Coruscant, meados de 2000.

Com a ajuda de uma lanterna, um homem encapuzado invadiu o escritório da gerência no último andar do edifício Mos Eisley, que funcionava, oficialmente, como uma produtora de eventos. Era um dos vários estabelecimentos onde a família Hutt lavava dinheiro.

A produtora funcionava somente no primeiro andar. O segundo andar era composto de um cassino clandestino, onde, todas as noites, dúzias de homens ricos acompanhados de belas mulheres apostavam seus milhões nas mesas, e outros azarados sem sorte faliam. O terceiro andar, e o mais divertido segundo os donos, funcionava um bordel de luxo, o antro de prostituição mais famoso na boca miúda de todo o estado e região, e visitado até por empresários do exterior.

O quarto e último andar, onde o encapuzado se encontrava, funcionava toda a questão administrativa do negócio. Aquela sala, inclusive, era de onde Jabba Hutt comandava seus sórdidos negócios, bem à margem da lei.

Mas àquela hora, o andar encontrava-se vazio. Não por acaso, aquele homem escolheu aquele dia e horário para invadir o escritório.

No momento, todos estavam no andar debaixo, no prostíbulo, onde acontecia uma festinha para lá de especial para Jabba, que aniversariava. Ele era um homem de excessos, em todos os sentidos. O invasor nem queria imaginar as coisas que estavam acontecendo lá embaixo.

Precisava ser rápido. Não tinha tempo a perder. Aquela sala só ficava vazia em dias de festa ou quando Jabba descia para inspecionar o cassino ou o prostíbulo. Ele não sabia quando haveria outra chance, ou se haveria.

Ele ascendeu apenas o abajur da mesa, e ligou o computador. Enquanto este ligava, ele tratou de mexer na gavetas e nas pastas sobre a mesa. Suspirou aliviado quando encontrou uma pasta específica, uma que levava seu nome. Guardou a pasta na mochila e correu para a estante. Agradeceu aos céus por quem quer que fosse pago por Jabba para gerenciar aquela papelada fosse tão organizado. Os livros da tesouraria estavam organizados em ordem alfabética.

Achava ultrapassado a insistência de Jabba de manter cópias físicas de tudo, mesmo depois que o computador entrou na moda. Mas achada a papelada, enfiou novamente as pastas dentro da mochila. Era a hora do computador. Seria o mais difícil, haja vista que não nasceu na era da informática e o trabalho que faria, na sua mente, era quase o de um hacker.

A CPU fazia barulho. Era um modelo antigo.

Pegou uma folha média de papel amassado do bolso e a desembrulhou. Uma lista de passos a fazer, nomes das coisas que tinha que deletar e o que fazer em caso de emergência.

O informante estava certo. Tudo estava lá, conforme indicado. Ele não estava tendo dificuldade quanto a isso.

Ele havia deletado apenas metade das coisas quando ouviu um barulho. Rapidamente apagou a luz do abajur e desligou o monitor do computador.

Tem alguém aí? — ouviu uma voz masculina. Era um dos seguranças.

Merda! — murmurou, saindo da cadeira e se escondendo embaixo da escrivaninha. Ajeitou a cadeira no lugar e puxou o cabo da CPU um segundo antes da porta abrir. Primeiro ele viu a sombra do homem projetada na parede, depois a luz ascendeu.

Estava mais parado que uma estátua, e nem chegava a respirar, com medo de fazer barulho.

O segurança chegou a dar um passo para dentro da sala, mas alguém chamou por ele.

Ei Rritho, o que está fazendo aí? O chefe está chamando todo mundo para o brinde — disse alguém.

Pensei ter ouvido alguma coisa.

Não tem ninguém aí, está todo mundo no puteiro.

Certo, eu já vou.

A luz foi apagada e o homem embaixo da mesa ficou em silêncio por ainda um minuto depois da porta ter sido fechada. Concentrou-se em ouvir os passos do tal Rritho se afastando, e quando enfim teve certeza de que estava em segurança de novo, ele deixou seu esconderijo.

