Bom carnaval e boa leitura!


Porque yo soy tu veneno
Controlando tu cuerpo
Tú me das lo que quiero
Soy tu veneno
Estás jugando con fuego
Cuidao', que te quemo.


CAPÍTULO XLVIII – Rosa Imortal

A subida até Star Hill é considerada a mais difícil de todas para os meros mortais, mas para os deuses a montanha é sempre condescendente. Shion e Athena chegaram ao templo no cume da montanha sagrada antes do nascer do sol sem enfrentar quase nenhum obstáculo. Ser a pessoa mais próxima de Athena dava uma grande vantagem a Shion. O Patriarca conduziu Athena até o local de leitura do céu, chamada de janela para o universo. Saori sempre se maravilhava com a áurea divina que rodeava o templo. Shion a deixou no centro do templo e ativou com seu cosmo um mecanismo que abria a claraboia do teto. A luz das estrelas amigas do Santuário, aquelas que formavam as doze constelações dos signos do zodíaco, iluminaram o patriarca e a deusa. Athena entrelaçou os dedos contra o peito e iniciou uma prece, na qual solicitava a presença do mensageiro dos deuses.

Segundos depois, os cosmos flutuantes de Star Hill começaram a balançar de forma ritmada embalados pela melodia suave da lira, em seguida Hermes surgiu flutuando. Athena sorriu para o deus, encantada com sua bela figura e reconhecendo a amizade em seu cosmo. Lembrou quando ele apareceu em seus sonhos, pedindo que fosse até Star Hill. Estava curiosa para saber o que o mensageiro queria, ao mesmo tempo já imaginava, ele queria Kairos.

- Bem vindo a Star Hill, Hermes. – saudou Shion.

- Obrigada patriarca. – disse Hermes, então voltou-se para a jovem deusa – Senhora Athena, é um grande prazer encontrá-la. Ouvi falar sobre sua beleza, mas confesso que minhas expectativas foram superadas. – ele abriu um sorriso encantador para Athena a deixando corada – No caminho compus uma melodia especial para a filha de Zeus nascida na Terra, gostaria de ouvi-la?

- Não há tempo para melodias. – cortou Shion – Precisamos conversar seriamente. Chamei por você várias vezes, porque não me respondeu?

- Eu estive ocupado, Patriarca.

- Ocupado?! – indagou Shion, demostrando irritação enquanto avançava na direção do deus alado – Ah, deve ser bastante trabalhoso para os deuses do Olimpo respirarem aliviados depois da última guerra que travamos contra um de seus inimigos.

- Shion, por favor... – pediu Athena se colocando a frente de Hermes, percebendo a torrente de sentimentos do lemuriano. Em seguida voltou-se para o mensageiro – Ele está bastante preocupado com a filha que desapareceu em meio a invasão de Kairos.

- Eu entendo. – disse Hermes baixando a cabeça, compreensivamente.

- Onde ela está? – indagou Shion.

- Infelizmente, não sei. – respondeu Hermes.

- Mentira! – exclamou Shion – Você conhece os caminhos interdimensionais, a levou até a mãe verdadeira, até a convenceu a lutar pelos deuses da aliança, portanto, não me venha com desculpas...

- Sim, conheço os caminhos interdimensionais, mas não levei Jim até a mãe, eu a acompanhei por todo o caminho que ela indicou. – justificou-se Hermes.

Irado, Shion arrancou da túnica a pequena caixa onde Kairos estava confinado.

- Escute bem Hermes, se não falar onde minha filha está sou capaz de liberar Kairos aqui e agora e do jeito que ele deve estar louco de raiva, é capaz de voar até o Olimpo com suas marionetes e causar uma grande bagunça por lá. Sim, estou pouco me lixando para os deuses e suas malditas disputas. Minha filha é tudo o que importa para mim agora. Portanto, se você sabe o que aconteceu com ela, é melhor ir falando.

- Shion! – exclamou Athena, temendo que a ira paterna de patriarca causasse um incidente diplomático. – Hermes não é nosso inimigo, pelo contrário, ele nos ajudou o quanto pode. Não descarregue sua raiva nele.

Shion respirou fundo após ouvir o pedido de Athena, procurando espantar o nervosismo que o assombrava desde que sua filha mais velha sumira.

- Jim é uma boa garota, Shion – disse Hermes após um minuto de silêncio – Herdou seu senso de justiça. Eu errei em me meter nesse conflito, de certa forma, me sinto culpado pelo que aconteceu. A Jim só entrou nesta luta por minha causa, porque falei com ela, exprimi minhas opiniões sabendo que sou apenas um mensageiro... – lentamente aproximou-se de Shion – Por isso peço perdão, Patriarca.

- O que disse a ela?! – agitou-se Shion, curioso para saber o que teria levado a Jim a lutar.

- Disse que ela poderia provar que era diferente de seus antepassados, que poderia fazer a paz, não a guerra.

Shion franziu o cenho, refletindo as palavras de Hermes. "Diferente de seus antepassados... A raça antiga que se rebelou contra os deuses... Então era isso o que queria dizer com Jim cumprir seu destino, Nya? O que fez a nossa filha?", pensou Shion.

- Você só se importa com os interesses dos deuses que representa. - rebateu Shion – Do contrário teria ao menos procurado por ela...

