Às vezes, as promessas não valem de nada.

Rey atravessou o portão de entrada do cemitério Jakku segurando um pequeno ramalhete de margaridas, lembrando-se de que ela tinha jurado que nunca mais poria os pés naquele lugar, desde a última visita ao túmulo de seus pais, há meses. Mas agora ela estava ali, presente para o enterro de Luke Skywalker.

A família e os amigos já haviam chegado, estavam de preto em seu luto, e com lágrimas silenciosas e pesarosa tristeza; alguns de óculos escuros, algumas senhoras com lenço nas mãos, já outros seguravam uma sombrinha como se esperassem pela chuva. De fato, só o que faltava era chover para completar o clichê de enterros.

O céu estava repleto de nuvens. A banda oriental estava tomada por elas, que àquela distância, pareciam carregadas, enquanto o lado ocidental exibia parcas nuvens, e o céu coloria-se. Mas ainda podiam ver o azul, principalmente acima dela.

Era quatro da tarde e ventava bastante.

— Acho que vai chover — ela falou, pensando em voz alta.

— Não, não vai — disse alguém.

Rey virou-se e encontrou uma mulher atrás dela. Era alta, magra e loira, também não era jovem, devia estar na casa dos quarenta, e era bonita e de boa presença. Também havia acabado de chegar e trazia consigo uma coroa de flores grande e ornamentada, mas o que mais lhe chamou atenção foi o fato de ela estar usando um vestido roxo escuro bem cortado ao corpo, bastante elegante e sofisticado, de veludo e com uma fenda. A completar o visual, um exagerado chapéu – esse sim era preto.

Ela olhava para o céu, como Rey fazia há poucos instantes. Quando ela abaixou a cabeça, sorriu para a mais nova e tirou os óculos escuros, revelando os olhos azuis.

— Ei! — Rey exclamou quando a reconheceu. — A médica que nos ajudou em Kamino! Doutora...?

— Holdo. Amilyn Holdo. — Estendeu a mão e cumprimentaram-se. — Lembrou-se de mim, mas não do meu nome.

— Desculpe-me. — Apertou os lábios, um pouco envergonhada.

— Tudo bem, querida, não tem problema. Aconteceram tantas coisas naquele dia...

— Sim.

Elas ficaram em silêncio. Olharam para o grupo reunido mais à frente. O caixão, os homens o desciam até o fundo da cova e um grupo de pessoas acompanhava. Ao lado estavam enterrados os pais adotivos de Leia, Bail e Breha Organa, e seu pai biológico, Anakin Skywalker.

— Ele sofreu? — indagou Amilyn.

Rey voltou a olhá-la e viu sua expressão triste. — Não. Pelo menos eu acho que não.

— Luke disse-me que gostaria de que queria rever-me antes de... você sabe. — Rey assentiu. Ela se recordava disso. — Mas ele se foi antes de me chamar para jantar.

— Como soube?

— Cheguei à cidade esta manhã, entrei em contato com a família e fiquei sabendo do enterro.

Começaram a caminhar entre as lápides. Elas não trocaram mais nenhuma palavra enquanto se aproximavam do grupo de pessoas em volta do túmulo, até que Rey rompeu o silêncio e perguntou o que tanto lhe deixava curiosa.

— Não se ofenda por minha causa, mas por que está usando esse vestido tão luxuoso num enterro como esse? As pessoas podem entender como despeito.

Amilyn sorriu, olhando para o chão. Segurou o chapéu quando teve que olhar para Rey, por conta do vento. A outra precisou segurar a saia de seu vestido de musseline forrado, o único vestido preto que ela tinha, para mantê-lo no lugar e não cometer a gafe de ter sua roupa íntima revelada no enterro de seu amigo. Praguejou-se por ter escolhido a peça.

— Eu tenho plena consciência do que as pessoas poderiam pensar desde o momento que escolhi esse vestido. Na hora eu estava com raiva porque o Skywalker tinha partido, eu queria que ele me levasse para jantar, mas está morto e não pôde fazer isso. Então resolvi vir ao enterro dele com a roupa que iria ao encontro. — Rey franziu o cenho, confusa e pensando no quanto a mulher à sua frente era estranha. — Eu sei. Parecia ser uma boa ideia antes.

— É... — Rey sorriu. — Mas eu achei legal, é como uma homenagem.

