Rey imaginou a si mesma como um vegetal plantado naquele corredor. Ela estava quieta e só falou quando falaram com ela, além de sentir-se constrangida diante de Leia Organa. Ela, vestindo calça jeans e camiseta, cabelo mal amarrado num rabo-de-cavalo, de cara lavada e de tênis, enquanto a outra, que transpirava elegância, usava um "simples" vestido que devia ser mais caro que o aluguel de seis meses da sua casa.
A distinta senhora não a cumprimentou, mal se dirigiu a ela no primeiro instante; porém, Rey não ficou chateada com isso. Aquela mulher tinha acabado de descobrir, por meio de terceiros, que seu irmão – o único irmão, e gêmeo – estava morrendo em decorrência de um câncer em estágio terminal. Era o tipo de situação em que as cordialidades ficavam para depois. Não era nessas circunstâncias que ela imaginava um dia conhecer Organa, e também não queria estar na sua pele.
Poe Dameron voltou trazendo um copo descartável com café e outro com água. O primeiro, deu-o a Rey, e tomou o outro. Ele estava diferente de como ela o viu pela última vez. Também pudera... Vestido como Elvis Presley, com direito a peruca e tudo. No que ela reparou foi no cabelo desgrenhando e mais comprido (o cabelo de Poe sempre estava bonito nas vezes em que eles se viram, naquele estilo "acordei assim", belissimamente desarrumado), na barba que há dias não era feita ou aparada, e nas olheiras abaixo de seus olhos, bastante fundas, como de quem não anda dormindo. Nas noites em que ela abriu mão de seu sono para terminar trabalhos, escrever artigos e depois seu trabalho de conclusão de curso, ela acordou no dia seguinte com olheiras como aquelas.
Ele se acomodou na cadeira ao lado e bebeu um gole de sua água. Não a olhou de imediato, parecia perdido em pensamentos. Rey o mirou e pensou no quanto ele parecia triste. Ele suspirou e então olhou para ela também, ainda lhe deu um sorriso amistoso, mas então abaixou a cabeça.
— Que lhe parece? — indagou Poe.
— O que? — Rey olhou-o confusa.
— Bem... — Fez uma pausa dramática, depois girou o dedo indicador, dizendo: — Isso tudo. Sinceramente não sei como proceder, ou o que fazer... Se bem que não há o que possa ser feito.
— É... — Ela concordou, abaixando a cabeça. Ainda não tinha bebido o café. — Foi tão de repente e... — Olhou para Leia discutindo com Arthur. Ben um pouco atrás, encostado na parede, roendo as unhas e mais estranho que o normal. — Eu insisti tanto para que ele contasse!
— Você sabia? — perguntou surpreso, olhando para ela.
— Sim, eu...
— Desde quando?
— Há pouco tempo. Foi durante a viagem que a nossa turma fez... Ele passou mal, sabe. — Rey olhou para seu copo de café, onde a superfície do líquido tremulava em suas mãos. Percebeu que ainda estava jnervosa. Tomou um gole, com cuidado para não queimar a língua. — Ele é tão teimoso! Eu não entendo, Poe, juro que não entendo por que ele achava que tinha que esconder uma coisa como essa da família. Se a medicina não podia curá-lo, poderia dar aos outros a chance de ficar mais perto, de confortá-lo, de se despedirem... Mas ele é tão cabeça-dura!
— Pois é... Todos eles são, na verdade. É um traço de família. Acho que acabei ficando assim também pela convivência. — Ele sorriu um pouco.
Rey ficou em silêncio, digerindo aquelas palavras e pensando no quanto família é uma instituição complexa e cheia de complicações que tornam suas relações tão difíceis e dolorosas. Ele teve experiências o bastaste com as famílias adotivas que a acolheram para entender que a maioria delas são problemáticas, algumas totalmente tóxicas e outras formada com pessoas que se sentem desajustadas, solitárias, de temperamento forte e muito parecidas uma com as outras em seus defeitos. E polos iguais de ímãs não se atraem. Talvez esse foi o caso da família de Luke.
