XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Shaina
A amazona sentiu uma fisgada em seu quadril ao desviar de mais um golpe de Sisifos. A dor não lhe fez perder o sorriso oculto pela máscara, muito pelo contrário, aquele treino provavelmente era a coisa mais divertida dos últimos dias. E seu corpo dolorido era a prova disso. Ao encarar o Cavaleiro de Sagitário, Shaina desconfiou que talvez ele também se sentisse assim.
O olhar sempre distante, sempre preocupado com o próximo passo, com a próxima negociação, não estava mais ali. Desaparecera a cada movimento da luta. Como era bom vê-lo abandonar a postura de líder:
- Imaginei que todos estariam ocupados treinando... - ele falou desviando de um chute.
Shaina observou brevemente os guerreiros que se reuniam no topo da colina para acompanhar a luta. Será que aqueles jovens sabiam que a última troca de soco dos dois não foi nada amigável? Ela riu:
- Acho que observar nosso tre – sua voz sumiu quando Sisifos segurou seu pulso e a puxou para imobilizá-la. Antes que seus corpos pudessem se encontrar, a amazona golpeou o braço que a agarrava e conseguiu se libertar. Distante, e ofegante, continuou sua fala – ... Acho que observar nosso treino já pode servir de aprendizado.
- Talvez estejam esperando a técnica que quebrou o meu nariz da outra vez..
Shaina não sentiu tom algum de raiva naquelas falas, mas ... será mesmo que aqueles meninos estava ali esperando uma nova troca de faíscas? O pensamento a incomodou e ela se distraiu, Sisifos agarrou seu braço e a imobilizou com facilidade dessa vez. Surpresa, a amazona gemeu quando os ombros bateram com força no peitoral do rapaz. Percebeu que Sisifos gemeu também, provavelmente o impacto da sua máscara de prata machucara seu pescoço. Lutando para se livrar do aperto, ela movimentou pernas e quadril forçando-o a perder o equilíbrio e cair de joelhos na grama, levando-a junto:
- Nunca vou entender como vocês são ágeis assim sem usar o cosmo... – ele murmurou a suas costas. Ouvir sua voz tão próxima ao seu ouvido a deixou desconfortável e Shaina temeu a estranha sensação que fez seu pescoço arrepiar. Antes que ela pudesse processar o que exatamente estava sentindo, o guerreiro a soltou – Você sentiu isso?
Ainda confusa, a amazona de Ofíuco se virou para o sagitariano e foi só aí que entendeu sobre o que ele estava falando. Havia algo diferente no ar, tudo pareceu ganhar um tom mais brilhante, dourado. Tão atordoante quanto o cosmo de um Cavaleiro de Ouro, mas era acolhedor. Sisifos a encarou e o sorriso que ele deu atestou o que Shaina desconfiava:
- Atena?
- Atena – ele confirmou com a cabeça e os dois se levantaram.
Shaina limpou a poeira dos joelhos:
- Será que esse... "chamado" significa que vamos passar o resto do dia em uma reunião?
O protetor de Delfos estreitou os olhos analisando-a:
- Está reclamando da oportunidade de rever uma deusa?
Shaina quase brincou que Atena sempre seria aquela fedelha que os dois resgataram em Olímpia. Porém temeu que soasse como uma blasfêmia e ela apenas riu, contentando-se com as lembranças de uma criança que mal sabia andar sem tropeçar no próprio vestido.
- Você já parou para pensar como estaríamos agora se aquele velhote não tivesse acolhido Aiolos e o bebê?
O Cavaleiro de Sagitário ensaiou uma resposta por um tempo, até que respirou fundo e desviou seu olhar:
- Mesmo que estivéssemos vivos, teríamos perdido.
Caminharam por um tempo em silêncio, Shaina ainda estava presa em sua própria pergunta. Imaginava se Artêmis reapareceria em sua forma de cervo questionando como as amazonas poderiam ter falhado com sua irmã. O olhar de decepção da deusa seria pior do que ter o refúgio das amazonas revelado, pior do que morrer em batalha:
- Você achava que ela tinha morrido, não é? – a voz de Sisifos a fez voltar sua atenção para o terreno.
- Hum?
- Quando fomos enviados a Olímpia. Você não acreditava que Atena estava viva.
Ela deu de ombros:
- Ora, cavaleiro... o motivo do meu mau-humor era tão óbvio assim?
Sisifos sorriu:
- Sempre achei que as amazonas obedeceriam ordens de bom grado, mas você... você desde o primeiro dia desdenhou do oráculo de Delfos, questionou as estratégias de Dohko e a cada nova cidade...
- Eu repetia que não fazia sentido ela ter ido a vilas tão ao oeste.
- Achei que você fugiria antes de chegarmos a Olímpia.
- Ah, não, eu jamais perderia o erro de um oráculo de Apolo, hahaha. Mas na verdade eu apenas... – ela foi cuidadosa com as próximas palavras, não por vergonha da jovem arrogante que era, mas pela angústia daquela lembrança – Eu fiquei mais de 5 anos em Atenas fingindo ser outra pessoa, ouvindo aqueles covardes comemorando a cada nova vitória... Cada novo bebê que eles matavam eles espalhavam a notícia pela cidade. Quando passei a ser a serva responsável pelas celas, descobri que eles desciam até a prisão de Aldebaran para contar todos os detalhes. Os Templos que eles queimavam, as crianças jogadas do muro da cidade... Eu não tinha mesmo mais esperança. Essa é a verdade.
Pôde ver que a expressão séria retornara ao rosto de Sisifos. Seu olhar esboçava a tristeza de um homem que perdera algumas dessas batalhas e que viu algumas dessas crianças mortas:
- Você não era a única. Acho que poucos acreditavam que Atena estaria viva. A maioria apenas continuava a se defender, ou tentavam reconquistar os territórios perdidos.
- E você?
O sagitariano a encarou por um tempo e Shaina não desviou do olhar até que ele sorriu:
- Tinha dias difíceis, mas eu sempre acordava com uma sensação que, bem... quanto mais perto chegávamos de Olímpia, mais eu tinha certeza que a encontraríamos.
Uma estranha certeza invadiu Shaina enquanto encarava aqueles olhos intensos: a armadura de Sagitário jamais escolheria Sisifos se ele fosse alguém sem fé. Podia ver que Régulus tinha aquele mesmo entusiasmo, um diferente das outras crianças, diferente da de Marin, era algo que provavelmente fazia parte dos guerreiros que se ligavam com as armaduras de fogo.
A amazona sentiu o comos de Atena cada vez mais forte e se voltou para o Templo de Quíron, havia dezenas de guerreiros se aglomerando na frente da construção:
- Que sejam boas notícias... – Shaina murmurou
- Eu espero que seja um encerramento.
Um pouco de amor nesse momento que o mundo está tão assustado. Mais capítulos sairão esse mês. aguardem!
Τα λέμε!
