Capítulo 27 - Capítulo 27
Quando Ginny Weasley olhou para a estrutura que eles haviam acabado de montar pensou que era possivelmente a coisa mais adorável que ela já tinha visto. As tendas estavam montadas e os animais estavam nas cerquinhas prontos para a adoção.
A jovem não via a hora de ver o local cheio de pessoas.
Ginny podia ver Draco lutando para fugir dos lugares que ela estava, cada movimento dela parecia irritá-lo. A certa altura, ela pensou em puxá-lo para conversar e entender o motivo de tanta hostilidade, mas decidiu contra quando viu que Luna havia cumprido com a promessa e havia aparecido disposta a ajudá-los.
Mas minutos depois, quando olhou para Draco novamente, percebeu que o jovem parecia inquieto e agoniado. O loiro andava de um lado para o outro completamente desnorteado. Então, tentando entender o que estava acontecendo, tentou encontrar a fonte de sua atenção. Quando percebeu o que estava acontecendo seu coração quase saiu pela boca.
Um pequeno e inofensivo filhote de gato miava desesperadamente de cima de uma árvore. Por uns instantes, ela se repreendeu por ter deixado o cercado dos felinos tão próximo da árvore. Sem saber o que fazer, ela largou os papeis que estavam em sua mão e se aproximou.
- Você pode subir lá? – Pergunto perdida. – Ele não pode ficar tanto tempo lá em cima, vai acabar caindo.
- O quê? Não... é perigoso. - Ele disse, sentando-se na beira da mesa. – Liguei para os bombeiros.
- Os bombeiros? Na última vez que ligamos para eles, demoraram cerca de uma hora. Não acho que seja uma boa esperar por eles, o gato vai cair.
- Weasley, se ele realmente vier a cair, logo estará correndo por ai no mesmo instante. – Disse mesmo que não estivesse tão convencido sobre aquilo. - Não posso falar a mesma coisa de mim.
Incapaz de aceitar o que ele havia dito, ela dobrou as mangas da blusa. Ainda insegura, Ginny olhou para o tamanho da árvore e tentou se convencer que ela nem era tão alta como parecia.
Olhar lá de baixo lhe enviou uma onda de nervosismo e temor, fazendo uma batida forte soar em seu coração.
Ginny sabia que para seu medo de altura não havia lógica que explicasse a sua causa, muitas vezes ela havia tentado encontrar respostas para aquilo, mas nunca havia encontrado.
Sabia que era possível conviver com aquele medo sem problemas, embora acabasse atrapalhando a sua vida. Naquele momento, por exemplo, ter medo de altura não foi algo que lhe ajudou muito, porém, mesmo que com muita relutância, Ginny decidiu que não podia ficar ali vendo aquele pobre animal sofrer sem fazer nada.
Antes de fazer o que seu coração estava pedindo, a ruiva olhou para Malfoy e lembrou-se de quando o viu pela primeira vez. Para ela, Draco seria certamente o seu grande amor.
Talvez ela precisasse daquilo na época, afinal, havia acabado de sofrer uma grande decepção com Harry e Draco havia acendido algo a muito tempo esquecido dentro dela. Ela não sabia que ele se mostraria aquele ser tão desprezível. Observando-o agora, ela só conseguia pensar no quão sortuda ela havia sido por ter se libertado de todas aquelas besteiras que sentia por ele.
- Você é um idiota, Draco Malfoy. – Ela disse a ele antes de pegar um caixote e tentar subir na árvore.
(...)
O plano era muito simples. Hermione entraria na cafeteria, compraria seu Caramelo Macchiato e daria sua caminhada de cerca de vinte minutos até Oxford.
Nada poderia dar errado, eram sete horas da manhã e ela estava determinada a estudar o dia inteiro para a prova de Direito Internacional que seria no dia seguinte.
Não teria aula naquele dia, então Hermione sabia que se não fosse estudar na biblioteca da universidade, pensaria nos seus problemas com Snape durante todo o dia. Pensar nele justamente na véspera da prova que ele aplicaria não era algo que ela queria no momento.