- Leia o meu coração, como a sua filha leu uma vez, e saberá que falo a verdade. – disse Hermes – Como eu disse, vi na Jim um grande senso de justiça, algo muito além de seu poder incrível. Jamais quis manipula-la ou recrutá-la para a causa dos deuses da aliança. Arrependo-me profundamente de minha intromissão. Meu desejo era traze-la até você sã e salva. Infelizmente não fui capaz de encontrá-la. Suspeito que ela esteja com a mãe verdadeira, um lugar que só ela pode acessar, e também pode ter aprendido a habilidade de tornar seu cosmo impossível de rastrear. Shion, eu realmente sinto muito que tudo tenha terminado dessa forma.

Por mais triste que estivesse, Shion via sinceridade nas palavras do mensageiro dos deuses. Ele também suspeitava que Jim estivesse com Nya, rezava para que fosse verdade, pois queria acreditar que a filha estivesse segura com mãe verdadeira, embora esse pensamento não acalmasse seu coração nem um pouco.

- Shion, eu prometo que continuarei procurando por ela – disse Hermes, - Prometo dar notícias assim que as tiver. Pode confiar em mim. Estou em dívida com você. Agora, preciso que me entregue a caixa. Temos um lugar seguro para ela no Olimpo. E quando a validade dos selos acabar, Kairos terá muito o que explicar a seu irmão Cronos. – e estendeu a mão para Shion. Relutante, Shion depositou a caixa na mão de Hermes. – Agradeço em nome dos Deuses da Aliança. Sua participação nesta guerra e a bravura de Athena não será esquecida. Os deuses acataram a proposta que me fez antes da batalha. Considere o acordo firmado entre os deuses e Athena rasgado, de modo que não será mais possível cobrar nada de Athena nem de seus cavaleiros. Desfrutem da paz.

Hermes fez uma reverência para Athena e flutuou para além da abertura no teto do templo, acompanhado pelos cosmos flutuantes de Star Hill e por sua melodia, até desaparecer completamente em meio a imensidão do céu. Após a saída do deus, Shion sentou no primeiro degrau da escadaria que levava ao local de comunicação divina, as mãos cobriam a testa e sua expressão era de desolação. Havia conseguido a sonhada trégua, em contra partida perdera a filha. Paz era a última coisa que teria.

- Eu falhei. – disse sem forças para repelir o choro – Falhei como pai. Eu devia tê-la protegido...

- Não acho que tenha falhado. Fez tudo o que estava ao seu alcance. – disse Athena, gentilmente. Sentou-se apoiando a cabeça em seu ombro. – Não perca a fé, meu querido Shion.

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Alexia deixou cair sua xícara de café quando viu Shura entrar na cozinha. Correu até ele chorando de alegria, o coração pulando de felicidade. Beijou-o várias vezes e o abraçou apertado. Shura retribuía o carinho com igual emoção.

- Obrigada deuses justos. Obrigada... – sussurrava a serva, segurando o rosto do espanhol. – Como está se sentindo? Oh, devia ter ficado na cama, devia ter me chamado...

- Estou bem, sinto meu corpo e cosmo completamente recuperado – falou Shura, olhou em volta e percebeu resquícios de batalha em sua casa. Alexia não tivera tempo de deixar a casa como era antes – O que aconteceu por aqui?

Então Alexia o levou até a sala e contou tudo, sobre a invasão e como foi espantoso usar a Excalibur.

- Isso só acontece quando eu passo a espada sagrada para alguém que apenas lutará em nome da justiça, como fiz com o Shiryu de Dragão – revelou Shura – Alexia, eu senti o perigo a sua volta enquanto dormia e desejei ardentemente que minha espada te protegesse, roguei a Athena que fizesse um milagre...

- Ela fez. – disse Alexia, voltando a se emocionar. – A Excalibur brilhou no meu braço e protegeu a mim e ao nosso filho. – sorrindo, colocou a mão de Shura sobre sua barriga.

- Alexia! Não me diga que...

- Estou grávida! – exclamou Alexia, chorando.

Um pálido Shura de Capricórnio se ajoelhou e beijou várias vezes a barriga da mãe de seu filho. Sentiam-se abençoados, lágrimas de felicidade despencaram de seus olhos. Aproveitaram mais um pouco aquele momento onde sabiam-se futuros pai e mãe, então Shura disse a Alexia que precisava ir ao templo de Athena contar que estava restabelecido do coma. Alexia o acompanhou até a saída do décimo templo, caminhava com a cabeça apoiada no ombro do cavaleiro. Sentia que os traumas do passado haviam sido vencidos, retalhados pela poderosa Excalibur.

- Estou muito feliz por ser a mãe de um futuro cavaleiro de ouro. – disse para Shura antes de se despedirem. – Mas espero nunca mais ter que usar o cosmo. É muito assustador.

Shura riu do comentário da jovem serva.

- Tenho muito o que agradecer ao Aiolos por estar aqui quando precisou e a você... – tomou-a nos braços e sussurrou antes de beija-la: – Foi muito corajosa.

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Não apenas Shura, mas todos os cavaleiros que voltaram como espectros na última guerra santa recuperaram suas forças repentinamente. Saga de Gêmeos aproveitou seu pouco tempo livre para visitar Gisty. Entrou na casa onde sua namorada estava hospedada, a residência da amazona Marin de Águia tomando cuidado para não fazer barulho, pois havia sido informado pela serva Francesca que ela dormia. Parou na porta do quarto e ficou contemplando a mãe de sua filha, testou se aproximar um pouco a fim de ver o rosto de Gisty, queria matar a saudade. A amazona que sempre teve o sono leve, despertou minutos depois e sorriu para Saga.

- Desculpe, não queria te acordar. – disse o cavaleiro, sentando-se na cama.

Gisty o puxou para um beijo.