Ela olhou para Ben. Seu coração se apertou ao ver o quanto ele parecia perdido. Quando ele esfregou a cara e apertou os olhos, ela notou também que ele estava até um pouco desesperado. Ele queria sair dali, não estava nem um pouco confortável. "Mas, de fato, quem se sente confortável em hospitais?", ela se perguntou. Ela mesma, por exemplo, preferia estar em qualquer outro lugar do que ali com Luke morrendo. Conhecendo os seus hábitos, Ben provavelmente estava louco para fumar.
Seus olhar encontrou o dela e serenou por um rápido instante. Apesar de tudo, ele estava feliz por ela estar ali, por estar segura. Rey significava muito para Ben, contudo, nem a sua presença era capaz de amenizar o que estava acontecendo dentro dele por causa daquela situação. Luke estava morrendo. O câncer tinha atingido a fase de metástase e se espalhou rapidamente pelo corpo. A quantidade de plaquetas no sangue havia diminuído drasticamente, e o tumor no cérebro começava a cegá-lo e a diminuir sua capacidade de falar, tudo em menos de vinte e quatro horas. Todavia, apesar de tudo, Ben não entendia o que ele estava sentindo no momento. Ou, melhor dizendo, o que não sentia. Uma pessoa qualquer, ou uma personagem de novela televisiva, estaria morrendo de remorso e teria entrado na enfermaria de uma vez, lançando-se aos pés do moribundo e chorando amargamente. E é provável que todos ali esperarem isso de sua parte.
Precisava respirar, precisava de ar puro, e mais do que tudo, precisava ficar longe de tudo aquilo. Ele passou pela mãe e por Arthur, ignorando Leia quando ela o chamou. Passou na frente de Rey e Poe sem também olhá-los. Rey abaixou o olhar para as mãos. Sem dúvidas todos estavam estranhos nessa noite. Mas quem poderia julgá-los? Ela não fazia parte daquela família, Poe e Arthur eram agregados, porém, faziam-se praticamente parentes, como um tio e um primo. Ela era a estranha ali.
Tomou o seu café demoradamente. No final ele já estava praticamente frio. Poe não falava e não seria ela quem mudaria isso. Entretanto, estava contente que ele ficou ali com ela, ao seu lado, bebendo sua água enquanto ela bebia seu café, consolando-se na companhia de outra semidesconhecida para lidar com uma situação tão problemática e irremediável. Poe era legal, e era o mais próximo de um amigo que ela podia chamar naquele momento.
Levantaram-se de pronto quando uma mulher com uma prancheta e estetoscópio envolta do pescoço apareceu e veio até eles. Ela era jovem, devia ter menos de trinta anos. Alta, branca, cabelos escuros, curtos, e olhos também escuros; usava um jaleco com as iniciais C. L. A. no bolso do peito. Era a médica que estava tomando conta do caso de Luke. Rey já tinha falado com ela antes e tomou a liberdade de o fazer agora.
— Doutora, alguma novidade? Como ele está?
A mulher ignorou Rey complemente, como se nem a tivesse ouvido ou visto. Sua atenção estava em Leia.
— Senhora Organa, peço perdão pela demora em trazer notícias. Há muitas coisas que demandam a minha atenção e o caso clínico de seu irmão se encaixa em uma delas — ela disse cordialmente. — Sou a Dr. Aphra, é um enorme prazer conhecê-la pessoalmente.
Um rápido olhar com Poe e Arthur, fez Rey se dar conta de que eles também notaram o comportamento da mulher em relação a Leia. Não foi só Keeran que foi ignorada, eles também. Eles não eram pessoas ilustres como Leia Organa, que era praticamente uma celebridade.
— Por favor, eu preciso que me diga tudo sobre o estado do meu irmão. E me dê alguma esperança ou acabe de uma vez com toda chance de crer que meu irmão possa melhorar.
Aphra suspirou e comprimiu os lábios. Estava acostumada a lidar com os familiares dos pacientes, mas nunca era fácil contar a verdade, ainda mais para Leia Organa. — Preciso ser franca com a senhora. A situação de seu irmão Luke não é nada boa.
