Seu corpo, principalmente suas costas doíam tanto que parecia ter sido pisoteado por uma manada de elefantes. Dormir no carro, sem dúvida alguma, foi uma péssima ideia. Resmungou, abrindo a porta do carro, porque ali dentro não conseguiria se esticar. Não sabia a hora certa, mas devia ser cedo. O sol batia aprazivelmente em seu rosto, e ele imaginou que devia ser antes de sete horas.

Estava em pé, na calçada, ao lado de uma avenida com o transito ainda bastante calmo. Seu pescoço doía muito, e, ao tentar mexer, descobriu que também estava com torcicolo. Só piorava. Para completar, havia ainda a maldita ressaca.

Onde estava com a cabeça quando decidiu beber? Só bebia socialmente ou em casa, mas depois que saiu do hospital, ele parou em um bar e tomou algumas cervejas. Talvez não tivesse apenas algumas, ele não se lembrava muito bem. No entanto, lembra-se claramente de que não importava quantos goles ele tomasse, continuava se sentindo pior cada vez mais.

Nem de cerveja gostava, achava o gosto péssimo, rançoso. Mesmo assim bebeu, pois não pensou direito. Até porque, se tivesse pensado direito, não estaria ali daquela forma. Dirigiu apenas alguns quarteirões em estado de embriaguez, quando seu restinho de consciência e dignidade o fizeram parar e ficar por ali mesmo. Estava na torcida para que não encontrasse algum conhecido.

Alongou-se o melhor que pôde. Estava moído. É o que acontece quando um sujeito que 1, 89 metro dorme dentro de um carro depois de encher a cara. As lições sempre vêm acompanhadas de consequências. De fato, são mais precisamente elas que são responsáveis pelo aprendizado.

Mesmo com o corpo dolorido, Ben Solo travou as portas do seu carro e decidiu caminhar à procura de algum lugar para tomar café. Sabia que estava pelo centro da cidade, mas não conhecia aquela rua. Logo encontrou uma padaria que servia café-da-manhã.

— Um café bem forte, sem açúcar, sem leite. E um pão doce, por favor.

Enquanto o atendente foi preparar seu pedido, foi sentar-se numa das poucas mesas que haviam ali. Não demorou nada, e uma pessoa sentou-se bem à sua frente.

— Oi! — disse.

Ben piscou os olhos, ainda tonto tanto pela bebedeira quanto pela noite mal dormida. Porém, logo reconheceu a dona do rosto jovem, gentil e bonito que se juntara a ele. — Olá, Ella. Como vai? — ele cumprimentou, da melhor forma que conseguia no estado em que estava.

— Você se lembra do meu nome! — ela exclamou.

— Por que não me lembraria?

— Sei lá, eu pensei que nunca mais veria você.

O café de Ben chegou, ele agradeceu e tomou logo um gole.

— Você está péssimo — disse Ella.

— Obrigado, você está muito bonita, a propósito. Vai a algum lugar especial? — respondeu com ironia.

— Escola. Duh!

— Maquiada desse jeito? Deve estar querendo impressionar alguém. — Ele sorriu e mordeu um pedaço do pão.

— Está tão na cara assim? — perguntou.

Ben esticou as costas o melhor que pôde e riu. — Bom, eu não entendo as adolescentes, mas, sou professor universitário, e quando as moças vão tão arrumadas para as aulas, ou são calouras, ou acordaram bem-dispostas, ou estão tentando impressionar alguém.

— Espera aí, você é professor? Caraca!, agora entendi porque você é assim cafona.

— Você não está atrasada para sua aula, não?

— Ei, calma. — Riu. — Você começou o dia com o pé esquerdo, pelo visto. Engraçado, da primeira vez que nos vimos você também estava péssimo.

— Desculpe-me, Ella... Estou realmente tendo um dia péssimo... e não são nem oito horas.

— Viu outro fantasma? — perguntou séria.

— Não... Dessa vez é um moribundo que me tira a paz.

— Na moral, você precisa tomar um banho de descarrego, cara.

Ben riu. Um riso tão sincero e leve que ela se surpreendeu. Ela ficou um pouco admirada que uma simples frase o fizesse rir daquele jeito, nem era sua intenção, e de fato, foi em parte a seriedade dela ao dizer isto que tornou a frase ainda mais engraçada para Ben. Acabou por fim rindo também.

— Desculpe-me, não esperava por isso — disse ele.

— Tudo bem, tudo bem... — Abanou a mão num gesto de quem não ligava. Tornou a ficar séria e, abaixando o volume da voz, indagou: — Posso te fazer uma pergunta? Você bebeu, não foi?

Ben inspirou e expirou. Tomou um gole de café antes de respondê-la.

— Isso é vergonhoso... Não sou de beber, eu garanto. Estou até arrependido — confessou.

— Eu entendo... Fez isso por causa dos seus problemas, eu imagino.

— Foi, foi sim. Minha família está passando por um momento muito delicado por causa desse parente enfermo.

— Poxa, eu sinto muito.

— Obrigado.

Deu-se conta, então, de que era estranhamente fácil, aos seus próprios padrões de relações interpessoais, dizer as coisas para Ella. Concluiu por si mesmo que isso se devesse a dois fatos: primeiro, de que ela era, no fim das contas, uma desconhecida. Ella nada sabia de sua vida íntima e também era uma jovem de quinze ou dezesseis anos, não entendia ainda a merda que é ser adulto. Nisso ele a invejava. Falar com ela era simples e direto, não exigia uma linguagem formal ou carregada de contextos em que ambos estivessem inseridos. Em segundo, ele estava sentindo uma necessidade muito grande de se abrir com alguém, e isso o deprimia ainda mais.

— Alguma novidade? — ele perguntou, mudando de assunto. — Eu acho que me lembro de que você estava indo a uma consulta com sua mãe quando nos conhecemos. Está tudo bem?

— Ah, está sim, tudo ótimo! Eu só descobri que tenho síndrome dos ovários policísticos. Fora isso está tudo de boa — respondeu, abanando as mãos mostrando não dar importância. Ela sorria, mas ele não sabia se estava sendo irônica ou falando sério.

— Está falando sério? Minha mãe sofreu com isso desde o que? Seus treze, quatorze anos? Eu sei o quanto isso pode ser grave.

— Sim, mas meu maior problema por enquanto está sendo só a menstruação desregulada, sabe? Ela passa meses sem vir e quando vem, parece que eu vou parir um bebê que tem um monte de chifres na cabeça, tamanha é a cólica. Sério, eu fico de cama. Às vezes desmaio. Cara, tá muito estranha essa conversa sobre menstruação... Foi mal.

