CAPÍTULO 7

De que diabo você está falando? Seu nariz não é bisonhamente grande.

(Carta de Dan Granger à irmã, Hermione)

Harry dissera que só precisaria de dez minutos, mas Hermione acabou esperando 25 antes de voltar ao quarto de número 12. Ela planejara demorar meia hora, mas então começou a ficar preocupada – afinal, ele ainda estava muito fraco. E se não conseguisse sair sozinho da banheira?

Àquela altura, a água já estaria gelada. Harry poderia acabar pegando um resfriado. Ele merecia um tempo a sós e ela não queria negar-lhe um pouco de privacidade, desde que não causasse nenhum prejuízo à saúde dele.

Era verdade que, enquanto cuidava dele no hospital, Hermione vira o corpo de Harry de um modo deveras impróprio, mas não tinha visto tudo. Desenvolvera maneiras muito criativas de usar o lençol. Amarrava-o assim ou assado, sempre preservando a dignidade dele. E a pureza dela.

Toda a cidade de Nova York podia acreditar que ela era uma mulher casada, mas Hermione ainda era uma moça inocente – por mais que um único beijo do capitão Harry Potter a tivesse deixado sem ar.

Sem ar? Estava mais para sem juízo.

Devia ser proibido existir um homem com olhos daquela cor. Um verde entre a floresta e a esmeralda, capaz de paralisar uma mocinha incauta só de encarála. Sim, ele tinha fechado os olhos ao beijá-la, mas isso era irrelevante: ela não conseguia parar de pensar no instante que antecedera o beijo, quando ela achou que fosse se perder na imensidão verde do olhar de Harry.

Hermione sempre gostara dos próprios olhos, e sentia orgulho daquela nuance de mel que os distinguiam dos demais. Mas os olhos de Harry… Ele era um homem lindo, não havia como negar. E poderia estar tremendo de frio naquele momento. Pior: poderia estar prestes a pegar um resfriado na água, que já devia estar gelada, e Deus sabe como um resfriado podia ser perigoso no seu estado de saúde.

Ela correu escada acima.

– Harry? – chamou, batendo de leve à porta.

"Por que está tão quieto aí dentro?", pensou ela, alarmada.

Bateu mais forte.

– Harry!

Nenhuma resposta.

Um arrepio de medo percorreu o corpo de Hermione. Ela agarrou a maçaneta e abriu a porta.

Enquanto entrava no quarto, desviando os olhos para o chão, ela chamou o nome dele outra vez. Como ele não respondeu, ela finalmente olhou na direção da banheira.

– Você dormiu mesmo!

As palavras se atropelaram boca afora antes mesmo que ela pudesse pensar que não seria uma boa ideia acordá-lo com um sobressalto.

– Aaaah!

Harry despertou assustado, espalhando água para todo lado, e Hermione correu para o outro lado do quarto, sem saber bem o porquê. Mas ela não podia simplesmente ficar parada ali, na frente dele.

Ele estava nu.

– Você disse que não ia dormir! – acusou ela, indignada, de costas para a banheira.

– Não, você disse que eu não ia dormir – retrucou ele.

Droga, ele estava certo.

– Bem, imagino que a água já esteja fria – falou ela, em um tom que deixava muito claro que ela não fazia ideia de como se portar naquele momento.

Fez-se um instante de silêncio, depois do qual Harry informou:

– Está tolerável.

Ela se remexeu sem sair do lugar, desconfortável, e então cruzou os braços com força. Não estava brava; na verdade, parecia que o corpo dela não sabia como agir.

– Eu não quero que você pegue um resfriado – disse ela, olhando os próprios pés.

– Não.

"Não?" Era só isso o que ele tinha a dizer? "Não?"

– Hã, Hermione?

Ela soltou um grunhido como resposta.

– Será que você pode fechar a porta?

– Aimeudeusmedesculpe!

Ela atravessou o quarto correndo (um gesto bem atrapalhado naquele espaço exíguo) e bateu a porta com muito mais força do que necessária.

– Você ainda está aí? – perguntou Harry.

Hermione demorou a entender que ele não podia vê-la. Harry estava de costas para a porta, e a banheira era pequena demais para que ele conseguisse se virar.

– Hã, estou?

A resposta saiu mais como uma pergunta. Ela não fazia ideia do porquê. Fez-se uma breve pausa durante a qual ele devia estar ponderando sobre como reagir àquela resposta ridícula. Contudo, ele acabou dizendo apenas:

– Será que poderia, por gentileza, me passar a toalha?

