Nota:

Ai, meus queridos e queridas. Eu não sei nem o que dizer. Acho que nem tenho como pedir desculpas por ter ficado, o que, quase um ano sem postar? Bom, é que a vida simplesmente aconteceu. Diversas coisas aconteceram e eu não pude manejar um tempo para traduzir e postar a fic. Me desculpem, de verdade. Mas, bem, aqui estou, atualizando novamente! Eu não posso prometer que voltarei a postar com a mesma frequência de antes, mas não pretendo demorar mais um ano para atualizar de novo, rs. E, como eu sempre digo, não vou abandonar essa tradução, farei até o fim, mesmo que demore um pouco mais do que deveria. Além disso, a autora ainda não finalizou a história, que está atualmente no capítulo 95. Dito isso, caso ainda estejam acompanhando, não vou mais enrolar: fiquem com mais um capítulo desta fanfic que eu tenho o enorme prazer de traduzir! (e não me matem, por favor, rs)


Capítulo 68: O Atordoado

Eren olhou para cima de onde estava, encostado na parede ao lado da entrada da torre dos oficiais. Levi estava vindo em sua direção, Hanji ao seu lado e o manto dobrado sobre seu braço. Ele parecia ter encerrado o expediente e provavelmente estava indo para o escritório para apanhar suas coisas antes de ir. Só vê-lo já fazia o coração de Eren bater com força em seu peito. Mal podia esperar para vir trabalhar de novo amanhã. Os passos de Levi vacilaram levemente quando o avistou.

— Eu estava prestes a ir te procurar depois de pegar minhas coisas. — Sua sobrancelha franziu levemente. — Está tudo bem?

Eren se desencostou da parede e deu de ombros, tentando relaxar os músculos e parecer mais calmo.

— Sim. Eu só pensei que talvez Muralha Rose não fosse a melhor ideia.

— Não é muito romântico, um bordel. — Hanji concordou, assentindo sabiamente. — Mas uma base militar também não.

Levi lançou-lhe um olhar afiado.

— ... Quer ir até minha sala? — perguntou ele, em voz baixa. Estava observando Eren atentamente, ainda convencido de que parecia ter algo errado.

— Agora sim, Levi, sua raposa velha sem vergonha. — Hanji o acotovelou com força na lateral, agitando as sobrancelhas. Levi suspirou e pegou Eren pela mão, levando-o escada acima atrás de si. A ousadia do gesto, especialmente em frente de outra pessoa, fez Eren tropeçar pelo caminho enquanto seu cérebro entrava em curto-circuito pela surpresa.

— Levi! Aonde está levando esse menino puro e inocente? — alardeou Hanji atrás deles, alto o bastante para qualquer um que estivesse passando por perto ouvir. Eren espiou por sobre o ombro e viu o(a) oficial de óculos oferecer um joinha.

— Eu sei que Hanji é sempre assim, mas você segurando minha mão desse jeito vai dar mais pano pra manga.

— Elu sabe.

Eren piscou, voltando-se para encarar Levi.

— Você contou? — Já? Parecia repentino, ainda mais para alguém tão reservado quanto Levi, que até ontem à noite não tinha nem certeza de como se sentia.

— Eu pedi conselho a elu, então sim, elu sabe. Farlan também, e provavelmente Isabel, por associação.

Oh, meu Deus.

Eren sentiu os nervos se agitarem em seu estômago como um balde cheio de enguias. Ele sabia, racionalmente, que Isabel gostava dele, mas era do Eren-o-garoto-que-falava-sua-língua-e-fazia-appam-pra-ela, não o Eren-que-gostava-de-seu-irmão-e-o-beijou-pelado-debaixo-de-uma-cachoeira-à-luz-da-lua.

Eles realmente fizeram isso.

— Conselho?

Levi não havia soltado sua mão. Não que Eren não soubesse aonde estavam indo. Eren correu o polegar experimentalmente sobre as juntas de seus dedos, brilhantes por causa de cicatrizes antigas. Levi olhou para baixo então, e apertou sua mão gentilmente. Era como se estivesse apertando o pobre e patético coração de Eren em sua mão.

— Conselho é uma palavra muito generosa para descrever a meia hora de abuso verbal que sofri até eles finalmente me convencerem a sair e te procurar.

