Capítulo 19 - Lar & Laços
Sarada observava o irmão brincando no parquinho no fundo de sua casa junto de Inoue. Fazia quase 3 meses desde o dia do Massacre na Academia Ninja, e desde então, apesar da covardia e o medo do País do Fogo quanto a qualquer outro ataque, os cidadãos estavam aos poucos retomando suas vidas. É claro que aquilo servia apenas para os cidadãos que não haviam perdido entes queridos aquele dia, pois não fora somente crianças mortas, mas também senseis e servidores da Academia. A segurança em volta da fronteira do País do Fogo estava redobrada, ainda mais com um dos responsáveis pelo ataque preso dentro da Aldeia.
Sarada ainda se lembrava do dia que fora anunciado — 40 dias depois do Massacre — que um dos responsáveis estava preso dentro da cadeia de segurança máxima de Konoha. Horas após o anúncio, populares e familiares das vitimas se aglomeraram em volta da prisão, ordenando pena de morte ao responsável, fazendo com que a força policial tivesse que pacificamente conter as pessoas e pedir para que elas esperassem pelo anúncio de seu Hokage. Naruto tivera que ir até lá acalmar os populares, explicando o motivo do porquê Konoha precisava do responsável vivo, e novamente, pedindo desculpas e desejando condolências aos familiares das vitimas.
Sarada sabia, pela expressão de Naruto na televisão, que aquele não era o momento que ele queria revelar aquela informação aos cidadãos — irritando-a ainda mais com os profissionais da área de jornalismo. Sarada cada dia mais pegava raiva dos jornalistas do País do Fogo, pois ela sabia que muitos até arriscavam suas vidas para capturar algum furo de reportagem para poderem ser os primeiros a divulgar. Ela não duvidava que alguém estava investigando secretamente tudo o que envolvia o Hokage para ter uma notícia como aquela para espalhar por Konoha antes de consultar o próprio líder da Aldeia.
Mas mesmo com todo o alvoroço, mesmo com a raiva por ver uma notícia daquela sendo espalhada sem pudor, ela não podia deixar de admirar Naruto, o Sétimo Hokage, por sua postura quanto aquela situação que ele se encontrara. Ele conseguiu conter uma aglomeração de gente revoltada por justiça em questão de minutos, e ainda, conseguiu confortar cada um dizendo sobre seus objetivos para com o acusado e até explicara que ele aguardava por um melhor momento para lhes informar sobre aquilo, dizendo que os profissionais responsáveis por terem espalhando aquela notícia sem autorização também seriam punidos.
Depois daquele dia, Sarada suspeitava que seus pais já sabiam daquelas informações — que um dos responsáveis, ex-membro da Organização Kara estava preso em Konoha — pois quando as notícias estavam por todos os jornais e televisão, nenhum dos dois se abalaram, na verdade, eles evitaram a TV por um certo período, e ela acreditara que era para proteger Satoshi.
"Você está calada hoje", ela sentiu o pai se aproximar da porta de seu quarto.
"Eu só estou pensando em estratégias para o Exame Jounin de amanhã", ela lhe respondeu, lhe dando um sorrisinho torto, como se o convidasse a se juntar a ela na sacada. Sasuke atravessou o quarto, passou pela grande porta de vidro, e se encostou na sacada, ficando lado a lado de Sarada.
"É engraçado observar os dois", Sarada murmurou após longos minutos observando Satoshi ajudando Inoue a pegar água na torneira para encher o buraco que eles cavaram na areia, "É como se ele fizesse todas as vontades dela sem nem perceber". Sasuke prestou mais a atenção em Satoshi quando Sarada descreveu sua observação. A maneira como ele agia em volta da garota de cabelos brancos era quase como uma força gravitacional. Observar os dois mais de perto fez com que Sasuke finalmente entendesse da onde Satoshi tirou sua coragem para achar e ajudar Inoue durante o Massacre na Academia.
A menina dera um propósito a ele.
E seu propósito era protegê-la.