– Ah. Sim. É claro.

Tomando o cuidado de manter-se sempre de costas para a banheira, ela foi até a cama e pegou a toalha. Então, esticou o braço para trás, passando a toalha para ele.

Ele a pegou e disse:

– Sem querer constrangê-la – o que sinalizava que ela ficaria mortificada –, e saiba que admiro seus esforços para preservar sua pureza, mas enquanto cuidava de mim no hospital você já não viu, hum, tudo o que tinha para ver?

– Não desse jeito – murmurou ela.

Fez-se mais uma breve pausa e, dessa vez, ela chegou até a imaginar o cenho franzido de Harry enquanto ele pensava em uma resposta.

– Eu sempre o deixei coberto com um lençol – falou ela, enfim.

– O tempo todo?

– Sou uma pessoa muito obstinada.

Ele respondeu com uma risadinha.

– Acho que vou voltar lá para baixo – disse ela, virando-se com cuidado para a porta. – Eu só queria me certificar de que você não iria se resfriar na água gelada.

– No auge do verão?

– Você passou um longo tempo doente.

Ele suspirou.

– Ainda estou.

Hermione cerrou os lábios com firmeza, tomando coragem. Ele estava certo, e a saúde dele era muito mais importante do que a vergonha dela. Ela respirou fundo.

– Precisa de ajuda para sair da banheira?

– Não – respondeu ele, sem muita certeza. – Espero que não.

– Talvez seja mais prudente que eu fique aqui. – Ela chegou um pouquinho mais perto da porta. – Apenas enquanto você sai da banheira. Para o caso de você precisar de mim.

Ela estava torcendo para que ele não precisasse. Aquela toalha não era muito grande.

Logo depois, ouviu-se um gemido de esforço, seguido do som da água chacoalhando na banheira.

– Tudo be...

– Estou bem – cortou ele.

– Desculpe.

Ela não devia ter dito nada. Harry era um homem orgulhoso. Contudo, ela tinha passado dias cuidando dele, e era difícil abandonar o hábito, mesmo enquanto fazia todo aquele esforço para não olhar para ele.

– Não há por que se desculpar.

Ela assentiu, embora não fizesse a menor ideia se ele estava olhando para ela ou não.

– Você já pode se virar.

– Tem certeza?

– Estou coberto – disse ele, deixando escapar uma leve nota de impaciência com o pudor excessivo dela.

– Obrigada.

Ela se virou. Bem devagar.

Ela não chamaria aquilo de "coberto".

Estava deitado na cama, com as costas apoiadas nos travesseiros e com o cobertor por cima do colo. O peito dele estava nu. Nada que ela não tivesse visto no hospital, quando tinha que molhá-lo com uma esponja para baixar a febre, mas era diferente agora que ele estava alerta e de olhos bem abertos.

– Você está com uma aparência melhor – comentou ela.

Era verdade. Ele tinha lavado o cabelo, e a pele dele estava com um aspecto mais saudável. Ele abriu um sorriso cansado, levando a mão à barba.

– Não me barbeei.

– Tudo bem – reassegurou ela. – Não há pressa.

– Acho que não vou me sentir limpo de verdade enquanto não me barbear.

– Oh. Puxa...

Hermione sabia que deveria perguntar se ele gostaria que ela o barbeasse. Sabia que aquela era a melhor maneira de deixá-lo confortável, mas era um gesto tão íntimo... O único homem que já tinha barbeado fora o pai. Ele não tinha um camareiro, e quando a artrite dominara as mãos dele, ela assumira a tarefa.

– Tudo bem, não precisa – falou Harry, adivinhando.

– Não, não... é claro que eu posso fazer isso.

Ela estava sendo ridícula, pudica. Tinha atravessado o oceano Atlântico sozinha. Tinha batido de frente com o coronel Zachary Dumbledore, do exército de Sua Majestade, e mentido na cara dura para salvar a vida de um homem. É claro que daria conta de barbear Harry.

– Talvez seja prudente perguntar se você já fez a barba de alguém antes – murmurou ele.

Ela reprimiu um sorriso, olhando à volta em busca de navalha e pincel.

– De fato, convém perguntar minha experiência pregressa antes de me deixar chegar tão perto da sua garganta com uma navalha.

Ele deu uma risadinha.