Rey sentiu raiva da voz de pena e da cara que a médica fazia para Leia. Ela tinha tratado tão rispidamente a ela e a Arthur, além de discretamente ser preconceituosa para com ele, até ler o prontuário e descobrir o sobrenome Skywalker. Pelo que pôde perceber, ela conhecia o nome de Luke e sabia que ele era da família de Leia Organa. Rey quis vomitar. Se Leia tinha percebido ou não, aquilo com certeza não se importava muito. Devia estar acostumada com essa diferenciação no tratamento. Ou então estava desesperada demais para se atentar a isso.
— Estamos dando-lhe morfina para suportar a dor, e ainda assim não está sendo suficiente. Ele está sofrendo muito, mas não se preocupe. Estamos dando todo o conforto possível e fazendo o nosso melhor. No entanto...
— No entanto? — Leia indagou.
— As células cancerígenas se espalharam por quase todo o corpo, e — então acrescentou com todo o cuidado necessário — infelizmente, tememos que ele não sobreviva até amanhã. — Leia perdeu a força das pernas. Poe adiantou-se e a ajudou a se sentar. Via-se o desespero estampado em seu rosto que, embora envelhecido e marcado por algumas rugas, ainda preservava certa beleza. Dameron sentou-se com ela, abraçou-a com o braço direito e segurou sua mão esquerda com a sua esquerda. — Eu sinto muito, porém, ainda com todos os nossos esforços, não há mais nada que possamos fazer além de dar-lhe algum conforto nessa hora tão difícil.
— Como... Como Luke foi chegar a esse ponto?... — perguntou Leia, não diretamente à doutora.
— Eu descobri que o Sr. Skywalker fez apenas duas sessões de radioterapia. No caso dele, era necessário também a quimio, mas ele também não fez.
— Luke achava que — disse Arthur — como já estava avançado demais, não era necessário o esforço de se submeter a um tratamento que não traria frutos. Eu insisti, eu fiz tudo que eu pude, eu juro pelo Deus que eu não acredito se vocês quiserem, mas foi inútil.
— Essa recusa acabou encurtando ainda mais o tempo de vida dele — disse a médica.
— Eu preciso ver meu irmão — Leia falou. — Por favor, eu quero vê-lo.
— É claro. Acompanhe-me — Aphra chamou. — Podem entrar até três pessoas por vez.
Leia seguiu a doutora Aphra e foi acompanhada pelos dois homens. Rey anelava ver Luke, no entanto, a médica dissera que três pessoas podiam entrar por vez e eles eram quatro. Ela sabia contar, e o cálculo excluía ela do resultado. Ela ficou sozinha no corredor então, vendo-os se afastarem. Procurava não se chatear, afinal de contas, ela era a estranha, uma simples funcionária de Luke, enquanto eles eram a família. Rey sabia o seu lugar.
Sem outra escolha, ela se sentou novamente, mas não ficou um minuto sentada. Andou pelo corredor, inquieta e preocupada. Queria vê-lo. Precisava vê-lo o quanto antes. Ela o amava também, isso não dava direito o suficiente para estar naquela sala? Aquilo não era justo.
A vida não vinha sendo justa com nem um deles.
Quando chegou a determinado ponto no corredor, Rey deu meia-volta e deparou-se com Ben Solo parado perto da porta pela qual tinha saído antes. Ele não estava olhando para ela, mas o fez assim que sentiu seu olhar. A passos lentos, os dois se aproximaram. Antes que um pudesse dizer alguma coisa, um enfermeiro e um técnico passaram por ali, deixando-os de certa forma acanhados.
— Por onde andou? — Rey perguntou quando se viram a sós.
— Fui respirar ar puro — respondeu. Cerrou os punhos quando se aproximou mais; desejava tocá-la. Não um toque ardente e lascivo, mas o toque necessitado de quem busca conforto e afeição.
