Capítulo 18 - I don't understand, yet
Mycroft deu de ombros e se aproximou, dizendo:
― Estava procurando por você, de qualquer forma.
― Por causa de Harriet, você disse. Explique ― Sherlock pediu com interesse, quase sem se importar com a intromissão do irmão.
― Moriarty sequestrou Harriet e a família ― Mycroft tentou resumir. ― Nada de Scotland Yard ou Sherlock Holmes.
― Família?
― Harriet é casada e tem uma filha ― John respondeu rapidamente.
― E o que Moriarty queria? ― Sherlock apressou. ― Com certeza pediu algo em troca da liberdade.
John e Mycroft se entreolharam pelo o que pareceu uma eternidade. Mycroft querendo seguir com o plano feito às pressas e John praticamente gritando que Não!, ele não deveria continuar com aquilo.
― Moriarty ia usar John contra você ― Holmes revelou subitamente, fazendo o médico fechar os olhos e abaixar a cabeça, lamentando enquanto este continuava. ― Ele viu que sequestrá-lo só estava irritando você quando o objetivo era destruir completamente. Então... decidiu forçar John a ser o traidor que ninguém esperava.
― Ele achou que uma traição de John ia me afetar o suficiente para me destruir? ― Sherlock questionou com descrença, fazendo algo se contrair dolorosamente dentro do loiro.
― Tinha absoluta certeza, mas nosso querido John jamais trairia o melhor amigo sem tentar procurar uma saída menos dolorosa, não é? ― Mycroft riu com malicia, pegando o celular. ― Foi quando me procurou, pedindo ajuda e me apresentando o saudoso Sebastian Moran.
― Qual a relação de Moran nisso tudo?
― John e Moran serviram no exército na mesma época e se conheceram brevemente antes de enfrentarem a guerra, foi o suficiente. Quando eu disse a John que estava sendo seguido por alguém intitulado Augustus, ele rapidamente reconheceu como Moran.
Sherlock franziu o cenho e olhou sugestivamente para John, questionando a conclusão. O médico piscou saindo do transe e limpou a garganta antes de responder brevemente.
― Moran sempre falava de como o pai, Augustus, era importante no governo e no exército antes de morrer.
― John sabia que Moran começou a trabalhar para Moriarty logo depois que saiu do exército, então ficou interessado em saber qual seria a reação dele ao descobrir que seu braço direito estava tentando se tornar um concorrente ― Mycroft completou profissionalmente. ― Sabíamos que para Moriarty seria o equivalente a uma traição, já que o ex-soldado silenciosamente lhe deu às costas e começou a correr atrás do seu protegido, sabendo de todo o plano. Como John seria um bom traidor se alguém insistia em querer machucá-lo, tornando-o vulnerável?
O Detetive uniu as sobrancelhas levemente surpreso e fitou John novamente:
― Distraiu Moriarty com o próprio traidor?
― Não... não foi bem uma distração ― John respondeu incerto. ― Foi mais uma compensação. Entre eles o assunto também é pessoal, então Moriarty ficou mais feliz quando eu entreguei Moran para ele e não para polícia. Confiou mais em mim desde então.
― Então agora tem a confiança do seu querido consultor criminal. Ótimo.
John ia contestar, mas foi Mycroft que revirou os olhos e respondeu:
― Sem ciúmes, irmão.
― Ciúmes? ― Sherlock rebateu exasperado. ― Tudo o que disse não muda o fato de que John pretendia mesmo me trair! E que se danem os motivos, eu poderia tê-lo ajudado a encontrar uma saída permanente e não apenas um desvio inútil.
John observava a cena com extrema cautela e controle, temendo se mover e acionar uma bomba. Não se importava com Mycroft tomando a frente e falando em seu lugar, mas confessava que o rumo daquela conversa não parecia certo em sua cabeça. Para onde, exatamente, estavam indo?
― Inútil? ― Mycroft retorquiu com frieza, impaciente. ― Graças a esse desvio inútil Harriet e sua família não estão mais sob o poder de Moriarty. E ele sequer notou que elas não estão mais acessíveis porque está ocupado demais tentando punir e arrancar informações do traidor. Se fosse por você, Sherlock, se John tivesse pedido sua ajuda, o nosso único plano seria encontrar uma fraqueza e atacar, aceitando riscos desnecessários como naturais e inevitáveis. E lembre-se que não estamos falando de uma família qualquer!