Não havia mais tempo, pelo que ouviu, lá embaixo seria feito um brinde e todos que trabalham para Jabba foram convidados. Se sua intuição estiver certa, é o ponto mais esperado do aniversário, e depois, quem estivesse trabalhando naquela noite, deixaria a pequena folga proporcionada pela festinha e voltaria aos seus postos de trabalho.

Logo alguém voltaria para o escritório.

Sem muitas opções, o homem abriu a CPU, e tirou disco rígido o mais rápido que conseguiu. Jogou na mochila junto com o resto, conferiu a cena do crime mais uma vez, e escapou pela janela, onde fugiria pelas escadas de incêndio.

Tudo correu bem, conforme o planejado, mas a ampulheta foi virada. Era questão de tempo até descobrirem o que fizeram. Mas se tivesse sorte – e ele costumava ter –, quando isso acontecesse, ele já estaria longe o suficiente, e ninguém o encontraria.

Quando ele chegou a rodoviária, era quase meia-noite. Nesse ínterim, trocara o capuz por um boné. Andava rápido e olhava para os lados. Havia poucas pessoas esperando pelos expressos da madrugada e alguns funcionários, além de um mendigo bêbado cantando na calçada do outro lado da rua.

Ele caminhou normalmente, tentando não chamar atenção, e se escondendo das câmeras de segurança. Sentou-se num banco de madeira, com a pintura azul já desgastada, onde já estava sentado um outro homem, este moreno, da pele negra, dono de grandes olhos astutos e de um bigode charmoso.

Você demorou — ele disse.

Quase me pegaram — o que chegou respondeu.

Mas você conseguiu?

Bem, sim, mas...

Mas...?

Eu segui todas as suas instruções, mas eu quase fui pego quando tentei usar o computador e removi o disco rígido.

Eu disse que isso só deveria ser feito em último caso!

Foi a única opção!

Verificou pelo menos a presença de um HD externo?

Sim, não havia. Felizmente.

Esses caras são idiotas. Acabaram de perder tudo, todos os documentos, informações importantes de contabilidade, toda a parte administrativa deles, os segredos, tudo. — Abanou a cabeça em reprovação. — No futuro, as pessoas vão guardar suas coisas na internet mesmo, vai ser tudo on-line.

Como você tem tanta certeza?

Amigo, a internet está se tornando mais popular a cada dia. A rede mundial de computadores daqui há uns anos vai alcançar todo o globo. Já viu o que dá para fazer hoje em dia? Imagine daqui há um anos?

Eu não gosto dessas coisas... Essas máquinas um dia vão nos matar.

Você que ficou impressionado com isso depois de O Exterminador do Futuro — respondeu ele rindo. — Eu me lembro que você achava que o mundo ia acabar com a virada do milênio.

Dá para irmos logo com isso? Minha batata tá assando! Você tem certeza de que eles só usavam esse computador?

Sim, eu tenho. Absoluta. Você tirou a papelada física, certo?

Sim, é claro! Você trouxe tudo, não é?

O outro homem portava uma bolsa de alça a tiracolo, que o companheiro já havia notado. Dela pegou uma pasta de papelão vermelha e o entregou.

Você, oficialmente, não existe mais para eles. É como se não tivesse nem nascido, bem, ao menos que eles queiram ir a um cartório, pedir uma cópia da certidão, mas não farão isso.

Eu não nasci em Coruscant — respondeu conferindo tudo.

Eu sei.

Eu tenho que destruir tudo e estarei livre deles, não é?

Não totalmente, eles só não têm mais meios físicos de te ligarem a eles, ou de terem com o que fazer chantagens. E o que você os devia já foi pago, pode conferir.

É, mas eu irritei o Jabba. E ele quer minha cabeça por isso. — Resmungou em seguida: — É muita audácia dele mandar aquele capanga de merda atrás de mim.

Bom, mas como eu disse, nessa parte você está livre. Não é como se roubando o disco rígido, você tenha se apagado da memória deles.

Eu sei, eu sei. É por isso que estou dando o fora.