— Vamos combinar de ler dessa maneira. — Piscou o olho para Rey.

Amilyn tomou a frente e Rey a acompanhou, mas retardou os passos quando percebeu pelo canto do olho uma pessoa debaixo de uma árvore, à certa distância. Estreitou os olhos para tentar ver melhor quem era, mas só podia ver que era um homem de jaqueta e chapéu panamá. Ignorou-o e juntou-se a Finn com o resto do grupo.

— Onde você estava? — ele sussurrou para ela.

— Estava conversando com a Dra. Holdo, encontrei-a na entrada — sussurrou de volta. Apontou com um gesto da cabeça para Amilyn Holdo indo cumprimentar Leia, que estava na companhia de Ben – a quem ela abraçava, mas do qual se desvencilhou para abraçar a médica –, de Winter e o motorista tagarela que deu-lhe carona outro dia, porém que agora mantinha-se calado e circunspecto.

— Quem é a perua?

— Finn! — Beliscou seu braço.

— Ei!

Schiiiu! — Poe repreendeu-os. Estava ao lado de Finn, mas Rey não tinha se dado conta dele ali ainda.

Parecia que as duas, Leia e Amilyn, já se conheciam de algum lugar, pela forma como falavam e seguravam as mãos, contudo, donde estava Rey não podia ouvi-las. Lembrou-se também de que Amilyn achou o sobrenome de Luke familiar, e mais cedo tinha dito que entrou em contato com a família. Leia devia conhecer muitas pessoas, não era algo surpreendente. Mas que era muita coincidência, isso era.

Continua ventando bastante, o clima fechou-se completamente e estava propício para começar a chover a qualquer momento, tanto que Finn comentou que deviam ter trazido um guarda-chuva, adivinhando os pensamentos de Rey. Amilyn segurava o chapéu para não ser levado e Rey igualmente segurava as saias, praguejando-se novamente por não ter vestido um shortinho pelo menos por baixo da peça. Algumas mulheres choravam, os homens estavam sérios. Todos tristes. O reverendo fazia um discurso, e o terminou recitando o vigésimo terceiro salmo. Rey emocionou-se nessa parte e Finn a abraçou.

Ao fim do monólogo do religioso, Lor San Teka pediu para dar algumas palavras.

— Santo Deus!, não podem deixar o Teka falar, vamos ficar aqui até ele estar velho o suficiente para ser enterrado também! — Finn sussurrou para Rey.

Ela o mirou com uma expressão de desagrado. — Não tem graça, Finn. Por favor, tenha mais respeito, isso é um enterro.

— Nossa... Foi mal, foi só uma piada.

— Não é momento para piadas.

Finn a encarou um pouco incrédulo, mas o que quer que ele pensasse em rebater, foi calado pela voz de San Teka.

— Eu quero primeiramente agradecer à presença de todos aqui em nome da família do nosso querido amigo, que descanse em paz — Lor San Teka começou seu discurso. — Poucos no mundo tem a chance de conhecer pessoas como Luke Skywalker. Ele era um homem admirável, e tinha o respeito de todos quanto o conheceram. Conheci Luke ainda quando éramos meros acadêmicos, cheio de sonhos e de esperança. Um jovem visionário, como eu gostava de chamá-lo na época, e, bem, como podem ver, não sou mais jovem.

"Os anos se passaram, e com eles vieram os espinhos e as dificuldades e as dores. Ele, como cada um de nós, sentiu o peso dos problemas e de como a vida pode ser dura... Todos nós mudamos, com Luke não foi diferente. Eu não sou mais o homem que era ontem, que dirá o que fui há trinta anos. Somos fruto das nossas escolhas, mas também somos obrigados a carregar as cicatrizes de coisas que não dependiam somente de nós."

Ele ainda falou por quase dez minutos. Enalteceu as qualidades de Luke como colega profissional e como pessoa, relatava com emoção e firmeza sobre como ele era admirável, como foi um bom amigo e que deixaria eternas saudades, mas que todos deveriam guardar dele somente as boas recordações.

Houve uma salva de palmas.

A primeira pessoa que se aproximou foi Arthur. Rey nunca o viu tão triste. Mas ele estava dando o seu melhor para não desabar, e, apesar de tudo, parecia resignado. Não havia mais nada para ele fazer além de ficar triste e xingar Luke por não terem voado de asa-delta como eles haviam combinado. Mais cedo, ele tinha dito à Leia que voaria de asa-delta mesmo assim, para prestar uma homenagem ao amigo. Leia respondeu que iria também.