— Eu sei disso — retorquiu Rey. Cruzou os braços, com a mesma ideia que ele na cabeça. — Era um daqueles momentos em que você precisa ficar completamente sozinho.
— Como sabe?
— Eu o conheço. Por isso não fui atrás.
— E teria ido, se não fosse por esse motivo?
— Se eu não te respeitasse, teria ido sim. Porém, se está aqui, eu fico mais aliviada... Deixaram-me sozinha.
— Não está mais sozinha. — Ben olhou para os lados para certificar-se de que não vinha ninguém, então pegou sua mão e a conduziu a um banco onde puderam sentar-se juntos. Rey inclinou-se para ele, encostando-se em seu ombro, sem soltar a mão dele.
O conforto que ela sentia, ele também estava sentindo. Eles precisavam daquilo, de sentir um ao outro daquela maneira num momento tão difícil quanto o que estavam passando. Ela sofria por antecipação e ele estava perdido e ressentido consigo mesmo. Era assim, naquela posição, que um confortava-se no outro.
As coisas pelas quais mantiveram-se separados um do outro, foram logo resolvidas sem que nenhuma palavra fosse dita. Ambos estavam mais aliviados com isso, uma conversa seria muito difícil para os dois, ou até poderia gerar mais problemas do que resolver.
— Não consigo tirar as palavras da médica da minha cabeça — disse Rey. — Fico contente que não estava aqui para ouvi-las.
— Eu cheguei na parte final, mas fiquei atrás da porta. Cheguei a ouvi-la sim, também o que Arthur disse...
— Você acredita em milagres, Ben? — ela perguntou de repente.
Ele não tinha resposta para tal pergunta. Mas o fez refletir. Se acreditasse ou não em milagres, para que eles se realizassem, eram necessários haver condições para isso, ele pensava. Luke estava fora de qualquer condição, a menos que com ele aconteça algo parecido com o que houve à Lazaro. De qualquer forma, ninguém ali estava pronto para a realidade diante deles.
Ben sentia suas entranhas corroerem em seu âmago, sua consciência lhe torturava, seu peito estava apertado e seus olhos ardiam. Mas ninguém podia compreender o quão é difícil. Talvez nem mesmo Rey. Ninguém é capaz de entender que não é fácil para ele perdoar assim quem o magoou.
Ele queria. Deus sabe o quanto ele quer. Desde Kamino, ele sentiu algo mudar positivamente, mas ele não consegue perdoar ainda em seu coração, que dirá conseguirá dizer isso em voz alta, na frente dele. O perdão é um processo doloroso. É jogar sal numa ferida para que ela cicatrize mais rápido. E esse processo não está funcionando conforme deveria, e se alguém acreditava que a situação de Luke iria apressar o processo, pelo contrário. O choque foi tão grande que o estagnou.
— Você deveria ir para casa — ele disse. — Está cansada.
— Eu não vou sair um segundo de perto dele. E não me importa o que sua mãe pense de mim, eu vou entrar naquela sala e vê-lo. Eu preciso fazer isso.
— Ei, tudo bem. — Abraçou-a. — Você vai entrar, eu vou me certificar disso. — Rey levantou a cabeça com os olhos chorosos. Seus olhares, ambos contristados, encontraram-se. — Não sei o que eu faria se você não estivesse aqui.
— Eu também não — ela sussurrou.
— Rey... Eu fui um idiota com você antes...
Antes que ele pudesse terminar, ela chocou seus lábios contra os dele, selando um beijo carregado de saudade. — Não precisa dizer mais nada, meu amor.
Ele sorriu pela primeira vez desde que recebeu a ligação dela. Limpou suas lágrimas e beijou-a mais uma vez, e também beijou sua testa.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.
Rey deitou a cabeça em seu ombro de novo, ao passo que Ben colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e esticou o pescoço para trás, encostando a cabeça na parede. Não demorou um minuto para o restante do grupo encontrá-los daquele jeito. Eles, porém, foram rápidos em desvincularem-se e levantarem-se.