Mas e sua família? — Ele fechou a pasta. Encarou a rodovia antes de olhar para o homem ao seu lado. Aquele era o assunto delicado. — Ele não sabe da sua família, não é?

Sim, ele não sabe, mas pode descobrir — respondeu sério. — É por eles que eu tenho que fugir, Lando, eu não quero que ele use meu filho e minha mulher para me atingir. Quando ele souber que eu tive coragem de abandoná-los por supostamente temer mais a ele do que qualquer outra coisa, ele vai achar que eu não voltarei se tentar usá-los para me ameaçar e os deixará em paz.

Eu acho que você confia demais no seu julgamento sobre o Jabba, Han, um criminoso não é confiável.

Lando, eu conheço o Jabba. Ele vai ver no que estará se metendo assim que descobrir quem é minha esposa, a sua família, e quem são seus amigos. É melhor para ele me esquecer.

Ainda não acredito que uma mulher como Leia tenha se casado com alguém como você. Quando ela descobrir... Vai ficar decepcionada.

Han abaixou a cabeça. Ele estava ciente do que aconteceria, de como os decepcionaria, mas era muito diferente ele saber isso na sua cabeça, e outra pessoa falar. Lando estava certo. Ela não o perdoaria por isso, nem seu filho.

Seu filho... Com o rancor de Leia conseguiria sobreviver, mas e o de Ben? Deitar a cabeça no travesseiro todas as noites enquanto imagina em todas as coisas ruins que ele pensará sobre o pai, na mágoa, na tristeza... Ele andava tão arredio ultimamente, tão rebelde... Ben pioraria depois que ele fugisse, tinha certeza. Balançou a cabeça, tentando focar no que era mais importante no momento.

Não importa. Eu não vou deixar nem um rastro, é o que importa. Eu confio em Leia para proteger-se e proteger o Benny se qualquer coisa que acontecer. Ela tem Luke também. Vai dar tudo certo.

Assim espero, até porque, o seu sucesso nessa empreitada é o meu também — Lando respondeu. — Eles vão saber que fui eu que te passei as informações. E é por isso que amanhã mesmo eu já vou estar bem longe, em algum fim de mundo desse planeta.

Han se levantou. Guardou a pasta que Lando lhe trouxe na mochila e estendeu a mão para ele.

Boa sorte, então, Lando.

Boa sorte, Solo. — Apertou a mão dele.

Cada um foi embora da rodoviária numa direção diferente. Han andou por várias ruas, completamente sozinho na alta madrugada. Examinou um beco, numa via velha e escura. Estudou se era seguro entrar, se não havia algum vadio ali escondido usando drogas. Não havia nada, só lixo e baratas e ratos.

Entrou. Colocou a mochila no chão e abriu um dos bolsos menores, tirando um vidro de álcool etílico e um isqueiro. Tirou as pastas da bolsa, e o disco rígido do computador. Da pasta que Lando lhe entregou, tirou os documentos falsos e o dinheiro e guardou na mochila. O resto, organizou numa pilha com os outros papéis.

Mas antes de abrir o tubo de álcool e despejar sobre a pilha, ele mudou de ideia e retirou o disco rígido, guardando-o. Tinha um pressentimento de que deveria guardar aquilo, afinal, possuía informações preciosas. Tocou fogo no resto e esperou até que tudo se tornasse cinzas.

[...]

Han entrou com cuidado para não fazer barulho. Um pequeno abajur aceso era o único ponto de luz em meio à escuridão do quarto. Não esperava encontrá-la acordada, mas não foi totalmente uma surpresa. Leia tinha problemas com insônia desde que a mocidade.

Chegou tarde — ela disse, fechando o livro que estava lendo e pondo-o na mesinha de cabeceira, ao lado do abajur, junto com os óculos de leitura.

Desculpe-me, querida. Sabe como eu e Chewie nem vemos o tempo passar quando estamos jogando. — Ele sorriu, começando a tirar a camisa.

Sim, eu sei. Por que não se deita? — ela sorriu, sugestiva.

