Notas:
Caraca, o que tá acontecendo no mundo, minha gente? Eu espero que esteja tudo bem com vocês e com suas famílias e amigos, cuidem-se muito e procurem ficar o máximo possível dentro de casa, porque a coisa tá feia. Eu, por aqui, estou bem e, afinal, esse tempo em casa me deu uma brecha pra conseguir traduzir mais um pouco da fanfic (há males que vêm pra bem?). Espero poder continuar atualizando num ritmo razoável! E espero que gostem do capítulo e que a ficção consiga nos distrair um pouco dessa realidade louca em que vivemos. Sigam-me os bons!
(ver o final do capítulo para mais notas)
Capítulo 69: A Princesa de Jumina
O silêncio cinzento da água da chuva acalmava as correntes dos canos de escoamento como serpentes de metal, pingando dos varais esvaziados apressadamente e gotejando no campo de treinamento da base até formar poças de lama. Eren dançava ao redor de Mike cautelosamente, pés descalços se firmando na areia macia, adagas prontas como presas de víboras em posição de ataque.
Eles tinham uma plateia. Sempre atraíam uma quando treinavam. Não era com frequência que podiam ver um dos melhores espadachins da cidade no mano a mano com o jeito estranho de luta de Eren, e em tardes tão ociosas em que o clima não permitia muita coisa, uma luta de adagas era especialmente interessante.
— Você perdeu o jeito.
— Algumas coisas aconteceram, Mike, em minha defesa. — A chuva caía pela face de Eren em um fluxo constante. Cada respiração ofegante vinha com um gole de água.
O urso corpulento balançou sua pulwar em um arco frouxo, atacando Eren mais uma vez com um belo golpe prateado. Eren quase pôde ouvir o som dele cortando as gotas de chuva. Eren contra-atacou o golpe no meio do arco e, cansado demais para desviar, usou a curva de uma kukri para guiar o ataque para longe do alvo em segurança. Simultaneamente, agachou-se e se atirou para a frente com a outra lâmina, atacando rápido como uma serpente. A lâmina enganchou na faixa marrom em volta da cintura de Mike e Eren puxou, sentindo o tecido ceder à medida em que serrava os fios. Mike xingou e agarrou suas calças enquanto Eren retrocedia.
— Desista! — Ele riu de trás do outro enquanto a plateia explodia em aplausos. Eren fez uma longa reverência, saboreando a atenção. Aquela última manobra havia encharcado suas calças com lama. Ele tinha que segurar suas próprias calças com uma mão também, de tão ensopadas que estavam.
— Levi está penetrando demais na sua vida. — Mike murmurou. Eren riu de novo, girando uma adaga em seus dedos.
— Quem me der...
— Eren, você tem uma visita!
Eren esfregou o rosto com seu antebraço e apertou os olhos contra a chuva para o rapaz chamando do abrigo da passagem mais próxima. Na entrada arqueada da base estava uma mulher que parecia completamente fora de contexto rodeada dos tristes cinzas e marrons das paredes da base. Os soldados ao redor dela pairavam incertos e intrigados. Ela tinha aparência de nobreza, em seu saree violeta e prateado. Atrás dela, Annie estava tensa em continência, palpavelmente desconfortável por estar cercada de presenças militares com uma porta reforçada de ferro barrando sua única saída.
Eren sorriu.
— Kasa!
— Não ouse encostar em mim! — Sua irmã avisou com uma risada, apontando severamente quando ele se aproximou com braços esticados apenas com suas calças saruel enlameadas. Annie lançou-lhe um sorriso fino antes de voltar a encarar a base com interesse reservado.
— Você parece meio ocupado. Eles o fazem treinar mesmo nesse tempo?
— Eu fiquei um pouco para trás no meu treinamento. Tenho passado os últimos dias voltando aos eixos.
Mikasa inspecionou a base com olhos felinos. Seu olhar pousou em alguém atrás dele, e inclinou-se ao redor de Eren com um sorriso.