Com seus planos em mente, mais do que depressa, entrou no estabelecimento e esperou na fila. Enquanto ela estava lá, explorando o local apenas com o olhar, quase deu um pequeno salto quando o rapaz colocou seu copo no balcão à sua frente. Ela estava tão absorta em seus pensamentos que nem notou quando a fila começou a andar. Então, com um pequeno sorriso agradeceu e virou-se para sair.
Bem, a jovem sabia que aquela seria a melhor parte do seu dia, era o que ela sentia, pelo menos. Para ela, não havia nada, absolutamente nada, mais reconfortante do que estar em uma cafeteria. Era estranho, mas aquilo costumava acalmá-la.
Mas foi quando ela se dirigiu para a porta que Hermione o viu. Suspirando revoltada com o que acabara de ver, tentou voltar para dentro da loja, mas sabia que era tarde demais. Ele também havia a visto.
- Bom dia, Granger. – Sussurrou bem próximo.
- Já não tenho tanta certeza se será realmente bom. – Disse a garota cansada, acenando com a cabeça.
- Nós precisamos conversar.
A estudante fungou, franzindo o nariz. – Estou com um pouco de pressa, Snape. Quem sabe na outra vida?
Severus Snape olhou com uma expressão entediada no rosto.
- Prometo que nunca mais irei insistir, Hermione. - Ele fez uma pausa. O coração de Hermione bateu mais rápido. - Mas, por favor, me dê vinte minutos do seu tempo.
Segundos depois, Hermione se viu sentada em frente a ele em um profundo silencio. Ela não sabia o motivo de ter aceitado entrar para conversar, mas lá estava ela sentada com o homem que havia literalmente quebrado o seu coração. Percebendo que ela não diria nada, Snape quebrou o silêncio:
- Que bom que aceitou. - Falou ele, beliscando suavemente a linha da mandíbula,
- Não faço ideia do porquê. Não devia. – Resmungou tentando se levantar como se a sanidade tivesse lhe acertado.
- Não, espere, eu preciso conversar com você. – Implorou desconcertado. - Quero estar com você, Hermione. Quero que me perdoe. Pensei muito nesses últimos dias. Percebo o quanto fui um idiota ao não lhe dizer sobre meu filho antes de tudo aquilo ter acontecido.
- Ah, jura? - Hermione disse, sua voz ficando trêmula. – É muito comovente. – Falou sarcasticamente. – No entanto, não quero ouvir mais nada de você, Snape. - Hermione falou enquanto afastava uma mecha de cabelo que insistia em tapar seus olhos.
Estar perto dela só o ajudou a perceber o que o quanto ela era importante para ele. Snape não podia negar, Hermione Granger mexia com ele como ninguém mais fazia.
- Me perdoe, Hermione. – Ele pediu e ela ficou lá, boquiaberta, Snape parecia tão verdadeiro que ela quase acreditou em suas palavras, mas em vez disso, Hermione riu profundamente. - Não iria esconder meu filho de você. Só não sabia como lidar com aquilo. – Ele sussurrou e ela revirou os olhos para ele. – Foi tudo muito repentino, precisei de um tempo para me organizar.
- AH, por favor, Snape. Não me venha com essa. – Gritou e olhou para ele confusa. – Se organizar? Você precisou de uma semana para se organizar? Não podia ter me telefonado? Jura? Um sms? Uma mensagem em qualquer rede social? Conte outra, a verdade é que você conseguiu o que queria de mim e resolveu desaparecer.
- Não tire palavras da minha boca. Quero dizer exatamente o que eu disse. – Ele alertou. – Amo o meu filho, mas não estava preparado para recebê-lo.
- Boa maneira de dizer que o ama. – Hermione revelou sarcasticamente e ele ficou quieto por um minuto enquanto pensava no que dizer.
– Não seja boba, foi bastante assustador não saber como agir naquela situação. Não fazia ideia de como cuidar dele por tanto tempo.
Hermione suspirou e olhou pela janela, dezenas de cenários passando por sua cabeça, porém, ela não podia dar o braço a torcer. O filho do Snape merecia uma infância bem melhor do que a que ela havia tido. O menino merecia ter a família de volta e, por isso, ela não poderia ser fraca.
- Quando eu decidi que estava pronto para te contar... – Severus começou e desviou o olhar.