Com aquele propósito, Satoshi havia conseguido sobreviver ao Massacre — ao lado da garota que ele tentou ao máximo proteger.
Sasuke sabia que aquilo não era algo momentâneo, e muito menos limitado. Mesmo sendo tão pequeno e ainda imaturo, Satoshi ainda era um Uchiha. E mesmo sendo pequeno demais para entender como funcionava os sentimentos, ele sabia o que era amor. Ele sabia o que ela amar a mãe, o pai e a irmã — mas era um sentimento limitado ainda a determinadas pessoas, pois era um sentimento com o qual ele crescera. Ele não sabia o que era amar alguém fora do seu vínculo familiar, e tudo porquê ele ainda não possuía o discernimento de seus sentimentos. Ele não sabe a diferença de gostar e amar, nem de não gostar ou odiar — são sentimentos que poderiam ainda entrar em conflito dentro de si.
Mas, inconscientemente…
… ele já tinha alguém fora de seu vínculo familiar por quem ele nutria sentimentos.
E ele, por ser ainda muito jovem, não saberia disso até ter a maturidade suficiente para entender a si próprio.
"Ele será fiel a ela", Sasuke murmurou a Sarada, observando como Satoshi segurava as mãos de Inoue — ajudando-a a carregar o balde de água até o buraco feito na areia.
"Eles não são muito jovens para isso?", Sarada virou o rosto para o pai, completamente incrédula com sua fala.
"Não dessa maneira como você imaginou", ele logo se explicou, "Eles podem ser grandes amigos por toda sua vida. Se eles podem ser algo a mais ou não, isso só o tempo vai dizer. Que tipo de relacionamento eles vão ter, isso eu não posso te dizer — a única coisa que posso afirmar é que ele sempre será fiel a ela", e com aquela fala, Sarada ficou encarando as feições serenas do pai — que em nenhum momento a encarou de volta, apenas continuou observando o que acontecia lá embaixo no parquinho.
"Seja como um amigo ou um possível futuro namorado?", Sarada tentava compreender aquela frase do pai — ainda achando estranho falar sobre um relacionamento amoroso hipotético do irmão mais novo.
"O tipo de relacionamento não importa", ele reforçou, e então virou o rosto para encará-la, "Você pode ser fiel a qualquer pessoa, seja ela um amigo, um professor ou um parceiro com quem você queira passar o resto da vida".
"Mas fidelidade não remete a caráter?", ela ficou curiosa com aquelas informações provindas do pai.
"A pessoas normais… sim", ele deu de ombros, e voltou a olhar para Satoshi e Inoue. Aquilo havia levantado uma dúvida imensa na cabeça de Sarada.
"Está dizendo que membros do nosso clã não são como pessoas normais?", Sarada perguntou em um tom quase que exigindo saber mais.
"Não traímos nossos sentimentos", Sasuke lhe disse em um tom branco, "Você deve saber exatamente do que estou falando", ele falou aquilo já esperando por uma reação da filha.
Sarada ficou paralisada por alguns minutos, filtrando todas aquelas informações, e então, deu um sorriso torto, e percebeu que sim, ela realmente sabia do que ele estava falando.
"E quanto a mamãe?", ela quis saber. A mãe era uma Uchiha por casamento, e não por sangue.
"Sua mãe…", Sasuke parecia procurar pela palavra certa, "É uma peculiaridade rara", mesmo estando de perfil para Sarada, ela podia ver um grande sorriso em seu rosto.
"E você acha que eu posso não dar a mesma sorte de encontrar uma peculiaridade rara também?", ela quis saber. Ela não sabia dizer, mas ela sentia que aquele assunto estava começando tirar o foco em Satoshi e começando a ter foco nela.
"Isso depende", ele lhe respondeu segundos depois.
"Depende do quê?"
"Do quanto você vai se entregar", e com aquela resposta, Sarada baixou os olhos e começou a encarar a grama no andar de baixo, completamente perdida em seus próprios sentimentos.
