Capítulo 45

"Você já está de partida?" William perguntou, pegando nas duas mãos de Victoria, ao vê-la levantar-se da cadeira depois de tomarem um chá juntos.

"Eu ficaria aqui com você para sempre…Você sabe…" Ela respondeu.

Houve uma pausa e ele sabia ao que ela se referia. Se ele decidisse mandar o dever para trás das costas, ela ficaria com ele, aqui e agora. E ele seria assumidamente o pai daquela criança e eles poderiam desfrutar daquele filho juntos. Mas ele não estava preparado para fazer isso. Ele limitou-se a ficar em silêncio.

"Mas eu tenho de regressar, você também sabe…" Ela finalizou.

Ele colocou a mão direita na barriga dela e disse:

"Você está levando o meu filho com você…"

Victoria sorriu. Era a primeira vez que ele dizia "o meu filho". Então ela disse:

"Eu prometo que eu vou cuidar dele o melhor que me seja possível. Eu espero não desapontar…"

Ele puxou-a contra o peito, envolveu as costas dela e disse:

"Você nunca me desaponta. Eu sei que você fará o vosso melhor."

"Eu confesso que eu não sei o que fazer…"

"Você saberá. Todas as mulheres sabem. Chama-se instinto materno. E depois você irá aprender com as outras mulheres da Corte o que deve fazer."

"Como é que você sabe que é um menino?" Ela perguntou intrigada, levantado a cabeça para olhar para ele.

"Eu sinto…"

"Você deseja…"

"Não importa… Eu só quero que ele, ou ela, seja saudável…"

Victoria lembrou-se da história de vida do filho que ele tinha perdido…

"De quantos meses você está?" William perguntou.

"O Dr. Clarck acha que deve haver uns 2 ou 3 meses…"

"Nós temos cerc meses para esperar…"

"Mas é necessário falar com Albert…" Ela lembrou de novo.

"Eu estarei com você, claro." Ele disponibilizou-se.

"Eu gostaria de falar a sós com ele…"

"Você quer fazer isso sozinha?"

"Eu acho que sim. Nada seria mais incómodo do que dizer a Albert que eu sou vossa, mas isso ele já sabe. Dizer que há um bebé a caminho é a sequência disso…"

William assentiu com a cabeça. Depois ele disse:

"Eu regressarei amanhã ao palácio."

"Eu estarei esperando por você."

"Eu quero acompanhar você nos próximos meses o máximo de tempo que eu puder."

Ela sorriu e disse:

"E eu amo que você faça isso."

Ele beijou-a suavemente nos lábios.

A rainha estava de saída da casa de Brocket Hall na companhia da mais fiel lady- in-Waiting.

Victoria subiu para a carruagem auxiliada por William.

Emma preparava-se para dar a volta pela traseira da carruagem para entrar pela outra porta.

William seguiu-a e deteve-a pelo braço apenas alguns passos depois. Então ele pediu:

"Emma proteja-a com a vossa vida, ela está carregando um filho meu."

"Eu sei, William, e eu sempre protegeria ela, em qualquer circunstância."

"Você sabe sempre tudo, não é?" Ele perguntou.

"É essa a minha função. Saber de tudo para antecipar as necessidades e satisfazer os desejos da realeza."

William não disse mais nada.

Emma subiu para carruagem.

Ele voltou para o lado da carruagem onde Victoria se encontrava. Então ele sorriu para ela através do vidro e depois fez uma vénia como se ele fosse apenas um súbdito.

Victoria sorriu para ele e a carruagem partiu.