– Tem uma caixa de couro no meu baú. Ali você vai encontrar tudo de que precisa.

Certo. O baú dele. Durante a ausência de Harry, o Exército cuidara de seus pertences. O coronel Dumbledore tinha mandado entregar tudo no Devil's Head um pouco mais cedo.

Hermione abriu o baú, esquadrinhando os livros, os papéis, as roupas dobradas com capricho. Vasculhar entre os pertences dele parecia um gesto íntimo demais. O que um homem levava consigo para uma terra estranha? Não deveria ser uma pergunta tão peculiar, pensou ela. Afinal, ela mesma tinha feito uma mala para uma viagem transatlântica. Mas, ao contrário de Harry, ela não tivera a intenção de se demorar tanto. Trouxera apenas os itens de maior necessidade; memórias do lar não foram sua prioridade. Na verdade, o único item de valor afetivo que colocara na bagagem fora um retrato pequeno do irmão – e, mesmo assim, só porque achou que poderia ser útil quando precisasse localizá-lo na América do Norte.

Bufou, frustrada. Viajara prevendo que necessitaria de ajuda para achar

Dan dentro de um hospital. Mal sabia ela que acabaria tendo de procurá-lo na colônia inteira.

– Encontrou? – perguntou Harry.

– Hã, não – murmurou ela, tirando do caminho uma delicada camisa de

linho.

A camisa estava um tanto gasta e dava para ver que já tinha sido lavada

muitas vezes, mas ela entendia de costura o suficiente para saber que a peça era de altíssima qualidade. Dan não tinha camisas tão boas. Será que as roupas dele estavam resistindo tão bem quanto as de Harry? Ela tentou imaginar o irmão cerzindo as próprias peças, mas falhou miseravelmente. Ela sempre o ajudara com a costura. Nunca sem reclamar, mas nunca recusara ajuda.

Daria tudo para voltar a cerzir as roupas de Dan outra vez.

– Hermione?

– Desculpe. – Ela encontrou a caixa de couro e a pegou com cuidado. – Por um instante, eu me perdi em meus pensamentos.

– Pensamentos interessantes?

Ela se voltou para ele.

– Estava pensando no meu irmão.

Harry assumiu uma expressão solene.

– Imagino. Sinto muito.

– Eu gostaria de ter podido ajudá-lo a fazer a mala – disse ela, e então olhou para Harry, por cima do ombro.

Ele não comentou nada, mas assentiu com uma expressão compreensiva no rosto.

– Ele não voltou para casa antes de vir para a América do Norte – continuou Hermione. – Não sei nem se tinha alguém para ajudá-lo com isso. – Ergueu os olhos para Harry. – Você teve?

– Minha mãe – afirmou Harry. – Ela insistiu. Eu consegui fazer uma visita à casa dos meus pais antes de viajar para cá. Crake House não é longe do litoral. Com um cavalo veloz, fica a menos de duas horas.

Hermione assentiu com um ar melancólico. O regimento de Harry e Dan tinha zarpado para o Novo Mundo a partir do movimentado porto de Chatham, em Kent. Era longe demais de Derbyshire para que Dan pudesse cogitar uma visita ao lar.

– Dan foi comigo à minha casa algumas vezes – contou Harry.

– É mesmo?

Hermione se surpreendeu com a felicidade que sentiu ao saber disso. Os relatos de Dan sobre os alojamentos eram sempre um tanto deprimentes. Ela ficou feliz em saber que o irmão tivera a oportunidade de passar algum tempo em um lar de verdade, com uma família de verdade. Ela olhou para Harry novamente, abriu um sorriso discreto e disse, balançando a cabeça:

– Ele nunca comentou a respeito.

– E eu que achava que vocês contavam tudo um para o outro...

– Nem tudo – respondeu Hermione, falando mais consigo mesma do que com ele.

Ela definitivamente nunca dissera a Dan quanto gostava quando ele escrevia sobre Harry. Se tivesse tido a oportunidade de se encontrar com o irmão, de conversar com ele pessoalmente, será que teria confessado que estava um pouco apaixonada pelo melhor amigo dele? Achava que não. Alguns assuntos são confidenciais, até mesmo quando se trata do irmão preferido.

Ela engoliu o "não" que se formava em sua garganta. Dan sempre gostava de se proclamar o irmão preferido dela, ao que ela respondia que ele era seu único irmão. E então o pai deles, que nunca tivera muito senso de humor, sempre resmungava que já tinha ouvido aquela balela toda antes, "e, francamente, vocês dois nunca vão resolver esse assunto?".