- Era tarde demais... – Hermione cortou. – Olha, Snape. - A moça divagou. - De qualquer forma, não daríamos certo. Não para um envolvimento romântico. No momento, estamos em sintonias diferentes. Você está tentando voltar para a vida do seu filho e eu estou tentando focar na minha vida acadêmica, na minha carreira profissional. Então, para responder à sua pergunta, sim e não. Sim eu te perdoo e não, não quero nada com você, Snape. - Sussurrou em pura raiva.
Ele a encarou um pouco confuso e totalmente decepcionado, mas logo se recompôs. Na verdade, as palavras da mulher fizeram que momentaneamente ele sentisse um nó no estômago.
- Obrigado, Hermione, por me dizer isso. - Ele encolheu os ombros. Embora temporariamente atordoado com a revelação, ele era maduro o suficiente para saber que havia perdido. – Se é a sua última palavra, entendo perfeitamente. Adeus, Srta. Granger. Como prometido, não irei lhe procurar.
- Adeus, Snape. – Sussurrou tropeçando enquanto tentava se levantar e correr ao mesmo tempo. No segundo em que Hermione saiu pela porta, todos seus sentimentos vieram à tona. Ela tentou respirar mais rapidamente para frear as lágrimas, mas foi impossível.
Hermione caminhou até o ponto de táxi mais próximo e se sentou. Ela não havia sido sincera em suas palavras, ver seu amor arrependido lhe pedindo desculpas era tudo que ela queria. A moça queria tanto poder voltar aos seus braços e lhe abraçar, mas ela sabia que não podia.
Aquele garoto merecia uma família estruturada, merecia ser feliz.
(...)
O loiro olhava lá de baixo completamente chocado. Outras pessoas também expressaram uma grande surpresa enquanto observavam a menina subir na árvore tão decidida. A multidão que se formou em volta parecia fascinada com a cena.
Draco, por outro lado, só conseguia olhar e se revoltar com a falta de juízo de Ginny Weasley. Ele chegou a franzir as sobrancelhas ao pensar na besteira que a menina estava fazendo. Apenas o pensamento dela caindo o enfureceu.
- Weasley, desça daí! – Draco chamou do chão, sua voz gotejando impaciência.
- Por quê? - Ela perguntou trêmula.
- Por quê? Você só pode estar brincando comigo! Você não percebe? Vai cair você e o pobre gato. Ele não tem culpa por você ser uma maluca. - Ele respondeu enquanto chegava mais perto.
- Maluca? - Ginny girou, parecendo a mais irritada que Draco já havia visto. – Então querer tirar o pobre animal de cima dessa árvore me faz uma maluca? E você o que seria? Um covarde?
- Desculpe Weasley, velhos hábitos são difíceis, as vezes me esqueço que é impossível dialogar com você. – Falou ironicamente. - Eu disse que devíamos esperar pelo bombeiro por uma questão de segurança. O que você quer provar?
- Como pode ser tão cego? – A ruiva grita com raiva. - Se esperarmos pelos bombeiros pode ser tarde demais. Não ver que ele está caindo? Eu realmente não quero ser grosseira, mas se você fosse realmente um cavalheiro não estaríamos tendo essa conversa, então, por favor, me deixe fazer a minha parte.
- Não estou sendo grosseiro sua tonta, mas é muito provável que você simplesmente caia e quebre alguns ossos. E o gato sairá intacto. De qualquer maneira, não importa. Não fará nenhuma falta para esse mundo. – Soltou Draco fazendo-a ficar vermelha como um tomate,.
- Que bom que deixamos as coisas bem claras, não é mesmo? - Ginny retrucou, lançando um olhar mortal a ele.
Então, tentando se concentrar, ela olhou para o gato que parecia estar ainda mais distante dela, e tentou subir um pouco mais. Claro que estava com medo, Ginny morria de medo de altura. Embora estivesse determinada a pegar o pobre animal, seu joelho estremecera quando o galho que ela havia segurado ameaçou partir.
Quando o galho pareceu se estabilizar novamente, o mais gentilmente possível, esticou os braços. A ruiva quase estremeceu de emoção quando o felino veio ao seu encontro.
Como uma manteiga derretida, Gin começou a chorar. Trouxe o pequeno filhote mais próximo e o abraçou. Esfregando as costas e sussurrando palavras de conforto em seu ouvido como se ele pudesse entender.