— Eu sei o que é menstruação, não se incomode. — Sorriu antes de morder o último pedaço do pão doce e terminar o café.

— Tá, foi mal, eu me empolguei e saí falando tudo.

— Não tem problema. — Ele olhou a hora no relógio. O gesto lembrou Ella de que ela tinha hora para estar na aula.

— Meu Deus, que horas são? Eu devo estar super atrasada!

— Eu posso te dar uma carona, estou indo também.

— Não precisa, sério. Você deve estar super cansado, precisa ir pra casa, tomar um banho, ir dar suas aulas e tal...

— Não vou à universidade hoje.

— Mas não quero incomodar. Vou de ônibus.

— Não incomoda. É um favor que faço. — Ele se levantou, mas parou e ficou olhando para ela. Teve um lapso de consciência e imaginou que para ela, ele também era praticamente um desconhecido, e deveria estar com medo de entrar no carro de um estranho, ainda mais um homem adulto e grande. Ele não intentava fazer mal nenhum a ela, mas não a julgava, pois no mundo em que viviam, seu receio infelizmente tinha fundamento. — Oh, me desculpe, Ella, minha intenção era realmente te dar uma carona. Não faria nada a você, não sou esse tipo de monstro.

Ela abaixou a cabeça e apertou as mãos como se estivesse sem jeito. Parecia que ele tinha lido seus pensamentos e sentia-se um pouco mal, pois não queria ofendê-lo de forma alguma. Ele garantiu que não estava ofendido, que entendia, e repetiu que nem passou pela sua cabeça fazer qualquer coisa com ela, sequer tocá-la, tanto que não insistiu mais. Contudo, ela acabou aceitando a carona de qualquer jeito, estava muito atrasada e decidiu dar um voto de confiança, com a condição de que ele mantivesse as janelas abaixadas e as portas destravadas. Ben sorriu e concordou.

— Escuta, esse seu parente que está doente, é muito próximo de você? Do que ele está morrendo? — Ella perguntou, puxando assunto, instantes depois de prender o cinto e dar o endereço do colégio ao Ben.

— É, sim, sim... — respondeu. — É um tio. Ele descobriu um câncer em estágio terminal e não contou para ninguém da família.

— Tá brincando?

— Com uma coisa dessas? Não.

— Cara, isso parece, tipo, coisa de novela.

— É... Inacreditável.

— Mas e aí? Agora ele tá morrendo e... meu Deus, como que você está com tudo isso?

— Não está sendo fácil, pegou todo mundo de surpresa e a família está desesperada, porque ele está no hospital podendo morrer a qualquer momento.

— Puxa... Sinto muito por tudo isso.

— Obrigado. — Suspirou.

Uma ideia maluca veio à mente. Mais do que desabafar, precisa da opinião de um terceiro. E quem melhor do que alguém que desconheça sua história e sua família? Naquele momento, pareceu perfeito.

— E para completar, ainda tem o meu primo — ele disse, referindo-se à Poe, mas acreditava não precisar citar o nome dele. Seria até melhor.

— O que ele tem?

— Bom, é que ele e o meu tio estão brigados há anos e agora que ele está morrendo, o outro está sendo, digamos, pressionado. Por todos os lados, e... talvez pela consciência também, eu não sei.

— Deixa-me adivinhar. É aquele lance de pedir perdão pro tio no leito de morte, né? Bem teatral, por sinal.

— Sim, sim, ele pensa muito nisso também. O problema é que ele se sente pressionado pela família, principalmente a mãe dele. — Não tirava os olhos da rua, focando em dirigir e concentrado em não deixar transparecer que o "primo", na verdade, é ele. — Mas o que você acha? Ele deve perdoar o nosso tio ou não?

— Cara, essa pergunta é muito complicada. Envolve muitas coisas, eu tenho certeza, e ele é quem tem que saber o que fazer — ela respondeu.

— Eu me preocupo com ele, apenas isso. Queria poder ajudá-lo, mas não sei o que dizer ou fazer. Meu tio está à beira da morte, a qualquer momento, mais cedo ou mais tarde, eu vou receber uma ligação apenas confirmando. Não há mais nada que possa se fazer. Minha família está no meio da droga de outra crise e... Ontem tivemos uma briga feia no hospital.

— Nem posso imaginar uma coisa dessas com a minha família, sabe. Foi por isso que bebeu daquele jeito ontem, né?

— Sim... Foi por isso. Eu não sei o que fazer. Acredito que meu primo também.

— Eu sei que sou muito nova, mas se eu posso falar...

— Claro, por favor.

— ...Na minha opinião, ele tem que refletir sobre isso, só ele e sua consciência, entende? É uma situação muito delicada? É, com certeza. Mas quem vai aguentar os pensamentos e culpa ou o que for, antes de dormir pelo resto da vida, vai ser ele e só. Ele provavelmente não está nem um pouco confortável nessa situação, e tipo, vocês que são o resto da família, não podem simplesmente forçar. Isso não rola.

— Eu entendo, também penso assim — disse, mas genericamente, para que ela não desconfiasse. — Eu só quero ajudá-lo.

— E você tá certo, porque se ele perdoar o cara ou não, todo mundo vai ter que ajudar. Eu sei disso, Ben, porque já perdi entes queridos, um, inclusive, para o câncer.

— Meus pêsames.

— Obrigada... Mas, continuando, imagina que esse seu primo, muito pressionado pela família, vai lá e "perdoa" — fez o sinal das aspas com os dedos — o tio dele e a família acha que tudo está de boa agora, que o fulano lá pode morrer em paz e tal... Cara, se não tiver sido de coração e sincero, foi fingimento ou da boca pra fora, e é muito melhor ele ficar na sua posição, com seu orgulho e tudo, do que isso. Só que é o seguinte, cara, ele precisa urgentemente pensar sobre isso.

— Sim, eu sei.

— Essa mágoa, orgulho, sei lá, tu não explicou direito e eu tô supondo, enfim... Será que vale a pena ele ficar se corroendo aí nisso pra sempre? É nisso que ele tem que refletir.

— Direi isso ao Poe — ele falou.

— Sim, sim. Ah, e diz ao Poe que ele não tem que se sentir obrigado nem nada. Só fala pra ele refletir. Se for pra perdoar e tudo, que seja pela própria vontade dele, porque aí do que adianta, sabe? Não vai adiantar.