– O que você está pensando? – perguntou Harry.

– Desculpe. Estava pensando no Dan outra vez. – Ela contraiu um dos cantos da boca. – Eu estava com uma expressão triste?

– Muito pelo contrário, parecia feliz.

– É? – Piscou algumas vezes. – Acho que eu estava mesmo feliz.

Harry apontou para o baú aberto.

– Você estava dizendo que teria gostado de ajudá-lo a fazer as malas… Ela ponderou por alguns instantes, e a saudade foi se infiltrando no olhar dela.

– Sim. Gostaria de ter ajudado com seus pertences.

Harry aquiesceu.

– Não que fosse necessário, é claro – apressou-se em dizer, virando o rosto para que ele não percebesse que ela lutava contra as lágrimas. – Mas teria sido bom.

– Na verdade, eu não precisava da ajuda da minha mãe – disse Harry,

baixinho.

Hermione voltou o rosto para ele devagar e estudou os traços que haviam se tornado tão queridos para ela em um período tão curto de tempo. Embora não soubesse como era a mãe dele, de alguma maneira ela conseguia imaginar a cena muito bem: Harry, alto, forte e independente, fingindo precisar de ajuda só para que a mãe cuidasse dele.

Ela o olhou nos olhos, com um respeito solene.

– Você é um homem bom, Harry Potter.

Ele se surpreendeu com o elogio, ruborizando em seguida, embora a barba ocultasse boa parte do rosto. Ela abaixou a cabeça para esconder um sorriso. Em breve ele não teria mais aquela juba para se esconder.

– Ora, ela é a minha mãe – murmurou Harry.

Hermione abriu uma das fivelas da caixa com os instrumentos de barbear.

– Como eu disse, você é um bom homem.

Ele enrubesceu outra vez. Ela não chegou a ver, pois estava olhando para o outro lado, mas podia jurar que tinha sentido o rubor nas faces dele ondulando no ar parado do quarto.

Adorou saber que ele tinha enrubescido.

Adorou saber que ela tinha provocado aquilo.

Ainda sorrindo, voltou a se concentrar no baú, correndo os dedos pela borda.

Era de altíssima qualidade, como todos os demais pertences de Harry, feito de ferro e madeira de primeira, e tinha as iniciais de Harry gravadas na tampa por uma sequência de tarraxas.

– O que quer dizer o N?

– N?

– Suas iniciais. HNP

– Ah, sim. Neville.

– Claro.

Ela assentiu.

– Por que "claro"?

Ela respondeu apenas com um olhar.

– O que mais poderia ser?

Ele revirou os olhos.

– Natan. Nean.

– Não – respondeu ela, deixando um sorriso sarcástico nascer nos próprios lábios.

– Noan

Desta vez, foi ela quem revirou os olhos.

– Nem pensar. Você é totalmente um Neville.

– Meu irmão é um Neville – corrigiu ele.

– E você também é, aparentemente.

Ele deu de ombros, dizendo:

– É um nome de família.

Ela abriu a caixa de couro e pegou a navalha.

– E qual é o seu?

– O meu o quê, nome do meio? Esmerelda.

Ele estreitou os olhos.

– É mesmo?

Ela deu uma risada.

– Não, claro que não. Eu definitivamente não sou uma pessoa tão exótica. É Jane. Em homenagem à minha mãe.

– Hermione Jane. É um nome lindo.

Ela sentiu o rubor se espalhando pelas faces, o que a surpreendeu, considerando que naquele dia já tinham acontecido outras coisas muito mais ruborizantes.

– O que você usava em Connecticut para fazer a barba? – perguntou ela.

Isto porque, obviamente, a navalha ficara guardada junto com seus outros pertences em Nova York. Quando Harry fora encontrado em Kip's Bay, a navalha não estava com ele.

Ele piscou algumas vezes, confuso.

– Não sei.

– Oh, sinto muito.

Que idiota, Hermione. É claro que ele não sabia.

– Na verdade – tornou ele, em uma tentativa óbvia de suprimir o constrangimento dela –, tenho duas navalhas. A que está nas suas mãos pertencia ao meu avô. A outra eu comprei logo antes de partir. Quando viajo sem muita estrutura, é a outra que eu levo. – Franziu o cenho. – O que será que aconteceu com ela?

– Não me lembro de ver nenhuma navalha entre os seus pertences no

hospital.