Agora que William ficou sozinho ele não conseguia parar de pensar no que ela tinha dito: "O Dr. Clark diz que eu estou à espera de uma criança." Ele ainda não conseguia acreditar que aquilo fosse verdade! Parecia um sonho. Era como se os pés dele não assentassem no chão, ele sentia-se como se flutuasse. Ela teria um filho dele? Ele iria ter um filho? Agora? Nesta idade? Deus, porquê agora? E porquê de uma mulher que ele não podia reivindicar como sua? E porquê um filho que ele não poderia divulgar ao mundo que era seu? E que destino teria aquela criança? Colocar uma criança no mundo era uma imensa responsabilidade. Bem, ele deveria ter pensado nisso antes de fazer o que ele tinha feito com ela…A pobre criança nunca saberia quem era o pai verdadeiro. Ou deveria ser-lhe dita a verdade? E como é que ele reagiria a isso quando soubesse? William queria que um filho dele se orgulhasse de o ter como pai, mas esse filho nunca se orgulharia, ou porque nunca saberia a verdade, ou porque quando soubesse seria tarde demais. Talvez aquela criança nunca o conhecesse o suficiente para se poder orgulhar, ou talvez até ficasse revoltado por saber uma verdade que o envergonharia. Afinal ele não era o legitimo herdeiro do trono, mas um bastardo, filho de uma relação adultera de uma mãe que não tinha sabido cumprir os seus deveres de esposa e de rainha. William pensou que talvez nessa época ele já tivesse partido deste mundo e nunca pudesse abraçar o próprio filho já conhecedor das verdadeiras origens. A cabeça dele tinha tantas interrogações e formulava tantos cenários possíveis que era impossível pensar em qualquer outra coisa.

Embora a noite já tivesse passado e um novo dia tivesse nascido o cérebro de Melbourne continuava às voltas com as mesmas questões: como seria o futuro de ambos e daquela criança? Como é que ele poderia vê-lo sempre que quisesse ou como é que ele poderia educá-lo? Albert iria dispor-se a criar aquela criança como sua? E como é que ele educaria essa criança? E que amor é que ele poderia dar? Afinal o Príncipe seria conhecedor da verdade. Albert ousaria perpetrar algum tipo de represálias sobre aquela criança? Seria seguro ter o filho dele na companhia de Albert? E seria possível manter este segredo? Mais cedo ou mais tarde alguém descobriria…E, então, como seria? Para ser descoberto mais tarde talvez fosse preferível divulgar a verdade desde já. Eles deveriam pedir a anulação do casamento dela com Albert e ele deveria casar com ela, agora que ela estava grávida. Estava ali uma oportunidade. A oportunidade da vida dele. Ele poderia ter uma esposa e um filho de verdade, e viver calmamente em Brocket Hall, num ambiente campestre e familiar. Isso seria o Paraíso. Mas e Victoria? Ela era a Rainha, afinal. Ele não podia tirar isso dela. Como é que ela se habituaria a viver sozinha no campo com ele, longe de tudo e de todos? Não. Afinal Brockett Hall não era Londres nem Buckingham. E não haveria um trono nem uma coroa.

"Skerrett…"

"Ma'am…"

As fórmulas habituais de tratamento foram usadas entre a rainha e a camareira quando esta última entrou na sala de trabalho da soberana, depois de ter sido chamada.

"Eu sei tudo o que se passou entre você e Lord M…" Informou a rainha, levantando a cabeça da secretária para olhar para a rapariga na frente dela.

"Ma'am, eu…" Skerrett começou atrapalhada.

"Eu sei Skerrett, não se preocupe. Eu sei que isso só aconteceu porque vós ambos se preocupam comigo. Isso resultou apenas do cuidado de Lord M para comigo e do vosso sacrifício e da vossa coragem."

"Obrigada, ma'am. Por compreender…"

"Agora entregue esta carta a Lehzen e diga a ela para a despachar ainda hoje. É urgente." Victoria informou estendendo a mão com um papel amarelado.

Skerrett agarrou na carta, fez uma vénia e saiu.

Apenas alguns minutos depois William chegou.

Victoria recebeu-o amorosamente, colocando os braços à volta das costas dele e apertando o rosto contra o peito dele.

Ele envolveu as costas dela e beijou-a na cabeça.