- Tudo bem, estou feliz por ter vindo me ver. – falou Gisty – Não aguento mais ficar deitada nesta cama. Vamos sair?

- Só se for uma caminhada curta. – Saga ponderou – Francesca me contou o que aconteceu durante a invasão, disse que você quase entrou em trabalho de parto...

- Ela gosta de exagerar. – replicou a amazona. Os dois saíram da casa e tomaram a trilha de acesso ao bosque que rodeava a Vila das Amazonas. – Você deve estar me achando horrível assim toda inchada...

- Pelo contrário, penso que a gravidez te deixou ainda mais bonita. – falou Saga, ao pararam sob a sombra de uma árvore, ele a puxou para um abraço mais íntimo.

- Humm, estou morrendo de saudade. – gemeu Gisty entre os lábios do cavaleiro.

- Eu também. – disse Saga acariciando o rosto da namorada, a sombra da copa da árvore fazendo desenhos intricados nos rostos de ambos – Mas você precisa de repouso para manter sua pressão estabilizada.

- Nunca achei que ter um filho fosse tão difícil. – reclamou Gisty. – Se quer pude chutar as bundas dos inimigos que invadiram minha vila! Sinto-me imensamente frustrada.

- Eu entendo. – disse Saga, gentilmente virou o corpo de Gisty de modo a abraça-la por trás, suas mãos cobriam a enorme barriga. – Tenho muito o que agradecer a Marin, Milo e Aiolia por terem te protegido durante a invasão. Se algo tivesse te acontecido, não sei o que seria de mim.

- Eu teria lutado se Francesca não estivesse lá para me impedir. – refletiu Gisty – Fiquei cega quando vi os inimigos. Ela tem me ajudado tanto, sabe exatamente o que eu preciso. Não sei o que seria de mim sem ela durante essa gravidez. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas acho que não consigo mais viver sem o cuidado dela.

- Francesca ajudou a criar todos nós. É a coisa mais próxima que tivemos de uma mãe. Estou feliz por saber que estão se dando bem.

- Eu quero que ela seja madrinha da nossa filha. – propôs Gisty com animação – Normalmente a madrinha da filha de uma amazona é outra amazona, mas eu gostaria que Francesca dividisse esse posto, em agradecimento a tudo o que ela tem feito por mim. O que você acha?

- Francesca vai se sentir honrada. – disse Saga beijando a testa de Gisty – Bem, odeio me despedir de você, mas preciso achar Kanon, ele está me evitando desde a batalha. Ele me deve muitas explicações...

- Saga! – Gisty apertando o braço do cavaleiro – Receio que essa conversa vai ter que ser adiada. Minha bolça acabou de estourar.

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Era a primeira vez que deixava a Casa de Peixes depois de ser curada pelas Rosas Imortais. Desceu até a arena de treinamento só para relembrar os dias fáceis, nunca imaginou que sentiria tanta saudade daquela arena poeirenta, do mau humor de Shina, de seus colegas bobocas e principalmente de Jim. Uma semana se passou desde a invasão que culminou com o desaparecimento da amiga. Ela nunca ficou tanto tempo sem dar notícias, Lucy refletiu.

Já tinha desaparecido e voltado muitas vezes, mas uma semana... Muitos diziam que ela tinha morrido durante a invasão ou que tinha se juntado aos inimigos de Athena depois de ferir Shaka. Lucy era uma das poucas pessoas que acreditava na bondade de Jim. Simplesmente se recusava a pensar no pior. Uma semana. Tempo demais sem notícias. Afrodite comentara que Shion não parava de procura-la, o Patriarca até perdera peso, era um poço de perturbação. Pobre Shion.

As palavras da amiga na Casa de Virgem não saiam de sua cabeça: "não quero que ninguém mais se machuque". Se ela tivesse sido rápida o suficiente para chamar ajuda antes de Hanzo atacar, Jim ainda estaria sã e salva. O ataque de Kairos e suas marionetes não teria resultado em nenhuma baixa.

Com o coração chorando de saudade chegou a arena de treinamento. Sentou-se nas arquibancadas mais altas e ficou observando o treino de longe. Um cavaleiro ensinava novos golpes, na verdade metia medo na turma de aprendizes... ela não podia acreditar no que seus olhos viam! Máscara da Morte estava ensinando os aprendizes. Lucy esfregou os olhos para ver se não estava vendo uma miragem, ouvira mais de uma vez do canceriano que jamais teria um aprendiz pois não tinha a menor paciência para bancar o mestre. O teria o feito mudar de ideia?

Saiu dos lugares mais altos para ver o treino um pouco mais de perto. Sentiu-se corar. Mask estava sem camisa, os cabelos molhados de suor que pingava por todo seu corpo musculoso e peludo... as meninas na arena o olhavam com medo e admiração. Máscara da Morte despertava tais sentimentos nas pessoas. Passou o dia na arena, observando Máscara da Morte de longe, relembrando a época em que transavam. Parecia que vivera tudo aquilo em outra vida.

Lentamente deixou a arena antes do horário de término do treino para não correr o risco de cruzar com nenhum antigo colega. Demorou-se na casa de Câncer, seu olfato agora bem mais aguçado percebia o cheiro do cavaleiro por toda parte. Entrou furtivamente na área privativa, ocultou seu cosmo. Mask não podia saber que ela o esperava. Queria fazer surpresa. Na escuridão da sala, esbarrou numa enorme mala encostada no sofá. Viu seu coração despencar de um precipício. Ele ia viajar. "Primeiro a Helena, depois a Jim, agora você, Mask... Será que todo mundo que eu amo vai me abandonar?", pensou angustiada. A voz do Santo de Câncer interrompeu seus pensamentos:

- O que faz aqui a essa hora? – indagou Máscara da Morte.