Ele segurava um pequeno ramo de flores silvestres e as jogou no fundo da cova. Mais pessoas se aproximaram para fazer o mesmo e então retornarem ao seu lugar, porém Arthur continuava ali.

Poe foi com Finn, os dois com rosas vermelhas que o primeiro trouxera e cedeu uma à Finn. Rey esperou para ser uma das últimas. Suas flores eram simples, mas o gesto era que mais importava. Ela apertou gentilmente o ombro de Arthur depois de ter jogado suas flores, ele lhe devolveu um pequeno sorriso e um olhar gentil. Então ela foi em direção à Leia, que parecia tão triste que desde quando pôs os olhos nela que queria abraçá-la.

— Rey, que bom que está aqui. — Leia aproximou-se para abraçá-la. Rey fechou os olhos quando deitou a cabeça no ombro da mulher.

Assim que se afastaram, Rey levantou a cabeça para Ben Solo. Eles trocaram um olhar intenso antes dele tirar um pequeno jacinto do bolso interno do paletó e ir jogá-lo sobre o caixão como os outros estavam fazendo.

Rey, que segurava a mão de Leia, sentiu o aperto ficar mais forte e rapidamente olhou para a mulher, que tinha os olhos arregalados para o filho, que se afastava devagar.

— O que foi? — Não se aguentou e perguntou.

— Rey, você sabia que cada flor tem um significado?

— Não. Eu nem sei o nome da maioria das flores, na verdade.

Leia nada disse, mas sorriu e Rey ficou curiosa agora. Ela nem tinha visto direito qual flor Ben tinha levado e muito menos sabia como se chamava.

Não muito longe dali, Finn Collins observava as nuvens de chuva serem levadas para longe pelo vento. Ele pensava que ia chover, porém, o céu estava limpando novamente. Eram quase cinco da tarde. Estava escurecendo e ele não estava nem um pouco interessado em estar em um cemitério à noite.

Os coveiros estavam jogando terra sobre o caixão e ele esperava que aquilo acabasse logo. As lápides começavam a lançar sombras pelo chão. A verdade é que ele nunca gostou de lugares assim, ele não ia à velórios ou enterros porque a atmosfera desses ambientes o deixavam deprimido e sufocado. O enterro de Luke foi o primeiro que ele foi na vida e estava certo de que não iria a mais nem um outro, exceto o seu próprio.

Alheio ao trabalho dos coveiros, notou quando Poe Dameron retirou-se. Reparou para onde ele estava indo, e o seguiu.

Não pensou sobre, não raciocinou nessa decisão, somente agiu por instinto e suas pernas o guiaram por entre os túmulos de todos os tamanhos e formatos diversos. Ele só se perguntou o que estava fazendo quando percebeu o que estava fazendo.

Poe não tinha ido embora, como ele suspeitava. Estava parado diante de uma lápide que era aparentemente nova. Ele ficou parado de longe, observando, sentindo que ele queria ficar sozinho.

"O que ele está fazendo?", perguntou-se. Ele só ficou ali parado, de costas para Finn, com os ombros para baixo. De repente estes mesmos ombros começaram a tremer e Finn percebeu que ele estava chorando. Ele sentiu seu peito apertado nesse momento. Nunca imaginou alguém como Poe chorando, talvez fosse por isso que ele se afastou dos demais, porque estava vulnerável.

Poe então se agachou. De cócoras ele ficou olhando para o túmulo à sua frente com as mãos no rosto. Finn chegou um pouco mais perto e conseguiu ler a inscrição na pedra.

Paige Tico

4 de maio de 1989 – 29 de novembro de 2015

Então ele entendeu tudo, porque Poe afastou-se, seu choro, porque ele parecia tão agitado o enterro todo. Ele tinha ido até o túmulo de Paige. Não conseguia imaginar o quanto era difícil para ele estar fazendo isso. Ainda se lembra da conversa que os dois tiveram no quarto de Poe, no dia da festa, quando ele lhe contou sobre Paige.

Ele sabia que Paige Tico era amada por Poe Dameron, do mesmo jeito que ele amava Rey Keeran, como se fossem irmãos de verdade. Ele queria ir até lá e dizer que tudo ficaria bem, queria abraçá-lo, beijá-lo...