– Eu tinha algum pertence no hospital?

Ela franziu o cenho.

– Agora que você mencionou, não. Disseram que você chegou apenas com as roupas do corpo. E seja lá o que estivesse nos bolsos. Eu não estava lá quando trouxeram você.

– Bem – Harry coçou o queixo –, é por isso que eu não levo minha navalha boa quando viajo.

– É uma peça linda – murmurou Hermione.

O cabo era de marfim, belamente entalhado, e agradável ao toque. A lâmina era feita do melhor aço de Sheffield.

– Meu nome foi uma homenagem ao meu avô – contou Harry. – O cabo tem as iniciais dele gravadas. Foi por isso que ele me deu esta navalha de presente.

Hermione olhou para a navalha em suas mãos. De fato, na ponta do marfim estavam gravadas as delicadas iniciais HNP.

– A navalha de meu pai era parecida – comentou ela, indo buscar a bacia; como estava vazia, ela a mergulhou na banheira. – O cabo não era tão refinado quanto este, mas o aço era da mesma qualidade.

– Você é uma profunda conhecedora de lâminas de aço?

Ela arqueou a sobrancelha.

– Está com medo?

– Não, mas talvez eu devesse estar.

Ele deu uma risadinha.

– Qualquer pessoa que more muito perto de Sheffield acaba conhecendo bem o aço deles. Nos últimos anos, muitos homens partiram do meu vilarejo para trabalhar nas forjas.

– Imagino que não seja uma ocupação muito agradável.

– De fato.

Hermione pensou em seus vizinhos – melhor dizendo, seus antigos vizinhos. Eram homens jovens, filhos de fazendeiros da área. No entanto, depois de um ou dois anos trabalhando nas fornalhas, ninguém conseguia conservar os ares de juventude.

– Dizem que a remuneração é consideravelmente maior que a que se consegue lavrando os campos – disse ela. – Espero que, pelo menos, isso seja verdade.

Ele concordou. Ela então pôs um pouco de sabão na bacia e, com o pincel que encontrara junto da navalha, começou a fazer espuma. Ao voltar para perto de Harry, na cama, ela franziu o cenho.

– O que foi? – quis saber ele.

– Sua barba está muito comprida.

– Eu não estou tão desalinhado assim.

– Não, mas, ainda assim, sua barba está muito mais comprida do que a do meu pai.

– Foi com ele que você aperfeiçoou as suas habilidades?

– Eu o barbeei todo santo dia durante seus últimos anos de vida. – Ela inclinou o rosto para o lado, feito uma artista examinando uma tela em branco. – Seria melhor se pudéssemos aparar um pouco.

– Infelizmente, não tenho uma tesoura.

A mente de Hermione foi tomada pela visão repentina de um jardineiro atacando a barba dele com uma tesoura de jardim, e teve que reprimir uma risadinha.

– O que foi? – exigiu Harry.

– Você não vai querer saber. – Ela pegou o pincel. – Certo, vamos ver como nos saímos.

Harry ergueu o queixo para que ela pudesse besuntar seu rosto com o sabão. Ela gostaria que a espuma estivesse mais espessa, mas daria para o gasto.

Trabalhou com cuidado, esticando a pele dele com uma das mãos enquanto a outra manejava a navalha, raspando dos malares até o maxilar. A cada passada, ela enxaguava a lâmina na pequena bacia, e logo a água estava coberta de pelos.

– Tem muitos pelos avermelhados em sua barba – observou ela. – Seu pai ou sua mãe tem cabelo ruivo?

Ele fez menção de balançar a cabeça.

– Não se mexa!

Ele a olhou de soslaio.

– Então não me faça perguntas.

– Touché.

Assim que ela se virou para enxaguar mais uma vez a navalha, Harry

respondeu:

– Meu pai tem cabelo e barba castanhos. Iguais aos meus. Digo, eram iguais aos meus. Agora ele está cheio de cabelos brancos. Prefere dizer que está virando um charmoso senhor grisalho. – Harry franziu o cenho, e seus olhos se turvaram, ao que tudo indicava, com pesar. – Presumo que, quando eu o vir novamente, ele estará muito mais.

– Mais grisalho? – perguntou ela, em um tom leve.

– Sim. – Ele ergueu o queixo, para que ela pudesse trabalhar na parte de baixo do pescoço. – Mais uma vez, obrigado por ter escrito para eles.