- Pronto! – Gritou alegre quando percebeu que todos olhavam para ela.
- Jogue ele que eu pego. – Draco sussurrou cansado de toda a coisa.
- Se deixá-lo cair, você me paga, Malfoy.
Sem questioná-la, ele estendeu um grande cesto em sua direção e, com cuidado, ela jogou o bicho. Atenciosamente, Draco devolveu o animal para o cercado.
- Agora você pode descer sua maluca. – Grunhiu.
Tremendo, ela olhou para baixo, mas não disse nada.
- O que foi, Weasley? O gato comeu sua língua? Pode descer! Desça antes que esse galho ceda.
- Não posso. – Sussurrou.
- O quê? - Ele sorriu um pouco não acreditando no que estava ouvindo.
- Está muito alto.
- Weasley. Pelo amor de Deus... – Ele berrou. - Você conseguiu subir, certamente pode descer. Esse galho vai quebrar e você cairá feito uma fruta podre no chão.
- Não grite comigo, Malfoy. Está começando a machucar meus ouvidos. – Sussurrou nervosa e Draco podia jurar que havia lágrimas em seus olhos.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Luna Lovegood apareceu no meio da multidão com os olhos arregalados. Depois de um momento, Draco começou a se perguntar onde ela estava todo esse tempo que não havia impedido a amiga fazer tamanha besteira.
- Gin? O que você faz ai? - Luna observou a cena surpresa. – Quem colocou ela lá em cima? – Virou-se para Draco.
- A maluca subiu sozinha. – Ele revelou.
- Impossível, ela morre de medo de altura. – A menina dos olhos azuis respondeu. – Ginny tem acrofobia. Não subiria lá nem se pagassem.
- Bem, - Draco começou devagar. – Aparentemente ela fez isso de graça. Obviamente, foi uma péssima decisão, já que não pode descer sozinha.
- Parem de falar de mim, estou aqui. - Ginny murmura em um estrondo.
- Por que você estava ai em primeiro lugar? – Luna perguntou.
- A vista daqui é fascinante. - Sua amiga respondeu meio brava e logo se arrependeu. – Desculpe, não quis ser essa pessoa horrível, Luna. É que um gatinho ficou preso aqui e ele estava muito assustado.
- Então você achou que poderia salvá-lo. - Luna sussurrou e a amiga concordou de bom grado. – Vou procurar uma escada, ok?
- Sim, por favor. – Falou tarde demais. Uma rajada de vento surgiu, arrepiando Ginny até os ossos. Ela apertou o galho com a mão, mas foi impossível permanecer ali, já que o galho começou a estralar.
Por reflexo, o rapaz entendeu as mãos e, em questão de segundos, sentiu-se ser jogado para o chão. Em instantes, a menina caiu em cima dele e, em um primeiro momento, ele só conseguia pensar que precisava respirar.
Logo depois, os olhos deles se cruzaram e Draco sentiu o coração disparar. Quando a euforia pareceu passar, um sentimento desconhecido se habitou em seu peito. Ele não conseguia não olhar nos olhos dela.
Por alguns instantes, o mundo pareceu parar e, sem tirar os olhos dos dela, ele lentamente levou a mão direita a sua cintura.
- Malfoy ... – Respirou sem realmente acreditar no que havia acontecido. – Pode tirar suas mãos de mim? – Repreendeu quebrando o clima completamente.
Ele tirou as mãos, desviando o olhar com um rubor suave no rosto. Ele estava incrédulo com a atitude da garota.
Draco limpou a garganta e gritou: - Satisfeita, Weasley? Fui obrigado a tocar em você para salvar a sua pele. – Rosnou enquanto a observava se levantar.
- Na verdade, não. - Se defendeu. - Se você não fosse um saco de ossos teria sido muito melhor! – Gritou Ginny.
- Agora saia da minha frente que preciso me limpar - Disse ela, dando um leve tapinha no seu ombro. - Você pode dizer a todos que salvou o dia.
- De nada, Weasley. - Disse ele, irritado.
Luna apenas conseguiu sorrir com toda a cena, ela só conseguia pensar que precisava contar tudo a Hermione.