Finn arregalou os olhos, perplexo com seus próprios pensamentos. Não, não! Não era isso que ele queria. Ou melhor, talvez ele tenha se confundido e o que pensou de fato foi num casto beijo de amigos, na testa ou na bochecha, sem segundas intenções.

Mas a ideia de beijar Poe Dameron, na boca, agora estava impressa em sua mente e ele estava fazendo tudo para tirar. Incluindo balançar a cabeça e imaginar sua treinadora Phasma numa fantasia de coelhinho, ou Ben e Rey transando. A última funcionou e ele sentiu náuseas.

— Finn? O que faz aqui?

Em seus delírios, não tinha reparado que Poe havia se levantado e estava voltando para o local do enterro, mas deu de cara com ele ali, fazendo caretas ridículas como se estivesse prestes a vomitar.

— Merda... — sussurrou. Recompôs-se imediatamente. — Oi, eu... Desculpe, eu vi você saindo e... Eh... Desculpe, eu devia estar com uma cara ridícula, é que eu senti vontade vomitar – não era de você! — Tratou logo de esclarecer.

— Que? Não, eu nem pensei nisso.

— Ah, foi?

— É!

— Ah, que bom. — Riu nervoso.

— Mas por que você estava com vontade de vomitar?

O que ele ia dizer? Não podia simplesmente falar que pensou em Ben e Rey fazendo sexo para tirar da sua mente a imagem deles se beijando por vários motivos, começando pelo óbvio de que a relação da sua amiga com o Solo era um segredo. Então ele precisava inventar alguma coisa.

— Eu lembrei de uma coisa muito nojenta que eu vi ontem.

— Sério? O que foi?

"Por que as pessoas são tão curiosas?!", ele se perguntou, ficando com raiva e sem muitas escolhas. Falou a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

— Eu vi um cachorro comendo as próprias fezes.

— Que nojo!

— Sim, exatamente. — Dito isto, a imagem projetou-se na cabeça dele e ele quis vomitar mesmo.

— Ei, vamos parar de falar nisso!

— Por favor.

Poe sorriu. Finn fitou-o nesse momento, tendo certeza de que ele tinha feito um grande esforço para sorrir e que não era como ele realmente se sentia. Aquilo o tocou fundo. Momentos antes ele estava agachado, chorando por causa de sua amiga. Ele sabia que Poe sentia-se como o principal responsável pela morte dela.

— Você está bem, Poe?

Dameron desviou o rosto, apertou os lábios numa linha fina. Ele não queria responder aquilo e de repente Finn achou a pergunta idiota.

— Eu sinto muito, eu não...

— Tá tudo bem — respondeu-o.

— Não, não está. Eu sinto muito, Poe. Sinto de verdade. Eu daria qualquer coisa para que você não se sentisse mais assim.

Poe mirou-o um tanto quanto estarrecido. Finn fechou a boca, chocado consigo mesmo pelo que acabou de dizer. O que estava acontecendo com ele hoje, afinal? Ele não tinha noção de qual seria o impacto daquelas palavras em Dameron.

— Eu...

— Obrigado, Finn. — Poe o puxou para perto e o abraçou.

Finn demorou um pouco para corresponder o abraço. E quando o fez, foi hesitante que ele envolveu a cintura e o braço de Poe. Era tão... bom. Ele se sentiu realmente acolhido e Poe era tão quente e cheirava tão bem. O cabelo dele principalmente, além de sentir o cheiro refrescante de loção pós-barba.

Poe foi quem cortou o abraço. Seu rostos passaram tão próximos que por pouco não se beijaram. Finn surpreendeu-se quando se viu desejando aquilo. Logo ele afastou-se, desesperado por distância e ao mesmo tempo sentindo um vazio terrível. Ele não poderia estar envolvido dessa forma. Estava confuso, é só isso. Ele não... "Eu não sou gay!", disse para si mesmo.

Ficou com um pouco de raiva de Poe, pois estava claro que era ele quem estava o seduzindo. Entretanto, concluiu para si que Poe estava se sentindo vulnerável e solitário, desesperado por afeto e que ele próprio só estava confuso porque estava carente, não por sentir-se realmente atraído por outro homem.

A ideia disso era-lhe absurda. Negava o sentimento veementemente.

— Eu ainda não tinha vindo aqui, sabe? A sensação era de que se eu viesse, a perdi definitivamente — disse Poe.