— Olá, eu lembro de você. — Mikasa acenou com a cabeça para a espada na mão de Mike. — É um lindo pulwar que você tem aí.
Mike limpou a garganta. Ele havia vislumbrado Mikasa na Coroação do Imperador e a visto brevemente após o ataque em Muralha Rose, mas Eren sabia que ainda não tinham conversado. E ele conhecia o tipo de Mike.
— Você entende de espadas, Milady?
— Todas as formas e tamanhos. — Os olhos escuros de Mikasa dançaram sugestivamente.
Mike piscou, talvez tirando um momento para consolidar as palavras possivelmente impróprias da mulher à sua frente.
— Você devia tentar, Mikasa. Você poderia ter uma chance de verdade contra ele. — Sua irmã era provavelmente a única pessoa que ele conhecia cuja proeza poderia torná-la uma adversária digna além de Levi. O que ela não tinha de habilidade com espadas, tinha de habilidade para tirar o foco de alguém, e Mike era fraco contra um rosto bonito.
— Temo que não esteja vestida para uma luta de espadas. — disse Mikasa, desapontada.
— Eu poderia ajudar com isso. — Lá estava; o velho Mike de volta. O sorriso de Mikasa em resposta foi afiado de castrar.
— Uma boca como essa pertence a um bordel.
— Isso foi um convite?
Os soldados próximos riram nervosamente em surpresa. Eles sabiam quem era Mikasa e, apesar de parecer indecoroso discutir seu ramo de negócios particular tão candidamente numa sociedade educada, aqui estava ela sem um pingo de vergonha. Eren apertou os lábios e limpou a garganta.
— ... Enfim. Você escolheu um péssimo dia para visitar. — Ele gesticulou para a água gotejando da beira do telhado como uma cortina de contas.
— Eu não tive muita escolha; este é o primeiro dia quase todo livre que pude tirar em semanas. Desculpe.
Eles começaram a caminhar em direção à torre dos oficiais, já que Eren não conseguiu pensar num lugar melhor para levar sua irmã do que a sala de chá no andar de baixo. Atrás deles, Annie deu um passo até Mike e desembainhou sua cimitarra em um convite silencioso.
— Tudo bem. Eu tinha a intenção de te visitar também, mas acabei ficando para trás depois de tudo... Que aconteceu.
Eren limpou seus pés descalços e lamacentos no tapete e fez uma careta. Ele estava pingando. Teria que limpar o aposento inteiro assim que terminasse antes do retorno de Levi. Mikasa descalçou as sandálias e adentrou a pequena e abarrotada sala de chá. Se Eren não a conhecesse, acharia que ela não tinha nada a ver com uma sala minúscula repleta de manchas de água no gesso das paredes e toalhas gastas penduradas nas portas dos armários e gabinetes.
— Onde você estava na outra noite? Jean mencionou ter pensado que você estivesse em Muralha Rose. — Eren pôde sentir os olhos de sua irmã em sua nuca. — ... E eu posso atestar que você não estava.
Eren serviu a Mikasa chá de jasmim. Ele o colocou à sua frente e retirou a almofada de sua própria cadeira antes de sentar.
— Eu estava aqui. Com Levi.
— Assumo que essa pausa não foi acidental.
Eren respirou fundo, inalando o cheiro de seu próprio chá.
— Eu não falo com você há tanto tempo, Kasa. Tenho tanto a lhe contar.
Os olhos de sua irmã eram doces ao observá-lo. Pacientes e apologéticos.
— Me desculpe. Tem acontecido tanta coisa; sinto muito ter estado tão sumida, com a coisa do Erwin, Armin e Muralha Rose...
— Não é culpa sua, não estou te acusando. Eu entendo que tudo isso é muito mais importante.
— Mas não é. — interrompeu Mikasa. — Urgente não significa que é mais importante. Estou feliz de agora ter pelo menos um tempo para lhe dar toda minha atenção.