Ele entendeu a sugestão em seu olhar e sorriu de volta. Tirou os sapatos e engatinhou na cama até ela, beijando-a. Num movimento rápido, Leia o empurrou e inverteu as posições, ele se deixou levar. Deitado, ele fechou os olhos e deixou que ela tirasse o resto de sua roupa, deliciando-se com seus beijos e carícias ousadas.

[...]

Eram quase quatro horas da manhã quando Han entrou no quarto de Ben. Pegou a cadeira da escrivaninha e sentou-se ao lado da cama, e lá ficou por um tempo, observando o filho dormir, memorizando cada detalhe do seu rosto. Chegou a chorar, mas não foi um choro demorado, ele tinha pressa. As lágrimas teriam que ficar para outra hora.

Levantou-se, devolveu a cadeira ao seu lugar e afagou a cabeça do adolescente. Sussurrou que o amava e rezou para Ben escutasse em seus sonhos. O rapaz chegou a se mexer, mas só se virou na cama e continuou dormindo. Ainda se demorou mais um pouco na porta, antes de fechá-la, mas já estava amanhecendo e ele não podia mais se demorar.

A mala o esperava no corredor. Mas antes de finalmente partir, ele foi até o escritório e deixou um bilhete. Do álbum de fotografias, pegou uma foto de Leia e outra de Ben, e as levou consigo.

Fugiu pelo portão dos fundos. Caminhou algumas quadras até que encontrou um velho cabriolé com a capota fechada estacionado na rua. Um sujeito bastante alto, barbudo e de cabelos castanhos e longos deixou o veículo e pegou sua mala, sem dizer nada, e a guardou no porta-bagagens.

Obrigado, Chewie — Han disse ao fechar a porta, colocando o cinto de segurança. — Eu nunca vou poder retribuir.

Já lhe disse que não tem que agradecer nada — respondeu o homem de voz grossa e carregada de sotaque. Ele girou a chave de ignição e começou a dirigir. — Tem um barco esperando você quando chegar ao litoral. Lando te passou todas as instruções?

Sim, estou ciente. — Fez uma pausa. — Chewie, você sabe que eles vão te fazer perguntas, não é?

Eu não me preocupo com isso. Sei muito bem o que vou dizer e fazer, caso me procurem. O problema não é o Jabba, é a Leia. Ela vai mover Céus e Terra para te achar. Ela vai me torturar que nem nas ditaduras, tenho certeza — brincou.

Mas não vai me encontrar — rebateu.

Claro que não, porque eu e Lando te ajudamos. Se fosse só você, nada disso daria certo, você é burro.

A conversa seguiu. Chewbacca tentava animar Han, mas não adiantava muito. Depois de horas de viagem, eles atravessaram o estado, evitando as rodovias principais e cuidando se eram seguidos. Quase ao meio-dia, chegavam ao litoral de Scarif. Chewbacca abraçou Han com força.

Então, isso é um adeus? — Chewbacca perguntou, com lágrimas nos olhos. Han sorriu. Apesar da aparência, Chewie é um coração mole.

Eu acho que sim, meu amigo.

Han esticou o braço, para tocar o seu ombro. Chewie chorou mais um pouco, lutando para enxugar as lágrimas com as mãos grandes.

E para onde você vai?

Chewie, é melhor você não saber de nada. Para o seu próprio bem e o meu.

Eu entendo, mas...

Não vou manter nem um tipo de contato, nunca — redarguiu, adivinhando o que ele diria. — Nem uma carta, nem um e-mail.

Mesmo sendo necessário, não era fácil dizer aquilo. Chewie pelo menos estava tendo a oportunidade de se despedir dele, sua família, por outro lado, acordaria com a surpresa.

Então... Adeus.

Adeus.

Coruscant, dezembro de 2015.

— Você teve sorte de terem o segurado logo.