- Queria saber se tem notícias da filha de Saga. – mentiu Lucy. Reparou que ele penteara os cabelos molhados para trás. Certamente havia tomado banho nos vestiários da arena depois do treino.

- Não sei de nada. Mais alguma coisa? – o italiano cruzou os braços sobre o peito e encarou a jovem aprendiza.

- Precisava te ver também... – ela disse baixinho. – Você parece bem.

- Você também. – sua expressão se abrandou chegando a ensaiar um sorriso – Isso me deixa feliz, embora você não acredite...

- Eu acredito em você Mask! – falou Lucy chegando mais perto do cavaleiro – Sou grata a você e ao mestre Afrodite por ter salvado a minha vida.

- Eu não fiz porra nenhuma. – disse Máscara da Morte – O Afrodite e suas rosas fizeram todo o trabalho.

Lucy sabia que ele estava sendo modesto. Afrodite havia contado como Máscara fez tudo para salvá-la da morte. Fitou a mala encostada no sofá:

- Então é verdade que pretende viajar?

- Sim.

- Para onde? Por quanto tempo? Vai sozinho? – inquiriu Lucy ansiosamente.

- Não sei. Não sei. E não é da sua conta. – respondeu o cavaleiro agarrando uma garrfa de uisk deixada no sofá – Meio que não estou fazendo planos. Tudo o que sei é que preciso esfriar a cabeça. Athena já deu permissão.

- Mask, não precisa ser assim. – tentou Lucy Renard, precipitando-se até o cavaleiro. – Você não precisa ir embora...

Impulsivamente Máscara da Morte abandonou a garrafa e segurou os braços de Lucy, tomando cuidado para não tocar na parte onde não havia tecido, afinal ela era agora intocável devido ao poderoso veneno das rosas que corria em suas veias. O perfume, a respiração dela, os lábios carnudos e deliciosos tão próximos era algo atormentador.

- Veio aqui para roubar minha última gota de sanidade? – questionou o cavaleiro – Como acha que me sinto tendo você tão perto sem poder tocá-la? As coisas que gostaria de fazer com você agora...

Lucy deixou escapar uma risadinha ardilosa, o som serpenteou por cada ouvido de Máscara, duplicando seu desejo. Máscara desviou e a empurrou, fazendo uma careta de desgosto. Sentia a calça apertar seu membro já bastante duro, e só um homem sabe o quanto isso incomoda. Lucy viu o esforço e o estado dele e riu mais uma vez a risada de serpente.

- Quer me matar, então? – ele passou a mão nos cabelos, nervoso – Sabe que não pode beijar mais ninguém além de Afrodite... – calou-se ao ver a jovem arrancando o vestido do corpo, exibindo-se como se estivesse numa casa noturna – Lucy, se continuar tirando a roupa... – seus lábios tremiam, chegava a salivar – Se ficar nua eu vou tomar você Lucy. Vou foder você e vou morrer. É isso o que quer, sua diaba venenosa?

- Não posso deixar que me deixe. – disse Lucy e avançou no corpo do cavaleiro que se encostou no móvel de madeira rústica, só teve tempo de afastar as mãos do corpo dela. O medo e o desejo no olhar dele atiçavam-na. Deslizou as mãos sobre a camisa suada, sentindo cada músculo do peitoral. – Não posso deixar você encontrar outra mulher... Sim. Prefiro te ver morto a te ver com outra. Você é meu Carlo.

O contato... O contato é mortal. Empurre-a para longe. gritava a mente do italiano, mas ele simplesmente não conseguia obedecer. Tudo se resumia aquela garota venenosa roçando o corpo macio no dele.

- O que aquelas rosas fizeram com você, menina? – disse Máscara, puxando os cabelos de Lucy para que ela o olhasse nos olhos – No que o veneno te transformou? Você não era assim, era doce, amorosa, delicada, inocente... Agora diz que prefere me ver morto a longe ou com outra?

De repente, Lucy parou de forçar o contato dando um passo para trás. Os olhos azuis que fitaram o rosto de Máscara exibiam um brilho diferenciado, o brilho do veneno das rosas imortais de Peixes.

- Sim, eu mudei, mas não é culpa só do veneno. – disse Lucy – Você também me modificou. Sua brutalidade, seu amor possessivo. Acha que conseguiria suportar tudo isso sendo ainda a mesma pessoa? A única coisa que permanece igual, é o amor que sinto por você, Mask. Você sempre disse que eu era sua e de mais ninguém, pois agora sou eu quem digo: se eu não posso ter você, ninguém terá.

Novamente avançou no corpo forte do cavaleiro. Inevitavelmente as peles se chocaram de novo, só que desta vez, Máscara da Morte não recuou. Agarrou e puxou os cabelos de Lucy e beijou-a na boca. Fora o beijo mais demorado e violento que deram na vida, as línguas disputavam o pequeno espaço formado pela junção das duas bocas, os lábios se sugavam e mordiam-se. Ao final do beijo estavam complemente sem fôlego. A visão do cavaleiro ficou turva.

"Merda, eu vou morrer. Beijei um poço de veneno.", pensou Máscara aterrorizado.

- Dane-se! – esbravejou e puxou Lucy para outro beijo tão poderoso quanto o anterior.

Ao final do segundo beijo a jovem estava rindo insanamente.

- Agora você é meu. – conclamou Lucy.

- Não morri... – sussurrou Máscara da Morte, prestes a beija-la novamente, então deu-se conta da realidade. – Não morri? Espere, mas e quanto ao veneno das rosas presente no seu corpo?