— Direi.

— Pode me deixar ali naquela esquina — ela falou, apontando e já desafivelando o cinto.

— Sua escola fica na outra rua, eu posso...

— Não, por favor, aqui mesmo, na esquina.

Ben achou estranho, mas achou melhor respeitar a vontade dela. Ela se despediu rapidamente e foi embora, olhando para os lados. Ele se perguntou se ela não queria ser vista descendo do carro dele, talvez fosse a paquera, ela estava muito arrumada, afinal. No entanto, resolveu deixar isso para lá e manobrou para dar a volta.

Pelo espelho retrovisor, Ella já sumia de vista, e ele pensou que talvez não fosse vê-la mais.

Do outro lado da cidade, outra pessoa acordava também com a sensação de ter sido pisoteada por elefantes durante a noite. Dormira de bruços e essa posição sempre lhe deixava com uma dor terrível nas costas. Além do fato de que a cabeça doía tanto que se perguntava se tinha levado uma pancada e não se lembrava. Não conseguiu manter a fronte erguida quando se levantou; a cefaleia piorava e a tontura dava ânsias de vômito.

Era o preço a pagar por agora depender de calmante para dormir.

Segurando-se nos objetos e paredes, ela entrou no banheiro e tomou uma ducha quente e demorada. Uma nuvem de vapor encheu o box, as gotículas de água condensavam-se no vidro e escorriam como chuva pelas paredes envidraçadas. A mente encontrava-se num estado quase vegetativo, em que pensamento nenhum alcançava a superfície de sua consciência. Quiçá fosse efeito colateral do comprimido, ou porque estava sonolenta, ou quem sabe as duas coisas. O fato é que o esgotamento não era apenas físico, mas também psicológico. Mesmo tendo dormido por horas continuava cansada.

Terminou o banho no automático, desligou a ducha e saiu do box sem se importar em enxugar-se. Com o corpo molhando e os cabelos pingando água e encharcando o piso, encarou-se no espelho sujo acima da pia; foi quando sua mente deu o primeiro estalo. Estava péssima! O semblante cansado, com olheiras profundas sob os olhos, estes irritados, o rosto mais magro e a pele com aspecto de casca de laranja e com cravos. As clavículas mais expostas, como no tempo que ela passava fome na rua. A má alimentação e falta de descanso nos últimos dias refletia-se em sua aparência.

Abriu o armário atrás do tampo espelhado e pegou escova de dentes e pasta dental. Quando terminou de escovar os dentes, pegou um esfoliante e creme de pele. Não que adiantasse muito, mas suavizaria o aspecto da pele. O que ela precisava de verdade era paz e uma noite de sono bem dormida sem que tomasse calmante nenhum que a deixasse cheia de efeitos colaterais pela manhã para lidar. Ela sentia essa necessidade em seu interior e agora diante do espelho. Seu cansaço era físico e psicológico.

Envolveu-se demais com aquela família, pensou nisso ao caminhar para fora do banheiro e abrir o roupeiro e escolhia suas roupas, uma túnica clara com legging branca. Indagava-se como foi se envolvendo tão profundamente naquele drama familiar tão cercado. Ela não fazia parte daquilo, nunca fez. Para todos os casos, ela era uma estranha. Ela era uma Keeran e tinha seus próprios traumas familiares para se preocupar, porém, estava atolada até o pescoço com a família de Solo-Organa-Skywalker. Não conseguia se afastar, não estando tão ligada a Ben e a Luke.

Ela estava com esse desejo idiota, quase uma necessidade, de tomar para si a responsabilidade de fazer todos se entenderem, mesmo que em parte entendesse que isso estava além de sua alçada, que era impossível e que não era da sua conta. Deixasse que os Skywalker's brigassem entre si e se resolvessem. Mas ela sabia que nada disso aconteceria, pelo menos, não de um jeito prático e indolor.

Aquela não era sua luta, mas ela queria lutar. Não era sua família, porém, estava ligada a ela por sua relação com dois de seus membros. Se bem que... Seu relacionamento com Ben a colocava quase como um possível futuro membro daquela família. Ela não podia fazer muita coisa, é verdade, mas tentar não custava nada.

Mentira. Custava sim, sempre custa. Qualquer esforço, por mais pequeno que seja, custa algo de nós. Às vezes o preço é tão baixo que dá essa impressão de que não valeu nada, já em outras, é alto, e pesado o fardo.

Ignorando o próprio bom senso, ela se arrumou para sair. Despiu a roupa de casa e escolheu um vestido por ser uma única peça, e, por isso, mais prático. Prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo e calçou um par de all-stars vermelhos e velhos, pegou suas coisas e saiu.

Quarenta minutos depois, ela estava descendo do táxi na frente da mansão de Leia Organa. Não foi difícil encontrar o endereço, bastou raciocinar que Leia só poderia morar no bairro com lote mais caro, ou numa cobertura. Após uma rápida pesquisa na internet descobriu o condomínio Alderaan, área nobre da cidade. Para confirmar suas suspeitas, ela voltou ao motorhome de Luke. Seu interior estava todo revirado, desde que ela dirigiu loucamente até o hospital quando ele passou mal. Não perdeu tempo com o entorno, ou com lembranças daquele dia, estava focada. Achou o endereço de Leia numa agenda velha.

Do portão gradeado até a porta de entrada da casa, devia haver uns quinze metros. Era uma casa desnecessariamente grande, assim, vista de longe, por dentro então, como seria? Ricos são exagerados, pensou. Imaginou Ben criança naquela casa, sentia-se sozinho ali? Aquele luxo todo não anulou seus traumas, então sim, dinheiro não traz felicidade. Às vezes, muitas vezes na verdade, só arrumava mais problemas. Não estranhava que agora ele levasse a vida que levava, como um simples professor universitário que morava num chalé. Ele queria distância daquelas coisas e ser livre.

Ainda divagando em seus pensamentos, Rey tocou a campainha. Um empregado veio recebê-la e a levou até a antessala da mansão, onde foi recebida pela governanta. Deus, uma governanta! Achava que só os ricos dos filmes tinham governantas ou mordomos.

Identificou-se como a assistente de Luke e avisou que gostaria de conversar com a Sra. Organa. Winter a deixou por um momento e quando voltou, foi para acompanhá-la até o escritório.

— Voltarei em breve trazendo chá, fique à vontade — comunicou à moça.