Eles chegaram ao escritório de Levi e ele soltou a mão de Eren para destrancar a porta.

— Por que está tão quieto? — perguntou enquanto abria espaço para Eren entrar primeiro. Ele fechou a porta atrás deles e andou até ficar de frente para Eren e encarar seu rosto com o cenho franzido. Eren sorriu para sua expressão preocupada. Ele esticou a mão e trilhou o polegar pela bochecha de Levi, os dedos raspando as entradas de seu cabelo. Há uma semana ele nunca teria imaginado poder tocar Levi tão livremente.

— Eu só não sei o que dizer. — admitiu. — Mas estou feliz.

Levi ficou sem jeito com o comentário. Seus cílios se agitaram enquanto pensava em uma resposta. Ele limpou a garganta e assentiu brevemente.

— Oh. Que bom.

Eren segurou um sorriso. Ele se afastou, dando a Levi um pouco de espaço, e foi até o sofá que geralmente ocupava enquanto esperava Levi terminar sua papelada.

— Eu espero que ter vindo aqui não seja um incômodo para você. Se tiver trabalho a fazer, eu posso esperar. É só que Muralha Rose não tem muita privacidade, ironicamente.

— Nós não teremos muita chance disso, não é? — Levi suspirou. — Nossas casas são ambas cheias de gente, também.

— É por isso que vim aqui. Seu escritório era o único lugar que realmente sempre tivemos para nós.

Eren assistiu Levi pendurar seu manto sobre o encosto de uma cadeira e colocar alguns arquivos em uma pilha de pergaminhos em sua mesa.

— Eu queria, na verdade... Te contar coisas. Sobre minha infância.

Pronto, ele dissera. Eren espiou por entre sua franja e viu que Levi também estava olhando para ele. Seu nervosismo deve ter ficado estampado na cara, porque Levi pareceu considerar cuidadosamente antes de falar.

— Você não precisa me contar nada, Eren.

— Eu sei, é só que eu percebi que sei tanto sobre você e isso me fez perceber o quão pouco você sabe realmente sobre mim. — Ele riu de nervoso. — O que é engraçado, já que você só me contou sobre você porque eu estava desconfortável com o quão pouco eu sabia...

Eren. — Levi interveio gentilmente. — Eu adoraria saber tudo sobre você, mas não me importo de saber tudo isso aos poucos. Não preciso de algum tipo de super revelação porque você acha que deve isso a mim. Quero dizer, eu não sou nenhum perito, bem, nisso. — Levi fez um gesto apontando para ambos com sua mão. — Mas não é uma negociação. Eu quero isso agora, e se alguma coisa surgir depois, então lidarei com ela.

Ele falava de modo tão racional. Ele disse que queria Eren como se fosse a coisa mais óbvia. Jogou a frase de forma tão leve, tão despreocupada, tão completamente alheio ao efeito paralisante que aquelas palavras tinham em Eren.

— Ah. — A garganta de Eren se contraiu. Levi se inclinou para desenlaçar suas botas, parecendo completamente alheio à bagunça de pernas cruzadas em seu sofá que um dia fora Eren. Era injusto.

— Vai para casa hoje?

— Eu já fiz tudo o que precisava por aqui.

— ... Eu não quero ir pra casa. — disse Eren suavemente. Ele segurou o olhar de Levi. — Quero ficar com você mais um pouco.

Levi olhou para ele enquanto retirava suas botas. Seus olhos vaguearam por Eren, então ele congelou ao processar o convite silencioso.

— Eu não tomei banho.

A confissão foi tão direta que Eren soltou uma gargalhada espontânea. Ele fingiu ficar escandalizado.

— Levi, não sei o que você estava pensando, mas eu só queria desfrutar da sua companhia...

As narinas de Levi se dilatando eram a única coisa que revelavam seu constrangimento.

— Cale a boca e desenrole o colchão. — disse, mas a forma apertada de seus lábios revelavam seu sorriso. Eren riu quando ele saiu para ir tomar banho. Não conseguia parar de sorrir mesmo enquanto puxava o colchão enrolado do baú e o ajeitava ao lado do sofá, afofando dois travesseiros antes de se arrastar para debaixo das cobertas. Ele olhou para o gesso craquelado do teto e tentou não pensar muito. Sobre quando Levi voltasse. Sobre agora, sobre o fato de que isso estava acontecendo e não era um sonho. Sobre a sensação da pele nua de Levi contra a sua na noite passada, seus lábios em seu pescoço e seus dedos apertando com força sua cintura. Sobre o quão fácil ainda parecera, apesar de seus medos.