Sherlock se calou, engolindo com dificuldade. Estava obvio para John, que o amigo estava sendo obrigado a aceitar as informações como fatos e podia imaginar com aquela mente brilhante podia estar uma bela bagunça depois de tudo o que aconteceu. Ainda assim sentia que o futuro de ambos, mesmo como parceiros, estava incerto.
― Onde elas estão? ― o Detetive perguntou a ele, parecendo aflito.
― Seguras ― John respondeu brevemente, sorrindo com compreensão. ― Mycroft garantiu a segurança delas para que eu possa fazer algo, sem restrições, quando Moriarty notar que não vai poder mais usá-las contra mim.
― Nós ― Sherlock corrigiu ganhando um olhar confuso. ― Para que nós possamos fazer algo. Eu jamais faria qualquer coisa que colocasse sua família em perigo, John. Deveria ter me contado, deveria ter confiado em mim.
― Eu confio em você.
― Não se incomode tanto, Sherlock ― Mycroft se intrometeu. ― Nós precisávamos de cautela e quando se trata de John, você é muito... espontâneo.
John imediatamente sentiu seu rosto esquentar enquanto Sherlock desviava o olhar, achando o piso do banheiro subitamente interessante. Mycroft se conteve em apenas revirar os olhos novamente, pelo embaraço de ambos.
― Por favor, parem de agir dessa maneira.
― Dessa maneira? ― Sherlock desconversou.
Um barulho chamou a atenção deles para a porta e John suspirou para o que viu.
― O quê? É uma orgia e não me chamaram? ― Philippe questionou depois de enfiar a cabeça para dentro do banheiro.
― O que foi, Philippe? ― John perguntou em tom cansado.
― Tem duas leoas brigando no beco ao lado. Achei que deviam saber.
Houve alguns segundos de silêncio, onde o trio tentava compreender o significado daquela frase e de repente, abatido pela compreensão, Sherlock pulou de onde estava e correu para fora. John e Mycroft o seguiram, sabendo do que se tratava.
Mesmo assim, John se surpreendeu ao ver Molly engatada em Irene como uma gata raivosa. Paralisou diante da cena, não conseguindo acreditar que a amiga estava mesmo em uma briga com A Mulher, tentando acertá-la a qualquer custo com socos ou tapas, com o rosto rubro e a expressão retorcida de raiva.
Aquela era mesmo Molly Hooper?
― John me ajuda aqui! ― Lestrade pediu com esforço enquanto tentava controlar Irene.
John despertou e correu até Molly, tentando avidamente segurá-la e afastá-la da outra.
― Me solta ou você vai ser o próximo! ― Molly gritou se debatendo.
― O papai finalmente chegou pra controlar a criança ― Irene cutucou desarrumada.
― Nunca pensei que se deixaria ser tomada por ações tão primitivas ― Sherlock acusou Adler, olhando-a como se não fosse uma estranha.
― Ás vezes vale a pena perder o controle, Sherlock ― Irene respondeu tentando, em vão, arrumar alguns fios de cabelo solto.
― Tudo bem, John, pode me soltar. Estou mais calma ― Molly pediu emburrada, arrumando suas roupas com a mão livre.
― Fiquei feliz em ser quem desperta o pior em você, srta. Hooper ― Irene alfinetou novamente.
Num ímpeto inesperado, Molly se soltou completamente de John e, como se fosse apenas um único movimento, voltou a se aproximar da Mulher e socou seu rosto com toda a força que conseguiu.
― Pare de se intrometer na vida dele, pare de complicar tudo! ― rosnou contra a expressão surpresa de Irene antes de olhar para Philippe com puro desprezo, fazendo-o arregalar os olhos. ― E você? O que faz aqui?
― E-eu... eu, bem, eu... ― ele gaguejou sem ter o que dizer pela primeira vez.
― Vocês dois não entenderam que era uma comemoração particular? ― Molly voltou elevou a voz novamente, exasperada e quase descontrolada. Abruptamente apontou para Philippe, que se sobressaltou de susto ― Você! Seja quem for, você não pode aparecer aqui, beijando John e provocando Sherlock dessa maneira e você ― apontou para Irene, que ainda massageava o rosto avermelhado ― Não pode nos tratar como seres inferiores só porque é aquela que recebe mais atenção de Sherlock ! Ele é só um imbecil e você ainda é a intrusa aqui!