Ele era uma fortaleza, um reduto de proteção. E ela adorava ouvir o bater do coração dele, que ela sabia que batia por ela.

"Você está bem?" Ele perguntou.

"Mais ou menos…Eu estava enjoada ainda há pouco, mas eu estou melhor agora…O Dr. Clark disse para eu tomar chá de gengibre. Mas não está fácil encobrir a minha condição. Ninguém sabe ainda que eu espero uma criança…Eu não quero dizer nada para ninguém até poder contar para Albert."

"Talvez você tenha de dizer a algumas pessoas…Pelo menos para Lehzen e para a vossa mãe. Albert não chegará em poucos dias e elas estão muito próximas e irão perceber. Também Skerrett, Harriet…Emma já sabe."

"Eu acabei de enviar uma carta para Albert. Eu espero que ele regresse rapidamente."

"Você quer mesmo falar com ele a sós?" William perguntou de novo.

"Sim. Ele é o meu marido, infelizmente…Eu sou formalmente a mulher dele, vai nascer uma criança que deveria ser filho dele e que irá herdar o trono. Talvez seja mais simples retirar você desta conversa. Poderá ser mais fácil de gerir."

Houve um silêncio, e então ele disse:

"Eu quero saber tudo sobre essa criança, eu quero que você me diga como você se sente, se você não se sente bem…"

"Eu irei dizer-vos tudo, William." Ela garantiu.

Quando saiu da sala de trabalho de Victoria, Melbourne avistou Skerrett no corredor a caminhar com as costas dela para ele.

Ela continuava a evitá-lo desde aquele acontecimento no jardim …Ele não deveria ter feito aquilo. Mas agora já estava feito…

"Miss Skerrett!" Ele chamou.

Skerrett parou e virou-se para trás para encará-lo.

Ele apressou-se até chegar junto dela.

"Miss Skerrett!"

"Lord Melbourne…"

Ela corou visivelmente.

Ele deu-lhe uns segundos para ela se recuperar e depois perguntou:

"Eu vejo que existe algum problema entre nós ou eu estou enganado?"

"Não, que problema poderia haver, Lord Melbourne?" Ela negou.

"Eu sinto que você me evita…"

"Não, claro que não."

"Miss Skerrett eu peço desculpa se eu tive para com a senhorita alguma atitude inadequada que vos deixou desconfortável…Se você sentiu que houve um abuso da minha parte não foi minha intenção…"

"Não!" Ela respondeu determinada.

Abuso? Oh não, Lord Melbourne. O senhor poderia fazer muito mais do que aquilo e eu nunca consideraria um abuso… Ela pensou.

"Eu só pensei na rainha. Eu sempre penso nela." Disse ele, reforçando a última parte. "Você sabe… E você também, eu tenho a certeza. Você só pensa no bem dela. E é bom saber que a rainha pode contar com servidores fiéis."

Skerrett engoliu e disse:

"Claro, Lord Melborune. Pode estar certo disso."

Ele quase sorriu para ela e depois ele baixou um pouco a cabeça, num cumprimento, e ele foi embora.

Ela era tão tola! Agora que ele dizia isto, o que ela tinha sentido era tão absurdo! Era pateta e tão infantil e desajustado. Não, ela não estava apaixonada por aquele homem. Isso não podia ser. Isso era apenas um devaneio absurdo.

Era claro que ele só pensava na rainha. A rainha era uma mulher linda e poderosa! Ele nunca poderia olhar de uma forma especial para uma mulher como ela, uma camareira. Mesmo que alguma vez ele se tivesse deitado com ela, ele nunca gostaria dela como ele gostava da rainha. E tinha sido ela mesma que tinha começado aquela situação. Agora ela só estava a colher o resultado…Mas ela também só tinha pensado em salvar a rainha naquele dia em que a duquesa lançava suspeitas de que ela e o Primeiro Ministro eram amantes.

Victoria tinha conseguido encobrir a gravidez.

Albert iria chegar hoje, muito em breve, e ela estava nervosa.