– Não há de quê. Só lamento que não tenha havido nenhuma forma de fazer a notícia chegar mais rápido.

Ela tinha conseguido fazer com que a carta para os Potters partisse no primeiro navio, mas ainda assim levaria três longas semanas até que a missiva chegasse à Inglaterra. E eles não receberiam uma resposta antes de sete semanas.

Ficaram em silêncio, e Hermione continuou a trabalhar. Acostumada a barbear o pai, ela estava achando muito mais difícil fazer um bom trabalho em Harry.

Primeiro porque os fios dele estavam com, no mínimo, um centímetro de

comprimento – muito diferente da barba de um dia que estava acostumada a raspar.

Mas, acima de tudo, porque era Harry.

Que tinha acabado de beijá-la.

E porque ela tinha gostado. Muito.

Quando se inclinava por cima do rosto dele, parecia que o ar à sua volta ficava diferente, carregado de tensão. Era uma sensação quase elétrica que comprimia o peito e arrepiava a pele. E quando ela conseguia, enfim, respirar fundo, sentia como se estivesse inspirando a própria presença dele. Ele tinha um cheiro delicioso, o que não fazia o menor sentido, já que apenas recendia a sabão.

E a homem.

E a calor.

Santo Deus, ela só podia estar ficando louca. Não dava para cheirar calor. E sabão não tinha um aroma delicioso. Contudo, quando ela chegava bem perto de Harry Potter, parecia que nada tinha lógica. Ele confundia os sentidos dela, e fazia seu peito parecer pesado... ou leve... ela não sabia dizer.

Sinceramente, era um milagre que as mãos dela estivessem tão firmes.

– Pode virar a cabeça um pouquinho? – pediu ela. – Preciso raspar perto da orelha.

Ele obedeceu, e ela chegou ainda mais perto. Precisava segurar a navalha no ângulo certo, para evitar machucar a pele. Estava tão próxima que os cabelos dele ondulavam à respiração dela. Seria muito fácil se render a um suspiro profundo, sucumbindo à presença dele, sentindo aquele corpo tão próximo.

– Hermione?

Ela escutou a voz de Harry, mas não conseguia responder. Era como se

estivesse flutuando, como se o ar pesado sustentasse o corpo dela. E então, passado o instante de que seu cérebro precisara para transmitir a mensagem ao resto do corpo, ela conseguiu recuar, piscando com força para se libertar do que só podia ser a névoa do desejo.

– Desculpe – disse ela, pronunciando a palavra mais com a garganta do que com os lábios. – Mais uma vez me perdi em pensamentos.

O que não era mentira.

– Não precisa ficar perfeito – falou ele. – É só tirar o grosso, amanhã de manhã eu mesmo posso aparar a barba mais rente.

– Ah, claro – respondeu ela, dando um passo trêmulo para trás. – Eu... hã… é... vai levar menos tempo assim. E você está exausto.

– Sim – concordou ele.

– Você certamente quer... hã... – Ela piscou algumas vezes, distraída pelo peito nu de Harry. – Não gostaria de pôr uma camisa?

– Acho melhor me vestir depois que terminarmos. Para não molhar a camisa.

– Claro, claro.

Mais uma vez o olhar de Hermione se deteve no peito dele. Havia um pedacinho de espuma preso na leve penugem logo acima do mamilo. Ela estendeu a mão para limpar o sabão, mas, no momento em que tocou a pele de Harry, ele a pegou pelo pulso.

– Não – disse ele.

Era uma advertência.

Ele a desejava.

Talvez ainda mais do que ela própria o desejava. Ela umedeceu os lábios, que estavam irremediavelmente secos.

– Não faça isso – pediu ele, com a voz embargada.

Seus olhares se encontraram, e ela se sentiu tomada por uma descarga de eletricidade, hipnotizada pela intensidade daqueles penetrantes olhos azuis. A sensação reverberou dentro do peito dela, onde o coração batia acelerado. Por um momento, ficou sem palavras. A mão dele estava quente, mas seu toque era inesperadamente gentil.

– Não posso deixá-lo nesse estado – disse ela.

Ele a fitou, confuso. Ou talvez tivesse entendido errado. Ela estava falando da barba dele, comprida do lado direito e raspada do esquerdo.

– Você está parecendo um lunático.

Ele tocou o queixo, bem na divisa entre a barba longa e a pele nua, e soltou uma risadinha bem-humorada.