Han Solo suspirou e gemeu em seguida. Até suspirar doía. Tinha um tufo grande de algodão enfiado dentro de uma das narinas que ajudou a conter o sangramento; também estava todo sujo de terra de cemitério, com a calça rasgada onde ele ralou o joelho, havia perdido seu chapéu favorito e ainda estava cheio de raladuras no rosto por causa da queda. Segundo Amilyn Holdo, o nariz não parecia quebrado, mas se o sangramento persistisse por mais de vinte minutos, ele teria que ir ao pronto-socorro.

Depois de anos ensaiando um reencontro e já esperando por uma recepção péssima, o que ele não esperava era levar um soco no meio da cara do próprio filho. Em extremos, esperava isso de Leia, na verdade. Não que achasse que Ben fosse lhe receber de braços abertos, porém, ele esperava bem mais frieza da parte dele, não uma atitude tão enérgica. O que lhe doeu bastante, após certa reflexão; saber que ficou tanto tempo longe de sua prole que não a reconhecia mais. Ainda assim, ele havia merecido o murro que levou e sabia disso. Sentia-se até um pouco esquisito de estar orgulhoso de Ben por ele ser tão bom numa de direita.

Holdo aproximou-se dele de novo. Ele não se sentiu muito confortável em ser socorrido logo pela mulher que colocou o pé no meio do caminho para ele cair, mas não estava em posição de reclamar. Ela tirou o algodão devagar e mostrou para ele um spray nasal.

— Meu nariz está sangrando e não congestionado.

— Isso tem cloridato de oximetazolina e vai ajudar o sangramento a parar de vez. Se você voltar a sangrar, então terá que ir no médico imediatamente.

— Você já disse isso — reclamou, inclinando a cabeça para trás.

— Não inclina a cabeça desse jeito! — mandou, pegando a cabeça dele e colocando para frente.

— Uma hora você disse que parou de sangrar, outra hora diz que pode voltar, que tipo de médica é você?

— Cardiologista.

— Então tá.

— Agora tente assoar o nariz. Não me olha com essa cara, é melhor fazer o que estou mandando.

Han tentou, doeu como o inferno, mas isso ajudou a sair o resto de sangue que estava dentro do nariz. Holdo limpou e depois aplicou o spray. Deu a ele um novo algodão limpo.

— Você trata seus pacientes assim também? — Han perguntou em tom de deboche.

— Tento ser a pessoa mais gentil e paciente de todas, mas às vezes eu tenho que ser bastante dura, principalmente com os mais teimosos.

Han deu e ombros e colocou o tufo de algodão na narina de novo. Nesse ínterim, mais uma pessoa se aproximou dos dois. Leia achegou-se com cautela. Continuava descalça, seus pés estavam sujos e recusava-se a se calçar, seu cabelo estava amarrado num rabo-de-cavalo baixo, não usava mais o blazer que vestia no momento do enterro, ficando de vestido. Amilyn foi a primeira a reparar na sua aproximação e pediu licença.

Han tirou o tufo do nariz quando ela parou bem na sua frente. A tensão presente naquela sala era enorme agora e Han sentia o peso dos dezesseis, quase dezessete anos agora, de afastamento.

Ela havia envelhecido, como ele, mas continuava bonita. Tinha ganhado peso e rugas com a idade, mas sua postura continuava tão ou mais elegante como no passado. Não sabia o que todos esses anos fizeram com ela, mas com certeza ela havia mudado e estava mais madura, experiente. Talvez ela guardasse ressentimentos, e ela não seria uma anormal por causa disso. Ele entendia e aceitava todo a raiva e mágoa que ela sentia dele. Ele foi o culpado e, portanto, ele merece. Mas uma coisa ele não podia ignorar, pela forma como seu coração bate agora com esse reencontro.

Ele ainda a ama. Todos esses anos, e tudo o que aconteceu, nem mesmo a distância, foi capaz de diminuir ou mesmo apagar o seu amor. Foi o amor que o fez ir embora, e foi o amor que o fez voltar. Sabia que tanto ela quanto Ben jamais entenderiam, mas ele fez o que achou necessário.

Ele sentia-se exposto com o jeito que Leia o encara, e também desconfortável. Como ele deve tê-la feito sofrer... Han se considera o mais miserável homem de todo o mundo. Leia não merecia, mas que escolha ele tinha?