Ele podia ter morrido ali mesmo e teria deixado este mundo sem arrependimentos.


Eren realmente gostava de Levi em roupas casuais.

Ele gostava de verdade da visão da pele clara de Levi ruborizada após o banho, a gola de sua camisa solta sobre seus ombros e o modo como bagunçava o próprio cabelo, eliminando a água para depois ajeitá-lo para fora da testa.

Eren assistiu a Levi guardar seu uniforme com os olhos entreabertos. Ficou deitado quieto em seu lado, assistindo ao outro por entre os cílios, os lençóis puxados até abaixo de seu nariz. Observou-o durante sua rotina noturna, eliminando os amassados de seu manto antes de pendurá-lo no armário ao lado da estante de livros, extinguindo a chama de sua lamparina em cima da mesa, e então respirando fundo e se preparando antes de encarar a forma de Eren no colchão.

— Eu não mordo. — murmurou Eren, olhos ainda entreabertos. — A não ser que você queira.

A risada de Levi foi mais um suspiro, como se tivesse que se lembrar de respirar.

Eren se moveu prestativamente com a aproximação de Levi. Era bem apertado; o colchão fora desenhado para uma pessoa, e nenhum deles era exatamente compacto, mas Eren estava tudo menos chateado. Levi cheirava a sabonete da base e a lavanda seca das roupas limpas. Sua pele estava fria do banho gelado e ainda um pouco úmida. Eram todas as sensações, tão vívidas e inegavelmente Levi, que impediam Eren de dormir, convencido de que isso não passava de um sonho hiper-realista.

Ele sentiu os dedos de Levi em seus lábios, experimentais e cautelosos. Eren quase pulou de surpresa quando pontas dos dedos secas tracejaram o contorno de seus lábios. Levi nunca fora particularmente direto, então a ousadia da ação foi inesperada, mas estava feliz de deixar o outro testar seus limites, ficando parado como se estivesse tentando não assustar um pequeno animal enquanto Levi explorava timidamente suas feições no escuro.

Ele murmurou uma pergunta contra as pontas dos dedos, mas Levi apenas murmurou de volta, os dedos vagando para a curva da bochecha de Eren, traçando os leves relevos das cicatrizes de sua fatídica colisão com a parede na Cova de Dauper.

— Que pena o que aconteceu com seu rosto.

— Era um bom rosto. — Eren concordou sombriamente. Outra baforada de risada, e Eren sentiu-se sorrir em resposta.

— Eu gosto do seu também.

Seus olhos estavam se ajustando à escuridão agora, e podia ver o meio-sorriso nos lábios de Levi, o arquear cético de sua sobrancelha.

Eren esticou a mão para pegar a mão exploradora de Levi na sua e segurou contra seus lábios. Ele imprimiu beijos nos pulsos de Levi, entrelaçou seus dedos entre os dele, sentiu a massagem áspera de calos e cicatrizes se arrastando por suas bochechas e fantasiou como seria a sensação de tê-los raspando a pele sensível de suas coxas e Levi tinha mãos tão bonitas, pálidas e contornadas por veias azuis, duras e gastas pelos anos.

Levi murmurou novamente. Dessa vez, alegremente.

— Quando foi que começou? — perguntou-se Eren. — Quando foi que eu comecei a pensar essas coisas? Porque eu já te amava desde antes de começar a pensar assim. Eu me apaixonei por você antes de começar a imaginar coisas.

Eren percebeu o modo como a respiração de Levi parou na palavra "amava", mas continuou. Não era nada de mais, não agora. Não era nada de mais ele ter acabado falando em voz alta agora. Só ter colocado em palavras não tornava aquilo mais sério quando já vinha o sendo há um tempo.