- O veneno está no meu sangue, não no meu corpo todo, Mask. – esclareceu Lucy. Ela abraçou-se a ele e tentou beija-lo de novo, mas foi rudemente empurrada, caindo no sofá de pernas abertas.

- Afrodite afirmou que apenas ele teria imunidade ao veneno – falou Câncer com fúria– Então ele mentiu para mim?! Me fez acreditar que havia perdido você para sempre!

- Ele não mentiu! – exclamou Lucy ficando de pé – Ele achava que o pior aconteceria comigo. Ele também ficou surpreso quando descobri que posso controlar o veneno. A cura através das rosas eternas nunca foi tentada antes, não dava para prever o resultado final. – segurou delicadamente a mão grossa do cavaleiro – Quando descobri sobre minha condição venenosa fiquei desesperada, como poderia proteger as pessoas sendo mortal ao simples toque? Sabia que não poderia viver assim. Então Athena me mostrou o caminho. Ela disse para confiar no meu coração puro. Então eu treinei bastante, sozinha no jardim de peixes até descobrir que posso controlar o veneno que corre no meu sangue. As rosas me trouxeram de volta a vida e me deram um novo poder. Meu sangue pode tanto curar quanto matar, de acordo com a minha vontade. Ninguém jamais manifestou essa habilidade. Maravilhoso não acha? – ele não respondeu, detinha-se a fita-la com olhos desconfiados – Mask, não precisamos mais ficar separados.

Então Máscara puxou a mão que Lucy segurava. Colocou o casaco, seus movimentos eram zangados.

- Você pode estar falando a verdade, mas eu ainda não consigo acreditar que Afrodite não sabia. – disse o cavaleiro – Aposto que ele mentiu para nós dois.

- Está enganado, Mask – disse Lucy – Ele realmente não sabia. Ele ficou feliz quando contei que podia controlar o veneno. Essa foi a última vez que o vi sorrir.

- Como é?

- Ele não é mais o mesmo desde a minha cura – contou Lucy, tristemente. Vendo que não havia mais clima, tratou de se vestir. – Mergulhou em uma profunda tristeza. Mal se alimenta, vive trancado no quarto no escuro. Recusa qualquer contato comigo. Diz que não é digno do amor. Que você sim é digno, porque foi capaz de se sacrificar perdendo a chance de me tocar de novo só para me salvar. Por ele, nós já estaríamos juntos a muito tempo.

- Quer dizer que vocês dois não estão mais transando? – Lucy balançou negativamente a cabeça. Máscara riu debochado – Afrodite de Peixes deprimido e sem sexo. Preciso ver isso com meus próprios olhos.

Lucy ainda tentou seduzi-lo para ficarem juntos aquela noite. Máscara a repeliu. Lembrando o quanto havia sofrido quando soube que não podia mais toca-la. Jogou toda a culpa em Afrodite, como sempre fazia e arrastou Lucy até a Casa de Peixes segurando firme em seus braços. Ela protestou no começo do trajeto, tentou de todas as forças se livrar da garra que prendia seu braço, até ameaçou usar seu veneno mortal contra ele, mas acabou explodindo em choro em vez de cosmo. Máscara da Morte só soltou o braço de Lucy quando chegaram na porta do aposento de Peixes.

Escancarou a porta e com passos rápidos, foi até a janela, abriu-as com ira, em seguida acendeu a luz do cômodo assustando o santo de Peixes.

- Que porcaria é essa de ficar no escuro?! – berrou Câncer – Você sempre disse que as rosas precisam de luz para se manterem belas, por isso odiava a escuridão. – a resposta do sueco foi puxar a grossa manta que o envolvia e se encolher na cama. A atitude pirou a irritação de Máscara que pulou na cama e arrancou a manta de cima do mestre de Lucy com força. – Não vem com essa palhaçada de depressão. Não combina com você.

Um Afrodite desgrenhado e cheio de olheiras fitou o cavaleiro de Câncer, em seguida reparou que Lucy estava no quarto.

- Quem bom que fizeram as pazes. – disse Afrodite – Já contou para ele que pode controlar o veneno, querida? Sejam felizes, vocês merecem.

- Por que me fez acreditar que a perderia para sempre, maldito! – berrou Máscara, precipitando-se contra Afrodite.

Lucy se colocou a sua frente para defender seu enfermo mestre.

- Mask, não fale com ele assim. – Lucy pediu. – Não vê que ele não está bem.

- É tudo fingimento! – exclamou Máscara da Morte – Ele continua mentindo! Armando joguinhos para me enlouquecer e usando você para isso.

- Não é verdade. – devolveu Lucy, abraçando-se ao cavaleiro irado. – Ele também tinha certeza que eu seria venenosa, mas algo inesperado aconteceu durante a cura. As rosas me aceitaram, Mask. – disse Lucy segurando o rosto masculino – Foi um milagre. Porque não fica feliz por mim? Parece que não consegue me aceitar do jeito que eu sou. Eis a verdade: nunca foi capaz de aceitar o fato de não lhe dar um amor exclusivo e agora minha condição. Eu não escolhi nada disso. Eu apenas... Apenas sou.

Ela o soltou ao final da frase e caiu sentada na enorme cama de Afrodite. Seus olhos se encheram de lágrimas. Toda a raiva de Máscara da Morte esfriou nesse momento.