Ela cruzou as mãos ansiosamente à sua frente, suas pulseiras de vidro tilintando na mesa de madeira enquanto se inclinava para a frente. — Então...? O que está acontecendo? Jean disse que você vem agindo meio estranho desde que Erwin foi à Muralha Rose. — Desde a cachoeira.
— É. Eu o beijei naquela noite. Na verdade, ele me beijou. — Ele não podia evitar o sorriso tímido que se esticou por seus lábios. Nunca tinha falado sobre isso com ninguém antes. Bem, tinha contado a Jean, mas não era a mesma coisa. Não era como contar a alguém só por contar, não agora que era real. Contar a alguém só para dizer as palavras e poder ficar todo envergonhado por causa disso. Era como se estivesse soltando uma respiração que estivera segurando esse tempo todo.
Então, ele contou tudo à sua irmã; desde aquela noite terrível na qual se confessara a Levi até a noite maravilhosa que compartilharam, e ela ouviu com um sorriso afetuoso no rosto e a bochecha pressionada contra sua palma. Ouviu como se fossem uma dupla de irmãos normal discutindo suas vidas pessoais comuns.
Mikasa murmurou quando ele terminou, batendo uma unha pintada no dorso de sua mão. — Somos ambos um pouco complicados na forma de conduzir nossos problemas, não somos?
— Mas nós chegamos lá, mesmo que não seja pelos meios mais convencionais.
— Um brinde a isso. — Ela levantou sua xícara rachada em um brinde.
— Eu pensei que você teria mais a dizer sobre nós. — Admitiu Eren.
— Eu não acho que tenha mais a se dizer. Parecia inevitável, pensando agora, que essa dança que vocês dois estavam fazendo era algum tipo de ritual de cortejo bizarro e enrolado. Como ele é como amante? Admito que não consigo imaginar isso. — Mikasa pareceu reconsiderar suas palavras, franzindo o cenho. — Não quis dizer sobre como ele é na cama, é claro...
As bochechas de Eren queimaram e ele abaixou a cabeça, escondendo sua vergonha atrás de uma cortina de cachos molhados.
— Nós não chegamos lá. — Ele interrompeu. — Mikasa, não faz nem uma semana. Além disso, eu não acho que ele já esteve com alguém antes. De nenhum jeito. Acho que ele ainda está se descobrindo comigo. Ele está hesitante, o que se pensar bem é uma coisa boa, porque quando ele faz alguma coisa, eu fico tão... — Eren riu levemente e balançou a cabeça.
— Não vou insultar vocês dois com aquela postura falsa sobre partir seu coração e quaisquer outras repercussões. — As pulseiras de Mikasa dançaram quando ela agitou uma mão no ar. — Eu sei que ele é um bom homem, possivelmente melhor do que você merece. — Era uma piada, é claro, e ela a disse com uma risada e um cutucão em sua testa, mas mesmo assim.
— E eu não sei? — Eren suspirou. O chacoalhar parou.
— Eren. — Sua irmã forçou que olhasse para cima com um dedo debaixo de seu queixo. Seus olhos eram firmes e determinados. — Eu não invejo a coragem de Levi. Não estou surpresa por ela nem por sua hesitação. Mas a verdade é essa, e é ao mesmo tempo bela e trágica: vocês dois vão passar o resto da vida sem acreditar que acabaram ficando com alguém que estavam convencidos de que nunca mereceriam.
Ela sorriu calorosamente, e Eren podia ver o quão feliz ela realmente estava.
— E esse é exatamente o tipo de pessoa que vocês merecem.
Annie e Mike ainda estavam duelando quando eles retornaram ao campo de treinamento. Ambos estavam sem fôlego; Annie, um poço de determinação e foco; e Mike, exausto e sem forças, mas agitado pelo desafio. Mas Eren podia ver que Mike ainda era melhor. Era próximo, mas mesmo Annie sendo tão incrível, Mike era um campeão que exigia um outro nível de ser humano para derrotar. Talvez em um duelo com uma arma diferente, Annie pudesse ter tido uma chance.