Rey sentou-se numa das cadeiras de frente para uma grande e elegante mesa. Tentou não observar o lugar, mas com a demora, acabou entretendo-se em observar os detalhes da decoração do escritório da senhora daquela casa e em como tudo tinha um gosto refinado e que tinha também um aspecto tão caro. Como que para não faltar com o resto da polpa, até uma pintura de Leia havia na parede.

"Aposto como que atrás do quadro tem um cofre. Essas coisas são tão previsíveis..."

— Perdoe-me por deixá-la esperar.

Virou-se e surpreendeu-se ao encontrá-la vestindo um conjunto de calça e blusa de moletom branco e rosa. Nunca a imaginou dessa forma tão... comum; estava vestida como uma pessoa normal. A Leia Organa que ela havia idealizado na festa na boate, quando Poe falava sobre ela na mesa, era uma mulher madura, elegante, distinta e séria, que descia as escadas de sua casa num caríssimo vestido azul com pedrarias, que só lhe deixava mais graciosa do que uma princesa sem lhe tirar a postura de autoridade de uma rainha, em um pomposo baile.

No entanto, a mulher que atravessou o escritório e circundou a mesa, sentando-se à sua frente, era uma simples senhora sexagenária, cansada e cheia de problemas. Rey sentiu que falar com ela não seria tão complicado como imaginou. A barreira da posição social díspar foi derrubada.

— Eu que devo pedir desculpas, senhora Organa, por incomodá-la — redarguiu Rey Keeran.

— Oh, não, por favor, pode me chamar de Leia, se preferir. E não está me incomodando nem nada.

— Se me permite, eu gostaria de continuar lhe chamando de senhora. É que eu não consigo, sabe... Para mim é desrespeitoso.

— Tudo bem, então. Fique à vontade. — Abanou a mãe e fez menção de sentar-se, mas desistiu. — Rey, você gostaria de dar um passeio comigo?

Rey surpreendeu-se pela segunda vez desde que Leia chegou. Meio sem jeito, ela se levantou e aceitou o braço que a outra mulher oferecia. A mais velha o conduziu para fora do escritório.

— Como Luke está? — ela decidiu perguntar, para terem o que conversar. Estava nervosa e não sabia ainda como ir direto ao ponto.

Leia suspirou. Parecia cansada e triste. Rey não podia julgá-la, ultimamente todo mundo têm estado meio cansado e triste. A vida, por si só, é um troço cansativo.

— Igual... — respondeu. Não melhorou, mas também não piorou, o que nos não deixa com as mãos atadas. Ele está sentindo tanta dor que eu nem sou capaz de imaginar. Só não está sofrendo mais porque os médicos o mantêm sedado e não estou economizando em dar-lhe o máximo de conforto possível nesse momento.

— Eu entendo... Fiquei tão desesperada quando ele passou mal. Ainda achava que seria como das outras vezes, só um susto e...

— Rey. — Elas estavam saindo da casa quando Leia parou e Rey também se deteve. — Desde quando sabe que meu irmão está com câncer?

— Há mais de dois meses, antes de começar a trabalhar para ele. Ele passou mal no estacionamento da universidade e eu e o meu amigo o acudimos e o levamos para o hospital.

Leia assentiu e pôs-se a andar outra vez, puxando Rey delicadamente. Elas saíram da casa e agora estavam na área de lazer aos fundos, com piscina e churrasqueira e uma ampla área verde. Rey reparou então a estrutura nos fundos do terreno, uma grande estufa. Elas estavam caminhando para lá agora.

—Não entendo o que fez Luke esconder isso da família... De mim... Ele esperava que eu descobrisse como? Quando morresse e eu tivesse que enterrá-lo? Se eu soubesse desde o início, teríamos feito o possível e o impossível pelo seu tratamento, não importava que o câncer estivesse em estado avançado...

— Não sou capaz de imaginar a sua dor... — Rey disse em tom gentil. — E também de entender a decisão de Luke...

No fundo, Rey conseguia sim imaginar os motivos que fizeram Luke abrir mão de seu tratamento, mas não se permitia pensar muito a respeito disso. Listava duas coisas, a primeira e mais óbvia, que todos já sabiam, era o fato de que ele havia se convencido que não adiantava mais lutar, era tarde demais; se houvesse descoberto o tumor no início, ele tinha uma chance, mas não foi isso que aconteceu. O segundo item da lista era tão sombrio que ela sentia um tremor toda vez que essa hipótese subia à superfície de seus pensamentos, como agora. E por mais triste que fosse, a ideia de que Luke se deixou consumir por câncer em estágio terminal como maneira de expurgar-se de alguma maneira era angustiante demais, para não dizer macabra.

Mas ela não queria pensar sobre isso e tinha certeza que Organa também não estava contente com aquele assunto. Trocou a fita, falou novamente do hospital. De um jeito ou de outro, escolhendo esta ou aquela abordagem, a conversa continuaria a rondar entorno dos Skywalker.

— Quem está no hospital com ele? — indagou.

— Poe. Voltei pela manhã com o Arthur, que não foi embora como eu imaginei, — Arthur passou a noite nas cadeiras da sala de espera. — E fui dormir. Nem sei como consegui pegar no sono depois de tudo, sinceramente, deve ter sido a exaustão.

— Eu entendo isso. Se precisarem de alguém para ficar com ele, podem me chamar que eu vou com o maior prazer.

— Ah, que bom que tocou no assunto, eu pretendia mesmo falar com você.

— Comigo?

— Sim, sim. A troca de acompanhantes é das seis às sete da manhã e das seis às sete da noite, eu gostaria que você pudesse ficar amanhã pelo dia todo, entrando no lugar do Ben.

— Ben? — Rey arregalou os olhos. Leia havia soltado seu braço para abrir a porta da estufa e entrar primeiro, dando espaço para a mais jovem adentrar após ela. Caramba, ali dentro era bem mais quente que do lado de fora. O dia em Coruscant estava mais frio, já que estava se aproximado o inverno, então Rey logo aprovou a diferença de temperatura.

Leia percebeu sua surpresa com a notícia, mas não comentou a respeito. Continuou falando como se não tivesse dado conta de nada. — Sim, o meu filho, Ben Solo. Você se lembra dele, não é? Ele fez... aquela cena no corredor.

— Eu o conheço, senhora. Ben foi meu professor na universidade durante alguns períodos, incluindo esse último. Ele e Luke foram meus professores.

— Não sabia, mas acho que isso explica porque estavam tão próximos quando eu deixei a enfermaria.