Felizmente, hoje William estaria no parlamento o dia todo. Os dois homens não se encontrariam hoje e ele não estaria aqui para presenciar a conversa dela com o Príncipe.

O Príncipe foi anunciado e, de pé no meio da sala, Victoria sentiu um aperto no estômago.

"Albert…" Ela pronunciou quando o viu entrar.

Parecia que tinham passado décadas desde que ela o vira pela última vez. Ele parecia mesmo mais velho. E o cabelo tinha crescido e estava desagradavelmente sobre a testa…E aquele bigode… William não tinha nada daquilo!

"Victoria." Disse o Príncipe calmamente.

Houve um silêncio.

Eles ficaram de pé olhando um para o outro.

"Você solicitou que eu voltasse…" O Príncipe começou.

"Eu tenho algo muito importante para comunicar para você."

Ele suspirou e disse:

"Eu suponho que sim, por algum motivo você fez com que eu saísse de Coburgo de forma apressada."

"Eu estou esperando uma criança." Ela declarou simplesmente. Aquilo tinha de ser dito e era melhor fazê-lo rapidamente.

O estômago dele revolveu-se. A gravidez era a prova de que ela havia se deitado com o Primeiro Ministro. Como se ele não tivesse visto…Como se ele não acreditasse, até agora, no que ele mesmo tinha visto. Era chocante demais!

Ele não a amava, era claro que ele não a amava. Tinha havido uma época em que ele pensara que sim, mas não. Ele estivera iludido e desejara apenas que assim fosse. Não importava se não havia amor, os casamentos eram mesmo todos assim: um negócio. Mas, que raio, ela era a mulher dele! E ela não deveria ter-se deitado com outro! Ele precisava de atacá-la verbalmente!

"E quem é o pai?" O Príncipe perguntou com ironia.

"Albert!" Victoria exclamou, mostrando-se ofendida.

"Eu não sou, então pode ser qualquer um…" Ele continuou com desdém.

"Você sabe muito bem quem é o pai! Não seja desagradável."

"Desagradável, eu? E a situação perante a qual você me coloca não é bastante desagradável?" Ele perguntou, levantando a voz.

Ela suspirou para tentar acalmar-se. Então ela disse:

"Albert…Eu não queria que estivéssemos nesta situação. Nenhum de nós três queria. Mas eu não tive alternativa. Eu fui empurrada para casar com você, mas eu amava outra pessoa e essa pessoa também me amava a mim. Entregar-me a ele era o único caminho que eu sentia como certo. Você é capaz de compreender isso? Ou pelo menos de tentar?"

"Uma rainha digna, teria cumprido o dever para com o marido e para com o reino."

Ela ficou em silêncio uns segundos e depois concordou.

"Muito bem. Talvez eu não seja uma rainha digna, mas eu sou uma mulher digna, possuída por um homem só, e esse homem e Lord Melbourne. E eu amo-o com tudo de mim. Seria bom que um dia você pudesse encontrar um amor assim. Eu estou certa de que é raro. É impossível que seja comum, mas devem existir mais circunstâncias felizes como essa. Porque, como você diz, eu não sou uma rainha digna eu preferia abdicar. Eu só não faço isso porque Lord M não permite. Pelo amor que ele me tem ele prefere sacrificar-se. Em vez de me reivindicar como esposa, ele prefere que eu me mantenha na cabeça do Império. Como você vê, apesar do amor que nos une a nossa relação não pode ser completa, nestas circunstâncias nós não podemos nos casar."

"Você poderia ter feito diferente…Você poderia ter cumprido o vosso dever independentemente dos amantes que pudesse vir a ter…" Disse Albert.