"Você não tem que se preocupar com esse tipo de coisa agora, Sarada", Sasuke se aproximou da filha, e com seu único braço, passou por seu pescoço, a trazendo para perto de seu peito. Sarada havia aceitado o contato com deleite, apertando o rosto mais forte no peito do pai — como se procurasse por aconchego, "Na verdade, você não precisa se preocupar nunca com isso se não quiser", aquela frase num tom ríspido fez com que ela soltasse uma risadinha.
Ela enfim tinha compreendido o que ele dizia.
Se você quiser descobrir se a pessoa será fiel a você, a única maneira de você sentir o verdadeiro sentimento da pessoa para com você, é você se entregando — e com isso, você também arrisca sua sanidade, pois ou você pode ser feliz ou poderá sair machucado.
"Ei, papai", Sarada queria aproveitar que o pai estava abrindo-se um pouco para tirar uma dúvida que surgiu naquele momento, "Você sentiu medo?".
Ele sabia do que ela estava falando.
"Sim", ele respondeu rápido, e a resposta deixou Sarada ainda mais curiosa.
"Mas a mamãe sempre foi completamente apaixonada por você desde a infância, ela já me contou isso uma vez. Por que você sentiu medo?"
Sasuke olhou profundamente para a grande árvore de ipê amarela que trazia uma enorme sombra no parquinho.
"Ela não conhecia meu interior", ele respondeu enquanto olhava as folhas de ipê se movendo com o vento, "Ela conhecia todos os meus defeitos e falhas, ela havia visto o meu pior lado, mas… quando os anos se passaram, e eu percebi meus próprios sentimentos, eu me perguntei se eu era digno de alguém como ela. Me perguntei se com o amadurecimento e crescimento dela, ela não poderia chegar a conclusão que merecia algo melhor do que alguém quebrado… e eu temia que quando eu me entregasse, ela percebesse isso".
"Não tem como você saber disso até se entregar", Sarada usou a informação que ele havia lhe dito anteriormente, e com aquilo, ela começou a ficar estranhamente feliz. O pai nunca havia se aberto daquela maneira com ela antes, nem nunca citou nada relacionado ao seu passado com a mãe também, pois sempre que ela perguntava, ele desviava do assunto.
Quantas vezes ela perguntava ou provocava-o sobre a mãe e o via completamente sem graça e arranjando uma desculpa para escapar daquelas ocasiões? Sarada podia notar a intensidade dos sentimentos do pai para com a mãe mesmo ele nunca os verbalizando, mas isso nunca tirou sua curiosidade de querer ouvir ele dizendo algo relacionado a aquilo.
"Eu… entendo", ela murmurou baixinho — sentindo-se mais leve — e no mesmo momento, ela sentiu o braço do pai a apertar ainda mais.
Como se quisesse a proteger…
… de qualquer coisa.
˜˜˜˜•˜˜˜˜˜
"Mamãe, a Inoue pode vir de novo amanhã?", Satoshi perguntou enquanto comia seu onigiri. Satoshi não conseguia ficar sentado para comer, e isso devia a seu entusiasmo em conseguir mexer-se livremente por ter se acostumado completamente com sua perna protética. Ele estava de pé e com as mãos sobre mesa, enquanto Sakura, Sarada e Sasuke estavam sentados comendo seus onigiris.
"Se a avó dela permitir, eu não vejo problema nenhum com isso", Sakura virou-se para o filho enquanto respondia, e em seguida, olhou para Sasuke, esperando alguma resposta do marido.
"Eu também não me importo", ele respondeu olhando rapidamente para o filho, e colocando outro pedaço de onigiri na boca.
"E se eu quiser ir na casa dela, eu posso?", ele perguntou em seguida, fazendo com que todos os três Uchihas mais velhos se entreolhassem.
"Eu não acho uma bo—", Sakura foi a primeira a protestar, mas Sasuke a cortou.
"Eu preciso primeiro conversar com o avô dela", Sakura e Sarada arregalaram os olhos para a fala do patriarca, completamente surpresas com sua atitude. Estaria Sasuke disposto a uma trégua com o Hyuga rabugento?