— Eu sinto muito — Finn respondeu.

— Ela era minha melhor amiga no mundo... Eu não consigo parar de pensar de que poderia ser eu ali... Entre nós dois, ela era quem mais merecia.

— Escuta aqui, nunca mais diga isso! — retrucou-o duramente. — Você ouviu bem? Não repete isso nunca mais. Foi um acidente o que aconteceu, ninguém tem culpa e não somos o destino para decidir quem merece viver ou morrer.

— Desculpa, eu não sei o que eu estou falando.

— É esse lugar. Ele deixa qualquer um deprimido.

— Acho que devemos voltar.

— Também acho.

Lado a lado, Finn apertou o seu ombro gentilmente. Eles caminharam entre as lápides que lançavam cada vez mais sombras no chão. Um lembrete de que estava ficando tarde. Não conversaram durante o trajeto; ainda que Finn tenha esforçadamente pensado em algum assunto para não ficarem naquele silêncio, não tinha nada de bom para falar.

Ele podia dizer que sabia que os pais de Rey também estavam enterrados ali ou que sua mãe poderia estar ali também, se não tivesse sido enterrada na cidade onde ela nasceu, contudo, ele não queria continuar falando sobre morte. Aquilo seria um péssimo gatilho, com certeza. Pensou em dizer que tinha largado à universidade no último semestre, porém, todo mundo que soube disso ficou desapontado com ele, principalmente seus professores. Ele não queria que Poe se sentisse desapontado com ele também. Também pensou em falar sobre futebol e de como Phasma estava fazendo de sua vida o inferno e ele só aguentava aquela mulher porque não perdia as esperanças de um olheiro de outro time estar em próximos jogos. Mas não sabia se Poe gostava de futebol ou se interessava por seus problemas com a treinadora.

Decidiu-se que calado era a melhor opção no momento.

Eles chegaram bem a tempo de participar da última salva de palmas. Algumas pessoas já estavam indo embora, algumas prestavam suas últimas homenagens, incluindo a mulher de vestido roxo e chapéu. Ela parecia ser bem... excêntrica. Leia estava perto dela.

— A Leia está ali, eu vou até lá.

— Está bem, eu vou procurar a Rey.

Ele não foi imediatamente. Ainda ficou ali, olhando Poe. Ele abraçou a madrinha e falou alguma coisa com ela, então foi ajudar a outra mulher a colocar a coroa de flores dela.

— Onde você se meteu? — Rey materializou-se na sua frente e ele tomou um pequeno susto, mas não chegou a externar isso.

— Eu... Estava por aí?

— Estava por aí? — Cruzou os braços, incrédula. — Foi dar um rolê no cemitério, logo você?

— Está bem! — Revirou os olhos. — Eu vi o Poe se afastar muito deprimido, então eu fui atrás dele. Fiz o que você faria se fosse eu, só isso.

Rey lhe dá um olhar estranho. Então olhou para Poe e para ele novamente. Ele gostaria de saber o que ela pensava, porém, lembrando-se do que foi motivo de briga entre eles no passado, Finn decidiu que não. Não queria saber. Conservava sua saúde mental não se torturando desse jeito.

— Já está ficando tarde, vamos embora?

— Eu estava esperando você dizer! Não aguento mais ficar aqui.

— Eu só preciso falar com o Ben...

— Ah, meu Deus... — reclamou. — Rey, a mãe dele está aqui, os colegas de trabalho dele, como o San Teka, tem a galera que é veterana do nosso curso também, esqueceu?

— Eu não vou agarrá-lo e beijá-lo aqui, Finn! — ela rebateu. — Eu vou falar com ele, apenas. Nós não nos falamos desde que o Luke se foi. Eu fui paciente, dei espaço e fui compreensiva quando ele não me procurou, mas eu estou preocupada e sentindo sua falta... E de qualquer maneira, não tem por que ninguém achar estranho ou desconfiar de algo, o tio dele morreu e eu estarei prestando meus sentimentos. O que também não é mentira.

— Acho que você está certa. — Ela assentiu. Finn olhou para além dela e adicionou: — Ele vem vindo aí, por falar nisso. — Rey soltou os braços que permaneciam cruzados. — Vê se dá um jeito nessas bochechas coradas e aja naturalmente.