- Não é nada disso. – disse o italiano – Essa coisa toda, essa transformação que você passou não modificou nada do que eu sinto por você. Do que eu sempre senti. – deu alguns passos pelo quarto preocupado em não mostrar seu rosto triste. Odiava que o vissem chorando. Preferia morrer. – Eu só... Não consigo me acostumar. Já tinha aceitado que tinha perdido você para ele. – e apontou para Afrodite – Realmente não sabia que ela poderia controlar o veneno?

- Não. – respondeu Afrodite – Não imaginava que o poder da Lucy estaria em um nível tão alto. Parece que ela sempre escondeu sua verdadeira força, tal como Shun de Andrômeda. Ele sempre preferia não queimar todo seu cosmo para não ferir os adversários gravemente. Lucy é como ele. – respirou findo – Carlo, parte do que diz sobre mim é verdade. Eu muitas vezes agi de forma ardilosa, manipulei e menti. Achava que estava te fazendo um bem, que podia fazer qualquer coisa para você ser uma pessoa melhor, aceitar o amor e a possibilidade de sermos uma família. Eu admito todos os meus erros e me arrependo profundamente. Eu quero que saiba que entre Lucy e eu não há mais nada. Somos apenas mestre e discípula, embora eu acredite que ela tem mais coisa a me ensinar do que eu a ela, já que foi capaz de controlar as rosas imortais. Eu nunca consegui. Aquele dia na praia, eu vi que você a ama de verdade. Talvez o que eu sinta não chegue nem perto disso... Eu que sempre preguei o desapego e hedonismo, muitas vezes não passei de um egoísta sem consideração aos sentimentos ou a dificuldade de lidar com os sentimentos, presente nas pessoas.

- Chega desse drama todo. Me deixa enjoado e já ouvi o bastante disso quando estive com Athena. Sobre como lidar com sentimentos, ser menos machista, etc, etc. – despejou Máscara da Morte, foi até Afrodite e o olhou bem nos olhos – Você sabe que eu consigo enxergar a maldade oculta na alma das pessoas. A maioria das cabeças da minha antiga coleção eram de bandidos da pior espécie. – disse Máscara com orgulho – E eu nunca tive remorso por torturar tal escória. Sempre achei que estava fazendo uma caridade livrando o mundo desse tipo de gente. Porém, Athena me abriu os olhos, ela me fez enxergar a verdadeira justiça que em nada tem a ver com a violência extrema ou a vingança. Pode não ter agido da melhor forma, assim como eu também não agi com a Lucy, mas admito que foi nobre da sua parte tentar fazer com que me torne um homem melhor. – soltou o ar preso nos pulmões, sentindo-se aliviado por finalmente dizer o que sentia – A verdade é que eu sou uma merda de ser humano. E sem vocês dois eu fico pior.

Quando terminou, Lucy pulou para abraça-lo. Beijou no rosto e no pescoço várias vezes. Sempre sonhou em ver aquela mudança no seu cavaleiro rude. Agora sabia que nunca esteve errada sobre ele, Máscara da Morte de Câncer era capaz de amar. Afrodite também se emocionou com a cena.

- Tem certeza que quer que eu faça parte disso? – perguntou Afrodite - Não deseja mais ficar só com a Lucy?

Máscara da Morte se desvencilhou de Lucy e sentou na cama. Esfregou o queixo seguidas vezes, analisando o que tinha pela frente.

- Sinto falta do meu amigo de infância. – admitiu Máscara. Olhou para Lucy que sorria como uma criança boba – Não pretendo mais obriga-la a escolher um de nós dois.

- Até porque isso seria impossível. – disse Lucy sentando-se na cama a direita de Máscara da Morte. Passou um braço sobre os ombros do italiano e chamou Afrodite para ocupar o lugar a sua esquerda. Lucy beijou o rosto de seu mestre em seguida o rosto do canceriano. Estava feliz como nunca por finalmente ter seus dois amados juntos e sem brigas ou ciúmes. – Amo vocês dois.

- Posso aceitar isso de relacionamento aberto, mas que fique claro que eu nunca vou... – Máscara da Morte lançou um rápido e hesitante olhar para Afrodite. – Vocês sabem...

- Por mim tudo bem. – atalhou Afrodite e olhou para Lucy que ainda não havia opinado. Leu no olhar dela que ela estava decepcionada pela limitação imposta por Câncer. "Que danadinha", ele pensou apertando-lhe de leve a coxa. – É possível que enfrentemos preconceitos.

- Que se dane. – declarou Máscara da Morte.

Lucy emitiu um suspiro de alívio.

- Tem mais um detalhe: não quero abrir mão da Erika. – disse a garota.

- Seria uma pena se abrisse mão. – confessou Afrodite de Peixes com um risinho lascivo nos lábios.

Máscara da Morte logo entendeu a mensagem oculta.

- Então vocês três... Eu pensei que a Erika não gostasse de homens. – comentou o canceriano.

- Ela gostou uma vez. – revelou Afrodite, a malícia bem impressa em sua voz aveludada – E pode gostar de novo, pois passamos uma bela noite juntos. Você verá, Carlo, que um relacionamento aberto tem suas vantagens.

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A bebida não estava em uma temperatura agradável e a música era ruim. Na verdade, não era ruim totalmente, a cantora sabia tocar o violão e tinha uma voz interessante, bem colocada, um tom que circulava entre o sensual e o melancólico. Kanon coçou o queixo recentemente barbeado, sentiu vontade de levantar, gritar com o dono do bar para servir bebida descente e depois se dirigir a cantora para dizer que ela era boa mas que se continuasse ensaiando essas músicas chatas ninguém apareceria para ver o show marcado. Depois quem sabe convidaria a cantora para sair com ele. Ela era bem bonita, com todo aquele estilo retrô que Kanon achava classudo. Fazia quase uma semana que não transava e isso já era tempo demais para seus padrões.