Rey achou melhor não responder isso, mas meneou a cabeça deixando o gesto a entender. Não acreditava que Leia estivesse desconfiando de alguma coisa, no entanto, suas respostas podiam ser interpretadas de outra maneira que não a que lhe convinha. E tinha o fator primordial de que ela é a mãe do seu namorado. Leia conhecia Ben muito melhor do que Rey, afinal de contas, o pariu e o criou. Ela também não era uma excelente mentirosa, arriscar é que não ia.

— Os médicos disseram para mim que ele não passaria da noite de ontem, mas... está resistindo... — Rey disse, caminhando ao lado de Leia pela estufa, ao lado de dúzias e dúzias de diferentes flores, cada uma mais linda e viçosa do que a outra.

Leia meteu as mãos nos bolsos da calça de moletom, pensativa. — Como se se recusasse a morrer ainda.

— É essa vontade de viver que os lutadores têm dentro de si.

— Quem sabe ainda haja um propósito...

— Senhora...?

— O que é que estou dizendo? — sussurrou para si mesma.

Keeran sabia que aquela não era a melhor oportunidade, mas era tudo que tinha no momento e não ia esperar mais pelo momento ideal. — Senhora, tem algo que eu quero dizer.

— Presumo que agora irá finalmente revelar para mim o motivo da sua visita.

— Sim — disse, franca. — Claro que a visita foi muito agradável, apesar de tudo que temos passado e que eu também queria saber como a senhora estava, não é a verdadeira razão de eu estar aqui.

— Então fale, minha filha.

— Eu descobri há pouco tempo, quase na mesma época que seu irmão me contratou, que ele tem uma rixa antiga com o Ben. — Leia parou na frente de uma dúzia de crisântemos brancos. Ela suspirou outra vez.

— E? — indagou, puxando um par de luvas de silicone pretas do bolso e calçando-as. Ela estava indo cuidar da estufa antes de Rey chegar. Suas plantas lhe acalmavam.

— Eu sei que parece que estou me metendo onde não devo, pois não sou da família, mas eu tinha que fazer alguma coisa. — Fez uma pausa, dando a volta pelo canteiro dos crisântemos brancos para ficar na frente da outra mulher. — É a última vontade de Luke: fazer as pazes com o sobrinho.

— Rey, acha que eu não sei que ele tentou se reaproximar do meu filho sem contar da doença? Arthur me contou tudo e agora você só confirma. Entendo que ele queria que Ben o perdoasse sem influência de pena ou peso na consciência. — Vestiu o avental e pegou as ferramentas de jardinagem. — Passei a noite inteira insone ao seu lado naquela bendita enfermaria... Mas Arthur esteve mais próximo dele do que eu nos últimos meses, e se ele está dizendo, então eu acredito. E é bem a cara do Luke fazer isso.

— A senhora conhece seu filho melhor do que eu, diga-me então, existe a possibilidade desse perdão acontecer?

— Quer a verdade?

— Vim atrás dela.

— Não. Não tem.

Rey engoliu em seco. — Mas ele vai passar a noite lá com ele, não é? A senhora mesmo disse.

— Sim, mas porque não havia ninguém da família para ficar com ele esta noite. Era para ser você, na verdade, mas então ele me disse que você podia vir no outro dia, que ele ficaria lá, como acompanhante, já que Luke passa a maior parte do dia dormindo.

— Mas não é possível que a senhora não veja isso com o mínimo de esperança! Leia — e foi a primeira vez que se dirigiu a ela diretamente pelo nome de batismo —, eu tenho certeza que ele não topou isso por um acaso. Talvez ele esteja começando a se dobrar, mas com certeza é orgulhoso demais para resolver isso de uma vez...

— Exatamente. Ben é orgulhoso demais! Você não sabe o quanto!

"Acredite, eu sei.", ela pensou.

— Tenho a esperança de se que a senhora conseguir demovê-lo, ele pode se entender com o tio.

— Eu já tentei tanto, minha filha, Ben não me escuta e Luke guardou segredo de mim o tempo todo. O que eu podia fazer? E você está certa, é claro que eu não paro de pensar que Ben indo para lá essa noite talvez mude tudo. Mas porque por mais que eu seja, ou ao menos tentar ser, um pouco realista, a esperança não me abandona...

— E é a ela que temos que nos agarrar agora, senhora. Vamos ter fé. Fale com Ben, interceda por Luke.

— Eu sei que não vou vê-lo mais hoje, mas irei ligar.

— Obrigada.

Quando Rey foi embora, ela não foi diretamente para casa. Passou pelo chalé apenas para descobrir que Ben não estava lá. E pela aparência do lugar, não estava indo para casa tinha alguns dias. A maioria das suas coisas e roupas tinham sido levadas, inclusive as coisas dela. Ficaram só os móveis e o que não era essencial.

"Ele deve ter voltado para o antigo apartamento." Mas ela não sabia o endereço. Ele havia juntado suas coisas e ido embora porque eles tinham terminado, ou haveria algum outro motivo? Ele adorava aquele lugar. Pertencera a seus avós e significava tanto para eles dois...

Pensou em ligar, mas outra ligação a interrompeu. Poe Dameron.

Poe informou-lhe que Leia pedia que ela fosse a acompanhante de Luke no dia seguinte, pela manhã, às seis, quando era a hora que podia ocorrer a troca de acompanhantes dos pacientes. Ela lhe avisou que já estava a par de tudo, que Leia já tinha conversado consigo e Poe achou isso ótimo.

Se você não puder passar a noite também, me ligue, que às seis eu chego para ficar com ele pela noite — disse ele.

— Não, tudo bem. Eu posso ficar pela noite, mas eu prometo que o manterei informado de tudo.

Obrigado, Rey. Precisamos de todo apoio nesse momento difícil, e você está sendo maravilhosa para todos nós.

— Que é isso, não precisa agradecer. Faço pelo Luke, gosto muito dele.

Mesmo assim, muito obrigado. Arthur vai vê-lo hoje, no horário de visitas, eu vou com ele.

— Ele deve estar arrasado...

Sim... Dá para ver a tristeza dele. Mesmo assim, ele está calmo... Acho que porque ele teve mais tempo de se preparar do que nós.

— Não diga isso, mesmo Arthur não estava preparado para as coisas serem dessa maneira. É que ele é assim mesmo. — Não entendia bem porque razão dissera isso. O que Poe tinha dito com certeza fazia sentido, entretanto, achou que era melhor recorrer à natureza sóbria e pragmática do melhor amigo de Luke.