Finn beijou sua testa e foi embora. Ela virou-se bem a tempo de ver Ben Solo acompanhado de sua mãe. Ela já tinha notado que ele não saía do lado dela o tempo todo. Ela preferia conversar com ele em particular, mas... Dance conforme a música.

— Leia... — disse gentilmente e olhou-a de igual modo. — Ben... — O olhar para ele, porém, foi mais intenso, apesar de ter durado bem menos do que o de Leia. — Eu só queria cumprimentar vocês antes de eu ir para a minha casa.

— Rey. — Ele devolveu o olhar na mesma intensidade. E ao contrário dela, não desviou o seu olhar, mesmo quando sua mãe avançou.

— Rey, minha querida. — Leia a abraçou rapidamente, mas com força. — Eu não saberei nunca como agradecer a você, por ter nos ajudado nesses últimos dias tão difíceis e por ser uma amiga para o meu irmão. Sei que ele te considerava muito.

— Obrigada — disse ela um pouco emocionada. — Eu faria de novo cem vezes.

— Eu estou feliz que você está aqui, Rey — Ben que disse isso. Ela fitou-o novamente, torcendo para que suas bochechas não estivessem coradas como Finn tinha dito. Não se imaginava mais corando por Ben, mas parecia que isso nunca tinha mudado.

— Obrigada, sr. Solo. Os meus sentimentos a você também. — Ela se aproximou. Queria realmente abraçá-lo, mas tudo que fez foi apertar sua mão. Era impressão sua ou ele estava desapontado?

— Rey! — A voz de Arthur vinha de trás dele. Ben afastou-se e o anão veio em direção da jovem. Ela se inclinou e os dois abraçaram-se. — Ah, menina...

Rey sorriu. Ele sempre a chamava dessa forma, de menina. Ela nem se importava mais. Ficou acostumada.

Nesse ínterim, Poe também se juntou a eles.

— Você fica ótimo de terno, Arthur — disse ela quando se afastaram e Rey endireitou a postura.

— Ah, cale a boca! — Olhou para os outros três. — Que bom que vocês todos estão logo aqui, porque então ninguém fica surpreso.

— Arthur, o que...?

— Daqui há duas semanas será lido o testamento do Luke...

— Luke deixou testamento? — Poe perguntou.

— Sim, eu mesma fiquei responsável por levar o documento ao cartório, fui uma das testemunhas, inclusive — Rey disse.

— Sim, e eu quero que a Rey esteja presente durante a leitura.

— Arthur, mas...

— Sem mais nem meio mas! Por favor, Rey, qual o problema?

— Nenhum, é que... Acho que só a família deve estar presente, provavelmente serão os beneficiários do que quer que ele tenha deixado ou que quer que seja feito com seus bens.

— Rey, não me faça discutir com você na porra de um cemitério!

— Arthur, tenha mais respeito com os mortos — Leia repreendeu.

Arthur respirou fundo. — Rey, por favor. Só esteja presente.

— Podemos fazer a leitura na minha casa — Leia ofereceu.

— Ah que bom que você disse isso! — Arthur falou. — Porque eu já tinha marcado com o advogado lá.

— Você é impossível! — Leia retorquiu. Tirou os óculos escuros do colarinho e os guardou na bolsa. — Que seja.

Ela deu um passo à frente e parou então, olhando para a frente.

— Você sabe o que há nesse testamento? — Ben aproximou-se e sussurrou com Rey.

— Não, eu só levei ao cartório para ser autenticado e fui uma das testemunhas. E Ben, eu gostaria que viesse à minha casa... Amanhã, é claro. Imagino que sua mãe precise de você ainda.

— Eu vou ainda hoje se eu conseguir, qualquer coisa eu envio uma mensagem. — Ela assentiu e ele olhou para a mãe, franzindo o cenho em seguida. Ele estava parada, estagnada, perplexa. — Mãe?

— Leia? Viu uma alma penada? — Arthur que perguntou.

— Está tudo bem, madrinha? — Poe perguntou.

— Ali. — Rey indicou. Logo todos seguiram com o olhar a direção em que Leia olhava fixamente.

— Mas o que...? — Arthur resmungou.

Leia já tinha o visto antes, da janela da sua casa. O homem com chapéu panamá. Ele estava há menos de cinquenta metros, debaixo de uma árvore frondosa. A jaqueta, a forma como se apoiava numa perna só, as mãos na cintura... Leia não podia acreditar. Era como um fantasma. Mas Leia não acreditava em fantasmas, e aquele homem ali não podia ser alucinação.