Preparou-se para se levantar da cadeira, mas o homem que acabara de cruzar a porta do bar o fez desistir. Pool, o dono do bar, o cumprimentou de longe. O sujeito gordo nunca o cumprimentava quando ele chegava, em vez disso fazia uma careta. Até a cantora olhou para o recém chegado. Olhou por tempo demais, Kanon notou, sentindo uma leve ponta de ciúme. Parece que seu convite seria recusado. O cavaleiro sentou-se numa mesa próxima, cruzando as pernas de forma elegante. Kanon decidiu ignora-lo e continuar bebendo e mexendo em seu celular.

- Sua presença foi requisitada por Shion. – disse o cavaleiro de forma direta.

- Já sei o que ele quer de mim, Camus – disse Kanon sem tirar os olhos da tela do celular – Quer que eu vasculhe o espaço interdimensional a procura da filha de novo, coisa que não estou a fim no momento. Não estou aqui para servir esse Patriarca. Ele pode colocar o Saga nessa missão, ele já está restabelecido.

- Saga não pode assumir no momento.

- E porque não?

- A filha acabou de nascer. – Camus respondeu – Aliás, quando vai visitar sua sobrinha, Kanon?

Kanon passou um longo minuto processando aquela informação. Saga era pai, o que fazia dele tio. Tio. Tinha uma sobrinha. Tanta coisa aconteceu nos últimos dias que a lembrança de Gisty grávida demorou a se formar. A última vez que a vira estava com uma barriga pequena. Quantos meses? Cinco, seis, talvez sete. Nunca foi bom com essas coisas. Certamente ela não completara nove meses. Algo acontecera para acelerar o parto. A menina estava bem?

- Kanon?! – chamou Aquário, com impaciência.

O general piscou os olhos algumas vezes. Por um momento seus pensamentos os levaram para outro país. Porém decidiu-se a não continuar com tais preocupações. Saga não precisava dele nesse momento. Já tinha a namorada e Francesca. Ele só atrapalharia e ainda havia grandes chances de discutirem porque ele nunca falou nada sobre Ares. Mas como dizer ao conflituoso irmão que o deus da guerra, o pior inimigo de Athena, está adormecido em sua alma e pronto para acordar a qualquer momento? Como poderia contar uma coisa destas a Saga? Ele com certeza arrumaria um jeito de se matar junto com Ares só para proteger todo mundo exatamente como tentou após a luta com Aspros, só não morreu porque ele estava lá para impedir.

- Kanon, você está bem? – quis saber Camus.

- Apenas um pouco chocado. – revelou Kanon e tomou um bom gole de seu drink – Virei tio. Quem diria.

- Meus parabéns – disse Camus encarando Kanon - Lembro-me que jurou lealdade a Athena. Sendo Shion seu representante direto, obedecer a uma ordem dele é o mesmo que obedecer a própria Athena...

- Você e seus protocolos – desdenhou Kanon – Nunca se cansa de obedecer a todas as regras? Shion foi o primeiro a quebras as regras quando teve filhos.

- Os cavaleiros de Athena sempre tiveram filhos, a diferença é que nunca os reconheciam. Shion apenas nos lembrou que antes de sermos chamados de Santos, somos homens.

Kanon respirou fundo e guardou o celular. Sentiu vontade de gargalhar depois de ouvir Camus de Aquário. Parece que o francês esquecera que Shion praticamente foi obrigado a reconhecer seus filhos. O respeitado Patriarca cometera um erro primário que ele mesmo nunca cometeria: fazer um filho em uma mulher. Kanon sempre tomara o máximo de cuidado e depois do susto de Alexia, decidira fazer uma vasectomia. Se soubesse que o procedimento providencial era tão simples teria feito antes. Teria evitado muito aborrecimento.

- Pense bem, Camus, precisamos mesmo trazer a Jim de volta? – indagou Kanon – Não estamos melhor sem ela? Afinal, foi ela que causou toda a confusão, em primeiro lugar. Minha opinião é que ela e o irmão, foram capturados pelos deuses da aliança. Não esqueça que eles odiavam esse clã maldito. E se estiver certo, será impossível traze-la de volta, se é que esteja viva. Portanto, melhor o Shion se conformar com essa ideia logo e focar nos seus outros filhos, ou se preferir, ele poder ter outra filha. Pode até cria-la direito, para que ela não cresça e se torne problemática.

- A forma como fala da Jim me diz muita coisa. – falou Camus, observando a jovem cantora acertar as cordas de seu violão.

- O que, por exemplo?

- Todo esse despeito te faz parecer meramente um homem rejeitado. – Camus respondeu, encarando o general de Poseidon – Ela sempre te desprezou e você não está acostumado a ser ignorado por uma mulher. Devia procurar melhorar isso em você. Até porque um homem verdadeiramente maduro e seguro de si não fica cuspindo veneno sobre a mulher que não o quis, ele segue em frente e recupera o orgulho ferido.

- Orgulho ferido... – repetiu Kanon, virando o copo – É verdade, poucas mulheres me rejeitaram, a Jim foi a segunda. – Mas, respondendo a sua pergunta, francês, meu comportamento não é movido pela rejeição. Eu sempre soube que Jim seria um problema para nós, eu via isso nos olhos dela. Era inevitável. E para impedir isso, ela tinha que ser morta. Não havia outro jeito. Isso me assombrava. – fez uma pausa para ouvir a música – Diga a Shion que vou procurar a filha dele, não por ele, nem por você, mas pela promessa que eu fiz a Athena, que você fez o favor de lembrar. – levantou bruscamente – Estou cansado dessa música ruim. Vou atrás de música de verdade. Em uma hora estarei no templo de Athena.