Rey ficou nervosa com o olhar de Leia, tinha a impressão que era a primeira vez que ela reparava em si e já começava com um olhar analisador. Arthur estranhou, mas associou aquilo a um momento de fraqueza da moça. Ela estava muito emotiva desde que encontraram Luke caído no banheiro e ninguém ali estava dando atenção para ela, inclusive ele mesmo; sentiu-se um idiota por isto. Poe, entretanto, olhou para Ben com um olhar incógnito.
— Eu não sei o seu nome — disse Leia.
— Eu me chamo Rey, senhora.
— Rey? — vincou as sobrancelhas, conhecia o nome, porém, não se lembrava de onde. — A assistente! Foi você de quem Luke falou-me.
— Sim, eu trabalho para o Luke.
— Rey é ex-aluna dele — disse Arthur. — Agora foi contratada como babá.
— Arthur! — Rey recriminou-o.
Leia deu a ela seu olhar gentil. — Oh menina, onde estão meus modos! Perdoe-me se não falei com você ou se agi com indiferença, acredite, eu não sou assim. Estava preocupada com o meu irmão.
— Não se desculpe, por favor — redarguiu a outra. — Eu compreendo perfeitamente, jamais a julgaria.
— Obrigada, minha querida.
— Ela deseja vê-lo, mãe — disse Ben, pondo-se ao seu lado —, depois vocês podem conversar. Deixe a assistente do Luke ao menos vê-lo agora que vocês já o fizeram.
Leia se surpreendeu com a atitude do filho. Afinal, o que eles estavam fazendo antes de chegarem? Um rápido olhar para a mulher à sua frente e pôde constatar que era justamente o que ela queria. — Mas filho, você não vai entrar para ver seu tio? — ela tentou.
— A Rey é mais próxima de Luke do que eu, ela se preocupa com ele tanto quanto você, então eu acho que é totalmente justo que ela esteja ao seu lado agora que ele... mais precisa.
Inventou as últimas palavras, evitando dizer que ele estava morrendo. Palavras machucam, ele sabia disso.
— Com licença. — Rey entrou rapidamente na enfermaria, antes que alguém pudesse impedi-la.
Deixou para trás o grupo a fitá-la entrando e fechando a porta. Ben imediatamente foi sentar-se, tentando demonstrar qualquer tipo de indiferença à mulher que acabou de entrar na enfermaria de Luke.
Arthur e Poe dispersaram-se, um dizendo que ia atrás de um café e o outro falando que procuraria um banheiro. Leia, por sua vez, sentou-se ao lado do filho.
— Ben...
— Mãe, por favor, não.
— Você nem sabe o que eu ia dizer, nem me deixou terminar — disse ela.
— Eu não preciso — retrucou. — A senhora ia falar do Luke, não ia?
— Você poderia tentar ser mais amável nesse momento com o seu tio — ela disse, a voz estava triste.
— Mãe...
— Ele está morrendo, você não estava aqui para ouvir as palavras da médica. Eu achava... — Fechou os olhos. — Eu acreditava... Eu queria muito que você... — Leia calou-se. Ela normalmente era boa com as palavras, mas agora não estava sendo.
— Eu sei.
— Você entende que essa talvez seja a última chance?...
— Por favor, não faz isso, mãe. Não faz isso comigo... Você não entende.
— Meu filho, até onde você vai com seu orgulho e egoísmo?
— Orgulho e egoísmo? — Ele levantou a voz e pôs-se de pé. — É claro, é assim que todos me veem nessa situação, por que, afinal, não estou lá dentro chorando e suplicando perdão ao pé do leito dele? Só que eu tenho uma coisa para te dizer, Leia Organa, não se trata de egoísmo nem de orgulho. Eu simplesmente não consigo!
— Você não consegue ou não quer? — Ela se levantou também. — Se amanhã você acordar e ele estiver morto, como vai se sentir? Não quero que você viva como eu vivo.
