em sua mente. "O senhor olhou para mim... para desafiá-los... Acha que tenho alguma responsabilidade nisso, ada?"

Thranduil torceu os lábios com aquela pergunta.

"De onde você tira essas ideias, rapaz? Por que eu pensaria tal coisa"

"Porque se sou uma espécie de canal, não temos ideia de acesso a quais informações eles tiveram."

"Que tolice é essa? Você ter acesso à sombra não faz de você a porta de saída dela."

"E como funciona então?"

"Como vou saber? Nossas visões são um mistério que nem meus milênios de existência me propiciaram solução. Somos um maldito para-raio, como Glorfindel sempre o chamou e eu sempre me zanguei com ele por isso. Mas ele tem razão. Um maldito para-raio. Isso é o que somos."

Legolas apertou os lábios. Estava tão preocupado que não teve espírito para admirar-se por ver o pai concordando com uma ofensa de Glorfindel pela primeira vez na vida.

"Acha mesmo que não tenho relação com isso?" ele ainda indagou e suspirou ao ouvir o pai estalar a língua de insatisfação.

"Você tem outras culpas para carregar," ele disse com desagrado. "Culpas que não são suas igualmente. Não invente mais uma ou vou perder minha cabeça com você."

"Estou falando sério, ada..."

Thranduil estalou os lábios, descontente.

"Acha que eu, que nunca tive espírito para brincadeiras, resolvi encontrá-lo agora?"

Legolas desconsiderou o rompante do pai. Estava muito angustiado para preocupar-se com aquilo.

"Ada... Eu acho que devo ir para outro lugar."

"Deixe de dizer tolices, rapaz. Temos mais no que pensar."

"Tenho que ir. Posso estar colocando o vilarejo em perigo."

Thranduil olhou-o, inconformado.

"Acha mesmo que é através de você que eles conseguem acesso ao outro lado da tal sombra?"

"E se for? Eles comentavam sobre a fraqueza que sentiam no grupo, sobre as dúvidas que percebíamos ter. Eles..."

"Percebe que isso são conjecturas das quais não temos qualquer prova? Se de fato eles tivessem acesso a tudo o que acontece, há tempos já teriam vindo atrás do que realmente desejam aqui e destruiriam o resto."

"Mas o que aconteceu hoje..."

"É o que eu digo, rapaz. Eles, assim como você, devem ter acesso a informações desencontradas. Talvez elas os tenham trazido enfim até aqui, talvez não. Não somos tão difíceis de rastrear como eu gostaria. Só não sei se desejo que isso seja verdade, ou que a explicação seja algo mais mundano, como a traição de alguém. Porque se a segunda hipótese se mostrar verdadeira, a minha promessa de manter mãos limpas até o final de tudo vai me tirar do prumo, de uma forma que ninguém nunca viu antes ou viveu para contar."