Victoria usou uns segundos para entender plenamente o que ele dizia. Depois ela perguntou:

"Você toleraria que eu tivesse Lord M como amante se eu vos tivesse dado um filho? Você preferia que tivesse sido assim…"

"Essa seria uma ordem natural para as coisas…Ter um filho legítimo e depois um ou mais amantes e os filhos que viessem a seguir…"

"Isso não seria possível. Não para mim. Eu não posso ser de mais nenhum outro homem além dele. Isto não é uma brincadeira, um divertimento apenas…O que existe entre nós é forte, puro e profundo. Você não compreende."

"E você compreende a posição em que você me colocou?" Ele perguntou.

"Desculpe! Desculpe Albert! Eu não posso fazer mais do que pedir desculpa. E se eu ainda não fiz isso, eu peço desculpa agora. Quando eu me casei com você eu pensei que eu poderia esquecer Lord M e que eu poderia ser vossa esposa, mas eu não pude fazer isso. Havia um nó na garganta e um aperto no estômago que crescia cada vez mais, logo a partir do momento do casamento. Essa sensação desagradável já existia antes, só de pensar que eu teria de casar com você e que eu nunca casaria com Lord M. Mas ela adensou-se quando a cerimónia efetiva do casamento me mostrou que depois disso eu teria de cumprir o meu dever. Mas eu não fui capaz de cumpri-lo…"

"Você é fraca!" Ele atirou.

"Fraca, eu? Depois de tudo o que eu suportei? Você não sabe o que eu passei por não poder ter Lord M comigo e, mesmo agora, você não sabe como é…Nós não somos livres…Nós não podemos constituir uma família…"

"Uma mulher forte teria cumprido o dever, por mais desagradável que isso fosse."

"Chame do que quiser, diga que é fraqueza, mas eu chamo-lhe amor e dignidade."

Albert ficou calado.

Victoria esperava que ele dissesse algo mais, mas ele não disse. Com as mãos apertando com forças as costas de uma cadeira ela disse:

"Esta é a circunstância em que estamos, Albert, e ela é muito real. A minha barriga vai começar a crescer e é necessário tomar uma decisão agora. A vinda desta criança tem de ser tornada pública. É preciso decidir se ela deve ser anunciada como herdeira do trono ou como filho de Lord M…"

Victoria notou que o tom de voz dela era quase de uma súplica. E ela não deveria suplicar nada daquele homem.

O silêncio da parte dele permaneceu.

Ela sentiu necessidade de ser mais incisiva e mais determinada. Então ela disse:

"Há duas hipóteses: ou você é prestigiado por ser o pai do herdeiro do trono e o vosso subsídio aumenta, e eu acrescento mais uma parte pela vossa benevolência para comigo e Lord M, e para com essa criança; ou você volta para Coburgo sem uma libra…

Poucos segundos depois a voz de Albert soou na sala.

"Você pode dizer que eu sou o pai dessa criança." Ele concordou e saiu da sala.

Victoria ficou a olhar para a porta mesmo depois dele ter saído. O peito dela movia-se mostrando que a respiração estava acelerada.

Agora ela tinha de comunicar isto a William. Ela poderia mandar um bilhete, mas ela precisava de falar com ele pessoalmente, de estar com ele, de ouvir a voz dele, de sentir as mãos dele…

Assim que foi possível, Victoria foi a casa de William acompanhada por Emma. Ele estava no parlamento, ela sabia, e era previsível que ainda não tivesse chegado. Mas ela estava disposta a esperar. Talvez ela tivesse mesmo de esperar durante muito tempo. Afinal as sessões podiam demorar e ele não sabia que ela esperava por ele. O mordomo sugeriu enviar um rapaz ao parlamento com uma mensagem, mas Victoria recusou.

Era tarde quando ele chegou.

Havia duas mulheres na biblioteca à espera dele.

A surpresa foi a primeira coisa que Victoria viu no rosto dele quando se levantou da cadeira de braços para o encarar.

"Você aqui? A esta hora?" Ele perguntou, notando que ela tinha estado sentada na cadeira de braços preferida dele.

"Emma…" Ele pronunciou depois, num tom de cumprimento.