— E como você vive? Suportando o ressentimento pelo meu avô, eu suponho — ele rebateu. — Justamente por isso que a senhora deveria entender que não é fácil perdoar. Quer que eu esqueça da noite para o dia o que eu ouvi da boca desse homem a vida toda, ou como ele me tratava?
— Como ele te tratava? Você exagera demais nos fatos!
— Claro que você não sabe. Ele se fazia de santo na frente de todo mundo, ou a senhora, mãe, que era negligente. Só que comigo ele mostrava o verdadeiro filho da puta que ele é!
— Mais respeito com a memória de sua avó biológica! E abaixe seu tom para falar comigo, garoto!
— Eu não sou um garoto, Leia!
— Pois então pare de se comportar como um!
— Eu não posso simplesmente entrar lá, eu não consigo fazer isso. Se ele não quis contar, tinha os motivos dele, e não é agora, pressionado, que eu vou...
— É um choque para todos, eu imagino como se sinta, mas não é desculpa.
— Não estou dando desculpas, mulher, será que não entende?!
Duas enfermeiras apareceram acompanhadas de um segurança, ordenando que fizessem silêncio ou que se retirassem imediatamente das dependências do hospital. Ben resolveu tomar o último como conselho e de fato foi embora. Não disse nada à mãe ou a Poe e Arthur quando eles apareceram. Tomou o carro e foi embora.
Um homem observou Ben arrancar com o carro do canto onde estava escorado. Tomava uma garrafa de rum barato e usava um chapéu panamá com um casaco. Seja lá o que tivesse acontecido, Ben saía de lá transtornado. Ele desejou que nada de ruim lhe acontecesse, pois dirigir naquele estado poderia ser perigoso.
Terminou sua garrafa de rum e ascendeu um cigarro, saindo das sombras e pondo-se a andar pela avenida. Precisava de um pouco mais de paciência, pensou ele.
O corpo sobre o leito não lembrava o homem que ela conhecia. A face da morte era o que se via em seu rosto e o sono na qual foi induzido fazia-o parecer-se mais se com o sono dos mortos. Apenas por conta do aparelho indicando a frequência dos batimentos cardíacos que Rey soube que Luke estava de fato vivo.
Ela engasgou com um soluço, suas pernas perderam a firmeza. Agachou-se, abraçando o próprio corpo, gemendo e vertendo lágrimas num choro incontido. Vê-lo daquela maneira a tomou de tão grande angústia e desespero, que ela mal conseguia respirar.
Vozes que discutiam chegaram aos seus ouvidos e foram ignoradas. Ela chorou por um tempo, até que reuniu forças para levantar-se e chegar mais perto do leito. Assustava com a palidez de seu amigo, com seu braço cheio de acessos, com a máscara de oxigênio que usava para respirar e com seu peito que mal subia e descia. Era como se ele estivesse morto em vida; não conseguia aceitar, isso enchia-lhe de revolta.
— Luke... — disse seu nome em um sussurro. — Oh, Luke...
Perguntou-se se o que diziam era verdade, que as pessoas em coma podiam ouvir tudo o que se passava ao seu redor, ou que isto fosse somente coisa de filme. De qualquer modo, não era assim que ela queria falar com ele, sem que ele pudesse responder.
Só o que pensava era: Por quê? Por que coisas ruins aconteciam com pessoas boas, e porque Luke não quis se tratar ou dividiu sua dor com os familiares. Era uma coisa que nunca entrou em sua cabeça, o egoísmo de Luke em silenciar-se. Se agora ele pudesse ver o erro que cometeu, ele se arrependeria e mudaria de ideia? Conhecendo-o como conhece, ela pensou, o mais provável era que não, afinal de contas, era tarde, muito tarde.
Rey procurou uma cadeira e arrastou para perto da cama, pegou sua mão e entrelaçou seus dedos. Sua mão estava terrivelmente fria. — Eu estou aqui — ela sussurrou de novo. E nada mais disse.
Passado algum tempo, a porta abriu-se e Rey virou a cabeça rápido acreditando que fosse Ben que viera se juntar a ela. Mas era Leia Organa. Levantou-se, soltando a mão de Luke, e afastou-se um pouco.