— Estou surpresa. Eu esperava vê-lo caído há meia hora atrás. — Mikasa disse a Annie enquanto caminhava até eles. Annie embainhou sua espada, suas bochechas rosadas pelo exercício. Parecia que tinha se divertido. Eren se perguntou se eles conversaram, apesar da reticência habitual de Annie. Imaginou se o assunto dos Titãs fora abordado.
— Se fosse você no lugar dela, eu estaria, e de bom grado. Em qualquer posição que você ordenasse, na verdade.
Eren revirou os olhos e Mikasa lançou um olhar divertido a Mike, absorvendo a totalidade de sua aparência desgrenhada. Ele apressou sua irmã para longe do loiro com uma mão em suas costas antes que Mika dissesse alguma coisa ainda mais constrangedora, deixando o oficial para devanear na direção deles em um transe.
Eren ajudou sua irmã a entrar na carruagem, obedientemente segurando seu pallu para não sujar na lama enquanto Annie a ajudava a subir.
— Onde está Levi hoje? — Perguntou, enquanto se sentava nos bancos de couro, dobrando as saias em volta de si.
— Acho que ele foi ver Erwin, na verdade.
Os lábios de Mikasa se franziram em um beiço pensativo.
— Não se preocupe. — Eren riu. — Vou lhe contar o que descobrir.
Mikasa deu um tapinha em sua mão aprovadoramente antes de ele fechar a porta da carruagem entre eles.
— Esse é precisamente o motivo de vocês dois terem a minha bênção.
Levi reclinou-se nas almofadas do assento da janela enquanto Erwin trabalhava, um joelho pressionado contra o vidro enquanto o outro pé balançava ociosamente nos azulejos. Nuvens de chuva passavam vagarosamente no céu, inundando a cidade abaixo como uma barragem de chuva. Gotas de água escorriam para baixo nos painéis de vidro tingido, sobrepondo o mundo cinza em ricas cores vibrantes que dançavam atrás da cortina de chuva. A Cidade Alta estava quieta hoje. As tempestades não pouparam a nobreza.
— Você está quieto. Desculpe, estou um pouco distraído.
Como se Levi algum dia fosse de querer ficar de conversa fiada.
— Tudo bem. Prefiro que foque no que está fazendo.
Seus olhos procuraram os pináculos dos portões da cidade, e então mapearam uma estimativa próxima de onde a base das Tropas estaria. Eren estaria treinando agora, mesmo nesse tempo horrível. Um sorriso feroz em seu rosto, olhos de pedras preciosas cintilando. E sem camisa, provavelmente, como o idiota que ele era.
Erwin estava sentado à sua mesa procurando entre arquivos de inteligência que seus homens estiveram acumulando durante os últimos dias, compilando longas listas de nomes para verificá-los e depois reverificá-los de novo.
— Eu quero conhecê-lo.
A pena de Erwin riscava sob pergaminhos. Levi não precisava perguntar quem; ele sabia no que Erwin estava trabalhando, e sabia de quem ele estava falando.
— Você vai, se isso funcionar. — respondeu Levi.
— Ele é do tipo que vai no colo de estranhos? Acha que ele virá até mim quando eu o vir?
Armin era uma criança confiante, uma criança criada por um pequeno grupo de delinquentes e concubinas. Ele não era tímido.
— Ele é bem acostumado com isso. Ele veio no meu colo, e eu não pareço nem um pouco amigável.
— Eu invejo você às vezes.
A imagem de olhos de pedras preciosas passou pela cabeça de Levi. Esmeralda e âmbar. Jade e topaz.
— Eu não o culpo.
Ele queria estar em seu escritório. Queria estar ouvindo a chuva nas telhas de ardósia da torre dos oficiais, lendo em seu sofá com a luz de uma lamparina. A sala estaria com cheiro do chá de Eren, porque é claro que ele estaria lá. Ele estaria com cheiro de chuva, porque é claro que teria se molhado. Estaria murmurando baixinho, já que sabia o quanto Levi gostava de silêncio. Levi gostava do murmúrio também.