Cauteloso, John observou os arranhões e a vermelhidão que encobriam o rosto da amiga e decidiu intervir.
― Molly... precisa se acalmar.
― Eu já fiquei calma por tempo demais!
― Tudo bem, tudo bem ― ele tentou novamente, segurando sua mão e a puxando para longe. ― Vem, acompanho você até em casa.
― Eu posso chegar em casa sozinha ― Molly resmungou se soltando. ― Não sou uma inútil mesmo descontrolada.
John balançou a cabeça negando.
― Sei que gosta muito do Sherlock, mas se ferir e entrar no jogo da Irene não vale a pena. Confie em mim.
Molly riu sem humor e se soltou completamente das mãos do médico, que a olhou confuso.
― Você não entende ― disse séria. ― Isso foi por você, John, por vocês dois. Porque estou cansada de ver Irene sempre entre vocês, sempre sendo um empecilho silencioso.
― Mas você...
― Eu sei onde não é o meu lugar. Mas vocês? Não enxergam o obvio nem quando se olham no espelho, não conseguem! É irritante ter que assistir isso por tantos anos e continuar calada. É como se fizessem questão de... de... complicar tudo! E eu cansei disso!
Abruptamente Molly se afastou, deixando para trás um John de olhos arregalados e com um novo finco entre as sobrancelhas.
― Eu sei onde não é o meu lugar? ― murmurou para si mesmo, ponderando a origem daquelas palavras. Então franziu o cenho e olhou para Mycroft, encontrou um sorriso divertido na expressão convencida.
― É melhor eu segui-la na viatura, por garantia ― Lestrade anunciou seguindo o mesmo caminho de Molly.
Ainda sustentando a mesma expressão, Mycroft se aproximou do médico e sussurrou próximo do seu ouvido.
― Se saiu muito bem no banheiro. Um belo improviso.
― Sabe que não entendi absolutamente nada do que aconteceu lá, não é? ― John questionou no mesmo tom. ― Você disse que o plano não mudou, mas contou tudo a ele.
― Nem tudo foi verdade, sabe disso.
― Mesmo assim pode ser o suficiente pra ele. Eu não entendi absolutamente nada do que aconteceu, Mycroft.
― É o suficiente para o que eu quero, agora faça sua parte e vá com Lawrence.
― Para onde? ― John o encarou confuso.
― John ― Sherlock chamou enquanto se aproximava.
O médico mal teve tempo de erguer os olhos quando Philippe entrou no caminho do Detetive, interrompendo e se aproximando com mais rapidez.
― O que acha de uma noite de bebidas? ― perguntou com animação.
― Não ― Mycroft respondeu imediatamente.
― A pergunta foi para o John ― Philippe devolveu arqueando as sobrancelhas.
Mycroft lhe lançou um olhar fuzilante e se direcionou para John:
― Sabe o que acontece quando fica bêbedo na presença desse ser. Perde completamente a compostura e o bom senso. Não vá.
Improvise! A mente confusa de John gritou em meio ao caos dos seus pensamentos.
Mas o que Infernos estava acontecendo? O que eu devo fazer?
― Talvez eu não me importe ― disse repentinamente, sem pensar. Todos os olhos se viraram na sua direção, mas o médico só conseguia fitar a falsa passividade de Irene. ― Talvez eu queira perder a compostura e o bom senso.
― Mas temos um caso a discutir ― Sherlock argumentou. ― Preciso de você em Baker Street.
― Até onde sei você já tem com quem discutir o caso, onde, por acaso, eu sou o suspeito ― John devolveu ferino. ― Estou errado?
Não tinha ideia se estava fazendo o certou ou não, se era isso o que Mycroft esperava ou se estava improvisando da melhor maneira, mas era tudo o que podia fazer. Não sabia ler as pessoas tão bem quanto os Holmes, nem chegava perto, também não estava preparado para nada aquilo e sequer conseguia imaginar o que ia acontecer depois de tantas informações lançadas em um único.
Estava fazendo a única coisa que sabia fazer quando ficava perdido: se arriscar.