— Por favor, não se acanhe — disse Leia. Achegou-se ao leito e passou os dedos pelos cabelos ralos do irmão. — Que tola eu fui achando que Luke ficaria bem sozinho...
Algo naquela frase parecia-se muito com um desabafo. Rey a respeitou e não comentou sobre isso. Leia era muito diferente de como ela imaginava, porém, se de uma coisa ela tinha certeza, era que ela estava esgotada.
— Sente-se, por favor — Rey falou.
— Obrigada, minha jovem. — Ela aceitou de bom grado a cadeira e repetiu o gesto da outra, segurando a mão dele. — Há quanto tempo você trabalha para o meu irmão?
— Alguns meses somente. — Mordiscou o lábio inferior e suspirou. — Engraçado... Parece que faz anos.
Leia a observou mais atentamente. Era magra, mas bonita, tinha um belíssimo rosto e um olhar intenso. — Você é muito novinha... quantos anos tem?
Ela sorriu e não respondeu. Talvez fosse mais velha do que aparentasse, no entanto, Leia não insistiu. Olhou para Luke de novo, e do irmão voltou a olhar para Rey. — Você foi aluna do Luke, certo? — Rey assentiu. — Meu filho também foi seu professor?
— Sim — disse com um aceno. Tentou manter o olhar com Leia, mas o jeito como ela lhe encarava, como se conhecesse todos os seus pecados, a deixou nervosa; esperava que não tivesse deixado transparecer nada.
— Arthur me falou muito bem de você. — Leia quebrou o contato visual desviando a cabeça para ver Luke. — Mais uma vez eu peço desculpas se de alguma maneira eu fui rude ou insensível.
— Por favor, já disse que não precisa se desculpar nem nada — respondeu. — Eu compreendo a gravidade da situação, eu com certeza agiria igual. A senhora não tem que se sentir culpada por estar preocupada com Luke, ele é seu irmão.
— Obrigada por compreender, querida.
Caiu o Silêncio sobre o quarto. Era desconfortável, sufocante. Nem uma das duas mulheres se pronunciou pelo minuto seguinte, mas se mantiveram próximas do leito onde jazia o doente, escutando com irritação o barulho dos aparelhos que o mantinham respirando. Rey não tem ideia de quanto tempo se passou, se foram minutos, ou se foram horas; ela nunca foi muito boa em medir o tempo apenas com seus sentidos. No entanto, a impressão que tinha era que o Tempo estivesse congelado, preso naquele momento no espaço e tempo, em que a angústia de ver Luke acamado se misturava com a pequena esperança de que não chegaria o momento em que ele deixá-los-ia.
Uma enfermeira entrou. Foi quando os segundos começaram a correr normalmente. Ela trocou a bolsa de soro, e aplicou mais medicamentos pelos acessos; disse que eram para dor. Leia perguntou se ela poderia lhe dar algo para dor de cabeça e a enfermeira saiu.
— Vocês eram muito próximos? — Rey perguntou.
— Houve um tempo que sim, nos últimos anos nos afastamos um pouco, mas nada que abalasse nossa relação. — Fez uma pausa. — Nós somos gêmeos, não sei se sabe, e pode até parecer bobagem — ela sorriu, contudo, não era um sorriso alegre —, mas eu imaginava que Luke e eu morreríamos como viemos ao mundo: juntos.
— Não diga isso...
— Mas parece que ele está querendo ir na minha frente. Que sacana.
Ela não parecia bem, estava tão triste, Rey pensou.
— Senhora...
— Eu acho que é melhor você ir para casa, Rey. Descanse e volte amanhã — Leia disse. Rey fitou-a de olhos arregalados, em pânico com a ideia de ficar longe de Luke. Porém, ao pensar melhor sobre o que lhe foi dito, achou que era o mais apropriado. Estava de fato cansada, e mesmo que não quisesse ir, precisava. Leia deixou claro que queria ficar sozinha com ele.
— Eu volto amanhã então, para que não fique tão cansada, eu troco com a senhora, se quiser é claro...