– Está ridículo – continuou ela.

Ele passou a mão em um dos lados do rosto, e depois, no outro. Hermione ergueu a lâmina e o pincel.

– Que tal me deixar terminar?

Ele arqueou a sobrancelha.

– Não acha que eu deveria receber o major Weasley desse jeito?

– Na verdade, eu seria capaz de pagar para ver isso acontecer. – Ela contornou a cama, aliviada com a quebra da tensão. – Isto é, se ao menos eu tivesse um tostão.

Harry chegou mais perto da beirada da cama e ficou imóvel enquanto ela espalhava espuma em seu rosto.

– Está sem dinheiro? – perguntou ele.

Hermione hesitou, sem saber ao certo quanto deveria contar a ele. Decidiu não entrar em detalhes.

– Digamos que esta viagem está sendo mais cara do que eu planejei.

– Suponho que essa afirmação valha para todas as viagens.

– É o que dizem. – Ela enxaguou a lâmina mais uma vez. – É a primeira vez que eu me aventuro para além de um raio de cinquenta quilômetros de Derbyshire.

– É mesmo?

– Fique parado – repreendeu ela.

Estava com a lâmina bem na garganta dele quando Harry se mexeu.

– Desculpe. Mas é mesmo a primeira viagem que faz?

Ela deu de ombros, enxaguando a navalha de novo.

– Aonde eu poderia ter ido?

– Londres?

– Nunca tive um motivo para ir lá.

Os Grangers eram uma família com alguma posse, mas não a ponto de mandar uma filha debutar na capital. Ademais, o pai dela odiava cidades

grandes. Já reclamava o suficiente quando tinha de ir a Sheffield. Uma vez fora forçado a resolver assuntos em Manchester e passara dias resmungando.

– Também nunca houve ninguém que me levasse.

– Eu a levarei a Londres.

A mão dela se deteve. Ele achava que eles eram casados. É claro que iria querer levá-la a Londres um dia.

– Isto é, se você desejar – acrescentou ele, entendendo errado o motivo da hesitação dela.

Ela se forçou a sorrir.

– Eu adoraria.

– Podemos ir ao teatro – disse ele, bocejando. – Ou talvez à ópera. Você gosta de ópera?

De repente, ela ficou desesperada para dar um fim àquela conversa. Sua mente foi inundada por visões de um futuro em que os dois estariam juntos, um futuro em que seu sobrenome fosse realmente Potter e que eles morassem em uma encantadora casa em Kent com três filhinhos, todos com os arrebatadores olhos verdes do pai.

Era um futuro lindo. Pena que não era o dela.

– Hermione?

– Terminamos – anunciou ela, um pouco alto demais.

– Mas já? – Ele franziu a testa, levando a mão à bochecha direita. – Este lado foi muito mais rápido que o outro.

Ela deu de ombros, dizendo:

– Imagino que eu tenha ficado mais rápida conforme fui pegando o jeito. O lado direito não estava tão bem-feito quanto o esquerdo, mas não dava para perceber, a não ser que se chegasse muito perto de Harry. Em todo o caso, ele mesmo dissera que iria se barbear de novo no dia seguinte.

Ela jogou a água suja na banheira.

– É melhor eu deixar você descansar. Está cansado, e ainda temos aquela reunião mais tarde.

– Não precisa sair.

Mas Hermione precisava, sim. Pelo seu próprio bem.

– Não quero atrapalhá-lo.

– Estarei dormindo, você não vai atrapalhar em nada.

Ele bocejou de novo, e então abriu um sorriso, deixando Hermione atordoada com a força de sua beleza.

– O que foi? – perguntou ele, levando a mão à face. – Ficou faltando algum pedaço?

– Você fica diferente de barba feita – falou ela.

Ou teria sido um sussurro?

O sorriso de Harry ganhou um ar matreiro.

– Mais bonito, espero?

Muito mais. Ela achava que ele não poderia ficar mais belo, mas estava

enganada.

– Vou deixá-lo em paz. É melhor. Precisamos que alguém venha recolher essa água e...

– Fique – pediu ele, simplesmente. – Gosto de estar com você.

Hermione então se sentou na extremidade oposta da cama, sentindo-se

desconfortável. Para ela, era impossível que ele não estivesse ouvindo o som do coração dela se partindo.


# Espero que tenham gostado desse capítulo…

# Lembrando que toda a obra pertence a Julia Quinn e Personagens de J. K. Rowling