Bem, eu preciso desligar agora, depois nos falamos. Obrigado mais uma vez.

— Até mais, Poe. — E desligou.

Ela colocou o celular de volta na bolsa. Uma tristeza a abateu de súbito – como se antes já não estivesse deprimida, agora sentia-se pior. Ligou para Ben, mas as chamadas só caiam na caixa postal. Acabou desistindo de tentar telefonar, mas enviou uma mensagem:

Rey | 16h42min

Ei, estou preocupada com vc. Vim ao chalé e percebi que as suas coisas sumiram. Vc tbm não atende as minhas ligações. Tá tudo bem?

À noite, quando Rey já estava em casa preparando uma sopa para seu jantar, o celular dela vibrou sobre a bancada da mesa.

Ben | 19h22min

Desculpe por não responder antes. Eu tirei a tarde para dormir, depois fui responder meus e-mails. Só agora vi sua mensagem.

Recebi uma proposta de emprego, inclusive, falarei sobre isso depois. E sim, eu abandonei o chalé por um tempo, estou no meu antigo apartamento de novo, te mandarei o endereço depois. Vou explicar tudo com calma, mas não hoje.

Como você está?

Rey | 19h22min

Está bem... Eu tô legal, estou cozinhando. Tá no hospital?

Ben | 19h23min

Sim.

Ela ficou olhando para a tela, esperando que ele dissesse mais alguma coisa, o que não aconteceu. Também não sabia muito bem o que dizer a ele, seria estranho falar que Ben estava esquisito e distante, sendo que eles estavam conversando por mensagens. Se ela voltasse as conversas mais antigas com ele, veria que todas, incluindo as delas, eram naquele mesmo tom. Se tinham que conversar, preferiam telefonar ou falar pessoalmente. Mensagens eram para ser práticas e objetivas.

Quando sentiu o cheiro da sopa queimando no fogão, correu e desligou o fogo.

— Ah, merda! — Analisou o alimento na panela. Não tinha sido tão ruim quanto pensava, era só tirar por cima, sem mexer no fundo; ainda dava para jantar numa boa. Se ainda sentisse fome mais tarde, poderia comer um sanduíche.

Lembrou-se de Ben no celular. Ele não havia mandado mais nenhuma nova mensagem. Ela colocou o aparelho para carregar, pôs a sopa numa tigela, picou salsinha com cebolinha por cima e jantou sozinha.

Antes das cinco da manhã Rey já estava de pé, e às seis horas em ponto estava na porta do hospital, trazendo uma bolsa grande com suas coisas, já que pretendia ficar o dia e a noite também, caso Leia, Poe ou outra pessoa não viessem.

Mandou uma mensagem para Ben avisando que chegou e subiu após pegar seu crachá na recepção. Deu duas batidinhas na porta antes de entrar. Encontrou Ben Solo sentado na poltrona destinada ao acompanhante. Ele descansada a cabeça na mão direita cujo braço tinha o cotovelo apoiado na sua perna. Olhava para Luke com uma expressão neutra, mas depois pôs seus olhos sobre ela.

— Bom dia — Rey cumprimentou.

— Bom dia — murmurou ele. Era evidente o seu cansaço em seus ombros caídos, as bolsas embaixo dos olhos e a voz sonolenta. Começou a levantar-se.

Rey não sabia se Leia Organa tinha conseguido conversar com Ben. A mulher havia garantido que falaria com ele, no entanto, sobre o assunto que tratara com ela em sua casa, não sabia de nada. Mas confiava nela, sentia que devia confiar. A maior preocupação de Rey era a possibilidade de Organa ter conseguido falar com o filho, mas esse tenha se mostrado irredutível. Vindo de Ben não era uma coisa improvável.

Ela parou na frente dele e recebeu um beijo. Surpreendeu com o gesto de carinho e olhou para os lados imediatamente, temendo que algum funcionário do hospital estivesse entrando ou que Luke estivesse acordado.

— Então... Como ele está? E como foi a noite? — perguntou Rey, sussurrando para não acordar o enfermo.

— A noite foi até tranquila... — Ele bocejou e também sussurrava. — Apesar de que houve uma pequena queda de temperatura, já normalizada. E ele está completamente cego de um dos olhos, e o outro está indo pelo mesmo caminho.

— Meu Deus! — exclamou baixinho.

— Quando eu cheguei ele já estava com esse tubo, já que não consegue se alimentar, tão pouco falar... — Ben massageou o pescoço que doía por ter dormido naquela poltrona pequena demais para o seu corpo. — Mas ainda consegue se comunicar.

— Como?

Ben olhou para Luke dormindo, Rey seguiu seu olhar e depois encarou o outro, à espera de algo em sua fisionomia. Não sabia o que, mas algo acontecera durante a noite além da queda de temperatura e ela quer descobrir o que foi.

— Quando ele está acordado, ele abre os olhos. Enxerga vultos ainda com o olho que não está completamente cego, então você irá perceber que ele te acompanhará com o olhar, se a luz estiver acesa ou as cortinas da janela abertas.

— Entendi.

— Ele não te vê direito, nem fala nada, mas escuta. E entende o que você fala. Então ele vai responder com uma piscada para sim e duas para não. Logo, se quiser dizer algo a ele, faça perguntas que possam ser respondidas com sim ou não.

— Entendi, entendi. Você que combinou isso com ele?

— Sim — demorou a responder.

Encarou-o com o cenho franzido. Como eles chegaram àquele acordo? Rey queria ser uma mosquinha para estar naquele quarto durante a noite e saber o que aconteceu entre Ben e seu tio e o que ele teria dito. Teriam tratado sobre aquela questão entre eles? Por Deus!, tudo que Rey queria era que eles tivessem se resolvido.

— Ben, você e seu tio...?

— Arthur virá mais tarde no horário de visitas — cortou-a de repente. Sua tentativa de desviar o foco da conversa não passou despercebida por ela. — Ele está vindo todos os dias, pela manhã ou pela tarde. Minha mãe também virá pela tarde, ela deixou avisado.

Rey assentiu e aproximou-se da cama. Ver Luke daquele jeito, todo entubado, cheio de acessos e respirando por aparelhos, arrebatou-a com uma angústia tão profunda que ela tapou a boca no momento em que deu um esguicho, começando a chorar.

Ben a amparou e a levou para fora do quarto, onde pode abraçá-la melhor.

— Ben... O Luke... O Luke, ele... Oh, meu Deus...! — dizia entre os soluços do seu choro.