Ela ainda não tinha dito nada e ele idem. Aquele silêncio era sufocante demais, era como estar dentro de uma panela de pressão que a qualquer momento pode explodir. Não fazia ideia do que dizer e acabou escolhendo o pior para falar:

— Ainda correndo atrás de mim, hein Leia? — sorriu. Seu sorriso logo esvaneceu quando viu que ela não achou graça.

— É isso que você tem a dizer? — inquiriu. — Depois desses anos todos, é isso que você me diz?

Se ela já estava irada antes, Han sabia que tinha a deixado com mais raiva ainda. "Parabéns, você é um idiota!", pensou ele.

— Leia, eu só estou tentando deixar o clima mais leve.

— Então pode parar. Eu te proíbo de tentar fazer qualquer gracinha, senão eu mesma termino de quebrar o seu nariz.

— Eu não acho que isso seja uma boa ideia, já estamos todos numa delegacia e você ainda me ameaça...

— Já chega! — rangeu entredentes.

Han sentiu a garganta seca, viu-se desejando uma água gelada e um banho. Sabia que a sensação de incômodo não melhoraria, mas o incômodo físico pelo menos passaria. Mas ele estava preso naquela delegacia com o filho e a ex-mulher. Então ele se pegou pensando nisso, na situação conjugal deles dois. Eles ainda eram casados, já que ela não era viúva e nem eles tinham assinado o divórcio. Mas quem sabe Leia tenha procurado meios legais para oficializar seu estado civil após seu sumiço. Ela nunca usou o sobrenome dele, mesmo após casados, então não precisaria de novos documentos.

Han suspirou, e dessa vez falou sério:

— Eu sei que você tem todos os motivos do mundo para me odiar, e se esse for o caso, tudo bem, eu aceito. Não mereço perdão pelo que fiz a vocês. E eu acho que é isso que você quer, não é? Uma explicação. Eu só acho que agora não é uma boa hora...

— E quando será uma boa hora? Hein? — Seu tom era de raiva e ressentimento, com um toque de sarcasmo. — Daqui há uma hora, amanhã? Ou quem sabe você prefira esperar mais dezesseis anos?

— Leia...

— Você não tinha o direito de aparecer no enterro do meu irmão depois do que fez a nós.

— Luke também era meu amigo!

— Você me abandonou! Você abandonou seu filho, seu único filho! — Ele tentou replicar, mas antes que pudesse, Leia o interrompeu. — Aliás, temos que pôr uma vírgula aqui. Quem garante que Ben seja mesmo seu unigênito?

— Eu garanto!

— Ah, garante? E como quer que eu acredite em você, se fugiu e abandonou sua família? Você não é digno de nem um pingo de confiança, é um safado miserável que abandonou a mulher com um adolescente para cuidar — disse apontando o dedo no peito dele. — Sabe pelo que eu e meu filho tivemos que passar por sua causa?

— Eu...

— Não sabe! Porque você não estava aqui!

— Leia, me deixe falar, por favor.

— Não, não deixo! Não quero suas explicações agora, mas pode ter certeza que eu vou exigi-las mais tarde. Eu quero falar o que está entalado na minha garganta há mais uma década. Eu estou por aqui com essa merda. — Colocou a mão na vertical na frente garganta.

Ela sabia que se não falasse ia explodir, estava cansada, exausta, de ter que aguentar tudo pelo que passou e estava passando, e não ter a chance nem de demonstrar fraqueza. Ela não aguentava mais ser vinte e quatro horas por dia e sete dias na semana a Leia Organa que as pessoas idealizaram, colocaram num pedestal e que ela própria bancava o tempo todo, a da mulher forte e inabalável, que nunca abaixava a cabeça para nada nem ninguém ou permitia que uma situação adversa da vida tirasse sua fé e determinação, a mulher que todos deviam se inspirar, porque nada a derrubava, nada era forte o suficiente para fazê-la chorar ou pensar em desistir.