"Boa noite, William." Emma cumprimentou e suspirou. "A nossa rainha não quis ir embora até que você chegasse." Ela acrescentou com um tom humorado.

"Você podia ter-me mandado chamar." Ele disse olhando para Victoria.

"Eu não quis fazer isso, você tinha trabalho a fazer." Então a rainha olhou para Emma e disse:

"Emma…"

Percebendo a mensagem Emma fez uma vénia e disse:

"Majestade."

Depois ela saiu da biblioteca.

William aproximou-se de Victoria e pegou nas mãos dela, mas depois ele abraçou-a e beijou a testa dela.

Mantendo-se abraçados, eles rodaram sobre o chão fazendo um semicírculo.

Então como se se tivesse lembrado repentinamente do que estava em jogo, ele perguntou:

"Você veio aqui… O que aconteceu? Albert…O que é que ele disse? Ele já chegou? Você falou com ele? Ele está lá no palácio e você está aqui a esta hora…"

"Tenha alma, William." Ela pediu, firmando as mãos sobre o peito dele. "Sim, ele chegou e eu falei com ele. É por isso que eu estou aqui."

"O que é que ele disse?"

"Ele disse que admite ser o pai desta criança."

William pegou nas mãos de Victoria, baixou os olhos e levantou as sobrancelhas dizendo:

"Oh…"

Ele parecia descontente.

Victoria perguntou:

"Não era isso que você queria?"

"Sim, mas… Assim, eu nunca poderei ser o pai dessa criança…" Ele respondeu num tom de lamento.

Ela olhou com admiração e ternura para ele, franzindo a testa e perguntou:

"Você quer ser o pai desta criança, meu amor? Você pode ser, eu sempre disse…"

"Não. Eu queria, mas eu não posso. É melhor assim. Por você e por ele. Eu não tenho praticamente nada para oferecer para você… Você precisa de manter o trono. E eu também não posso dar a essa criança um início de vida envolto em escândalo."

Mantendo a mão esquerda nas mãos dele, ela colocou a mão direita no rosto dele e disse:

"Meu amor você tem a única coisa de que eu realmente preciso. Você tem amor para me dar. E isso para mim é mais importante do que qualquer outra coisa. Isso é a única coisa de que eu sempre precisei…"

"Eu tenho Victoria, eu tenho, muito amor, por você e por essa criança, que ainda nem nasceu, mas é preciso pensar no futuro. A vida é efémera, eu estou cá há tanto tempo e essa criança ainda nem viu a luz do sol…A vossa segurança é o mais importante e eu não poderei garantir-vos isso para sempre…"

Instintivamente, eles abraçaram-se mutuamente.

Ela não gostava nada disto, que desde que o nascimento daquela criança fora anunciado pelo Dr. Clarck, tivesse surgido como evidente para ela a noção da finitude de William.

Ele sentou-se na cadeira de braços que estava agora atrás dele e colocou-a no colo, embalando-a um pouco como se ela fosse uma criança. Havia uma dentro de ela…

O anúncio da vinda desta criança tinha tornado as coisas mais tristes e preocupantes para ambos. Antes, a dificuldade era poderem estar juntos, mas quando isso acontecia só havia amor e prazer. Agora tudo se tinha tornado mais sério, uma maior responsabilidade. Antes, estarem juntos era divertido e vivido sem pensarem muito nas consequências. Só interessava o ali e agora. Mas com a vinda desta criança era inevitável pensar no futuro, e isso era incerto e preocupante. Ele sabia que ele não poderia estar lá para sempre, para ela e para aquela criança. E ela sabia que ele não poderia estar lá para sempre.

"Você aqui em casa de novo…E a esta hora…" Ele lembrou preocupado.

Ela endireitou-se mais no colo dele e disse:

"Eu tornei-me uma rainha desobediente. Eu não sou mais a menina de 18 anos assustada que subiu ao trono, eu faço o que eu quiser."

"É muito arriscado." Ele alertou.