Shiiu... Calma, eu estou aqui. Estou aqui... — Apertou-a contra seu peito, dando-se conta de que tinha derramado uma lágrima também.

— Ben... Eu...

— Não fale.

Acariciava seus cabelos e a acalentava, esperando pacientemente que ela se acalmasse. Tempo suficiente para limpar a lágrima que tinha caído também sem que ela notasse. Cinco minutos se passaram e Rey recompôs sua postura. O silêncio entre eles era bastante confortável. Ele continuava a acalentá-la enquanto Rey o abraçava e sentia seu cheiro: perfume amadeirado mais suor masculino. Ela adorava se cheiro e sentia falta dele.

Afastou-se do abraço para olhá-lo melhor. O canto da boca dele estava levemente contorcido para cima, dando a ela um sorriso cansado, porém franco. Todavia, o abatimento físico era evidente; ele precisava descansar. Estava praticamente dormindo em pé.

— Acho melhor você ir embora para casa e dormir, de preferência pelo resto do dia. É sábado, então não tem problema.

— Está me mandando embora? — Sorriu debochado. Ela riu.

— Estou. Você tem que tomar um banho e dormir. Seu turno acabou, Ben Solo.

— Meu Deus, você é feita da mesma matéria que a minha mãe...

— O que quer dizer com isso?

— Mulher mandona.

— O que? Você...! — Deu-lhe um tapa no braço. — Vai logo, Ben. Você já deveria estar longe a essa hora.

— Sim, senhora. — Bateu continência, fazendo Rey sorrir, e entrou no quarto de novo.

Pegou seu blazer e o vestiu, depois tirou os óculos da caixinha onde ficavam guardados, limpou as lentes e colocou-os no rosto. Arrumou os cadarços do sapato e pegou sua carteira e chaves. Aproximou-se de Rey para beijar-lhe outra vez, mas reparou o quanto ela estava imersa em seus próprios pensamentos ao fitar Luke sobre a cama. Não seria um dia fácil para ela, ele sabia disso.

— Rey? — chamou-a num sussurro.

— Sim?

— Você vai ficar bem?

— Vou, vou sim, eu só... Eu só estava pensando.

— E em que pensava?

— Tem tantas coisas que eu queria poder dizer a ele... E ainda havia tanto para ele me ensinar...

Ben adiou por mais alguns instantes sua ida. Aproximou-se e a puxou pela cintura para que ficasse colada a si num meio abraço. Afastou uma mecha de cabelo do seu rosto e acariciou seu rosto com o polegar. Rey o fitou.

— Eu não sou muito bom em dizer coisas para consolar as pessoas, porque geralmente sou eu que magoo — disse ele. — Mas eu sei de uma coisa, Rey, você é forte, mais até do que imagina. Eu não sei se aguentaria viver o que você viveu desde os cinco anos de idade. Você passou por tanta coisa e isso só te fortaleceu, e eu sei que isso que está acontecendo não é o maior gigante que você já enfrentou.

Sem saber o que dizer e tocada pelas palavras dele, Rey o abraçou forte, sorrindo em meio à duas ou três lágrimas que não conseguiu segurar. Ben afastou-se um pouco e beijou-a na testa.

— Agora eu já vou indo, está bem? — Ela assentiu. — Vejo você amanhã.

— Até amanhã.

Ela ficou o observando afastar-se. Ben ainda parou na porta, dando um último olhar para o leito de seu tio, e então foi embora em definitivo. Rey suspirou e passou a mão no rosto. Quando voltou a olhar para Luke, percebeu-o de olhos abertos.

Rey arregalou os olhos. Em meio à penumbra do quarto, ela podia ver claramente os orbes azuis de Luke diretamente nela. E não parecia que ele tinha acabado de acordar, ainda que estivesse abatido pela doença, o que significa que ele presenciou o que aconteceu há poucos instantes naquela enfermaria. Teria entendido tudo que Ben e ela conversaram, já que sussurravam tão baixo?

— Luke, você...?

Ele piscou os olhos uma vez.

A luz estava apagada, então Rey foi até o interruptor e a acendeu. Luke virou levemente o quanto pôde a cabeça até ela, e a acompanhou com o olhar, consoante Ben tinha lhe informado, enquanto ela voltava à posição inicial, na frente do leito dele.

Mordeu os lábios e apertou as mãos. Estava perplexa. Luke escutou tudo?

Decidiu fazer alguns testes.

— Consegue me entender?

Luke piscou os olhos uma vez.

— Sabia que era eu quem vinha ficar com você?

Ele piscou duas vezes. Ou seja, não. Não sabia.

— Você ouviu o que eu conversei com Ben?

Uma piscada. Jesus... Ela não estava acreditando naquilo. Tencionou perguntá-lo exatamente o que ele ouviu, mas lembrou-se que as opções de resposta dele eram demasiadamente limitadas.

Mas o que ela tinha a perder, nesse momento? Sabendo que Luke poderia nunca mais voltar a falar e que o tempo para ele estava se findando e a qualquer momento ele poderia deixá-los, por que continuaria se importando em manter um segredo para ele? O mínimo que ela podia fazer era ser sincera com Luke.

— Eu amo seu sobrinho, Luke... — disse, sem conseguir olhá-lo. — Nós estamos juntos nos últimos seis meses... O que significa que eu já estava com o Ben quando comecei a trabalhar para você.

Olhou para seu rosto, procurando uma reação, qualquer que fosse. Mas ele permanecia igual.

— Está surpreso com isso? — Piscou uma vez. Sim. — Isso te desagrada?

Nenhuma piscada sequer. Ele virou seus olhos para além dela, deixando sua opinião a respeito disso em um mistério.

A enfermeira entrou antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, trocou as bolsas de soro e injetou mais medicamentos pelo acesso no braço dele. Rey não tocou mais no assunto.

Ao longo do dia, a doutora Aphra veio algumas vezes, o funcionário terceirizado da limpeza limpou o quarto e banheiro, enfermeiros entravam e saíam. Arthur veio pela manhã e Rey lhe explicou o método primitivo de conversação. Achou engraçado os temas que Arthur selecionava, como eletrônica e computação, coisas que ambos sabiam que Luke não entendia absolutamente nada, no entanto, entendeu que era para entretê-lo e Skywalker parecia feliz. Ele chegou a esboçar um pequeno sorriso de canto quando Arthur fez uma das suas piadas politicamente incorretas.