— Mikasa daria uma boa rainha consorte.
— Ela nunca aceitaria isso. — Isso ignorando o fato de que tal união nunca seria sancionada de qualquer forma. — Case-se com uma moça doce e inofensiva e deixe Mikasa cuidar da cidade baixa do jeito dela. Ela não é do tipo de rainha à qual um rei sobreviveria.
— Falando nisso, meus vizires estão em busca de uma pretendente.
Agora Levi se virou para encarar o outro, de sobrancelhas erguidas.
— Estão em busca, ou já tem alguém em mente?
Erwin tamborilou a ponta de sua pena no pote de tinta.
— Eles já têm uma pessoa.
— Bem, continue. — solicitou Levi.
— A Princesa de Jumina.
Jumina, um reino ao norte. Rico em recursos e muito estável. Uma aliança prudente.
— O nome dela?
— Marie.
Levi não sabia por que se incomodou em perguntar. Ele nunca conseguia lembrar de nomes e rostos.
— Vocês já se conheceram?
— Acho que sim, embora não me lembre dela. Deve ter sido há anos.
— O que você acha? Ela parece... Não ser desequilibrada? — O que era às vezes o melhor que você podia esperar desses casamentos arranjados. Levi sentiu empatia por Erwin, que fora criado para entender que casamentos arranjados seriam apenas um fato da vida reconhecido por ele. Levi nunca fora um romântico, mas imaginar infligir sua companhia de uma vida toda a alguma pobre mulher inocente realmente o fazia se sentir grato por ter uma chance de escolha no assunto.
Ou, como a sorte mostrara, ter alguém inexplicavelmente mostrando interesse nele apesar de todos os sinais de alerta.
— É difícil saber, mas fui informado por fontes de boa reputação que ela é querida por seu povo. O que significa que ou ela é uma sonsa encantadora ou uma bela manipuladora.
— Essas são as únicas opções? — O modo de Erwin enxergar o mundo dizia muito sobre ele; ou a pessoa era uma ameaça ou insignificante. — Qual você preferiria?
— Mikasa é um exemplo perfeito de bela manipuladora. — disse Erwin, parecendo mais estar pensando alto do que respondendo à pergunta.
— Uma Mikasa é mais do que suficiente para essa cidade. Eu espero, pelo seu bem, que essa mulher seja uma sonsa.
Erwin murmurou descompromissadamente, reunindo a penca de papelada e a ajeitando em cima da mesa.
— Pronto.
— Você vai precisar da nossa ajuda com isso? — perguntou Levi, acenando com a cabeça para a pilha de papéis. O Chefe da Guarda Real, um General de meia idade e feições sombrias chamado Haroun El-Hashem, deu um passo à frente para recebê-los com uma reverência.
— Estritamente como reforços, apenas. As Tropas de Exploração não têm todos os poderes que a Guarda Real tem, portanto talvez só deva sentar e aproveitar o espetáculo.
Leci certamente iria.
Levi reconhecia essa música.
Isabel cantava às vezes em casa. Era um velho clássico ou algo assim. Ela a cantava com tanta frequência que ele até sabia algumas palavras, embora fossem só sons para ele. Isabel uma vez traduzira para ele, articulando as palavras e formando frases até estar satisfeita com o resultado.
O vento é como você
Envolvendo meus pensamentos
Roubando o cheiro das flores
E dançando fora de alcance
A chuva é como você
Caindo sobre pétalas de flores
Misturando suas cores como tinta
É um espanto que elas não sejam lavadas
Ele estava descendo as escadas da torre. Levi podia ouvir sua voz ficando mais alta, ecoando assombradamente pelas paredes escuras de pedra. Ele parou abruptamente ao avistar Levi esperando por ele no final da escadaria, a canção morrendo em seus lábios. Apenas seus olhos estavam visíveis detrás da pilha de lençóis que ele estava levando para serem lavados.
— Eu esperava que pudesse te encontrar antes que você fosse embora.