Ela olhou nos olhos dele e disse com determinação:

"Eu quero estar com você! Só com você! Eu quero poder dormir nos vossos braços todas as noites…"

"Victoria nós temos de ter cuidado. Não vamos estragar tudo agora."

"Albert já sabe." Ela minimizou o problema.

"Mas não é apenas com ele que nós temos de nos preocupar. Se nós formos descuidados a legitimidade dessa criança será questionada."

"Eu estou cansada William, eu estou cansada de viver uma mentira, de fingir uma realidade que não existe e de esconder que eu amo você.

"Eu sei, meu amor, eu sei."

Ela debruçou-se e colocou a testa sobre o peito dele.

Ele envolveu as costas dela.

Só poder ficar ali assim mais uns minutos, sentindo o calor e o cheiro de ele, já era uma bênção.

"Drina, onde é que você estava?" A duquesa perguntou quando viu entrar Victoria na sala de jantar onde ela e Albert, juntamente com mais alguns membros da Casa Real, estavam reunidos.

"Eu precisei de sair." Ela respondeu.

"O vosso marido acabou de chegar de viagem e você deixou o palácio? Para ir onde, com quem?"

"Isso não importa. Eu tive assuntos urgentes para resolver e eu não fui sozinha."

"Todos estamos esperando para jantar."

"Vocês podem jantar sem mim, eu vou recolher-me no meu quarto."

"Drina?"

"Eu estou indisposta. Eu peço desculpa. Amanhã eu estarei melhor. Boa noite."

A rainha virou as costas e foi embora.

O silêncio reinou na sala.

A duquesa olhou para Albert inquiridora.

Ele não tinha nada com que pudesse justificar aquele comportamento.

Victoria pediu para comer algo no quarto de dormir e mandou embora todas aquelas mulheres que circulavam à volta dela.

Lehzen achou que a rainha não estava bem e queria chamar o médico, mas ela não deixou que isso acontecesse.

Lehzen foi obrigada a sair também.

Os meses que ela passaria grávida e sem ter William no lugar de marido, e de pai daquela criança eram uma perspetiva desoladora. Agora, mais do que nunca, ela precisava dele. Antes ele fora importante para guiá-la nos meandros dessa coisa desconhecida e complexa que era a política. Depois ele fora mágico para guiá-la nessa coisa maravilhosa que era o amor e a partilha do prazer. Mas agora… Agora era outra coisa. Agora ela estava diferente. Algo estava a mudar dentro e fora de ela. As emoções não eram mais as mesmas e o corpo também em breve não seria o mesmo. Ela só queria que ele pudesse estar sempre por perto e que a abraçasse permanentemente. Só assim ela se sentiria confortada.

Ficar fechada no quarto, sobre a cama, enrolada sobre si mesma e não ver ninguém era o mais próximo disso. Ali, ao menos, ela podia pensar nele sem parar e imaginar que ele estava lá, deitado atrás das costas dela, e que a envolvia como uma concha.

A duquesa de Kent convidou o sobrinho para dar um passeio no jardim.

"Albert, o que é que se passa de errado entre você e Victoria?" Ela perguntou curiosa, enquanto caminhavam.

"Não se passa nada de errado." Ele respondeu, tentando que a conversa terminasse ali.

"Como não, Albert? Não queira me enganar. Eu poderia ser vossa mãe! Primeiro você partiu para Coburgo de forma imprevisível, depois você ficou afastado da vossa jovem mulher e agora você voltou também inesperadamente. E Victoria não suporta a vossa presença…"

Ele parou e suspirou rendido. Depois ele disse:

"Muito bem, eu admito. Está tudo errado entre nós. Ela não gosta de mim, ela não queria ter casado comigo, ela diz que foi obrigada…"

"Albert!" Ela exclamou, parecendo surpresa. Depois a duquesa perguntou: "Victoria gostaria de ter casado com outro homem?"

A duquesa sabia bem em quem ela estava a pensar quando disse "outro homem".