Pelos céus, Luke está morto! Ela acabou de enterrar seu irmão gêmeo que sucumbiu à uma doença de forma que ela não teve nem ao menos a chance de se preparar. Ela estava de luto ainda, mas tinha que estar ali, naquela delegacia, tendo que enfrentar o crápula que a largou com um filho.

— Por que você tinha que aparecer justo agora? — indagou. — Eu acabei de enterrar o meu irmão! Será que ninguém vê que eu tenho limites? Eu lutei, eu me levantei e fui à luta todos os dias depois que você foi embora por mim e pelo meu filho. Em todos esses anos, eu nunca recebi notícia nenhuma do seu paradeiro. Criei tantas teorias na minha cabeça e nem uma delas fazia sentido, sempre tinha uma peça do quebra-cabeça faltando... Cheguei a pensar que tinha outra mulher, outra família, nos últimos tempos, que estava morto há anos... — Ela fungou e limpou o nariz que escorria com a manga do vestido. — A única pessoa que não me abandonou, que ficou ao meu lado quando nem mesmo Ben podia estar, está enterrada há sete palmos do chão!

— Eu sinto muito...

— Você sente? Sente mesmo? — perguntou com ironia. — Você falou que Luke também era seu amigo, mas você também o abandonou. Quando você foi um covarde e foi embora, também o deixou para trás. Não se importou nem em nos dar uma explicação, uma pista, ou um bilhete mais decente. "Sinto muito, não posso ficar para o jantar", foi o que você escreveu. Era para ser engraçado? Porque na primeira vez que eu li eu achei que era uma piada.

— As coisas eram complicadas demais naquela época. Eu não podia envolver vocês nos meus problemas — disse Han.

— Han, nós éramos um casal! — refutou Leia, não acreditando que era sério o que ele tinha acabado de falar. — Se você estava com problemas, então deveria ter compartilhado comigo. Nós encontraríamos uma solução juntos. É isso que casais fazem. "Na alegria e na tristeza", esqueceu disso?

— Leia, se eu te contasse no que eu estava metido, você teria ficado contra mim!

— Isso é o que você pensa!

— Eu não tinha escolha. Não podia colocar a vida de vocês em risco!

— E sabe o que o seu abandono fez à cabeça do Ben? Como ele passou todos esses anos achando que você o abominava?!

— O sacrifício que eu fiz foi principalmente por ele! — Ela bufou quando ouviu a palavra "sacrifício". O nariz de Han voltou a sangrar, mas ele não se importou. — Se aqueles caras... — Calou-se assim que percebeu uma policial parando junto à porta. Ela havia sido atraída pelos gritos e então mandou que eles parassem de brigar e conversassem mais baixo.

— "Se aqueles caras" o quê? — Leia indagou. Mas Han manteve-se quieto, a policial ainda estava na outra sala. — Fala!

— Agora não!

— Ah não? — perguntou irônica.

— Por favor, Leia... Olha o meu estado. Eu preciso ir ao médico.

— Foda-se o seu nariz quebrado! — Han arregalou os olhos quando ela xingou. A última vez que viu Leia Organa xingando, eles eram jovens e haviam acabado de se conhecer. Por coincidência, na ocasião, o xingado por ela foi justamente ele. — Você foi embora, me abandonou com um adolescente, e acha que pode voltar simplesmente como se não tivesse nenhum tipo de responsabilidade?

— Eu não pretendia voltar assim, não era para você ter me visto...

— Cala a boca!

— Mas que caralho... — resmungou. Estranhamente, ele não conseguia mais sentir o nariz.

Entraram então, então, dois policiais. Um homem e uma mulher. O homem pediu que Leia se afastasse e deu voz de prisão para Han.

— O que está acontecendo? — Leia perguntou.

— O que eu fiz? — A pergunta era idiota, e retórica. Han não sabe o que lhe deu para perguntar. Ele sabia, afinal.

Tinha os punhos estendidos, por ordem da policial mulher, e ela colocou as algemas.

— Você está preso por contrabando e pelo assassinato de Greedo Rodian, em maio do ano dois mil. — ele disse.