— No carro alegórico, quando eu te levei para dentro durante a parada, você lembra? — Eren se aproximou na escuridão. Colocou sua mão no abdômen de Levi e sentiu-o contrair debaixo de seu toque. Sentiu seu próprio coração acelerar e seu rosto aquecer ao recordar as memórias. — Eu me lembro de ver o suor descer pelo seu peito, e estava tão envergonhado das coisas que pensei naquele momento, porque foi a primeira vez que pensei em você desse jeito. Eu sabia que você era atraente, mas nunca tinha pensado em tais coisas até aquele momento.

— Que coisas? — A voz de Levi estava tão baixa que Eren podia ter duvidado se ele realmente queria saber não fosse pela sensação dos dedos de Levi em seus cabelos, puxando-o para mais perto. Puxando seu rosto para seu pescoço enquanto seu braço livre abraçava sua cintura. Seus corpos se alinharam no pequeno colchão, unidos da cabeça aos pés. Eren podia sentir cada plano do peito de Levi contra o seu, todas as linhas definidas e ângulos firmes. Seu rosto queimava, porque enquanto estivera tentando tirar Levi de sua concha com palavras, não tinha previsto o que faria assim que conseguisse. Era fácil bancar o tranquilão quando você não estava tão nervoso quanto a outra pessoa, mas a imposição de Levi sempre vinha quando Eren não estava preparado.

— ... Bem, agora estou envergonhado.

Os braços de Levi em volta dele eram quentes e fortes, e sua risada foi inesperada.

— Você só late. — Ele riu. — Você só tem falsa bravata.

Eren virou o rosto para o lado do pescoço de Levi e se deixou rir também, porque, sim, Levi o havia descoberto. Mas ele só tinha falsa bravata com ele. Era o único que conseguia fazer Eren vacilar e se debater desse jeito.

— ... Eu quero que Mikasa conheça Isabel e Farlan.

O peito de Levi desceu com um suspiro longo e contente.

— Sim. Eu também.

— Mikasa arranjou uma casa. É uma casa na cidade, grande e chique. Acho que seria legal convidar todo mundo, só para estrear um pouco. Não parece um lar ainda.

— É.

— Estou realmente feliz agora.

E ele estava. Parecia uma palavra tão insuficiente para essa coisa esmagadora florescendo dentro dele. Esse sentimento como estática de felicidade sob sua pele e correndo por cada veia enquanto fazia planos que, pela primeira vez na vida, estavam mais perto da realidade que da fantasia.

Levi o apertou e respirou profundamente.

— É. — A palavra era mais como um suspiro. Pouco mais que um exalar, como se ele tivesse que se lembrar de respirar.


— Você veio trabalhar cedo só para ver isso?

Levi encarou Hanji com olhos apertados, a visão ainda embaçada de sono, mas ainda conseguindo ser crítico.

— Eu precisava checar, por via das dúvidas. Valeu a pena. — O(a) oficial ergueu um punho vitoriosamente. Levi não podia imaginar o quão satisfatório ou divertido isso podia ser para quem estava de fora. Ele estava feliz, acordando com o rosto adormecido de Eren em seu ombro, suas pernas entrelaçadas entre as cobertas, mas era para estar mesmo.

— Eu pensei que você ficaria muito mais bravo comigo por aparecer aqui sem avisar. — disse Hanji, que se apoiava na beira de sua mesa.

— É um pouco assustador, acordar e dar de cara com você me encarando com o maior sorriso na cara. — admitiu Levi. Ele teria dado de ombros, mas Eren ainda estava dormindo neles. Olhou para o rapaz e tirou o cabelo de seu rosto com a ponta de um dedo. — Acredito que estarei muito mais bravo quando estiver mais acordado. — Ele ainda estava um pouco atordoado.

Eren murmurou sonolento em sua camisa de dormir, enfiando o rosto em seus amassados. O atordoamento aumentou. Levi sabia que ele devia estar envergonhado, mas de todas as pessoas a encontrá-los, Hanji provavelmente era a melhor. Suas histórias eram extraordinárias o bastante para garantir descrença, então a maioria das pessoas não acreditaria mesmo se contasse a alguém. Mas Hanji não iria, de qualquer jeito. Apesar das provocações e brincadeiras, podia confiar em Hanji para saber os limites. Já havia satisfeito sua curiosidade hoje; esse momento permaneceria privado.

— ... Vou me retirar, então. — disse Hanji. — Leve o tempo que precisar, Levi. Você merece.