Rey comeu e levou um livro para matar o tempo. O livro que ela tinha levado era A menina que roubava livros, de Markus Zusak. E, inspirava por Liesel Meminger ler para Max enquanto ele estava doente, Keeran arrastou a poltrona – bastante pesada, inclusive – para o lado do leito, e leu alguns capítulos para Skywalker.

Pausou a leitura somente quando Leia Organa chegou acompanhada de Poe Dameron para o horário de visitas vespertino. Novamente, ela ficou observando enquanto Leia falava com seu irmão. Ela estava triste, porém, mais conformada.

Rey resolveu sair para dar mais privacidade à família. Não viu que Poe a acompanhou.

— Sei que essa é uma pergunta para lá de descabida num momento como esse, mas como você está? — Poe perguntou.

Ela sorriu sem graça, olhando para a capa do livro. — Estou bem, apesar de tudo. Um pouco mais conformada, mas... Sei lá, acho que no fundo estou esperando por um milagre.

— Eu te entendo... Quis acompanhar a Leia porque ela precisa de apoio, sabe.

— Você é um bom afilhado.

— E o Ben?

— O que tem ele? — perguntou um pouco depressa demais, fitando-o mais nervosa do que deveria demonstrar.

— Vocês trocaram pela manhã. — Franziu o cenho. — Você o viu, não foi?

— Ah... Claro. Sim, eu o vi.

— E aí, como ele estava?

— Cansado — ela disse. — Não conversamos muito, na verdade. Eu pedi que ele fosse embora logo, já que estava visivelmente exausto.

— Saquei. Ele não falou nada sobre o Luke... Sabe o que eu estou querendo dizer, não é?

— Sinceramente, Poe, eu tenho certeza que alguma coisa aconteceu entre os dois durante a noite. Só que eu não faço ideia do que foi.

— Acha que eles lavaram roupa suja?

— Talvez.

Ficaram em silêncio e então Leia abriu a porta, chamando Poe para ficar com Luke porquanto ela queria conversar com Rey.

— Eu não consegui falar com Ben — disse Leia. — Tentei ligar, mas só caía na caixa postal. Depois ele me retornou dizendo que tinha dormido à tarde inteira e que estava se arrumando para vir para cá.

Rey bufou irritada. Não tinha dado certo como ela planejou.

— Droga...

— Ele está estranho. — Nisso Rey concordava.

— Não vamos nos desesperar. Eu senti o Ben diferente essa manhã em relação ao Luke... Tenho certeza que algo aconteceu entre os dois durante a noite. — Rey repetiu o que tinha conversado com Poe para Leia.

— Oh, Rey... — Leia a abraçou. Permaneceram assim por um tempo, até que elas retornaram para a enfermaria.

Leia e Poe foram embora logo depois. E Rey retornou à poltrona e à leitura. O resto da tarde se passou e com ela as páginas do livro.

— "Quando ela atravessou o rio, um rumor de sol posicionou-se atrás das nuvens. No número oito da Grande Strasse ela subiu a escada, deixou o prato junto à porta da entrada e bateu, e quando a porta se abriu..."

Um murmúrio de Luke a interrompeu. Ela fechou o livro e imediatamente se levantou. Ele continuava a rumorejar, mas o tubo em sua boca tornava o que quer que estivesse tentando dizer impossível de ser compreendido.

— Luke, você está bem? — perguntou. Ele abria e fechava os olhos, mas ela sabia que ele não estava piscando respostas. Ele queria dizer algo. — Vou chamar alguém!

Ele rumorou algo que ela conseguiu entender como um não. Ela sabia que ele estava dando um grande esforço para tentar falar, e ele não podia fazer isso. Rey respirou fundo e tentou se acalmar. Precisava ser racional.

— Luke, olhe para mim e eu vou tentar descobrir o que você quer, está bem? — Piscou uma vez para confirmar, juntamente com um menear muito sutil de cabeça. — Você está sentindo dor? Muita dor?

Piscou duas vezes. Era óbvio que ele estava com dor, mas disse que não, então não era sobre isso que ele queria falar, Rey compreendeu.

— Você está precisando de alguma coisa? — Uma piscada. — Ok, ok... Você quer algo, não é? Só tenho que descobrir o que... Pensa Rey, pensa. — Olhou para ele. — O que você precisa está nesse quarto. — Uma piscada.

Rey estava ao seu lado, do lado direito da cama, e Luke girou lentamente a cabeça para a frente. Rey seguiu na direção em que seus olhos estavam e achou a janela. Era uma janela grande, de vidro temperado, mas estava coberta por uma grossa cortina apenas entreaberta, que deixava um pouco de luz do sol entrar.

— É isso que você quer? Que eu abra as cortinas?

Ele piscou uma vez para confirmar. Rey imediatamente tratou de ir até lá e abrir as cortinas. Quando fez isso, a luz alaranjada do sol poente invadiu todo aquele quarto e banhou o corpo de Luke com seus raios que atravessavam o vidro.

Olhou para ele. Estava de olhos bem abertos, sorrindo levemente de canto. Em alguns momentos ele fechava os olhos, sentindo o calor. E que pôr-do-sol era aquele! Tons de vermelho, laranja, rosa e roxo misturavam-se gradualmente ao azul da noite num verdadeiro espetáculo de cores.

Ela sentiu-se tão cheia de paz diante daquilo. Tinha certeza que Luke também.

Ela voltou à poltrona, abriu A menina que roubava livros na página marcada e continuou com a leitura. Pensou se a menção ao sol na última passagem em que ela leu que fez Luke pedir que ela abrisse as cortinas.

Minutos depois, ela percebeu o quarto ficar mais escuro e olhou para a janela. O sol estava indo embora finalmente e a lua começava a reivindicar seu lugar ao céu. Ela sorria vendo algumas estrelas aparecerem.

Quando a última nesga de luz diurna se extinguiu, o aparelho de frequência cardíaca apitou. Ela parou de sorrir no mesmo instante e virou a cabeça para Luke, então viu, pelo monitor do aparelho, uma linha verde enquanto ele apitava alto.

— Não... — Levantou-se, sentindo o peito apertado e lágrimas já começando a se formar em seus olhos. — Não...

Os enfermeiros entraram no quarto e afastaram Rey que tentava abraçar o corpo de Luke.

Só o que ela ouvia era o seu próprio coração bater em disparada em contraste ao apito do medidor de frequência cardíaca mostrando que o coração de Luke Skywalker havia parado, pois agora ele estava morto.