Aparentemente, o homem percebeu que estava sendo observado pelas cinco pessoas e rapidamente virou as costas para sair do cemitério. Foi nesse momento que Leia entregou sua bolsa para Rey e desceu dos saltos, iniciando uma corrida atrás daquele homem.

— Leia!

— Mãe!

— Quem era aquele homem? — Poe perguntou.

Ben não ficou ali para refletir sobre a identidade do sujeito. Ele também saiu correndo, mas atrás da mãe. Esta que corria por entre as lápides até acessar a rua central dentro do cemitério e seguir o homem, da qual chegava cada vez mais perto.

Os outros também correram. Poe na frente, Rey mais atrás e Arthur na retaguarda, falando um xingamento atrás do outro.

Poe e Rey estavam de fato impressionados com a velocidade com que Leia corria. Mas Leia não fazia ioga e pilates três vezes na semana, hidroginástica duas vezes por semana, e corria na esteira todos os dias por uma hora, para fazer corpo mole. Não ia deixar um sujeito como aquele escapar. Ela podia não ser mais tão ágil do que quando tinha dezenove anos, mas também não era uma velha gagá. Ben só ainda não a tinha alcançado pela vantagem de ela ter "aberto a largada", mas logo suas pernas longas a alcançariam.

— Mãe!

— Você aí! Parado! — Leia gritou para o homem. Ele, por sua vez, é que parecia bem mais cansado pela idade do que ela. Já tinha notado que era um velho. Mas era realmente quem ela estava pensando?

— Mãe, pare!

— Leia! — Poe continuava gritando logo atrás.

As pessoas que ainda estavam saindo do cemitério olhavam curiosas para o que estavam acontecendo.

— Vocês aí, detenham esse homem!

Ben havia finalmente a alcançado e puxava seu braço para que ela parasse, mas Leia estava resoluta e tentava a todo custo desvencilhar-se do filho.

— Solte-me!

— Mãe, por que você fez isso?!

O homem continua correndo, mas não contava com Amilyn Holdo perto do portão do cemitério. Ela colocou o pé no meio do caminho e ele tropeçou nele com tudo, batendo a cara no chão. Chapéu caindo longe.

Leia conseguiu se desvencilhar do filho depois de enchê-lo de tapas. Ela novamente correu, dessa vez mais contida e sentindo fisicamente os efeitos da adrenalina passando e ficando exausta.

— Você! — ela gritou.

O reverendo foi quem ajudou o homem caído a levantar-se. Ele estava todo sujo de terra e havia rasgado a calça num dos joelhos. Ele parecia ter finalmente cansado de fugir. Em todos os sentidos possíveis. Ficou ali parado, respirando forte, e incapaz de olhar para Leia diretamente.

— Olhe para mim — ela mandou. Ele não o fez. — Eu mandei você olhar para mim! Seja homem e olha na minha cara, Han Solo!

Nem o silêncio dos mortos foi mais pesado que o que se abateu sobre aquelas pessoas próximo à saída do cemitério, na viração do dia.

Poe estava de boca aberta, Leia o fuzilava com um olhar dardejante cheio de raiva, Rey estava confusa e chocada, e Arthur havia finalmente chegado com os sapatos de Leia, xingando e reclamando de Deus e o mundo.

E havia Ben.

Ali estava o seu fantasma, seu pai que o havia abandonado há quase duas décadas e que aparecia do nada no enterro de seu tio. Ele não sabia o que fazer, sentia-se prestes a ter uma crise de ansiedade das fortes. Seus punhos estavam cerrados e ele sentia tanta raiva, tanta mágoa, tanto ódio...

Ele empurrou quem estivesse na frente, ignorou os chamados suplicantes de Rey e acertou um soco na cara de Han Solo. Ele caiu no chão, com a mão na cara e a vazar sangue pelo nariz.

O pandemônio começou. Poe mais dois homens seguraram Ben, todos estavam gritando e ninguém se entendia. O reverendo pedia calma e outra pessoa chamava a polícia. Leia gritava com Han, Han gemia de dor, Rey gritava com Ben, Ben xingava e tentava de toda forma se soltar e bater de novo em Han Solo.

Arthur ainda segurava os sapatos e observava tudo.