O Príncipe ficou um pouco em silêncio, procurando uma resposta adequada. Depois ele respondeu:

"Isso eu não sei…Eu só sei que ela não quer nem que eu chegue perto dela."

"Mas desse modo o nascimento de um herdeiro está comprometido." Lembrou a duquesa.

"Quanto a isso você não tem que se preocupar, minha tia."

"Não?" Ela perguntou curiosa, querendo entender plenamente o que ele lhe dizia.

"Não. Victoria já está à espera de uma criança."

A duquesa abriu ligeiramente a boca e depois ela observou confusa:

"Mas eu não sabia, ela não me disse, e nesse caso isso significa que você e ela…Bem nesse caso teremos um herdeiro!"

"Sim, foi por isso que eu voltei. Victoria mandou-me chamar para me comunicar essa circunstância."

"Mas vocês não disseram nada para ninguém…"

"É Victoria quem sabe qual é o momento apropriado para fazer esse anúncio."

"Compreendo…" Disse a duquesa. Depois para reanimar o Príncipe ela disse: "Sabe, agora nesta fase, ela pode estar confusa e a sentir-se debilitada por causa da condição dela. Mas depois, quando essa criança nascer, Victoria ficará melhor, ela irá cair em si, e ela irá perceber como você é um bom homem. Criar e educar essa criança, e manter uma harmonia familiar, irão tornar-se uma prioridade, e eu acredito que ela irá mudar a atitude de ela em relação a você. Mas é preciso ter paciência, meu sobrinho. Victoria pode ser muito teimosa."

Ele sabia que isso não iria acontecer, mas o adequado era ele concordar. Então ele disse:

"Eu espero que sim."

A duquesa não era tão tonta quanto poderia parecer e estava atenta a todos os movimentos. Victoria não tinha assumido que já tinha cumprido o dever para com o marido naquele pequeno almoço em Claremont, quando ela a pressionara sobre esse facto. Então como é que ela estava à espera de uma criança? Bem, era melhor embarcar naquela história e esperar para ver onde iria terminar. Se houvesse uma outra história oculta por trás disto, em algum momento a verdade viria ao de cima…

"Mandou-me chamar Majestade?" Lehzen perguntou quando entrou no quarto da rainha.

Victoria acabara de ficar preparada naquela manhã e Skerrett saiu do quarto deixando as outras duas mulheres sozinhas.

A rainha sorriu e caminhou na direção de Lehzen, segurando as duas mãos dela.

"Eu tenho mais uma missão para você." Victoria disse, fazendo suspense.

"Uma missão, Majestade?"

"Sim, eu preciso que você tome conta de um bebé."

"Um bebé?" Lehzen perguntou sem entender, por um instante, o significado do que a soberana lhe dizia. Mas houve algo dentro dela que subitamente entendeu o significado. Então ela levou as mãos ao rosto e perguntou entusiasmada: "Vossa Majestade vai ter um bebé? Teremos um herdeiro?"

"Sim." Victoria confirmou, sorrindo.

"Oh, mas será uma honra criar essa criança! Eu só temo que eu esteja ficando demasiado velha para conseguir…"

"Lehzen, você não está velha! E eu só confio em você para tomar conta do meu bebé."

"Eu fico feliz, Majestade. Eu desejo tudo de bom para a senhora e para essa criança."

Instintivamente elas abraçaram-se.

"Mas eu não sei se o príncipe irá concordar…" Lehzen disse apreensiva quando as duas se separaram.

"Ele não tem de concordar. O filho é meu!" Victoria exclamou com determinação.

"Bem, ele não é apenas vosso…" Lehzen ousou dizer.

"Eu sou a rainha e esse bebé será o herdeiro do trono apenas porque ele é meu filho. Albert não tem o poder de determinar nada."

Lezhen interpretou o que era necessário que ela interpretasse, mas a verdade só Victoria conhecia.

E o nascimento do herdeiro do trono foi anunciado publicamente.