Sakura nunca imaginou que o marido ainda poderia surpreendê-la daquela maneira, mas, quando o assunto se tratava dos filhos, ela já havia percebido que ele se esforçava em ser menos… turrão.
Quando Sakura pensou em incrementar alguma coisa, eles ouviram uma batida na porta da frente.
"Eu atendo", Sarada levantou-se rapidamente da cadeira e foi até o hall de entrada ver de quem se tratava a aquela hora da noite.
"Sarada"
"Shikamaru-san", ela o cumprimentou, já adivinhando o porquê ele estava ali.
"Mamãe, papai", Sarada os convocou, saindo logo da porta antes que Satoshi ficasse curioso e fizesse perguntas. Sarada então pegou os onigiris restantes e chamou Satoshi para verem algum desenho em seu quarto — recebendo um olhar de agradecimento da mãe em seguida.
"O que foi, Shikamaru?", Sasuke o perguntou logo que Sarada e Satoshi ficaram longe o suficiente para não escutarem a conversa.
Sakura podia notar que Shikamaru fazia o máximo para esconder seu nervosismo e preocupação.
"Aconteceu algo com o Naruto?", Sakura perguntou, imaginando que poderia ter acontecido algo ao Hokage para ter seu conselheiro na porta deles.
"É difícil de explicar, seria melhor vocês verem".
E com aquela fala, os dois se entreolharam intrigados — antes de seguirem Shikamaru.
˜˜˜•˜˜˜
"O quê…"
Sakura acabou calando-se quando viu do que se tratava tudo aquilo.
A solitária estava repleta de sangue, e ela mal conseguia distinguir o que era sangue e o que era rocha, tamanho a quantidade de restos mortais espalhados — que mesmo se não tivesse aquele óculos no chão, ela já suspeitaria que se tratava de Amado. Ela podia ver restos de pele e até de orgãos internos espalhados pelo chão, e mesmo o corpo estando completamente destruído, ela sabia que não fora uma explosão. Alguém havia feito aquilo, e era alguém completamente frio ao ponto de fazer aquela barbaridade sem tamanho. Mas mesmo com toda aquela sujeira e aquele cheiro forte de carne humana, uma parede em específico era a maior curiosidade daquele horror.
"Em breve…
… o mundo ninja
… esvairá"
"Jigen", Sasuke grunhiu baixo, mas mesmo com a raiva que ele sentia, sua única mão tremia — seu corpo inteiro tremia. Era como se ele pudesse sentir o chakra do líder da Kara por toda a cela.
"Não…", Naruto, que estava junto deles, segurava uma bandana puída da folha, e a estendeu para Sasuke. Quando Sasuke pegou a bandana nas mãos, ele logo reconheceu a quem pertencia aquela bandana. Ele então encarou Naruto em horror.
O que eles mais temiam, já havia acontecido.
"De quem é essa bandana?", Sakura perguntou, tentando entender a conversa visual de seus colegas do antigo Time 7.
"Ao Kawaki", Sasuke lhe respondeu, sentindo que naquele momento, a qualquer hora e a qualquer momento…
… aconteceria um colapso no mundo ninja.
Notas Finais
E CHEGAMOS AO FIM!
Quem acompanha o mangá, já sabe que Jigen nada mais é que o receptáculo de Isshiki Otsutsuki, e que esse, prepara o corpo de Kawaki para ser seu próximo receptáculo. Meu objetivo desde o início era esse, terminar essa estória junto do início do primeiro capítulo de Boruto, onde mostra um Boruto jovem, com aproximadamente 16-17 anos lutando em cima do monumento dos Hokages com Kawaki.
Obrigada a todos vocês por terem acompanhado a fanfic e por deixarem seus feedbacks maravilhosos. Ah, e eu ainda vou lançar um epílogo em breve, e nele, vocês podem esperar BoruSara (ele já está escrito, só previso revisar tudo antes de publicá-lo).