Camus ficou observando Kanon deixar o bar. Uma garçonete ofereceu um drink por conta da casa ao cavaleiro. Camus acabou aceitando. Bebeu ouvindo a cantora. Ao contrário de Kanon, havia achado seu som bastante agradável. Também fora atraído por seu estilo elegante, ela além de ser atraente, sabia tocar muito bem o violão. Sentia que já há tinha visto em algum lugar e não fazia tanto tempo assim... então lembrou a última vez que esteve numa boate com seus amigos, foi lá que ouvira aquela voz tão marcante. Tinha certeza que era a mesma cantora, ela havia modificado um pouco seu estilo. Para melhor. A moça reparou em seus olhares, ficou corada e terminou se desconcentrando, errado um dos acordes. Pediu desculpas e voltou a tocar. Camus a aplaudiu para incentiva-la.

E quando ela terminou o ensaio, Camus se aproximou e ofereceu um drink. Ela aceitou sorrindo.

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A bebida ruim e toda aquela conversa com Camus o deixara com dor de cabeça. Foi para o lugar que sempre o fazia se sentir bem, o lugar que podia chamar de seu habitat natural: a praia. Tirou os sapatos e a camisa e jogou-se na areia, passou um tempo em silêncio, sentindo as ondas baterem em seu corpo. O mar trouxe o relaxamento procurado, a temperatura da água, o som contínuo das ondas, a melodia trazida pelo mar para ele compunha a mais perfeita canção. De repente uma bela voz surgiu entre as ondas. O som inebriante o fez lembrar imediatamente de sensações maravilhosas, como uma carícia em seus ouvidos estressados. Aquela voz só poderia sair da boca de uma sereia.

Abriu os olhos e levantou a cabeça e a viu saindo da água. Usava um biquini mínimo, aderido ao corpo como alga marinha. O cabelo loiro ondulado refletia o brilho do sol. Sem parar de cantar ela deitou de lado na areia, chamando-o com seu sorriso e olhar sedutor. Kanon quase sucumbiu antes de lembrar quem ela era e a última vez que a viu de biquíni, precisamente na cama do Imperador dos Mares, Poseidon. Kanon e a sereia eram comprometidos naquela época.

- O que está esperando? – disse a saída do mar, afastando os cabelos molhados dos seios. – Nenhum homem consegue resistir ao canto da sereia.

Realmente ela estava certa, seu membro endurecido deixava isso bem claro. O desejo se confundia com a vontade de esganá-la por tê-lo traído com um deus. Porque ele sempre se sentia atraído por mulheres perigosas? Jim e aquela maldita sereia. Estava sendo enfeitiçado pelo canto da sereia, ele sabia. Mas como não apertar aquela coxa torneada, como não deslizar a mão por aquela pele molhada, como não sugar aquele seio grande e delicioso, como não beijar uma boca tão lasciva. Ouvia-a gemer presa em seu beijo, sentiu suas unhas se cravarem em suas costas quentes. Então ele parou. Afastou-se dela, deixando-a trêmula e com raiva pelo desejo não saciado.

- Maldito seja você, general. – rugiu a sereia.

- O que veio fazer aqui, Tétis? – indagou Kanon – Sei que se oferecer para mim não é seu primeiro objetivo. Nunca é.

- Ah, por favor, pensei que você já tivesse superado todo esse rancor. – disse Tétis, em seguida ficou de bruços na areia, dando ao ex uma boa visão de seu fio dental – Não é justo você me tratar assim. Eu só tive um amante, já você teve várias.

- Não acredito em você. – rebateu Kanon, com desprezo na voz – Vamos diga logo o que veio fazer aqui. Sabe bem que eu sou o único Marina com permissão para andar livremente pelo santuário de Athena.

- Tudo bem, já que é assim. A verdade, meu querido, é que somos parecidos e isso te perturba muito. – Tétis mudou de posição e sentou-se de lado na areia. Dos cabelos retirou uma escama dourada que entregou a Kanon – Vim informá-lo que já pode voltar ao fundo do mar. Poseidon o perdoou e quer falar com você. Está disposto a devolver sua escama sagrada e seu posto de general marina. Seu castigo acabou, bonitão. Esta escama dourada é seu salvo conduto.

Kanon pegou a escama e passou um tempo analisando o pequeno objeto. Não acreditava naquela estória de perdão. Poseidon não era dado a perdão. O deus queria informações, saber o que foi feito da garota Hanzo e sobre Ares. Certamente sentiu o quase despertar do deus da guerra. Uma atitude esperada pelo jovem Julian Solo, que depois de ganhar domínio sobre a vontade de Poseidon, sempre trabalhou pela paz. O mar diante dele crescia em ondas fabulosas, passou mais um tempo admirando o vasto oceano e ignorando as carícias da sereia.

- Deuses, você vai mesmo me fazer implorar? – reclamou Tétis – Estou com tanta saudade que sou capaz de fazer isso.

Kanon abriu um sorriso triunfante. Arrancou o cinto da calça em resposta, Tétis se virou novamente e empunhou a bunda. Ouviu-a gemer lascivamente quando agarrou seus quadris com força e desferiu um tapa na nádega direita, aquela sim gostava de ser dominada. Um pensamento cômico passou por sua mente enquanto se apossava da boca da sereia: Shion esperando eternamente na sala do mestre.


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