Leia levantou-se e segurou as mãos dela. — Obrigada.
— Pelo que?
— Por ser tão boa para o meu irmão, e por ter feito o que fez para trazê-lo ao hospital. Você é muito corajosa. — Leia sorriu da melhor maneira que pôde para ela, e Rey retribuiu com um olhar gentil. — Meu chofer irá deixá-la em casa, eu já cuidei disso.
— Mas e os outros?
— Poe e Arthur já foram. E Ben... — Suspirou forte contraindo a boca. — Ele foi embora depois que você entrou. Está muito tarde, vá.
— Ah... Bem, eu agradeço.
Elas se afastaram e Rey deixou o quarto. Um homem alto, de terno e chapéu estava do lado de fora. Ele se identificou como o motorista de Leia, alguma-coisa Threepio, ela não ouviu direito. Acompanhou-o até a saída do hospital e de lá ele a deixou em casa. Falava bastante enquanto dirigia, referia-se a Leia como "madame", e repetia o quanto estava triste pelo "Mestre Luke, tão bom".
— É uma pena que ele e o mestre Ben nunca tenham tido uma boa relação. Tenho certeza que eu gostaria de ter toda a minha família comigo numa hora dessas. É por isso que não podemos criar inimizades, sabe...
— Escuta, você sabe o que aconteceu entre o Luke e o sobrinho? — Rey perguntou, aproveitando o que acreditava se tratar de uma oportunidade.
— Oh... receio que isso seja um assunto particular entre mestre Luke e mestre Ben. Sinto muito.
— Claro, eu compreendo.
Ele olhou pelo retrovisor e viu que ela estava um pouco frustrada com a resposta, e ele próprio estava como que com a língua coçando para contar o que ela queria saber. Limpou a garganta e disse: — Bem, não que seja da minha conta, mas acredito que as coisas estão assim desde o dia em que brigaram fisicamente.
— Eles se agrediram?
— Sim, infelizmente. Mas não conte a ninguém que eu lhe disse.
— É claro. — Rey franziu o cenho, era uma coisa muito estranha. — Não entendo... Por que se agrediram, você sabe?
— Isso faz muito tempo, mas posso te dizer com propriedade, que a relação deles não era muito boa. Ah, acho que já disse isso. — Riu. — Mas o que que quero dizer é que as coisas pegaram um rumo que a convivência entre os dois se tornou insustentável, até o dia em que eles saíram no soco, que foi o auge. Insultos, discussões, implicâncias, até enfim chegar à agressão. E foi mútua, oh sim, eu fui obrigado a meter-me no meio deles para apartá-los. Quase que apanho também. — Riu nervosamente.
— Mas nesse dia, você se lembra qual foi o gatilho...?
— Eu nunca soube, senhorita.
Rey percebeu que ele estava sendo sincero em sua resposta. Pensou que talvez fosse como ele dissera, uma sucessão de coisas que se encaminharam gradativamente até atingirem o ápice. Resolveu deixar aquilo para lá. Era passado e não importava mais.
— Chegamos — ele anunciou.
Rey olhou para a sua casa pela janela do carro. Estava fechada e escura, exatamente como ela deixou. De repente a ideia de ficar sozinha naquela casa lhe pareceu terrível. Não conseguiria dormir se não ficasse dopada, e desde o final da tarde do dia anterior, que ela não conhecia o que era paz de espírito.
— Obrigada.
— Foi um prazer, senhorita.
Dentro de casa, ela retirou os sapatos e deixou ao lado da porta, jogou a mochila sobre o sofá e foi direto para a cozinha, onde, no armário de remédios, pegou uma aspirina e um calmante. Se misturar as composições traria algum efeito colateral, ela não sabia, mas tomou os dois em intervalos de tempo diferentes só para garantir. Embora que no fundo não se importasse de fato.
Ela tomou um banho e buscou seu celular antes de se deitar. Havia várias mensagens não lidas e ligações perdidas. Ela respondeu as de Finn somente. Então apagou.