Os olhos de joias de Eren piscaram para ele uma vez, então voltou sua descida minuciosa pelas escadas, buscando cuidadosamente o próximo degrau com um passo cego e explorador de cada vez.
— Você teve sorte, eu não costumo ficar até tão tarde. Como foram as coisas?
— Boas.
Eren pausou quando passou, lançando um olhar crítico a Levi.
— Eu quero mais informações do que isso.
Levi seguiu Eren enquanto ele ia depositar a roupa de cama no monte para lavar amanhã, afrouxando a gravata e desfazendo alguns dos botões de cima de sua camisa. Levi se perguntava muito ultimamente como deveria se comportar agora que eles eram mais do que amigos. O que era inapropriado e qual era o nível de afeição esperado para alguém na circunstância deles? O seu único meio de referência eram os cadetes, com suas paqueras hormonais e passageiras, e o casamento de Isabel e Farlan, e ambos eram os extremos de lados opostos de um espectro. Era possível que ele estivesse pensando demais sobre isso de novo, Eren o conhecia o bastante para saber que seu retraimento vinha de uma insegurança nele mesmo e não sobre o relacionamento, mas ele não queria negligenciar o outro. Por um lado, ele sabia que Eren falaria se estivesse insatisfeito com alguma coisa e tudo isso ainda era muito novo, mas por outro lado, ele não deveria deixar para Eren ser sempre aquele a tomar a iniciativa entre eles.
— Eren, não entre em pânico, mas eu acho que você deveria ir a Muralha Rose amanhã. Passe o dia com sua irmã.
Talvez dizer "não entre em pânico" tenha sido uma péssima escolha de palavras, porque o moreno virou imediatamente para pressionar Levi com um olhar alarmado.
— Tem algum problema? Você ouviu algo para nos preocuparmos?
Levi estava praticamente sorrindo quando respondeu.
— Não, na verdade é o contrário.
— O que isso significa? — perguntou Eren, com suspeita.
Levi deu um passo até ele, pegando o travesseiro de seus dedos de forma que ficassem a meros centímetros de distância. Ele olhou para Eren, prendendo seu olhar.
— Você confia em mim?
Sua voz era um murmúrio baixo entre eles. Os olhos de Eren procuraram os seus, e Levi podia ver a urgência para pedir uma resposta direta guerreando contra o desejo de acreditar nele. Ele viu o momento em que o último ganhou, um suspiro suave que pareceu derreter a tensão animal que se formara em seus ombros no pensamento do perigo.
— Sim.
Não que Levi já não soubesse, mas ainda significou mais do que ele pensou que iria ouvir a palavra sendo exalada como um sinal de alívio. Saber que Eren, que parecia não confiar em ninguém quando se tratava de sua família, confiava em Levi irrevogavelmente sobre a segurança dela. O sentimento desceu quentinho e leve em sua barriga. Isso eram eles como mais que amigos. Sem demonstrações irritantes de afeto, e ainda sem aquela estabilidade confortável que somente anos de companheirismo traziam. Esses momentos silenciosos crepitando com nervosismo e expectativa eram perfeitos e suficientes.
— Ótimo.
A palavra saiu constrangedoramente rouca, e Levi jogou o travesseiro na cara de Eren por reflexo. Uma vez Eren havia se oferecido a ele num quarto de Muralha Rose pensando apenas na segurança de sua família e na ameaça que ele pensava que Levi representava a eles. Levi havia jogando a camisa dele em sua cara naquele dia também.
Agora olhe para eles.
Levi se virou, ocupando-se com suas abotoaduras antes que Eren pudesse pegá-lo encarando feito um idiota.
— Oh, e eu quase esqueci. Erwin vai se casar.
Notas:
Saree: traje de origem indiana que consiste num tecido comprido dobrado de várias formas pelo corpo, assemelhando-se a um vestido com uma ponta caindo sobre as costas, chamada pallu.
Pallu: é a ponta do tecido do traje saree, mais precisamente a parte que fica amarrada à cintura e passa por cima do ombro esquerdo, caindo solta nas costas.
